Sábado, 29 de Julho de 2006

Até mais logo

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Era bom que o mundo fosse às riscas. Ou riscavas tu ou riscava eu. Ou riscávamos os dois, se nisso estivéssemos de acordo, nem que fosse só por um dia. Mas um dia é um dia e há mais dias que chouriços. Lá isso há.
E também há muitos livros. E há, até, muitos livros bons. E também há quem os leia.
Ler um bom livro é um acto sublime, é uma experiência única, é um prazer redobrado, uma festa dos sentidos, uma atitude sensata, uma festa particular, um ritual admirável.
Ler ou não ler, eis a questão.
Ler por prazer é uma satisfação.
Ter e ler, ser e ter, ter ou não ter um livro à mão é, ou um pecado ou uma absolvição.
E não há regra sem senão.
E viva o Verão.

publicado por João Madureira às 19:03
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Sexta-feira, 28 de Julho de 2006

Notas ou não?

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Quando os homens se calam toca a banda.
Ou será que quando a banda toca os homens se calam?
Bem vistas as coisas, nem uma coisa nem outra.
Há sempre tempo para falar enquanto a banda toca e há sempre espaço para tocar enquanto as pessoas falam.
O contrário também pode ser válido. Ou inválido. Ou as duas coisas. Ou nenhuma.
Nenhuma coisa sucede sem ter uma razão por detrás. Mesmo que não seja perceptível.
Os motivos são sempre precisos. E é dessa precisão que se alimenta a vida. Mas a vida nem sempre é fácil de viver. Por vezes até se torna bastante incómoda.
Mas vale a pena viver, mesmo que isso não seja fácil. A facilidade nem sempre é boa conselheira. E se por vezes torna as coisas mais brandas, noutras ocasiões também as complica.
A vida é sempre confusão, actividade, conflito, interesse, conciliação e interrupção. Depois continua o ciclo. E depois outro ciclo se lhe sucede. E outro. E outro.
É como a música, onde a umas notas outras se lhe sucedem até ao término da composição.

publicado por João Madureira às 18:56
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Quinta-feira, 27 de Julho de 2006

Do caos à ordem

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Hoje instalou-se o caos na cabeça do patriarca. Bem, não propriamente o caos, foi mais a desordem, que, parecendo a mesma coisa, é coisa bem distinta. No caos existe uma espécie de ordem, na desordem não existe caos, apenas existe incoerência, que, não sendo definidora de comportamentos, é, contudo, disciplinadora de atitudes.
E foi por aí que a desordem penetrou. E foi por aí que o patriarca se resguardou do caos e deixou entrar a desordem.
Mas nem o caos se impôs – o que não era mau de todo –, nem a desordem se instalou na cabeça caótica do patriarca.
Colérico, o patriarca excomungou a desordem e amaldiçoou o caos. Mas de nada lhe valeu. Na confusão, o patriarca chorou e sentou-se junto ao penhasco da encruzilhada. Sentiu, pela primeira vez na vida, que nada do que impôs vale a pena ser imposto, que nada do que perseverou vale a pena ser recordado, que nada do que ensinou merece a pena ser ensinado. E por isso chorou de novo junto à fonte da sua quinta.
Agora o patriarca descansa deitado numa cama de fetos, longe dos afectos, distante dos olhares, afastado dos carinhos.
Já não há ordem que lhe valha, nem préstimo que o console, ou sorriso que o acolha. Agora o fim está à vista e ele sonha em ainda poder amar por um minuto uma flor espontânea. Mas o caos não deixa. Por isso não tem paz de espírito, nem afectos onde se encostar.
O patriarca não pode acariciar a sua cara porque não a identifica.
De si só reconhece a voz com que sempre deu ordens.
Se tivesse distribuído um pouco de caos talvez lhe fosse permitido a paixão do simples.
O caos não gosta do patriarca. Nunca gostou.
Mas o patriarca vai morrer no meio dele.
É esse o seu destino.

publicado por João Madureira às 17:44
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Quarta-feira, 26 de Julho de 2006

Do destino dos papagaios pornográficos

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Junto ao canto estava um papagaio. Junto ao papagaio estava um vaso. Junto ao vaso estava outro. O papagaio estava numa gaiola a rasgar folhas de jornal com o bico. Estava triste o papagaio.
Noutro local também lá estava um papagaio dentro duma gaiola. Este não rasgava folhas de jornal, limitava-se a olhar para quem passava como quem esbulha sementes com o bico. Estava triste o segundo papagaio.
Numa praça estavam vários marroquinos a vender ventoinhas, cintos, perfumes e, também, filmes pornográficos piratas a homens de meia-idade.
Estavam tristes os marroquinos e tristes também estavam os homens de meia-idade que compravam filmes pornográficos piratas aos marroquinos.
Mais a sul vários emigrantes apanhavam sombra junto ao rio sentados em cadeiras de plástico, comendo tremoços, amendoins e bebendo cerveja fresca.
Estavam também tristes os emigrantes, estavam tristes os tremoços, estava triste a cerveja e as cadeiras de plástico e os amendoins. Estava triste a relva e os pássaros e, até, o verde das árvores das margens. Estavam tristes as margens. As duas.
No rio pedalavam turistas nas gaivotas enquanto deslizavam nas águas turvas do Tâmega.
Estavam tristes os turistas, estavam tristes as gaivotas, estava triste o rio, estava triste a tarde.
Na varanda duma rua estreita uma mulher gritou que já não conseguia aguentar mais a monotonia semântica das molas da roupa. Estava triste a mulher. Estava triste a varanda. Estavam tristes as molas e a roupa e a monotonia também estava triste, de uma tristeza redundante, rígida, hiperbólica. Triste também ficou o grito da mulher.
Mas de nada lhe valeu.
O grito extinguiu-se sem destino.
Os gritos não têm destino.

publicado por João Madureira às 19:01
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Terça-feira, 25 de Julho de 2006

Eles sempre souberam

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O lento entardecer das árvores inspira-nos a perder o medo à doutrina oculta do Graal.
Enquanto o carro percorre as estradas vazias do interior, algo se vai desfazendo de encontro aos gomos empíricos da noite.
E a noite não vem. A noite tarda. Assim como tardam as explosões oníricas das nascentes. Ou os olhares hiperbólicos dos deuses. Ou os gemidos tímidos dos humanos.
Arrefecem lentamente os sítios das crianças.
Mas a noite demora. E a hora desmembra-se.
O vagaroso escurecer das casas abraça-nos com desejo.
Rezam as avós pela alma dos defuntos. Escondem-se as abelhas nos favos.
Os grilos adormecem com o próprio canto e a noite, que tarda, entardece silenciosamente.
Cada vez mais para o interior voa o nosso olhar.
Cada vez mais para o interior se espalha a viagem ao fim da noite.
Cada vez mais para o interior se dispersa o sangue dos animais decapitados.
Arde a madeira nas lareiras internas do medo.
Os bosques cicatrizam com a luz dos archotes dos deuses imprudentes.
Inclina-se a tarde para as ruínas das aldeias.
Já não mais será possível voar no sorriso genuíno das mães.
Já tudo implodiu.
Resta-nos esperar que o tempo feneça.
Um murmúrio disléxico fixa a vontade.
Já ninguém corre no caminho que desagua no rio.
Os pássaros morreram a comer bagas envenenadas.
E nós sabemos que eles sempre as souberam distinguir.
Eles sempre as souberam distinguir.
Eles sempre souberam.

publicado por João Madureira às 18:47
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Segunda-feira, 24 de Julho de 2006

Gota a gota

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Já lá vai o tempo em que ficava horas a ver cair a chuva, como se estivesse em estado catatónico.
Já lá vai o tempo, mas não a premonição do contentamento que isso me proporcionava.
Já lá vai o tempo, mas continua a chover de vez em quando. E isso não tem nada de singular.
O sentimento alterou-se ligeiramente. Eu sinto-o diferente em alguns momentos. Mas, mesmo assim, espero os dias de chuva com muita calma e alguma expectativa.
Parece sempre a mesma chuva, mas não é. É uma chuva diferente. As gotas são idênticas, mas não são iguais. Nunca mais vão ser iguais. Na natureza nada se repete da mesma maneira. É impossível.
No entanto as gotas de água assemelham-se todas umas às outras. Ninguém consegue dizer que uma gota de água é diferente de outra, ou que esta gota de água é igual à outra. São gotas muito parecidas, mas, no entanto, são diferentes. É como a loucura.
Mesmo sendo-se louco, cada loucura tem o seu quê de específico, de singular, de diferente.
Também as gotas têm o seu quê de loucura e a loucura tem alguma coisa de líquido.
Quando a chuva cai os loucos acalmam.
E isso é um sinal de que mais logo vai chover de novo.

publicado por João Madureira às 18:30
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Domingo, 23 de Julho de 2006

mmmtfpduepe

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Maresias, Marias e Madalenas, tudo faz parte de um estratagema para existir.
E existir não é nada fácil. Até para os cientistas é um milagre. Um milagre que nada tem de transcendental, mas, mesmo assim, ultrapassa toda a lógica da ciência e da pura e excelsa probabilidade.
E se é de probabilidades que falamos, convém explicar que a nossa existência não é uma mera probabilidade, nem, sequer, matemática, é, tão simplesmente, um puro acaso do acaso do acaso.
Mas, mesmo assim, existimos em escalas simples de espaço e tempo. E isto é muito mais que metafísica. É pura adrenalina combinada com átomos de nada e estes misturados com os das vitaminas e das proteínas e estes ainda com os dos excelsos impulsos eléctricos.
Mas, mesmo assim, frutos do acaso e da mais pura arbitrariedade combinatória, existir é tão delicioso que até dói.
E dói muito. Mesmo não doendo da forma que todos nós sabemos.

publicado por João Madureira às 17:33
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Sábado, 22 de Julho de 2006

Mais ao Sul

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Escrevo-te do S.
Ainda ando cá por baixo a gozar os rendimentos, que, não sendo muitos, são os suficientes para me manter à tona da água, que, sendo salgada, é tão água como a outra, só que não se pode beber, senão secamos por dentro e isso é mau. Mesmo muito mau. Especialmente para a saúde.
A saúde anda boa, graças a Deus. Deus é que não sei como passa. Mas não me é fácil adivinhar que, da forma como o mundo respira, o próprio e o subentendido se encontram bastante deprimidos. Os Homens são uns camelos forrados de lantejoulas e vestidos de orangotangos.
Para me incomodar ainda mais do que aquilo que estou todos os dias, hoje perdi os meus óculos e, verdade seja dita, não enxergo grande coisa à vista desarmada. E olha que por aqui, segundo oiço comentar, há coisas dignas de serem vistas. Mesmo quando se faz vista grossa, que não é o mesmo que dizer que existe caça grossa à vista. Disso aqui já não se encontra. A caça grossa rumou a outras latitudes.
Aqui subo muito. Depois também desço aquilo que subi. Só que descer é bem mais descansado do que subir. Mas lá vou tenteando as coisas como posso. Se é que posso tentear alguma coisa de que valha a pena conversar.
Mas, caro amigo, sinto-me muitas vezes só. Mesmo no meio de milhares de concidadãos. A solidão é uma coisa muito pessoal. E, como sabes, eu sou muito pessoal. Talvez pessoal demais. Mas, como diz o povo, quando se sabe a comida sobra e quando se sobra a família cai ou quando a família cai outros valores mais altos se levantam. Que o mesmo é dizer que ande a vontade por onde andar a minha casa há-de vir descansar.
Mas no meio da confusão não sei bem onde a comida sabe, ou a família sobra. No entanto prometo pensar maduramente no assunto.

PS – Não te esqueças de dar de comer às minhocas. O resto que se lixe.

publicado por João Madureira às 19:13
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Sexta-feira, 21 de Julho de 2006

Liquidação total

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De tanto olhar esbanjamentos tornei-me insensível à monotonia.
Olhar faz toda a diferença, quando se tem algo em vista.
Ou se vai ou se volta. As duas coisas ao mesmo tempo é que não podem ser.
Basicamente, o cansaço é por vezes tão profundo que até me custa levantar.
Monotonia, estúpida monotonia, deslumbrante imperfeição, porque não voltas para a terra do nunca?

publicado por João Madureira às 18:38
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Quinta-feira, 20 de Julho de 2006

A questão mínima

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É de bom-tom seguir em frente. É tranquilizador olhar em linha recta. É sensacional desfrutar da memória das formigas, do esplendor das motocicletas, do deslumbramento da metafísica e do fascínio dos cactos em flor.
É maravilhoso assistir ao resplandecer dos passeios, à filantropia dos açudes, ao exagero dos discursos dos controladores de tráfego aéreo, à perícia da pesca às enguias ou da caça dos gambozinos.
Depois, quando chove, os pneus dos carros desenham trajectórias ambivalentes e os pássaros voam baixo.
Encostado à janela do meu quarto suspiro por um céu cheio de metáforas.
Lá fora caem penas de cegonha ilustradas por pintores disparatados.
Sento-me numa cadeira antiga e suspiro por tardes imensas de tédio.
Num canto da casa uma imagem mínima concretiza-se em azul.
Mais logo à noite comerei maçãs assadas.
É esta uma outra forma de existir.
Será?

publicado por João Madureira às 18:56
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Quarta-feira, 19 de Julho de 2006

Debaixo da noite

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Debaixo da noite está o silêncio das portas e debaixo dele ainda estão os gritos das cadeiras e o gemer das pedras e o murmurar dos interstícios das paredes e o olhar das gárgulas e o piar das corujas e o desabafar das ameias dos castelos de montanha e o rumorejar das escadas e das portas e o destino das árvores e o cenáculo das oliveiras e a desfaçatez dos aloendros e a suposição dos carvalhos e das urzes e o bulir profundo das ervas e o rastejar das cobras e o bulício dos insectos e dos olhares das cigarras e a metamorfose dos lírios e a insipidez dos bonsais nas estufas e o florir extemporâneo das rosas e dos cravos e dos nenúfares e o rezar dos elefantes e o implorar dos desviados e a liturgia dos infelizes e dos indistintos e o andar dos lobos e o uivar dos cães e o miar dos gatos e a inteira lucidez dos crentes e a sabedoria dos agnósticos e os segredos dos príncipes e a cegueira dos poderosos e a sabedoria dos inocentes e a incoerência dos bem-aventurados e as dúvidas dos sábios e a dicotomia dos sérios e o riso dos tontos e o choro dos aprendizes e a consciência dos incautos e a satisfação dos inocentes e a inocência dos pecadores e a lucidez dos opressores e a infelicidade dos amantes e a ditosa pátria dos apátridas e a reflexão dos artífices e o compulsão dos eremitas e a imensa lógica do espaço e a infinita dimensão de tudo e de nada e a interminável sucessão dos dias e das noites… e de tudo o que existe.
Ámen.

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Terça-feira, 18 de Julho de 2006

Etc.

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A minha primeira namorada chamava-se Lurdes. Era uma rapariga feia mas enérgica e decidida. Dava-me beijos como quem dá murros.
A segunda chamava-se Rosa e era bonita, mas muito piegas e choramingas. Sabia beijar muito bem, mas parecia de plástico.
A terceira não era nem bonita nem feia, antes bem pelo contrário. Não se interessava por beijos nem por nada. Só cantava modinhas a toda a hora. Chamava-se Fátima.
A quarta era loira e de olhos azuis. Gostava muito de dançar. Chamava-se Rebeca e dava beijos muito apaixonados.
A quinta foi a Isabel que usava umas mini-saias verdadeiramente vistosas. Tinha umas pernas muito bonitas. Fora as pernas e a mini-saia, nada mais tinha de interessante. Ria-se de uma maneira grotesca.
A sexta chamava-se Cristina, era gaga mas muito boa rapariga. Até a rir gaguejava. Até gaguejava a beijar.
A sétima foi a Joana. Era uma rapariga do melhor que há. Só que era muito azarenta e distraída. Num só mês conseguiu partir um braço e uma perna.
A oitava tocava muito bem flauta, escrevia lindos poemas de amor e corria muito bem os cem metros. Chamava-se Rosário.
A nona andava muito bem de bicicleta e era muito boa aluna a matemática. Chamava-se Manuela.
A décima chamava-se Conceição e assobiava que nem um pintassilgo e tocava muito bem a pandeireta. Era também muito brincalhona. Dava beijos como amoras.
O resto fica para outra ocasião, porque a ocasião é que faz o lambão. E não o oposto.
Ou dito de outra forma, a ocasião é que faz o aldrabão.
E o contrário também tem razão. Que não o lambão, que, por ser aldrabão, se aproveita da ocasião para ser ladrão.
E todos sabemos que ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão, etc.

publicado por João Madureira às 19:37
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Segunda-feira, 17 de Julho de 2006

Mais de oito mil

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Sou um sucedâneo. Um pássaro nocturno. Uma ave agoirenta. Uma vontade de voar. Um pássaro existencialista e, sobretudo, memorialista. Uma litania de referência. Sobretudo de referência, para quem as não tem.

Sou…
Da litania, o surrealismo. Do surrealismo, a inércia. Da inércia, a eterna paz da agitação.

Para além da vontade de ser ave nocturna, sou da luz e da Lua e de Marte, quando não de Vénus e de Júpiter. Desejo ser de Júpiter se muitos outros forem de Marte e da Lua ou, até, da Terra.

Quando tudo está em calma eu estou agitado. E quando tudo está agitado eu estou em calma. Por isso sinto que vou por aí. E por aí mesmo. E não por outro lado. E é aí que está a calma da agitação e a agitação da calma. E a calma da calma da agitação.

Não há melhor calma que a de pertencer e ser do lado do lado de cá e do lado do lado de lá.
Se há lado eu sou do lado de lá.
Se não há lado eu sou do lado de lá. E se há lado de lá, bem, eu sou capaz de ser do lado de lá e do lado de cá.

publicado por João Madureira às 19:15
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Domingo, 16 de Julho de 2006

Descer a calçada

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A Maria Rosa desce a calçada. E também a Helena e a Teresa e a Joaquina e o José Manuel e o Rui e o Francisco e o João e o António e o Fernando e a Sofia e a Amélia e tantos outros que vieram ao casamento da Margarida e do Pedro.
Estão todos bonitos de se ver. Todos bem enfarpelados, com os seus melhores fatos, os melhores sapatos e muito perfumados. Os homens estão todos bem escanhoados e as senhoras ostentam penteados admiráveis. Todos sorriem muito.
Enquanto descem a calçada falam uns com os outros de uma maneira descontraída.
Podemos dizer que um casamento é sempre uma festa conveniente. Uma festividade admirável de futilidades bem projectadas na vida das pessoas. É o admirável caminho da redenção. Uma união subtilmente desaforada, uma ligação agradavelmente efémera.
Este é um dia que se vive para recordar.
Depois da cerimónia religiosa vem a lambança estapafúrdica que quer significar festa e celebração.
Hoje é festa. Amanhã logo se vê.

publicado por João Madureira às 20:22
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Sábado, 15 de Julho de 2006

Também

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Hoje fartei-me de abrir e fechar portas. De fechar e abrir portas. De as encostar, de as bater.
Também me fartei de subir e descer ruas, de contornar praças, de subir e descer escadas.
De entrar e sair de cafés bares e restaurantes.
Também me fartei de falar, de ouvir e de falar outra vez. E tornar a ouvir e tornar a falar. E assim sucessivamente, sempre em períodos de tempo absurdamente idênticos.
Também olhei para muitos telhados, para muitas janelas, varandas, brasões, escadas, cornijas, parapeitos, vidros e chaminés.
Também olhei para as sombras que as pessoas desenham nas calçadas, para os bancos dos jardins, para as árvores que guardam as margens do rio.
Mas o que melhor me soube foi apanhar fresco numa rua estreita no coração da cidade.

publicado por João Madureira às 19:04
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Fintas

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Sobe o olhar até bater no céu.
Perco momentaneamente o equilíbrio.
Agora só me resta descer o olhar pela linha das margens.
É sempre a mesma finta.

publicado por João Madureira às 00:49
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Quinta-feira, 13 de Julho de 2006

Remanesce a folha

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Remanesce a folha, olho para os sapatos. Para a camurça dos sapatos. Para os pontos que cozem a borracha ao couro. Olho para o seu aspecto arredondado, para a sua característica peculiar de dar conforto e protecção.
É a sua utilidade aquilo que me seduz. A sua disponibilidade intrínseca, a sua capacidade de sofrimento.
Pouso um pé junto ao outro e descanso.
A sua simetria ajuda-me a calçá-los.
São os meus pés simétricos.
Mas é a assimetria aquilo que nos permite evoluir. Se é de evolução que falamos quando falamos de afeição. Se é de afeição que falamos quando falamos de evolução.
Agora fala-se quase sempre por falar, por isso hoje limito-me a falar dos meus sapatos que pousam merecidamente sobre o alcatrão da estrada.

publicado por João Madureira às 17:13
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Quarta-feira, 12 de Julho de 2006

A raia miúda

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O meu país nunca teve fronteiras, mas é como se as tivesse.
Qualquer pessoa gosta de ter uma casa só para si.
Uma casa que não é só nossa, é de todos e não é de ninguém.

O meu país nunca teve política, mas sempre lhe fez falta.
O meu país vive de ar e vento. Uns pesam que isso é muito poético, mas é apenas triste. As pessoas do meu país têm muita saudade. Têm saudade de tudo e não se interessam por nada.

São felizes na infelicidade, as pessoas do meu país. Por isso sorriem por tudo e por nada.
Quando se metem ao caminho nunca sabem bem para onde vão, mas dizem sempre que querem ir. E querem ver. E querem ser. E querem estar.
Querem ir porque vêem os outros ir. Mas nunca se perguntam porque razão os outros vão.

Não somos todos iguais. E isso é sadio. Mas as pessoas do meu país pensam o contrário.
Eu até considero que elas não pensam. Limitam-se a ser o oposto. Que, por isso mesmo, não é coisa nenhuma.

Uma estrada vai sempre de um lugar a outro. Tem sempre um propósito. Uma fronteira.
Só que o meu país nunca teve fronteiras, mas é como se as tivesse…

publicado por João Madureira às 18:46
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Terça-feira, 11 de Julho de 2006

Fugir

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Meia-noite e há silêncio nas ruas.
A festa é só amanhã, mas eu prefiro ir-me embora já hoje.
Eu não gosto de festas. São manifestações pouco adequados à minha maneira de ser.
O convívio dá-me urticária e também me provoca tonturas e espasmos maniqueístas.
Nas festas, ao contrário das outras pessoas, fico irascível, mal disposto, nervoso e começam-me a piscar os olhos sem sentido.
Mas é sobretudo o barulho aquilo que mais me perturba. E não há festa sem barulho.
E eu não posso com o barulho. Assusta-me.
Portanto, quando há festa no meu bairro fujo para a minha aldeia e ali passo dois dias desprezíveis mas sem dores de cabeça. E isso basta-me.
Lá estabilizo as minhas preocupações existenciais. Sobretudo vivo de pequenas, mas preciosas, recordações. O olhar da minha avó. O cantar da minha tia. O choro da minha irmã. O vento assobiando nos ramos das árvores. O sol iluminando a igreja. A chuva regando os campos. A sombra deslizando na tarde. O paciente correr do rio. Os animais regressando dos lameiros ou do trabalho. Os homens e as mulheres cantando enquanto regam o jericó. O lento crepitar da lareira. O subtil e paciente ferver do caldo. O cozer das batatas no pote. O estrugir do arroz de tomate na panela. O simpático bater dos vizinhos na porta da cozinha. O vinho bebido pela caneca.
No fim do dia adormeço sonhando com o impossível regresso ao passado.

publicado por João Madureira às 19:10
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Segunda-feira, 10 de Julho de 2006

Ondas

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As ondas de calor atormentam-me, bem assim como as ondas do cabelo, ou as ondas do mar, ou as ondas radiofónicas.
As pequenas ondas do Tâmega, quando este simpático rio as tem, pelo contrário, tranquilizam-me.
São bonitas de se ver.
As pequenas ondas do Tâmega, quando este simpático rio as tem, também tranquilizam muito a minha vizinha, que nos dias de alguma ondulação começa a cantar lindas cantigas de amigo.
O seu marido, igualmente se entusiasma com as ondas do Tâmega, só que a ele as canções que melhor lhe saem são as de amor.
A uma sua filha, pelo contrário, as pequenas ondas do Tâmega, quando este simpático rio as tem, causam-lhe nervos e por isso só entoa canções de escárnio e maldizer.
A mim, as ondas do simpático rio, quando existem, fazem com que fique com disposição de tocar gaita-de-beiços.
Então vou para a janela e toco olhando para o céu e imaginando as ondas do Tâmega, isto quando elas existem.
Podem os meus amigos imaginar a beleza do momento tocando eu pequenos improvisos de jazz na minha gaita de beiços, a minha vizinha cantando lindas cantigas de amigo, o seu marido entoando melodiosas cantigas de amor e a sua filha berrando controversas cantigas de escárnio e maldizer.
Isto enquanto o Tâmega se enche de pequenas ondas que mais parecem arrepios de uma sereia apaixonada pela Ponte Romana.

publicado por João Madureira às 19:32
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Domingo, 9 de Julho de 2006

Viva a coisa

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Hoje é de flores que falamos.
Se é que falamos de alguma coisa.
Se é que alguma coisa fala de nós.
Se é que somos alguma coisa de que valha a pena falar.
Se é que falar vale a pena.
Se falar de penas vale.
Se é que vales a pena e a pena vale.
Se é que vales a valha e a pena vale a coisa.
Pelos vistos nem a valha vale a pena, nem a pena vale a valha, nem os vistos valem a palha, nem a palha vale a pena, nem a palha vale a palha, nem a pena vale a coisa, nem a coisa vale a palha, nem a palha vale a coisa.
Quando a coisa vale a pena e a pena vale a coisa, a coisa não dá pena nem a coisa dá a palha.
Viva a valha.
Viva a coisa.
Viva a pena.
Viva a palha.

publicado por João Madureira às 18:57
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Sábado, 8 de Julho de 2006

Diferentes olhares

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O José olha para a Maria. A Maria olha para o Manuel. O Manuel olha para o lado. O lado olha para o outro.
A Rosa olha para o filho. O filho olha para o pai. O pai também olha para o filho. O filho olha para gelado. O gelado olha para a boca do menino.
O João olha para o carro do Rui. O Rui olha para a mulher. A mulher olha para a estrada. A estrada olha para as árvores.
O Tomás olha para o empedrado da Rua Direita. O empedrado da rua olha para os degraus junto às portas das casas. As portas das casas limitam-se a olhar para dentro.
O Francisco olha para os vitrais da Igreja Matriz. A Maria olha na mesma direcção, bem assim como o seu pai, a sua mãe, a sua sogra e o seu sogro. Os vitrais olham para Deus. E Deus olha para o infinito. O infinito olha para o mais além e por aí fora…
O infinito olha para Deus e Deus para coisa nenhuma. Que o mesmo é dizer que olha para tudo, que é o mesmo que afirmar que olha para nada.

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Sexta-feira, 7 de Julho de 2006

Preferencialmente tinto

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Tenho um amigo que comenta em público que não gosta de vinho. Nem tinto nem branco. O que é um caso digno de estudo.
Fernando Pessoa, quando lhe perguntavam, no Martinho da Arcada, se queria tinto ou branco, dizem que respondia: tanto faz, é para vomitar.
Está visto que o grande poeta não era grande apreciador de vinhos.
O meu amigo também não é grande apreciador de vinhos, nem de nada.
Para se apreciar qualquer coisa é preciso experimentar e este meu amigo não experimenta seja o que for e depois diz que não gosta de nada. Também ninguém gosta dele, verdade seja dita. E ele retribui na mesma moeda.
Uma pessoa de bom gosto aprecia sempre um bom vinho. E uma pessoa que aprecia vinho é sempre moderada nos seus gostos, simples no seu convívio, camarada nas horas más, alegre, solícito e culto.
Um bom vinho é um prazer redobrado. É uma celebração da amizade, da alegria e da solidariedade.
Por vezes, quando se exagera, também produz efeitos secundários indesejáveis. Mas, como em tudo na vida, a moderação é o engenho da arte. Quem bebe muito não sabe o que bebe. E quem não bebe não sabe o que perde. Neste caso a postura é a mesma.
Beber ou não beber, eis a questão.

publicado por João Madureira às 18:22
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Quinta-feira, 6 de Julho de 2006

Amizade

2004_0711ficojulho20040091.JPG

Há cerca de uma semana, o meu amigo Matias foi passear o cão e ele fugiu-lhe.
Era um cão de raça. Foi muito caro.
Era um animal de estimação. Como se fosse da família. Dele, claro. Que eu cá não me perco com esses animais.
Era um cão que rosnava mais do que ladrava. Costumes de parentela.
Andava sempre muito lavado, perfumado e penteado. Estamos a falar do cão do Matias. Porque o Matias, propriamente dito, é bem mais desleixado.
Não é que seja mau tipo, é apenas um pouco sovina para os amigos. Mas com o cão não olhava a despesas. Nós, os seus amigos, por vezes ficávamos um pouco zangados por tratar melhor o cão do que a nós. Mas o Matias é mesmo assim. É ele e o cão, depois a família mais chegada, depois outra vez o cão e só depois os amigos.
Estou em crer que o Matias é mais cão do que o próprio cão.
Agora anda desfeito. Ele sem o cão não é nada. Nem dorme, só dá voltas e mais voltas em redor da cidade em busca do animal.
No último desfile etnográfico em Chaves, o Matias desfilou vestido de romano com um outro cão ao lado. Mas um carro, mesmo no final do desfile, passou-lhe por cima.
Foi nesse mesmo dia que o Matias comprou o cão que agora lhe desapareceu.
Já lá vão sete dias e o cão não aparece. Ele anda doido. De noite até ladra, imitando o cão, para ver se ele responde ao seu apelo.
Nós já lhe dissemos que não lhe fica nada bem andar a ladrar à noite pelas ruas da cidade. Mas ele não nos liga.
O seu estado inspira-nos algum cuidado.
Por isso fazemos votos para que o cão do Matias regresse ao lar são e salvo.

publicado por João Madureira às 19:13
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Quarta-feira, 5 de Julho de 2006

O irrisório

2005_1126ChavesA11nov0024.JPG

Depressa aprendi a bufar.
Estava eu ao lume quando me queimei numa das mãos e foi aí que pela primeira vez bufei com intenção. Pelo menos é isso o que os meus pais dizem.
E eles não costumam mentir.
Agora bufo por tudo e por nada. Tenho que reconhecer que até bufo com alguma mestria. Especialmente quando está sol e eu me encontro virado a Norte. Porque se chove e o vento vem de Leste, aí já não consigo bufar nada de jeito.
Bufar bem tem a sua mestria e exige alguma aprendizagem.
Também exige muita leitura de livros da especialidade e uma disciplina férrea nas horas do treino.
Para bufar com qualidade é necessário treinar todas as semanas pelo menos 12 horas. O treino não é muito exigente mas é algo monótono.
Existem várias modalidades de bufos.
Bufar é uma arte antiga mas com pouca aplicação prática. Mas isso não quer dizer que a sua aplicação seja irrelevante. Mesmo como jogo é uma actividade engraçada e tranquilizadora.
Como terapia de grupo é muito graciosa. Como exercício antistresse é muito funcional. Como treino individual é muito disciplinador.
Então vamos começar: primeiro enche os pulmões de ar puro, depois sopra rapidamente e logo a seguir faz os vários exercícios respiratórios que você já sabe e por aí adiante até ao fim. Depois e só começar de novo, etc.

publicado por João Madureira às 19:59
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Terça-feira, 4 de Julho de 2006

Mesmo assim

2004_0714chaves-noite-julho140017.JPG

Lá no alto do céu escuro brilha uma luz acetinada que me faz recordar alguma coisa que agora não consigo bem fixar.
Por vezes tenho dificuldade em lembrar-me das coisas.
Estou a ficar velho.
Todo o processo humano é muito complexo. Nalgumas ocasiões tento relativizar os factos, mas já poucas vezes consigo atinar com o sentido dos acontecimentos.
Estou a ficar um pouco gasto.
Outro dia tentei cantar uma canção da minha infância e só me saiu uma cançoneta brejeira que nem sei bem como é que a decorei. De certeza que só pode ter sido por um reflexo condicionado ou por outro factor relacionado com o subconsciente.
Até a família se espantou com tamanha vulgaridade.
Não é que a vulgaridade seja algo que só por si seja vulgar. Por vezes ser vulgar até dá muito trabalho. Mas a vulgaridade sempre me assustou. Não é que me assuste com qualquer coisa. Posso dizer-vos que sou uma pessoa destemida e desassombrada. Mas ser vulgar é muito vulgar e tudo o que é vulgar aflige-me. Não é uma aflição por aí além. É apenas uma aflição pequenina. Mas, mesmo assim, atrapalha-me no momento de falar em público. Falar em público também é muito vulgar. Falar também é muito vulgar. O público também é muito vulgar. Quase tudo é muito vulgar. Eu não sou vulgar. Eu sou mais a modos que especial. Especialmente quando me atrapalho a comer. Já viram alguém que se atrapalhe a comer? Eu começo a comer pelo fim. As pessoas ficam muito aflitas quando me vêm a comer. Não percebem bem o meu método. Aquilo não é método nenhum. É mais uma maneira atrapalhada de introduzir os alimentos na boca. E é aí quando mais me embaralho. Engasgo-me muito. E sem querer. Por vezes acusam-me de me atrapalhar a comer para não parecer vulgar. Mas não é por aí que eu gosto de ser invulgar. É pela forma de beber. Especialmente a água. O vinho bebo-o como uma pessoa qualquer, a água não. A água bebo-a sempre com a ajuda das mãos. E sempre da torneira. Nunca da garrafa, nunca do copo, sempre da torneira e com as mãos em concha. Consigo fazer isso de olhos fechados. E também consigo assobiar de olhos fechados e até respirar. Também consigo sorrir quando me falam de economia. É um pouco difícil, mas com o treino consigo sorrir logo que vejo um economista ao longe. Tenho um sexto sentido para descobrir economistas e também para distinguir médicos e ilusionistas. E olhem que distinguir à primeira vista um ilusionista não é nada fácil. É a coisa mais parecida com um político, mas distingue-se dele por ser mais sincero e menos astuto.
O que eu não sou é astuto. E isso deprime-me muito.
A depressão fica para amanhã. Eu sei que podia deprimir-me hoje. Mas não. Só vou deprimir-me amanhã. É menos vulgar. Bem sei que não é invulgar, mas…

publicado por João Madureira às 20:55
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Segunda-feira, 3 de Julho de 2006

Portanto

2004_0606Chavesdiversos0066.JPG

Hoje acordei tarde. Mas não era isso que eu tinha programado. Por isso estou um pouco chateado. Eu chateio-me por tudo e por nada. Tenho de reconhecer.
Mas também gosto de cumprir com aquilo que programo. E se eu programei acordar hoje cedo tinha de acordar cedo. Só que acordei tarde. Não foi muito mais tarde do que aquilo que tinha programado, mas foi mais tarde e isso é que me está a incomodar. É que eu se programo uma coisa gosto de a cumprir à risca. Mesmo que isso pouco afecte a minha vida diária. Não gosto de me desleixar, nem nos horários. A culpa não foi do despertador, que é coisa que eu não uso. A culpa é minha. Eu se programo acordar a uma determinada hora, acordo a essa hora e mais nada. Eu sou assim. O que programo gosto de cumprir. E se eu programei acordar cedo, tinha de acordar cedo. E acordei tarde. Por isso estou chateado. Eu também me chateio por tudo e por nada. Mas como sou assim, não tenho desculpa. Não é que eu goste de me chatear. Acho mesmo que ninguém gosta. Mas aquilo que tem de ser tem muita força. E aquilo que uma pessoa decide tem também de ter muita força. Portanto, se eu programei acordar cedo tinha de acordar cedo. E mais nada. Podem pensar que sou uma pessoa obcecada, mas pouco me importa. O que eu gosto é de cumprir com aquilo que programo. Eu devo obediência aos meus princípios. Para mim os princípios são tudo. É como a moral. Ou há moralidade ou comem todos. Pois bem, se cada um cumprir com aquilo que determina a mais não é obrigado. E isso é muito importante numa sociedade. Especialmente se ela for desenvolvida e democrática. Ou democrática e desenvolvida, que é o mesmo mas com as palavras trocadas. Trocar as palavras também é muito democrático e até se pode considerar um sintoma de desenvolvimento. Por isso Portugal é um país tão desenvolvido. Fora de brincadeiras. Os portugueses gostam muito de trocar as palavras. Gostam até de trocar a palavra. Palavras leva-as o vento, mas a palavra só a leva o dinheiro. O dinheiro é sagrado. Bem assim como a palavra dada. Só que se for dada também pode ser arregaçada. Mas palavra arregaçada é chão que já deu uvas. Agora já ninguém dá uvas. Só os bons dias. E isso se o passeante estiver de bom humor. Está cara a palavra. É como a gasolina. Mas a gasolina serve para fazer andar os carros e as palavras não fazem andar nada. Pelo menos à primeira vista. Porque até há palavras que fazem andar, especialmente os animais. Bem, não são bem palavras, são a modos que onomatopeias. As onomatopeias são engraçadas. Eu gosto muito de onomatopeias e de outras coisas. Gosto de andar de comboio. Gosto de acordar cedo quando programo acordar cedo. E mais vale cedo que tarde. E mais vale tarde que nunca. E gosto de cumprir com a palavra dada. Mas é vício, porque agora já ninguém cumpre nada. E também para que serve cumprir com a palavra dada. Palavras leva-as o vento e o vento nada me traz, o vento é pensamento e voa com ele próprio. Isto quando há vento, porque se não houver vento as palavras ficam no mesmo lugar e o pensamento fica a modos que congestionado como o trânsito nas entradas das grandes cidades. O problema do trânsito nas estradas das grandes cidades é uma coisa muito séria. Por vezes apetece-me rir quando oiço essa informação no rádio. E penso: porque raio é que as pessoas só querem ir para as grandes cidades? As cidades grandes são também um assunto muito sério. Muito sério mesmo. Penso até que é um dos assuntos mais sérios que há. Mas a cavalo dado não se olha o dente. E por hoje é tudo.

publicado por João Madureira às 19:11
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Domingo, 2 de Julho de 2006

O labirinto

2004_0905chavesaguasetembro0077.JPG

Mais uma vez ando às voltas.
Dou voltas e mais voltas e não saio do sítio.
Começo uma volta, qualquer que ela seja, com o eterno desejo que não fique tonto com o voltear.
Olho sempre para o lado. Indiferentemente. Esquerdo ou direito. Direito ou esquerdo.
Nunca em frente. Em frente está um ponto. Dos lados encontra-se a vida; as imagens em movimento, como no cinema.
Dou voltas à minha insatisfação e, por causa dela, o resultado é o mesmo. Porque no final sempre me invade a mesma sensação de vazio.
Um vazio indolente, um vazio a rasar a imprecisão dos factos.
Num olhar paralelo, alguém preenche os espaços.
É sempre assim a insustentável inclemência do futuro.

publicado por João Madureira às 19:19
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Sábado, 1 de Julho de 2006

A exaltação da espera

2004_0606Chavesdiversos0079.JPG

Salpicado de nervos observo tangencialmente a exaltação da espera.
Dizem que quem espera desespera, mas também há o outro lado da moeda.
A espera de quem espera é bastião de ausência, meditação de princípios, observação de limites, meditação dos contrários, redenção dos sinais, resumo da expectativa, artifício do olhar.
Tudo se mede na exuberância do tempo, na distância dos sentimentos, na criação do futuro.
Alguém põe perpetuamente exuberância nos aspectos, sinuosidades nos lamentos, alegria na tristeza.

Ao fim da tarde o jovem desliza até ao rio para pôr paz nos aspectos.
As sombras afiam-se de encontro às árvores.
E as árvores, por fim, desfilam na imaginação das pedras.
Finalmente podem dormir em paz o homem mais a mulher.
Abençoado seja o sortilégio da memória e a alegria dos humanos.
Agora já posso ir com o vento.

publicado por João Madureira às 19:20
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