Sexta-feira, 5 de Janeiro de 2007

Agora vou com os da feira e venho com os do mercado

 

Quando era rapaz novo – se é que alguma vez o fui, pois cada vez duvido mais de tal premissa – disseram-me que havia feiras e que estas eram muito necessárias para as pessoas se abastecerem de animais e outros produtos indispensáveis ao nosso dia a dia.

Mais tarde falaram-me do mercado.

Um pouco depois explicaram-me as regras porque se regia o referido mercado.

Quase ao mesmo tempo introduziram-me na lei da oferta e da procura, na especulação capitalista, na exploração da mão-de-obra barata e outros conceitos rigorosamente marxistas e até, convenhamos, um pouco leninistas.

Tenho que confessar que já nessa altura era um exíguo dissidente em potência, pois inclinava-me mais para o marxismo de Grouxo, vá-se lá saber porquê!

Como era cachopo ainda imaturo, acreditei piamente nas locuções dos explicadores e cheguei mesmo a ir com eles à feira.

Ajudei a fazer muita publicidade dessas ideias, auxiliei a implementar muita barraca de apoio, a publicitar muito remédio serôdio, muita mezinha milagrosa, muito disto, muito daquilo, também muito daqueloutro e por aí fora, num processo verdadeiramente educativo e deveras original, tão original como a chuva em Abril e o ramalhete de cravos no mesmo mês, só que a 25, que não azul, mas sim vermelho, ou encarnado como as papoilas, ou, ainda, como tudo o que é caduco e desengraçado, mas fiel e multiplicador. Pois!

Depois cansei-me da música de feira, da literatura de cordel, da banha da cobra e deixei-me transportar pelos que vinham do mercado.

Tanto uns como outros eram muito chatos e deveras aborrecidos.

Se uns afirmavam que sim, os segundos respondiam que sim mas…, enquanto os primeiros já se tinham posto no lado do talvez, e, por vezes, até tinham a higiénica ousadia de dizer não. Mas era sempre sol de pouca dura.

As certezas e os princípios apresentavam-nos sempre como relativos. E nisso tinham a sua razão. Só que a perdiam quando a tal relatividade se esfumava da prédica, especialmente quando eram eles os protagonistas da história, ou quando o negócio lhes corria de feição.

Alguns até conseguiam vender carne de porco por carne de vitela.

Quando lhes chamava a atenção para a contradição, argumentavam que, afinal, tudo era carne e por isso mesmo possuía as mesmas propriedades nutritivas.

Resumindo e filosofando: agora tanto vou com os da feira como venho com os do mercado. E sou mesmo capaz de nem ir nem vir com nenhum deles.

O mal já está feito. E assumido.

Agora deslumbro-me com o hipnótico esplendor das grandes superfícies.

 


publicado por João Madureira às 21:09
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1 comentário:
De Tupamaro a 6 de Janeiro de 2007 às 00:38
Não creio! Pelo que tem vindo a revelar, presumo mais vê-lo "a....pegado" a "pequenos volumes", tais como: "O Método"; "O(A) (C)Quartilho(A)"; " O Cubo" (do Salpicão);"os cónicos «covilhetes»"; as assimetrias tridimensionais dum pedaço de folar (do que se faz em Ervededo!), etc.
Ora diga lá se não é verdade!...
E bem haja!, ora essa!!!
Tupamaro


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