Quinta-feira, 31 de Agosto de 2006

Sempre

2004_0515Chaves0103.JPG

Por vezes o tempo tece uma segunda pele.
A espaços o tempo tece uma segunda pele nas portas do paraíso.
E não é uma pele suplente, nem uma pele substituta. É outra pele. Outra película. E depois outra. E outra. E outra. E outra.
O tempo abre com paciência pequenas gretas na tinta. Depois perfura o ferro e a madeira. De seguida prolonga-se nos interstícios das pedras. Posteriormente invade o escuro. E depois segue por aí fora. Sempre com muita paciência. Sempre com infinita determinação. Sempre e sempre e sempre e para sempre.
Para sempre, com infinita determinação.

publicado por João Madureira às 18:29
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Quarta-feira, 30 de Agosto de 2006

Subtilezas

2004_0711ficojulho2004-b0001.JPG

Tudo no que penso dá-me sinceras mortificações.
Mas, para além disso, o remédio é o mesmo e a posologia constante.
Depois é ver-te a sorrir e as dúvidas varrem-se-me da cabeça.
Fico limpo, calmo, pronto para descansar o olhar nas tuas intuições desabrigadas.

Quando era mais pequeno ia sempre atrás dos outros, nunca a seu lado e muito menos conseguia pôr-me à frente de alguém. Ainda hoje não sei a razão de tal atitude. Mas nem tudo na vida tem explicação. Pelo menos explicação plausível.
Para dizer a verdade, agora tento menos vezes arranjar explicação para tudo ou sentido para tudo. Com a idade vou aprendendo que o sentido final das coisas não existe. É como se tudo o que persiste não tivesse nem princípio nem fim, como se só existisse um imenso meio que nunca mais acaba.
Há sempre qualquer coisa de indefinido na vida de uma pessoa. Por exemplo, a morte é indefinida. A vida também é indefinida. É mesmo muito parecida com uma contingência espontânea. Qualquer coisa de irrisório e fundamental convivendo no mesmo tempo e no mesmo espaço. Qualquer coisa como se fosse a crua ficção em vez da dura realidade.
Porque muitas das vezes nem a própria realidade é real.
Para perceber as subtilezas – dado que a vida é uma subtileza perfeitamente alucinatória e anacrónica – por vezes é necessário despirmo-nos de tudo o que aprendemos e pensar sem pensar, sem utilizar qualquer raciocínio dedutivo ou científico.

publicado por João Madureira às 19:41
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Terça-feira, 29 de Agosto de 2006

Desajustadamente

2006_0813quarteiragosto0043.JPG

Eu bem sei que não te ajustas.
Eu sei que não te ajustas. Não te ajustas, eu sei bem.
Quem sabe bem que não te ajustas é a tua mãe. Também o teu pai pressente essa mesma indefinição.
Não te ajustas bem ao perfil. Não é que não tenhas perfil. Ele é que não se te ajusta. Ou tu não te ajustas a ele. Ou as duas coisas em simultâneo.
Eu sei que não é de tua vontade que te desajustas. Tu és mesmo assim e temos que nos conformar com isso mesmo.
Bem, não é conformarmo-nos com esse desajuste que não se te ajusta. É mais termos paciência e vontade em sermos nós próprios.
O desajuste é um termo pouco ajustado para a tua situação.
Aqui calhava melhor um ligeiro sentido de inoportunidade semântica, ou comportamental, ou de postura, ou intelectual.
Bem vistas as coisas, nem os arquétipos definidores se te ajustam convenientemente. Mas isso também faz parte do teu desajuste intrínseco.
Já desde pequeno que o teu comportamento mais ajustado é estares e seres desajustado. Mas isso tem a sua beleza.
Tem o seu encanto próprio, a sua autenticidade policromática.
Fora isso, sinto que és o ser mais ajustado e sincero que conheço.
Mesmo sendo e estando desajustado, qualquer dia és tu o ajustado e os outros é que vão andar atrás de ti para se ajustarem… ou desajustarem.

publicado por João Madureira às 21:15
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Segunda-feira, 28 de Agosto de 2006

Fios e tensões

2004_0905chavesaguasetembro10054.JPG

Já anda por aqui algo de belo e indefinido.
Já anda por aqui qualquer coisa que se move.
Já anda por aqui o que não anda por aí, nem por ali.

Se por acaso alguém interessante andar por aí diz-lhe que pode vir por aqui.
Se não quiser sair daí, diz-lhe que pode olhar para aqui.

Já anda por ali algo que deseja andar por aqui.
E por aqui anda algo que gostava de andar por aí mas ainda anda por ali sem saber que pode andar por acolá e por aqui e por ali sem se preocupar com o que os outros pensam da sua maneira de andar, ou estar,ou ser.

Fora isso, o resto consome-se em andar e fazer caminho.

publicado por João Madureira às 22:39
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Domingo, 27 de Agosto de 2006

Será o tempo infinito?

2004_0918chavestarde20003.JPG

Já lá vai o dia.
Hoje passeei pela cidade na companhia de um velho amigo.
Descemos e subimos ruas, parámos para admirar edifícios antigos e rememorámos velhos tempos que nos estão impressos na memória como se fossem marcados a ferro em brasa.
Só por si, passear com um amigo é um prazer. Faz-nos sentir um pouco mais novos, mais solidários, lembra-nos um passado feliz e vivido intensamente.
Não importa que parte dessas memórias sejam produto da nossa imaginação.
O que interessa são as reminiscências doces dos momentos que agora nos parecem felizes e perfeitos.
Dizem que a memória é selectiva e é bom que assim seja.
O meu amigo também é selectivo.
Sabe seleccionar bem os vinhos que bebe, sabe seleccionar os melões mais doces e maduros, sabe seleccionar os pratos mais apetitosos quando vai a um restaurante, sabe seleccionar a melhor música e os melhores livros.
Sabe seleccionar, ainda, os seus amigos.
Quando era jovem, este meu amigo era muito rebelde e as garotas derretiam-se por ele. A mim pouco ligavam. Fui sempre um rapaz apagado, sorumbático, pouco falador e insuficientemente imaginativo.
Hoje já falo um pouco mais, mas continuo um homem apagado.
O meu amigo continua alegre e sorridente, atractivo para as mulheres e bom garfo.
Quando vem a Chaves gosta de passear pelas ruas antigas na companhia dos amigos.
Ainda se lembra dos tintins que líamos a meias nos bancos do jardim do Tabolado.
Também se lembra dos poemas do Fernando Pessoa que líamos e decorávamos para recitar às raparigas namoradeiras.
Nós apreciávamos muito o poeta, as garotas é que não lhe achavam lá grande piada.
Mas também para que serve uma rapariga que aprecia Fernando Pessoa na sua juventude?
Cada coisa a seu tempo.
É que o tempo esclarece muita coisa e dá alguma maturidade.
Mas arruína muita realidade, apaga muita beleza, esclarece muito equívocos e destrói intensas ilusões.
Fora isso tem a propriedade de tornar tudo finito.

publicado por João Madureira às 19:17
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Sábado, 26 de Agosto de 2006

Para que serve pensar?

2004_0816quarteiracoimbra0046.JPG

Escrevo-te de C. onde continuo a gastar dinheiro pensando que ando a descansar e a divertir-me. Mas é engano.
Quando uma pessoa se senta num banco de jardim, mesmo parecendo que está a descansar, pode não estar. Pode estar a pensar. E quem pensa nunca descansa.
Muitas vezes sento-me num banco a pensar e canso-me tanto que, por vezes, penso que estou seriamente doente.
Pensar muito é uma doença. Uma doença crispadora, profunda, intermitente, alucinatória, viciosa, deslumbrante, obsessiva, clara, escura, amarela, azul, amarga, doce, sensível… sensível, doce, amarga, azul, amarela, escura, clara, obsessiva, deslumbrante, viciosa, alucinatória, intermitente, profunda, crispadora…
Enquanto penso costumo beber água lisa e comer uma maçã. É o meu vício.
Costumo também pentear as sobrancelhas com um pente pequeno, ou coçar o joelho esquerdo, ou piscar obsessivamente o olho direito, ou lamber os lábios com a língua, ou tamborilar os dedos em cima do jornal, ou cruzar e descruzar as pernas com muita insistência, ou mexer o nariz em intervalos regulares.
Fora isso, mantenho-me afastado da cidade.
Por vezes percorro caminhos que não vão dar a lado nenhum, ou dou pontapés nas pedras, ou assobio como o fazia quando era miúdo e a mãe me mandava fazer algum recado à noite.
Fora isso, tomo banho duas vezes por dia.
Por vezes escrevo em papeis frases incongruentes, só pelo prazer da escrita manual.
Fora isso lavo os dentes três vezes por dia.
Por vezes como um bolo e tomo uma meia de leite.
Fora isso aborreço-me muito.
Aqui não conheço ninguém, o que é uma bênção, por isso não tenho de cumprimentar ninguém, nem sorrir para gente sem préstimo, nem dar os bons-dias a imbecis, nem saudar parvos, hipócritas ou gente do estilo.
Fora isso cofio a barba, ando de autocarro e paro nas montras das relojoarias para observar os relógios caros.
Por vezes adormeço mesmo à hora do almoço e fico mal disposto.
Fora isso, por vezes adormeço à hora do jantar e também fico mal disposto.
Mas durante todo este tempo penso. E isso traz-me doente.

PS – Por favor, não te esqueças de alimentar e escovar o canguru. E não penses muito porque podes ficar doente como eu. E assim somos dois, o que não é uma boa notícia para a mãe.

publicado por João Madureira às 19:15
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Sexta-feira, 25 de Agosto de 2006

As ruas da minha terra têm alma

2004_0606Chavesdiversos0095.JPG

De tanto descer ruas cresceram-me calos nos pés.
Mas tenho de confessar que as ruas da minha terra são muito bonitas.
Têm alma.
Têm alma.
Têm alma.
E nos tempos de hoje ter alma é possuir algo que começa a rarear.

Têm alma as ruas da minha terra.
E não me canso de o repetir.
Posso até afirmar que eu sou um pouco dessas ruas.
Já por ali passei tantas vezes que de certeza algo de mim ficou lá para sempre.

publicado por João Madureira às 19:23
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Quinta-feira, 24 de Agosto de 2006

O espaço entre

2004_0730santoamaro29julho040105.JPG

Há sempre um espaço que sobra ou que falta naquilo que temos para andar.
É nesse espaço por preencher onde a memória põe os seus ovos de formiga.
Sobeja tanto tempo à manhã como falta à noite.
Só a tarde nos remete para o lento escorregar da luz esbranquiçada do sol.
No campo descem as doninhas às suas tocas.
No mar, os pescadores deitam as suas redes para apanhar o peixe.
No céu, as águias planam em redor dos olhares dos roedores assustados.
Nos lameiros andam os cavalos sedentos de cavalgadas heróicas em busca de água e fêmea.
Mas é à noite que o silêncio se impõe.
É à noite que sinto que as tuas palavras fazem sentido.
É à noite quando a lua espalha o seu brilho de prata.
É à noite que me ponho a observar o rio reflectindo os pontos de luz das estrelas que já morreram há milhões de anos.
É à noite que me esqueço do dia.
Por isso percorro incerto os caminhos fortuitos das pessoas a quem homenageio.
E espero num banco de jardim a tua chegada para te ver iluminar como te iluminaste no último arraial de fogo e dança.
A paz esteja contigo.

publicado por João Madureira às 18:25
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Quarta-feira, 23 de Agosto de 2006

Onde a realidade faz a curva

2004_071420040062.JPG

Estão velhas as telhas do meu telhado.
Mas, mesmo assim, ainda me protegem do sol e da chuva.
São ondulantes na sua simplicidade, enchem-se de líquenes e de musgo e até lhe crescem ervas nos interstícios.
Tudo o que eu desejo é possuir um telhado para me abrigar.

Um telhado é uma mania.
E eu vejo a mania a discorrer lentamente sobre a inclinação das superfícies.
Por circunstâncias imprevistas, as superfícies tornam-se incongruentes e submetem-se aos meus caprichos.

Somos como bichos, como libélulas incandescentes terminadas em u.
Quando os cavaleiros da távola redonda andavam de trotinete, a minha mãe costumava dizer que tão ilustres cavalheiros não passavam de adolescentes deslumbrados com as taças de champanhe e com as crinas das éguas.
Depois os cavalos relinchavam como doidos com ciúmes dos biciclos e a minha avó batia-lhes com uma chibata de couro.
Ficavam tristes os burros ao observarem cena tão cruel.
Mas para a circunstância tanto fazia.

Quando as hélices dos helicópteros se chateiam da rotação entram em rodopio inconstante e desejam finalizar abruptamente o que não tem sentido.

Mais além alguém despeja sorrisos sobre nenúfares e as rãs entram em stress pós traumático.
Nada de definitivo, já se vê.
Ser ou não ser, eis o perdão.

publicado por João Madureira às 19:41
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Terça-feira, 22 de Agosto de 2006

Quando se olha para cima

2004_0918chavestarde0038.JPG

Anda oblíqua a probabilidade dos espaços circundantes.
De longe em longe renascem iluminações interiores.
Algo de permanente aquece as cidades. Algo de duradouro se inscreve na retina do tempo.

Anda o tempo reclinado com o sentido da vida.

O que tem sentido nem sempre parece que o tem, mas não é isso o que demove as palavras de se inscreverem na razão dos sonhadores.
Quando alguém sonha a lua tarda em se fasear.
Dormem os láparos ao relento. Gemem as mães lobas com o movimento das marés uterinas.

Mais lá no alto as andorinhas desdizem os caminhos por descobrir.
É tempo de nos pormos a ver passar os amantes.

publicado por João Madureira às 20:11
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Segunda-feira, 21 de Agosto de 2006

Onde o tempo faz o ninho

2004_0515Chaves0055.JPG

É da vontade que falamos quando falamos do ferro.
E de geometria natural que conversamos quando olhamos as sombras dos materiais em plena época estival.
É de festivais que dialogamos quando não temos mais nada para dizer.
É de sorrisos que nos alimentamos quando a paz do entardecer desce sorrateiramente sobre nós.

Depois chega a calma cansada dos olhares perdidos e das palavras esquecidas ou desdenhadas.
Até lá vamos voando discretamente através da luz enaltecida das montanhas.
Mas é no rio que a vontade circunspecta dos amantes se dissipa em vontade.

O desejo espera espaço.
A vontade exige recato.
O fascínio invoca metáforas incandescentes.

Andam os passos em volta.
Voltam os passos às metáforas.

Quem andou já não tem para andar.

Agora só penso em voar.
E é nesse voo pensado onde o tempo faz o ninho.

publicado por João Madureira às 19:55
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Domingo, 20 de Agosto de 2006

Agradeamentar-te

2004_0606Chavesdiversos0034.JPG


Há quem ame aprisionar aves, quem adore passear cães, quem não hesite em sorrir falsamente para o seu vizinho ou quem desfrute em distorcer a realidade dos factos.
Ma os factos quase sempre são alterações da imaginação. E quem imagina faz de conta que conhece a realidade.
Por vezes alguém põe grades nas janelas para não ser assaltado pela magia dos conceitos libertários.
Alguém pôs pimenta nos ideais e nos desejos e agora espirramos imposições.
Vai o mundo confuso e desajeitado. Andam as pessoas desconfiadas.
Já não sei se te agrado ou se te desagrado, mas para o caso tanto faz.
Cada vez gosto mais de te sentir respirar junto ao meu desejo.
E é isso o que importa.

publicado por João Madureira às 18:16
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Sábado, 19 de Agosto de 2006

ZZZZZZZZZZZZZZZZZZ

2004_0515Chaves0009.JPG

Ando atónito com o esplendor metálico das grandes superfícies, com o seu brilho provocante, com a alucinação sonora dos alimentos congelados, com a paciente revolta das lâmpadas incandescentes, com o ruído surdo dos guardanapos, com a utilidade especial do papel higiénico.
Aos seus frequentadores recomendo os pássaros incertos. E tudo e tudo e tudo.


publicado por João Madureira às 20:21
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Sexta-feira, 18 de Agosto de 2006

Cão solitário

2004_0905chavesaguasetembro0002.JPG

Chove. Lá fora chove. E eu vou passear.
Passear à chuva é uma tarefa solitária. Como solitário é um coração compassivo.
Vou dando voltas e voltas e ouvindo as gotas caírem no chão. Não penso em nada. Só na chuva a cair.
As árvores agitam-se com o vento. O vento enerva-se com a chuva. A chuva excita-se com as nuvens. As nuvens escorregam lá no alto.
Dirijo-me à quinta de um amigo que vive longe.
Vou lá muitas vezes quando chove. Vou lá ver os rododendros e as murtas, os eucaliptos e os pinheiros mansos, os carvalhos e os castanheiros.
Sento-me numa fraga redonda e alta e oiço os pássaros cantar no meio da chuva. Os pássaros estão molhados e desiludidos. Cantam como quem se lamenta. Depois voam em pequenos trajectos e voltam ao mesmo lugar de onde saíram.
Gosto de ouvir a chuva a bater nos vidros das janelas da casa abandonada. Sugerem pequenas pedradas de namorados.
O musgo, das pedras do muro que suportam uma fonte, ampara pequenas gotas de água nos seus exíguos filamentos. Parecem pequenos diamantes nervosos.
Quando fecho os olhos sinto o cheiro uniforme da humidade do ar misturado com o odor da terra molhada.
Chove na superfície meiga da água do poço.
Continua a chover quando me venho embora. O som da chave na fechadura do portão da quinta desperta um gato que dormita num vão de escada. Ao longe um cão ladra pausadamente.
Os meus passos ecoam no silêncio da calçada deserta. O meu olhar descai para a direita.
Lembro-me então de abrir o guarda-chuva para aliviar a pressão.
Volto para casa para ler um poema chinês que fala do voo de uma borboleta no meio da chuva.

publicado por João Madureira às 18:06
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Quinta-feira, 17 de Agosto de 2006

Esquilofrénico

2004_0816quarteiracoimbra0152.JPG

Escrevo-te de C. cheiinho de saudades da nossa terra. Estou calmo e meditativo. Medito muito e com qualidade. Tu bem sabes que qualidade não me falta. O que me falta é dinheiro para a poder afirmar. Ou impor. Ou aquilo que tu entendas por melhor. Só tu me compreendes.

A fotografia que te mando é do café onde tomo todos os dias o pequeno-almoço: uma meia de leite e uma torrada, ou um galão e meia torrada, ou uma empadinha de galinha com sumo de laranja, ou uma sandes de fiambre com um copo de leite frio, ou um chá com meia torrada e sem açúcar, ou um queque com um café, ou, nos dias de depressão linguística, uma garrafa de água das pedras com uma rodela de limão e mais nada. Mas mesmo mais nada, que eu não sou de meias tintas.

Todos os dias como também uma maçã que trago de casa, sentado a ver as pessoas passar. Tiro-a do bolso e dou-lhe trincas decididas. Entretanto as pessoas passam rápidas e nervosas. Parecem cavalos de corrida. E eu pareço um touro sentado num banco de jardim. E o banco parece mesmo um banco de jardim. E o jardim parece um jardim com um banco. E eu pareço um touro manso sentado num banco de jardim vendo passar pessoas sem tino nem propósito, enquanto dou dentadas cadenciadas na maçã sumarenta.

Continuo a gozar os rendimentos que possuo antes que me apague e cá fiquem os próprios com uma carga de inutilidade inconveniente. Por vezes fecho os olhos e recordo os momentos deliciosos em que me sentava num banco de madeira feito pelo meu pai. Era nele que sonhava com burros voadores e com porcos caprichosos e gordos. Fora isso entretenho-me a gozar os rendimentos como quem faz rega gota a gota.

O espaço posterior da foto já não dá para escrever mais nada a não ser que, por favor, não te esqueças de dar de comer e beber ao esquilo esquizofrénico.

publicado por João Madureira às 21:31
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