Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017

325 - Pérolas e diamantes: sobre um monólogo de Chernobyl, pensando em Almaraz

 

 

 

Num livro de Svetlana Alexievich um homem foge do mundo para passar a viver no paraíso, onde não há pessoas, apenas animais. Pássaros e outros animais. Esqueceu-se da sua própria vida. Pensa que as pessoas são injustas porque o Senhor é imensamente paciente e misericordioso.

 

E porquê?, pergunta ele a si próprio e logo respondendo: “O homem não pode ser feliz. Não deve. O Senhor viu Adão solitário e deu-lhe Eva. Para a felicidade, não para o pecado. Mas o homem não consegue ser feliz. Eu, por exemplo, não gosto do crepúsculo. Desta transição, como agora… Da luz para a noite… Penso, mas não consigo compreender onde estive antes…”

 

Para ele, o homem é requintado só no mal, mas simples e acessível nas palavras cândidas do amor.

 

Depois de fugir do mundo, nos primeiros tempos vagueou pelas estações ferroviárias. Gostava delas porque estavam cheias de gente. Mas ele estava só.

 

Como carregava o pecado, foi para Chernobyl. Passou-lhe a ser indiferente viver ou não viver, pois a vida humana é como uma flor: “Desabrocha, mirra e acaba no fogo.”

 

Passou a gostar de pensar. Em Chernobyl pode-se morrer tanto do ataque de um animal como do frio. E também se pode morrer de pensar.

 

Por lá não se vê um ser humano em dezenas de quilómetros. Expulsa o Demónio pelo jejum e pela oração. O jejum é para a carne, a oração para a alma. Confessa que nunca se sente só. “Um crente não pode ser solitário.”

 

Passa pelas aldeias. Nos primeiros tempos encontrava massa, farinha, óleo vegetal e enlatados que as pessoas deixaram no momento das evacuações.

 

Agora procura os túmulos, pois as pessoas deixam comida e bebida aos mortos. “Mas eles não precisam disso…”

 

E não se ressentem com ele…

 

Apesar da radioatividade, nos campos cresce centeio selvagem e na floresta há bagas e cogumelos.

 

Ali, em Chernobyl, está à vontade. E lê muito. Por ali é fácil encontrar livros. Não se encontram jarros de barro, garfos ou colheres, mas livros arranjam-se sem dificuldade.

 

E lembra-se de algumas ideias que leu num de que não recorda o título nem o nome do autor. Mas memorizou a ideia: “O mal em si não é uma substância, mas a privação do bem, assim como a escuridão não é outra coisa senão a ausência da luz.”

 

Ali sozinho, pensa na morte. Passou a gostar de pensar e o silêncio favorece a preparação.

 

Um dia expulsou da escola uma loba com os seus dois filhos que lá viviam.

 

“Pergunta: Será verdadeiro o mundo consubstanciado na palavra? A palavra está entre o homem e a alma. Pois é…”

 

Sente mais próximo de si os pássaros, as árvores e as formigas. Dantes não conhecia tais sentimentos.

 

“O homem é aterrorizador… E estranho…”

 

Ali não lhe apetece matar ninguém. Arranjou uma cana de pesca e costuma ir pescar. Pois é…

 

Mas não dispara contra os animais.

 

O seu herói preferido é Mychkin que disse: “Como é possível ver uma árvore e não estar feliz?” Pois é…

 

Gosta de pensar. “Mas o homem queixa-se mais do que pensa…”

 

“Para que serve perscrutar o mal? O mal também não é a física!”

 

Tem medo do homem. Mas pretende sempre encontrá-lo. “Um bom homem. Pois é…”

 

Em Chernobyl ou vivem os bandidos, que se escondem, ou alguém como ele. Um mártir.

 

“O meu nome? Não tenho passaporte. A polícia levou-mo… Espancou-me: «Porque andas a vaguear?» «Não ando a vaguear; ando-me a arrepender.» Espancaram-me ainda mais. Bateram-me na cabeça… Escreva então: servo de Deus, Nikolai… Agora, um homem livre.”


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 22 de Janeiro de 2017

Na Abobeleira junto aos potes V

_JMF8062 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 21 de Janeiro de 2017

Na Abobeleira junto aos potes IV

_JMF8058 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

Na Abobeleira junto aos potes III

_JMF8033 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2017

Poema Infinito (338): a linguagem vagarosa dos corpos

 

 

 

Pelos objetos consigo perceber a linguagem dos artesãos. A música das suas mãos é quem modela os objetos. Quando se quebra o encanto, surgem os prodígios. Depois emergem os abismos, as máquinas inevitáveis, a multiplicação das nuvens e o demónio vestido de inocência. Percebem-se então as imagens e o idioma glorioso das chamas. Os inocentes não param de gritar. As imagens transformam-se em pessoas. As mãos gloriosas tudo percebem e tudo definem. E moldam. E destroem. Da destruição nasce o caos e do caos nasce a ordem. Compreende-se então o fogo. A força absoluta da nossa espécie. As pessoas convertem-se em imagens. Pintam-se então os cavaleiros luminosos montados em cavalos escarlates que vão para a guerra matar, roubar e violar. Deus observa. Depois do massacre distribuem-se as formas e a beleza pelos vencedores. E também os segredos. E os números e as suas razões, para que tudo seja perfeito. A alimentação é inebriante. O homem continua a oscilar entre o mal e o bem. É a sua maldição. Por isso fala de Deus e da sua uniformidade rítmica. Deus, com as suas mãos abençoadas, põe vida nas imagens e refaz as coisas e pastoreia as almas e distribui as auras pelos eleitos e pelas elites. Depois a gente fala entre si. As conversas vão e vêm. O medo é uma espécie de delírio, uma canção breve que muda as coisas de lugar e embebeda os sentimentos. O mundo está cheio de sopros. Discute-se as suas proporções, a meteorologia da música, a substância do fogo, o grito das estrelas. A noite está repleta de zonas saturadas. Abrimos as mãos. O amor está pendurado nos ramos nus da macieira. As crianças são personagens pintadas de branco. Ardem os retratos dentro das molduras. O seu fim está próximo. O escuro transfigura a noite. As montanhas transbordam de vento e chuva. As pinturas iluminadas exibem a anatomia das cores. Os olhos voltam a desarrumar tudo e a suspender as lágrimas. O verde combate o medo, o azul inebria os corpos, o vermelho abraça o perigo, o branco guarda as asas do anjo. A primavera parece mais ampliada. A fábula do mundo volta a ser reescrita. Uma linha luminosa de azul aproxima-se da nossa porta. Abre-se o bosque. Entram nele os animais. Alguém veste no céu os cometas. A pintura respira como se tivesse vida. A criação não passa de um poema esotérico. As mãos começam a fundir as raízes. As armas transformam-se em onomatopeias e as canções de glória ficam cheias de frio. As fábulas caminham com o cabelo ao vento, como se fossem fortes, jovens e belas. Ilusão, cada um toma a que quer. Escuta-se o rio e a sua soberana maneira de correr e desaguar. As suas águas guiam-se pela lua. Pousa agora a luz mais leve sobre a nudez dos nossos corpos. O desejo levanta as armas e exalta a força. O prazer brilha nos sítios próprios. A sua doçura é rude e acre. O hemisfério curva-se e enche-se de flores tatuadas. Pousa o silêncio sobre o tempo. A noite estremece. O esplêndido canto dos pássaros ilumina a humildade. A linguagem dos nossos corpos é pura, por isso atinge a delicadeza dos nenúfares. Amar é ressuscitar indefinidamente. Tem a forma incerta de um segredo exato. Sente-se cair o silêncio em forma de paixão. Sabe a sal a humidade da carne. A primavera primeiro cresceu e depois evaporou-se. A sua música ficou na tua língua. A nossa cama é feita de fetos e alimentada de loucura. Vamos… devagar, devagar, devagarinho, como quem ressuscita.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2017

Na Abobeleira junto aos potes II

_JMF7945 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

Na Abobeleira junto aos potes I

_JMF7880 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017

324 - Pérolas e diamantes: incarnar segundo as leis

 

 

 

Quando visitei pela primeira vez o museu Quai d’Orsay e observei um quadro de Vicent van Gogh senti-me como Po, o Panda do Kung Fu, quando entrou no átrio proibido onde está guardado o Rolo do Dragão, viu uma obra preciosa de pintura sacra e exclamou, com veneração, como não podia deixar de ser: “Nunca vi senão cópias desta pintura”, momento dignamente ascético e com uma referência à distinção da cópia e da cópia da cópia.

 

Reconheço que senti gozo e prazer, numa leitura freudiana, claro está. Isto fez-me lembrar a oposição entre os pelagianos (o pelagianismo foi um conceito teológico que negava o pecado original) e Agostinho de Hipona. Para os pelagianos, o gozo era em si mesmo uma coisa boa que podia ser mal usada, enquanto para Agostinho, o gozo era uma coisa má, mas que, no interior do casamento, podia ser bem usada.

 

Este mesmo dilema sentiram os militantes comunistas perante a atitude a tomar relativamente à “libertação sexual”, oscilando entre dois extremos: de um lado estavam os wilhelm-reichianos (pelagianos), que insistiam na capacidade libertadora da sexualidade livre e do outro situavam-se os marxistas-leninistas ascéticos (agostinianos), que zurziam na “sexualidade livre”, considerando-a como um fenómeno ilustrativo da decadência burguesa, tendo como propósito confundir o povo e desviar a sua energia dos objetivos revolucionários.

 

No fundo, um corpo limpo e roupas asseadas podem, apesar de tudo, esconder uma alma suja. Afinal o heroísmo e o erotismo podem fazer parte da perversão humana.

 

Em Gallipoli, Mustafa Kemal Ataturk disse às suas tropas: “Não vos dou ordem de lutar, dou-vos ordem de morrer. Enquanto morremos, outras tropas e outros comandantes poderão chegar e render-nos.”

 

Como diz Slavoj Zizek, o sacrifício do reagrupamento para a batalha decisiva “é a última tentação a que devemos resistir, a última máscara com que uma atitude não ética se disfarça como se fosse a própria ética”.

 

Marcuse bem nos avisou: “A liberdade é a condição da libertação”. Por outras palavras: “Se transformarmos a realidade tendo como objetivo realizarmos os nossos sonhos, sem transformarmos esses nossos sonhos, terminaremos, mais cedo ou mais tarde, por regressar à realidade anterior.”

 

Quando nos confrontam com as crianças que morrem de fome e nos dizem, por exemplo, que com o preço de dois cafés podemos salvar a vida de uma delas em África, a verdadeira mensagem é a de que pelo preço de duas bicas, cada um de nós pode continuar a levar a sua vida agradável e relativamente ignorante, não só livre de problemas de consciência, mas até consolado pela participação ativa na luta contra a fome.

 

No século IV, quando o cristianismo logrou impor-se como religião do Estado do Império Romano, Hilário, o bispo de Poitiers, avisou os seus congéneres: “O imperador não vos traz a liberdade pondo-vos na prisão, mas trata-vos com respeito no seu palácio e assim torna-vos seus escravos.”

 

E a radicalidade ainda torna as coisas mais complicadas. Durante a Revolução Cultural, os Guardas Vermelhos levaram tão a sério o apelo à auto-organização popular fora do enquadramento do Estado-Partido, que o Partido Comunista reagiu organizando os seus Guardas Escarlates, que pretendiam ser ainda mais vermelhos do que os Guardas Vermelhos, embora, evidentemente, ao serviço do Partido.

 

Em 2007, os órgãos de informação liberais do ocidente tiveram motivo para rir, pois a Administração dos Serviços Religiosos do Estado chinês publicou a “Ordenação Nº 5”, uma lei destinada a entrar em vigor no mês seguinte. O seu perfil abrangia “as medidas administrativas a tomar quanto à reencarnação de budas vivos no budismo tibetano”.

 

Alertava-se o povo para o facto deste “importante passo de institucionalização da administração da reencarnação”, definir os procedimentos a observar por quem pretenda reencarnar, ou seja, resumindo: proíbe-se os monges budistas de reencarnarem sem autorização do governo, pois ninguém, fora da China, pode exercer influência sobre o processo de encarnação, e apenas os mosteiros chineses podem solicitar as necessárias autorizações.

 

Afinal o comunismo ainda não desistiu de controlar tudo. E se já orienta o próprio capitalismo, só lhe falta mesmo dirigir a incarnação.

 

Deus que se cuide, pois os camaradas chineses já andam no seu encalce. 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 15 de Janeiro de 2017

Em Couto de Dornelas

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 167 - Cópi

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 14 de Janeiro de 2017

Na exposição em Vila Real

Cultura que une -Vila Real - 14 de maio 2016 148 -

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2017

Na conversa em Abobeleira

_JMF8023 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2017

Poema Infinito (337): semelhanças

 

 

Regressaste com o tempo, disfarçada de flor. Os nossos olhares encontraram-se no mesmo caminho de luz. Nem só o universo é infinito. Nem só Deus é eterno. Alguém se entretém com o barulho das estrelas. Nas nossas cabeças instalou-se o arco-íris. O nosso altar tem a profundidade do mar, o mesmo mistério e é revestido com o mesmo azul. As lágrimas de prazer são transparentes. Continuamos a acreditar no impossível, na ressuscitação da pomba da paz, na aura esvoaçante das andorinhas, na bonança das tempestades, na felicidade megalítica da chuva, no batismo dos anjos, no efeito purificador dos cataclismos, nos tsunamis do desejo, nos efeitos avassaladores da nossa união, nas aves que submergiram Houdini, nas mensagens que levantam o chão que pisamos, nos jogos poderosos da sedução, na alquimia rápida do vento que abana as árvores, na harmonia musical dos sexos e na inexplicável paixão dos seres humanos pela cumplicidade. Os nossos beijos possuem a mesma estrutura dominante das sonatas, a mesma adjetivação circunspecta, a mesma anunciação apocalíptica, a mesma febre de possessão. Entre nós e o amor existe uma ponte orvalhada de transcendência. Desafia-nos o caos. O nosso universo não possui centro, desconstrói-se com o tempo e expande-se dentro da mesma utopia que é outra forma de entropia. Por isso a alegria é contagiante. O tempo vibra dentro de nós como uma música de Miles Davis. As suas notas são feitas de fotões, possuem a mesma alucinação feérica, o mesmo espetro de som, a mesma estrutura rítmica das pétalas de um malmequer. As horas de espera voltam a ser rainhas. A sagração da fecundidade volta a ser realizada na primavera, os carros alegóricos são semelhantes, a sensualidade é escrita com os mesmos arabescos, até a alegria resulta do mesmo paganismo. Os sorrisos provocam os mesmos sulcos e produzem os mesmos diálogos. Já a eternidade perdeu um pouco do seu brilho, pois deriva da mesma incerteza divina. Os nossos corpos são como dois astros em rota de colisão. O desejo provoca outra forma de combustão. Amadurecem as searas verdejantes, a vontade de dançar é idêntica. O vento possui a mesma musicalidade de uma sinfonia. Os nossos gestos são bordados com a mesma fantasia. A primavera já restituiu à terra a acentuação simbólica das cores mais quentes. O azul do céu denuncia a anatomia dos amantes que se preparam para um frente a frente. Este ano a arte vai despontar nos ramos mais altos das árvores de fruto. Eu continuo a preferir o sabor a pavia, a sua quietude, a sua sedução multiplicativa, o seu inesperado caminho. Durante a tarde, as flores desfazem-se em luz, eu envolvo-me nos teus braços e finjo que adormeço. As tuas mãos fazem ressuscitar o tempo das mariposas e os heróis mais intrépidos dos livros de aventuras. As nossas bocas podem transformar-se num vício. O desejo contorna as suas curvas e inclina-se ao mesmo tempo que a nossas cabeças. Aprendemos tudo isso observando um quadro de Gustav Klimt. Os nossos beijos são como colibris aguardando pela liberdade, a sua sedução está envolta na mesma semântica, possui o mesmo tempo verbal, a mesma gramática amorosa. As frases escaldantes conseguem atingir a mesma profundidade dos símbolos, possuem o mesmo significado esotérico, a mesma coragem poética. Damos as mãos quando atingimos o zénite. Fazemos parte da mesma equação impetuosa. Os arco-íris que nos saem da cabeça são capazes de incendiar estrelas. 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2017

Observando o gado na Feira dos Santos

_JMD8350 - Cópia (2).JPG

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

Na ponte em Paris

_JMD0908 - Cópia.jpg

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

323 - Pérolas e diamantes: a fé é o que nos mata

 

 

Depois de ter estado em alguns eventos culturais atrapalhadamente como escritor convidado, o que muito me honra, sinto que existe por ali a pairar a ideia de que se espera que os autores tenham uma vocação ou monástica ou uma aptidão estapafúrdica.

 

Agora fala-se muito de autores, quase como se fossem animadores de feiras da vacuidade ou pilares sustentáveis de estratégias políticas ou, ainda mais arriscado, promotores altruístas de entidades financeiras, de muito dinheiro mas de baixo quilate.

 

Por exemplo, a mim nunca me verão a posar nu na capa de um livro, como o badalado e consagrado Walter Hugo Mãe. Eu leio e sei o que interessa em literatura.

 

Émile Zola escreveu que o crítico de verdade fala nos livros e que o idiota fala dos autores.

 

Vivemos num tempo em que a tecnologia e o desenvolvimento da ciência nos permite ver documentários intermináveis sobre a vida animal recomendados pelos canais especializados. Neles deleitamo-nos em observar um mundo utópico no qual não existe a necessidade de aprendizagem e muito menos de linguagem. Todos sabem muito bem o papel que lhes compete, ou aquele que lhes calha em sorte. Afinal, o homem é um animal desnaturado. O pecado mora ali ao lado, na pirâmide zoológica.

 

Gérard Wajcman fala-nos da razão porque inventamos a literatura. Com vossa licença, passo a citar: “O mundo animal realizou o sonho humano do sexo sem história nem história – ao passo que nós, pelo nosso lado, inventámos a literatura, precisamente para contarmos os nossos amores em que nada acontece que não sejam histórias e história…”

 

Chesterton, como é seu timbre e feitio, acerta na mouche.

 

O homem é um ser muito estranho. Além de outras debilidades provocadas pela inteligência, é o único animal abalado pela loucura a que chamamos riso, como se possuísse a fórmula, ou o segredo, de como o universo se gerou.

 

É ainda o único animal a sentir a necessidade de afastar o pensamento que possui das realidades básicas do seu próprio ser corporal e de esconder a possibilidade de sentir o mistério da vergonha.

 

Mas de uma coisa podemos estar cientes. O retrocesso civilizacional é possível.

 

Os romanos, na véspera da queda do Império Romano, estavam tão certos como nós nos sentimos hoje de que o mundo persistia continuamente sem alterações substanciais. Enganaram-se. É avisado da nossa parte não repetirmos a sua indulgência.

 

 

Temos de aprender com a história, se não ela não vale para nada. Nem sequer para nos divertirmos.

 

Acho interessantíssima a ideia de Maria Teresa Horta, utilizada em Anunciações, da hipótese de Maria se ter apaixonado pelo Anjo. Em vez de matar o mensageiro, o que era habitual, o recetor da mensagem apaixonou-se por ele e daí resulta a história mais fantástica, e impregnada de fé, da Bíblia.

 

O Livro, e o Verbo, engendraram a sua própria alucinação. E no feminino. A religião, a ser alguma coisa de transcendente, é isso mesmo: alucinação premonitória.

 

Seja verdade ou não, e basta ler Slavoj Zizek para nos certificarmos disso mesmo, os ideólogos da doutrina costumam defender que a religião é capaz de fazer com que pessoas, que de outra forma seriam más, sejam capazes de praticar o bem.

 

Mas se nos lembrarmos da experiência recente, temos de admitir como boa a tese de Steve Weinberg, segundo a qual, embora sem religião, as pessoas boas continuam a fazer coisas boas e as pessoas más coisas más.

 

No entanto, só a religião é capaz de levar pessoas boas a fazer coisas más.

 

De certa forma tanto faz que Deus exista ou não.

 

Se Deus não existe, tudo depende de nós e por isso temos de nos preocupar o tempo todo. Se Deus existe e espreita a todo o momento aquilo que fazemos, não podemos deixar de estar ansiosos e preocupados o tempo todo.

 

Sem ironia nem com Deus, nem com Walter Hugo Mãe, nem comigo próprio e muito menos com Maria Teresa Horta, considero que Lacan tem razão: os teólogos são os verdadeiros ateus.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 8 de Janeiro de 2017

Couto de Dornelas V

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 158 - Cópi

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 7 de Janeiro de 2017

Couto de Dornelas IV

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 125 - Cópi

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2017

Couto de Dornelas III

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 116 - Cópi

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017

Poema Infinito (336): o limiar da realidade

 

 

A leveza do tempo salva o sabor da claridade. A última palavra do dia amanhecerá obsequiosa. O teu sorriso fresco atravessa a minha boca de forma aromática. Anda um fauno submerso pela floresta. O seu corpo é vermelho, o seu esplendor é estéril, a sua queda é interminável. Sonhar é cada vez mais difícil. O limiar da realidade é a primeira forma que surge no jardim. As laranjas estão ainda verdes, por vezes sugerem seios solares. Aves sombrias percorrem os céus e os nomes. A nudez, por turnos, é uma forma de abolição do desejo. A duração do amor é redonda, a sua lentidão é clara, a sua paixão sossegada. Seguimos a orientação da bondade. A casa exibe a sua arquitetura branca, a tranquilidade das suas coordenadas, a sua horizontalidade ondulada, a sua alma iluminada pela permanência. O vento espalha as sílabas que murcharam, as cores desbotadas do arco-íris, as porosas linhas dos planos e dos abismos. O universo tem um peso bruto oblíquo, sente-se ainda o odor das chamas. Barcos cheios de vozes navegam para longe, persegue-os uma brancura súbita. Cai uma chuva lenta sobre os bancos de basalto. Aves esvoaçam em redor de um vórtice. O mar exibe a magnificência da sua juventude. O vazio desafia o vento, os eclipses e o presságio das distâncias. As crianças desenham as ovelhas que pastam junto às árvores. As sereias aprenderam a eloquência da flor miosótis, os seus sexos escondem os seus sonhos. Os seus desejos apagam as estrelas. A imaginação esconde-se no silêncio. Sou uma espécie de testemunha ausente. As palavras mais lentas inclinam-se sobre a luz das lâmpadas, a minha figura oscila. Os deuses iluminam a fragilidade do teu olhar. Todos os meus gestos estão possuídos por uma geometria letal. Quando olhamos para trás invertemos a perspetiva. A nossa identidade é ilusória. Reconheço o apocalipse pelos fragmentos que apanho do chão. As palavras da criação desviam-se do seu eixo primordial. O lume de deus é frágil, as suas fronteiras são silenciosas, a sua certeza é ilusória. As palavras das orações hesitam quando entram no espaço de ninguém. A solidão e o medo são territórios comuns. O caminho conduz ao grande rio. As palavras coincidem com a sua substância real. É fértil a evidência dos campos, o corpo que se partilha, as vogais mais vivas, os rostos que reconhecemos, a melodia da glória, o pólen dos girassóis, a presença atual do desejo. O universo segue a ordem do seu caos, a escadaria da noite, o signo dos ventos, a verticalidade das estrelas, o anonimato das pedras, a oscilação das línguas e a identidade rugosa das montanhas. O desejo perde a sua sombra e fica pálido. O fogo arde em silêncio. Observamos as imagens do mundo, o volume sinuoso do tempo, a lenta coesão dos campos, a mudez dos olhares, as asas fosforescentes dos anjos, as folhagens que disfarçam os corpos, as horas mais frágeis, as minúsculas pegadas dos pardais, a frágil permanência das casas velhas, a extensão fértil dos afetos, a distância irrisória das pétalas das flores, os gestos virtuais, o segredo incomunicável dos caminhos, a urgência alta da paixão, a dispersão da noite, a indiferença do anonimato, a identidade flutuante dos templos, as coordenadas da solidão, a floração unânime do prazer, a glória profanada da liberdade, a imagem mecânica da fascinação, o volume impactante da nudez, o quotidiano arco do tempo, a grávida vontade de viver, o léxico das palavras definidas pelo amor. Espalha-se o pudor pelas páginas. A sede vive dentro do desejo.  


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2017

Couto de Dornelas II

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 106 - Cópi

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 3 de Janeiro de 2017

Couto de Dornelas I

São Sebastião Couto de Dornelas 2015 095 - Cópi

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2017

322 - Pérolas e diamantes: o drama e o humor

 

 

Hoje, porque estou de mau humor, vou aproveitá-lo para vos contar duas histórias que li em dois livros de teor bem dramático, onde se relata o sofrimento e a coragem numa escrita pungente e desarmante, despida de salamaleques e jogos florais: Vozes de Chernobyl – História de um desastre nuclear, de Svetlana Alexievich e O Pavilhão dos Cancerosos, de Alexandre Soljenitsin.

 

No livro de Svetlana, Arkadi Fílin, um liquidador intimado a ser voluntário à força para ir limpar as terras contaminadas de Chernobyl, relata um conto de Leoníd Andréiev, onde um habitante de Jerusalém, cuja casa ficava no caminho pelo qual Jesus Cristo foi levado e, por isso, ouviu e viu tudo o que lhe aconteceu. Mas naquele dia doía-lhe muito um dente.

 

Mesmo assim viu Jesus cair sob o peso da cruz que carregava, viu-o levantar-se, andar e cair de novo, ouviu-o gemer e andar de joelhos. Observou aquilo tudo, mas o dente continuava a doer-lhe. Nesse dia não correu pela rua fora atrás do Nazareno.

 

Três dias depois, quando já lhe tinha passado a dor de dentes, contaram-lhe sobre a ressurreição de Cristo. Nesse momento pensou: “Pois, eu até podia ter sido uma testemunha desse facto, mas doía-me o dente”.

 

Não sei bem qual a razão, mas talvez porque a razão tem por vezes coisas que nem a própria razão compreende, esta pequena estória lembrou-me a estapafúrdica frase do inenarrável economista, católico ferrenho e fundamentalista, João César das Neves, com que aspira virar o feitiço contra o próprio feiticeiro, afirmando que “os revolucionários pretendem usar o Papa como arma de arremesso…”

 

Estamos em crer que nem o mesmíssimo Diabo, se é que existe, e a existir talvez tenha encarnado momentaneamente neste reacionário inconsequente, era capaz de tal dislate alucinatório.

 

JCN é, muito provavelmente, descendente espiritual do tal senhor que, por causa da dor de dentes, não teve a honra e o privilégio de assistir à ressurreição de Jesus Cristo.

 

A estória de Soljenitsin é de origem muçulmana, mas é boa na mesma, por muito que isso possa custar ao JCN. Possui mesmo um ligeiro travo amargurado de humor.

 

Alá, na sua infinita sabedoria, deu a todos os animais cinquenta anos de vida, pois considerava que era tempo suficiente. Mas o homem, talvez um dos primogénitos do tal senhor que era atacado por dor de dentes no momento dos milagres, chegou atrasado e foi o último da fila a receber a benesse. Alá apenas possuía um bilhete com 25 anos.

 

“Apenas 25 anos”, lamentou-se o homem. “Exatamente”, respondeu-lhe Alá. O homem começou a lamuriar-se como se lhe doessem os dentes todos: “Mas não chega, é pouco tempo de vida”. “Chega”, insistiu Alá na sua imensa sabedoria. “Não, não chega”, insistiu o homem. Então Alá aconselhou-o: “Vai perguntar por aí, pois talvez alguns dos outros animais tenham tempo de sobra e te cedam algum.”

 

O homem, como bom banqueiro ou avisado economista, assim fez. Encontrou um burro e disse-lhe: “Escuta, a minha vida é muito curta, peço-te, por isso, que me dês alguns anos da tua.” E o burro assim fez, deu-lhe metade dos anos da sua vida. Burro uma vez, burro para sempre.

 

Um pouco mais à frente encontrou um cão e repetiu-lhe o pedido. O cão, porque já pensava vir a ser o melhor amigo do homem, respondeu-lhe que sim senhor e o presenteava com 25 anos da sua vida.

 

Já vinha de volta ter com Alá para lhe relatar o sucedido quando se deparou com um macaco. “Para macaco, macaco e meio”, pensou e pediu-lhe também mais 25 anos. O macaco, como não era avarento e gostava de repartir as dádivas de Deus, respondeu-lhe: “Está bem, fica lá com 25 anitos. E seja tudo pela graça de Alá que é grande e misericordioso.”

 

Entusiasmado, chegou junto do Criador e deu-lhe conta do sucedido. Então Alá respondeu-lhe: “Já que assim o quiseste, viverás os primeiros 25 anos como um homem, trabalharás os segundos 25 como um burro, ganirás os terceiros 25 anos como um cão e nos últimos 25 farás rir as pessoas como um macaco.”


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito (1)
|
Domingo, 1 de Janeiro de 2017

Na exposição V

Cultura que une -Vila Real - 14 de maio 2016 144 -

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 31 de Dezembro de 2016

Na exposição IV

Cultura que une -Vila Real - 14 de maio 2016 132 -

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2016

Na exposição III

Cultura que une -Vila Real - 14 de maio 2016 130 -

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2016

Poema Infinito (335): o olhar triste do mensageiro

 

 

Subo pela frente do monte, entre as fontes pardas. Lá em baixo, o prado dilui-se no olival. Sinto o embaraço do pó no meu rosto suado. As mãos ardem-me. Este não é ainda o fim do caminho. Alguém me perde de vista. Encontro-te sempre dentro de mim, mesmo quando estou sozinho. Continuo a confundir o amanhecer com os anjos. A aflição da sua luz é a mesma. A noite anterior desfolhou indiferentemente as árvores e as fantasias. Os vários regressos à casa abandonada são sempre invulgares. As crianças mexem-se nos sonhos como se posassem para uma fotografia. As noites crescem à medida que envelhecemos. Por vezes ficam enormes. Nelas dormem os cães e repousam as pedras. Costumo agora lavar o medo dos meus pés. Depois sento-me à entrada. Apercebo-me que tenho a boca cansada e dorida das palavras que não consegui dizer. Apesar da paisagem que avisto ser suave, não provoca desejo. Passa por nós o infinito. O tempo fica indiferente. O vento assalta as muralhas do castelo. Caem gotas de chuva sobre as velhas pedras. Os bichos vêm saber de nós. Movemo-nos através de leves equilíbrios. Por vezes as horas afastam-se de nós como se fossem pássaros com as asas em ferida. Sentimos a desilusão a tomar conta do nosso corpo. O sol fica forte como os gestos. A nostalgia é redonda e mansa e gosta de sonhar com unicórnios. Um incêndio toma conta das tapeçarias. Lá fora, um céu de chuva começa a cobrir a paisagem. Os homens mais crédulos ainda esperam pelos sonhos nas curvas dos caminhos. Dizem os nomes uns dos outros e depois deixam as palavras morrer. São tão mansos como os animais que domesticam. Fazem sofrer Deus de impaciência. As suas mãos encontram sempre o sexo fechado. A intimidade fere-os. Gostam de andar pelos caminhos já percorridos. O mensageiro de olhar triste voltou da cidade mudo, como se fosse um vulto que se desfaz a cada pergunta. As manhãs surgem depois das noites angustiadas. Ouvem-se ainda alguns gritos vagarosos. Os corpos femininos abrem-se como se fossem rosas confusas. Algo se agita no meio das folhas verdes. Surgem então uns joelhos e depois umas coxas esbeltas. As pernas cedem ao desejo. Sinto as veias como se fossem ramos de árvores. As horas ficam mais graves. O silêncio transforma-se em sombra. Sinto-me como uma nuvem rodeada de longes. Aprendi a amar as horas noturnas, aprendi a sentir o espaço e a lonjura das lendas. Aprendi a ler os sentimentos nas velhíssimas cartas de família. Aprendi a tristeza a ouvir-me respirar. A compreensão limita o mundo e torna-nos mais desassossegados. As emoções ajudam-nos a encontrar as nossas asas perdidas no momento da criação. O tempo fica mais abrupto. As horas inclinam-se por causa do seu fulgor metálico. Expiamos os dias, uns a seguir aos outros. Compreendo agora os sorrisos enigmáticos da minha mãe. Tudo soa de uma maneira diferente. Afoga-se a saudade na incerteza do seu rosto. Fixei-me na leitura dos livros mais estranhos. As suas palavras ficam nubladas, mais longínquas, como se tivessem fobia à incerteza. A tua mão faz-me reconhecer o princípio da gravidade. Sinto-me como um camponês a deixar correr o tempo como se ele não existisse. Os pomares velhos também não perdem a primavera. A dor e o prazer já vêm de longe. Vejo pousar a luz mais singela no centro dos teus olhos. São eles que me iluminam o caminho. Evoco a eternidade das casas. Sobre elas descansa o céu mais estrelado.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2016

Na exposição II

Cultura que une -Vila Real - 14 de maio 2016 105 -

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 27 de Dezembro de 2016

Na exposição I

Cultura que une -Vila Real - 14 de maio 2016 075 -

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2016

321 - Pérolas e diamantes: a política e o diabo ou o diabo da política

 

 

Um ditado atribuído a Konrad Adenauer diz que “não se deita fora a água suja enquanto não se tiver água limpa”. Mas estou em crer que preservá-la depois de se ter água limpa ali mesmo à mão de semear é teimosia desnecessária.

 

Svetlana Alexievich conta que os tajiques de Kulob matavam os de Pamir e os tajiques de Pamir matavam os de Kulob. Depois juntavam-se na praça a gritar e a rezar. Intrigada, perguntou aos anciãos a razão de tal desvario. Afinal, protestavam contra quem? Responderam: “Contra o parlamento. Disseram-nos que é um homem muito mau, o parlamento.” Depois a praça ficou deserta e começaram a disparar.

 

Isto passou-se lá para o Leste. Mas por aqui a desgraça pode vir a ser a mesma. Os números, esses ingratos, dizem que os cidadãos estão cada vez mais afastados da política. E à medida que a idade desce, esse desinteresse aumenta. Um em cada quatro jovens não quer, pura e simplesmente, saber de política.

 

As pessoas estão afastadas dos políticos que os têm representado desde sempre. Qualquer dia também por cá o parlamento vai passar a ser conhecido como um senhor muito mau.

 

Uma coisa é evidente: existe pouca, ou nenhuma, reflexão política sobre como devemos enquadrar os jovens.

 

Por enquanto, os jovens não são despolitizados, não estão é interessados na política dominante. Daí as vitórias surpreendentes do Syriza, na Grécia, ou do Movimento 5 Estrelas, em Itália.

 

O triunfo de Berlusconi, Beppe Grillo e Trump representa a espetacularização da política. Boaventura Sousa Santos considera que tudo isso se fica a dever ao facto de a ideologia ter sido substituída por uma sociedade mediática.

 

Os cidadãos deixaram de acreditar nos partidos, na sua capacidade de conseguirem resolver os problemas concretos das pessoas. O politólogo Carlos Jalali defende que “não existe um alheamento da política”. Há, isso sim, “um alheamento das elites políticas” que resulta “de uma insatisfação com as opções partidárias e uma descrença com as políticas públicas”.

 

Depois lá está o dinheiro. Para o economista ultracatólico João Cesar das Neves, “os portugueses nascem convencidos de que todos os seus males se devem aos políticos ou aos ricos, em especial aos banqueiros. (…) Nunca podemos esquecer que vivem da boa vontade dos seus eleitores ou clientes.”

 

Talvez por conhecer os fariseus que conspurcam o Templo, o Papa Francisco veio pôr os pontos nos is: “O maior inimigo da Igreja é o dinheiro. (…) Santo Inácio ensina-nos: a riqueza começa a corromper a alma; depois é a vaidade – as bolas de sabão, com uma vida vaidosa, a aparência, a boa figura… Por fim, a soberba e o orgulho. Daqui derivam todos os pecados.”

 

O líder parlamentar do PS, Carlos César, vai em busca do Tentador disfarçado de dirigente partidário. Para ele é Passos Coelho, pois “parece tomado pelo diabo e não há exorcista, ou candidato a exorcista, seja ele Luís Montenegro, Santana Lopes ou Rui Rio, que lhe explique que não pode atacar toda a gente, (…) só porque o país está melhor.”

 

É caso para dizer, quem não quer ser mafarrico não lhe deve vestir a pele. O cronista João Pereira Coutinho avisa a navegação à vista do PSD: “Se esta semana ensinou alguma coisa a Passos Coelho foi a não fazer oposição com profecias. Até porque esperar que o diabo apareça é não conhecer as manhas do mafarrico.”

 

O ministro-adjunto Eduardo Cabrita veio porém evidenciar que talvez esteja possuído por alguma alma transviada, pois decidiu desresponsabilizar todos os autarcas das decisões financeiras que tomam. As eleições autárquicas estão aí à porta e por isso convém evitar alguns danos colaterais. 

 

Existe ainda uma outra elite que também tem a sua cota parte de responsabilidade na gestão da coisa pública. Estou a referir-me ao meio literário português; pois quase todo ele se alimenta da proximidade ao poder. Não podemos esquecer que um dos seus mais legítimos representantes foi até secretário de Estado do governo de PPC. Para bem da sua alma, ainda se arrependeu a tempo. O Padre Fontes deve tê-lo exorcizado.

 

O crítico e escritor João Pedro George, autor da biografia do ex-primeiro-ministro Mota Pinto, conhece bem as celebridades. Em entrevista referiu que uma das idiossincrasias do nosso meio literário é aceitar com grande dificuldade a crítica frontal, confundindo-a com maledicência, que não é o seu caso, “pois a maledicência é feita nas costas” e o João diz as coisas na frente. “É um meio profundamente hipócrita” – sublinha –, “pois à boca pequena dizem pessimamente uns dos outros e, depois, quando se ligam os microfones e os holofotes, são todos maravilhosos”.

 

Rentes de Carvalho, até porque está radicado lá fora, escreveu que “na Holanda vive-se sem necessidade de pedir favores, meter cunhas, pagar luvas. (…) Portugal dói-me. Outras vezes envergonha-me, enraivece-me, faz-me desesperar”.

 

Quem nos avisa nosso amigo é.

 

Também a mim me deu a mesma vontade de Hillary Clinton, de se “enrolar no sofá com um bom livro e nunca mais sair de casa”. 

 

Coitado do Obama. Que a melanina o não confunda.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 25 de Dezembro de 2016

Sorrisos

montalegre+matança abobeleira 2014 266 - Cópia.j

 


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Janeiro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9


24
25
26
27
28

29
30
31


.posts recentes

. 325 - Pérolas e diamantes...

. Na Abobeleira junto aos p...

. Na Abobeleira junto aos p...

. Na Abobeleira junto aos p...

. Poema Infinito (338): a l...

. Na Abobeleira junto aos p...

. Na Abobeleira junto aos p...

. 324 - Pérolas e diamantes...

. Em Couto de Dornelas

. Na exposição em Vila Real

. Na conversa em Abobeleira

. Poema Infinito (337): sem...

. Observando o gado na Feir...

. Na ponte em Paris

. 323 - Pérolas e diamantes...

. Couto de Dornelas V

. Couto de Dornelas IV

. Couto de Dornelas III

. Poema Infinito (336): o l...

. Couto de Dornelas II

. Couto de Dornelas I

. 322 - Pérolas e diamantes...

. Na exposição V

. Na exposição IV

. Na exposição III

. Poema Infinito (335): o o...

. Na exposição II

. Na exposição I

. 321 - Pérolas e diamantes...

. Sorrisos

. Sorrisos

. Sorriso

. Poema Infinito (334): bem...

. Exibindo a realeza

. Olhares

. 320 - Pérolas e diamantes...

. Axel e Marina no S. João ...

. Em Segirei

. Lumbudus em Segirei (III)

. Poema Infinito (333): a i...

. Lumbudus em Segirei (II)

. Lumbudus em Segirei...

. 319 - Pérolas e diamantes...

. Ruínas do Interior

. Paisagem barrosã

. No Interior

. Poema Infinito (332): a p...

. Lameiro no Barroso

. Amanhando a terra

. 318 - Pérolas e diamantes...

.arquivos

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.tags

. todas as tags

.Visitas

.A Li(n)gar