Sábado, 30 de Setembro de 2006

... e pong

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publicado por João Madureira às 18:59
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Sexta-feira, 29 de Setembro de 2006

Ali e a semiótica

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O meu amigo Mário revelou-me que anda triste porque agora já não consegue encontrar indivíduos.
Confesso-vos que não percebi bem o queixume. Eu sou mais terra a terra. Ele é que gosta de pensar sobre o que os outros pensam ou não pensam, sobre o que significam determinadas palavras fora do contexto ou dentro dele, de reflectir sobre a arbitrariedade das ideologias totalitárias ou sobre a indiferenciação ideológica e política que atravessamos. Fora isso, é até bom rapaz, um eficaz chefe de família, um atinado adepto do F. C. Porto e um rigoroso praticante de desporto, nomeadamente das corridas de karting.
Na segunda-feira passada abandonou na mesa do café os seus amigos mais chegados. E isto porque, segundo o próprio, sendo todos de orientação política, futebolística e religiosa diferente, agora estão sempre de acordo. “Parecem parvos”, diz ele para quem o quer ouvir. “Actualmente dizem e defendem todos o mesmo”. E repete muitas vezes a frase: “Cada vez existem mais pessoas com as mesmas ideias. E isso é assustador.”
Eu também acho que é. Mas penso que não é motivo suficiente para abandonar a mesa das suas amizades. Mesa que frequentou e animou durante 20 longos anos. Foi ali que debateu a questão da semiótica do marxismo, a táctica e estratégia da guerra do Iraque na perspectiva de um chinês xintoísta, a liberdade aparente dos ricos, a penúria simbólica dos deputados europeus, a ontologia das operações matemáticas, a liberdade sexual em contexto cibernético, o direito internacional dos cães de caça, a influência da cor dos olhos na reprodução assistida, a importância da linguagem no crescimento dos antúrios e por aí fora, passando pela requalificação da Galinheira, o simbolismo da curva do Caneiro, a inteligência sofisticada dos embriões dos caracóis e o egocentrismo dos estrelas do mar.
A mãe do Mário disse-me que o filho falou na sua barriga, quando andava grávida de sete meses. Por isso ele é tão predestinado.

publicado por João Madureira às 21:41
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Quinta-feira, 28 de Setembro de 2006

Sem título

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Hoje encontrei o José, um rapaz da minha idade que já não via há muitos anos.
Está praticamente igual. Parece que o tempo não passa por ele.
Claro que está um pouco mais gordo, mais enrugado e mais calvo, mas, fora isso, parece praticamente igual ao que foi.
O José era muito castiço. Tinha muita piada.
Sabia tocar um pente com um papel imitando uma trompete, cantava como o Joe Cocker, imitava a bateria dos Deep Purple com a boca, travava os seus carrinhos de brincar no tempo certo e com um chiar muito característico.
Fora isso, queria ir para polícia. Só que imigrou para Espanha.
E… já não me apetece escrever mais nada sobre o José, nem sobre nada. Estou irritado, apetece-me rasgar o computador e quebrar um disco de fado. Estou muito irritado e mal disposto. Até me doem os dentes. Também me apetece dizer asneiras.
Apetece-me dar um pontapé num gato, ou num cão.
Estou muito arreliado. Até me doem os joelhos e os pés.
E este tempo ainda me põe mais irritado. Chove e brilha o sol. Onde já se viu tal estupidez. O barulho dos carros enfurece-me.
Tenho uma borbulha no nariz.
Estou numa pilha de nervos. Tenho de ir cortar as unhas.

publicado por João Madureira às 18:18
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Quarta-feira, 27 de Setembro de 2006

O que

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Hoje perdi a linha do horizonte e ainda não a consegui encontrar.

O que está feito, feito está.

Logo mais à noite vão brilhar de novo os olhos cobiçosos da medusa.

O que está dito, dito está.

Um deslizamento de vontades desvaneceu-se no limite da paciência.

O que está decidido, decidido está.

Há portas que foram fechadas e que nunca mais serão abertas.

O que está, está, e o que vier, logo se verá.

publicado por João Madureira às 20:32
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Terça-feira, 26 de Setembro de 2006

Auto-retrato com calma

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Tem este retrato a particularidade de ser auto e de ter alma.
Tem a alma alguma calma em ser retrato.
Enquanto a alma se acalma, o retrato se assanha.
Tem forma a alma e paciência a calma.
Tem memória a manha.

publicado por João Madureira às 19:20
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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2006

Quase tudo, quase nada

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Uma vez contaram-me uma história a preto e branco. Era uma história alegre, que parecia triste, mas onde os maus eram absolutamente maus e os bons eram tão bons que não podiam ser melhores.
Acho que foi a partir daí que deixei de gostar de histórias de bons e maus.
Agora só gosto de histórias reais. E não me interessa se são a preto e branco ou a cores. O que me interessa é saber se são ou não reais.
E gosto dessas histórias especialmente porque são tão surpreendentes e ricas que me fazem sonhar.
Sonho tanto com a realidade que já confundo tudo.
Mas não me importo.
Acho que é da confusão que nasce a realidade.
Por isso é a realidade tão confusa, tão perturbadora e tão criativa.
Uma vez contaram-me uma história passada numa terra a cores onde o bom era mau e o mau era bom, onde o primeiro era branco e o outro mestiço, quase preto, quase mau, sendo, ou parecendo, mau, ou quase mau, só que era bom, mesmo parecendo aquilo que não era.
Tinha o outro personagem da história a estranha qualidade de parecer aquilo que as pessoas esperavam dele. Por ser branco tinha que ser bom, só que era mau e, por mais que a vontade das pessoas fosse, ou parecesse, que parecesse bom, era mau, ou quase mau. Por isso também era quase bom.
Mas se era quase bom, também era quase mau, quase mestiço, quase branco. Porque um mestiço é quase branco, mas também é quase preto.
Portanto era o branco quase preto e o preto quase branco porque ambos eram quase mestiços. Sendo o mestiço quase preto a mesma coisa, porque estava, ao mesmo tempo, no meio e no fim do espectro. Por isso também o que era quase bom era quase mau e o que era quase mau era quase bom.
Abreviando: eram ambos quase brancos e quase pretos e quase mestiços, quase bons e quase maus e vice-versa.

publicado por João Madureira às 20:03
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Domingo, 24 de Setembro de 2006

Saudades do estilo

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Tenho saudades dos tempos em que fumava, não por vício, mas por estilo.
Para dizer a verdade, fumar é um acto quase imbecil. Desde logo porque o fumo é algo de entediante e eufemístico.
Mas a saudade não. A saudade é uma sensação especificamente humana.
Lembro-me que a primeira vez em que dei uma passa num cigarro foi na parte traseira da escola primária de Montalegre. Engasguei-me com muito estilo e passei logo o cigarro ao meu colega. Ele fez o mesmo, engasgou-se com muito afinco e passou o cigarro ao outro parceiro. Por seu lado, o terceiro colega chupou no filtro do cigarro, engasgou-se bem engasgado e passou o cigarro ao outro companheiro e assim o cigarro foi passando de mão em mão até chegar ao filtro. Foi a mim que coube a tarefa bizarra de atirar o paivante ao chão e de o apagar com a ponta do sapato.
Muito congestionados, com a boca a saber terrivelmente mal e com as mãos a cheirar a tabaco, fomos para casa observar os nossos pais que fumavam quando lhes dava a vontade.
Depois o gesto imitativo foi-se tornando hábito e o hábito transformou-se em vício e durou muitos anos até ao dia que abandonei o maço de cigarros num cinzeiro e por ali se quedou a minha dependência, que foi estilo e que agora é saudade.
Actualmente, quando me dá a saudade, pego no meu olhar e vou contemplar a banda a tocar.
E é ali que recordo com dor a imagem do meu pai fumando em contraluz contra as imagens deslizantes dos seus dedos calmos e abstractos.

publicado por João Madureira às 18:04
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Sábado, 23 de Setembro de 2006

O que cai

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Houve tempos em que permanecia à janela da minha casa a observar as gotas que desciam pela cara de granito da estátua que morava no meio da praça.
No bairro tudo era calma e solidão.
Lá mais ao longe as árvores abanavam com o vento.
Algumas pessoas corriam para ir dar de comer aos animais.
O cego da casa 43 olhava entretido a escuridão eterna.
No sótão da mansão da Dona Inês os ratos faziam ninho.
A minha avó à lareira aquecia uma alheira para me dar.
E eu continuava observando as gotas de chuva que escorriam pelos vidros da janela.
E as gotas lá deslizavam em linhas sinuosas.
Havia silêncio nas minhas mãos. E uma quietude de prata.
Lá fora a chuva insistia em tombar sobre a estátua.
E a estátua nem se mexia.
Só olhava para norte, sempre para norte.
Sempre.
Se por puro acaso tropeçares na água que cai do céu não te espantes.
É apenas o meu olhar que regressa do passado.

publicado por João Madureira às 18:57
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Sexta-feira, 22 de Setembro de 2006

O ímpeto dos dias que descem sobre a cidade

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Começa a descer o tempo sobre a cidade.
Alguém se esqueceu de celebrar o ímpeto dos dias.
Na margem direita do rio passeiam os namorados mais desprevenidos.
Os outros acomodam os beijos nos lábios comprimidos pela aragem gélida do norte.
Não faz frio onde o fantasma que persigo pousa os seus pés.
Parecem que fumegam as suas pegadas.
Eu reconheço os fantasmas pelos sinais, pelo seu modo de ser, pelo seu discreto desejo em colher as flores de neve.
Agora mesmo começo a subir a rua de costas voltadas para o destino.
Lá mais em baixo foge o alento na direcção ao poente.
Expande-se o momento na direcção do tempo.
Abala o tempo, volta a angústia.
Começa a derivar o ímpeto na direcção dos dias.
Mais logo o vento virá desfazer o teu sonho de andares sem destino.
Começa a descer o tempo sobre a cidade.
Começa a cidade.
É o tempo.
O nosso tempo.
Outro tempo.
Outra cidade.
Uma cidade que desce desesperadamente sobre o tempo.

publicado por João Madureira às 18:04
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Quinta-feira, 21 de Setembro de 2006

Tu

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Há no tempo uma curva que o torna implacável.
Há no espaço um desvio que o força ao infinito.
Há no infinito outro infinito e ainda outro e outro e assim sucessivamente até ao infinito do infinito do infinito.
No infinito.
Tu.

Percebem-se os momentos quando o vento sopra nos teus instintos agressivos.
Tu não o notas, mas eu sim.
Tu não o notas, mas eu sim.
Tu não. Eu sim.
Sim. Assim.
Tu.

Tudo o que volta se desfaz em desalento.
Tudo o que volta.
Desalento.
Tudo. Tudo. Tudo.
À volta. Desalento.
Tudo desalento. À volta.
Tudo não.
Tu.

publicado por João Madureira às 19:07
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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2006

Indefinitivamente

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Não sei que tenho porque cada vez olho mais e vejo menos.
Sei que não é a aparência o essencial.
Mas têm os espelhos a faculdade de nos devolver a imagem.
Por vezes olho-me nos olhos e só vejo tristeza. Uma tristeza diáfana e profunda. Uma tristeza inconformada. Autêntica. E uma tristeza autêntica custa a aguentar.
Também é autêntica a indiferença que sinto pelo mundo. Não quer dizer que o mundo me seja indiferente. A sua indiferença é que me deixa indiferente.
Já não procuro o que sei que vou encontrar.
A vida, quase sempre, é um desencontro. Uma apologia da competição. Uma tarefa ingrata, como ingrata é a morte que nos leva quando começamos a aprender a viver.
Torna-se o Homem sábio e, quando está preparado para viver com sabedoria, morre.
Por isso só a morte é definitiva.
E como sabemos que todos vamos morrer, torna-se a vida um espelho irrisório.

publicado por João Madureira às 20:09
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Terça-feira, 19 de Setembro de 2006

O louco e a tartaruga

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Na minha rua há um louco que não parece nada louco. Só que é louco. Mas não se pode assegurar qual é a sua loucura. Todos sabemos bem que ele é louco, mas ninguém sabe de ciência certa quando é que assim ficou. Para dizer a verdade, nós, os seus vizinhos, nem sequer sabemos bem quem ele é. Só sabemos que é louco. E é o próprio quem o declara quando se põe a gritar à janela do seu quarto, principalmente nas noites de Verão. Ele diz que é louco. E tem mesmo ar de louco, e olhar de louco, e andar de louco e fama de louco. Por isso é louco. Tem de ser louco. Se não fosse louco não dizia que era louco nem se comportava como tal. Sai todos os dias para o trabalho vestido a rigor, transporta sempre uma pasta de cabedal e pela trela leva uma tartaruga das grandes. Sai pela madrugada de casa. Não é que comece a trabalhar cedo nem o seu local de trabalho diste muito da sua residência. O que lhe leva muito tempo é a viagem com a tartaruga. Mas ele não se desfaz dela, nem a puxa com força, nem lhe ralha, e muito menos lhe bate. Muito pelo contrário, tem-lhe muito carinho e dedica-lhe uma atenção deveras especial. A tartaruga também lho retribui. Não faz barulho nenhum, não morde as pessoas, não cheira mal, não protesta, nem lhe dá muito trabalho.
Mas, ao contrário do seu dono, a tartaruga é normal. Não ostenta o ar esgazeado do seu proprietário. Revela, até, uma aparência muito natural. Parece mesmo aquilo que é: uma tartaruga comum. É tão normal que passa dias inteiros a ver televisão. Mas televisão generalista. As outras assustam-na com os programas científicos, ou culturais, ou informativos. Ela adora telenovelas e filmes de acção. Também não desdenha de se entreter a ver jogos de futebol, especialmente os do campeonato português. Os dos outros fazem-lhe prejuízo. Um dia o louco, porque detesta futebol, especialmente o nosso, tentou, por três vezes, mostra-lhe jogos do futebol inglês, só que a pobre criatura marinha ficou tão agitada com a diferença de movimento que tentou subir para as costas do patrão e, no intento, desequilibrou-se, caiu e ficou de pernas para o ar, o que, na sua espécie, significa morte certa, dado que as tartarugas não se conseguem virar, morrendo por isso à fome e à sede.
Tão amedrontada ficou que agora só vê televisão no seu quarto e não permite que nessas alturas o louco se aproxime do aparelho.
Para gáudio do celerado, o bicho aprendeu a cantar modas alentejanas e, nas noites de Primavera, quando as macieiras se enchem de flores, entoa aqueles cantares lentos e monocórdicos com muito sentido e oportunidade.
Por isso é o animal do louco um bicho de estimação muito considerado na vizinhança e querido pelas crianças e velhinhos do bairro.
Um grupo de senhoras muito devotas e dadas às coisas da igreja está mesmo a pensar apresentar queixa à sociedade protectora dos animais com a intenção de o libertar do louco e levá-lo para uma instituição de caridade, considerando mesmo a hipótese de o integrar no coro que canta nas missas, pois, na sua opinião avalizada, quem canta canções alentejanas com tanta propriedade, melhor entoará lindas canções de júbilo cristão.

publicado por João Madureira às 21:33
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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2006

Fricção Científica

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Fecha-se uma escola.
Aluga-se uma casa.
Aluga-se uma rua.
Aluga-se um bairro.
Aluga-se uma aldeia.
Aluga-se uma freguesia.
Aluga-se uma vila.
Aluga-se uma cidade.
Aluga-se um concelho.
Aluga-se um distrito.
Aluga-se uma província.
Aluga-se uma região.
Aluga-se um governo.
Empresta-se um presidente.
Vende-se um parlamento.
Dá-se um país.

publicado por João Madureira às 21:32
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Domingo, 17 de Setembro de 2006

Noé aceitável

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Não é minimamente aceitável que se faça pouco da inteligência das galinhas garnizés.
Não sendo tão grandes como as outras, são mais aguerridas, mais carinhosas com os pintainhos, mais defensoras do seu território, mais independentes dos galos, mais poedeiras, mais mexidas, decididas e guerreiras.
Sabem adivinhar os eclipses da Lua e o vento Norte.
Eu conheço uma que dança de roda quando houve música do Marco Paulo, que salta quando vê um padre e que cacareja ao contrário quando avista uma bruxa das más.
Também adivinha os dias de trovoada e as noites de geada negra.
É tão atenta e perspicaz que descobre um mentiroso pelo sorriso, um caloteiro pela maneira como se senta e um político invejoso pela grafia.
Tem esta galinha garnizé o condão de se rir nos dias santos, sem que ninguém lho sugira. É também muito piedosa, muito tolerante com os outros e, sobretudo, sobe e desce escadas com uma pata só.
Gosta muito de passear de carro, sobretudo de descer a Rua de Santo António aos domingos, especialmente quando as pessoas saem da missa.
Nas noites de natal canta lindas canções que ouve na televisão.
Chegou a assistir a uma missa do galo e cacarejou com tanta ventura que a vaquinha e o burrinho choraram lágrimas verdadeiras e até o menino Jesus do presépio se sorriu. O que também é um milagre e, mesmo que pareça trivial, cai muito bem numa noite de consoada que é a festa da família onde os animais têm o mais honroso papel.

publicado por João Madureira às 21:46
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Sábado, 16 de Setembro de 2006

Os bagos do dia

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Ainda me lembro, com saudade, das vindimas da minha infância.
Eu pouco vindimava. Limitava-me a olhar. Fixava as imagens dos adultos a cortar os cachos de uvas com tesouras ou navalhas, ou deslumbrava-me com a cor do sol filtrada pelos bagos pintados parecendo colares de fantasia como os que saíam nas rifas ou nas barracas de tiro na Feira dos Santos. Por ali andavam muitas crianças que debicavam as uvas maduras, na companhia dos cães que também aproveitavam e comiam os bagos doces que caíam na terra. Depois as uvas eram transportadas em cestas pequenas para os grandes cestos de vime que aguardavam serem cheios durante o dia. Enquanto o trabalho se desenrolava, as mulheres cantavam e os homens assobiavam modinhas tradicionais. A meio do trabalho comia-se, preferencialmente iscas de bacalhau com pão e bebia-se vinho tinto. E muito.
Depois da vindima enfiava-me no meio dos cestos grandes de vime que estavam encaixados nos carros de bois e voltava para casa sujo de poeira e do sumo das uvas que se esmagavam contra a roupa ou escorriam das mãos dos adultos os pelas frinchas dos cestos.
A vindima sempre foi um trabalho que as pessoas faziam com satisfação, com calma, alegria e alguma perícia.

publicado por João Madureira às 18:08
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Sexta-feira, 15 de Setembro de 2006

Poder

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Ai se eu pudesse.
Mas agora já não se pode como se podia.
Mas se pudesse outro galo cantaria.
Agora não sei bem se queria.
Se pudesse fazia o que queria.
Se pudesse podia.
Se não pudesse, fugia.
Se fugisse fugia.
Mesmo não querendo.
Mas se quisesse queria e não fugia.
Agora já não se foge como se fugia.
Mas se eu fugisse, fugia. Mesmo não querendo, queria. Mesmo não podendo, podia.
Mesmo não sendo, ia. Mesmo não indo, fugia.
Mesmo não fugindo, sorria.
Ai se eu pudesse.
Se eu pudesse, podia.
E ia.
E não fugia.
E sorria. E queria. E fazia.
Ai se eu pudesse.
E se se pudesse como se podia, outro galo cantaria.
Ai se se pudesse como soía.
Eu ia, eu ia, eu ia.
Mesmo se não pudesse.
Mesmo se não fugisse.
Mesmo se não comesse.
Se eu fosse, sorria.
Se eu fosse, ia.

publicado por João Madureira às 20:04
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Quinta-feira, 14 de Setembro de 2006

Suicídios voluntários

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Escrevo-te de C para dizer que continuo a gastar as minhas economias numa tentativa serôdia de aproveitar o tempo que perdi pensando que o ganhava.
Para te dizer a verdade, nunca me senti tão só. E olha que por aqui as pessoas surgem de todos os lados, como a erva ruim.
Quem anda daninho sou eu que, por causa das ausências premeditadas, apanhei uma depressão regular que me traz dubitativo e atarantado.
Agora só como malignidade e bebo veneno. E olha que compro estes produtos nos centros comerciais. São venenos que matam aos poucos, mas não falham o seu objectivo.
Engordei cerca de cinco quilos. E de repente. O veneno contaria o provérbio. Este, porque engorda, mata. Agora só como hambúrgueres com mostarda e batatas fritas que sabem a plástico derretido. Por cima bebo uma cola. Depois engulo um sorvete.
Por vezes vingo-me nas pizas e nos refrigerantes. O meu colesterol está no máximo e tenho os outros níveis todos alterados. Vai-não-vai, rebento.
Escrevo-te esta mensagem num guardanapo porque essa atitude faz parte da minha nova faceta de escritor deprimido e sabujo. Qualquer dia ainda me vão reconhecer alguma subtileza.
Despeço-me já porque agora namoro com uma senhora que mais parece um pipo. Foi tal donzela quem me converteu à prática do suicídio gastronómico. Apesar de gorda, é muito simpática e até se comporta bem na cama. Tem uma agilidade construída muito aceitável. Também gosta de andar de barco no rio. Eu é que tento distraí-la desse seu propósito. É que com o nosso peso somado, a pequena embarcação, a todo o momento, ameaça naufragar. E, apesar de me andar a suicidar, não pretendo acabar os meus dias no meio de barbos e bogas. Além disso a asfixia provoca-me calafrios.
Ela já ali vem toda sorrisos. Apesar de tudo, é uma visão simpática. É enorme. Agora deu-me para os excessos. Mas sinto-me bem. Especialmente depois de tomar uns estimulantes marotos que um seu amigo me arranjou. O problema reside nos efeitos secundários. Depois da euforia sobrevém a ressaca.
Mas, enquanto o efeito dura, o melhor é aproveitá-lo.

PS – Por favor não te esqueças de alimentar convenientemente a piranha.

publicado por João Madureira às 19:09
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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2006

Alma

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Isto é tudo um jogo de espelhos.
E eu gosto de espelhos, daqueles que me trazem o mundo de uma forma diferente.
O mundo ao espelho é o oposto do mundo real.
Por isso gosto de espelhos.
Gosto dos espelhos que me traduzem os sentidos, que me levam a ver aquilo que não vejo, mas sinto.
E sentir, nos dias de hoje, parece uma heresia. Hoje já ninguém sente nada. Ou diz que não sente.
Ou melhor dito, sinto que não gosto de espelhos. Gosto mais de ver o teu rosto espontâneo, como sendo uma combustão de desejos, como expressando uma combinação de ternuras, como induzindo uma invocação de expressões.
Um espelho não consegue reflectir a alma. E é a alma aquilo que nos distingue dos reflectidos. Que só existem porque são o reflexo de outros que se limitam a reflecti-los. Isto tudo em sucessões infinitas de tédio. Em sessões intermináveis de displicência. Em sequências ininterruptas de devassidão.
Ao espelho não te vejo.
No escuro espelho-te.
Na luz desejo-te.
No infinito amo-te.
Tu és o meu espelho porque não me reflectes. Tu és o meu espelho porque quando olho para ti só te vejo a ti.
Isto é tudo um jogo de espelhos…
sem espelhos, porque só assim é jogo.

publicado por João Madureira às 17:43
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Terça-feira, 12 de Setembro de 2006

Nem sim nem não

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Já lá vão muitos anos.
Os anos são como as nozes.
As nozes são boas para comer.
Antigamente comiam-se as nozes com um copo de aguardente misturada com açúcar.
Logo de manhã.
Logo de manhã o trabalho tomava conta da rotina.
Depois era andar de rotina em rotina até cair exausto na cama com colchão de palha.
Dormia-se mal naquelas camas.
Acordava-se muito cedo.
E acordava-se com muita fome e pouco que comer.
Eram tempos fleumáticos.
No entanto as serras eram iguais ao que hoje são. As mesmas curvas, as mesmas cores, as mesmas pedras, a mesma terra, o mesmo ar.
Agora as pessoas são muito diferentes.
São mais esquecidas e pretensiosas. São mais do ter do que do ser.
São e não são. Estão e não estão. Tiram e não dão. E quando vão são e não dão, andam e não são e não comem logo o salmão. Também jantam e não estão, fogem e não são, e dormem sobre a mão. Nem estão nem são. Quando vão, olham e não estão, colhem e não são. E quando são não são os que olham quando não estão nem os que vêem quando fecham propositadamente a mão dos que são e não são. E todos estão e apertam cada um a sua mão que ajuda a comer o pão com queijo e salmão. Isto apesar de todos gostarem de presunto com melão.
Atenção ao portão, que se encosta ao desvão e nem diz sim nem não.
Ali ao lado, a São diz não ao salmão e deita fora o último tostão.
Ai dos que batem no cão.
Dlim, dlão, dlim, dlão.

publicado por João Madureira às 19:07
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Segunda-feira, 11 de Setembro de 2006

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Quando o vento ligeiro se atravessa no meu campo de acção provoca-me, momentaneamente, um desequilíbrio.
É esse o desequilíbrio da tensão. Da tensão que se nos coloca no momento de decidir. E quem decide nunca deve vacilar.
Só vacilam os fracos, dizem os fortes. Só decidem os fortes, replicam os fracos. Só os fortes são fracos, escrevem os filósofos. Só os fracos são fortes, escrevem os psicologistas. Só os parvos são filósofos, deduzem os psiquiatras. Só os complexados são psicólogos, afirmam os loucos. Só os loucos o não são, explicam os poetas. Só os poetas são políticos, pronunciam os tecnocratas. Só os tecnocratas são de ferro, dizem as assistentes sociais.
Só. Ó. Ó. Só.
Só.Ó.Ó.
Só.Ó.
Só.
Ó.

publicado por João Madureira às 22:28
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Domingo, 10 de Setembro de 2006

A cultura do meu amigo

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Hoje apeteceu-me comer um gelado enquanto conversava com um meu amigo que é muito dado às coisas da cultura. E falámos muito e falámos bem. De vários temas, todos interessantes.
Digo-vos que é muito útil falar com esse meu amigo. Isto é, quando ele nos deixa falar. É que ele sabe muito de muita coisa, sobretudo de alta cultura. Fala muito e bem sobre os mais variados temas. Todos temas muito interessantes, muito abrangentes e muito actuais. Ele é até mais culto do que a maioria dos cultos do nosso país. E olhem que, mesmo sendo Portugal um pequeno país, possui, mesmo não parecendo, muitos e bons homens e mulheres de cultura. Mas, mesmo assim, este meu amigo supera-os quase todos.
Ele fala muito, bem e depressa e nunca, mas mesmo nunca, revela dúvidas demonstrativas enquanto discursa. Ou seja, nunca se engana, nunca se atrapalha, nunca gagueja. O discurso sai-lhe sempre límpido, sem hesitações, sem atrapalhações, sem flutuações, ou outras indeterminações. Com ele é sempre a direito, mesmo quando o seu discurso revela uma configuração um pouco mais sinuosa.
Tem este meu amigo a qualidade de tudo descobrir. De pôr tudo claro como água. A sua cultura é muito apreciada pela família, pelos amigos, vizinhos, colegas e até por alguns dos seus inimigos. Mesmo os seus inimigos reconhecem que ele é muito, mas mesmo muito, culto, de uma cultura superior, muito metódico no falar, muito comedido nos seus gestos, que também são cultos, até o seu andar é um andar que reproduz a sua brilhante cultura. O seu andar é mesmo muito erudito. De uma erudição convergente, tranquilizante e tranquilizadora. Mas não é só o seu andar ou o seu falar que espelham cultura, o seu olhar também a exprime. De uma cultura impecavelmente estudada. Se a cultura tem alguma utilidade, de certeza que é neste meu amigo onde encontra a sua plena realização.
As suas conversas, mesmo quando parecem fúteis, não o são. O meu amigo dá-lhes sempre um toque culto. Até quando come consegue encher-nos de cultura. Com ele tudo se transfigura em cultura: os gestos, os talheres, os condimentos, as toalhas, os guardanapos, os tachos, os copos, o vinho, até mesmo os palitos dos dentes ganham uma auréola sublime, uma importância inaudita com espaço próprio na história universal. Depois é a sobremesa que se nos agiganta na sua intrínseca utilidade, no seu inseparável conceito culinário, na sua ancestralidade cultural, na sua significância metafísica, no seu indesmentível valor simbólico e prático, na sua génese voluptuosa, no seu redimensionamento monástico, nas sua decifração metafísica, ou estrutural, ou alegórica. A tudo lhe encontra sentido, forma, objectivo, importância, sedução, uniformidade, relação e arte. Até na falta de cultura encontra cultura. E beleza. Para ele tudo é belo porque, na sua perspectiva, tudo se reduz à linguagem. No princípio era o verbo, repete ele muitas vezes.
É muito esclarecedor em tudo aquilo que diz. Revela-nos a cultura que está por detrás da disposição das cadeiras, na colocação dos candelabros, no ritual de nos sentarmos ou nos levantarmos da mesa. Aponta-nos o conflito civilizacional e a evolução cultural que está por detrás do acto de não cruzarmos cumprimentos de mão, elucida-nos com muita competência sobre o modernismo sistémico das floreiras numa sala de estar, ou sobre o conflito epistemológico das reacções químicas entre pessoas que se querem bem.
Uma noite passada com este meu amigo vale por uma semana inteira a estudar a enciclopédia brasileira de cultura.
Podia estar aqui toda a noite a escrever que não era capaz de expressar convenientemente a sua cultura. Por isso aqui vos deixo este pequeno intróito com a única intenção de prestar, a esse meu amigo, uma singela homenagem que, não sendo culturalmente relevante, é sincera.

publicado por João Madureira às 21:25
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Sábado, 9 de Setembro de 2006

Voos dominantes

2004_0515Chaves0043.JPG

Hoje comecei a voar ligeiramente mais baixo do que o habitual.
Mas, mesmo assim, não desisti do meu voo. Nem de observar ou desejar o teu.
Sempre ambicionei voar devagar como quem dá um beijo sem se preocupar com o que está para além dele.
O voo, ou o beijo, já fazem parte da eterna sucessão do pousar e levantar, porque sempre existirá quem se põe a voar pelo simples prazer de sentir o ar a amansar-lhe as asas, ou por gostar de contemplar as coisas dum modo diferente. Porque uma perspectiva não é a mesma coisa que aquilo que se vê sem essa perspectiva.
Sempre que me decido a voar, o ar à minha volta confunde-se com a vontade e logo ali se forma um vórtice capaz de agitar o mundo. Por vezes não é a força o que desloca os objectos, ou o que fabrica sentimentos, ou o que despoleta paixões, ou desencadeia ilusões. Por vezes são as lágrimas dos teus olhos quem incendeia as nascentes que invadem o renovo.
A meio do dia tentei voar um pouco mais alto do que o habitual.
E voei mais alto do que é habitual em mim àquela hora.
Mais tarde ainda voei um pouco mais alto do que é habitual em mim e ninguém, que eu saiba, notou qualquer diferença.
Bem, a diferença não está no voo, está na altura em que se pratica. O voo em si é simples: impulso, agitação das asas, um pouco de intensidade física, um pouco de leviandade e lá estamos nós no ar sem saber bem porquê. Quem voa não se apercebe da dificuldade que têm em voar aqueles que não sabem. Mas é sempre bom superar as dificuldades ou sonhar em fazer qualquer coisa que saia do banal.
Voar para quem voa é mesmo um pouco trivial. Voar para quem não voa é uma impotência quase íntima.
Há muitas pessoas que implicam sempre com a possibilidade dos voos. Ou porque não sabem, ou porque não querem, ou porque não desejam, ou porque incomodam, ou porque voar é fútil. E voar é mesmo fútil. Caminhar é bem mais estável. E é aquilo que a maioria pratica. Andar é só pôr um pé à frente do outro e depois seguir o movimento e praticar a rotina. Voar é um pouco diferente. Além das asas, é preciso ter coragem. E ter os olhos bem abertos. Porque o acto de voar só se consuma quando se consegue avistar o mundo de distinta feição.
Mais a mais, quem voa não gosta de andar.
Quem voa gosta de voar e de ver por onde voa.
Num voo não há limites.

publicado por João Madureira às 20:34
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Sexta-feira, 8 de Setembro de 2006

Momentos

2004_0918chavestarde0016.JPG

É de momentos que vivemos e também é nos momentos que a existência se constrói.
Nos intervalos lá vamos pulando de acontecimento em acontecimento até ao epílogo, até ao acontecimento final, que é sempre o mesmo.
Isto faz com que a vida seja um absurdo com um princípio feliz e um final desventurado. Pelo meio há muito teatro.
Pode-se dizer que os acontecimentos da nossa vida, seja ela qual seja, são sempre uma encenação teatral. E nós o actor principal que é sempre secundário em relação a um terceiro que é um figurante e mais outro que é outro figurante e por aí fora, tudo isto numa cadeia ininterrupta de papéis principias, secundários, figurantes, aderecistas, encenadores, etc., numa lógica vertiginosa de tudo e nada ser no palco da existência que é uma existência mal ou bem vivida, com altos e baixos, com momentos dramáticos e outro cómicos, com fases alegres e outras tristes.
Se existe alguma coisa que valha a pena, viver é uma delas.
Mas viver é como comer, é vital mas exige trabalho, exige dedicação e a consumação de actos que vistos de fora são ridículos mas subsistem como se fossem absolutamente essenciais à ilusão.
E a vida é ilusão. Sempre ilusão. E atrás de uma ilusão outra lhe sucede e outra e outra.
Pois, por agora, fixemo-nos no teatro que a ilusão antecipa.

publicado por João Madureira às 19:43
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Quinta-feira, 7 de Setembro de 2006

O que tenta

2004_0905chavesaguasetembro10005.JPG

Anda o país deprimido. E isso não é um bom sinal.
Uns sobem ruas. Outros descem ruas. Outros não sobem nem descem ruas ou o que quer que seja, limitando-se a andar nas ruas que não sobem nem descem ou que nem descem nem sobem.
Alguns dormem enquanto uns descem ruas e outros espreguiçam-se enquanto os que dormem se viram para o outro lado esquecendo-se dos que estão acordados mas andam sonâmbulos com a depressão dos que descem e sobem ruas e os que não fazem nem uma coisa nem outra nem sequer se sentam ou se levantam.
Para vos dizer a verdade, à semelhança dos que se baralham, também eu já não sei bem se estou a subir uma rua ou a descer uma viela, ou a galgar umas escadas ou a tropeçar nos seus degraus ou a deslizar na sombra de um carvalho ou a abrigar-me na textura de um sicómoro ou a subir a uma figueira ou a sentar-me num sofá ou a caminhar na via láctea ou a correr no campo ou a fugir de um pesadelo ou a fingir que não finjo ou a escrever o que não escrevo ou a não escrever o que escrevo ou a fingir que não finjo ou a pensar que não penso ou a comer o que não como ou a beber o que não bebo ou a dizer o que não digo ou a ver se adivinho aquilo que adivinho ou vou adivinhar o que não desejo ou vou desejar o que não quero ou vou querer o que não sei ou vou estudar o que não anseio ou vou beber o que me faz mal ou vou maldizer o que te incomoda ou vou incomodar quem não quero ou vou querer quem não posso ou vou possuir quem não desejo ou pretendo desejar quem não está ou acariciar quem já acariciei ou vou ler o que já li ou não li ou ver o que me deprime ou vou deprimir-me com o teu desequilíbrio ou desejar sempre desequilibrar-me com harmonia ou ambicionar ir onde não vou ou escrever o que nunca escreverei porque não sei ou, mesmo sabendo, não me interessa, ou, interessando-me, não me excita, ou, excitando-me, não me convém, ou, convindo-me não me satisfaz ou, satisfazendo-te, me obriga a começar tudo de novo e isso eu não consigo fazer. Por mais que tente. Por mais que tente. Por mais que tente. E eu tento. Tento muito, mas mesmo muito. E tento outra vez. E outra. E outra. E volto a tentar e a tentar de novo. E outra vez mais. E sempre mais outra vez e outra e outra e outra… e outra. E vou tentar de novo.
De novo vou tentar.

publicado por João Madureira às 20:03
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Quarta-feira, 6 de Setembro de 2006

Um pouco mais de Azul...

DSCF0021.JPG

Ando um pouco louco com tanto azul.
Só o azul me consegue dar um pouco de frenesim.
Olho e olho e olho e não me canso. Não me canso nem me chateio.
Já em pequeno era o olhar azul da minha avó que me transmitia ânimo, alegria e me dava protecção.
Os seus olhos azuis de céu enchiam-me de coragem e chegava a pensar que éramos eternos.
A imagem dos seus olhos ainda hoje é eterna para mim. A sua doçura, a sua claridade ancestral, o seu sentido permanente de aconchego e paz.
Sobretudo a paz dos seus olhos ainda me acompanha em muitas ocasiões.
Por exemplo, neste momento tenho-os na minha frente, afáveis e cristalinos.

De azul me abrange o mar quando descanso.
De azul me invade o céu quando o contemplo.
São azuis as flores que aprecio.

Quanto mais azul mais carinho.

Atenção que o ouro do futuro há-de ser azul.
O saber já o é.
Também é azul a beleza mais discreta. Ou os poemas mais intensos. Ou as paisagens mais apelativas, ou os pensamentos mais profundos, ou os quadros mais completos, ou as fotografias mais bonitas, ou os sonhos mais felizes, ou as festas mais enérgicas, ou as memórias mais queridas, ou os sabores mais intensos, ou os olhares mais sedutores, ou os amantes mais caprichosos.
Também é azul a vontade que não desalenta, o amor que não acaba, a amizade que continua, a palavra que é sagrada, o carinho que se dá.
Tornam-se azuis os livros que lemos mais do que uma vez, as terras semeadas com o trabalho árduo dos camponeses, ou as fontes quando os cavalos sedentos se aproximam para matar a sua sede.
É azul a vontade de estar na tua companhia.
É azul a finita eternidade que existe em cada ser humano.

publicado por João Madureira às 18:39
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Terça-feira, 5 de Setembro de 2006

A estimação dos animais

2004_0816quarteiracoimbra0108.JPG

Escrevo-te ainda de C.
Por aqui continuo a gastar os meus parcos rendimentos mas faço-o cada vez mais com redobrado prazer. O prazer de gastar, de nada deixar a ninguém, nem sequer à Misericórdia, nem a nenhuma outra instituição, seja ela de caridade, cultural, cívica, militar ou protectora dos animais e afins.
Por cá a gente atrapalha-se nas ruas. São tantos os que por aqui andam de um lado para o outro que parece que o ar para respirar nos falta.
Este formigueiro em constante movimento por vezes põe-me louco.
Como louco fiquei quando soube que o canguru que deixei à tua guarda desapareceu na noite.
É que eu tinha uma consideração peculiar pelo animal. Além de ser de estimação, era um ser estranho, mas profundo. Eu costumava falar muito com ele. E ele ouvia-me com muita atenção, interesse e bonomia. Interlocutor assim nem mesmo tu o consegues ser.
Digo-te que ando um pouco desconfiado que foste tu quem o deixou fugir. Bem, fugir não, pois o animal não era de fugidas. Estava muito habituado à minha casa. Andava pelo jardim com muito estilo, cantava lindas canções de embalar que ouvia à governanta, assobiava com bastante intensidade e tocava muito bem o tambor.
Por vezes até tratava da horta e tinha um carinho especial pelo talhão dos tomates e das cebolas.
Desconfio que o expulsaste de casa ou o vendeste ao circo. Se tal fizeste juro que to farei pagar em duplicado, pois sou muito bem capaz de te esganar a catatua que te trouxeram do Brasil e depois assá-la e comê-la na companhia do meu cão de caça.
Que te desfizesses do esquilo esquizofrénico ainda vá que não vá, agora expulsares-me o canguru da quinta ou vendê-lo ao circo, isso é uma afronta muito séria à minha pessoa e à nossa profunda amizade. E sabes bem que uma amizade pode resistir a tudo menos aos golpes baixos e aos ciúmes.
Como me dói muito a cabeça, vou-me até ali à farmácia comprar umas aspirinas.
Despeço-me até à próxima, enquanto aguardo que me restituas o canguru, senão vai ser o cabo dos trabalhos para nos tornarmos a dar como irmãos. Que é aquilo que somos na realidade.
Envio-te este postal com um pedido de desculpas, é que no quiosque não havia outro e este é um pouco enigmático, mas nalguma coisa tinha de escrever.


PS – Peço-te encarecidamente que continues a dar de comer e beber aos meus queridos animais. Especialmente ao lagarto albino do Texas.

publicado por João Madureira às 20:41
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Segunda-feira, 4 de Setembro de 2006

O número sagrado

2004_0711ficojulho20040065.JPG

Três foi a conta que Deus fez.
Três são também as fontes do São Caetano, que é um bom santo. Um santo amigo, discreto, solidário, respeitador e padroeiro da minha freguesia. E nestas coisas quem tem uma freguesia tem tudo e quem não a tem não tem nada, ou quase nada, pois é muito difícil alguém ter um santo padroeiro se não pertencer a uma freguesia que tenha um santo padroeiro. E, mesmo nesse caso, é necessário ter sorte com o santo, porque mesmo padroeiro, nem todo o santo é santo e nem todo o padroeiro é de confiança, mesmo sendo o santo santo e a confiança isso mesmo.
O mesmo se deve afirmar para a água do São Caetano, que, mesmo correndo por três bicas, tem a mesma qualidade que se corresse por uma só.
É a água das três bicas uma água abençoada, pois nasce no meio da serra, ali mesmo entre fragas e tojos, entre giestas e urzes, entre fetos e pinheiros, entre o céu e a terra, entre as pedrinhas e as estrelas, entre o cume e a encosta, entre Deus e o Diabo. Por isso mesmo está lá o santo, para afastar o Diabo e encarreirar a água para as três bicas.
São as bicas três que foi a conta que Deus fez para que o Diabo não se atreva a contar doutra maneira e, assim, endrominar os fiéis do São Caetano e fazê-los beber água por vinho, pois tem o vinho, mesmo sendo bom, um leve toque de heresia e um leve sabor a pecado, isto tomando a perspectiva do cristianismo elaborado, porque, se partirmos da mensagem do cristianismo mais primitivo, tem a água benzida por Deus, através de Cristo, seu filho, a qualidade de se poder transformar em vinho, logo ali e de uma assentada. E vinho do bom. Isto desde que Deus esteja bem disposto e o seu filho numa festa de gente boa e livre do pecado original.
Fora isso, São Caetano tudo perdoa e aceita a quem for puro como a água que corre nas três biquinhas do santuário, mesmo que o sedento goste de vinho e abomine o líquido incolor, inodoro e insípido.
E por hoje está o recado dado, que é como quem diz, está a oração feita, ou como quem afirma, está a boa acção efectuada.
E o resto são cantigas, dado que o meu santo padroeiro é ainda um santo alegre e sorridente, isto quando pode, e pode pouco, mas, mesmo assim, quando pode pode e não se importa que toquem lindas modinhas nas procissões e arraias.

publicado por João Madureira às 19:36
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Domingo, 3 de Setembro de 2006

Cometas

2004_0714chaves-noite-julho140029.JPG

Têm um brilhozinho bonito as ruas de todas as noites da nossa cidade.
É esta pátria um benefício para as origens.
Terra na terra.
Doces são as sombras que circulam na nossa cabeça.
Lá ao fundo da rua um gato solitário atravessa a penumbra dos sentidos.
Cansado descanso a alma no corpo.
Depois ficam-nos na memória os desenhos íntimos das janelas descobertas pela luminosidade dos candeeiros.
Passo a noite a sussurrar canções para um gravador portátil, soletro palavras esquisitas e construo frases com sonoridades puras e íntimas.
Também envio versos contemplativos de encontro às paredes das casas.
Tudo tem o seu tempo.
Tudo tem o seu tempo.
Tudo tem o seu modo.

publicado por João Madureira às 20:24
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Sábado, 2 de Setembro de 2006

Onde?

2004_1218torrervededo0013.JPG

Onde está a tua página?
Onde estás tu?
Onde estás tu na página que eu adivinho?
Onde está o adivinho?
Onde está a adivinha?
Onde está o ponto?
Onde está o?
Onde está?
Onde estás tu?
Onde estás?
Onde?
?

publicado por João Madureira às 21:44
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Sexta-feira, 1 de Setembro de 2006

A louca aliança dos gatos almiscarados

2004_1218torrervededo0021.JPG

Lá fora circula o vento com prazer.
Cheira-se algo de alquímico no verde dos teus olhos.
Nos teus olhos transitórios. Na cor definitiva dos teus olhos.
No essencial da focagem, na virtude do movimento da retina, no resvalar constante do globo ocular.
Já vem de longe essa iridescência rebelde, o soletrar ambíguo do falar, o realce metafísico do discurso revelador.
Algo de perceptível se revela no fólio fotográfico. A sombra adquire forma, a forma ganha expressão, a expressão atinge nitidez. A nitidez alcança ainda mais nitidez, e ainda mais e mais ainda. Isto à medida que o líquido revelador faz o seu trabalho alquímico.
Pois é de pura alquimia que falamos quando falamos de desejo. Do desejo puro. Da simplicidade do amar uma réstia de sol que cai sobre as tuas costas acesas com o desejo translúcido pelo olhar das espigas tombadas sobre o lado direito da seara.
Lá ao longe, as papoilas disfarçam-se de manchas ténues de sangue.
Têm as flores que te nascem nos lábios o secreto destino dos beijos derradeiros, algo como se a lua morresse ao nascer do dia, ou a saliva dos teus beijos se filtrasse em licor primitivo.
Quando voa o olhar pela seara, os pássaros ganham ainda mais coragem para debicar os grãos de centeio. Ali ao fundo da imagem, o perfume do teu cabelo almiscarado confunde os dias e as noites do Egipto.
É em África onde os deuses da fertilidade semeiam o desejo e a sua urgência vital.
É forçoso esperar-te no fundo do dia para descansar um pouco das sensações simples do vento que circula lá fora com prazer.
E é nesse prazer que se escondem as explosões silenciosas das ofensas.
Sei que pareço incómodo e incauto. Mas não é por mal.
Nada do que é sincero merece censura.
Mas é de loucos a aliança que tentas impor aos gatos.

publicado por João Madureira às 19:25
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