
O polvo, a feijoada, o pão, o vinho, a amizade, o convívio e a chuva. A felicidade é pouco mais do que isto.

O jovem S. Sebastião acariciado por duas devotas. Ao fundo, S. Miguel conforma-se com a sua sorte eterna...

Uma senhora, e a sua sombra, meditam, sob a vigilância de S. Miguel Arcanjo, o seu elmo e a sua espada... Paz, senhor anjo arcanjo, paz....

Um senhor entra no templo à procura do seu santo favorito...

Um beijo sentido à Senhora do coração fora do peito e trespassado por punhais...

Lanço os meus olhos ao mar com pena de os molhar...

Alô, alô, Deus, onde é que tu estás?

A paciência das oliveiras é enorme. E eu que tenho tão pouca...

Vamos virar à esquerda e caras a Bragança...

Quilómetro a quilómetro enchem as petrolíferas o papo...

“Tudo o que existe passa por aqui. Aqui, pelo porto de Nápoles. Não há manufactura, tecido, peça de plástico, brinquedo, martelo, sapato, chave de parafusos, cavilha, jogo de vídeo, casaco, calças, broca, relógio, que não passe pelo porto. O porto de Nápoles é uma ferida. Grande. Ponto final das viagens intermináveis das mercadorias. Os barcos chegam, introduzem-se no golfo aproximando-se da doca como as crias das mamas, só que não têm de mamar, mas, pelo contrário, ser mungidas. O porto de Nápoles é um buraco no mapa-mundo donde sai o que foi produzido na China, no Extremo Oriente, como os cronistas ainda se divertem a defini-lo. Extremo. Muito longínquo. Quase inimaginável. Fechando os olhos aparecem quimonos, a barba de Marco Polo e um pé no ar de Bruce Lee.”
(...) “Estás a ver aqueles? São eles que mandam realmente. São eles que decidem tudo! Há aqueles que comandam as palavras e aqueles que comandam as coisas. Deves perceber quem comanda as coisas e fingir acreditar em quem comanda as palavras. Mas tens de saber sempre a verdade no teu corpo. Só comanda verdadeiramente quem comandada as coisas.”
(…) “O professor Iannomoto e a mulher. Não os tinham cumprimentado e eles não tinham ousado oferecer-lhes a refeição. Mas tinham-lhes oferecido, através de um empregado, uma garrafa de limonada, um camorrista sabe que também deve cuidar dos inimigos leais dado que são sempre mais preciosos do que os escondidos. Quando queria dar um exemplo negativo o meu pai apontava-me o professor Iannomoto.
(…) À escala internacional, a kalashnikov fez aquilo que os clãs de Secondigliano fizeram ao nível local, liberalizando de maneira total a cocaína e permitindo que qualquer um se torne narcotraficante, consumidor, vendedor a retalho, libertando o mercado da mera mediação criminosa e hierárquica. Da mesma maneira, a kalashnikov permitiu que todos possam tornar-se soldados, mesmo crianças e raparigas franzinas: e transformou em generais do quadro do exército pessoas que não conseguiriam conduzir uma vara de dez porcos. Comprar metralhadoras, disparar, consumir pessoas e coisas, e voltar a comprar. O resto é apenas pormenor. O rosto de Kalashnikov está sereno em todas as fotografias. Com a testa angulosa eslava e os olhos de mongol que ao envelhecer se tornam cada vez mais subtis aberturas. Dorme o sono dos justos. Vai para cama talvez não feliz, mas sereno, as pantufas debaixo da cama, em ordem; mesmo quando está sério tem os lábios em arco como o rosto de Palla di Lardo em Full Metal Jacket. Sorriem os lábios, mas não o rosto.”
(…) Os institutos de pesquisa económica internacionais fornecem continuadamente dados. Produzem-nos como carne quotidiana para os jornais, as revistas, os partidos políticos. O célebre índice «big mac», por exemplo, que considera tanto mais florescente um país quanto mais cara é a sandes nos McDonald’s. Por sua vez, para avaliar o estado dos direitos humanos os analistas observam o preço a que é vendida a kalashnikov. Quanto mais barata é a metralhadora, mais os direitos humanos são violados, o Estado de direito está gangrenado, a ossatura dos equilíbrios sociais está podre e em desagregação.”
Gomorra – Roberto Saviano – Caderno

À espera dos músicos. É sempre o mesmo fado.

Arde a matéria no pavor da linguagem. Ouvem-se vozes brancas cheias de palavras impossíveis. Enquanto eu paro sobre a madrugada tu avanças usando palavras plenas de paixão. Ferve o amor no silêncio acarinhado pelas tuas mãos. Existe uma desordem geográfica no teu sorriso. Só agora se vê a geografia circular dos violoncelos. A solidão das paisagens começa num livro triste. As imagens sobrenaturais cobrem as paredes de giz. Os desertos lembram despedidas lentas. O meu coração nunca mais dorme. Tu moves as mãos como se fossem pássaros. A noite apoia-se na sua própria escuridão. Os nossos corpos apoiam-se em flores atadas. Uma vagina viva expõe-se a todas as deslocações. O amor apoia-se no seu próprio deslumbramento. Tu ferves no meu extremo. O amor é a solidão de um espaço preenchido. O dia começa a expandir-se duplicando-se para trás. O teu rosto treme olhando as estátuas de sal. Não há cidades pecadoras. Nas cidades sobram os espelhos, as portas e os retratos vazios. As portas vigiam a desolação dos mendigos. Tudo serve de inspiração para as frases desesperadas das mães. Uns dias trocados pelos outros servem de pretexto para a duplicação do tempo. Alguém que conhece Deus tenta iludir a morte. Mas nenhum corpo se salva.

E vamos ao polvo que já se faz tarde...

Mais outra volta por acolá...

Mais uma volta por aqui...

Uma visita ao correeiro...

A observação de Cristo (III)

A observação de Cristo (II)

A observação de Cristo (I)

Axel e as ondas...

Nova curva, desta vez à direita e... caras a Bragança... Aiô... Silver... a galope... avante à direita, caras à curva, desta vez aiô...

Ao meio os pastos para os cavalos... Aiô... Silver avante... camarada... avante...

Curva à esquerda, prego a fundo e vai, vai, vai...

«Oh, vá lá queridinha», disse ele. «Nós não estamos a ficar mais novos e…
«Fala por ti», disse a tia Joan. Não estava bem-disposta. Eva contara-lhe que Maude, a irmã da tia Joan, tinha decidido tornar-se lésbica e que estava agora a viver com um homossexual que fizera uma operação de mudança de sexo. Não era o género de novidade que lhe apetecesse ouvir. Ter Wally em cima de si também não era o que queria. Havia mulheres que por muito menos davam em lésbicas.
«Eu estou a falar por mim», disse Wally. «Sou a única pessoa por quem posso falar. Tu não tens uma porcaria de uma próstata, pois não, e se tens nunca ouvi aquele Dr. Hellster a quem vou em Atlanta falar dela. O que ele me diz é que eu tenho de me manter activo, senão…»
«Manter-te activo? Tu já não tens nada que possas manter no activo. Pelo menos que eu tenha reparado ultimamente. De certeza que não a deixaste na casa de banho, juntamente com o teu chinó? Isso é como pedir a uma lesma que se despache.»
«Pois está bem», retorquiu o Tio Wally, que nitidamente ignorava com dificuldade aquela comparação. «Mas olha que é pouco provável que o consiga manter em acção se tu não me deres preliminares.
«Preliminares? Achas que é a mulher que tem de fazer os preliminares? Se achas isso estás a falar com a mulher errada. Tu é que supostamente tens de te preocupar com os preliminares. Com a língua e isso.»
«Foda-se!», exclamou o Tio Wally. «Com a tua idade ainda queres que me ponha a tocar a velha harmónica de boca? Que vá soprar no balão? Merda. Não são horas para te pores com tretas dessas.»
«Bom, também não são horas para me pedires sexo oral.»
«Eu não estava a falar de sexo oral. A última vez que fizeste isso deve ter sido por volta da altura do escândalo de Watergate.»
«Pelo menos era a isso que sabia», retorquiu a tia Joan. Após mais alguma discussão ela concordou em recostar-se para trás e fingir que o Tio Wally era o Arnold Schwarzenegger encharcado em barbitúricos, ou algo que justificasse a sua lentidão.
«Só me estou a atrasar porque não consigo encontrar a dita», disse Wally. «Isto é como descer Oak Creek Canyon numa noite chuvosa sem lanterna. De certeza que ainda tens ratinha? Aquele cirurgião não te terá tirado tudo quando te fez aquela histeroctomia?»
Wilt em Parte Incerta – Tom Sharp – Teorema

Inicio este passeio com a impressão serena de que a seguir à luz do dia vem a luz da noite...

Subo o rio numa barca à procura da nascente com a memória fixa no teu sexo. É bom mergulhar pensando em ti. E banhar-me em ti adivinhando o amor passado sentindo os peixes fazendo-me cócegas nos pés. Todo o meu coração se alvoroça. Lembro-me de uma rapariga sozinha numa ilha durante o estio suave. Uma rapariga macia como a Primavera banhada em lágrimas de prazer. Lembro-me das suas curvas doces, do seu olhar intenso, do calmo mar dos seus olhos. Das suas mãos secretas. Da doçura dos seus lábios. O rosto da minha amada é um fluxo frágil de água fresca. Escuto em silêncio os espíritos da chuva. Na erva dançam as faces das mulheres navegantes. O seu espírito antigo levanta-se como as flores das montanhas onde a neve derrete e a água ecoa na virgindade sonolenta do amor. É azul toda a manhã quando faço amor contigo. E as estrelas também são azuis. E o teu sexo. Um sexo azul é uma ideia de poesia. Toda a água é um prazer feminino. E o azul é uma cor feminina. A juventude também é azul. E o céu ficou azul quando Eva soube que estava nua. Eva sentiu-se nua quando olhou para a metade da maçã e se contemplou ao espelho. Eva gritou nua o prazer de se sentir nua e se reflectir na metade cortada da maça. Uma maçã nua é uma mulher preparada para o amor. Deitada na água da nascente abres o teu sexo enquanto a água fecha os olhos e eu me meto em ti.

Vários homens, alguns guarda-chuvas, um burro e quatro potros...

Quatro homens, um cavalo e uma cabeça...

Duas senhoras rezam, uma medita e uma abre a boca enquanto o Sol ilumina e aquece os seus corações...
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