Tenho a sensação aflitiva de que estou a ficar cego por olhar o mundo com olhos de ver. E que estou a ficar mudo por nomear as palavras e as coisas como se o que é belo definhasse por escrevê-las imobilizadas pela luz amarela do candeeiro. Por isso continuo a desejar aquilo que nunca verei e os corpos cintilantes das mulheres sereias que sorriem por dentro do seu suicídio feminino de água e nudez. Ponho as mãos em cima das pedras da casa velha e sinto que a minha memória humedece de medo. E a janela chama-me. Dela avisto o rio que corre como sempre correu, insensível à vida e à morte. Deito-me novamente e deposito-me nos sonhos. Dentro e fora da casa os mortos e as suas sombras de saudade e adeus esburacam a madeira e a terra perturbados pelo tempo infinito do adeus e da eternidade. Lá fora, as sombras das casas desabitadas enferrujam dentro do seu pó de aranhas e silvas. Aqui já nada me pertence. Nem o medo. Nem a morte. Nem a vida. Resta-me apenas o pouco tempo que aqui vivi e que me enche a memória de lágrimas e de medos e de arrependimentos e de desejos estúpidos. Ali naquela varanda secava-se a roupa, o milho e as passas das pavias. Também corria uma brisa fresca nas quentes tardes de verão. No inverno, enquanto na cozinha o lume aconchegava os potes durante todo o dia e a comida cozia e cozia e cozia, eu, sob o olhar atento da minha avó, dormia sonhando que brincava com a neve que se acumulava lá fora. Sem querer, a noite vinha e tornava-se densa, fria e silenciosa. O frio é silêncio nas casas e nas terras dos pobres. Quando acordada ficava em silêncio deixando que os fios dourados dos meus pensamentos penetrassem na misteriosa magia do crepitar da lenha. Apesar de pensar o contrário, as noites e os dias eram tristes. A minha avó era triste. Eu era triste. Eu ainda sou triste, de uma tristeza séria e descarada. Por vezes ladravam os cães. Também os cães eram tristes. Outras vezes não ladravam. Por vezes ouviam-se os passos dos homens. Também os homens eram tristes. Outras vezes ouviam-se os gemidos dos outros animais e escutava-se a melancolia fria e engelhada das mulheres que cresciam tão cedo como a aurora e envelheciam tão rápido como os dias de inverno. Também as mulheres e os outros animais eram tristes, até mais tristes que os homens e os cães. Agora as ruas estão desertas e apenas alguns cães vadios fazem que passeiam e ladram. Já nem os cães sabem ladrar como antigamente. Agora já não é possível o regresso. Já não são possíveis os sorrisos. Até a própria memória se está a transformar numa inutilidade escrita. E o silêncio lamina o dia e a noite e o amanhecer. A casa começa a quebrar-se por dentro projetando filamentos de eterno e irremediável abandono. E o abandono expande-se em ondas de tempo devassando tudo o que tinha vida e era útil. Doem-me agora os rostos dos meus familiares mortos. São como espelhos vazios. São como raízes de ervas. Alguns pássaros dançam no céu para provar a beleza efémera da vida. Libélulas esquisitas zumbem de encontro aos vidros. Os rostos transformam-se agora em alucinações. As alucinações transformam-se em corações vegetais. Que habitação é esta?
António Cabeleira, o instável líder do clã laranja flaviense, que me desculpe mas desta vez pretendo ir um pouco mais alto. Não é por o António ser, como escrevia Bocage acerca de si próprio, “meão de altura”, tal evidência foi a madre natureza a ditar, por isso está desculpado, mas é antes por causa do país, que está mesmo em baixo, prestes a tocar no fundo.
Já todos percebemos, para mal dos nossos pecados, que a maneira como o executivo de Pedro Passos Coelho está a governar o país é precisamente através do medo, da chantagem e da coação. A contenção, a austeridade, a pressão inevitável, a ameaça é tão intensa que não há alternativa visível.
Ora se a nível nacional, o medo é a arma utilizada, já aqui por Chaves, a estratégia do PSD passa pela elaboração de peças ficcionais baseadas na mais pura das demagogias, ou da desistência. Ou, ainda, no exercício de uma pressão injustificável sobre o aparelho camarário que tem resultado no seu estrangulamento. Isto mesmo debaixo do nariz de João Batista que continua a sorrir como se fosse essa a sua máscara que tudo desculpa e tudo pretende explicar.
Pelo meio, António Cabeleira limita-se a jogar xadrez com o seu putativo adversário interno, tentando asfixiar o que ainda resta de alternativa democrática flaviense dentro do seu próprio partido.
Cada vez mais ficamos com a impressão de que os atos eleitorais são meras formalidades. Os votos dos portugueses são utilizados como o papel higiénico, usam-se uma vez e deitam-se fora.
De facto, o governo de PPC vai passar à história, se por outra coisa não for, como o maior embuste fabricado pós 25 de Abril. O homem teve mesmo o desplante de considerar que, nesta altura, o desemprego pode ser uma oportunidade para mudar de vida. É caso para dizer que o primeiro-ministro devia ser o primeiro a colocar tal ideia em prática indo para casa regar as plantas e passear o cão. Era um favor que fazia a si próprio e, sobretudo, ao país.
O robot de fala lenta, que dá pelo nome de Vítor Gaspar, ministro das Finanças, pertence à escola doutrinária que está a mergulhar Portugal, e a Europa, na maior crise das últimas décadas.
A princípio surpreendeu o país com a forma como usava as palavras, por causa do tom com que falava, pelo ar de credibilidade e solidez argumentativa com que se dirigia aos portugueses.
Um ano depois já ninguém o suporta devido ao facto de se ter enredado nas suas falsas promessas, nomeadamente na trapalhada da reposição dos subsídios e nos números do desemprego, multiplicando-se em pedidos de desculpa e, muito especialmente, desvalorizando a palavra dada. O descrédito deste governo cresce a cada dia que passa. E isso é preocupante.
Por essa razão é que surgem por essa Europa fora ovos de serpente tais como Marie Le Pen e Georges Karatzaferis a pretender varrer do velho continente toda a emigração e mergulhá-lo na pobreza, na desigualdade, na xenofobia, na descriminação, no ódio e na intolerância.
Entretanto Portugal vai, a pouco e pouco, regressando à pobreza, fazendo com que a democracia e a liberdade sejam não direitos adquiridos mas palavras ocas.
O governo do PSD/CDS está a aproveitar a crise para desmantelar o Estado Social e, o que ainda é pior, a fazer desaparecer a classe média que é o sustentáculo das sociedades modernas, livres e democráticas.
E a arrogância é tanta que o primeiro-ministro manda na presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, pois já é ele quem ordena aos deputados da oposição que se calem.
Também verdade seja dita, apenas manda calar os deputados da oposição dado que nas bancadas da maioria ninguém abre o bico, apenas meia dúzia de deputados da capital, os engraxadores de serviço, é que estão autorizados a “botar faladura”.
Aos outros, como é o caso paradigmático dos senhores deputados do PSD por Vila Real, não se lhes ouve um ai, não se lhes escuta uma frase, não se lhes conhece uma ideia.
E as desavenças na Assembleia da República começam a subir de tom. Por isso é que o principal líder da oposição, posto perante o facto consumado de PPC ter escolhido o caminho do abismo, da austeridade e da recessão, já desejou ao PM boa viagem, dizendo que “os socialistas não assinam de cruz nenhum documento sem ser discutido com o PS”.
É evidente que nada do que acontece na AR é um ato isolado. Cada gesto, cada palavra e cada atitude, melhoram ou pioram o clima de confiança, ou desconfiança, que se estabeleceu em relação à política europeia.
Um sinal evidente de que estamos a voltar ao antigamente, é a utilização do velho truque dos economistas, que consiste em fazer desaparecer a palavra “política” do léxico social. Em seu lugar pretendem apenas saracotear-se entre a economia e as finanças. Ou seja, pretendem sofregamente entregar Portugal aos interesses da banca e dos especuladores financeiros.
É caso para dizer que a emenda (leia-se Pedro Passos Coelho) saiu pior que o soneto (leia-se José Sócrates).
Deixem-me voltar (pois eu faço caso disso) ao robot de fala lenta Vítor Gaspar. As pessoas que têm razão, muitas vezes não sabem comportar-se, exclamam, berram, dizem grossarias, são em algumas ocasiões indelicadas e intolerantes, por isso são muitas vezes acusadas de todas as contrariedades no trabalho e a na família. Mas aqueles que não têm razão, os ofensores, os demagogos, os maneirinhos, sabem comportar-se, têm lógica, são calmos, delicados e, por isso mesmo, transmitem a ideia de que têm razão.
Eu acredito que a força dos líderes está nas suas fraquezas e que a fraqueza dos subordinados reside na sua força. Por isso é que me angustia a forma subserviente como o nosso governo tem negociado a sorte, e o futuro, de todos nós, com a troika e com a Europa.
Pedro Passos Coelho, quando se afirma um irredutível defensor de mais e mais austeridade, assemelha-se a uma personagem de Mark Twain que se gabou dos seus lucros ao fiscal das finanças.
Isto é como quem se confessa, cada vez que oiço falar o PM invade-me um sentimento estranho. É como se a nossa vida coletiva se tivesse transformado num baralho de cartas manuseado pelas mãos de uma vidente.
Estes liberais de pacotilha, aprendizes de feiticeiro das leis desreguladoras da libertinagem absoluta dos mercados financeiros, fazem-me lembrar aqueles revolucionários mais intrépidos, mais estúpidos e desonestos, que sacrificaram a vida de várias gerações em prol de uma futura felicidade inventada.
Mete-me uma tremenda confusão como, apesar da triste realidade do desemprego nos agredir todos os dias, o nosso PM e o seu robot de fala lenta, se enfiam dentro da sua bolha de indiferença, tentando conservar-se praticamente alheios a toda a miséria e desgraça que esse flagelo acarreta.
O chefe do governo não pensa, porque ou não sabe ou não o quer fazer, limita-se a obedecer à senhora Merkel e à sua retórica fascizante em defesa intransigente dos mercados especuladores e agiotas. PPC não age, apenas executa as ordens que lhe impõem de fora. É um pau mandado.
PPC não executa, não decide, apenas cumpre as ordens dos capitalistas internacionais. É um rústico provinciano armado em estadista.
Quando oiço falar o líder do governo, sinto como se vivêssemos num mês de setembro perpétuo. Como se estivesse a escutar um concerto quando está a ser executado o último movimento de uma sinfonia. Tenho a sensação de que o volume da música aumenta, que todos os instrumentos participam, que se atinge o clímax, mas sente-se nas notas tocadas pelos executantes um cansaço triste, a modos como um aviso de despedida inexorável.
Não consigo adaptar-me a estes tempos de iniquidade, de engano, de acossamento. Os meus pais educaram-me na convicção da verdade, de que se deve enfrentar permanentemente a verdade, de que só o trabalho faz crescer o homem e as sociedades, independentemente da conjuntura, pois o comportamento de uma pessoa tem de ser decente e obedecer sempre às mesmas características: não matarás, não roubarás, não trairás, etc.
Por isso é que continuo a defender que contra os valores da verdade, do trabalho e da decência nenhuma força do mundo pode vencer.
Os tempos de hoje metem-me muita confusão. Chego à conclusão que a gente que agora nos governa aprendeu desde o berço a prática da duplicidade e da dissimulação como forma de ascensão. Ou, pelo menos, como estratégia de sobrevivência.
E, aqui para nós que ninguém nos ouve, olhem que estes tiques não são exclusivo da rapaziada que nos governa desde lá da capital. Esses tiques, e esses truques, estão também muito bem enraizados na equipa que sonha continuar a liderar os destinos da nossa autarquia. Ora pensem lá um pouco nas personagens, e na sua atuação diária, e logo me dirão de vossa justiça.
Desta vez pretendi deixar o António de fora, mas, tal como o país, a autarquia flaviense está tão em baixo, mas mesmo tão em baixo, que se encontra prestes a tocar no fundo. Por isso me lembrei de uma passagem do livro de Leonardo Padura “O Homem que gostava de cães”, e que aqui vos deixo como forma de despedida, por hoje.
“De que outra coisa a não ser do mar podem falar os náufragos, Ramón Pávlovitch? Brindemos, brindemos! Pelos náufragos do mundo! Até ao fundo!, e bebeu a vodka.”
PS – O António Cabeleira que se cuide, pois enquanto ele anda entretido a tentar neutralizar o arquiteto Penas, Fernando Campos anda compulsivamente a tentar fazer-lhe o ninho atrás da orelha. Corre por aí uma sondagem (da empresa Desenvolvimento Organizacional de Marketing e Publicidade, sediada do Porto, isto a ter por genuína a informação que nos prestaram por telefone no momento da entrevista) com a nítida intenção de lembrar Fernando Campos e de o tentar impingir aos flavienses como putativo candidato à Câmara de Chaves.
Da lista fazem parte três nomes: Fernando Campos, António Cabeleira e Paula Barros. As perguntas são imensas e, na sua maioria, enormes parvoíces, baseadas em cenários hipotéticos perfeitamente anacrónicos e inverosímeis. Numa delas, imaginem só, chegam a colocar António Cabeleira como candidato do PS a enfrentar Fernando Campos. Ou seja, em quase todos os cenários, é Fernando Campos contra terceiros, dando como adquirido que será ele o putativo candidato do PSD à Câmara de Chaves.
E a ânsia de controlo e monitorização é tão grande que no fim da entrevista têm mesmo o atrevimento de perguntar o nome da pessoa que entrevistaram. Não sei mesmo se este procedimento é legal, mas que é de um atrevimento inusitado lá isso é. Diz-me os métodos que usas e dir-te-ei o político que serás. Ou o que foste. Convém não esquecer que pode a raposa mudar de pelo mas que nunca muda de hábitos.
Este clima pré-insurrecional que se vive dentro do PSD é bem o exemplo do desnorte, da atrapalhação e do apego ao poder por parte dos seus atuais autarcas. Muitos deles não se coíbem de atropelar, ou abalroar, os seus companheiros do partido para não abandonarem o poder. E dizem-se estes senhores democratas.
Espero que o bom senso acompanhe os flavienses no próximo ato eleitoral autárquico. E, por favor, não me obriguem a ter de vir a terreiro defender António Cabeleira na sua luta contra o atual autarca de Boticas.
Já chega de “estrangeiros” a comandar os destinos da nossa cidade e do nosso concelho. Por isso lembro de novo: a raposa pode mudar de pelo mas nunca muda de hábitos. Não sei se me entendem.
E a pergunta final: quem terá encomendado esta sondagem e com que dinheiro? Os objetivos são óbvios. As intenções é que não sei. Não sei não.
114 – O José saiu dos Pintassilgos com os olhos a brilhar. Era o que mais tarde denominou como o Efeito Alberto Punhal, que era do tipo Efeito Borboleta, pois aquele bater de asas demagógico e alucinatório iria provocar o tufão que pôs a sua vida num caos.
Entendamo-nos, o camarada de Cristal tinha fama de santo, coisa que não era; tinha fama de filho, mesmo que adotivo, da classe operária, coisa que não era; tinha fama de visionário, coisa que não era mas gostava de ter sido; tinha fama de democrata, coisa que definitivamente não era; tinha fama de tolerante, coisa que não era nem nunca seria; tinha fama de intelectual culto e liberal, coisa que não era mas gostaria de ter sido; tinha fama de comunista, coisa que efetivamente era até às últimas consequências. Mas, bem vistas as coisas, os ditadores atraem sempre as criaturas mais dinâmicas e as mais voluntariosas. E não as atraem por causa da verdade, que eles transformam em ficção, mas sim por causa da ficção, que eles metamorfoseiam em verdade.
Dizem por aí que os ditadores atraem as pessoas por causa do carisma, pelo poder de persuasão, pela chama. Pelo que agora sabemos, isso acontece por causa do sentido de posse, do domínio, da busca do poder. Todos os seres humanos aspiram a mandar uns nos outros, a subjugá-los, de uma forma ou de outra. Então quando se juntam em grupo são piores do que lobos esfomeados. São hienas sôfregas.
Hitler, Estaline, Mussolini, Mao, apenas para falar nos mais famosos, dominaram e subjugaram milhões de pessoas não unicamente devido à repressão. Os seus sonhos loucos de poder só triunfaram porque o povo aderiu em massa. E quantas mais pessoas aderiam mais vontade tinham outras de aderir. Foi assim que nasceram os paraísos socialistas (nacionais ou internacionalistas) no mundo e logo a seguir os gulagues comunistas e os campos de extermínio nazi.
Não pretendemos ser excessivamente provocadores, pois não está na nossa maneira de ser, como os estimados leitores sabem, mas estamos mesmo inclinados a afirmar que todos transportamos dentro de nós um ditadorzinho, ou um ditardozão, em potência. Depois é a ocasião que faz o ladrão. E tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta. E quem não quer ser ditador não lhe veste a cor, não lhe bebe as palavras, não lhes imita a fraseologia e a pose. Mas deixemo-nos de filosofias e vamos mas é ao que verdadeiramente interessa.
Fora do salão juntou-se um grupinho de camaradas, mais ou menos conhecidos uns dos outros, que resolveu aguardar pelo camarada esclarecedor para, à boa maneira transmontana, ir com ele confraternizar.
Lá dentro o camarada esclarecedor e mais dois elementos do secretariado regional do partido iam colocando as fichas de adesão dos novos militantes numa malinha especial, bem junto ao dinheiro angariado na cobrança das quotas aos militantes, da venda de autocolantes e pines, livros e distinto material de propaganda, como emblemas com a foice e o martelo abençoadas pelo camarada Brejnev e pelo camarada Punhal em plena Praça Vermelha no dia do desfile de mais um aniversário da Revolução de Outubro. A bandeira, qual santo sudário, foi dobrada com mil cuidados e enfiada numa caixinha de madeira preciosa, a modos como um sacrário ambulante, religiosamente manufaturada por um camarada marceneiro.
O José tentou meter conversa com os seus já quase camaradas, mas eles, os camaradas, limitaram-se a olhar para ele, o José, como se fosse invisível. Nem ao Graça ligaram muito. Ser camarada é uma coisa, acamaradar é outra bem distinta. Vendo o ambiente frio e separatista que por ali se vivia, o José disse ao Graça que se ia embora para casa. É que no reino dos camaradas há camaradas mais camaradas que os restantes camaradas. Mas o Graça pediu-lhe para ter paciência e aguentar os cavalos. O Graça disse-lhe que a camaradagem é como o óleo de fígado de bacalhau, sabe mal como o caralho mas cura o raquitismo.
Minutos mais tarde encontravam-se num dos carros que rumavam ao bar, situado fora de portas do burgo, propriedade de um outro velho camarada. O camarada esclarecedor foi recebido, por parte do camarada anfitrião, com um enorme e fraterno abraço. Avançaram de imediato para uma pequena sala onde os esperava uma mesa posta com vários detalhes revolucionários. O mais evidente eram os pratos artesanais com fundo vermelho onde era visível a foice e o martelo proletários e a respetiva estrela amarela internacionalista.
Enquanto esperavam pela comida encomendada discutiram vários e interessantes assuntos, pois os comunistas nem por um momento se distraíam da sua tarefa revolucionária. Até quando confraternizavam o faziam militantemente. O comunismo era a sua estrela polar. Aprenderam, os que não sabiam, que tudo na vida é política. Até comer, conviver, ler, estudar, vestir e mesmo ver televisão ou ouvir a rádio. Pretendíamos ser mesmo ainda mais rigorosos, mas não conseguimos, pois não tirámos a limpo se urinar e defecar também são tarefas políticas ou tarefas revolucionárias, ou ambas, ou até nenhuma. Talvez o sejam do ponto de vista que sem elas devidamente executadas, os revolucionários morrem. Mas isso são suposições nossas. Já fornicar, segundo apuramos, é uma tarefa eminentemente revolucionária, quando devidamente enquadrada.
O camarada esclarecedor lembrou aos presentes que, por exemplo, estava aí a chegar o campeonato mundial de futebol e a tarefa de todos os comunistas era aproveitá-lo para esclarecer o povo. “Como?”, Perguntou o Graça. “Porquê?”, perguntou o José. “É que Portugal nem sequer participa”, lembraram ambos ao mesmo tempo. “Nem sequer a União Soviética! Como foi isso possível?” perguntaram juntos, todos os atónitos camaradas militantes comunistas presentes. Como o camarada esclarecedor os mirou com o mesmo olhar com que Estaline examinou Leon Trotsky antes de o enviar para o exílio, os restantes camaradas observaram-se uns aos outros como se fossem desconhecidos.
Foi também dessa forma que o camarada esclarecedor os encarou. E durante breves instantes instalou-se um silêncio arreliador. Por fim, o camarada esclarecedor esclareceu: “Isso foi boicote do imperialismo e manobra da CIA. E mais não digo porque não posso e não devo.” Posto perante esta verdade, o José ainda perguntou com a sua habilidade usual: “Mas então por que razão o imperialismo permitiu a ida de outros países socialistas?”
Nesse momento, como se estivesse combinado, apareceu em cena o camarada dono do bar com as garrafas de vinho tinto a postos e pôs-se a abri-las com algum rigor, lembrando aos presentes que a pinga que iam beber era fruto de muito trabalho seu e de vários camaradas agricultores e que por isso devia ser respeitado e bebido com arte.
O camarada esclarecedor provou-o quase como se fosse um escanção, mas em vez de o deitar fora engoliu-o com prazer evidente. E aproveitou a deixa para contestar ao José: “Para nos dividir.” E de seguida aproveitou a ocasião para responder às restantes questões colocadas pelos dois verdes camaradas.
De facto iam estar presentes no campeonato do mundo várias equipas do campo socialista, nomeadamente a Alemanha Oriental. E também a Jugoslávia, a Polónia e a Bulgária. E como Portugal estava ausente, a nossa tarefa revolucionária era apoiar esses países e aproveitar o evento para enaltecer o desporto praticado nos países socialistas. Tudo devia ser aproveitado para esclarecer o nosso povo da superioridade da organização social e política dos países governados pelos partidos comunistas. “Então no desporto, bem, no desporto, no desporto, é bom nem falar da superioridade do campo socialista em relação ao campo capitalista”, esclareceu o camarada esclarecedor com toda a pertinência revolucionária. E concluiu: “Nós encontramo-nos a anos-luz.”
Novamente o José questionou o camarada esclarecedor: “Visto que Portugal não está presente, mas está o Brasil, que é um país irmão, não é mais sensato apoiar o Brasil? Além disso, o futebol é extraordinariamente aplaudido pelo povo brasileiro e, que eu saiba, também lá existe um partido comunista irmão, forte e combativo que, com toda a certeza, apoia a sua seleção. Além disso, os brasileiros praticam o melhor futebol do mundo. E é crime apoiar uns cepos que mal sabem dar um pontapé na bola sem a magoarem, apenas porque são cidadãos de um país que se afirma socialista. Além disso, os brasileiros falam a nossa língua. E como muito bem diz Fernando Pessoa, “a minha Pátria é a língua portuguesa”. Ora, seguindo esta linha de pensamento, devemos apoiar a seleção do Brasil, porque, bem vistas as coisas, somos povos irmãos. E…”
Bem, se não tivesse entrado o camarada dono do bar, a sua esposa e a sua filha transportando as vitualhadas, tinha-se dado ali algum incidente politico-ideológico que talvez tivesse determinado um outro final para esta história e para o destino do José. Mas são estes pequenos incidentes que da ordem fazem o caos.
Um camarada do secretariado local do Partido aproveitou a vinda da comida para inserir uma lasca de presunto na boca, uma azeitona verde, um pedaço de pão, um golo de vinho e de seguida introduzir na conversa o tema quente do parlamentarismo e, por conseguinte, das eleições.
“É mesmo certo que o Partido vai defender o adiamento das eleições legislativas?” Ao que o camarada esclarecedor respondeu afirmativamente argumentando que o povo ainda não estava preparado para esse ato. “Além disso, o Partido defende que as eleições não resolvem nada, antes pelo contrário, podem dar azo a uma ofensiva dos partidos da burguesia, que ao elegerem os seus deputados tagarelas vão fazer do parlamento português aquilo que sempre foi: um circo de vaidades e uma tribuna de palavras vãs. Os comunistas defendem o povo, defendem a revolução. E a revolução faz-se nas ruas, faz-se com greves, com manifestações, com ocupações de terras, fábricas e casas, faz-se com a nacionalização dos grandes monopólios e dos latifúndios. A revolução não se faz nas cadeiras do parlamento burguês discutindo e votando leis inócuas, que apenas servem para perpetuar o estado capitalista e a exploração do homem pelo homem. As eleições apenas servem para legitimar um regime socialista, não para o construir. Nós somos ainda uma sociedade burguesa. Quando a revolução socialista estiver feita, então sim deve haver eleições. Mas atenção, muita atenção, não eleições onde todos os partidos possam concorrer, mas eleições onde concorrem apenas os legítimos filhos do povo. Senão são apenas uma farsa burguesa. Ao parlamento popular devem apenas poder concorrer os revolucionários com provas dadas e os seus legítimos representantes…”
“Mas”, interrompeu-o o José, “se só os comunistas forem autorizados a concorrer às eleições, apenas eles podem ganhá-las e assim tornam-se desnecessárias, pois estão logo ganhas à partida. E isso é o contrário da democracia.”
“Da democracia burguesa, quer o camarada dizer”, disse com os olhos em forma de foice e martelo o camarada esclarecedor.
“Não, da democracia. Da verdadeira democracia. A democracia é a aceitação da diferença. É a possibilidade de alguém governar o seu povo através do sufrágio universal e direto. E isso só é possível se todos os partidos puderem concorrer às eleições. A democracia não admite tutelas nem exclusões. A democracia é a legitimidade absoluta do voto popular. O contrário é a ditadura.”
Bem, com esta provocação, mesmo que inocente, como todos sabemos, ao camarada esclarecedor até o bocado de moela que meteu à boca lhe entrou para a goela do vento e ficou quase tão vermelho como a bandeira do seu partido. Valeu-lhe o Graça que lhe deu um estaladão nas costas que o fez projetar o cibalho inteiro para o chão.
De novo entrou na sala o camarada dono do bar com mais duas garrafas de tinto e o José aproveitou a ocasião para ir à casa de banho. A partir dali não mais se falou de política nacional, mas apenas das qualidades do povo transmontano, do nosso vinho, da nossa carne e do nosso pão.
Fora da casa vazia, os pátios de laje soerguem-se de abandono e choram desesperados com o esforço das ervas que agora cobrem o castelo, as escadas, os muros, as paredes das fontes de mergulho, a praça, a eira do fundo do povo e sobre tudo isso flutua um mar denso de nuvens carregadas de cinzento e chuva grossa. E eu começo a ficar sem ar e com as memórias tristes. E debaixo das lajes e da água dos montes gritam os mortos. Todas as pedras se abrem perante a fala da água nos buracos. Essas palavras são pronunciadas com medo e falam da história longínqua e seca de Pedro Páramo e ficam com medo de pousar nos livros e por isso entardecem como bailarinas dançando na ponta dos pés num palco abandonado. Cantam as almas das mulheres vestidas de negro uma canção lavrada pelo arado de cavalos que são agora estátuas aladas. E essas mulheres almificadas falam das suas primaveras extasiadas de espaços negros e espaços brancos e criam palavras terríveis que veem o seu significado alumiado com candeias de petróleo. E por isso olham para as suas mãos antigas de sangue e por isso tocam nas árvores da sua floresta interior e por isso morrem remexendo novamente no seu silêncio. As mulheres almificadas atravessam invernos e calam a sua dor eterna numa imagem enorme de um Deus sacrílego que as carregou de dor e de sofrimento e de desejos vegetativos. Depois põem-se a caminho da noite e remexem os túmulos e levantam as pedras que aguentam os vivos e crescem dentro da sua loucura de vento e desespero. São agora almas embrionadas de um tempo tão antigo como as pirâmides acrescentando pórticos aos pórticos e dor à dor e esquecimento ao esquecimento. Também elas ouvem os gritos dos seus mortos e farejam a angústia dos que ainda estão vivos. E choram. O seu tempo é criptogâmico e circular, de uma densidade imóvel que se limita a criar o espaço dentro de um outro espaço. Árvores aflitas deixam-se inundar de flores elétricas que gritam dentro da sua artificialidade. Tudo agora é confusão. O meu sonho. As fotografias pálidas abandonadas nas gavetas. A luz confusa do amanhecer. Os diálogos tristes da penumbra. As mulheres almificadas pousam suavemente sobre a luz simétrica dos candeeiros. O mundo denso da noite acaricia-me os olhos e eu torno a olhá-las como se fossem borboletas feitas de buracos negros. O silêncio que nos engole também é negro e denso. Dentro da minha memória devastada pela insónia alojam-se agora o deslumbramento, a lentidão, a resignação e a crueldade. Por isso a minha escuridão interior se tornou viva. E de novo a água volta a falar dentro dos seus buracos. E as lagartixas nascem belas e os escorpiões surgem sábios e as aranhas brotam fluídas dentro das suas teias. O mundo das pequenas coisas expande-se. E o mundo das grandes coisas engole-o sem ambos darem por isso. E as mulheres almificadas deixam-se impregnar desse resplendor de voragem, nessa paixão do tempo em passar, em passar. Em passar. E os mortos deixam os seus sonhos de Pedro Páramo e voltam à sua condição de pó. Continuo a escutar os seus gritos que arrancam da vida a sua profundidade sem sentido. Nos campos da aldeia surgem repentinamente, em vez de nossas senhoras, aparições de macieiras febris que devoram os seus próprios frutos e que consomem todos os sonhos sonhados pelas mulheres almificadas que gesticulam palavras de medo e morte e as suas sombras caminham por dentro da ternura que foi engolida pelos buracos negros que criaram borboletas negras. Acordo e pergunto pelas palavras e elas ali estão bem juntinhas mostrando-me todo o assombro, todo o esplendor e todo o êxtase de estar vivo. Tu dizes: é uma catástrofe essa tua fascinação pelo delírio. Eu digo: são apenas as minhas raízes. Ainda não me apetece enlouquecer.
Vivemos tempos estranhos. Apesar de habitarmos no mesmo país, na mesma região e na mesma cidade, parece que cada vez conhecemos menos as pessoas.
A urgência do poder, da manutenção do poder, da autoafirmação do prestígio saloio, vão minando as amizades, as afinidades institucionais e as relações humanas entre amigos, conhecidos e vizinhos.
Já ninguém acredita em ninguém, nem em nada. Impôs-se a desconfiança como método, a indiferença como forma de vida e de relação social e a hipocrisia como alimento espiritual.
Vivemos tempos estranhos, mas, apesar disso, é neles que temos de arranjar força para acreditar em alguma coisa.
Até porque não somos todos iguais, não somos todos indiferentes, não somos todos irresponsáveis, não somos todos mentirosos, não somos todos arrogantes. Nem somos todos parvos.
A nossa terra tem de ter futuro, os nossos jovens têm de ter futuro, as nossas gentes têm de ter futuro. E o futuro constrói-se no presente com a vontade e com a coragem dos resistentes, dos lutadores, dos perseverantes.
Eu quando digo que acredito no futuro sei porque o digo. Porque conheço gente que não desiste, que se esforça por lutar, que se empenha em construir uma ideia de progresso, uma luz ao fundo do túnel. Uma alternativa.
Parece que tudo anda a encolher. Os sentimentos, a liberdade, os direitos e os deveres. E também o país. E ainda os lares da terceira idade e as nossas escolas, pois os senhores ministros, escudando-se na crise económica, resolveram pôr mais gente nos quartos dos lares e mais jovens nas salas de aula.
Entretanto o governo, por determinação europeia, resolveu aprovar legislação que determina que tem de aumentar o espaço a ocupar por cada galinha poedeira, bem assim como melhorar o arejamento das gaiolas.
Ou seja, os idosos, as nossas crianças e jovens podem enfiar-se nos quatros e nas salas como as sardinhas na lata, enquanto as galinhas ganham espaço e arejamento.
Por isso é que eu digo que vivemos tempos estranhos.
Posso mesmo adiantar que até na área da saúde a esquizofrenia tomou conta da lógica. Penso que estou em condições de explicar a razão deste governo se ter empenhado tanto no incremento do desemprego. Pois porque, segundo um estudo recente, trabalhar engorda. E a gordura faz tão mal às pessoas como o tabaco. Ou seja, as pessoas com problemas sérios de obesidade, à semelhança dos fumadores, vivem em média menos oito a dez anos que as de peso normal. Por isso o governo, para poupar na saúde, investe no desemprego.
Como estamos em crise, o governo, não podendo atalhar aos dois problemas, pelo menos minora um deles. O que pode não ser a solução perfeita mas, temos de admitir, é uma solução curiosa.
E por falar em saúde, não quero deixar passar em claro o facto de os deputados do PSD pelo distrito de Vila Real terem mostrado a coragem, e o arrojo, sejamos sinceros e verdadeiros, de questionaram o senhor ministro da Saúde. E não o fizeram de ânimo leve. Qual quê! “Questionaram-no formalmente”.
Sim, transcrevi corretamente, para que conste, “questionaram-no formalmente” sobre “os fundamentos invocados pelo Conselho de Administração do CHTMAD para proceder ao encerramento do serviço de urgência da especialidade de cardiologia da unidade hospitalar”.
Uma nossa conterrânea morre tragicamente entre a ineficácia e a inoperância dos serviços e a estupefação dos familiares e amigos, e os senhores deputados do PSD de Vila Real questionam formalmente o senhor ministro sobre se a “unidade hospitalar de Vila Real tem efetiva capacidade de resposta para todas as ocorrências do foro cardiológico do distrito”.
Repito: Uma senhora morre às portas de um hospital por indefinição dos serviços e por teimosia das leis e dos enquadramentos e de outras balelas do estilo, e os senhores deputados do PSD pelo distrito de Vila Real fazem perguntas formais ao senhor ministro.
E foi para isto que os transmontanos votaram nesta gente? Pelos vistos foi. Pois! Por isso é que o prestígio dos políticos anda pelas ruas da amargura.
Torno a repetir: Uma senhora morre tragicamente e os senhores deputados escrevem perguntas numa folha.
Bonito serviço. Até parece uma piada de mau gosto. Será para isto que servem os nossos políticos? Será para isto que serve a democracia? Será para isto que serve o parlamento? Será para isto que servem os deputados? Pois, pelos vistos, é sim senhor.
Num texto lamechas e torturado, uma senhora deputada, que faz parte do grupo, resolveu escrever o seu ato de contrição afirmando que sente a perda de valências do hospital de Chaves. Fala ainda de alarmismo, de insegurança, de indignação e de ocorrências trágicas. De seguida comenta pieguices, escreve banalidades, lugares comuns e incongruências.
Um pouco mais à frente afirma que há necessidade de agir, no sentido de reverter decisões, em diálogo com as populações, os autarcas e as estruturas vivas da comunidade.
Estruturas “vivas” da comunidade? Conhece outras? Ou estará a referir-se ao seu próprio partido que depois de ir para o governo engoliu os apitos laranjas e escondeu as vuvuzelas no sótão com que se manifestava ao lado dos comunistas, dos bloquistas e da CGTP?
Seguem-se-lhe ainda mais uns quantos lugares comuns e outras tretas do género e que lhe fica bem entender ser seu “dever denunciar os constrangimentos que se colocam aos cidadãos dos nossos concelhos.”
“Denunciar os constrangimentos?” Então uma senhora morre por falta de atendimento médico e a senhora deputada pretende denunciar os constrangimentos?
Denunciar os constrangimentos? Olhe que estamos a falar de soluções, e situações, que podem fazer a diferença entre a vida e da morte dos nossos concidadãos. Porra! Isto não é nenhum concurso epistolar.
E para denunciar os constrangimentos estou cá eu. A senhora tem por missão fazer mais e melhor, muito melhor, senão corre o sério risco de ser apenas um verbo-de-encher. Tem de lutar, tem de propor e votar leis sérias e realistas, tem de intervir na assembleia, tem que propor regras e soluções alternativas.
Em suma, tem de agir de acordo com o que se exige a um deputado da Nação: atuar, lutar, esgrimir argumentos, fazer política, incomodar, denunciar. Não vir para os jornais da terra dizer que fez uma pergunta formal ao senhor ministro.
Uma pergunta formal? Mas isso serve para quê? Quais os seus efeitos práticos? Estou em crer que a vossa pergunta vai ter o destino do caixote do lixo.
Na parte final diz que espera “as respostas a estas questões”. Olhe, eu dou-lhe um conselho de amigo: Espere sentada, como é seu timbre. Pois a resposta é bem capaz de não vir. E se vier, com toda a certeza que não será resposta nenhuma, pois a pergunta é uma espécie de atitude do tipo “agarrai-me senão eu bato-lhe”.
Atos deste tipo não servem nada nem ninguém. São uma pura perda de tempo. São uma incongruência política. Ou melhor, nem sequer isso são. Este tipo de procedimento é a política da subserviência. E por isso nada vale, nada adianta e de nada serve. Palavras leva-as o vento. E pensar que o país paga bons ordenados a quem tão pouco faz!
Alguns deputados fazem-me lembrar o capitão Flume, uma personagem do comicamente genial romance de Joseph Heller, Catch-22, que “dormia como um cepo todas as noites e limitava-se a sonhar que se conservava acordado. E os sonhos eram tão convincentes, que despertava deles todas as manhãs totalmente exausto e voltava em seguida a adormecer”.
113 – Depois do enquadramento teórico, e logo após o exemplo prático, o camarada esclarecedor decidiu, na segunda parte do seu douto esclarecimento, reportar-se ao Partido, à história do Partido, à luta do Partido, à organização do Partido, ao Comité Central do Partido, e, novamente, ao Secretário-Geral do Partido, o Camarada de Cristal Alberto Punhal, a quem o glorioso Partido glorioso devia a sua força telúrica, a sua organização exemplar e a sua pureza ideológica.
Durante o tempo que demorou a referir-se ao Camarada de Cristal, os luzeiros do camarada esclarecedor brilharam como duas estrelas cadentes, como as que indicaram a corte onde o menino Jesus, Maria, a sua mãe, e José, o seu putativo pai terreno, aguardaram durante algum tempo a visita dos Reis Magos.
A boca do camarada era como a bandeira vermelha desfraldada a adejar e a adejar ao vento, sempre com a nítida intenção de apontar a revolução proletária e a vitória final do comunismo. A vitória final.
Alberto Punhal tinha esse efeito catártico e redentor nos comunistas, era como um profeta venerável e venerado. Era até mais do que um Profeta, era um vidente, um homem que redimia os outros homens, e, claro está, as mulheres e os jovens, pela sua coragem, pela sua razão e pelo seu exemplo. Ele prometia-lhes (e havia de cumprir, sim havia de cumprir, havia de cumprir com toda a certeza), o céu na terra, o esplendor do comunismo, os amanhãs que haviam de cantar como o galo mais atrevido da capoeira da Dona Rosa o fazia todas as manhãs para acordar a capoeira, os da casa e o resto do bairro. Não antes do galo cantar três vezes, como o outro fez a Cristo para cumprir com o plano divino. Não sei se ainda me estão a seguir.
Portanto, ele, o Camarada de Cristal, não se limitava a ser um Cristo redentor, era um Deus triunfador. Um Deus objetivável e objetivado. Um deus quase humano. Um ser humano quase divino.
Relativamente à história do Partido, o camarada esclarecedor tagarelou que se fartou. Todos ficaram com a nítida sensação de que a verdadeira História de Portugal apenas principiou quando o glorioso Partido foi fundado.
A partir daqui talvez seja aconselhável dar a palavra em direto ao camarada esclarecedor. Assim evito más, ou desviantes, interpretações, juízos de valor arreliadores e ainda outro tipo de complicações abstrusas.
Ei-lo, o discurso: “A História. Falam da História de Portugal como se fosse verdadeira. Tudo o que lá vem escrito não passa de uma patranha, de uma falsificação, de uma história muito mal contada, relatada pelos vencedores, narrada pelas classes altas, ou pelos seus lacaios, pois a maioria da realeza era de um analfabetismo atroz e a burguesia não se lhes ficava atrás. E, para mal dos nossos pecados, os traidores sempre existiram ao longo da história, sempre prontos a servir quem os escravizava, os explorava, os ridicularizava. Os lacaios sempre foram piores dos que os seus amos.
A História de Portugal junguiu a luminosidade frenética, e enganadora, da exaltação da realeza com o desengano e as trevas da pobreza, da ignorância e da escravidão. Uma pequena minoria rebentava de fartura enquanto a imensa maioria do nosso querido e estimado povo definhava na mais impúdica miséria. Os ricos apenas serviam para folgar e mandar, enquanto os pobres aprendiam a matar e a morrer em nome de uma pátria que não os amava, de uma realeza que os desprezava, de um clero que os amaldiçoava e os condenava a viver no inferno antes de para lá irem, de um monarca que os detestava e de uma burguesia que os explorava até ao tutano. E isto foi assim durante séculos e séculos, até aos nossos dias.
O obeso D. Carlos teve mesmo o atrevimento de chamar ao seu próprio país piolheira. Ele é que era um pilho loiro e gordo que se alimentava da pobreza da plebe. Por isso, um filho do povo o abateu com um tiro certeiro.
Depois veio esse filho das trevas provincianas que governou este país sem sair de casa, a comer o seu caldinho à braseira e a beber o seu copinho de vinho fino que a empregada doméstica lhe servia. Antes lhe tivesse servido cicuta e tínhamos poupado imenso em vidas humanas.
O povo podia andar cheio de piolhos, passar uma lazeira de meter dó, mas tinha dignidade. Amava, e ama como nenhum outro, o seu país, a sua terra, os seus valores, as suas tradições. Os reis podiam comer do bom e do melhor e viver em palácios esplendorosos que não passavam de uns ignorantes pançudos. Quanto mais ignorantes mais pançudos e quanto mais pançudos mais ignorantes. Era este o círculo vicioso da monarquia e mais tarde do fascismo.
Enquanto a grande maioria do povo português morria à fome, os homens e as mulheres da realeza rebentavam de fartura. Morriam, com vossa licença, a arrotar por cima e por baixo. (Ah, ah, ah!, riu a plateia com ar sério.) Isso acontecia porque o povo, o nosso querido e estimado povo, não tinha consciência de classe, não tinha a perceção da sua força, não dava valor à sua genuína importância. Não se unia, não se organizava, não tinha ainda um partido que o defendesse. Todos sabemos que um país não existe sem o povo. Sem o seu povo. Mas o povo pode muito bem passar sem os poderosos. O que não pode passar é sem o seu glorioso Partido. E é aí que bate o ponto.
Depois de séculos e séculos de trevas, de outros tantos de enganos, e de décadas de ilusões e desilusões, eis que surge uma organização de novo tipo, fruto da luta tenaz e da afirmação intrínseca dos explorados que, já fartos de tanta exploração, tanta miséria e tanta palavra gasta em seu favor, se organizaram e criaram o nosso glorioso Partido.
Um partido marxista-leninista, um partido que nasceu com a intenção suprema de conquistar o poder para o povo. Não em nome do povo, mas com o povo e para o povo. Ali de braço dado com ele, o povo, numa aliança sagrada entre os operários, os camponeses e os verdadeiros intelectuais, aqueles que se aliviaram da sua carga libertina, titubeante e questionadora para abraçarem a verdadeira luta de classes em defesa da sua pátria e do seu povo. Não em seu nome, mas com ele, o povo, o nosso querido e estimado povo, o heroico povo português, ali lado a lado com o glorioso Partido, como uma muralha de aço. Nessa vontade libertadora, nesse fervor revolucionário que inflama a Europa e o mundo, que põe de joelhos a burguesia e que atemoriza o grande capital e os interesses financeiros.
Antigamente os filósofos tentavam compreender o mundo, mas, como muito bem disse Marx, o que urge fazer é modificá-lo. Já basta de tanta compreensão, de tanto estudo, de tanta palavra, de tanta argumentação. É chegada a hora de fazermos a revolução. É chegado o momento de os escravos se libertarem das grilhetas da opressão, da exploração e da subjugação. Não em nome do povo, mas com o povo. Com o heroico povo português. Esse povo que deu novos mundos ao mundo.
Quando o glorioso Partido Comunista foi fundado, com ele nasceu um mundo distinto, um mundo com diferentes possibilidades. É como se Portugal tivesse sido criado de novo. De certa maneira foi isso que aconteceu, pois já nada será como dantes.
Por isso é que o Partido é um coletivo combativo, com uma ideia bem definida daquilo que pretende, do caminho que tem de trilhar, das armas que vai ter de utilizar, das alianças que vai ter de fazer e das lutas que vai ter de travar. Não em nome do povo, mas com o povo. Sempre, sempre ao lado do povo.
Para isso é preciso ganhar corpo, conquistar militantes, convencer cada vez mais e mais pessoas da nossa verdade, da nossa determinação, da nossa coragem, da nossa frontalidade, da razão que nos assiste e da nossa fé inabalável no futuro, no marxismo-leninismo, no comunismo.
Mas uma revolução não se faz sem revolucionários. Sem verdadeiros revolucionários. E os verdadeiros revolucionários só podem surgir dentro do Partido. É certo e sabido que os verdadeiros revolucionários apenas podem ser comunistas. E vice-versa. Para isso necessitam de esclarecimento, informação, enquadramento, estudo. Enfim, carecem de trabalho revolucionário. Não em nome do povo, mas com o povo. Sempre, sempre ao lado do povo.
Não é apenas a leitura dos clássicos marxistas que faz um verdadeiro revolucionário. Se fosse apenas isso a revolução podia fazer-se já amanhã de manhã. Não. Um revolucionário é aquele que junta a teoria à prática, é aquele que não se limita a compreender e a explicar o mundo. É todo aquele que o quer modificar e que para isso não se coíbe de pegar em armas, se necessário for, para fazer triunfar a revolução. Não em nome do povo, mas com o povo.
Por isso é que o Partido faz estas sessões de esclarecimento, para trazer para o seu seio os melhores filhos do nosso povo. É com eles que o partido da classe operária vai chegar ao poder. Não em nome do povo, mas com o povo. Sempre, sempre ao lado do povo. Com o povo e com mais ninguém. Disso o Partido não abdica. Apenas a vitória da classe operária, em sagrada união com os camponeses, é que libertará Portugal do jugo do capitalismo e do imperialismo. Não existe outra forma. O marxismo-leninismo nisso é clarinho como água: para a classe operária triunfar é preciso derrotar a burguesia e os capitalistas. Eliminá-los definitivamente até deles nada restar, a não ser os seus restos expostos no museu da exploração. (Ah, ah, ah!, sorriu, como quem tosse, o camarada esclarecedor.)
Aderir ao Partido é um ato de coragem, um ato de fé revolucionária, um ato apenas ao alcance dos mais corajosos, dos mais altruístas, dos mais inteligentes. Aderir ao Partido é entrar no comboio da nova História, no comboio do futuro, no comboio do comunismo. O comunismo é o futuro da Humanidade. E quem disser o contrário mente. Os outros que se dizem socialistas, sociais-democratas, liberais, democratas-cristãos, ou maoístas, pois para o caso tanto dá, apenas são um carrossel que anda às voltas, às voltas, mas não sai do sítio.
O Partido só é grande porque foi forjado na luta contra o fascismo, na luta em defesa dos operários, dos camponeses e dos estudantes. O Partido só é grande e glorioso porque é filho de um grande e heroico povo: o português.”
No final, o camarada esclarecedor apelou mais uma vez à adesão ao Partido, e, na companhia da mesa e de toda a plateia, pôs-se a gritar repetidas vezes, como um possesso, de punho direito erguido, a sigla do Partido, (pois com a esquerda não podia ser, dado que era dessa forma que os socialistas de Mário Soares se manifestavam), cantou a Internacional e no final escutou as palmas da assistência com ar circunspecto, imitando na perfeição a pose de Alberto Punhal.
Apenas o José se inibiu, na hora de gritar a sigla partidária, de levantar o punho, pois era canhoto, e de cantar a Internacional. O Graça bem olhou para ele com cara de Estaline, mas o José nisso era intransigente, ninguém o conseguia pôr a cantar uma canção que não sabia e não compreendida, a gritar três letras que nada queriam significar e a dar murros no ar como se quisesse intimidar alguém. Além disso era canhoto.
O José era homem de outras guerras. As missas coletivas provocavam-lhe urticária. Tinha todas as razões e mais algumas para se afastar do Partido, mas parece que o destino marca a hora, ou pelo menos coloca o timbre no lugar-comum, e, em vez de se afastar, como lhe recomendava a razão, ou pelo menos o seu sexto sentido, aproximou-se. Se tivesse rasgado a ficha e queimado o livrinho teria sido bem melhor. Evitava dessa forma ser o mártir que mais à frente reconheceremos.
Hoje o silêncio das minhas palavras interiores preencheu-se de fábulas instantâneas. Depois desfiz-me desse assédio de ausência e da sua incessante procura circular. Cá fora as mesmas marcas coloridas do tédio e da afeição procuram defender-me do mundo. As pessoas passam inscritas nos passeios e nas janelas e nas portas das casas. E as estradas perseguem o céu oblíquo e os homens e as mulheres continuam a perseguir o seu destino que não é destino nenhum. Por isso eu escrevo nos jardins aproveitando a tinta da sua água, do seu verde e do fogo da luz do seu sol. E escrevo palavras de sossego inscritas nas suas folhas e nas sombras dos seus muros. E escrevo-te, e escrevo-me, com o sabor da surpresa. Escrevo por dentro das formas perfeitas e suaves dos frutos. Escrevo em arabescos de uma leveza mágica. Escrevo em sulcos que se inclinam para a embriaguez húmida da terra. Escrevo nas árvores que se incendeiam. Escrevo sussurrando primaveras e soprando invernos e moldando pequenos planetas de açúcar. E a tarde encanta-se agora com as nuvens que são calmas e que deslizam em silêncio sopradas pelo nosso desejo e pela nossa ilusão. Uma princesa ilimitada abre-se no espaço subtil de uma ideia e luta contra a violência espantada da infância. E ilumina e inunda os sonhos dos livros que pesam as suas sílabas de sombra. E os duendes descem pelos bosques à procura de meninas descalças e das formas da água do orvalho e dos pássaros suspensos e da sede da terra e das palavras que fazem histórias verticais. E a água move-se e os duendes tremem e a princesa ri-se como se fosse uma possibilidade de bruxa má. Agora as nuvens germinam nas suas esferas translúcidas e nos seus anéis de água. Num banco de jardim, duas bocas descobrem-se no seu veludo incandescente e saboreiam o perfeito sabor dos frutos lisos e do seu sumo fresco. E os dois corpos encerrados nas suas superfícies delicadas abrem-se como círios vermelhos e brilham por dentro do seu calor, da sua volúpia, do seu desejo. Os seus olhos embriagam-se e absorvem toda a luz do arco-íris onde agora dormem as nuvens. Uma brisa fresca expande-lhes o odor da sua orgia verde. São agora um corpo duplo e uno. E criam a origem do mundo e escutam as palavras em festa dentro do seu princípio de aprendizes de amantes. Eu decido parar tudo para escutar a sua festa de silêncio. Distintas coisas vacilam e concentram-se e dilatam-se por cima deste jardim de espuma. Mais ao longe uma criança brinca na relva acariciando o tempo que tão mal lhe há de fazer. O ar prolonga-se no entardecer. Nada se cria. O vazio concentra-se. Sinto a minha respiração aflita. Olho o par aninhado no banco de jardim. Algo me inunda. Reconheço-me. Reconheço-nos. Algo se incendeia. Tudo recomeça.
O ano vai seco. Mesmo muito seco. Não tem chovido coisa que se veja. Possivelmente a culpa é do engenheiro Sócrates. Bem vistas as coisas, a culpa só pode ser dele. Este governo (ai como as palavras estão gastas) não o diz, mas insinua-o.
De facto tem de haver um culpado. Até para a culpa não morrer solteira, pois com este executivo (ai como as palavras dizem coisas que não querem dizer) todos nós somos culpados pela grave situação social, económica e financeira do país.
Lá chover não chove, mas o país mete água por todos os lados. E não só mete água. Mete pena. Mete muita pena. Mete dó.
E não é só o país que mete dó. Chaves segue-lhe o exemplo. Até o Tâmega mete pena. E já mete pena há muito tempo.
A verdade é que para tentar remediar o estado lastimável do rio, a anterior autarquia mandou fazer o célebre espelho de água entre pontes. Ou seja, alindou centenas de metros mas esqueceu-se, ou não teve tempo, de arranjar vários quilómetros a montante e a jusante que entristecem os flavienses mais atentos e amarguram quem nos visita.
A atual autarquia flaviense não tem feito outra coisa que não seja varrer o lixo para debaixo do tapete, como se o espelho de água resolvesse os problemas estruturais das margens e do leito do rio. É este espírito de novo-riquismo que nos continua a fazer empobrecer a cada dia que passa.
Enquanto olhamos entretidos para o espelho de água, o rio continua a definhar, a agonizar, a poluir-se e a morrer mais um pouco todos os anos.
Por vezes, as autoridades regionais ou nacionais fazem que se condoem com este estado de coisas e vêm até a “província” dizer que dizem e fazer que fazem. Vêm tagarelar.
Para isso é são que pagas, desculpa-se alguém por nós.
Há meia dúzia de semanas vieram até Chaves uns pândegos participar num fórum regional com a intenção de “potenciar a sustentabilidade dos recursos hídricos”, no âmbito do Plano de Gestão das Regiões Hidrográficas do Norte, por obrigação legislativa europeia.
Vieram até cá e disseram coisas tão relevantes como “a Veiga é uma massa de água que está a ser monitorizada, está em bom estado, mas é preciso prevenir, controlando as descargas de resíduos e a poluição difusa”.
Isto já nós o sabemos, vai para mais de vinte anos. Mas eles, os tagarelas iluminados que dirigem estes fóruns, descem à província e tratam logo de nos encher os ouvidos com lugares comuns e verdades “lapalissianas” como se fossemos parvos.
Disseram, para quem os quis ouvir, que vinham até nós para auscultar as opiniões, críticas e sugestões das entidades da região com responsabilidades no setor das águas, como as autarquias, o Ministério da Agricultura, a GNR, a EDP, as empresas gestoras dos sistemas de abastecimento e saneamento, bem como os empresários e os académicos. Ou seja, os suspeitos do costume.
É caso para dizer que eles ouvem, ouvem, ouvem e nada fazem. Ouvem, ouvem, escrevem, escrevem, falam, falam, mas, esses tagarelas de pacotilha, não fazem nada.
O rio a definhar há décadas, a morrer ali mesmo aos nossos pés e os tagarelas das instituições vêm até nós para “enriquecer o plano com a participação das instituições para sermos mais eficazes, uma vez que os recursos financeiros são escassos”. Isto porque temos de “cumprir as obrigações ambientais da União Europeia.”
Eles, os tagarelas, fazem os projetos, realizam fóruns, andam de um lado para o outro nos seus carros, elaboram estudos, gráficos e relatórios. E o Tâmega para ali a morrer há décadas. E eles, os tagarelas, a fazer que fazem, a dizer que dizem…
E o nosso rio a definhar como um peixe ferido de morte.
E reconhecem, os tagarelas, na sua sapiente erudição, que “embora o plano atribua uma classificação deficitária à qualidade da água do Tâmega”, como se isso fosse um novidade, “devido à eutrofização provocada pela falta de velocidade da água”, que mais não é do que uma crítica velada ao Espelho de Água, “a Veiga é uma massa que está monitorizada”, etc.
E fazem-se estes senhores tagarelas pagar muito bem para dizerem aquilo que todos já sabemos há tanto tempo.
E o Tâmega ali a nossos pés a definhar e a morrer mais um pouco todos os anos.
E estes senhores tagarelas a explicarem o óbvio, sem mexerem uma palha, a não ser dizer que dizem, e que “monitorizam”, e blá, blá, blá e mais blá blá, blá e “eutrofização” para aqui e “sustentabilidade” para ali e “massa de água” para acolá.
E ainda mais blá, blá, blá.
Depois, os tagarelas resolveram ir passear pelas margens do rio, lá para o lado das lagoas existentes no meio da Veiga. E constataram o óbvio. O lixo que por ali se acumula vai para mais de vinte anos.
O lixo. Toneladas e toneladas de lixo. Lixo e mais lixo. Lixo por todo o lado. Camadas de entulho e margens degradadas. As feridas evidentes da extração ilegal de inertes. Esse foi o cenário terceiro-mundista que encontraram: áreas enormes de depósito de lixo de toda a espécie.
A verdade é que durante a “década de progresso” de João Batista, e dos seus acompanhantes, a nossa autarquia fez que nada viu, fechou os olhos a uma realidade que até cegava, de tão evidente.
Um fechar de olhos irresponsável por parte da nossa Câmara, devidamente misturado com muitos interesses económicos.
Quase um cenário de guerra: Montanhas de entulho com mais de dez metros de altura, máquinas abandonadas, as lagoas a secarem, os peixes a morrerem, ali aos nossos pés, perante a indiferença de quem manda, de quem pode, e deve, alterar este rumo de coisas, de quem afirma que nos governa.
Mas, convenhamos, foi um técnico da Câmara que serviu de cicerone à visita ao depósito de lixo que é atualmente o Tâmega.
Nós nisso somos exímios: não temos pudor algum em mostrar as nossas chagas, em revelar aos outros o nosso subdesenvolvimento, como se fôssemos masoquistas e indolentes.
Nada do que ali se encontra se deve ao desleixo dos flavienses, mas antes à incúria de uns tantos que usam e abusam do que é de todos como se fosse seu, perante a indiferença da autarquia e o fechar de olhos das autoridades competentes.
Os senhores entendidos, e tagarelas, discutiram a vastidão e a complexidade das leis, as dificuldades da aplicação das diretivas, a ausência de cartografia e fiscalização das massas de água subterrâneas e a sobreposição de competências entre entidades.
Ou seja, discutiram entre si aquilo que são, tagarelaram numa postura autista, empurrando as culpas para o lado. Pois são eles, os tagarelas, que fazem as leis, são eles que fazem os projetos, os estudos, os fóruns, os passeios, etc.
Eles, os tagarelas, que são pagos para atuarem, queixam-se e monitorizam. Falam. Não agem, falam.
E o Tâmega a definhar, a morrer, perante a indiferença das autoridades, dos parlantes, dos suspeitos do costume. Dos tagarelas.
O lixo a acumular-se, o rio a definhar, os peixes a morrer, e eles, os tagarelas, a falar, a dizer que dizem, a falar que falam.
E o Tâmega a morrer.
O lixo a amontoar-se nas barbas das autoridades civis e militares, e os pândegos tagarelas lá de baixo a dizer que dizem, a falar que falam…
E o Tâmega a morrer, a desaparecer ali a nosso pés, num choro fino e manso que arrepia todos quantos nele tomaram banho, todos quantos o amaram e acarinharam.
O Tâmega a morrer, o lixo a asfixiá-lo, e os tagarelas das palavras e dos projetos, a dizer que dizem, a falar que falam. Ali numa cumplicidade enervante. Num fazer que faz provocador. Numa encenação impertinente.
E por falar em água, em poluição e desleixo, deixem que vos diga umas palavrinhas acerca das “comemorações” do 25 de Abril levadas a efeito pela nossa autarquia.
A cada ano que passa, cada vez mais as tratam como lixo.
Bem podem tentar meter o 25 de Abril no contentor do lixo dizendo que pretendem mandá-lo para a reciclagem, mas a tentativa só os menoriza.
As comemorações da nossa autarquia não tiveram rigorosamente nada de relevante. Foram apenas meia dúzia de iniciativas ridículas, sensaboronas, medíocres, irrisórias e irrelevantes. Tiveram até uma aula de hidroginástica na Piscina Municipal.
Por amor de Deus, tirem-nos deste filme.
A autarquia pode não gostar da data, está no seu direito democrático – e olhem que eu já vi militantes do PSD botar gravata preta, em sinal de luto, neste dia –, mas não podem, e não devem, ridicularizar e esvaziar de sentido esta data memorável. Olhem que o ridículo pode matar.
Se não gostam do 25 de Abril não o comemorem. Mais vale ser conservador coerente do que democrata fingidor.
A cada dia que passa, torna-se mais evidente que a democracia morre asfixiada pelas mãos ríspidas deste rancho de democratas inertes.
Oxalá não morram também eles asfixiados por causa da eutrofização que provocam nas águas quase paradas da nossa cidade e do nosso concelho, cada vez mais rarefeitas de liberdade, de esperança e de futuro.
112 – Depois de malhar nos socialistas, de desancar a democracia, de execrar os parlamentos burgueses, de pregar a morte à reação, de defender a extinção da exploração do homem pelo homem, de exaltar a sublime ideia do socialismo científico, dos seus fundadores teóricos Marx e Engels, e dos seus obreiros superiores Lenine e Estaline, e do seu máximo defensor, impulsionador e divulgador em Portugal, o incansável camarada Punhal, passou à fase pragmática. E deu como único, derradeiro e exclusivo exemplo, a União Soviética. A querida e revolucionária União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, berço e alfobre dos líderes eternos do comunismo: Lenine e Estaline. E do prestigiado Brejnev.
E não poupou nas palavras, nem no entusiasmo, nem no engodo. A União Soviética, a dileta pátria de Lenine e Estaline, a querida e revolucionária União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, era o Farol do Socialismo, o Sol que iluminava o Mundo.
O camarada Punhal bem o afirmava. E afirmava-o de tal maneira que não havia forma de o contradizer. Porque a verdade não se contradiz, aceita-se tal como é: pura. Por isso é que é verdade, senão é outra coisa qualquer menos verdade. E, como muito bem ensinou Lenine, e afirma o camarada Alberto Punhal, só a verdade é revolucionária. Por isso é que o Partido é a verdade, porque só ela é revolucionária. E como o Partido é revolucionário só pode interpretar, difundir e defender a verdade. Toda a verdade. Nada mais do que a verdade.
E não se coibiu de vender a banha da cobra e insistir na característica visionária do venerável camarada Punhal.
A ele, ao camarada Punhal, ninguém o conseguia contradizer. Ninguém era capaz de tamanha ousadia, de tal atrevimento. Porque não se consegue contradizer a verdade. E o camarada Punhal – tal como o Partido, tal como Marx, tal como Engels e tal e qual como Lenine e Estaline –, só profere a verdade porque não sabe falar de outro modo.
“Ele, o camarada Punhal, conhecido na intimidade como o comunista de Cristal, apenas diz verdades, verdades tão verdadeiras como punhos, bem como punhos não porque esse é o símbolo dos socialistas traidores de Mário Soares. Punhal diz verdades como foices, como martelos, como estrelas, sim como estrelas refulgentes. Ele é, era e será, ó se será!, a estrela polar do Partido e do Movimento Comunista Internacional. É a modos como a lâmpada do farol do internacionalismo proletário, que no meio da tempestade marítima do capitalismo ilumina a humanidade.”
O seu, dele, do camarada Punhal, claro está, prestígio e a sua inteligência ímpares permitiram-lhe assistir mesmo às reuniões do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética, mais conhecido pela sua sigla de PCUS. O querido partido de Lenine e Estaline.
Com o seu entusiasmo de papagaio comunista continuou a dar largas à liturgia marxista-leninista.
“E viva o socialismo. Ou melhor: E viva o comunismo. O socialismo é uma fase de transição entre a sociedade burguesa, capitalista, decadente, e uma sociedade de novo tipo. Já o comunismo é o fim da decadente e maléfica sociedade capitalista e o início do paraíso na Terra. É uma outra sociedade. Uma sociedade novinha em folha. Como uma fábrica de frigoríficos… Não de frigoríficos não, senão lá vão de novo associar os comunistas à Sibéria e a essas falsidades reacionárias de que os revolucionários são frios e calculistas. E isso é uma tremenda, uma medonha, uma ignóbil mentira.
O comunismo é uma sociedade sobretudo parecida com uma fábrica de tratores, que podem andar devagar mas fazem-no com firmeza. Mas qualquer dia a URSS transforma-se numa fábrica de produzir aviões a jato rumo ao comunismo.
Por muito que custe à reação, os comunistas também são seres humanos, mesmo que por vezes o não pareçam. Também comem, bebem e amam. Sim, também amam, comem e bebem. Só que para eles a revolução está antes de tudo e depois de tudo. E, o que é ainda mais importante, no meio de tudo.
Um verdadeiro comunista só pensa em fazer a revolução que nos leve ao comunismo. Só come para fazer a revolução. Apenas bebe para fazer a revolução. Unicamente ama para fazer a revolução. Simplesmente trabalha para fazer a revolução. Somente estuda para fazer a revolução. Só se diverte para fazer a revolução. Porque uma revolução que não nos encaminhe na direção do comunismo não é revolução não é nada.
Os comunistas não querem apenas construir uma sociedade melhor do que esta. Os comunistas lutam por uma sociedade perfeita: o comunismo. Os comunistas não são gente de meias tintas. Por isso são superiores moralmente. A quem duvide recomendo a leitura do livro do camarada Punhal: “A Moral Superior dos Comunistas”.
Sim, os comunistas não são gente de meias tintas. Por isso são moralmente superiores a todos os outros. O nosso símbolo é a foice e o martelo, o símbolo sagrado da aliança operária e camponesa. A nossa bandeira é vermelha e nela está inscrita uma estrela amarela como símbolo do internacionalismo proletário. E está tudo dito.
Nós não nos escondemos atrás de um punho e também não nos encobrimos atrás de setas, ou chaminés, que apontam o céu. O céu dos pardais ou dos parvos. Ah, ah, ah! Nós não estamos aqui para enganar ninguém. Nós representamos o povo, nós somos os filhos diletos do povo.
Ao contrário dos católicos, que prometem o Éden numa outra vida, os verdadeiros comunistas planeiam construir o Paraíso na Terra.
Entendamo-nos, para que não fiquem dúvidas, o comunismo é melhor do que o Paraíso, pois o Paraíso é apenas uma ficção bíblica enquanto o comunismo é uma realidade científica provada por Marx, Engels, Lenine e Estaline.
Apesar do mundo estar uma confusão, ainda bem que existe a União Soviética. Se não fosse a URSS, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a corajosa pátria dos sovietes, dos operários e camponeses, o mundo não tinha farol, não tinha norte, não tinha rumo, não tinha futuro, não tinha nada além de escravatura, exploração, ignorância e doença. O mundo seria o reino das trevas.
Os camaradas que lá viveram são as melhores testemunhas do extraordinário milagre que se operou na URSS. E este milagre não se ficou a dever à intervenção divina, mas antes ao trabalho e à luta dos homens. Dos homens e das mulheres que deram a sua vida para que ali nascesse a verdadeira sociedade socialista a caminho do comunismo. Que venceram a burguesia, que derrotaram o Czar, que abateram o nazismo e Hitler.
A organização bolchevique derrotou os príncipes, os descendentes dos boiardos, a nobreza, os seus lacaios e os kulaks. E de uma sociedade praticamente feudal construiu uma das sociedades mais avançadas do mundo. Senão mesmo a mais avançada. Pelo menos em termos sociais e humanos.
Ali não existem classes, não subsistem exploradores, não existem explorados. Na URSS são todos iguais. Todos têm os mesmos direitos. Todos trabalham e ninguém faz greve. Fazer greve para quê? Na pátria dos sovietes ninguém explora ninguém. A exploração está proibida por lei. Lá todos são obrigados a ser felizes, a defenderem a igualdade, a serem cultos e saudáveis.
Na URSS, os seres humanos nascem iguais em direitos e deveres. Ali não se brinca ao socialismo. Ali constrói-se o comunismo como quem tempera o aço. Na URSS quem manda são os operários. Ou melhor, quem manda é o Partido dos operários, que é a vanguarda do seu povo, que é a nata do proletariado russo. E quem dirige o Partido é o Comité Central, que é o órgão mais importante que lá existe.
O Partido Comunista da URSS é um partido de novo tipo. Não é como os partidos que estamos habitados a ver. Lá o Partido manda em tudo. Mas em tudo mesmo. Lá não se brinca, nem com a economia, nem com as finanças, nem com a educação, nem com a saúde, nem com a felicidade das pessoas. Lá todos têm acesso aos bens de consumo e quase tudo é grátis. Então de cultura nem se fala. Lá a felicidade não é apenas um direito. É, sobretudo, um dever. Bem assim como a cultura, a saúde, a educação, etc. Podemos afirmar que a felicidade na URSS não é uma ilusão, é a nova ordem bolchevique.”
De seguida mandou distribuir umas revistas da URSS pelos assistentes e deu-lhe uma aula prática de felicidade. Na capa, como todos puderam reparar, um casal de operários soviéticos saía de uma fábrica a rir-se. Mas a rir-se mesmo, com todo o contentamento estampado no rosto. De mão dada e a rir empanturrados de felicidade comunista.
Lá o trabalho não era castigo, não era obrigação, não era dever. Era mesmo uma dádiva, um prazer. Na URSS todos trabalhavam para o bem comum. Todos eram felizes porque faziam a felicidade dos seus camaradas. Na URSS todos eram irmãos, todos eram iguais, todos eram camaradas, mas camaradas mesmo.
Seguidamente evidenciou algumas páginas interiores para comprovar a foto da capa. De facto, os operários não só saíam da fábrica bem vestidos, bem lavados e engomados, e os casais a sorrir e de mão dada, como entravam logo de manhãzinha a sorrir, a cantar ou a assobiar o Kalinka (aqui vos deixamos a primeira quadra em cirílico para desfrutarem: Калинка, калинка, калинка моя! / В саду ягода малинка, малинка моя! / Калинка, калинка, калинка моя! / В саду ягода малинка, малинка моя!), ou algo do género, trabalhavam dentro das fábricas com um sorriso rasgado na face, fossem eles camaradas operários trabalhadores operários ou camaradas operários trabalhadores dirigentes ou camaradas operários trabalhadores vigilantes ou camaradas operários engenheiros trabalhadores ou ainda camaradas operários trabalhadores do Partido que ali estavam, não para vigiar ou controlar, mas para dar ânimo, para incentivar, para glorificar o comunismo, o trabalho e a organização de todos os camaradas que sorriam enquanto trabalhavam devidamente organizados, esclarecidos e orientados.
Mas os risos e os sorrisos não acabavam aí. Ou melhor, todos os camaradas que apareciam na revista sorriam, estivessem eles nas fábricas, em suas casas, nas escolas, nos museus, na rua, nas filas de abastecimento para o papel higiénico ou para o sabão. Sorriam com toda a satisfação do mundo. O papel higiénico e o sabão podiam escassear, mas, como muito bem dizia o camarada esclarecedor, a URSS ainda não era a sociedade perfeita. O papel servia para coisas mais nobres do que produzir papel higiénico. Servia para imprimir livros, revistas e jornais, como por exemplo o Pravda.
Aqui o camarada fez uma pausa para beber água e teorizou: “Poderão os camaradas e amigos pensar que se resolve o problema utilizando as folhas do Pravda para a higiene pessoal. Mas quem é que se atreve a limpar o rabo ao jornal que é o órgão da classe operária e do Estado Proletário Russo? É como pensar utilizar A Verdade como papel higiénico. Alguém é capaz?
O José, na sua ingenuidade democrática, preparava-se para responder afirmativamente quando o Graça lhe deu um forte encontrão que o pôs confuso.
Prossigamos. Como o camarada esclarecedor ia dizendo, a URSS ainda não era uma sociedade comunista. O papel higiénico assim o demonstrava, mas caminhava nessa direção. Ainda não estava lá, mas caminhava nesse sentido. Ai caminhava sim senhor. Mas o caminho não era fácil.
Podiam ter problemas em arranjar sabão para tomar banho e em limpar o rabo com alguma comodidade, mas possuíam foguetões proletários, possuíam tanques operários, aviões e bombas atómicas comunistas tão perfeitas que defendiam a pátria do socialismo, das guerras e das pérfidas bombas atómicas capitalistas.
Já um pouco cansado, o camarada esclarecedor deu por terminada a primeira parte da sessão, pôs-se de pé e começou a gritar a sigla do Partido e a cantar a Internacional e o Prá Frente Camaradas, no que foi acompanhado pelos presentes com muito carinho, respeito e sofrível afinação.
De seguida foram distribuídas algumas fichas de adesão que muitos dos presentes preencheram como quem compra um bilhete de lotaria que os podia fazer ganhar o Paraíso na Terra. O José deixou essa felicidade para mais tarde.
A tua língua tem o brilho doce dos frutos. Pausa. A tua língua sabe a mar e o teu sexo sabe a sol. Outra pausa. Sigo diretamente para o teu corpo envolto na paz dos campos. O mundo é agora uma enorme flor imprevista. Tens a mesma alegria azul do dia e o verde da vida e o largo espectro laranja do verão. Espero-te dentro da radiação expansiva da exaltação. Quanto mais te alcanço mais apuro a minha luz interior. O meu corpo no teu corpo tem a mesma incandescência do magma. É essa a sua invisível virtude. É essa a sua evidente expansão. Quando cai a noite os nossos corpos ajustam-se à sua transparente solidão. E nela se prolongam. E nela se expõem. E nela desenham a subtilíssima linha do amor. E o amor é outra vez um imenso e faustoso vagar. É devagar que te cavalgo pensando em corpos de palavras imensas. O espaço é uma ausência submissa. Recuperamos a terra antiga e o fausto iluminado da paciência. O sábio silêncio da dádiva volta a ser escrito e reescrito. Todo o orgasmo é o lume perfeito. Sinto reinar em mim o ponto íntimo do desejo. A audição atenta do teu ritmo cardíaco coloca paciência nos nossos gemidos. E os gemidos expõem-se com o seu fulgor específico. Agora sou outra vez o pastor de sentimentos. O verdadeiro pastor de epifanias. O alicerce tensíssimo do rigor da minha respiração entrecortada. E as imagens explicitamente sexuais transformam-se em borboletas de eternidade. Subsiste sempre uma passagem submissa. É essa a eternidade fugaz do dia que nos entra pelos olhos com a sua radiação atómica. O tempo sobe pelas imagens e define-lhe o infinito. Passamos do refulgente crepúsculo atual ao limbo da bruma do passado. As imagens vivas voltam a ser abstratas. Todas as frases sussurradas voltam a ser intensamente ambíguas e os corpos voltam a ser frágeis. E os olhares voltam a entrar na sua luz de espanto. Ambos nos aquecemos no nosso fogo místico. O teu sexo abre-se até ao génesis. Novamente a entrega volta a ser uma dádiva eficaz. Aí celebramos a sua narração. O prazer aceso é novamente um sinal de glória. Acolhemo-nos naquilo que nos falta. Escutamos o silêncio que cresce dentro de nós. A sua unidade profunda. O seu sofrimento espantado. Repouso no evidente prodígio transparente do orvalho. Essa é agora a tua pele. É aí onde sacio a minha sede. Na sedução empolgante do teu sexo subtil. Na sua humidade de língua doce. Pausa. No seu brilho de fruto. Na sua surpresa imensa. Na sua abertura santificada. Quando fecho os olhos tudo se ilumina por dentro. O amor é esse vagar eterno. Essa extensão de glória. Esse júbilo da existência. Esse ato de persistência que se lê como quem sonha. Voltamos em maré alta. Os verbos corporais desassossegam-se indefinidamente. O teu corpo. O meu corpo. Ainda há tempo. A tua língua tem o brilho doce dos frutos. Pausa. A tua língua sabe a mar e o teu sexo sabe a sol. Outra pausa. Noé que se espante de novo. Pausa (a)final.
Desta vez tinha o firme propósito de escrever sobre os passarinhos, a primavera, as flores, a melopeia dos riachos e a música sinfónica ou coisa pelo estilo. Juro que sim. Olhando à minha volta, subiu por mim acima essa vontade de ser agradável aos estimados eleitores e de ser sincero com a mãe natureza. Juro que queria. Juro mesmo. Eu queria porque estava necessitado de fazer uma pausa em relação aos problemas da nossa cidade. Mas os tempos que vivemos não estão para distrações.
Mal me pus a escutar o meu entorno, em vez de ouvir os pássaros, chegaram-me aos ouvidos os gritos de protesto e indignação dos funcionários da Misericórdia de Chaves que já não recebem os seus salários há seis meses. Ensaiei concentrar-me nos pássaros e nos riachos mais a sua melopeia, mas as palavras dos manifestantes bateram-me mais forte. Sobrepuseram-se. Mas eu tentei de novo concentrar-me nos chilreios das aves: chriu, chriu, chriu…
Mas as palavras gritadas pelos manifestantes impunham-se: “Assim não pode ser, trabalhar sem receber.” E eu de novo a pensar na melopeia dos riachos e nos chilreios dos pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as palavras singelas dos trabalhadores da Misericórdia a baterem-me na cabeça como badalos aflitos: “Vivo numa situação muito complicada, já desliguei o frigorífico porque está vazio. O meu filho vai para a escola sem um cêntimo no bolso porque não tenho dinheiro para lhe dar.”
E eu a tentar concentrar-me na musiquinha suave dos riachos e das fontes e a tentar assobiar: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… na companhia das aves. E a realidade da vida dos meus conterrâneos a dar-me bofetadas geladas: “Passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso.” E os passarinhos lá nas árvores: chriu, chriu, chriu… e as águas dos riachos a sussurrarem limpidez e tranquilidade. E eu a tentar concentrar-me na primavera, no sol, a tentar desviar o pensamento. Mas a ingrata realidade a dar-me murros no estômago, a dar-me a provar o fel do desespero: “As pessoas começaram a ouvir falar de crise agora, nós já estamos a vivê-la há muito tempo…”
E os pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E a realidade: “Somos nós que estamos a segurar a Santa Casa, nunca abandonámos o serviço.” E eu a tentar assobiar como os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E os passarinhos a assobiar como os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas tranquilas dos riachos a correrem para o Tâmega. E a realidade pura e dura a dar-me bofetadas: “Há pessoas que não têm dinheiro para vir trabalhar, nem para comer e sobrevivem graças à ajuda familiar.”
E os pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E o senhor Provedor, militante ativo do PSD local e com responsabilidades políticas evidentes na maioria que governa a nossa autarquia, a assobiar para o lado, afirmando que compreende a indignação dos funcionários. E o Governo a dizer que disponibiliza as verbas mas a não transferir o dinheiro. E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E eu: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas tranquilas dos riachos a correrem encosta abaixo pelo meio das ervas e das fragas.
E o senhor Provedor, que apenas por mero acaso é um militante destacado do PSD flaviense, a mostrar-se impotente para resolver a situação e a visitar as bruxas de Montalegre em noite de forte chuvada. E Deus a desconfiar da santidade da Santa Casa. E eu: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o senhor presidente da Câmara a sorrir já não sabendo bem para quê, nem porquê. E o seu vice, que veio para os jornais afirmar-se como o provedor dos velhinhos, das mulheres desprotegidas e das crianças desvalidas, em parte incerta.
E João Batista a receber do sindicato dos trabalhadores a moção de protesto e a debater-se com a sua impotência operacional, com a insensibilidade dos “seus” governantes, com este pingue-pongue absurdo entre as culpas e a irresponsabilidade de uns e a inoperância de outros. E o João Batista a atrair a si os dossiês difíceis para libertar o seu vice para a campanha. E o António a dar de “frosques” enquanto os nossos munícipes passam as passas do Algarve.
E de repente os passarinhos levantam voo e vão chilrear para outras bandas. E eu sento-me num banco de um velho jardim destruído e tento lembrar-me da parte de uma peça qualquer de Bach. Eu gosto muito de Bach. Mas tenho dificuldade em apanhar assim de repente o seu cravo bem temperado. Ao longe observo os manifestantes a rumarem cabisbaixos a suas casas para provarem o sabor de amêndoa amarga das promessas de atenção dos nossos autarcas na sua infeliz Páscoa.
Entretanto abro um jornal da terra e dou de caras com o vice de João Batista. Afinal quem se quer bem sempre se encontra. Eu pelo menos encontro-o desde há uns meses a esta parte sempre nas páginas dos jornais tentando pôr-se em bicos de pés para dar nas vistas. Sempre em bicos de pés.
Numa página par do jornal, a subalterna em termos de importância de informação e publicidade, vem a notícia de que “a indefinição da posição da autarquia quanto ao GD Chaves levou a Comissão Administrativa do Desportivo a entender que não tinha condições para apresentar a candidatura que a levasse a assumir um mandato como Direção”. Concluo que a tal Comissão se fartou das belas palavras de João Batista, do seu sorriso militante e das inúmeras promessas por cumprir por parte da Câmara relativas a subsídios de atividades desportivas e a infraestruturas prometidas e nunca realizadas.
Leio depois que a Câmara de Chaves emitiu um comunicado reagindo às críticas da citada Comissão. Independentemente da letra do documento, que é uma afirmação de serôdios princípios, não vem assinado por ninguém. Ou seja, a posição é de toda a Câmara. Desta vez nem João Batista se mostrou disponível para arcar com toda a responsabilidade para cima das suas costas. E, estou em crer, o seu vice também fugiu dela com muita subtileza. Uma coisa é dizer-se que se faz. Outra é fazer. E o António é muito bom na primeira premissa, mas é péssimo na segunda.
No final, a tal CMC, não sabemos bem em nome de quem, diz que “não cede a pressões.” Deixem-me rir. Ai não que não cede. Não tem feito outra coisa desde que tomou posse. Sempre cedeu no interesse dos poderosos e no dos seus apaniguados. Só nunca cedeu numa coisa: na insignificância que permanentemente atribuiu aos verdadeiros interesses das nossas populações, nomeadamente na qualidade da educação, na defesa dos cuidados de saúde de todos os flavienses, na defesa da nossa agricultura e na defesa da cultura enquanto motor impulsionador de desenvolvimento. Relativamente à cultura sempre a tratou como um bem descartável, subsidiário, como um reclame luminoso que se põe numa montra para enganar pacóvios.
Na tal página ímpar, a guardada para as notícias mais importantes, aparece António Cabeleira e João Neves em distintas fotografias a distribuir medalhas a crianças que participaram num torneio de escassa importância, com o pomposo nome de “Torneio Pavão”. A notícia são meia dúzia de linhas. No entanto fotos são nove. E em duas delas aparece, e passo a citar: “António Cabeleira, vereador da CMC…” Desta vez o nosso estimado vice aparece a sorrir. Timidamente é certo, mas a sorrir. Para o semanário regional o António deixou cair o posto de vice para assumir o de simples vereador. Mas lá sobrevém sempre em bicos de pés, para se fazer notar.
Talvez porque lhe pese a consciência saber da situação dos flavienses que trabalham há meio ano sem receber um tostão e de nada ter feito para desbloquear a situação. Então a política apenas serve para entregar medalhas às crianças e dizer que vai fazer isto e aquilo para apoiar os idosos, as mulheres violentadas e as crianças desvalidas? E lá está o António a dançar o malhão em pontas para dar nas vistas.
Por cima de mim voavam novamente os pássaros a chilrear chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correr tranquilamente para o vale. E eu a arrepiar-me. E as palavras a baterem-me forte: “Assim não pode ser, trabalhar sem receber.” E eu a tentar de novo pensar na melopeia dos riachos, nos chilreios dos pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as palavras singelas dos trabalhadores da Misericórdia a reverberarem na minha cabeça: “Vivo numa situação muito complicada, já desliguei o frigorífico porque está vazio. O meu filho vai para a escola sem um cêntimo no bolso porque não tenho dinheiro para lhe dar.” E os pássaros a chilrear chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me forte: “Passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso.” E os passarinhos lá nas árvores: chriu, chriu, chriu… E as águas dos riachos a sussurrarem limpidez e tranquilidade. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me ainda mais forte: Há pessoas que não têm dinheiro para vir trabalhar, nem para comer e sobrevivem graças à ajuda familiar.” E eu: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me ainda forte: “As pessoas começaram a ouvir falar de crise agora, nós já estamos a vivê-la há muito tempo…” E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me ainda mais forte: trabalhar sem receber… chriu, chriu, chriu… frigorífico vazio… chriu, chriu, chriu… sem um cêntimo no bolso… chriu, chriu, chriu… passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso… chriu, chriu, chriu… sem dinheiro para vir trabalhar, nem para comer… chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu…
E na página 24 e 25 do jornal uma enorme entrevista de António Cabeleira com o título de uma sua resposta: “Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenha a sua atividade…” E a puta da realidade a bater cada vez mais forte: “As pessoas começaram a ouvir falar de crise agora, nós já estamos a vivê-la há muito tempo…” E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correr tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira: “Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenham a sua atividade…” E a realidade dos trabalhadores a malhar forte: trabalhar sem receber… chriu, chriu, chriu… frigorífico vazio… chriu, chriu, chriu… sem um cêntimo no bolso… chriu, chriu, chriu… passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso… chriu, chriu, chriu… sem dinheiro para vir trabalhar, nem para comer… chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E o António Cabeleira: “Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenha a sua atividade…”
111- “Atenção. Camaradas atenção. Atenção camaradas e amigos. Camaradas, atenção, sentem-se porque vamos dar início à sessão de esclarecimento. Camaradas, nas cadeiras estão uns livrinhos que o Partido faz questão em vos oferecer. São o programa e os estatutos do Partido. Camaradas levem-nos e leiam-nos com muita atenção. Neles, camaradas e amigos, está resumido tudo aquilo que somos e tudo aquilo porque lutamos.”
A foice, o martelo e a estrela amarelas lá estavam cosidas no pano como uma bem-aventurança. O vermelho das bandeiras até doía. Tal e qual a capa dos livrinhos distribuídos. A primeira coisa que o José pensou foi que não gostava do amarelo e abominava o vermelho. E a palavra “camaradas” soava-lhe estranha. Tanta intimidade entre desconhecidos cheirava-lhe a promiscuidade. Mas tentou disfarçar. Só que aquilo que começa mal, tarde ou nunca endireita. Apenas mais tarde – tarde de mais, como veremos – é que se deu conta que nunca se pode estimar aquilo de que não gostamos. O cérebro é uma máquina infernal e o coração uma caixinha de enganos.
O camarada esclarecedor, um funcionário do Partido da era clandestina, ladeado por uns camaradas nevoenses mais ou menos conhecidos (ou mais ou menos desconhecidos, que é uma forma de dizer o mesmo mas por outras palavras), na cidade e nos arredores, esclareceu aquilo que pôde e soube, que era pouco e extraordinariamente monótono, mas em terra de calados quem decora os textos, e faz que acredita neles, chega sempre a chefe, ou a algo pelo estilo.
Os camaradas “ladeadores” do camarada esclarecedor postaram no rosto o ar mais sério deste mundo e assim compuseram um arranjo de mesa convincente. Bastava uma expressão circunspecta para fornecer aos camaradas elementos decoradores da mesa um ar suficientemente apelativo e ligeiramente revolucionário. Os camaleões, como todos sabemos, são animais de ambiência.
Dessa forma, todos os militantes camaradas que se esforçaram por corresponder à iconografia comunista, que foram exercitados a venerar no sombrio das suas casas, e no sigilo das reuniões exíguas e “conspiradoramente” clandestinas, compunham um ar beato e conformista com o revolucionário propósito de conferir algum conforto espiritual, e sentido social, a quem vivia rodeado de miséria e ignorância.
Mas estes últimos, como é fácil de deduzir, estavam nas tabernas a beber vinho até ficarem parvos, ou nos barracos a dormir a sesta ou entretidos a “caralhar”, foder e “filhadaputar” todas as frases que articulavam e a jogar ao chincalhão ou à sueca.
O povo é mesmo estúpido. Enquanto vivia a sua vida de alienação, outros, os tais camaradas, esforçavam-se, labutando sentados nas cadeiras dos Pintassilgos, por lhe traçar o destino, para lhe dar uma vida melhor, agitando as sentenças, gritando palavras de ordem, cantando hinos apologéticos, entusiasmando pequeno-burgueses que se sentiam divididos entre o proletariado e a burguesia.
Para ali estavam eles, pobres coitados, como o tolo no meio da ponte sem conseguirem definir o lado a escolher. Tanto os operários, como os burgueses, desconfiavam dos desgraçados pequeno-burgueses. E os camponeses mantinham-se na sua letargia de lagartos na toca.
Por cima de isto tudo encontrava-se o camarada esclarecedor que iniciou, como já sabemos, a sessão cumprimentando os camaradas e amigos que por ali estavam, todos eles com cara de caso e com o coração a modos que apertadinho.
Mesmo em liberdade, os camaradas comunistas continuavam desconfiados e os seus amigos que buscavam esclarecimento sentiam que ali não se respirava um ar de festa, mas antes se vivia um ambiente de serena ambiguidade. Uns sem saber bem o que dizer e outros sem atinar bem com o que pensar. Mas nada que assustasse um bolchevique português, nada que intimidasse seriamente a vontade e a determinação proletárias.
“Camaradas e amigos”, disse o camarada funcionário esclarecedor, e continuou a palrar daquilo que desconhecia, mas pensava conhecer e saber, porque lho contaram com redondas palavras de apreço e admiração os camaradas mais responsáveis, os camaradas mais esclarecidos, os camaradas mais viajados, os camaradas mais sofredores, os camaradas mais lutadores, os camaradas mais brilhantes. Enfim: os camaradas mais camaradas dos camaradas, que, por incrível que possa parecer, acamaradavam pouco com os outros camaradas.
O camarada esclarecedor esclareceu – para isso é que ali estava –, que o mundo se encontrava dividido entre exploradores e explorados, entre ricos e pobres… entre bons e maus. Entre os camaradas verdadeiramente camaradas e os outros. Porque camaradas havia muitos, até os socialistas do Mário Soares assim se tratavam. Mas camaradas camaradas só existiam uns, os comunistas e mais nenhuns. Mas, cuidado, nem todos os comunistas são verdadeiros, nem todos os camaradas são autênticos. Apenas os do “nosso” Partido o são.
Os grupelhos autointitulados de comunistas, que apenas constituem um disfarce da burguesia, não o são, nunca o foram e nunca o serão. Esses fedelhos são apenas pequeno-burgueses de fachada socialista, arregimentados pela burguesia para iludir o povo.
Por isso todos os que ali estavam tinham de fazer uma opção clara. Porque ou se estava com a revolução ou com a reação. Ou se estava com as forças do progresso e do futuro ou com as forças do imobilismo e do passado. Ou se estava a favor da História ou contra ela.
O caminho do futuro ou era o socialismo ou não existia. Mas, atenção, o socialismo que os camaradas comunistas defendiam não era esse socialismo da treta, esse socialismo burguês, esse socialismo subserviente que os socialistas de Mário Soares diziam defender. Nem o socialismo radical, palavroso e esquerdista apregoado pelos grupelhos autointitulados de comunistas, que apenas são um disfarce da burguesia e agentes da CIA. Não, esse socialismo não era socialismo nenhum. Era um embuste. Era uma traição. Era um engano. Era a cara e a coroa da mesma falsa moeda.
O verdadeiro socialismo era o socialismo de transição, um socialismo científico defendido pelos verdadeiros socialistas, os comunistas do Partido Comunista, e apenas por eles, pois um socialismo que se ficava apenas pelo socialismo e pela utilização da palavra socialismo, não era socialismo. Não era nada.
O verdadeiro socialismo era o que possibilitava, e apontava, claramente, a última etapa: o comunismo. Mas o comunismo verdadeiro, não o apregoado pelos esquerdistas, esses grupelhos provocadores autointitulados de comunistas, que apenas são um disfarce da burguesia. Esses fedelhos da CIA.
O socialismo que se limita a sê-lo, e se esgota nas palavras e na forma, é apenas uma mistificação burguesa, organizada com a única e exclusiva determinação de trair os proletários e a verdadeira revolução mundial.
Por isso existia o Partido, para organizar as massas populares e com elas lutar tendo em vista implementar em Portugal o verdadeiro socialismo, o socialismo científico, o socialismo a caminho do comunismo. Não o socialismo do punho. Mas sim o socialismo da foice e do martelo. O socialismo da estrela amarela. Não o socialismo radical, palavroso e esquerdista apregoado pelos grupelhos autointitulados de comunistas, que apenas são um disfarce da burguesia. Cuidado com eles. Muito cuidado, pois esses fedelhos, mesmo não parecendo, são agentes da CIA.
O socialismo do punho existia para travar a revolução, para desmobilizar os camaradas proletários, os camaradas operários, os camaradas soldados, os camaradas camponeses, as camaradas mulheres e os camaradas jovens estudantes. O socialismo apregoado pelos seguidores de Mário Soares era uma traição ao verdadeiro socialismo. O mesmo se podia afirmar acerca do socialismo radical, palavroso e esquerdista apregoado pelos grupelhos autointitulados de comunistas, que apenas eram um disfarce da burguesia. Esses ganapos, com toda a certeza, eram agentes da CIA.
Não, esse socialismo não era socialismo nenhum. Era um embuste. Era uma traição. Era um engano. O socialismo defendido pelos comunistas preconizava a abolição da sociedade dividida em classes, defendia a extinção da burguesia, do estado burguês, do capitalismo e da exploração do homem pelo homem.
“Amigos e camaradas”, continuou a monologar o camarada esclarecedor, “nós não defendemos uma democracia burguesa de tipo parlamentar.” E, perante o silêncio absoluto dos camaradas e amigos que estavam na sala, continuou a malhar nos falsos camaradas socialistas como em centeio verde.
Para ele, e para os seus, o parlamento servia apenas para iludir os portugueses. Esse tipo de democracia formal não tinha espaço para ser desenvolvida em Portugal.
A democracia a implementar em Portugal tinha de ser de tipo popular, uma democracia ditatorial. Uma ditadura democrática, apelidada pelos comunistas de ditadura do proletariado, que era a forma democrática mais avançada do planeta. Porque a democracia formal era uma ditadura da burguesia, enquanto a ditadura do proletariado era uma democracia de operários e camponeses tão avançada que não havia igual e por isso não admitia contestação e, aparentemente, apenas aparentemente, até contradizia e confundia as palavras e os conceitos. A revolução tem destas coisas: subverte tudo. Revoluciona tudo. Põe tudo de pernas para o ar. Por isso é que é revolução.
O José ainda pensou em interromper o solilóquio para questionar o camarada esclarecedor sobre a aparente incoerência das suas palavras que levava a uma contradição dos conceitos e que poderia conduzir a uma interpretação errónea da quantidade e qualidade revolucionária do socialismo científico. Mas o Graça, já há algum tempo militante do Partido, e portanto camarada do camarada, e apenas amigo do José, disse-lhe ao ouvido que era melhor estar calado, pois questões desse tipo podiam ferir a sensibilidade do camarada esclarecedor e comprometer a sua futura adesão ao comunismo.
“Os princípios básicos do comunismo não se discutem. Aceitam-se porque são científicos”, afirmou o camarada Graça para o amigo José, sem admitir contraditório. “Ainda agora aqui chegaste e já estas a contestar, já estás a questionar, já estás a criticar. Deixa-te de merdas e escuta a voz da razão.”
Nesse momento pensou que afinal o comunismo era também uma espécie de religião com os seus tabus, os seus dogmas e com os seus camaradas sacerdotes, camaradas bispos, camaradas cardeais e camaradas papas. E, o que era ainda mais preocupante, com os seus assassinatos em série. Na Igreja não se discutiam os dogmas, no Partido não se discutiam os princípios, nem os meios. Apenas os fins interessavam. Na religião o homem serve a Deus, no comunismo o homem serve o Partido. Agora, por favor, caros leitores procurem as diferenças objetivas.
O camarada Graça, tornou a olhar para o ainda amigo José, observando-lhe o rosto de perplexidade, e voltou a dizer-lhe que na revolução ou se está com o povo ou se está com a burguesia. Na revolução ou se está ao lado dos camaradas explorados ou ao lado dos infames exploradores. E quem se mete ao meio apanha com o fogo cruzado da artilharia revolucionária.
“Mas…”, tentou argumentar o José rezando baixinho algumas queixas e outras tantas perplexidades. Ao que o camarada Graça respondeu com a sua recente autoridade de comunista camarada marxista-leninista, estalinista e punhalista rigoroso: “No processo revolucionário em curso não há mas nem meio mas. Ou estás connosco ou estás contra nós. E desde já te aviso que quem está contra nós fode-se.”
E o José: “Se pões a questão nesses termos, deixa lá o camarada esclarecedor dizer o que diz que eu sou todo ouvidos. Já aqui não está quem falou. No comunismo é tudo muito direto ao objetivo. Eu agora já sou dos teus, vê se te acalmas camarada. Posso ainda não estar convencido, mas sinto que fui vencido. Avante camarada.” E baixinho: “Aiô Silver, avante!... camarada avante, junta a…” E todos na sala continuaram a cantar o hino do Partido como se estivessem no mês de Maria.
Numa terra plantada de poemas eu abro os olhos na direção impercetível dos amantes que se amam com frases intensas de desejo e com olhares quentes e com sílabas enormes de volúpia. Assim cultivam a vida enquanto os homens sérios debatem as sombras e pisam o chão exíguo da sua verdade surda ao crepitar das lágrimas intensas dos desprotegidos. Mais ao longe o fogo da dúvida ergue o verão em pleno inverno. E os homens cruzam os braços e as mulheres plantam os pés na água pura da ribeira. A memória é uma alfaia permanente que lavra as manhãs frias. Agora os homens discutem com as mãos os versos de pranto que apertam as coisas firmes e que percorrem as sílabas ausentes do amor. As mulheres dançam com passos inconsistentes como se fossem feitas de vento e sussurros. Esta é a hora exata dos deuses se transformarem em seres mortais crescendo dentro do seu coração alienado. Uma música violenta percorre o ondular dos amantes que falam pelo meio de gemidos sustenidos. Eles são os instrumentos que se movem em rede bordando sexos periféricos com os músculos tensos de retórica animal. Por vezes sentem-se sós. Outras vezes ligam os seus motores eróticos e dançam até cair. E os seus lábios pegam-se e despegam-se como se não quisessem transitar para dentro dos espaços proibidos pela razão. Os seus olhos são os sinais límpidos que se tornam solenes na angústia e na liturgia do medo. Os corpos em movimento pronunciam sucintas flores com pétalas de vocábulos luxuriantes. Nas suas bocas transitórias uma confusão meiga mastiga mais um naco de desejo. Sobe por eles uma solidão doméstica libertando-os da matéria dos seus membros. Sentem-se ilhas no meio de um mar altivo que nasce todas as manhãs. Anjos com asas castigadas acordam resplandecentes de beijos neutros. Os homens sérios e indispostos caminham para trás cumprindo com a sua lei da inércia temporal. As mulheres pisam os séculos e os sexos dos violadores e dos conquistadores de corpos. Um sol inscrito na paisagem persegue os animais em cativeiro. E a guerra do silêncio suspende a sua fúria e tenta adormecer no seu leito de sangue. Os crentes enrolam-se na sua poeira do tempo e alimentam os seus profetas como se fossem galinhas poedeiras. Toda a lírica da razão da vida morre de encontro aos deuses gramaticais. A lógica fenece, o amor endoidece, as palavras escrevem-se abrindo o seu sexo divino. As palavras transformam-se em cristais e adormecem mortalmente dentro da sua luminosidade artificial. Tu dizes: a poesia é um momento. E eu acaricio a ondulação alquímica do teu corpo. Essa é a minha certeza. Esse é o meu mistério lavrado no chão da vida.
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