Sexta-feira, 30 de Junho de 2006

Correspondência

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Escrevo-te daqui de baixo, das terras de C. esperando que estejas bem.
Eu cá estou a gozar os rendimentos com muito entusiasmo e dedicação.
Com mais dedicação que entusiasmo, para ser rigoroso e sincero.
Levanto-me logo de manhã cedo, corro junto ao rio, depois tomo banho, volto à rua e sorrio para quem passa. Depois passeio um pouco e vou tomar o pequeno-almoço.
Bebo muito leite e muita água e como muita fruta fresca. Também leio os jornais no café ou nos bancos do jardim. A seguir passeio um bocado pelas ruas da cidade e, por vezes, paro para ouvir um pouco da música com que graciosamente nos brindam muitos músicos de Leste que por aqui passam. Cerca da uma da tarde vou almoçar a um restaurante pequenino que mais parece uma gruta. Mas a comida que servem é de boa qualidade. E bem sabes que isso para mim é que é importante. Depois desço mais algumas ruas, subo algumas vielas, percorro alguns recantos, visito alguns bairros e medito junto aos templos.
Posteriormente vou outra vez até ao café ler revistas científicas. Entretanto bebo mais leite e água, como mais alguma fruta fresca e sorrio para as pessoas que sorriem para mim. É muito frequente parar outra vez para ouvir mais música. Eu sou um rapaz simpático e educado, o que implica que por vezes compre um cêdê para dar de comer a quem toca e dar de beber a quem canta. É esta a minha obrigação.
Também observo montras, varandas, janelas, portas, os desenhos dos passeios, os declives dos telhados, o empedrado das ruas da zona velha, os olhares dos gatos e dos velhos que se sentam junto à porta das suas casas para observar quem passa. Têm olhos tristes, os velhos. Olham para mim como quem olha para uma sombra. E isso dói-me muito. Dói-me mesmo muito. À noite vou jantar a outro restaurante que mais parece o museu da casa da moeda. Tem um ar decadente e um pouco descuidado, mas a comida é boa e, como tu bem sabes, isso para mim é que é importante. Depois passeio mais um bocado junto às margens do rio e fico em paz com o mundo. Por vezes passam por mim pares de namorados sorridentes e eu sorrio também com muita satisfação. Eles quase sempre retribuem o sorriso. E eu torno a sorrir. Em certas alturas volto à rua principal e lá encontro novamente mais músicos a tanger os seus instrumentos.
Então paro um pouco e escuto mais uma pequena modinha.
Assim a modos que bem disposto, ou vou para o meu quarto ler algum livro, ou dois, ou três, com intervalos regulares entre eles, ou, então, vou ao cinema, mas quase sempre saio de lá melancólico. Os filmes são de uma qualidade mais que desprezível. Mas eu gosto de ir ao cinema. Para mim é um ritual. Mais do que um filme, o que busco são lembranças e sensações dos meus tempos de cineclubista. Bons tempos.
Por hoje é tudo.
Um abraço.

PS – Não te esqueças de regar as plantas e de dar de comer ao periquito.

publicado por João Madureira às 19:20
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Quinta-feira, 29 de Junho de 2006

Outros espaços te esperam... ou desesperam

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Incendeiam-se os aspectos.
Iluminam-se as pétalas das tulipas.
Sussurram os insectos.

Incendeiam-se os aspectos.
Deslumbram-se os trombonistas com as partituras.
Tonificam-se as trompetas com o juízo final.
Afligem-se os clarinetes com ciúmes dos oboés.

Incendeiam-se os aspectos por não perceberes a febre dos besouros, o delírio das cotovias, o desfalecimento dos grilos, o trabalho físico das cigarras, o canto das formigas, a exaltação dos olhares.

Incendeiam-se os aspectos por amares demais as pedras das calçadas, os reflexos dos morcegos quando passam a rasar os muros do Liceu, as coxas céleres das fêmeas ciosas da sua feminilidade oscilante, os queixumes inseguros das flores ansiosas.

Incendeiam-se os aspectos porque já não alcanças planar acima das nuvens.

Já desapareceram de ao pé de nós as libelinhas dos rios.
Já se purificaram os cavalo-das-bruxas.

Incendeiam-se os aspectos dentro dos livros.

E tu extenuas-te de luz.
Entorpeces-te de música.
Fantasias com a angústia dos desventurados.

Incendeiam-se os aspectos e tu foges com receio dos passos em desvio.

Acalma-te.
A iluminação das tuas mãos é uma bênção.
Caminha.
Outros espaços te esperam.
Outros
espaços
te
esperam...

Ou desesperam.

publicado por João Madureira às 20:00
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Quarta-feira, 28 de Junho de 2006

Olá

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Lá ao longe um avião desapareceu do nosso campo de visão. Agora só vemos nuvens e azul. É bonito o azul. São bonitas as nuvens.
Está um céu agradável.
Por vezes tudo é memória e bem-estar. E mais memória. E mais memória.
Quanto ao bem-estar, nem por isso.
Parece que não vemos nada quando espreitamos o universo inteiro numa gota de água, ou num olhar distraído, ou numa saudade de convívio.
Tudo anda centrado em superfluidade. Em acrescentos. Em mobilidade. Em juntar o supérfluo ao remanescente, o sobejante ao excessivo, o ínfimo ao irrisório, ou o ridículo ao irrelevante.
Mesmo olhando para o lado, mesmo parecendo distraído, o olhar lá esta a exprimir que o óbvio não se pronuncia entre pessoas que se querem.
Nem sempre o centro das nossas atenções está ao centro.
Nem é esse o perfil de quem saboreia.

publicado por João Madureira às 19:48
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Terça-feira, 27 de Junho de 2006

Linhas cruzadas

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Ontem não te pus os olhos em cima e sabes bem como me fazes falta.
Andam os dias desestabilizados e os céus turvos.
Por mais que me esforce não consigo estabilizar os meus sentimentos.
E não é transgressão minha as alucinações que experimento quando viajo de carro.
Só penso no motor a aquecer, a aquecer, as rodas a girar no asfalto, o ar a ausentar-se transversalmente ao vidro. O asfalto de encontro aos olhos, os olhos de encontro às árvores, as árvores de encontro à noite, a noite de encontro ao dia.
Decompõe-se, assim, a probabilidade do entardecer.
Desalenta-se a noite antes de embranquecer.
Não é o escuro que dói, é a indiferença.
Queria voltar a ser absolvido pelo que não fiz.
Perdoem-me.

publicado por João Madureira às 19:34
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Segunda-feira, 26 de Junho de 2006

Deixa-te ficar aí

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Não me posso sentar porque tenho pressa.
Estou agitado. Estou nervoso. Estou eléctrico.
Estou desejoso de chegar a casa para ler pela terceira vez a obra “Pedro Páramo” de Juan Rulfo.
Aquilo não me sai da cabeça. Está tudo morto, até o narrador.
Que dor. Que sensação de loucura total.
Não me convences. Prefiro ir ler o livro que ficar aqui a falar de futebol.
Concordo que está fresquinho. Mas não me convences a ficar aqui para falar de futebol.
Vou para casa. E já.
Até amanhã.
Não quero que me acompanhes a casa. O melhor será ficares aqui a falar de futebol com os teus amigos.
Tu até falas bem de futebol.
O problema não está no futebol, está na conversa interminável sobre quem é o melhor a fintar, quem passa melhor a bola ao Pauleta, quem corta melhor os lances do adversário, quem organiza melhor o jogo.
O problema também não está no Pauleta, que não marca golos.
O problema está na conversa, não na bola. O problema está na conversa não nos médios, nem nos defesas, nem nos avançados, nem nos laterais, nem no guarda-redes. O problema está na vossa conversa interminável sobre aquilo que não dominais mas que teimais em discutir como se dependesse da vossa conversa a vitória dos jogadores.
Tu, por exemplo, nunca deste um pontapé numa bola mas falas como se tivesses sido o Eusébio do teu bairro.
Tu até falas bem. Falas mal de tudo, mas falas bem. Dizes mal de tudo, mas falas bem. Tu até falas bem, mesmo quando dizes mal, que é aquilo que sempre fazes.
Agora até já percebes de economia e finanças. E de futebol. E de tácticas. E de educação. E de política internacional. E de política interna.
Deixa-te ficar aí.
Deixa-te ficar aí.
Quero lá saber da lesão do Cristiano Ronaldo. O que eu quero é chegar a casa e sentar-me a ler o livro do Juan Rulfo. Não, não quero que me acompanhes a casa. Eu vou sozinho.
Não, não quero que me acompanhes a casa. Eu vou sozinho.
Não insistas.
Eu vou sozinho.
Quero lá saber do cartão vermelho do Deco.
O que eu quero é chegar a casa e pôr-me a ler o “Pedro Páramo”.
Quero lá saber da expulsão do Costinha.
Não, não quero que me acompanhes a casa.
Quero ir sozinho.
Tenho pressa. Até amanhã.
Deixa-te ficar aí. Não insistas.
Até amanhã.
Não insistas.
Até amanhã.
Não, não quero que me acompanhes a casa.
Eu vou sozinho.
Quero lá saber quem é que vai substituir o Figo.
O que eu quero é chegar a casa e deitar-me a ler o livro do Juan Rulfo.
Até amanhã.
Não insistas, eu vou sozinho.
Até amanhã.

publicado por João Madureira às 20:06
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Domingo, 25 de Junho de 2006

Desabafa, por favor!

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Nunca é tarde de manhã.
A manhã é que pode ser tardia.
Mas a tarde nunca é manhã.
A tarde é sempre tarde.
A tarde, quase sempre, é noite amanhecida, mesmo sendo noite e manhã, desejando, sempre, sendo a tarde tardia, ser tarde e noite, quando a manhã é manhã (ou manha) e a tarde é noite sendo a manha quase a manhã da tarde e da noite amanhecida.
E a noite tardia é manhã (que não manha), ou será que a noite é que é maninha?
Não me estragues a tarde, ó manhã.
Não me arruínes a manhã, ó noite.
Não me destruas a noite, ó tarde.

Nunca a manhã é tardia, mesmo sendo a tarde amanhecida.
A manhã é manhã, mesmo não querendo.

Ó noite, nunca sejas demais. Porque sendo, por vezes, tardia, nunca és manhã mas és amanhecida antes da tarde.
Tarde, tardia tarde, tarde tardia, nunca foste manhã. Mas és quase noite.

E, por outro lado, bem podias ser noite quase amanhecida.

Quero tocar-te de noite, ó tarde.
Mas eu amo a manhã.
Mesmo quando amanheço tardiamente à noite.

publicado por João Madureira às 18:39
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Sábado, 24 de Junho de 2006

Mudar de passeio

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O José não gosta nada de mudar de passeio.
Diz que tem medo de atravessar a rua. Que lhe destabiliza o sistema nervoso e lhe mexe com a libido.
Ele tem a libido um pouco estragada. Coisas da juventude.
O José foi à guerra e quem vai à guerra dá e leva. E ele levou mais do que deu.
Por vezes fica com os olhos turvos e começa a chorar.
Nesses dias não sai de casa. Nem do quarto. Nem da cama.
Desenha fios de metal e aranhas muito coloridas.
Pode passar assim dias e dias alimentando-se apenas de iogurtes naturais e fruta cristalizada. Também lê revistas científicas, mas lê os artigos do fim para o princípio. Depois traduz alguns para o árabe e no fim rasga-os.
Sabe tocar piano, andar de bicicleta e assobiar com os dedos. Toca piano só a partir das cinco da manhã e apenas até ao amanhecer. Nunca o faz fora deste intervalo de tempo.
Tira muitas fotografias às suas mãos e depois amplia-as muitíssimo para observar os poros e os pêlos da epiderme.
Nos dias de chuva mia muito. Nos dias de sol muge como os bois do barroso.
Na sua quinta da aldeia tem uma zebra manca que comprou a um circo. Escova-a todas as semanas e passeia-a pela aldeia.
Também toca muito bem cítara. Mas os amigos não gostam deste tipo de música. Coisa que o irrita muitíssimo e o faz estalar os dedos.
Costuma sair nas noites de geada e passear um galo de briga cego que comprou a um mexicano de férias em Espanha. Costuma dar-lhe pipocas picantes e levá-lo ao Miradouro de S. Lourenço para lhe mostrar a cidade de Chaves. Nesses dias o galo canta que se farta e ele acompanha-o à guitarra.
O José é muito habilidoso com as mãos. Aprendeu a fazer croché e confecciona lindos carapuços para árabes e judeus. Escreve-me cartas enormes com letras desenhadas a rigor e isto vivendo nós apenas a cem metros um do outro. E envia-mas sempre em correio azul. São cartas que falam do seu amor pelos passeios, pelos candeeiros, pelos bancos de granito, pela poesia chinesa antiga, pelas flores da urze e da carqueja, pelo musgo dos muros e pelos reflexos do céu nas águas do Tâmega.
Ontem compôs uma música muito bonita para o seu galo cego.
Hoje tocou-a para mim.
Eu até chorei.
Depois fomos os dois, sempre pelo mesmo passeio, até ao rio, descalçámo-nos e molhámos os pés nas suas águas tranquilas.
Então ele tirou um grilo do bolso e pediu-lhe que cantasse uma ária de Mozart.
O grilo não se fez rogado e deslumbrou todos os presentes.
O mundo é, por vezes, um lugar estranho, mas encantador.

publicado por João Madureira às 19:48
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Sexta-feira, 23 de Junho de 2006

a, b, c, d, e, f

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a) Sinuosas são as linhas por onde se cosem os argumentos cinematográficos. Especialmente os portugueses. Que, de tão elaborados, destroem a paciência do cinéfilo mais intrépido.
Mas o cinema de hoje é imbecil. Muito movimento e pouco argumento. É só meia bola e força.
Tudo se baseia nos actores. Mas os actores são quase todos iguais, isto para não dizer todos. Todos e mais alguns. E é nos “alguns” que a porca torce o rabo.

b) Um dia vi um filme com uma porca e já me esqueci da história. Doutra vez vi um filme com um anão. Só me lembro do anão. E mal. Também me recordo de ter visto um filme sobre uns emigrantes magrebinos em França que comiam um pão tipo cacete com chouriço junto a um camião do lixo. Não me lembro de mais nada porque depois adormeci. O filme era do Godard. Também me lembro de outro filme onde um jovem francês bebia ar com a ajuda duma colher no meio do campo, depois não me lembro de mais nada porque adormeci. O filme era do Godard. Lembro-me, ainda, de um outro onde um jovem casal falava através dos títulos dos livros e não me lembro de mais nada porque adormeci a meio. O filme era do Godard.
Recordo de ir ver mais alguns filmes do Godard mas desses não me lembro mesmo de nadinha. Só de acordar no fim do filme.

c) Está claro que o problema não estava na falta de qualidade dos filmes do realizador francês. O problema residia na minha falta de cultura cinéfila. Pois não percebia as metáforas, os planos, os diálogos, a montagem, as insinuações, a linguagem revolucionária, nem percebia o francês, que para mim sempre foi uma linguagem de donos de gatos persas que gostam de sair à noite com alguns rapazes.
O povo detesta os filmes do Godard. Os intelectuais adoram-nos. Não sei é se os conseguem ver sem adormecer.

d) O povo é muito leal nos seus gostos. Os intelectuais não. Os intelectuais são bons rapazes, ou raparigas, mas é gente que gosta de se sentir mal com o bem dos outros. Adoram dizer que gostam de coisas chatas e complicadas. Não apreciam coisas simples. Gostam do povo vertido em dialecto epilogado. Gostam do povo mas detestam tudo o que ele faz, o que ele come, o que ele veste, o que ele lê. Abominam a música e adoram ruído.

e) Os intelectuais são demais, mas, por outro lado, nunca são demais. Em Portugal até são de menos. Mas eu gosto muito deles. E também gosto do povo. E de música popular, fado, marchas, folclore. Adoro caldo verde e chouriço. E pão saloio. E camisolas do Figo. E bandeiras de Portugal e braceletes de Portugal e “pines” de Portugal e cachecóis de Portugal e de lenços de Portugal e relógios da selecção de Portugal… e também gosto de Portugal, propriamente dito.
E de sardinhas assadas e de febras assadas e de linguiças assadas e de alheiras assadas e de camisolas do Deco e do Figo e do Pauleta e do Simão Sabrosa. E de Portugal e da nossa selecção. E da nossa querida bandeira das quinas. E de figos e de maçãs e de laranjas e melões e melancias e de peras e tangerinas e da camisola do Maniche e da do Figo e da do Deco e da do Ricardo e da do Figo novamente, porque nunca é demais. E da bandeira de Portugal e da camisola da selecção de Portugal. E de Portugal, propriamente dito, também gosto muito. E de sopa de chícharros com couves e de creme de cenoura e de arroz de tomate com carapaus fritos. E gosto muito dos calções com o número 7 do Figo. E dos cachecóis da selecção e das bandeiras de Portugal.

f) Viva Portugal, propriamente dito.
Viva a bandeira portuguesa que agora está em toda a parte.
Viva a selecção portuguesa.
Viva o bacalhau.
Viva tudo o que é nosso.
Viva Timor-Leste, que é bem o espelho da sua Pátria-Mãe.
Viva tudo o que pode viver.
E viva outra vez. E outra. E outra. E outra. E outra ainda.
Golo. Golo. Golo e outra vez golo. E mais um golo e outro e outro e outro.
E mais uma bandeira e mais um golo e mais uma camisola do Figo e o caldo verde e tudo e tudo e tudo.
Viva tudo e mais alguma coisa.

publicado por João Madureira às 20:09
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Quinta-feira, 22 de Junho de 2006

Procura-se um candeeiro

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Desapareceu-me um candeeiro.
A quem o encontrar pede-se encarecidamente que nos contacte neste blog.
Estou inconsolável. Não sei que vos diga.
Estava eu a editar mais um “postal” quando ele se volatilizou nas auto-estradas da Internet. E não disse nada. Não se despediu, não comentou com ninguém o seu hipotético mal-estar. Desapareceu. E é tudo.
Não sei se foi por causa da minha admiração por candeeiros, se pela deslumbrante arte de os admirar.
Não sei, ainda, se foi alguma coisa que eu escrevi o que o pôs em fuga.
Só sei que desapareceu sem sequer se despedir. E isso não se faz.
Estou inconsolável, triste, abatido, dilacerado, confuso, gaguejante, amargurado, deprimido, humilhado e ofendido.
Mesmo assim continuarei a amar profundamente os candeeiros, a sua verticalidade, a sua luz, o seu brilho, a sua calma paciência, o seu sentido de missão, a sua capacidade para o sofrimento, a sua beleza pura, o seu ferro forjado, as suas lâmpadas, os seus parafusos e fios.

publicado por João Madureira às 20:34
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Em memória dos desertores

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Lá vem o sol aquecer os pinheiros e eles agradecem, como os animais agradecem a sua sombra nos dias de maior calor.
O sol e a sombra nos montes do interior queixam-se de abandono.
Mas ninguém lhes liga.
Também se queixam os pássaros e os grilos e as cigarras e as cobras e os lagartos e os coelhos.
Sente-se um sussurro de compaixão quando o vento resvala pelos troncos das árvores dos montes. E gemem baixinho.
Aglomeram-se as formigas nos carreiros que ninguém usa.
Apodrecem as folhas e as raízes das árvores por falta de carinho e utilidade.
As teias de aranha envolvem as giestas.
Os tojos já não crescem como deviam.
Deslizam as ervas pelos outeiros invadindo o que já foi útil e belo.
Choram os salgueiros.

publicado por João Madureira às 19:58
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Terça-feira, 20 de Junho de 2006

A circunstância da lã

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Venho aqui dar-vos conta da minha profunda admiração pelos semáforos.
Pelo simples facto de mudarem de cor conforme são programados, fazem com que as pessoas e os carros não se embaralhem nas estradas. Quando acende a luz verde para os peões, logo do outro lado aparece o vermelho para os automobilistas. E quando abre o sinal verde para os automobilistas, é o vermelho a cor que cintila para os peões. E a história é sempre assim. Verde para uns, vermelho para outros. Vermelho para uns, verde para outros. Por isso aprecio os semáforos.
Também tenho muito respeito pelas passadeiras. Sem elas, os semáforos não podiam desempenhar a sua tarefa com a qualidade devida.
Considero muito os semáforos e tenho uma simpatia muito especial pelos postes de iluminação pública, além de apreciar os candeeiros, as lanternas, os projectores, os pisca-piscas dos carros, as velas e os archotes.
Mas não era disso que eu hoje vos queria falar.
Hoje era mais dos sentimentos das pessoas pelos tecidos de lã.
A lã advém do pêlo da ovelha. Quase toda ela. A lã, não a ovelha. Porque a ovelha não é só lã. Também é carne e leite. As ovelhas são tidas muito em conta na linguagem infantil. E são animais muito dóceis, muito meigos e muito dados.
Mas não era das ovelhas que hoje vos queria falar. Hoje era mais dos tecidos. Especialmente da lã.
A lã é muito quente e dela se faz muita e boa roupa. Roupa agradável ao tacto. Quando a lã é tingida também fica muito agradável ao olhar.
Mas para se obter a lã, os trabalhos são muitos, variados e cansativos.
Está claro que actualmente existem muitas máquinas que ajudam nessas tarefas. Antigamente era outra cantiga. Uma cantiga bem mais arrastada e gemida.
Actualmente quase todas as cantigas são muito simples, mas berradas. O que não se compreende muito bem pois as tarefas são bem mais descansadas que antigamente.
Antigamente não havia semáforos, nem carros, nem passadeiras. Eram tempos mais descansados, mas mais tristes e melancólicos. Quase tudo era campo, animais e florestas. Hoje é mais estradas, carros e cães. Também há muitos telemóveis.
Hoje fala-se muito e diz-se pouco. Antigamente falava-se pouco e dizia-se muito mais.
Também se escrevia menos mas com muita mais qualidade. Tinha que se poupar no papel e na tinta, é que havia pouco e era muito caro. Hoje não, hoje até já dão os jornais e as revistas, só por causa da publicidade.
Por falar em dar, a Câmara de Chaves também organiza uns concertos bem agradáveis na Praça de Camões. A Câmara gosta muito de dar música aos seus munícipes. E faz bem. Os munícipes flavienses são muito cordatos, responsáveis e trabalhadores especialmente produtivos.
Por isso é com muito agrado que assistimos a estas suas iniciativas.
O que é pena é nós – os munícipes flavienses –, não podermos retribuir na mesma moeda. Pois era uma obra admirável podermos também dar música à nossa autarquia, especialmente aos senhores vereadores e, muito especialmente, ao senhor presidente, que tão exausto deve andar com a administração do nosso concelho.
No entanto aqui fica a sugestão, para quem, mais avisado e empreendedor do que nós, possa trabalhar nesse sentido.

publicado por João Madureira às 21:19
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Segunda-feira, 19 de Junho de 2006

O empirismo da dor

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Apanhei um torcicolo. Agora ando com a cabeça levantada como um peru.
Apesar do incómodo, tem algumas vantagens.
Reparo em coisas que antes não reparava.
Não sou obrigado a olhar para as pessoas quando elas estão a falar comigo sem parecer mal-educado. Isto é muito conveniente quando a conversa do nosso interlocutor é uma chatice pegada.
Também dá jeito quando a palestra do amigo que admiramos se torna tão interessante que ficamos a olhar para ele como se fossemos adeptos de futebol e a nossa equipa acabasse de marcar um golo. O jeito tem a ver com a dificuldade que nos impede de mais esta bajulação que torna o nosso amigo tão vaidoso e a nós patetas alegres.
Fora isto, torna-nos parecidos com uma grua quando nos viramos, ou com um cabide quando nos vemos ao espelho, ou com um político quando recebe uma medalha ou a notícia de um mau resultado eleitoral.
Também nos deprime a posição. E a dor tem o mesmo resultado na nossa psicologia.
O ar de girafas de pescoço curto faz rir as crianças e os nossos inimigos.
Descansamos mal. Custa-nos a adormecer. Não sonhamos nem podemos ler com qualidade. O riso também se torna custoso. E o resto. Especialmente a intimidade.
Claro que se pode evitar o custo da intimidade, mas até isso se torna aflitivo.
E humilhante.
O que pensará de nós quem connosco partilha a intimidade?
Mesmo tendo para nós um discurso compassivo, a realidade pode ser outra.
Começamos a ter dúvidas. E a dúvida é a modos que um veneno poderoso.
Um torcicolo pode ainda tornar-se numa alucinação introspectiva.
Pode transformar-se num empate.
Pode quebrar-nos o ímpeto para a investigação científica, ou para piedade animista.
Ou, então, pode fazer-nos perder o instinto para jogar no totoloto, no totobola e no euromilhões.
Por vezes também provoca tonturas e espasmos no dedo mindinho do pé direito.
Dificulta-nos a tarefa para ver se os sapatos estão bem engraxados.
Agora tenho de vos deixar. É que acabei de tropeçar numa tripla e cair em cima do gato siamês enquanto ditava este texto à minha secretária.

publicado por João Madureira às 20:52
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Domingo, 18 de Junho de 2006

Em defesa da amizade

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O meu amigo Miguel é muito distraído. Muito inteligente, mas muito distraído. Muito boa pessoa, mas muito distraído. Distrai-se com muita facilidade. Ainda ontem, quando andávamos a passear, foi de encontro a um poste de iluminação pública. Fez um grande galo na testa, mas nem sequer se queixou. O Miguel fala muito, pensa muito, distrai-se muito. Por vezes também se ri com muito saber. Muitos dos meus amigos dizem que ele é maluco, mas eu garanto-vos que não é. De maluco não tem nada. Ele é muito esperto, muito inteligente, muito compreensivo, muito efusivo, muito estudioso. Só que é muito distraído. Numa noite entrou dentro de uma casa alheia pensando que era a sua. Deitou-se na cama e só quando os donos se puseram aos gritos é que ele se deu conta do equívoco. Aquilo ainda foi uma grande trapalhada, pois meteu polícia, bombeiros, insultos e até prisão e julgamento. Dizem que nessa noite na esquadra recitou o Anticristo de Friedrich Nietzche inteiro, com prefácio, data de edição da obra, tradução, capítulos e respectivas páginas. Parece que o polícia de plantão o ameaçou com um processo por desrespeito à autoridade e por provocação religiosa pois não conseguiu descortinar que o texto era do filósofo alemão e não um insulto gratuito, ou um gozo fininho. Os polícias de agora são muito sensíveis e muito senhores do seu nariz. Até já têm alguma cultura. Mas daí até conhecerem o Anticristo de Nietzche vai ainda uma grande distância. Cultos, cultos, mas nem tanto. Muita cultura também embrutece, disse-me uma vez um.
Não me lembro de um único dia em que eu e o Manuel (*) andássemos a passear e ele não tivesse tropeçado nalguma coisa. Já tropeçou em cães e cãezinhos, gatos e gatas, lambris de passeios, pedras pequenas e grandes, pessoas de vários tamanhos, raças, credos e ideologias, crianças calmas e rabugentas, choronas ou risonhas, polícias e guardas republicanos, bombeiros voluntários e sapadores, soldados, sargentos, tenentes, capitães, majores e por aí fora. Parece que ainda só não tropeçou num contra-almirante. Também já tropeçou em carros de grande e pequena cilindrada, bicicletas de montanha e de corrida, triciclos novos e velhos, burros de carga, cavalos de corrida e, até, mendigos de várias espécies e origens, idades e proveniências, vícios e predilecções. Quando isso acontece fica muito aflito e começa a gaguejar. Acto contínuo, oferece uma grande esmola ao sujeito passivo. Alguns deles fazem-se mesmo à colisão. Mal o avistam na rua, tentam sempre ir dar-lhe um encontrão. Ele pede sempre muita desculpa e dá-lhes obsessivamente uma esmola choruda. Mas, a partir daí, o seu discurso torna-se ininteligível. Não só pela temática, mas também por causa da gaguez. É aflitivo. E ele sabe-o. Falar sobre semiótica, ou sobre epistemologia, ou cibernética a gaguejar é uma tortura quase insuportável. Mas se eu o abandonasse quando ele está nesse estado quase catatónico seria uma traição. Afinal eu sou seu amigo. E os amigos devem servir para alguma coisa.
O Miguel só tem medo de uma coisa: tropeçar num cigano que esteja a pedir esmola e que finja que toca o acordeão. Aí põe-se aos gritos e tem que tomar dose tripla da sua medicação para os nervos.
Ninguém é perfeito. Nem o Miguel. Nem eu. Nem o Nietzche. E, muito provavelmente, nem o amigo leitor.
Essa é que é essa.

(*) Onde se lê Manuel deve-se ler Miguel, porque, sendo o Miguel, Manuel e o Manuel, Miguel, alguns leitores podem confundir-se por falta de informação. Está claro que o erro não está nos nossos leitores, está em nós. O Miguel é muito distraído e eu também tenho os meus deslizes. Mas, tenho de reconhecer, o Miguel não pode ser culpado pela minha falta de rigor, que não falta na amizade. A minha amizade pelo Miguel, que também é o Manuel, continua a mesma, mas a minha amizade pelo senhor Pintassilgo cresceu de uma forma exponencial. A ele o meu bem-haja. E não se distraia, caro amigo. Mantenha-se atento. Eu e o Miguel, que também se chama Manuel, como atrás referi, ficamos-lhe eternamente agradecidos pelo cuidado da sua leitura e a atenção prestada ao nosso discurso.

publicado por João Madureira às 18:51
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Sábado, 17 de Junho de 2006

A partida de um raio

2004_0905chavesaguasetembro30004.JPG

Vem um raio.
Vai um raio.
Vem a chuva.
Vem o vento.
Vem o sustento.
Vai o olhar em busca do momento.

Vai o que não vem.
Vem o que não vai.
Vai e vem.
Vem e vai.
Ou não vai o que vem?

Se vem, bem.
Se não vem, bem também.

Se um raio vem com a chuva, outro raio vai sem ela.
E está bela a Florbela. Por que vem. E vai. Vai e vem.

Chove em Belém e em Santarém.
E, sobretudo, em São Pedro de Agostém,

Vai o Pedro, vem a mãe, e todos pensamos no além.

publicado por João Madureira às 22:32
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Sexta-feira, 16 de Junho de 2006

Tonturas

2004_0711ficojulho2004-b0011.JPG

Não sei o que sinto quando vejo um canhão.
Por vezes anda-me a cabeça à roda. Só por vezes.
Não há nada de mais estúpido na cultura humana do que a guerra.
Dizem-na necessária.
Será suficiente?
Só quem não convence mata.
Por vezes os homens desfilam mostrando armas que podem matar outros homens para se defenderem. E até existem armas que podem acabar de vez com toda a nossa civilização. Mesmo assim, lá estão as armas que dizem que existem pessoas que podem escravizar e dominar outras pessoas. E isso é mesmo verdade.
Uma verdade confrangedora. No entanto, verdade.
Quem se orgulha das armas que possui não sabe ser humano.

publicado por João Madureira às 19:49
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Quinta-feira, 15 de Junho de 2006

Distracções

2004_0730santoamaro29julho040101.JPG

Há festa no bairro. A banda toca modas tradicionais.
O senhor José e a Dona Rosa dançam todos pimpões.
Os meninos querem um gelado, ou pipocas, ou correr e gritar, ou chatear os pais. Tudo ao mesmo tempo. Os pais desesperam. Também querem dançar. Têm saudades dos tempos em que namoravam. Quando tudo ainda era desejo, raiva e ciúme.
Agora estão mais calmos. Pensam nos problemas do dia-a-dia.
A vida de adulto é uma chatice. Só preocupações.
Já nem tempo têm um para o outro.
Os filhos não lhe dão descanso. Só canseiras.
Não se contentam com nada. Quererem tudo.
Tudo o que brilha. Tudo o que mexe. Tudo o que custa dinheiro e só serve para deitar fora passados alguns minutos.
A dona Rosa não se cansa de dançar. Sorri e rodopia. Rodopia e sorri. Depois dá três passos para a frente, dois para trás e um para o lado. Dançar é sempre assim. Mexer os pés e abanar um pouco o corpo.
O Senhor José ainda a consegue seguir com algum brilhantismo. Por isso sorri também.
Os foguetes estouram no ar. Os cães começam a ladrar e as crianças ficam com medo.
De alguma coisa deviam de ter medo.
Agora querem colo. Depois querem ir para o chão. Depois querem correr. Depois querem uma Coca-Cola. E um bolo. E um chupa-chupa. E outro chupa-chupa. E outra vez colo. E outra vez um gelado.
A Dona Rosa continua a puxar pelo senhor José.
O senhor José começa a dar de si, mas disfarça bem.
Mais música, mais foguetório. E os garotos pedem outra vez colo. Agora riem-se muito porque os vêem dançar.
Depois agarram-se a eles e dançam todos juntos.
São uma família. E isso é bom, seja lá porque razão for.

publicado por João Madureira às 20:03
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Quarta-feira, 14 de Junho de 2006

Anúbis em casa

2004_1005interioresq0028.JPG

Apareceu-me em casa, não sei ainda bem como, Anúbis, o antigo deus egípcio da morte e dos moribundos, por vezes também deus do submundo. Conhecido também como deus do embalsamamento, o guardião das tumbas e juiz dos mortos. Os egípcios acreditavam que no julgamento de um morto era pesado o seu coração e a pena da verdade.
Por vezes Osíris, o seu pai, aparece também cá em casa e trocamos opiniões. Noutros dias é a sua mãe, Nephthys, quem faz o mesmo e então estabelece uma troca de opiniões muito serena e muito cordata. Ela é uma deusa muito educada, muito curiosa e sábia. Nunca dá uma opinião se não lha pedirem. E mesmo assim pede sempre desculpa. E gosta muito do seu filho a quem não nega rasgados elogios. Já não existem divindades assim.
Anúbis já me apresentou a sua filha, Qeb-hwt, também conhecida como Kebechet. Uma rapariga muito gira, muito estudiosa e serena. Também ela gosta de música, de toda a música, menos a clássica, à semelhança do pai.
Anúbis aninhou-se junto às colunas da televisão e da aparelhagem de som e dali não quer sair.
Ouve com muita atenção a música rock, jazz, pop, hip-hop e até música portuguesa, menos fado que diz que é uma música sempre igual, muito lamechas e pobrezinha.
Mal ele sabe que o fado é a imagem fiel do nosso povo.
O que não tolera é música clássica. Apenas com uma excepção, gosta muito de Bach. Muito, mas mesmo muito.
Também aprecia ouvir o noticiário das nove na SIC Notícias, a cargo do educadíssimo Mário Crespo. Hoje, como ele não apareceu, ficou um pouco inquieto.
Facto curioso é que se mantém ali paradinho, com as suas orelhas espetadas e focinho muito aprumado. Nem sequer pisca os olhos.
Não se emociona com nada. Um deus é um deus. Nunca mostra os seus sentimentos aos mortais. Eu não lhe levo a mal.
Mede cerca de 30 cm mas isso não o impede de ser imortal. Antes lhe facilita a função.
Ontem à noite cantou, para quem o quis ouvir, a canção “Nefretite não tinha papeira” do Zeca Afonso. Cá em casa, porque somos fãs incondicionais do músico português, ficámos de boca aberta, mas muito satisfeitos.
Pedi-lhe então autorização para o fotografar. Ele foi muito prestável. Eu agradeci-lhe e pus-lhe um pouco de Bach na aparelhagem. Ele deu um passo em frente e depois regressou à sua posição inicial.
Depois fui para a cama ler alguma poesia de Herberto Hélder (Poemas do Antigo Egipto), que, segundo me confessou Osíris, é tu cá tu lá com o seu filho.

publicado por João Madureira às 20:39
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Terça-feira, 13 de Junho de 2006

Não quero ser pescado

2004_1208chavesDezPonteRio0014.JPG

Por vezes sinto que, mesmo sem querer, ando atrás do anzol do pescador.
É um impulso. Um ligeiro impulso, mas que, no entanto, me perturba.
Há anzóis por todos os lados. A televisão é um anzol. A política é um anzol. As ideologias são grandes anzóis, bem assim como as religiões e o futebol.
O problema é que o anzol está sempre encoberto pelo isco.
Somos constantemente perseguidos pela minhoca, mas é o anzol quem nos mata.
Quando olho para o rio sinto-me triste. Eu até fora da água me afogo. Esbracejo, sopro e esperneio em contacto com o ar.
O sol também me incomoda. Especialmente a sua luz intensa que come as cores.
Gosto de ver as nuvens voar em cima das montanhas.
Os pássaros inquietam-me. Penso que, no seu voo inconstante, podem chocar com as casas, ou com as árvores, ou de encontro às sombras.
O voo ziguezagueante das borboletas aflige-me. Penso sempre que vão cair a qualquer momento.
E os homens quietos nos seus ideais deprimem-me.
Não tenho paz.
Ó perseguidora inquietação, senta-te ao meu lado e desabafa.
Para ti tenho todo o tempo do mundo.

publicado por João Madureira às 18:58
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Segunda-feira, 12 de Junho de 2006

Céu muito nublado

2004_0905chavesaguasetembro10044.JPG

– Não vás com tanta velocidade.
– Achas que sou oligofrénico?
– Não. Nem por isso. Mas o que é quem tem isso a ver com a velocidade?
– Tudo tem a ver com tudo.
– Não sei se és oligofrénico ou não. Tenho a certeza é que aceleras muito dentro das cidades.
– Só dentro das cidades?
– E fora delas. Tu aceleras em qualquer lado.
– Mas achas mesmo que sou oligofrénico?
– O que tu és é maluco.
– Então achas que sou mesmo oligofrénico.
– O que tu és é um chato.
– Modera-te. Oligofrénico sim, chato nunca.
– Que nuvens tão escuras.
– Não disfarces.
– Vem aí uma trovoada das grandes.
– Não desvies a conversa.
– Deixei a roupa a secar na varanda e vai molhar-se toda.
– Eu preocupado com a minha oligofrenia e tu pensas só na tua roupa! És uma ingrata.
– A roupa também é tua… e dos garotos. E a ingratidão tem as costas largas.
– Tens razão, as nuvens são mesmo ameaçadoras.
– Eu não te disse.
– Achas que sou mesmo oligofrénico?
– Não, não acho. O Mundo é que não te compreende.
– Assim está melhor. Mas não dizes isso só para me agradar, pois não?
– Não.
– Não?
– Não.
– Escusas de ser tão evasiva.
– Eu não sou evasiva, sou sincera e curta de palavras.
– Então achas que não sou oligofrénico.
– …
– Não dizes nada.
– Vai mais devagar que isso passa. Temos muito tempo para chegar.
– Mas não disseste que querias chegar a casa rapidamente para apanhares a roupa que se pode molhar?
– Que se lixe a roupa. Eu quero é chegar a casa tranquila e inteira.
– Achas que sou oligofrénico?
– …
– Achas ou não? Diz a verdade.
– …
– Está bem, eu vou reduzir a velocidade. Começou a chover. Eu gosto da chuva. E tu?
– …
– Olha, liga o rádio.
– O teu basta.
– Achas que sou oligofrénico?
– …
– I’m singing in the rain…

publicado por João Madureira às 20:16
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Domingo, 11 de Junho de 2006

Diálogos

2004_0730santoamaro29julho040001.JPG

– Que boneca estás!
– Tu também estás muito jeitosa.
– E ela também.
– Uma mulher bem aperaltada até dá gosto.
– Dá gosto aos outros!
– Eu visto-me assim para me sentir bem comigo própria.
– Mentirosa!
– Tenho um corpo perfeito, até pareço um manequim de montra.
– Pareces ou és?
– És ou pareces?
– Eu pareço aquilo que sou e sou aquilo que pareço, que mesmo não parecendo sou e não sou.
– Está bem. Não te amofines que te faz rugas.
– O teu penteado é muito catita.
– O teu também. E o dela.
– O cabelo curtinho e penteadinho faz-nos parecer mais leves e esbeltas.
– Com um pouco de gel parecemos mesmo seres andróginos.
– Também acho.
– Estais muito instruídas.
– O que nós estamos é na moda.
– Achas que nos podemos excitar?
– Deixa-te de sonhos húmidos.
– Porquê?
– Ó santa ingenuidade.
– Vá lá, então. Portem-se com dignidade.
– Olha, façam a vossa melhor pose pois está ali um fotógrafo a apontar-nos a sua objectiva.

publicado por João Madureira às 18:06
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Sábado, 10 de Junho de 2006

Lá mais à frente

2004_0905chavesaguasetembro30008.JPG

Não há necessidade de olhares para mim com esses olhos ternos e interrogadores.
Eu não me chateio. Até gosto.
Mais a mais, não te tenho medo.
Ai ris-te. Pois ri-te à vontade. Eu não me importo. Até gosto.
Não. Não olhes para mim dessa maneira.
Não me convences. Eu não gosto de cães.
Bem, não é que não goste deles. Só que não os aprecio e acho detestável o excessivo afecto que as pessoas lhe dedicam. Lavam-nos, passeiam-nos, dão-lhe boa comida, vacinam-nos e até lhe administram contraceptivos. Já reparaste que todos os cães de agora são obesos?
Há por esse mundo fora gente que não tem nem sequer um copo de água para beber ou uma mão cheia de arroz com que se alimentar.
Os cães não são seres humanos para terem tanta atenção.
Agora há cachorros por todos os lados. Ladram, defecam, cheiram mal, mijam em todo o lado.
Eu não gosto de cães.
Ou melhor, não gosto de epidemias e o número de cães que há por aí não augura nada de bom.
O que está em causa não são os cães. É o seu número excessivo. É a sua sacralização.
As pessoas podem não ter filhos, mas têm cães.
E depois passeiam-nos pela rua, que é um espaço público que custa tempo e dinheiro a manter limpo, para que eles defequem e urinem nos passeios, nos postes de iluminação pública, nos jardins. Menos nas casas dos seus donos e nos seus jardins.
Sujam a casa de todos nós deixando as casas dos seus donos limpas e asseadas.
Reparo que começou a chover.
Fica-te bem o cabelo assim molhado.
Eu gosto de olhar para ti.
Se tivesses um cão ao lado distraía-me com coisas acessórias de que não gosto.
Bem, não é que não goste. O correcto será dizer que não aprecio. Gosto de animais que vivem nos seus espaços vitais. No seu meio. Olha, gosto de lobos. Gosto da sua ferocidade, da sua luta pela vida, de cumprirem com a sua função.
Os cães não têm função, são subsidiários, são quase indigentes.
Gosto de passear à chuva. O cabelo molhado fica-te bem, dá-te um ar vivificante.
Gota a gota enche o rio o leito.
Essa é que é essa.

publicado por João Madureira às 18:44
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Sexta-feira, 9 de Junho de 2006

Demasiado

2004_0816quarteiracoimbra0002.JPG

– Olha para cima.
– Não quero.
– Olha para cima.
– Não posso.
– Olha para cima.
– Não posso com tanto azul. Dá-me vertigens.
– Olha para cima.
– Não consigo.
– Olha para cima.
– Deixa-me em paz.
– Olha para cima.
– Porque é que te empenhas em irritar-me?
– Olha para cima.
– Tu és a minha cruz.

publicado por João Madureira às 19:18
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Quinta-feira, 8 de Junho de 2006

Distorções e alinhamentos

2004_0605Chavesdiversos0037.JPG

Pus uns óculos especiais para ver um eclipse e os meus olhos ficaram com distorções funcionais incomodativas.
Nada de grave, felizmente.
Mas, há sempre um mas… ou até dois, ou três.
Nada de majestoso, já se vê
Mas que é incomodativo, lá isso é.
Não é que sendo incomodativo seja uma coisa grave, mas sempre aborrece.
Mesmo aborrecido, lá vou andando.
Mesmo andando, lá vou indo como posso. Não como quero, mas sim como posso. O que não é bem a mesma coisa.
Não é nada de grave, mas é incomodativo.
Mas lá vou andando como posso.
Uns dias com a moral em cima. Outros dias com a moral em baixo.
Ainda outros com a moral nem em cima nem em baixo. Antes pelo contrário.
Nada de grave, já se vê.
Mas, há sempre um mas e outro mas e ainda outro.
Nada de grave, já se vê.
Agora lá vou indo, mas há sempre um mas. E outro. E outro.
Também comprei uns sapatos que me dão mau andar. Mas lá vou andando como posso. Não como quero, mas sim como posso.
Os sapatos até que são jeitosos, só que me apertam um pouco o dedo mindinho.
Nada de grave, já se vê. Mas no entanto é incomodativo ao andar. E eu ando muito. Não é para me gabar, mas eu ando muito. E bem. Também não é para me gabar. Mas eu ando muito, bem e depressa. Está claro que umas vezes ando mais depressa e outras mais devagar. Mas isso pouco significado tem.
Também pouco importa.
Muitas vezes vou passear para junto do Tâmega. E gosto.
Quando a distorção ocular me ataca vejo os patos às cores. Mesmo sabendo que são pretos ou brancos vejo-os das mais diversas cores. Até roxos, valha-me Deus. Patos roxos, onde é que isso já se viu? Só se for no almanaque do Tio Patinhas.
Eu não gosto de ler a andar mas às vezes acontece.
Eu gosto muito de ler. Não é para me gabar mas leio muito. E literatura de gabarito.
Eu também gosto muito de lavar as mãos no Verão.
Fico com elas frescas.
Também lavo os pés. E até lavo outras partes. Tudo por atacado.
E gosto muito de sentir a água a refrescar-me a pele.
Depois lá para a noite gosto de olhar as estrelas e de seguida ir dormir.
Até amanhã, que a história já vai longa.

publicado por João Madureira às 20:55
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Quarta-feira, 7 de Junho de 2006

O pano

2004_1030feirasantos20001.JPG

O ser humano é muito paciente e picuinhas.
Pode querer bordar panos para pôr na mesa e em cima desses panos, cheios de buracos desenhados com cruzamentos de agulhas, colocar uma jarra cheia de lindas flores.
Depois as flores morrem, mas o pano não.
O pano só precisa de ser lavado e passado de vez em quando para manter a sua beleza fixa.
Entretanto o tempo passa, as pessoas envelhecem e morrem e o pano mantém-se incólume.
Alguém o herda, o põe em cima da mesa e em cima dele coloca uma jarra repleta de lindas flores.
Depois as flores murcham e morrem, mas o pano não.
O pano só reclama uma lavagem de vez em quando.
Depois os seus donos envelhecem, morrem e o pano muda novamente de mãos.
De novo é colocado em cima de uma mesa. E em cima dele colocam novamente uma jarra com lindas flores.
Um dia a jarra quebra-se e a água suja o pano que já foi abundantemente lavado e herdado por muita gente.
Começam a aparecer nele os primeiros sinais de velhice.
São agora visíveis os primeiros buracos.
Alguém o recorta e faz dele um pano mais pequeno para pôr numa mesinha pequena onde estão alguns objectos de estimação.
O ser humano é muito paciente. E começa tudo de novo.
Novo pano. Nova família. Nova jarra. Nova mesa. Novas flores. Talvez um gato ou um periquito na gaiola. Ou, quem sabe, alguns peixes num aquário. E o pano lá está. E as pessoas também, pacientemente a observar os peixes, ou o periquito, ou a fazer festas ao gato enquanto ele ronrona de prazer.
Também a Terra se move. E a Lua. E os cometas deslizam no céu à noite.
E o pano continua a sua saga temporal.
Não morre, mas definha.
Consome-se até desaparecer no pó do tempo.

publicado por João Madureira às 19:53
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Terça-feira, 6 de Junho de 2006

Na curva descendente

2004_0515Chaves0144.JPG

Vou com a corrente.
A água sobrepõe-se à pedra.
Alisa-a.
Acaricia-a e harmoniza-lhe o sentido.

Um, dois, três, foi a conta que o rio fez.
Penso que há sempre uma atitude que nos revela.
E dela somos devedores.

Agora vou na contracorrente, sem que isso me atrapalhe.

publicado por João Madureira às 20:57
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Segunda-feira, 5 de Junho de 2006

Ficções

2004_0606Chavesdiversos0063.JPG

Sinto-me vazio.
Olho para os lados e aflijo-me.
Sinto-me vazio.
Fujo para os lados e agridem-me.
Sinto-me de lado.
Falo para a frente e silenciam-me
Olho para o vazio.
Aflijo-me no silêncio e fujo.
Fujo para o vazio.
Sento-me na margem e desisto.
Margino-me nas ruas.
Fujo para o silêncio e sorrio-me.
Desisto das ruas.
Corro para casa e desintegro-me.

publicado por João Madureira às 19:28
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Domingo, 4 de Junho de 2006

Tamanhos e feitios

2004_0711ficojulho2004-b0070.JPG

Há cavalos grandes, cavalos enormes e cavalos pequenos.
Também existem seres humanos de tamanhos idênticos na sua relação relativa.
Mas será essa uma diferença substancial e indicativa de algum facto?
Também há burros de vários tamanhos, cores e feitios.
E existem mulos, ou machos, e mulas que são o cruzamento entre cavalos e burras ou entre burros e éguas. Os filhos são estéreis.
Estes últimos são bons trabalhadores, um pouco nervosos de feitio e de comportamento instável.
Dizem que os burros estão em vias de extinção. Mas nós não acreditamos. Todos os sinais apontam em sentido contrário. Há por esse Portugal fora muito burro e muita burra. Mulas e mulos é que já há poucos. Cavalos também há muitos. E éguas. Parece que até há mais éguas que cavalos. É que as éguas fazem o mesmo papel que os cavalos e são capazes de parir lindos potros que fazem a felicidade dos seus donos.
Muitas éguas parem muitos potros. Muitos cavalos só dão despesa. Dois ou três para procriar já são suficientes numa manada. O resto é desperdício. E na nossa sociedade em crise económica o desperdício é um mal a combater.
Eu gosto de burros. Também gosto de mulas e mulos, que se parecem muito ao seu progenitor asinino por causa do seu focinho curto e orelhas grandes, e com o seu progenitor equino na estatura, configuração do pescoço e da garupa. Dizem que os mulos eram a montada preferida por clérigos, médicos e cirurgiões. Pensamos que por serem excelentes animais de carga. E aprecio, sobremaneira, a beleza altiva dos cavalos e das éguas.
Muito mais haveria para dizer mas por aqui nos ficamos, com o desejo que desfrutem da imagem e também da informação.

publicado por João Madureira às 19:22
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Sábado, 3 de Junho de 2006

Coisas verdadeiramente importantes

2004_0714chaves-noite-julho140013.JPG

Manuel, Manuel, Manuel… já te disse para não pensares tanto. Isso faz-te mal. Desinquieta-te o espírito, afasta as pessoas, põe os cães a ladrar para ti no meio da rua.
Pensar não convém. O melhor é entreteres-te com a telenovela das oito ou com o futebol, com a nossa selecção, que é tão boa, tão digna, tão ganhadora. Fosse assim o país e outro galo cantaria. Os rapazes enchem-se de dinheiro porque são mestres no chuto da bola. E aquilo é difícil à brava. Muito estudo, muito sacrifício, muitos exames, muito rigor científico, muito método, muita perseverança, muito conhecimento, muito estudar e estudar e estudar, sempre, sempre, sempre em busca da melhor média. E muito cálculo matemático, muita física, muita química e também filosofia, português, história, ciências, muita mister para aqui e para ali, muitas tácticas, muito sangue suor e lágrimas. E depois são tão generosos que aplicam o seu dinheirinho na indústria nacional: bares e restaurantes, restaurantes e cafés, cafés e pizzarias, pizzarias e bares e discotecas e casas de moda. Tudo muito nacional, muito português, muito lusitano. E depois a cerveja que se bebe quando o Ricardo marca um golo e o Figo quase marca outro e o Pauleta também, e o Deco, exemplo máximo da nossa alma lusitana, e o Simão Sabrosa e o Nuno Gomes, bem, o Nuno Gomes, bem, o Nuno Gomes tem aquele corte de cabelo que faz dele um autêntico campeão. E, mesmo em jogo, nunca deixa de se preocupar com a sua bela figura.
Manuel, Manuel, Manuel, vamos ganhar o Mundial e tu só pensas em pensar, em discutir coisas que não interessam nem ao menino Jesus.
Manuel, Manuel, Manuel, pega na bandeira e vai para a rua gritar o teu enorme orgulho em seres português. Em teres nascido neste país que é o orgulho da Europa. Um país que deu novos mundos ao mundo e países tão ricos e desenvolvidos como o Brasil, Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, e, por último, aquele país que é um exemplo mundial da generosa e iluminada alma lusitana: Timor-Leste.
Manuel, não chores que isso não resolve nada.
Toma o anti-depressivo que isso passa.

publicado por João Madureira às 18:53
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Sexta-feira, 2 de Junho de 2006

Inquietações

2004_0727bandapardais0014.JPG

As noites calmas de Verão permitem-nos falar e passear livremente pela cidade.
Sorrimos porque estamos bem dispostos, a aragem acaricia-nos a boa vontade, o sorriso das crianças que lambem um gelado da máquina é reconfortante.
Sorrimos como quem respira.
Por vezes os carros e, sobretudo, as motas passam rápido incomodando quem deseja paz.
Mas não há paz nos sentimentos dos aceleras.
Não há paz em quem não pára para pensar.
É sempre a abrir. Sempre no limite da tolerância.
Sempre na fronteira da intolerância.
Perturbam a calma de uma noite sensata.
Não são bem vindos os que fazem do barulho a sua forma de afirmação.
Não nos deixam ter paz.
Eles próprios não a conseguem
Nem paz, nem harmonia, nem sensatez.
Um mundo feito à sua semelhança é como o inferno mas com diabos aos pares.

publicado por João Madureira às 20:02
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Quinta-feira, 1 de Junho de 2006

Recortes

jmadmic.JPG

Hoje entretive-me a recortar jornais: títulos, imagens, desenhos, publicidade e as palavras cruzadas. Tudo isto por pura distracção.
Antigamente ainda me entretinha a fazer as palavras cruzadas, agora não. Agora é mais revistas de banda desenhada da Disney.
Gosto muito das suas histórias. São muito imaginativas, muito bem desenhadas e com várias mensagens muito actuais.
Sou fã do rato Mickey e da rata e dos patinhos sobrinhos do Donald e dos irmãos Metralha e do tio Patinhas. Adoro o tio Patinhas. Aprecio a sua modéstia, a sua dedicação à economia de mercado e o seu altruísmo liberal e certamente socialista.
Por vezes, o tio dos patinhos – que também são sobrinhos do pato rouco, pato que por seu lado também é sobrinho do pato altruísta, que por acaso namora com uma pata de que agora não me lembra o nome – parece que é um obcecado pelo dinheiro, mas qual quê? Ele é uma ave altruísta, que fala muito bem, parecendo um benemérito social-democrata que nos seus tempos de juventude foi um fervoroso comunista e que agora é simplesmente um democrata, sem nenhum ismo, nem isto, nem aquilo, nem aqueloutro.
Pois o pato é agora o centro das minhas atenções, o pretexto para muitas das minhas leituras, o lenitivo para muitas das minhas cogitações.
Esqueci-me de referir que também gosto muito do Peninha e do Zé Carioca e lembro-vos que gosto, sobretudo, do rato Mickey e, porque não dizê-lo, da rata.
Ia eu na página 69 quando começou a chover intensamente para os lados de Santo Amaro.
Fiquei empapado e o almanaque da Disney totalmente danificado.
Levantei-me do banco do jardim, enfiei-me no carro e fui ao quiosque das Freiras comprar um almanaque igual.
Sou um viciado em literatura para adultos com curso superior.
Desculpem-me a fragilidade.

publicado por João Madureira às 19:14
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