Segunda-feira, 29 de Agosto de 2016

304 - Pérolas e diamantes: o trabalho e a filantropia

 

Entardece devagar, devagarinho. Como quem se refresca em pleno verão com uma brisa vinda do Brunheiro, leio no jornal que o João Teixeira, o João Freitas e o João Alves, os três alunos do Agrupamento de Escolas António Granjo, tiraram vinte valores no exame nacional de matemática.

 

O segredo reside, segundo estes jovens, no muito trabalho que fazem ao longo do ano, no esforço e na dedicação. No entanto, continuaram a fazer o que faziam nos seus tempos livres.

 

Como se isto não fosse proeza bastante, leio noutra edição d’A Voz de Chaves que a Bruna, a Célia e a Laura, também alunas do Agrupamento de Escolas António Granjo, conseguiram a mesma proeza: alcançaram nota 20 no exame nacional de matemática.

 

Por vezes as coisas fazem sentido. Os mitos também se abatem e os preconceitos também se desfazem.

 

O sol esconde-se por detrás dos pinheiros e dos carvalhos. As sombras nos bosques estendem-se pelos caminhos. Por fim param e desaparecem. Os raios de luz penetram no arvoredo e são filtrados através da folhagem, inundando os troncos com uma luz morna. Por cima de nós ergue-se o céu azul já pálido do crepúsculo. Algumas aves voam alto. O vento parou por completo.

 

Beberrico o meu gim tónico Nordés (versão leve) com água tónica Nordic, muito gelo, bagas de zimbro, casca de lima e um pedaço de folha de louro.

 

Tudo isto é bonito. Eu continuo entregue aos meus devaneios, ora amargos e por vezes doces (daí eu apreciar gim), próprios, segundo os escritores românticos, dos espíritos solitários.

 

Por vezes gosto de sonhar com a vida no campo. Lembro-me bem de um tio meu que parecia saído de um romance de Ivan Turguéniev, pois possuía um olhar doce, tinha os lábios enrugados, amava a natureza, especialmente de verão, pois era muito friorento, e era homem para expressar-se com toda a vulgaridade do mundo, dizendo coisas como esta: “Adoro ver cada abelhinha a transportar no seu corpinho, de flor em flor, o seu grãozinho de pólen…”

 

Conhecia quase todas as frases bempostas com que se socializava na época. Por isso acompanhava, com alguma perseverança, a evolução da literatura. Quase toda de cordel, por certo.

 

Gostava, no entanto, de se mostrar um leitor prático. Ouvi-lhe muitas vezes dizer que não se consegue alimentar um pintassilgo com cançonetas.

 

Também eu, qual Vassíli Ivánovitch, me vejo a trabalhar no meu jardinzinho, com árvores plantadas por mim, com frutos e bagas e flores e ervas medicinais.

 

Não me hei de despedir por hoje sem vos citar o velho médico militar russo reformado que, virando-se para os senhores jovens, lhes dá conta das suas cogitações.

 

“Como sabeis, deixei a prática, mas duas vezes por semana tenho que recordar os velhos tempos. Vêm-me consultar e eu não os posso pôr na rua. Acontece que os pobres me vêm pedir ajuda. E por aqui não há médicos. Há um vizinho, um major reformado, imagina, que também dá consultas. Eu pergunto: estudou medicina? Respondem-me: não estudou, não, ele é mais por filantropia… Ah-ah, por filantropia! Hem? Vejam só. Ah-ah! Ah-ah!”

 

Para homenagear quem devo, aqui fica a expressão latina suum cuique, que em português de lei podemos traduzir por a cada um o seu. E voilà tout.


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Domingo, 28 de Agosto de 2016

Alimentando a fogueira

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Sábado, 27 de Agosto de 2016

À roda dos potes

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Sexta-feira, 26 de Agosto de 2016

Pinóquio em Vila Real

Cultura que une -Vila Real - 14 de maio 2016 009 -

 


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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2016

Poema Infinito (317): subtilezas divinas ou o princípio da inutilidade

 

 

 

O erotismo pode ser como uma lâmina. As novas interpretações da vida levam-nos em sentido contrário ao desejo do contacto. As manchas do tempo anunciam maldade. Planeamos os dias seguintes como quem arranja um relógio. Baseamo-nos em sistemas mentais semelhantes. O sucesso baseia-se numa meticulosa invenção do futuro. Homens demasiado curiosos perturbam tudo aquilo que é explícito. Reproduzem com evidente magnanimidade tudo aquilo que não existe. São maus desenhadores do presente. Todos os pressentimentos estão dentro dos indivíduos. A inveja mantém-se intacta. Vinda do lado invisível da realidade, a proficiência domestica o prazer. Distinguem-se mal os rostos, mas, no entanto, apreendemos a beleza dos gestos rápidos. Desaconselham-nos a ironia, pois vivemos tempos urgentes. A matemática ensina-nos a reconstruir as ruínas. Fugimos do medo em repetidas circunferências. Combatemos o tempo e tropeçamos uns nos outros. Este é o sentido da vida. O mundo não seria mundo se não respeitássemos o sentido obrigatório da existência. Por isso continuamos a habitar este nosso armazém metafísico. Todos pensamos em vingança depois da fuga, logo após recuperarmos a respiração. Desgastamo-nos com a excitação, pensando pertencer ao tempo gasto na luta física. O hábito da posse é sedutor. Os homens e as mulheres sonham em alcançar um sítio onde serão felizes até à redundância. Melhor seria anular esse campo da sua imaginação. Adicionar coisas iguais é como subtraí-las. O pudor das nossas memórias encheu-nos a infância do mais belo erotismo das primas. Quanto mais prima mais se lhe arrima. A realidade encheu as cidades de obras intermináveis e de melhoramentos constantes. Por isso protelamos a explícita satisfação do desejo. Pomo-nos a imaginar a geometria dos corpos, a filosofia dos entusiasmos, a ironia dos bordéis, a lentidão dos prédios antigos, a ânsia das campainhas, a malícia dos gestos do dedo indicador, as ligações elétricas da virgindade, os determinantes das frases pornográficas proferidas na intimidade e o mecanismo da divindade. Os homens ficam sempre mais angustiados quando abandonam a ironia. Apercebem-se então que são distintos uns dos outros, que são inimigos. Por isso inventaram a compaixão e aprenderam que o tempo não é destino nenhum. A natureza nunca adia a sua chegada. É tão certa como a luz que a acompanha. A sua imagem ocupa perpetuamente o lado correto do nosso olhar. O infinito é sempre mais além. Por vezes começa dentro de uma casa, como a biografia de uma mentira, como uma tragédia falsa. O infinito engole tudo: os objetos pessoais, as fotografias, as paredes das casas, a decoração do seu interior, a sintaxe dos móveis, as primeiras masturbações, tudo aquilo que é contemporâneo, toda a cultura e os seus problemas fundamentais, todas as zonas industrializadas, toda a excelência daquilo que é humano e a diferença principal entre os homens e as divindades. Nas mãos do infinito, a humanidade é como um livro de receitas culinárias, veste-se a seus olhos com a mesma inutilidade completa. A grande questão filosófica está em saber se devemos abrir a boca antes de a fechar ou fechá-la antes de a abrir. A organização do universo a isso nos obriga. A nossa infância ou termina numa floresta escura ou numa rua que se bifurca. Sabemos agora que os deuses atuam como se não existissem. 


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Quarta-feira, 24 de Agosto de 2016

Burro com fome

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Terça-feira, 23 de Agosto de 2016

Vaca no repouso

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Segunda-feira, 22 de Agosto de 2016

336 - Pérolas e diamantes: lugares-comuns e portas giratórias

 

 

 

Eu costumo dizer que os lugares-comuns ganham o estatuto de lugares-comuns por serem tão evidentemente verdadeiros.

 

A Geringonça cada vez se parece mais com uma rosa mecânica feita e comemorada por céticos, cínicos, celebrados, celerados e alguns alucinados. Por vezes desorganiza-se mas volta a reorganizar-se segundo outros moldes.

 

Atualmente assemelha-se a um carro de bois onde as rodas rangem porque lhe falta o sebo e começa a estalar como um móvel construído com madeira húmida.

 

Todos começamos a sentir que sem dinheiro as coisas não avançam e quase todo o dinheiro disponível já se gastou. Quando não se é suficientemente prático, o mais normal é enganarem-nos.

 

Por vezes também nos enganamos a nós próprios.

 

É muito difícil haver liberdade de escolha se não se aprendeu a escolher.

 

Os portugueses assemelham-se a tentilhões que não se cansam de piar, enclausurados em gaiolas presas ao teto por longos cordões que baloiçam e estremecem continuamente com os seus saltos.

 

Temos de ser sóbrios depois da bebedeira experimentada durante os anos repletos de subsídios comunitários. A sobriedade tem de nos centrar de novo num discurso político justo e verbalmente honesto, sem nos preocuparmos em demasia com a maneira como a Europa nos ouve ou como vai reagir perante o que se lhe está a dizer. E isso é bem mais difícil de fazer do que parece à primeira vista.

 

Convém no entanto saber que atribuições ocasionais como, por exemplo, a ironia, resultam na morte da linguagem do compromisso. E a parvoíce também costuma não render grandes benefícios.  

 

Dizem os filósofos que gostam do desporto que a vida é como o ténis, os que servem melhor normalmente ganham.

 

Dizem os céticos que a verdade é aquilo que nos torna livres, depois de ter acabado connosco.

 

A realidade costuma ser incómoda e motivadora de desconforto. É como se existisse uma regra que afirma que as coisas reais só podem ser referidas se todas as pessoas se puserem a piscar os olhos e a sorrir sem estarem felizes.

 

Os ratos também se costumam enfiar nas searas de trigo para fugirem à perseguição de que costumam ser alvo.

 

Sente-se que os distintos executivos nacionais, mais do que nos governarem, entretêm-nos.

 

Não há melhor música para a infelicidade do que o fado e não existe melhor melodia para o engano do que os hinos partidários.

 

A política em Portugal, por muito que nos custe, faz-se em passeios de iate, em encontros realizados às escondidas, onde se abatem bancos, empresas e postos de trabalho. E onde se financiam as campanhas dos que têm de ganhar.

 

Os políticos são animais anfíbios.

 

Eles sabem que o ontem já se foi e que o amanhã tem que tardar a chegar.

 

Em cada início de ciclo governativo, os primeiros-ministros procedem como os imperadores incas que matavam os cronistas do seu predecessor, para dessa maneira cada novo imperador escrever a história segundo as suas conveniências.

 

No topo das estruturas partidárias já quase só encontramos gente sem escrúpulos. São aqueles que tiveram de trepar para subir e se revelam estranhamente maus quando se veem lá no cimo.

 

São os mesmos que vemos dirigirem-se para as entradas envidraçadas das instituições que tutelam, com um vago sentimento de culpa e uma certa perplexidade que os assalta, ignorando um antigo amigo ou colega mal vestido, ou com aspeto de necessitado, ou doente, ou infeliz. Ou…

 

A todos eles devemos lembrar que as portas do poder são giratórias.


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Domingo, 21 de Agosto de 2016

Cabo da Roca

Lisboa - Asenha do Mar, Praia das Maçãs e Cabo d

 


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Sábado, 20 de Agosto de 2016

Poses

Lisboa - Asenha do Mar, Praia das Maçãs e Cabo d

 


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Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

Cabo da Roca

Lisboa - Asenha do Mar, Praia das Maçãs e Cabo d

 


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Quinta-feira, 18 de Agosto de 2016

Poema Infinito (316): enigmas

 

 

Nada perdura no inútil labirinto da eternidade. Até as palavras fingem que ressuscitam e que se leem umas às outras. Os sonhos negam-se a ter céu. O sol parece uma flor fora de tempo. Apenas os teus olhos brilham no meio do desespero. Renovo-me no quotidiano. No cansaço. No gume do perfume da vida que os meus antepassados cá deixaram. Sol e sombra constituem o binómio da mortalidade. Da crença e da descrença nasceu a filosofia. Não há esperança que nos valha nem desespero que nos aguente. A tristeza é como um manto denso que pousa sobre nós. Por vezes vem disfarçada de alegria. A imaginação anima-nos a confiarmos nos milagres. Os deuses mais poderosos nasceram no deserto. Por isso os galos cantam três vezes depois de cada traição. Das chagas dos redentores nasceu a beleza da salvação. Agora já nada é como dantes. A ternura brota do pão azedo. No meio da bonança alguém prega a ousadia. Por isso temos de desconfiar. Os irmãos desirmanam-se sempre que podem. E cada um vai para a sua margem do rio. Antes recusaram beber da mesma nascente e não se entenderam para construir uma ponte. A sua costela humana cegou-os. Por isso entendem os lobos e fazem que acreditam na parábola dos vimes. Por isso se pede a pele dos inimigos. O problema é quando a alcateia nos sai ao caminho. Os humanos vivem da liberdade alheia. Alguém lhes segue os passos hora a hora. O primeiro a saltar é o primeiro a morrer. Entretanto o sol recua. O teu rosto continua a sorrir como dantes. As flores não desesperam. Acreditamos que o agressor também pode ser agredido. O nosso desdém é eterno. Os ribeiros, as torrentes e os rios mais caudalosos juntam-se sempre no mar. Os oceanos não têm margens. Os deuses das fúrias perseguem as sereias, dilaceram os sonhos, abrem as portas aos arcanjos, arrastam atrás de si todo o desassossego do mundo. Os seus beijos possuem a raiva da morte. Nasceram por causa das mentiras divinas. Gostam de misturar as horas e os sonhos, de regular a inquietação que dá origem aos dias e às noites, de desfigurar as fantasias, de secar os jardins onde ainda floresce a vida. Falam-nos do valor dos gestos, do destino e do caminho parado da igualdade. O tempo arrefece dentro de nós. Por vezes, os deuses adormecem encostados aos rochedos mais íngremes. Então o céu fica belo, os poetas sorriem lindos versos de amor, as pessoas pisam o chão com segurança e percorrem os caminhos apócrifos das lembranças. Ficam impregnadas de tenacidade e dedicam-se a criar beleza, torneiam a tristeza, transfiguram o pranto e guardam o amanhecer dentro do peito. Fabricam as lágrimas em bruto para quando tiverem de chorar de felicidade. Quando os deuses das fúrias acordam as pessoas ficam cheias de medo e de remorsos. De vaidade. Fazem e desfazem a luz. Deixam de perceber o canto das aves, o caótico rumo dos astros, a natureza indulgente da fúria do vento, o sacramento do silêncio, as palavras profanas, a pureza, o cheiro das flores, o gosto dos frutos, a fadiga das árvores, a melancólica consciência do amor, a culpa seguida de confissão e a confissão seguida de culpa, a timidez imortal dos poetas, a hesitação momentânea dos corpos antes da cópula, o castigo e o perdão, deus e o diabo, a sedução dos abismos, a embriaguez noturna do desejo, os gritos, os protestos, os versos. Todos os versos. Começa então a noite no próprio momento de amanhecer. Os condenados adivinham a chegada da sua hora. Cegos de medo, são empurrados pela claridade.


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Quarta-feira, 17 de Agosto de 2016

Poses

Lisboa - Asenha do Mar, Praia das Maçãs e Cabo d

 


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Terça-feira, 16 de Agosto de 2016

Olhares

Lisboa - Asenha do Mar, Praia das Maçãs e Cabo d

 


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Segunda-feira, 15 de Agosto de 2016

302 - Pérolas e diamantes: o calor de julho e outras merdices

 

 

Dizem os entendidos que nunca tivemos um mês de julho tão quente, com os valores médios de temperatura máxima a rondar os 32 graus, o que originou muitas noites tropicais. Daí a crise política se ter evaporado, pelo menos na opinião de Pedro Santos Guerreiro, o novo diretor do Expresso, que adota e subscreve as declarações do nosso presidente MRS. O calor de julho, por incrível que pareça, não teve expressão na mortalidade, mas, segundo dois jornalistas do Público, o cenário pode mudar. Quando o calor aperta, o rendimento do trabalho baixa, por isso a ONU prevê que as alterações climáticas tenham um forte impacto na economia global, porque vão levar a uma diminuição do rendimento profissional nos países mais pobres. Já ao nível do investimento, a bolsa registou o mês passado como o melhor dos últimos 19 anos. Pedro Nuno Santos acha que seria um erro provocar eleições, até porque a geringonça já chegou a ter 16 reuniões por dia. Atrapalhados com a situação do país, os deputados Domingos Pereira, João Gouveia, Joaquim Raposo, Pedro Pinto e Miranda Calha ainda não abriram o bico neste ano parlamentar. Manuela Ferreira Leite diz que nunca levou as sanções europeias a sério porque tinha a perceção de que tudo isto foi um teatro bem montado, em que o Governo e as autoridades europeias contracenaram com muita qualidade. Pedro Passos Coelho enfiou o barrete até às orelhas. Em 163.668 professores das escolas públicas portuguesas, apenas 451 têm menos de 30 anos. Já os alunos afirmam que andam a esforçar-se para ter sorte. No entanto, apostar no Euromilhões vai ficar mais caro a partir de setembro. Uma professora confessa ao Sol que, como as escolas são o barómetro da sociedade, os alunos refletem o desprezo pelo saber e a desesperança. Em Sesimbra, os turistas que ajudam a puxar as redes recebem peixe de borla. Os militares, gastos e cansados de tanta guerra, resolveram cerrar fileiras e lutar contra a idade da reforma. Segundo o Expresso, a Parvalorem, a antiga dona do BPN vai ser liquidada. A invasão dos Pokémons é mesmo verdadeira. Luís Onofre criou uma nova linha de sapatos masculina que pode tornar os homens mais altos cerca de 3 centímetros. O património ao abandono vai ser aberto a privados. Segundo o Expresso e o Ministério Público, os pagamentos a José Sócrates vêm desde a OPA da PT e têm origem na ES Enterprises, desde 2006. Para José Mourinho, andar a cheirar títulos não é o mesmo que ganhar. E no futebol roçar a arrogância é positivo. Por isso é que Portugal, segundo o Special One, partiu do pressuposto de que não ia sofrer golos e fazendo um ganhava. Por causa da pesca predadora feita nas costas portuguesas, pela procura desenfreada do mercado asiático, o cavalo-marinho, o meixão e o pepino do mar estão em vias de extinção. Segundo o jornal I, Ascenso Simões não foi afastado da campanha do Partido Socialista por causa dos cartazes. A razão é mais complexa. AS é transmontano, católico e da ala mais à direita do PS. E quem lê a entrevista até pode chegar mais longe e concluir que Ascenso Simões é também da ala mais à direita do catolicismo português pois prefere o Papa alemão Bento XVI, considerando que o Papa Francisco, quando lhe fazem uma pergunta, responde de forma inopinada, o que evidencia que é um Papa sem estrutura ideológica clara. E que a bonomia não é suficiente para uma igreja com 2000 anos. Presunção e água benta, etc. Quanto ao futuro do primeiro-ministro já o observou na bola mágica da vidente do vale de Vila Pouca: Quando a festa acabar, Costa deverá regressar ao parlamento europeu, cujo mandato interrompeu. Culturalmente vai mais longe, muito mais longe do que o PS alguma vez foi, pois, na sua douta opinião, o seu partido tem de perceber que a condecoração do governo francês a Tony Carreira é um elemento central (sim, central, não leram mal) do simbolismo público. Estou em crer que AS subscreve na íntegra as palavras de César Mourão: “Não sou um humorista, embora achem que sou.” Claro que ainda não atingiu (o Mourão, claro!) as explosões de humor do Vasco Santana n’O Pátio das Cantigas, mas é jovem e possui talento. Bem vistas as coisas, tudo é uma comédia de enganos. Diane Arbus defendia que fotografar de perto é a condição para existir como pessoa. Já Moebius ou Gir ou Jean Giraud, o magistral desenhador de BD, defendia que não existe qualquer razão para que uma história seja como uma casa. Pode ser como um campo de trigo, um elefante ou fogo de artifício. Francisco Valente noticiou no ipsílon que Barry Lyndon, do genial Stanley Kubrick, vai voltar a ser exibido nas salas de cinema. Na sua opinião, nunca um filme tão bonito nos mostrou o quão feios podemos ser. Claro que tudo isto me deprimiu. Julho deitou-me abaixo. Só podia. Mas arribei quando li a entrevista de Teodora Cardoso, a presidente do Conselho das Finanças Públicas. Explica que os economistas são um pouco incultos e aconselha-os a prestarem mais atenção à História, à Sociologia e à Ciência Política. Afirma que precisa de ler livros policiais para adormecer, pois distraem-na das preocupações do dia a dia. Mas o que me deixou deveras tranquilo foi a revelação de que do seu apartamento, com vista para o Bugio, acompanha, através dos binóculos, as regatas e a entrada e saída dos navios.


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Domingo, 14 de Agosto de 2016

Paris

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Sábado, 13 de Agosto de 2016

No cimo de Notre Dame

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Sexta-feira, 12 de Agosto de 2016

Gárgulas II

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Quinta-feira, 11 de Agosto de 2016

Poema Infinito (315): aleluia

 

 

Brilham os corpos abraçando a espuma das ondas. Os banhistas expõem os seus músculos de nadadores loucos. A nossa sofreguidão é vertical. Abrimos os olhos já dentro do abismo. Toda a arte é fleumática como a velocidade das corolas. Por vezes sabe a sal. Por vezes arboresce e cega as pessoas. A lua ilumina os objetos mais bruscos. Escrevo o teu nome. As palavras transformam-se em estrelas e transfundem-se. A tua mão esquerda pousa sobre a Via Láctea. A noite reabre no teu corpo uma linha incandescente. A tua delicadeza brilha no escuro. As superfícies do tempo ficam centrífugas. A luz fica mais compacta. A alma é agora um núcleo de violência. As velhas imagens ajudam a construir as novas palavras. Alço as mãos que conseguiram aprender a levantar o vento. A tua voz fica cheia de desejo. Ergo as mãos que aprenderam a exaltar a leveza do talento. O sono infiltra-se nas dálias. A luz apoia-se nas curvas. Os espaços exaltam a alma dos livros. Os meus olhos iluminam os poemas. Os poemas fecham-se dentro das suas próprias metáforas. As pessoas fecham-se dentro das palavras. A memória transforma-se em música. A chuva transforma as pedras em mistérios. O demónio despeja os prodígios em cima dos gritos. Deus arranca pela raiz a árvore das palavras exaltadas. Tudo é agora caos. Tudo é agora ordem. Onde Deus se debruça tudo escurece. O seu trono de estrelas transforma-se no umbigo do universo. As crianças nascem dentro de abismos sonoros. Os anjos ostentam varas de gelo. Os seus membros atravessam os nossos olhares como se fossem cometas. Pratico a arte das flores, esboço a beleza dos espinhos das roseiras, encho de doçura tudo aquilo que é demoníaco. O paraíso é agora um lugar repleto de vida selvagem. Os corpos dos animais são feitos de tubos e buracos de estrelas. Os dedos do criador inclinam tudo aquilo em que mexem. As palavras ficam fundas. As imagens são constituídas por cicatrizes de outras imagens. A linguagem mais pura alimenta agora a fogueira da eternidade. Estamos dentro das palavras mais exatas. O teu rosto anuncia o brilho perpétuo da harmonia. A lenta iluminação do desaparecimento delineia o traço contínuo da eternidade. Os teus olhos incendeiam a memória das casas. Numa delas vivi eu. A vida é tão breve como o som de uma pancada dada numa porta. Os sentimentos são finas raízes de musgo que se alimentam da humidade das pedras. Tantas vezes penso na chuva que me estou a metamorfosear em gota de água. A raiva ilumina as minhas mãos. Por isso se ignoram uma à outra. Penso transformar-me num caçador de arco-íris ou numa fábula exemplar. Durante a primavera consigo escutar os ruídos mais expressivos da ressurreição, consigo ver o movimento crescente das estrelas e perceber o erro perpétuo da inocência. Com a experiência adquirida consigo até modelar a noção perfeita do arrependimento. Sinto-me como um rato lírico dentro do seu labirinto ou dando voltas no cilindro metálico. Com a poesia também adquiri as noções fundamentadas da lentidão, da harmonia, do perdão e do esquecimento. Toda a razão se transforma em símbolo. Ligo-me ao mundo através das noções vagarosas da tristeza, da inspiração e do deslumbramento. Durante a noite, a semente do centeio irrompe da terra e as palavras dormem dentro de mim. A fantasia vagarosa da minha infância afoga-se dentro da minha solidão surpreendida. Continuo a cumprir com as leis da extenuada subtileza do desaparecimento. Aleluia.


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Quarta-feira, 10 de Agosto de 2016

Gárgulas I

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Terça-feira, 9 de Agosto de 2016

Notre Dame - Paris

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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2016

301 - Pérolas e diamantes: Batman ou Jesus Cristo?

 

 

Eu não seria o que sou hoje se não houvesse livros. Não saberia defender-me dos percalços da vida e da sua sinuosa mediocridade. Quase me afoguei no meio desta cultura anárquica. Ainda bem que cultivei o rigor e adquiri as regras básicas da sobrevivência. De outra forma tinha soçobrado.

 

É preciso aguentar, custe o que custar. É necessário preservar a lucidez e também vigiar os desvios da imaginação.

 

Se pretendes saber a verdade, impõe-te o silêncio. Não te lamentes nem te vanglories. Não enganes ninguém e muito menos a ti próprio.

 

A utopia é recicladora e tonta ao mesmo tempo: o soldadinho ainda se sente corajoso e com forças para cavar trincheiras na tentativa de fazer guerra a si próprio.

 

Sancho Pança ou D. Quixote? Os dois, respondo eu. Os dois. E isto tem tudo a ver com as cavalgaduras. O burro ou o Rocinante? Os dois, respondo eu. Os dois. E isto tem tudo a ver com a minha história.

 

Teria eu 7 ou 8 anos, quando numa manhã, eu e o meu avô saímos da aldeia para irmos a casa de amigos. Ele montado num garboso cavalo ajaezado com selim, freio e estribos. E eu montado num burro que tinha muita nobreza e, sobretudo, mansidão. O menino João só podia montar no jerico, por causa da idade.

 

A princípio achei aquilo humilhante, mas sempre era melhor do que ir a pé, como o Joaquim, um criado que nos acompanhava, e que eu, por generosidade infantil, que mais podia ser, transformei num escudeiro munido de escudo e lança, para nos defender e também para se defender.

 

O passeio foi longo. Merendámos junto a um rio, debaixo de árvores frondosas que nos refrescaram com a sua sombra.

 

Porque estávamos de barriga cheia, o meu avô piscou o olho ao criado, a dar-lhe sinal para que ficasse, e fomos passear. Passámos por vinhedos, pomares, silvedos e lameiros. Explicou-me o mundo que nos rodeava. Por fim, fomos desembocar num moinho. Deitámo-nos em cima da erva fresca e adormecemos.

 

O meu avô transformou-se então num abastado proprietário de animais que tinham sido roubados durante a noite. Ele, corajoso como era, logo de manhãzinha montou em cima do seu cavalo branco, ou seria malhado?, e, liderando os seus ajudantes, foi atrás dos bandidos.

 

Encontraram então os índios, e alguns cowboys traidores, pois traidores existem em todos os lados, a comerciar o gado e a comer de churrasco os bois mais avantajados. O João Lorde pegou nos seus revólveres e deu forte e feio em cima dos bandidos de todas as cores, tamanhos e feitios. Ele não era nem racista, nem xenófobo, nem outra coisa qualquer. Não discriminava nada nem ninguém. A mortandade foi grande entre a bandidagem e a maior parte do gado foi recuperada.

 

Tudo terminou em bem, momentos antes de eu acordar. Assim se começa a construir a imaginação de quem depois há de passar a vidinha a escrevinhar pensando que pode um dia chegar a escritor. Parvoeiras? Claro que sim. Cada um constrói as suas. A mais não é obrigado.

 

Do que aconteceu no resto do dia pouco me lembro, mas uma coisa me ficou: a viagem de volta, montado no garboso cavalo, guiado pelo criado que segurava a arreata, não fosse o rocinante entusiasmar-se e dar às de “vila diogo”. O meu avô, já um pouco bebido, cabeceava em cima do russo como era seu feitio.

 

Morreu passado pouco tempo, o meu avô. A minha avó ficou sozinha. À dor, comecei a empacotá-la na minha memória e no meu coração atrapalhado. Mas uma coisa sim me entristece: a falta de cultura da nova geração. Já não sabem de onde vem a carne, não conhecem os sentimentos, não respeitam a velhice. Sabem menos da vida de Jesus que da do Batman.

 

Ou seja, eu não sei o que pensar dos pensadores que hoje pensam a cultura. Estou em crer que perderam muita da autoridade intelectual que possuíam antigamente. Os de agora jogam com as ideias e as teorias como o fazem os malabaristas de circo e os palhaços, divertindo e encantando a criançada. O problema é que não convencem.


publicado por João Madureira às 07:15
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Domingo, 7 de Agosto de 2016

No Barroso V

barroso - volta por SAlto 017 - Cópia.jpg

 


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Sábado, 6 de Agosto de 2016

No Barroso IV

barroso - volta por SAlto 004 - Cópia.jpg

 


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Sexta-feira, 5 de Agosto de 2016

No Barroso III

Barroso - Penedones, ETC, XT1 140 - Cópia.JPG

 


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Quinta-feira, 4 de Agosto de 2016

Poema Infinito (314): a arca universal

 

 

Recuperamos a noção de infinito através da bússola da alma. É outro o tempo. É outro o sabor do teu corpo. As memórias são incandescentes. Cultivamos o método da obsessão, desfibramos lentamente as esperança e a memória dos nossos brinquedos. Saboreamos o gosto do desejo, a angústia e a esperança. Todas as peças que formam a realidade estão dentro da minha cabeça. Também a eternidade mora dentro da incandescência fria dos templos. Um sorriso desperta no teu rosto. Os séculos não apagam nem as órbitras dos astros nem as palavras da criação. Anjos de asas pequenas protegem os grandes segredos. Repetimos os abraços, as ilusões e o fascínio da primavera. Fechamos as portas do regresso. Aprendemos a mentir com a verdade. Toda a matéria é feita de fantasia. Atravessamos a madrugada sem olhar para trás. Começa a nascer o outro lado do esquecimento. Os gestos mais antigos ganham um novo significado. As cicatrizes da memória ficam mais expostas, os beijos adquirem uma rapidez mais secreta, o destino amamenta a sinfonia do apocalipse. Os caçadores furtivos partem em busca de outras vítimas. Tentamos destruir o desejo que nos destrói atravessando a fronteira dos gestos quotidianos. Uma bruma recobre o vale, um lençol de nuvens encaminha-se para o abismo, os corpos afundam-se dentro das suas próprias sombras. Tudo fica mais literário, mais enjoativo. Porém, os teus olhos ficam mais transparentes. Neles repito a minha imagem. Já são muitos os anos naufragados, já são outras as ilusões e as euforias adormecidas. Já é outra a Bela. Já é distinto o Monstro. A luz da adolescência fechou-se dentro do seu próprio sonho. As ruas da cidade são agora uma espécie de último refúgio. Guardamos as lágrimas para um novo exorcismo. Congelamos o tempo dentro da sua memória. Beijamos o medo. O mal procura permanentemente disfarçar-se de outra coisa. O seu veneno é sempre adocicado. Vicia sem parecer viciar. O tempo dos contos infantis já passou. A sua perfeição volatizou-se. A sua beleza ardeu. Jazem dentro dos armários os lânguidos sorrisos e os olhares sedutores das suas personagens mais carismáticas. Os vestidos de seda vestem agora os fantasmas. A sua inocência tornou-se perversa. A sua luz fosforescente tornou-se desconfiada. A imitação da eternidade é um dado adquirido. A vida continua a imitar o voo alucinado das borboletas. A memória pratica o princípio da infidelidade. O vento move a noite. Nas primeiras horas da madrugada eleva-se do vale um nevoeiro espesso e esbranquiçado, o amor transforma-se numa espécie de palavra baça. Mil e um poemas esperam na arca o momento de serem alinhados nas folhas brancas. O poeta acredita que a felicidade tem um preço. Cada estrela tem o seu destino. Os buracos negros esperam por elas percorrendo o tempo em anos-luz. O universo possui as suas leis próprias, apesar de ninguém as entender. O céu fica por momentos mais luminoso. Um novo destino começa a cada momento. Acordamos dentro do nosso próprio sonho. Uma poalha de luz incendeia-nos os olhos. Estamos no outro lado do espelho da via-látea. A Alice já não mora aqui. As suas eternas fantasias não passam de crua realidade. Temos que esquecer a vontade. Continuamos a atravessar nas passadeiras das memórias mais ténues. As palavras ficam momentaneamente irrespiráveis. Instalado num banco de um comboio vejo o horizonte a pegar fogo. Van Gogh vai sentado ao meu lado. Silencioso. Da sua cabeça saem estrelas giratórias. A sua luz continua a cegar os incrédulos.


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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2016

No Barroso II

Barroso - Penedones, etc 124 - Cópia.jpg

 


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Terça-feira, 2 de Agosto de 2016

Uma oração sofridamente fodida… (em memória do Rui Rodrigues)

 

 

Foda-se, está tudo incompleto. Está tudo incompleto. Foda-se. A vida está irremediavelmente incompleta. Dizem que a vida se completa na morte. Ora foda-se, a vida é o contrário da morte. E a morte é o contrário da vida. E o contrário do contrário é a origem da vida. Não há dicotomia mais absurda. Para além de tudo, Deus fez da morte a sua vingança. Deixemos a ergonomia de Deus em paz. Deixemos a insolvência da eternidade em paz. Deixemos a economia das almas em paz. Deixemos o desespero da paz em paz. Deixemos todas as desilusões em paz. Deixemos a santíssima trindade em paz. Deixemos a guerra em paz. Deixemos a guerra em paz. Deixemos a guerra em paz. Deixemos em paz a brutalidade inusual de um coito severo. Deixemos em paz a virtude de um orgasmo múltiplo e de uma ejaculação precoce. Deixemos em paz as raras ejaculações tardias e os orgasmos funcionais. Deixemos definitivamente em paz a fertilização em vítreo. Deus, dizem os profetas, quis a vontade dominada pela crença. Deus, dizem os teólogos encartados, quis os homens dominados e santos e responsáveis e obedientes e respeitadores e simples e inteligentemente obsessivos pelos gestos simbólicos da abdicação. Deus quer existir na dissidência humana da vacuidade. Deus é um momento eterno. Deus deixou de ser verdadeiro a partir do momento em que me fez mortal. Deus teve o descaramento de se travestir de serpente. Foda-se, Deus teve de se disfarçar de animal rastejante para nos condenar à condição humana. Deus não desiste da paz em favor da guerra nem da guerra a favor da paz. Deus não desiste da necessidade urgente de ser uma desilusão cada vez mais urgente e insurgente e insolvente e incipiente. Deus fodeu-nos definitivamente a vida eterna afirmando com língua de fogo que era isso que nos oferecia em troca de lhe sermos fiéis. E se há coisa que seja verdadeiramente humana é que os homens são féis a Deus. Muito mais fiéis que Deus o é em relação aos homens e à sua nua humanidade. O Deus de todas as coisas é cada vez mais um Deus de coisa nenhuma.


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No Barroso I

Barroso - Penedones, etc 046 - Cópia.jpg

 


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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2016

300 - Pérolas e diamantes: a relatividade da estupidez

 

 

Eric Hobsbawm tem razão. Uma das ironias do século passado é que o resultado mais duradouro da aplaudida Revolução de Outubro, na Rússia, cujo principal objetivo era o derrube global do capitalismo, foi salvar o seu antagonista, tanto na guerra como na paz, fornecendo-lhe o medo como incentivo.

 

Agora já podemos olhar para trás e desfrutar da ironia da sua derrota. A força do desafio socialista global ao capitalismo transformou o fraco em forte, acabando por conseguir que triunfasse de uma maneira quase estúpida. 

 

Também em Moscovo, como muito mais tarde em Lisboa, o poder, mais do que tomado, foi apanhado. Diz-se que mais gente se feriu nas filmagens do grande filme de Eisenstein, Outubro (1927), do que durante a tomada de facto do Palácio de Inverno em 7 de Novembro de 1917. O Governo Provisório, já sem ninguém que o defendesse, esfumou-se simplesmente.

 

O mágico Mandrake saindo da parede, na nossa direção, quando abríamos a porta do frigorífico destronou o homem de aço soviético carregado de sorrisos, ideologia, mas sem papel higiénico, sabão, ou carro próprio.

 

H. Auden, metido na aventura revolucionária em Espanha, durante a guerra civil, bem exaltava a luta contra o inimigo comum, em 1937: “Amanhã para os jovens, os poetas explodindo como bombas, / Os passeios à beira do lago, as semanas de perfeita comunhão; / Amanhã, as corridas de bicicletas / Pelos subúrbios nas noites de Verão. Mas hoje a luta […]”

 

Um pouco mais tarde, já nos finais da II Grande Guerra, Spartaco Fontanot, um metalúrgico de 22 anos, membro do grupo resistente francês de Misak Manouchian, em 1944, escrevia à sua mãe: “Não culpe mais ninguém pela minha morte, eu mesmo escolhi o meu destino. Não sei o que escrever-lhe porque, apesar de ter as ideias claras, não consigo encontrar as palavras certas. Assumi o meu lugar no Exército de Libertação e morro quando a luz da vitória começa a brilhar […] Vou ser fuzilado daqui a pouco com 23 outros camaradas. Depois da guerra deve exigir o seu direito a uma pensão […]”

 

Mas o que derrotou o fascismo e, um pouco mais tarde, o comunismo, por incrível que pareça não foi a ideologia que cantava os amanhãs radiosos de sol marxista-leninista, mas uma coisa bem mais simples e prosaica: o patriotismo.

 

Conservadores fortemente imperialistas e anticomunistas como Winston Churchill, e homens de formação reacionária católica como De Gaulle, preferiram combater a Alemanha não por uma animosidade especial contra o fascismo, mas por causa de une certaine idée de la France ou a certain idea of ​​England.

 

Contudo, mesmo para pessoas como estas, o seu empenhamento podia ser parte de uma guerra “civil” internacional, pois o seu conceito de patriotismo não era necessariamente o dos seus governos.

 

Ao ir para Londres e, a 18 de junho de 1940, declarar que, sob a sua chefia a “França Livre” continuaria a combater a Alemanha, Charles De Gaulle praticou um ato de rebelião contra o governo legítimo de França, que decidira constitucionalmente terminar a guerra e fora, sem dúvida, apoiado nessa decisão pela grande maioria dos franceses da época.

 

Em situação idêntica, Churchill teria reagido da mesma maneira. Entretanto Estaline aguçava as suas garras de aço nas masmorras da Lubianka e provocaria uma das maiores chacinas da história. O Lobo das Estepes comia os seus próprios filhos ou os filhos da matilha.

 

Foi por essa altura que, para 80% da humanidade, a Idade Média acabou de repente. A partir daí o mundo, ou os seus aspetos evidentes, tornou-se pós-industrial, pós-imperial, pós-moderno, pós-estruturalista, pós-marxista, pós fosse o que fosse. E até pós-coital.

 

Agora vivemos neste mundo neoliberal, dominado, liderado e formatado pelos poderosos órgãos de informação.

 

As manifestações bem-sucedidas não são necessariamente as que mobilizam o maior número de pessoas, mas antes as que atraem maior interesse entre os jornalistas. O caso paradigmático português é o Bloco de Esquerda.

 

Pierre Bourdieu tem razão quando afirma que, exagerando apenas um pouco, pode-se dizer que meia centena de indivíduos inteligentes que conseguem obter cinco minutos de TV para um happening bem-sucedido podem produzir um efeito político compatível ao de meio milhão de manifestantes.

 

A escola dos multiculturalistas e dos defensores do eduquês, e da sua vertente fundamentalista pedagógica, fez triunfar a ideia de que é irrelevante e não democrático decidir se Macbeth, de Shakespeare, é melhor ou pior do que o Batman.

 

É tudo relativo, até a estupidez.


publicado por João Madureira às 07:15
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