99 – Tanta teimosia só podia definir um destino: o calabouço. E foi para lá que o nosso estimado herói foi enviado, com alguns dentes partidos, várias escoriações no rosto e distintos hematomas no lombo. Fora isso, a sua vontade continuava bem viva. A sua vontade, a sua atitude, o seu pensamento e a sua determinação.
Uma vez contestatário, contestatário para sempre. Honra lhe seja feita. Pois existem aqueles homens que contestam muito no início mas esmorecem logo a seguir. O José não. O José é vinho de outra pipa. O José é um herói à maneira antiga. Herói uma vez, herói para sempre. Honra lhe seja feita. Pois existem muitos heróis que são heróis mal chegam à história, mas desistem logo passadas algumas páginas porque ser herói dá muito trabalho. Especialmente ao autor. Mas que seja tudo pelas alminhas de todos os heróis que já existiram e, também, pelas alminhas de todos os outros que hão de existir daqui para o futuro.
O José continuava a viver entre almocinhos e jantarinhos fornecidos pela sua querida mãe, um que outro passeio devidamente escoltado pelos compinchas cevados com as iguarias da Dona Rosa, duas ou três cigarradas logo após o café e o bagaço, muita leitura e pouca escrita.
Podemos dizer que a situação e o cenário eram propícios a inspirar uma escrita assertiva, fogosa, denunciadora das múltiplas arbitrariedades praticadas pelo Estado Novo, acusadora da prepotência do sistema político, do poder judicial e da brutalidade do sistema repressivo levada a efeito pelas forças militares e militarizadas. Podia ainda, fruto da sua experiência, escrever sobre o evidente logro da mensagem cristã, ou, pelo menos, da aldrabice difundida pelos seus protagonistas – os tais que ocupam os altares e ensinam nos seminários –, podia descrever a decadência burguesa das supostas elites nevoenses, da sua emergente e eterna banalidade, da sua inenarrável estupidez e ignorância, podia ainda escrever sobre a sua experiência de vida entre o lumpen, sobre o seu convívio com putanheiros, putas, paneleiros, pintores, guardas e demais pimpões. Lá poder podia, mas o José era fiel à indolência e à dúvida metódica que carateriza os intelectuais.
Apesar deste caldo de cultura, deste manancial de informação, deste viveiro de saber, o José não conseguia escrever coisa que se visse. Pensava que ainda não tinha chegado o tempo certo para que as coisas lhe saíssem devidamente temperadas. A sua escrita evidenciava um desequilíbrio preocupante. Pelo menos para ele. Ou era claramente denunciadora, panfletária e repleta de azedume, ou, então, tendia para um romantismo bacoco e tão ingenuamente revolucionário que provocava enjoo e riso, qualificativos que não eram bem-vindos em tais andanças.
Por causa das vicissitudes, em vez de escrever, lia. Mas também não lia lá grande coisa. Os livros sobre marxismo, que alguns amigos lhe levavam ao calabouço disfarçados de romances de amor, davam-lhe uma soneira imensa e os que versavam sobre o leninismo, encadernados com capas de brochuras religiosas, provocavam-lhe enxaquecas terríveis. Para não esmorecer, começou a pedir à mãe que lhe levasse, às escondidas, claro está, revistas de banda desenhada e livros pequenos de cobois e romances de cordel.
Sem a mãe saber, os amigos presentearam-no, sobretudo nas noites dos fins de semana, que era a altura em que o posto estava quase deserto, com uma que outra meretriz mais atrevida. E se a comida confecionada pela mãe lhe chegava aos beiços pelo facto de ela encher o bandulho dos guardas que estavam de plantão, bem assim como o oficial de serviço, as meninas da vida apenas lhe puderam ser servidas porque atrás delas traziam o Embuçado, camuflado de tenente da GNR. Os amigos são para as ocasiões. Mesmo que essa amizade por vezes aparente uma outra coisa.
Pode até parecer mentira, mas o nosso estimado herói vivia agora uma vida dupla. Fazia que lia livros políticos, romances históricos e poesia moderna, super moderna, contemporânea ou experimentalista, para agradar aos seus amigos, que já o consideravam um resistente anti-fascista, mas o que de facto apreciava era ler BD, Sete Balas e romances cor-de-rosa.
Também recebia, a pedido da sua querida mãezinha, a visita de um padre que o confessava e lhe dava a eucaristia, e a quem dizia não pensar em mulheres, nem em nome delas se tocar. Afinal, como bem sabemos, recebia em segredo duas putas atrevidas que, a troco de algum dinheiro e de um ou outro poema erótico de baixa qualidade, que o José guardava para estas ocasiões, lhe entregavam o corpo como quem entrega a alma ao Criador.
As histórias que relatam a vida dos heróis na cadeia, heróis quase sempre vítimas da prepotência de algum sistema político ou de um tremendo erro judicial praticado por um malfeitor da pior espécie, introduzem sempre na cela do protagonista um animal. Um pequeno animal que serve para demonstrar, a quem lê ou vê um filme, que o herói é um homem de corpo inteiro, pois até o podem acusar de agitador, terrorista, assassino ou ladrão, mas quem domestica ratos, quem adota pardais, educa baratas ou ensina formigas, só pode ser um anjo. E um anjo muito, mas mesmo, muito bom, não um anjo apenas suficientemente bom, ou bom tout court.
Só que desta vez a história não se repete, ou não se repete dessa forma. Pois o calabouço do posto da GNR não tinha janeluco algum para o passarinho entrar e a mulher da limpeza desinfetava o posto com produtos tão tóxicos que eliminavam todas as formigas e baratas que tivessem o atrevimento de invadir as instalações das forças da ordem.
Mas sobra o rato, dirão os estimados leitores. Pois sobra, tenho de concordar. De facto sobra o tal ratinho que adora ser domesticado pelo herói prisioneiro, que lhe faz festinhas no pêlo branquinho, que lhe dá de comer suculentas migalhinhas de pão centeio e um que outro naco de queijinho que o citado herói, apesar de ser pouco aquele que lhe trazem, nunca se esquece de repartir com o seu ratinho companheiro de cela.
Mas nem o rato desta vez nos salva a história, nem sequer nos evidencia a coragem e a excelsa humanidade do José. Isto apesar de haver buracos na cela onde o José estava confinado. E é verdade que também havia queijinho, e do bom, e pãozinho centeio com fartura. Mas não havia rato. E não havia ratinho porque todo o quartel era patrulhado por um gato enorme que tinha tanto orgulho em ser a mascote do pessoal da GNR de Névoa que não brincava em serviço.
Podia o nosso amigo pegar no bicho, se recebesse a respetiva autorização, e pôr-se a ensiná-lo a usar botas, ou a falar. Mas nem o nosso herói é seguidista nem o autor é parvo. Ou mentiroso, sequer.
Por isso vamos ter de nos conformar com a situação. Além disso, esta também pode ser uma forma de demonstrar que um livro, apesar dos milhões que já se escreveram, pode ter uma pontinha de originalidade.
Pensarão os estimados leitores que presunção e água benta cada um toma a que quer. E estão no seu legítimo direito de assim pensar. Mas, por favor, não se esqueçam que o contrário também é verdadeiro. Apesar de o contrário ser um pensamento intrincado de definir. Mas também quem é que vos disse que a boa literatura é fácil?
Pensarão os estimados leitores novamente que presunção e água benta etc., e estão no seu legítimo direito, mas uma vez mais vos lembro que o contrário também pode ser verdadeiro. O que nos remete outra vez para o intrincado da mensagem. Por isso, fiquemo-nos por aqui. Ou aderem à tese da presunção ou ficam do meu lado. Se optarem pela segunda hipótese, agradeço-lhes desde já. Se optarem pela primeira premissa, amigos à mesma e que vos faça bom proveito. Mas lembro aos estimados leitores que se optarem pela primeira hipótese, que ela pode ser objeto da mesma argumentação pela minha parte, ou seja que presunção e água benta cada um toma a que quer. Resumindo e concluindo (já cá faltava o lugar comum), na leitura de um texto e na sua interpretação, cada um está por sua conta e risco. E é bom que assim seja. Avancemos.
A memória tem o odor inultrapassável dos alicerces de cada vida. Tem o toque da seiva lenta da árvore da juventude, o bordado meticuloso dos corpos virgens e nus, a vegetação mirabolante dos olhares, a respiração profunda do musgo dos muros, o toque frio dos tanques onde as mulheres lavavam a roupa, o grito das flores que chamavam pelas abelhas, o denso sabor da tua boca, a textura fina dos teus lábios, a luminosa água das fontes, a simplicidade interminável dos mapas que ilustravam as paredes brancas das escolas, o sabor espremido dos frutos que tanto sabiam a noite como a amanhecer. É essa dolorosa memória que me faz lembrar dos iridescentes berlindes com que jogávamos, dos tímidos jogos do botão, das rudes brincadeiras do trinca cevada, do espeto, do sábio trabalho de amassar o pão, do fogo da lareira, do mapa do tesouro escondido no rosto da minha avó, do interior da casa, do velhíssimo segredo dos castelos, do semblante marcado dos carvalhos, das manhãs cheias de neblina, das tardes inundadas de sol, das noites repletas de estrelas. Olhávamos o fogo e descobríamos os corpos dos espíritos que nos faziam companhia sentados ao nosso lado no escano. Agora o tempo atropelou tudo ao nosso redor. Por isso nos esquecemos dos objetos íntimos. Agora as palavras respiram num medo cada vez mais recente. E cada vez mais antigo. Agora viajámos sem rumo transgredindo o voo perpétuo das aves do silêncio. O ofício da memória rouba-nos a luminosidade do vagaroso olhar dos místicos. Por isso te atravesso sem me deter, tentando debelar a ruína e registar definitivamente a luz do teu olhar verde. Tento ainda perceber a exata voz das plantas, o naufrágio colorido dos astros, o rumor denso dos sonhos, o amor translúcido das montanhas, o tempo do trigo verde, a imediata paciência das paisagens, a invocação da chuva, o delírio das mãos dos amantes, a insónia das constelações, a direção dos solstícios, o consolo mortal do veneno das serpentes. O tempo ensinou-me o mágico ofício da escrita, o valor da obra, a persistência. O sol ensinou-me o caminho das pedras. Os rios ensinaram-me o regresso pelas margens. Agora conhecemos a solidão, a velocidade cruel do tempo, a indiferença crua de Deus, a inquietante sonolência dos humanos, a intensa revelação dos jardins da memória. Enquanto a madrugada cintila tudo parece continuar insensivelmente igual: a casa na sua quietude lunar, os espelhos submersos na penumbra da sua cada vez maior inutilidade, as cadeiras na sua eternidade sentada, as janelas a inventarem a sua necessidade de luz, o inverno a dilatar o frio, os corpos a ramificarem-se no seu inexorável envelhecimento. Sou cada vez mais um filho do delírio à procura do meu lugar para morrer.
O meu amigo R., sub-repticiamente, e mesmo antes que eu consiga começar a minha inevitável preleção, tenta estabelecer uma relação, que ele diz dialética (pudera!), entre o jazz e o marxismo. Eu lembro-lhe das tentativas falhadas de comparar o freudismo com o marxismo e da barraca que deu quando o verdadeiro marxismo (o leninismo) foi experimentado em diversos países. Ele põe cara de caso e atira-me com o argumento de que eu não acredito em nada, que contesto tudo, que até ponho o universo em causa. Digo-lhe que, por favor, não exagere. Explico-lhe que sou a modos como um cozinheiro que consegue, ou pelo menos tenta, transformar os sentimentos em sopas e as evidências em palavras. O que, convenhamos, nem sempre é fácil.
Ele, desviando o olhar e a conversa, lembra que cada vez mais Portugal cheira a tragédia. E a aventura e a extravagância. Eu contraponho que é tudo isso o que nos vai arrastar para o tédio. O tédio, e a estagnação, em que se transformou a nossa cidade. O que, inevitavelmente, nos irá arrastar para a extravagância e para o desespero. Isto se não conseguirmos deitar-lhe uma mão a tempo. Ou mesmo as duas, pois a nossa cidade bem necessitada está de uma barrela.
Ele mostra-me uma fotografia antiga e aponta-me o seu rosto no meio do grupo. Não o reconheço. De facto, as crianças nas fotografias são iguais umas às outras. Então vestidas de escuteiros são quase impossíveis de distinguir.
Ali onde o veem, o R. ensinou-me muita coisa. Foi sempre um homem de bastidores. Honra lhe seja feita. Uma vez atirou-me com esta: “Já algum dia viste as traseiras de uma tribuna? Agora que tens a mania de que queres dedicar-te à política, é bom que te vás familiarizando com as traseiras das tribunas antes de seres arrebanhado pelo frenesim do pedestal. É aí onde está o poder. Quem, como eu, já viu a parte de trás de uma tribuna, com olhos de ver, claro está, fica marcado, ou melhor, fica imunizado contra todo o género de bruxedo que, de uma forma ou de outra, é celebrado em tribunas. É muito semelhante com o que se vê das traseiras de um altar de igreja, mas isso são outras histórias.
Está bom de ver que o meu amigo R. é um cético que abandonou o seu partido porque nunca lhe deram a atenção que ele considerava merecer. E olhem que foi um militante ativo e responsável. Claro que era um homem iminentemente de bastidores, mas, de certa forma, um fazedor de estratégias vitoriosas.
No início apenas dedicava ao partido as manhãs de domingo. Enquanto os outros abalavam para a missa, o R. ia para a sede fazer aquilo que tinha de ser feito: telefonar, agrafar documentos, pôr a contabilidade em dia, receber cotas, agrupar colantes, limpar o pó às fotos dos dirigentes, tornar a telefonar, substituir bandeiras, agrafar mais documentos, organizar os dossiês com recortes dos jornais, fazer ainda mais alguns telefonemas, colocar em pastas os documentos agrafados, colocar o dossiês nas respetivas prateleiras e fazer os últimos telefonemas.
Nos seus anos de árdua militância aprendeu a acenar sempre que os outros lhe acenavam, berrar quando os outros berravam, especialmente em desfiles e comícios, rir e bater palmas quando os outros riam e batiam palmas. E a obedecer ao dirigente (ou dirigentes), concordar com o dirigente (ou dirigentes), e nunca discordar do dirigente (ou dirigentes), mesmo que ele (ou eles) estivesse (ou estivessem) longe da vista. Pois podiam estar longe da vista mas estavam sempre perto do coração. Nisso, o seu partido contrariava a sabedoria (e um que outro anexim) popular. Era a regra que confirmava a exceção.
O seu partido anunciava-lhe a felicidade. A felicidade tocada a ritmo de tambor e temperada com a melopeia do hino do partido. Mas acho que foi no tema da felicidade que a sua fé no partido começou a soçobrar. Ele procurava a felicidade no partido, ou com o partido, mas quedava apenas com o sabor da sua substituição. Disseram-lhe que a felicidade também pode ser de substituição. Disseram-lhe ainda mais: que a felicidade substitui a própria felicidade. E que essa é a felicidade sedimentada. Desistiu.
Fomos apanhar ar e tentar agarrar um pouco de sol. Passámos na Eira (antigo Jardim das Freiras) mas lá ninguém se conseguiu sentar porque os bancos estavam a ser utilizados, e vandalizados, por jovens que com os seus skates fazem deles rampas de lançamento ou plataformas de aterragem. O repuxo continuava a lembrar-nos, como se fosse preciso, que os dias estão cada vez mais húmidos. O R. não se conteve: “Quem destruiu o jardim merecia ser julgado em praça pública. Um atentado destes merecia ser severamente punido. Isto não se faz.” Eu tentei temporizar: “Lá chegará a hora dos flavienses porem essa gente no olho da rua.”
Eu ainda sugeri que nos sentássemos nos bancos da rua de Santo António. Ele apenas disse: “Cruz, credo! Trânsito pelas costas? Nem pensar. Os carros são como os touros, devemos lidá-los sempre de frente.”
Fomos até ao Tabolado, sentámo-nos, abrimos as pernas e pusemo-nos a olhar o Tâmega enquanto o sol nos batia em cheio no corpo. Mas, mesmo assim, aquilo era mais luz que calor. Pelos vistos, até o astro rei está em crise.
Ficámos sentados um bom bocado. Por isso nos começámos a sentir também de madeira e com necessidade de comunicar. Todos os que ali estavam eram gente idosa, dependentes das condições atmosféricas. Sobretudo as mulheres, voltaram a ser raparigas tagarelas. E os homens também fizeram questão em lembrar as suas brincadeiras de criança, quando corriam uns atrás dos outros, quando perseguiam os casais de namorados.
Eu olhei para o R. e o R., olhou para mim. De súbito tivemos saudades. Uma saudade imensa da nossa velha cidade, onde aos sábados e domingos os jardins se enchiam de casais de namorados, onde nos conhecíamos uns aos outros, onde o convívio era são e pacífico, onde a vida se sentia nas ruas, nos comércios, nos cafés, nas praças, nos jardins. Actualmente a cidade ao sábado e, especialmente, ao domingo é um deserto de pedra e um cemitério de memórias. Basta olhar para os flavienses mais idosos para repararmos como choram por dentro. Ninguém passeia nos jardins, enquanto a rapaziada grita e pula em trejeitos de ameaça. Os idosos são motivo de chacota, as tradições foram dizimadas, o respeito e a educação deram lugar à indiferença e à provocação.
O coração da nossa cidade morreu. Dizem por aí que os flavienses a tudo se acomodam, que tudo perdoam, que tudo lhes serve. Nós sabemos que não. Por isso acreditamos que urge castigar os responsáveis pelo assassinato do coração da nossa urbe. O crime não pode compensar.
98 – Como num popular filme clássico da cinematografia nacional, dali rumaram todos ao quartel da GNR devidamente escoltados. Uns foram libertados ainda antes de ser elaborado o respetivo auto, e a alguns outros, os mais desprotegidos pela família e pelo título, lavrou-se tudo o que tinha de se lavrar e da secretaria do inquisidor passaram de imediato aos calabouços.
Depois de tudo formalmente esclarecido, entre meias verdades, inverdades e mentiras descaradas, apenas o pintor e o aprendiz de poeta ficaram presos com culpa formada. Os detidos perguntaram, e bem, pelos outros, mas foram informados que unicamente foi apresentada queixa contra um pintor indisposto, por insultos seguidos de agressão física e uma outra contra um poeta mal afamado, por agressão física seguida de insultos.
“Estão vossas excelências na disponibilidade de apresentarem queixa contra mais alguém?”, provocaram-nos as autoridades graduadas. Mas os dois aprendizes de intelectuais podiam ser truculentos, inconvenientes e agitadores, mas, definitivamente, não eram delatores. Por isso responderam que, para os autos, nada tinham a declarar.
O pintor fartou-se de pintar para o comandante do posto de Névoa da GNR. Pintou o tenente Sampaio sentado com ar de imperador romano, retratou-o em pose militar aconchegando a espada de chefe legionário, pintou-o ainda como cavaleiro medieval, como bom pai de família, como caçador rodeado de dois galgos, apesar de apenas possuir dois esguios cães perdigueiros, e, como não podia deixar de ser, de benemérito com cara de Monsenhor Escrivá de Balaguer.
Pincelou mesmo a tela com os delicados traços da esposa delicada do senhor tenente em pose de delicada esposa do senhor tenente, pintou as suas rosadas filhas em pose de filhas rosadas em pose, evidenciando-lhes a imagem de flores com pétalas bem definidas e suculentas. Retratou ainda os pais do senhor tenente, os sogros do senhor tenente e ainda uma avó nonagenária do senhor tenente, que se mostrou tão apreciadora das qualidades artísticas do pintor que decretou, ela própria, a sua libertação. E sem mais delongas. Foi por essas e por outras, que até o delegado do ministério público e o juiz do processo viram os seus retratos plasmados em tela e óleo de lei.
E o nosso herói?, perguntarão, preocupados, os estimados leitores. Bem, o José também fez pela vida. Logo de início foi visitado pela mãe e pelos irmãos, que lhe fizeram uma festa. Ele retribuiu os sorrisos e os abraços e pôs-se a comer as iguarias que a Dona Rosa lhe levou na mesma pasta que utilizava para transportar as refeições ao guarda Ferreira quando estava de plantão no posto de Montalegre.
Esperta como era, a Dona Rosa levava sempre junto com a refeição para o filho, um petisco para o guarda de plantão e outro para o senhor sargento. Enquanto esperava que o filho terminasse a refeição, a Dona Rosa desabafava: “Porque escolheste o caminho da perdição, filho querido. Porquê? Eu, que te apontei sempre, mas sempre, sempre, sempre, o caminho de Deus, vejo-me na triste situação de te saber um dos chefes dos exércitos do Mafarrico. Porquê, José, porquê? Porque teimas em me infernizar a existência?”
O José, sorrindo constantemente, dava-lhe sempre a mesma resposta: “São inescrutáveis os caminhos do Senhor.” E a Dona Rosa: “O senhor tenente disse-me que está a tentar levar-te para o bom caminho. Faz o que te aconselha. Olha que ele, mesmo não parecendo, é uma boa alma.” E o José: “Perdoai-lhe Senhor porque ela não sabe o que diz.” E a Dona Rosa: “Disse-me que andas a escrever um livro de poemas religiosos. É verdade? Fico tão feliz que aproveites o teu talento para enalteceres a nossa religião.” E o José: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.” E a Dona Rosa: “Ai José, José, tu que podias um dia ser bispo, pois nunca te esqueças que falaste na minha barriga, deste em putanheiro.” E o José: “Deus escreve direito por linhas tortas.” E a Dona Rosa: “Não blasfemes. Graças a Deus muitas, graças com Deus nenhumas.”
Estavam mãe e filho nesta frutuosa dialéctica, quando, vindo do seu gabinete, surgiu o tenente Sampaio para os informar, pessoalmente, que o pintor tinha sido libertado por falta de provas conclusivas e por bom comportamento, e que o mesmo podia acontecer no dia seguinte ao José se cumprisse com o prometido, isto é, se entregasse o livro de poemas que garantiu escrevinhar para ser apresentado no Bodo aos Pobres anual, cerimónia que iria ser presidida pelo excelentíssimo Governador Civil e apadrinhada pelo reverendíssimo Bispo de Vila Real.
“O livro vai-me ser entregue logo à noitinha devidamente datilografado”, disse o José. E a Dona Rosa: “Deus te abençoe, meu filho. Tu és um eleito de Deus. Sinto-o. Sei-o desde que foste gerado. Sabe senhor tenente, o meu José falou na minha barriga. Ele já falava antes de aprender a falar. Isso só acontece com os eleitos por Deus…” “Ou pelo Diabo, Dona Rosa. Ou pelo Diabo”, lembrou sabiamente o tenente Sampaio. “Que Deus o oiça”, mangou o aprendiz de poeta.
Esta interessante conversa a três, ou talvez a quatro, se Deus se dignou a assistir, ou mesmo a cinco, se Belzebu tomou idêntica decisão, foi interrompida pelo guarda de plantão que, julgando que o calabouço estava apenas ocupado pelo preso e pela sua mãe, vinha entregar a panelinha que tinha servido de ataúde a um coelho estufado. Vendo o seu comandante em amena cavaqueira, fez a continência e pediu licença para introduzir o objeto dentro da pasta. Estava ele a depositar o tachinho quando apareceu, vindo do seu gabinete, o sargento que, também ele pasmado por aquela reunião imprevista, fez a continência ao seu comandante e pediu autorização para depositar na pasta a outra panelinha que tinha servido de esquife a um franguinho caseiro estufado.
Desta vez o tenente não resistiu a comentar: “Da próxima vez não se esqueça de mim. Olhe que eu também sou gente.” Ainda tais palavras não tinham sido pronunciadas até ao fim, já a Dona Rosa tinha na mão um embrulho constituído por salpicões, linguiças, sangueiras e chouriços de cabaça. Tudo aos pares. “Que lhe faça bom proveito, senhor tenente. É pouco mas é de boa vontade.”
O livro de poemas que o José escreveu foi editado com o título de “Mal Acompanhado”, seguido do subtítulo: “O livro mais solitário de Portugal”.
Foi na presença das forças vivas da cidade, do concelho, e da região, além, obviamente dos pobres a quem era especialmente destinado o afamado Bodo, que o José declamou o poema que, no seu polémico ponto de vista, se adequava mais à situação.
Chegada a sua vez, depois da verborreia do costume nestas situações, onde são useiros e vezeiros os políticos e os representantes oficias da igreja católica, o José aproximou-se do micro, pigarreou, para chamar a atenção dos distraídos, e declamou, para que conste, o seguinte poema, que sabiamente intitulou de “Perguntas ao Senhor”.
Senhor, em nome de todos os pobres espalhados pelo mundo, deixa que, na nossa humilde condição, te façamos algumas perguntas. / Porque nos deste a vida Senhor, se nos custa tanto vivê-la? Porque nos dás esta fome, se somos todos irmãos? / Enquanto uns comem até arrotarem, porque é que nós passamos fome? / Porquê senhor, porquê? / E porque é que também passamos sede, Senhor? / É que nós ainda gostamos de beber. / E, Senhor, porque é que os outros riem enquanto nós chorámos, Senhor? / E porque é que os outros nos desprezam enquanto nós os prezamos, Senhor? / Porque será, Senhor? Senhor, porque será? / Nós queremos ver-te Senhor, mas não conseguimos. Será que somos cegos, Senhor? / Nós queremos ouvir-te Senhor, mas não conseguimos. Será que somos moucos, Senhor? / Nós queremos falar-te Senhor, mas não conseguimos. Ou não nos deixam, Senhor. / Será que somos parvos, Senhor? Pois mudos parece-nos que não. / Ai Senhor, Senhor, talvez sejas “Nosso” Senhor, mas nosso amigo não és de certeza, Senhor!
O senhor Bispo por detrás da sua autoridade e do seu báculo com crucifixo dourado disse: “Alto lá com a litania. Isso raia a blasfémia.” O José, mesmo ali ao lado da sua coragem, contrapôs: “Nem tudo o que parece é!” O senhor Bispo, à frente do coro de puritanos e vítimas de outros enganos, ripostou: “Nem tudo o que é parece.” O José danado: “Inquisidor!” O senhor Bispo assanhado: “Herege.” O José encarniçado: “Filho da…”, mas não teve tempo de acabar o impropério, pois o tenente da GNR calou-o com a força de aço do punho da sua pistola de encontro à boca.
Às vezes imagino como é tremendo o poder da linguagem. Certos dias, penso na infelicidade do sono de Deus, nas suas mãos perfurando peixes intraduzíveis. Quando era criança sentia-me caminhar para dentro do silêncio, enquanto Deus desarrumava as fronteiras da ilusão. Por isso a sua voz é um espelho que estremece quando se aproxima de outro espelho que nada reflete. Ou que reflete o outro espelho e o seu infinito de vacuidade. Quanto era criança cheguei a acreditar na terrífica fantasia do tempo. Fui uma criança profunda de lugares e de solidão. Então pensei na poesia e na sua inspiradora agitação. E nos distintos nomes da loucura. E na delicadíssima subtileza das lágrimas. E na cor bárbara da solidão das outras crianças. E no lugar onde se misturam as imagens. E nas pequenas estrelas que mudam de cor. E na raiz queimada dos sorrisos. E na abstração espalhada da verdade. E no interior difuso da loucura. Tanta inocência destruiu o lento milagre que trazia dentro. A vida tornou-se numa luz molhada pela idade. Presentemente sei como tudo amadurece, como a chuva ama a velocidade das cores do arco-íris. Dizem que agora sei tudo porque esqueço muito devagar. Ilusão. Os dias levantam-se sem eu acordar e as noites perecem sem eu adormecer. Entretanto a melancolia surge seguida pelo enorme desalento dos campos. Um demorado prazer toma conta do meu olhar. Toda a formosura surge da alarmada malícia do pecado original. Toda a doçura é uma infiltração de sombras silenciosas. É branco o meu amar, de um branco daltónico capaz de perfurar as noites fabulosas, capaz de acrescentar devoção às canções de embalar, capaz de aproximar a eternidade da finitude, capaz de ser incapaz. Muitas das canções que me cantaram falavam da força de ter força, no poder tremendo da ilusão, na húmida alegria da existência, no amor de véspera, no princípio ríspido da autoridade, na melancolia das colinas de ferro, no fogo transcendental da voz neutra de Deus, no vagaroso acender da chama do divino espírito santo, na incomparável distração vermelha da virgindade, na fantasia noturna da melancolia, da natureza indecifrável da verdade e da relação intransmissível dos presépios. É esse vasto campo de pó indestrutível e de sangue iluminado que me absorve o tempo de véspera e me bloqueia a idade da razão.
O menino Jesus tinha sido generoso com as prendas. João rejubilava e o seu amigo António partilhava da mesma alegria. Eram meninos felizes. João recebeu uma camisola de lã feita pela vizinha dona Rosa na sua máquina de tricotar elétrica, uma bola de catechu, um autocarro de plástico, um barco à vela, um pião, a respetiva guita para o pôr a dançar, e um tambor branco de plástico.
António recebeu quase o mesmo, menos o tambor, que no seu caso foi substituído por uma “lousa” de plástico igualmente branco, na qual se podia desenhar com um lápis de grafite e que pretendia substituir a verdadeira, onde apenas se podia escrevinhar com um ponteiro que se afiava nas pedras dos muros ou nas paredes das casas. Mas o António pouco lhe ligou. Entreteve-se durante algum tempo a destruir o barco. Nisso era muito bom. Destruir brinquedos estava-lhe na massa do sangue. Ele dizia que os destruía para depois os construir de novo. Mas nunca conseguia. Limitava-se a destruí-los com a minúcia de um menino atrevido, colérico e mal-educado.
Mal o António tinha acabado de abater o barco à vela, pegou no autocarro e principiou a sua obra de destruição sistemática. Nesse momento João aproximou-se dele e mostrou-lhe, cheio de orgulho, o seu tambor de plástico. Deu-lhe algumas pauladas com as baquetas e ficou à espera. António, com um sorriso nos lábios, aproximou-se do amigo e tentou arrancar-lhe o brinquedo. Ficaram, à distância de um passinho, um em frente do outro a medirem-se. António, o meia leca, e João, o leca e meia.
“Leio e não acredito”, diz o R. sentado no sofá azul enquanto folheia o meu semanário regional de referência. Ele aqui está, a meu lado, tentando ler enquanto eu tento escrever. Eu emito um resmungo distraído. E ele: “Leio e não…” Desligo.
António fez uma cara crispada, furiosa mesmo, pois ainda estava com os despojos da camioneta na mão, qual cão protegendo o seu osso de borracha, e arrancou naquele preciso momento as rodas traseiras do autocarro. João limitou-se a erguer o tambor de plástico.
António empenhou-se em deixar cair o que restava do autocarro. Essa era a sua qualidade inata, destruir os seus brinquedos e ir à procura dos preferidos dos amigos. João entregou-lho. António, na sua obsessão destrutiva, segurou-o, deu-lhe duas ou três voltas e, ao contrário do habitual, a sua expressão apaziguou-se um pouco. Mais do que isso era pedir um milagre. Embora continuasse tenso, com o seu olhar furtivo, João achou que era chegado o momento de lhe entregar as baquetas.
“Leio e não acredito”, tenta outra vez desabafar o R., mesmo sabendo do nosso contrato. “O que é? Desembucha de uma vez e depois cala-te”, peço-lhe distraidamente. E ele: “Então não é que o PSD fez aprovar na Assembleia Municipal de Chaves seis moções, todas elas rogando ao «seu» Governo que volte atrás nas suas políticas de portajar as SCUT’S…” Desligo.
Infelizmente, António não entendeu o seu movimento, sentiu-se ameaçado, arrancou-lhe as baquetas das mãos com um golpe do rebordo do tambor e, quando o João se estava a baixar para agarrar nas baquetas, pegou num objeto que estava nas suas costas e acertou-lhe com ele. João, educado e apaziguador, chegou-lhe pela segunda vez as baquetas. Mas António, pegando na corda do pião, acertou-lhe com ela no rosto. Aquilo estava a ultrapassar os limites do razoável. Talvez um pouco surpreso pela passividade do amigo, António pegou no pião e começou a enrolar nele a guita utilizada para o pôr a rodar.
“Leio e não acredito”, desabafa o R., mesmo sabendo que enquanto eu escrevo ele tem de estar quieto e calado. Sobretudo calado. “O que é? Desembucha de uma vez e depois cala-te. Tornei a tornar eu.” E ele: “Então não é que o PSD fez aprovar na Assembleia Municipal de Chaves seis moções, todas elas rogando ao «seu» Governo que volte atrás no novo modelo de organização judiciária, apelando ao restabelecimento dos benefícios fiscais para as empresas do interior … Achas que isto é para valer? Achas?” “Não. Acho que é para inglês ver. Mas deslarga-me, deixa-me escrever…” Volto a desligar.
Enquanto António tentava girar o pião, João olhava para ele dando-lhe um apoio quieto. António tentava e tentava mas nada de colocar o pião a zunir. Mal ele batia no chão dava duas ou três voltas e caía logo para o lado. Insatisfeito com o resultado, de novo se virou para o amigo e tentou mais uma vez chicoteá-lo. Alguém tinha de ser o culpado pela falta de jeito do pequeno António. Todos menos o próprio. Feitios.
Depois começou a cantar a canção do pião de forma cada vez mais rápida e precisa. Lá cantar cantava, mas pôr o pião a dançar e a zunir isso não conseguia. Enquanto enrolava a guita ao redor do corpo bojudo do brinquedo, lá ia murmurando a canção do pião. Mas ele nada de rodar. Mal batia no chão, dava duas ou três voltas e tombava de seguida.
“Leio e não acredito”, desabafa o R., mesmo sabendo aquilo que os estimados já sabem de cor e salteado. “O que é? Desembucha de uma vez e depois cala-te. Ameacei-o.” E ele: “Então não é que o PSD fez aprovar na Assembleia Municipal de Chaves seis moções, todas elas rogando ao «seu» Governo que volte atrás, pugnando pela manutenção da urgência médico-cirúrgica, indignando-se contra o encerramento do Pólo da UTAD e apelando a uma reforma da administração e organização do território. Achas que isto é para valer? Achas?” “Não. Acho que é para inglês ver. Mas, por favor, deixa-me escrever…” E voltei de novo a desligar.
O menino António desistiu então do pião e foi à procura do seu amigo João que, naquele momento, se entretinha a tocar o tambor. Sorrateiramente, enrolou-lhe a corda à volta das pernas e puxou-a com força. João deu um enorme trambolhão. Ele para um lado e o tambor para o outro. António, veloz como uma doninha, correu na direção do tambor e pôs-se a examiná-lo. Desconfiado, como sempre, mantinha o seu amigo debaixo de olho.
De um momento para o outro, o tambor foi atirado contra a esquina de uma cadeira, depois a prenda rolou pelo chão até bater na perna de uma mesa. E ali ficou, exibindo o buraco da sua inutilidade. António, insatisfeito, foi então à procura do barco do amigo e arrancou-lhe as velas. Com a madeira do casco bateu no tambor. Mas não tentou sequer tocá-lo, desfê-lo. A sua mão não produziu o mais pequeno ritmo.
Quando de novo João quis servir de intermediário, apesar das dores que sentia no corpo e no seu orgulho ferido, António de novo pegou na guita e tentou fustigá-lo. João, já sem paciência, saiu da sala e foi brincar para o pátio.
António pegou mais uma vez no pião e tentou de novo colocá-lo a rodar e a zunir. Mas o pião, mal saía daquelas mãos pouco habilidosas para o pôr a rodar, dava duas ou três voltas e caía para o lado. O António insistiu, insistiu e tornou a insistir. Mas o pião, mal saía das suas mãos, dava duas ou três voltas e caía para o lado.
Irado, foi novamente à procura do João, mas o amigo já tinha ido brincar para sua casa. António começou então a chorar e tão alto o fez que a sua mãe, que era bastante surda de um ouvido, veio logo em seu socorro. Ele, amuado, queixou-se do abandono do João. A mãe fez-lhe uma festa e disse-lhe para ir à procura de outros amigos.
António pegou no pião e na guita e foi para a rua. Pediu ajuda a muitos meninos, prometendo-lhes partilhar muitos dos seus brinquedos estropiados e abandonados. Os mais pobres e os mais rufias, ainda tentaram ajudá-lo. O António, todos o sabiam, só era bom numa coisa: na ambição. Tudo o que via invejava. Mas não conseguia brincar, não arranjava amigos verdadeiros, não levava nada ao fim. Acabava sempre por brincar sozinho. Isto se considerarmos brincadeira danificar os seus brinquedos e estragar os dos amigos.
97 – Quando se mistura a noite, com prostitutas, homens debochados, poetas inconsequentes, comida e bebida, mais cedo ou mais tarde a mistela tende a explodir. E foi isso precisamente o que aconteceu.
O José porfiava insistentemente no seu Bocage. E lindo que ele era. Lindo, não na sua beleza física, que era discutível, como todos bem sabemos, mas antes na sua excelência poética. Mas função que mete artistas introduz obrigatoriamente debate. Os artistas são assim: conflituosos devido à sua inquietude. Então se forem assumidamente de esquerda são quase sempre insuportáveis. Ou melhor, são sempre insuportáveis.
Claro está que falar de “intelectuais” e “esquerda” em Névoa era uma boutade do tamanho do Larouco. Então falar de “intelectuais de esquerda” (porque “intelectuais de direita”, desde que Sartre lhes negou a existência, extinguiram-se como os dinossauros) na terra adotiva do José era desmesura de otimismo, ou, dito de outra forma, era um tremendo excesso de zelo. Gado deste tipo até pode nascer na província, mas só consegue medrar em Lisboa.
Resumindo, e abreviando, por aqui não havia gente de esquerda e, muito menos, intelectuais. Tudo por estas bandas era um arremedo circunspecto. Menos as prostitutas que eram pessoas de bons modos e suculentas carnes. Isto quando não falavam e somente porfiavam no seu mester. Na província as meretrizes não eram muito dadas à conversa. Tudo por aqui era pão pão, carne carne, sexo sexo e missinha missinha. E vinho, porra, e vinho, que era Baco e que também era sangue de Cristo.
Podemos afirmar, sem faltar muito à verdade, que a pinga era o principal elemento motivador de desordens. Por aqui manjar presunto, salpicões, chouriços, batatas, grelos e demais iguarias finas, não predispunha por aí além à controvérsia. Já quando se exagerava no tinto do Gorçoço, todo o cenário tendia a complicar-se de forma preocupante.
O Senhor A. podia tentar fornicar com a sua prostituta preferida, que ninguém notava. Muitas das vezes nem o próprio dava bem conta do sucedido. Nem ele nem a companhia. Mas daí não vinha mal ao mundo. O cavalheiro porque não se encorpava. A madame porque já tanto lhe fazia. Não é que o seu sexo se gastasse, amarrotasse, encolhesse ou distendesse de forma definitiva, como muita gente teimava em acreditar. A sua falta de entusiasmo tinha muito mais a ver com o fastio. Todos sabemos que usar é bom, até porque é a função que cria o órgão. Já abusar é maçador. E contraproducente, porque o desregramento cria resistências. E quanto mais abuso mais resistência… etc.
O senhor B. podia comer uma travessa de carne, beber meia remeia de tintol, ingurgitar uma giga de grelos e um pote de batatas, que ninguém lhe levava a mal. Podia arrotar, peidar-se e rir como um alarve, enquanto apalpava a sua prostituta de serviço, que nenhum dos tertuliantes reparava ou comentava.
O Senhor C. podia dançar o tango acompanhado pela prostituta dançarina, que bailava com todos mas só fornicava com o seu Um, que aparecia já quase manhãzinha embuçado no seu embuço, como muito bem lembra o fado de Lisboa (que um dia, ó glória!, chegará a património imaterial da humanidade, tal como o flamengo, que é uma canção de ciganos urbanizados e o tango, que, à semelhança do fado, é uma música monótona e fastidiosa de bordéis nascida nos prostíbulos dos bairros típicos das respetivas capitais nacionais) podia contar anedotas porcas, invocar Deus e o Demónio, jogar à lerpa por boa maquia, insultar o Salazar, o Cerejeira e o Américo Tomás que ninguém diria uma palavra em contra. Ou a favor. A não ser o tal personagem embuçado que remoncava sempre dentro do seu disfarce: “Não estivesse eu embuçado dentro do meu embuço e outro galo cantaria. Mas seja tudo pelas alminhas.”
Podia até o senhor Delegado de Saúde juntar o útil ao agradável e, enquanto se divertia, comia e bebia, muito para além dos seus sábios conselhos e da sua douta sapiência, trabalhar examinando o que tinha a examinar nas senhoras que distribuíam luxúria, para que a gonorreia e a sífilis não atacassem por junto os membros dos principais membros das forças vivas da cidade, que ninguém reparava ou tão-pouco achava incómodo.
Podia o senhor embuçado tentar cantar o fado enquanto tentava fornicar, por aposta múltipla, uma prostituta tão elástica que conseguia copular, fumar e fazer números de faquirismo sem se aleijar ou aleijar quem se aventurava a ser seu partner, que nem um ai se ouvia. E muito menos um ui.
Tudo isto e muitas mais coisas, que aqui não conto por competente timidez e subido respeito pelo direito à reserva dos estimados leitores e dos seus entes mais queridos, podiam acontecer que ninguém levava a mal.
Tudo comiam, tudo viam, tudo ouviam e nada diziam. Pareciam autênticos maçons, apesar de muitos não o serem e muitos outros serem associados apoiantes de algumas ordens religiosas. Mas quem não tem pecados que se atreva a atirar o primeiro calhau.
Tudo isto acontecia até ao momento em que o vinho subia à razão dos aprendizes de intelectuais de esquerda.
Nos distintos cavalheiros que tentavam divertir-se, talvez um pouco levianamente para a ocasião, para o seu estatuto social e para a época que lhes tocava viver, o vinho do Gorgoço dava-lhes para dormir como cavalos cansados, para fornicarem em seco e para cantarem o fado da Samaritana em honra das distintas samaritanas que tão bem os aturavam, ou o fado do Embuçado em honra do rei que apreciava embuçar-se para ir assistir a sessões marialvas de fados e guitarradas.
Por vezes, a algum dos mais bebidos dava-lhe para se armar em forte e tentava esmurrar o parceiro que ou arriscava gozar com a sua embriaguez ou com a sua incompetência para se manter macho ativo no seu entretenimento. Mas dali nada de significativo surgia.
Já no grupo dos letrados, o vinho tendia a originar discussões intermináveis, cada um tentado complicar cada vez mais argumentos já de si muito complicados. Ora isto quase sempre ia desaguar em disputas de egos, ideologias, gostos artísticos e preferências estéticas.
Todos no grupo sabiam que especialmente um quase intelectual, dado à pintura, quando bebia uns copos se tornava intratável. Sem vinho era uma jóia de rapaz e um artista plástico com grande qualidade. Pintava quadros de um enorme sentido estético, alicerçado numa fina ironia conceptual. Mas com a pinga ficava insuportável.
Uma noite, já depois de muito porfiar no sexo, e de muito insultar um burguês anafado que teve a coragem de falar muito mal da pintura de Cherico, virou-se para o José e exigiu-lhe que declamasse, já que se julgava tão bom poeta, um poema de sua autoria. O José, sabendo do mau vinho do seu amigo pintor, fez que não ouviu. Mas o pintor insistiu e tornou a insistir até que na sala se fez silêncio, quando o José, virando-se para ele, lhe disse: “Posso não ter ainda escrito um grande poema, mas sou incapaz de plagiar.” Ao que o pintor retorquiu: “Como te atreves a acusar-me de plágio, tu um mísero aprendiz de Fernando Pessoa, que declama Bocage como uma freira disléxica?”
De insulto em insulto, a tensão subiu de tal modo que acabaram os dois à porrada. E a confusão cresceu tanto que, o Embuçado, contrafeito, teve de se desembuçar, e, em nome da autoridade conferida ao tenente da GNR, exigir calma enquanto estabelecia ligação com o seu plantão ordenando que a patrulha de serviço acudisse ao nº 19 da Rua das Gatas.
Adormeces no vasto círculo do silêncio branco, onde os olhos rasgam a espuma verde dos dias. Vários gritos me percorrem o cérebro. Palavras sorriem nos teus lábios e das tuas mãos saem gestos de ervas doces. Aqui é o lugar onde o espaço interior se realiza. Onde a água se liberta da sua infinita liquidez, onde as cores aparecem tão simétricas como seios, onde os instantes têm a linguagem viva das árvores, onde o chão se enche dos nossos corpos saciados. Sou uma língua em fogo, a livre língua que canta os rios vertiginosos, a festa da claridade de uma boca contra outra boca, a densidade dos corpos que ardem num círculo de festa. Sou a nitidez milimétrica do meu sexo em criação completa. Sou o interior da terra que sopra a cinza do tempo. Sou um cavalo que escreve a fogo o silêncio. Por isso, daqui convoco o teu corpo e as suas formas que queimam o azul do mar. Chamo a tua limpidez de simplicidade única. De novo a luz resolve a evidência da tua nudez. Agarro-me à tua perpendicular lentidão e deixo-me ficar no equilíbrio súbito do teu olhar. A felicidade é um precipício concêntrico que se percorre descendo e subindo continuamente. Fazes parte das minhas palavras gloriosas. Desse espaço aberto da vida. Deixo-me acariciar pelas palavras frágeis e expulso as palavras nulas. Desejo voltar à primavera habitável do teu corpo. Agora escuto o silêncio do teu olhar e da tua boca. Não te construo ou te aqueço. Tu é que me incendeias. As mãos percorrem a força dos gestos. Bebo-te respirando a música das cascatas. Finalmente descansamos sobre lençóis de água.
Hoje de manhã acordei com frio. Caiu uma geada à maneira antiga. O nevoeiro torna ainda mais gelado o amanhecer e perturba-me a visão. Neste início de ano, definitivamente tudo está gelado. A terra, as almas, os pássaros, as ruas, os olhares, as mãos e também, a cidade, a região e o país.
Uma pessoa olha para a nossa terra, para esta gestão autárquica, para o putativo candidato do PSD e fica gelado. Não sabemos se devemos ficar com mais pena do concelho ou do vice camarário, tão hirto na sua intenção, tão conspirador nos seus almoços e jantares, tão atrapalhado com o mundo que lhe foge debaixo dos pés.
Mas não é disso que vos quero falar. Hoje quero falar da morte de Vaclav Havel, homem que aprendi a admirar por ter ajudado a derrubar o comunismo checo com a sua “Revolução de Veludo”. Eu aprecio revoluções de veludo e aprendi a abominar as vermelhas de sangue.
Mas também não é disto que vos quero falar: nem das revoluções, nem da atrapalhação do putativo candidato do PSD à autárquica flaviense, nem do seu tempo confundido, nem da sua corrida ziguezagueante contra a preenchida lista de presumíveis candidatos do seu partido ao cargo que tanto ambiciona, mas que cada vez mais flavienses reconhecem que não possui a dimensão certa para o ocupar, com a dignidade que o cargo merece, nem das obras prometidas e não realizadas, nem da infelicíssima plantação de cestos de plástico pela rua de Santo António abaixo, nem dos caríssimos bancos também lá assentados para os transeuntes mais distraídos se porem a observar com cara de caso as entradas e saídas dos clientes das lojas comerciais, do tal comércio local tão amado com palavras de circunstância pelo poder local e tão abandonado à míngua e à sua pouca sorte. Não, não é disso que hoje vos quero falar.
Dizem os jornais que Havel morreu aos 75 anos na sua casa em Hradecek durante o sono. Contam que, no dia do seu funeral se ouviram ao meio-dia, todos os sinos das igrejas do país a tocar e de seguida as 21 salvas de canhão disparadas da colina de Petrin, em frente ao Castelo de Praga, sede oficial da presidência.
Mas também não é disso que vos quero falar. Ou melhor, não é só disso. Quero-vos falar de um amigo comum que eu e o líder da revolução de veludo possuíamos: Frank Zappa. Dizem que o genial músico foi um dos deuses do undreground checo. Vaclav Havel via-o como um amigo e sempre que lhe apetecia fugir das preocupações presidenciais pensava nele.
Dizem que a música que cada um ouve define o seu caráter. Por isso penso que Havel era um homem carismático e imperturbável. Peço desculpa, mas mesmo não querendo, sou levado a pensar na música que o putativo candidato do PSD à câmara de Chaves escuta no dia-a-dia, se é que ouve alguma, e arrepio-me. Lá fora continua o frio, mas estou em crer que não é por isso que a minha pele ficou subitamente eriçada. Sinto que a cada dia que passa aumenta preocupantemente toda uma raiva silenciosa que perpassa a sociedade portuguesa de lés a lés.
Mas também não é do governo da nação que hoje pretendo falar. É de música. Schoenberg dizia compreender a dialética mestra da história musical, ou seja, a constante oscilação que existe entre simplicidade e complexidade. Penso que era isso o que na música de Frank Zappa atraía Vaclav Havel. O jogo dialético entre complexidade e simplicidade.
Enquanto escrevo observo a rua e fico novamente cheio de frio. Isto apesar de cá dentro estar uma temperatura agradável. Frank Zappa continua a encantar-me. Mas Alex Ross (autor do livro “O Resto é Ruído – À Escuta do Século XX”) avisa-me que Cage se interessou com a “permutabilidade do som com o silêncio”. O som e o silêncio. O som e o silêncio.
Mesmo sem querer, lá volta de novo o vice camarário à memória. Será por causa do frio? Talvez. Por alguma coisa é. Dá arrepios pensar nele como presidente da Câmara. Voltar ao silêncio dos dias cinzentos, à rotina da gestão medíocre, às falsas promessas, ao mau gosto, à prepotência, ao golpe baixo.
Novamente o músico John Cage me avisa: “Qualquer tentativa para excluir o «irracional» é irracional. Qualquer estratégia de composição que seja totalmente “racional” é extremamente irracional.”
“É isso”, penso para mim. É isso mesmo. A putativa candidatura do vice camarário de João Batista foi pensada de forma tão “racional” que só pode ser irracional. Então vamos lá pensar: Se os partidos concordaram em limitar os mandatos autárquicos dos presidentes para dois, foi porque concluíram que mais tempo no poder gera maus hábitos, cria clientelas e potencializa a corrupção e o compadrio.
Agora os estimados leitores magiquem na sucessão do presidente pelo seu segundo, que foi vice porque não tinha nem carisma, nem qualidades, para ser primeiro. Ele, que geriu os silêncios, que administrou os favoritismos, que pôs e dispôs dos obséquios de ocasião e das admissões do pessoal, pretende, após 8 anos de tapa buracos e de capataz das conveniências, ser catapultado para a presidência. Tal situação é má de mais para ser plausível. Quem nunca conseguiu gerir o presente com qualidade, porque carga de água é que se acha na condição de protagonizar o futuro?
Por isso é que Pacheco Pereira lembra o ditado popular brasileiro: “Quem nasceu para lagartixa nunca chegará a jacaré”. O que na versão transmontana foi traduzido, e muito bem lembrado pelo meu amigo Tupamaro, para: “Quem nasceu para dez-réis nunca chega a ser vintém.”
Nestas como noutras coisas, o povo tem sempre a sua razão, pois conhece estes bisnaus há muito, mas mesmo muito tempo. É que a raposa pode mudar de pêlo mas nunca muda de hábitos.
Enquanto faço um interregno com “Blue Train” de John Coltrane (de novo o azul, além disso também sou um homem que gosta de comboios), vêm-me novamente à memória os versos de Ruy Cinatti: “Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades / denunciar a tinta gasta em discursos. / Salve-nos Deus / se não soubermos prever os alicerces …
Enquanto olho para uma fotografia de Vaclav Havel, Frank Zappa dá-me “Them or Us”. Lá fora começou a despontar o sol. Reconfortado, levanto-me da minha secretaria e vou à varanda. Nova recordação. Desta vez uns versos de Jean Ferrat e Louis Aragon: “O poeta tem sempre razão / Quem vê para além do horizonte / E o futuro é o seu reino / Face à nossa geração / Eu afirmo com Aragon / A mulher é o futuro do homem (…) O poeta tem sempre razão / Quem anuncia a Primavera / Doutros amores no seu reino / Faz renascer as flores / E declara com Aragon / A mulher é o futuro do homem.”
Lembro-me com lágrimas nos olhos da minha avó e de todas as mulheres que amei e amo, viro o rosto para a luz e fecho de novo os meus luzeiros enquanto tento aquecer a cara. Tenho no rosto desenhado um sorriso do tamanho da esperança.
“O poeta tem sempre razão / Quem vê para além do horizonte / Quem anuncia a Primavera / Faz renascer as flores / E declara com Aragon / A mulher é o futuro do homem.”
Enquanto oiço o trio de jazz Carlos Bica & Azul, faço votos, e desejo do fundo do coração, que cantem comigo os versos de Ruy Cinatti: “Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades / denunciar a tinta gasta em discursos. / Salve-nos Deus / se não soubermos prever os alicerces / basta de balancé entre o que é, o que virá, o que não é. / Basta de poetas com as mãos cruzadas / e de operários a cair de sono. / Somos poucos mas vale a pena construir cidades / ou morrer de pé.
96 – Definitivamente decidido a dedicar-se à poesia, o José fez-se amigo de um grupo de gente que se dedicava a versalhar, comer e fornicar, muitas das vezes por junto, outras por atacado. E também jogavam copiosamente os jogos de azar na Sociedade Nevoense. Ou assistiam, como era o caso do filho do guarda Ferreira e da Dona Rosa.
Foi para as várias tertúlias de poesia, e de um ou outro festim libertino, realizadas nas casas das prostitutas mais afamadas da parte velha da cidade, que o José começou a ser convidado. A princípio pediam-lhe versos, mas ele dava-lhes retórica, emprestava-lhes alguma teologia de bolso e oferecia-lhes um que outro princípio filosófico desculpabilizante.
De dia dormia e escrevia. Ou fazia que escrevia. Tentou a poesia erótica, que para a ocasião que lhe tocava viver era a forma lírica mais apropriada. Leu, releu e reescreveu uma boa meia dúzia de sonetos malandros de Bocage. Apesar de procurar inspiração no célebre poeta, os sonetos saíam-lhe sempre muito desengraçados.
Ao erotismo conseguia chegar, mas a ironia e o sarcasmo é que lhe ficavam sempre no tinteiro. O José, como homem de fé que continuava a ser, porfiou, batalhou e tornou a batalhar. Copiou vezes sem conta o “Soneto de Epitaphio” e outras tantas transcreveu “O Soneto das Glorias Carnaes”. Mas se o plágio lhe saía em letra redonda, as tentativas de reescrita redundavam sempre em poesia erótica para eunucos ou freiras carmelitas de idade avançada.
Tentou recitar muitos dos sonetos eróticos do maior representante do arcadismo em Portugal. Com esse fim, copiou-os com a sua bonita caligrafia de menina e foi-os decorando um a um, numa tentativa de, por alguma acaso misterioso, misturar os versos e deles saírem novos sonetos que, sendo ainda de Bocage, pudessem ser também considerados seus, um pouco como a prosa de Maquet funcionou em relação ao êxito de Alexandre Dumas.
Mas, por mais que os recitasse e combinasse, dali nunca saiu nada de prestável. Muitas vezes comentou para o grupo de amigos: “E ainda dizem que a arte é noventa por cento de transpiração e dez por cento de inspiração. Eu farto-me de versejar e nada produzo de qualidade.”
Desiludido, seguiu o caminho que lhe indicavam os companheiros mais lúcidos: “Deixa de escrever, limita-te a recitar a belíssima poesia do mestre. Pelo menos por agora. Mais tarde logo se vê. E o que tem de ser será.”
O José assim procedeu. Fez a sua seleção, encadernou-a e apresentou-a aos colegas. Depois de uma aturada análise, aos dois poemas citados anteriormente, acrescentou-lhes: “Soneto do Membro Monstruoso”, “Soneto de Todas as Putas”, “Soneto da Donzella Ansiosa”, “Soneto da Cópula Esculpida”, “Soneto do Prazer Ephémero”, “Soneto Anticletical” (este não lhe deve ter dado muito trabalho a incluir na sua seleta literária por razões óbvias), “Soneto da Dama Cagando”, “Soneto do Caralho Apatetado”, “Soneto do Coito Interrompido” (que ele passou a dedicar sempre, entre sorrisos alarves e impropérios pecaminosos, aos casais de Nossa Senhora), “Soneto da Puta Novata”, “Soneto do Falso Milagre” e “Soneto Anal”.
Aqui está uma coletânea que, naqueles tempos de ditadura do Estado Novo, dava para meter qualquer rapaz atrevido nos calabouços da PIDE e para condenar um ex-seminarista às profundas dos infernos. No entanto nada disso aconteceu, pelo menos no que concerne aos calabouços da polícia política. Já o mesmo não podemos afirmar acerca dos calabouços do temível Belzebu. Mas pelo que rezam os evangelhos, de certeza que um blasfemo deste calibre para o céu não irá. Ora, por exclusão de partes, tirem os estimados leitores a respetiva conclusão.
Dava prazer vê-lo, em ambiente de sessão libertina e possuído pela alma e pela agitação da arte do mestre Bocage, recitar e ser aplaudido com frenesim, pelos cavalheiros mais ou menos distintos, todos eles eméritos representantes das forças vivas da cidade, e prostitutas, mais ou menos habilidosas, quase todas filhas do lumpen ou do proletariado.
Ele com a sua voz situada entre João Villaret e Ary dos Santos, recitava sem hesitar nem nas pausas, quando era de pausar, nem na leitura corrida, quando era de a correr, ou nos competentes saltos, quando era de a saltar: “Minhas senhoras (risos dos estimados cavalheiros), prezados cavalheiros (gargalhadas das distintas meretrizes), para todos vós “O Soneto das Glorias Carnaes”: “Cante a guerra quem for arrenegado, / Que eu nem palavra gastarei com ella; / Minha Musa será sem par cannella / Co'um felpudo conninho abraseado:” (Mais sorrisos dos estimados cavalheiros e gargalhadas das distintas meretrizes) // “Aqui descreverei como arreitado / Num mar de bimbas navegando à vela, / Cheguei, propicio o vento, à doce, àquella / Enseada d'amor, rei coroado:” (Tentativa de sorrisos da parte dos estimados cavalheiros, que, pelo facto de o serem, não pretendia significar que fossem cultos. Sorrisos largos das meretrizes, não por serem cultas ou entenderem o que o Bocage, por intermédio do José, queria dizer, mas por educação e por respeito por quem declamava) // “Direi tambem os beijos sussurrantes, / Os intrincados nós das linguas ternas, / E o aturado fungar de dois amantes:” (Sorriso intermédio dos cavalheiros, por mor das premissas anteriormente expostas, e gargalhadas das meretrizes por idêntica razão e semelhante esclarecimento.) // Estas glorias serão na fama eternas / Às minhas cinzas me farão descantes / Femeos vindouros, alargando as pernas. (Sorriso final dos cavalheiros e idem das meretrizes).
Depois comia-se e bebia-se, bebia-se e comia-se. E fornicava-se. Seguidamente voltava-se à forma anterior. Soneto, ou sonetos de Bocage; comida e bebida, fornicação. E assim sucessivamente até de manhãzinha.
Está claro que isto é muito mais fácil de escrever do que de praticar. Mas se o espírito era o que vos conto, já a prática ficou com cada um. E, como os estimados leitores sabem muito bem, uma coisa é a fama, outra, bem distinta, é o proveito.
Nestas coisas cada um que se amanhe. Pois eu não posso estar para aqui, por decoro e por educação, a explicar que o senhor fulano de tal ouviu dez sonetos, ceou três vezes e fornicou duas, enquanto o senhor beltrano de tal, ouviu metade dos sonetos, comeu o dobro das refeições e fornicou o triplo, ou que o senhor xis apenas se limitou a ouvir os sonetos, ou, ainda, que o senhor ípsilon unicamente ceou, ou, até, que o senhor zê fornicou, fornicou e tornou a fornicar porque tomou uma mezinha que um seu familiar, servindo no prestigiado exército colonial, lhe trouxe das províncias ultramarinas.
E por muito que me custe, e estou em crer que aos estimados leitores acontecerá a mesmo coisa, das prostitutas não reza a história. No entanto, desta história reza a parte final dos serões para cavalheiros e meretrizes. Nisso o José era fiel, pois terminava a sua récita sempre com o “Soneto do Ephitáfio”, dizendo, antes de proferir os versos do mestre Bocage, que se revia neles e que até gostaria que na sua pedra tumular lá inscrevessem o mesmo. Limitamo-nos a transcrever, para abreviar, o terceto final: "Aqui dorme Bocage, o putanheiro; / Passou vida folgada, e milagrosa; / Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".
O tempo passou a ser uma indefinição, desde dentro, iluminando-nos enquanto sobe. Difundindo uma espécie de silêncio. Emanando paz. A paz dos mandamentos do tempo. É essa a sua autoridade. O tempo grita na sua abstração infinita. Penso: Tu és a minha ausência de tempo. De ti brota o peso da claridade que o tempo há de apagar. Valha-nos a santa urgência da vida. Estou sentado no lugar que se debruça sobre a transparência abundante da luminosidade do teu olhar. Uma profundidade remota toma conta da tua paciência. Oiço-te com a perseverança de quem estuda. Há fogo preso dentro do teu corpo. Um vínculo de fogo que sobe pelo esplendor da luxúria. Penso: Todo o pecado é uma redenção da glória. Toda a glória é uma salvação interior. Pressentimos na idade o justo advento do tempo, da sua luz trabalhada, da sua idade infinita, do seu excesso de espaço. O tempo dissemina o tempo. O teu amor tem de novo o feliz impacto da limpidez dilatada das águas lúcidas das nascentes. Por vezes o pouco tempo sobra. Noutras ocasiões o tempo todo não chega. Recupero a sapiência antiga através do enigma da sabedoria nova. Sorvo o teu corpo que tem o sabor de fruto lúcido de verão. Ergo o meu enigma dentro da polpa policromática do teu sexo demorado. Assim nos vingamos do arcano da morte e do seu tempo, do tempo antigo que a terra recupera. Penso: Gosto de ti por causa da tua paciência iluminada. Penso: O canto. Penso: A transparência. Penso: A indulgência, a eterna indulgência. Penso na minha velhice inacabada. Penso no exílio brilhante da análise. Penso no teu corpo. Penso no pináculo de uma cópula. No ponto íntimo do ritmo do amor. Penso em ti como quem se funde na nudez do azul heráldico. Tu és o alicerce da minha verdade incorruptível. Tu és a firmeza da minha solidão extrema. Tu és a luz do meu caos. Tu és o meu tensíssimo rigor. Houve dias, houve… Houve dias de aragem. Mas tu és a minha eternidade. Deus do céu, a tua imagem é o meu signo alucinante. Deus, a existir, é uma mulher vagarosamente intrépida. Sim, o amor. Sim, a morte. Sim, a dúvida inteligente da ciência. Deixa que me configure na frágil imagem do nosso amor eterno. Deixa-me configurar o nosso tempo efémero na iluminação absoluta de um segundo de eternidade. Se permitires, devolvo a Deus a incandescência da nossa luz eternamente humana. Por isso abrigamos naquilo que nos falta tudo aquilo que nos sobra.
Depois de ler a entrevista do presidente do PSD de Chaves, enchi-me de coragem e fui à procura de muitas das capas de jornais que colecionei da última campanha eleitoral para as legislativas. Por isso, neste momento em que escrevo, tenho a minha secretária repleta de frases e mais frases ditas e repetidas por Pedro Passos Coelho e os seus apaniguados, neles incluído o taciturno Paulo Portas.
Sobre o lado esquerdo do computador a mini aparelhagem debita o jazz de Carlos Bica & Azul, desde logo porque aprecio muito este género musical, mas também porque gosto da cor azul e de tudo o que ela me faz lembrar.
Sobre o lado direito repousa a última edição de fim-de-semana do Jornal I, onde se lê que ao nível do consumo e da atividade económica recuámos 33 anos, ou seja voltámos a 1978. Notável.
No mesmo periódico, Gonçalo Ribeiro Telles, em entrevista, afirma que “talvez os governantes queiram destruir o país, pois há intervenções de políticos de tal mediocridade que só podem basear-se na falta de conhecimento do país”. E olhem que ele deve saber daquilo que fala, pois foi ministro de Sá Carneiro. Depois olho para a capa do meu jornal regional de referência e dou de caras com o líder do PSD de Chaves e leio distraidamente: “Hoje no desempenho da atividade política exige-se verdade e memória.” Pois.
Entretanto bebo água, olho para o céu azul e presto um pouco mais de atenção ao jazz do Carlos Bica. Sinto que a minha tensão sobe. Fecho os olhos e tento recuperar o ritmo cardíaco que, entretanto, acelerou.
Já um pouco mais controlado, viro os olhos um pouco para a direita, onde o Paulo Bento me observa desde a fixidez da sua fotografia, que é capa da revista do Expresso. Da entrevista, retenho uma frase sua: “Os mentirosos aparecem com ar de boas pessoas nas primeiras páginas.” Depois volto novamente a observar as capas dos jornais dos dias da última campanha eleitoral e confirmo.
Em quase todas elas o atual primeiro-ministro, na altura ainda Pedro Passos Coelho, critica a subida de impostos, o corte nos salários, o desemprego, os benefícios de que goza a banca, as taxas moderadoras no serviço nacional de saúde, o encerramento de centros de saúde e de hospitais e maternidades, o aumento dos passes sociais, a avaliação dos professores, o corte das pensões, o aumento da criminalidade e a taxativa expressão de que é mentira o que os partidos à sua esquerda dizem sobre a sua intenção de cortar no ano de 2012 o 13º mês aos funcionários públicos.
Entretanto olho repetidamente para o selecionador nacional e lembro-me de novo da frase: “Os mentirosos aparecem com ar de boas pessoas nas primeiras páginas.” Depois, através da janela fixo o olhar no céu azul e escuto com algum deleite um solo do contrabaixo do Carlos Bica e consigo que a subida da minha tensão arterial fique em níveis controláveis. Mas mal bato novamente com os olhos nas páginas dos jornais, ela sobe de imediato. Fica aos pulos.
E, no meio da confusão, o líder do PSD de Chaves lembra-me: “Hoje no desempenho da atividade política exige-se verdade e memória.” Pois.
É em nome delas que eu agora lhe retribuo o seguinte: Desde que o PSD tomou conta dos destinos do país os impostos subiram brutalmente, o desemprego não cessa de aumentar a cada hora que passa, os benefícios da banca cresceram vergonhosamente, enquanto os pobres começam a passar fome, as taxas moderadoras do serviço nacional de saúde aumentaram escandalosamente, os centros de saúde continuam a ser encerrados, bem assim como as maternidades e vários hospitais, os passes sociais ficaram ainda mais caros, a avaliação dos professores continua nos mesmos moldes, a maioria das pensões foi cortada, a criminalidade violenta aumenta todos os dias, e o PM não cortou o 13º mês aos funcionários públicos, como acusavam os ranhosos da oposição de esquerda, não senhor, Pedro Passos Coelho cortou o subsídio de férias de 2012, o 13º mês de 2012, o subsídio de férias de 2013, o 13º mês de 2013, e o que ainda por aí virá, não só aos funcionários públicos como também aos pensionistas.
Pois é verdade, “hoje no desempenho da atividade política exige-se verdade e memória.” Por isso é que o PM deste governo foi a Matosinhos dizer que "cada oportunidade perdida é uma pequena tragédia" de que o país nunca recuperará. E rejeitou a ideia de que, em tempos de crise, a arte e a cultura devam ser subordinadas a outras prioridades. Pois, olho de novo para o selecionador nacional e lembro-me de imediato da frase: “Os mentirosos aparecem com ar de boas pessoas nas primeiras páginas.”
Então não é que o PM, que despromoveu a cultura para o nível de secretaria de Estado e que lá colocou Francisco José Viegas para, parafraseando Woody Allen, “acabar de vez com a cultura”, vem agora defender que é "precisamente" em períodos como este que se deve "misturar ainda mais as nossas vidas com as artes e com a cultura"?
Em resposta, um grupo de 52 personalidades lançou em Lisboa um “Manifesto em defesa da cultura”, pois este governo que nos desgoverna segue uma política de “agressão” à Cultura colocando-a numa “situação insustentável”.
Por isso é que, quer à chegada quer à partida de Matosinhos, o primeiro-ministro experimentou o agridoce sabor das manifestações de descontentamento do povo que o apelidou de aldrabão, tal e qual o que chamava ao seu antecessor, no que era apoiado pelos militantes do PSD que também se misturavam no meio da populaça de esquerda para fazer ouvir a voz da sua indignação e bufavam em apitos laranja como se fossem árbitros que não sabem a que dono devem responder. À saída da cerimónia das viaturas oficiais houve necessidade da intervenção policial para acalmar os ânimos mais exaltados. Lá diz o povo: quem com ferros mata com ferros morre.
Volto à entrevista do líder concelhio do PSD e reparo que, além de um extenso debitar de frases feitas e de ideias sem nexo e sem fundamento, a determinado momento, confrontando-se ele com ele próprio, numa tentativa de se desembaraçar de um laço que foi apertando à volta do seu argumentário, pois não explica nada do que devia explicar, apenas se limita a falar mal do governo anterior, como se este não fosse bem pior, ele, o entrevistador e o entrevistado, que empurra a responsabilidade da cobrança das portagens para a o governo antecedente e para a crise, que empurra a responsabilidade do encerramento de valências do Hospital de Chaves para o anterior governo e para a crise, que empurra a responsabilidade da desqualificação do Tribunal de Chaves para o anterior governo e para a crise e que nem uma palavra diz acerca do encerramento do Pólo da UTAD, afirma uma coisa patética: “Não é honesto responsabilizar a gestão autárquica pelas decisões do governo, ninguém pode ser responsabilizado por decisões que não toma, nem sequer é chamado a participar na decisão.”
Valha-nos Deus e a verdade. Olhe que é, senhor António Cabeleira, olhe que é. Desde logo porque o governo é do PSD, e o senhor lidera uma estrutura partidária do PSD. Eu vi-o a distribuir papéis onde o seu querido e estimado líder nacional mentia descaradamente aos portugueses, dizendo que ia fazer aquilo que não está a fazer e a dizer que não faria aquilo que está a fazer. Além disso, o senhor quando é questionado sobre as políticas regionais do governo que ajudou a eleger desculpa-se com a impotência do poder autárquico. Então para que serve o poder que atualmente exerce? Para cobrar a água, contratar uma empresa de recolha de lixo, aprovar projetos de construção civil e por carimbos em ofícios? Olhe, para isso mais vale o Estado Central contratar uns amanuenses e mandar o senhor mais os seus colegas para os seus lugares de trabalho.
Um autarca, antes e depois de tudo, deve pugnar pela defesa da sua terra e da sua gente. Tudo o resto é acessório. Nesta como noutras coisas, a culpa vai morrer solteira. O senhor, em defesa da política autárquica do PSD, na qual tem o seu quinhão de responsabilidade, fala-nos nos investimentos no Palace, no Hotel e Casino de Chaves, onde a autarquia faz mais ou menos o papel de corpo presente.
Eu prefiro falar-lhe no definhamento e na morte do coração da cidade, nas Freiras, na agonia do comércio local, na descaraterização do Jardim Público, no abandono da terra por parte da nossa população jovem, no desaparecimento da agricultura, no definhamento das tradições, na vassalagem e reacionarismo de algumas das vossas iniciativas, no favoritismo, na falta de atividade cultural própria, na insipidez das estruturas de apoio à indústria, no abandono dos projetos relacionados com o ensino superior, etc., etc. e etc.
Existem intervenções feitas pela autarquia que me dão a sensação de que foram pensadas por pessoas que não são de cá. Se são ou não, não sei. O que sei é que é urgente que a orientação da nossa política autárquica mude de mãos. O projeto do PSD está anémico. É urgente encontrar novos protagonistas. Mais do mesmo é que não. O senhor como putativo presidente da Câmara é uma redundância que os flavienses devem evitar. O seu projeto autárquico é mais do mesmo. É um caldo sem sal. Chaves necessita de respirar. Chaves precisa de sangue novo.
Chaves necessita muito mais do que quem ambicione geri-la como um capataz. Chaves reclama quem a desenvolva, quem lhe restitua a alma. Chaves reclama quem a ame.
Novamente regresso ao Carlos Bica, ao Azul e ao Ruy Cinatti: “Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades / denunciar a tinta gasta em discursos. / Salve-nos Deus / se não soubermos prever os alicerces…
95 – O José passou cerca de um mês no hospital a recuperar dos ferimentos e outro mês em casa a reconquistar o ego. Das contusões e dos ossos fraturados recobrou sem mazelas evidentes. Já a recuperação dos rasgos na pele fiou mais fino.
Os médicos coseram e trataram os cortes como souberam e puderam. E muitos que eles foram. Uma costureira não teria feito melhor. O filho do guarda Ferreira ficou para toda a vida com 25 suturas resultado de outras tantas facadas e coronhadas. Talvez tantas como Jesus se tivesse sobrevivido aos ferimentos, ao flagelo da Via Crucis e à posterior crucificação. O ponto alto do sacrifício do Cordeiro de Deus.
Ninguém sabe bem como depois de ressuscitado, Jesus, agora Cristo, apareceu aos seus apóstolos. Disso não há registo algum. Nem oral, nem escrito. E sobre o assunto a Bíblia também nada adianta. Mas estamos em crer que se o filho de Deus, e da Virgem Maria, tivesse sobrevivido era bem capaz de ter ficado como o José, com o corpo pejado de extensas cicatrizes e linhas de pele suturadas com agulha e guita apropriadas. Valha-nos ao menos isso.
À primeira vista, o José apenas patenteava uma cicatriz sobre a sobrancelha esquerda, o que lhe dava um ar verdadeiramente aproximado ao Django, um herói dos filmes de Western spaghetti muito apreciado na altura. Os amigos, quando o viam aproximar, assobiavam-lhe as melodias aprendidas nas matinés do Cine-Teatro e faziam que disparavam armas de fogo, soprando no dedo indicador como se ele fosse o cano de um revólver justiceiro.
Ele sorria e retribuía o assobio e um que outro disparo. Também não se esquecia de bufar na direção do seu indicador, imitando rigorosamente a postura, o charme e a coragem do herói cinematográfico.
Escusado será dizer que o José se tornou uma lenda na cidade. A sua coragem e a sua determinação passaram a ser admiradas pelas pessoas de bem. Muitas delas pediam-lhe para exibir as “medalhas”, o que ele fazia sempre que o local e a assistência permitiam a apresentação das suas reverenciadas cesuras.
A mãe aconselhou-o a matricular-se no Liceu para acabar o sétimo ano. Lá matricular matriculou-se, mas não ia às aulas. Começou a achar piada à boémia estudantil. Fundou um grupo de poetas e com eles começou a visitar diversas casas de boas famílias que diziam apreciar poesia e principiou a frequentar tertúlias vagamente culturais e saraus militantemente intelectuais.
Inspirado na leitura de distintos poetas portugueses e estrangeiros passou a escrever poesia espiritual. Era capaz de demorar um dia a escrever uma quadra, desperdiçar outro a alterá-la de fio a pavio e ainda consumir um terceiro a riscar palavra a palavra até nada dela restar.
Incapaz de ajeitar versos que enaltecessem com talento Deus e toda a sua Corte Celeste, virou-se para a poesia trovadoresca, mas as loas saíam-lhe pífias e pleonásticas. Por vezes lia-as aos amigos nos dias das reuniões ordinárias do grupo e, apesar de muitos deles lhe elogiarem a rima e o acerto de algumas figuras de estilo, ele não se sentia confortável e rasgava-as ali mesmo, na presença de todos, para dessa forma radical serem testemunhas privilegiadas da sua busca da qualidade e da perfeição, argumentando que um bom poeta demora anos a fazer-se, além de ficar caro em papel deitado ao lixo e tinta gasta em escrever coisas inúteis e isentas de genialidade.
Muitos dos amigos argumentavam que o ótimo é inimigo do bom e que também os génios nunca se deram conta que o eram e por isso é bem possível que, também eles, tivessem atirado coisas geniais ao lixo pensando que eram apenas boas e guardado coisas apenas boas pensando que eram geniais, pois não existem bons juízes em causa própria. Além disso os génios são sempre tão modestos que, só depois de mortos e enterrados, é que se lhes reconhece o mérito. E nem sempre.
Lembravam-lhe que os génios só conseguem esse estatuto quando já são apenas memória, uma memória quieta e afável que põe qualidade numa obra que até ao momento da descoberta dos críticos era apenas um conjunto disperso de bons poemas.
A crise de inspiração fê-lo penar e meditar muito. Meteu-se em casa e começou a magicar nas causas das coisas, nomeadamente na sua falta de jeito para a versalhada. Depois de muito cogitar chegou à brilhante conclusão de que o que lhe estorvava o génio e o jeito eram as suas vivências. Até ali apenas tinha convivido com gente analfabeta e pobre. Dali nada podia surgir como verdadeira inspiração para uma poesia realmente poética.
Poesia a enaltecer a pobreza e as suas virtudes era coisa para burgueses, católicos pindéricos e padres. A verdadeira poesia, desde os primórdios, enaltecia o amor e as relações amorosas. Era aí onde residia o cerne da questão.
Mas para cantar o amor e as relações carnais eloquentes tinha de experimentar. A professora Marília bem explicava nas aulas de filosofia: Primum vivere, deinde philosophari. E ele tinha vivido tão pouco que a sua filosofia tendia a sair-lhe sem sentido e despida de ideias. E, bem vistas as coisas, a poesia é a forma superior da filosofia. A poesia, à semelhança da filosofia, tende a do nada completar tudo e vice-versa, que é a forma mais nobre de redimir a condição humana. Pois a vida dos homens resume-se a falar, comer, trabalhar e fornicar. Da comida e do trabalho tratam as ciências exatas e as que lhe estão próximas, do falar e do fornicar trata a poesia e a filosofia.
Claro que o José podia, com a experiência que tinha, dedicar-se a escrever romances ou coisa que o valha. Mas ainda era jovem e os romances dão muito trabalho. Tem de se passar muito tempo com a caneta na mão, tem de se alinhavar muito enredo, tem de se organizar um esquema ou vários, tem de se inventar personagens, tem de se passar tempos infinitos a escrever e a corrigir, a corrigir e a escrever e, na maioria dos casos, depois de tanto porfiar, o calhamaço, que deu uma trabalheira imensa a escrevinhar, ou vai para a gaveta ou para o caixote do lixo.
O José, todos o sabemos, até era um rapaz corajoso e, convenhamos, moderadamente trabalhador, só que não se sentia naquela altura com coragem para enfrentar tamanha tarefa. Daí o ter optado pela poesia. Um poema escreve-se num dia, gasta-se uma folha de papel, ou duas se for revisto, e se não prestar, a desilusão não é muita. Nem o trabalho, concordemos, pois rasgar uma folha é fácil, já rasgar quinhentas folhas datilografadas é quase um enforcamento por empenho próprio.
Por isso escrever poesia dá algum estatuto, faz bem ao ego e não nos torna escritores obsessivos. Outra coisa bem distinta é passarmos anos a escrever um romance e depois, pelas razões já anteriormente apontadas, termos de sentir que todo aquele trabalhão foi um desperdício de ideias, tempo e energia.
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