Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007

Assim a modos que…

 

 

– Não sei me estais a perceber? Eu estava assim a modos que… mas, não sei porquê, às tantas, pumba, o gajo pirou-se e eu ali fiquei assim a olhar para ele e ele a olhar para longe e tal e coisa. Vai daí apareceu o Manuel e também começou a querer qualquer coisa e tal. Mas eu nada de me deixar ir na onda marada. Só sei que depois voltou o gajo e de novo se pirou e eu tornei a ficar ali e de novo a olhar para ele e ele a olhar para longe… e tal. O Manuel, entretanto, assobiava. Eu já estava a ficar chateado. Assim a modos que fodido. Mas mesmo muito. Não sei se me estais a perceber. Era uma cena muito marada. E eu para ali a cismar com o neurónios encalacrados de tanto pensar na coisa. Mas não desisti. Eu, como vós sabeis, não sou dos que desistem e muito menos quando sei aquilo que quero e tenho a certeza daquilo que penso. Não sei porque razão, mas o Manuel em vez de torcer por mim, continuava a assobiar como se não fosse nada com ele. E até era. Quando um amigo está em apuros o outro, se é mesmo amigo, também está. Era este o caso. E o gajo que tanto se pirava como regressava, voltou outra vez e, pumba, deu-se a mesma cena e coisa e tal. Não sei se me estais a perceber? Eu não podia permitir tal actuação. Era muito chato andar para ali à porrada, mas, bem vistas as coisas, que outra coisa podia eu fazer? Vai daí mandei o Manuel à merda e dirigi-me ao outro lado. No outro lado estava o Chico Pernalta, mas também ele fez que não me conhecia e pôs-se a assobiar como quem não quer a coisa… e tal. Vendo que o gajo tornava a ir-se embora, eu tornei o olhar para ele e ele novamente olhou para longe, como se não se tivesse já apercebido do imbróglio em que estava metido. Mas eu, por uma questão de honestidade, não podia proceder de outra forma e zás, tornei a atravessar a rua como quem não quer a coisa. Aquilo até já se estava a tornar monótono. Foi então quando o Manuel me perguntou se lhe podia emprestar algum dinheiro. E eu, porra, como estava um pouco chateado com ele disse-lhe para ir à merda. Mas ele não se chateou e continuou a assobiar e até me contou que na noite passada também esteve metido assim numa cena tal e qual como esta que vos conto. Eu não acreditei, claro! Mas, como vos conto, eu não sou sujeito para desistir. Eu prezo muito a honra e a dignidade. Ora, sendo assim, não podia agir de outro modo e foi aquilo que fiz. Agi como vos relato. Tal e qual. Eu não invento nada. Tudo o que vos conto é a mais pura verdade. Por isso, zás. E estava feito. O Manuel perguntou-me se não estava arrependido daquilo que tinha feito. E eu respondi-lhe que não. Penso que vós, na mesma situação, agiríeis da mesma forma. Ou não? Claro que sim! Eu conheço-vos bem. Não sei se me estais, bem, não sei se me estais, coisa e tal… Não sei se me estais a perceber? Eu estava assim a modos que… mas, não sei porquê, às tantas, pumba, o gajo pirou-se e eu ali fiquei assim a olhar para ele e ele a olhar para longe e tal e coisa. E zás, vai daí eu olho para ele e ele olha para longe e…


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Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007

Ruído de fundo

 

 

Tudo à minha volta é movimento. Movimento desordenado, caótico. E eu sentado. Eles olham-me com relativa indiferença. Olham-me como um subterfúgio cristão, como um mal necessário. Também se não existissem pobres de pedir como é que se praticava a caridade cristã? Por isso sou muito útil na minha inutilidade. Por isso sou proveitoso à religião. Sou útil às pessoas, para assim se redimirem de alguns pecados, para assim aliviarem as suas consciências, para poderem praticar em alguém a sua caridade. E eles são tão caridosos, meu Deus! Oh, com são caridosos!

Eu olho-os nos olhos e eles, em troca, reparam nos meus andrajos e na minha sujidade ambulante.

Eu olho-os com relativa hipocrisia. Eles olham-me como uma peça da engrenagem de Deus, do seu Deus misericordioso, do seu Deus tolerante com os pobres e desvalidos. Se não fosse sinistro, isto até dava uma homilia.

Se há que redimir alguma coisa redimam-se os pobres, os desvalidos, os carenciados, os dissolutos.

São tão patéticos os homens. São tão patéticas as suas inclinações humanas, a sua cultura, a sua bondade forçada em troca de uma outra vida no além, da busca da imortalidade da alma. Mas se eles não têm alma, meu Deus! Eles não têm alma. Nem mesmo se ela existisse a conseguiam encontrar. E muito menos conservá-la. E o coração guardam-no em frascos de vinagre, juntamente com os pimentos.

O conceito de alma como introspecção é-lhes completamente alheio. Eles só acreditam no que vêm, no que lhes permite a sobrevivência diária, nas suas convicções, nas suas ilusões económicas, nas suas desilusões sociais.

Eu também sou para aqui um cão vadio. Um cão que só rosna. Um cão que só sabe pedir dinheiro ao dono.

Tudo à minha volta é confusão, idas e vindas, passagens aleatórias. E eles olham para mim e lançam-me moedas como pedras, nem grandes nem pequenas, moedas médias, não notas. Apenas moedas médias, como pedras médias. Não notas. Notas não. Moedas. Apenas moedas.

Tudo à minha volta é ruído. Eu também sou ruído. Eles também são ruído. Ruído de fundo. Ruído apenas.

Eu sou o seu suspiro interior. A sua pequena incomodidade. Eu sou um insecto teimoso, incomodativo.

Estou sentado no meio da confusão. Da sua confusão. Eu sou ruído no meio da sua confusão. Lá no fundo, os homens são só confusão, nervos, moralidade. Os homens são confusão. Eu sou parte da sua confusão. Sou a sua moralidade. Sou o seu movimento. Sou a sua confusão. E o seu ruído. Sou o seu ruído de fundo.

 


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Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007

Plang, pong, pling, peng, plung…

 

 

Plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling,  ping peng, pang, pong, pang, pong, ping peng, pang, pong, pang, pong, ping peng, pang, pong, pang, pong, plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling,  ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, lang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling,  pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping…


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Domingo, 28 de Janeiro de 2007

Apetites freudianos

 

 

– Mãe, estou toda molhada.

– Sim, espera um pouco que vamos ali comprar um guarda-chuva aos chineses.

– Mãe, estou cheia de frio.

– Pois, mas espera um pouquinho, não vês que estou a dar de mamar ao teu irmão!

– Mãe, estou cheia de fome.

– Eu sei que estás mas tens que ter paciência e esperar um pouco até te poder comprar qualquer coisa para comeres.

– Mãe, apetecia-me leite quente.

– O quê?

– Apetecia-me leite quente.

– Espera um pouco. Não vês que estou a dar de mamar ao teu irmão! Quando chegarmos ao café logo te dou qualquer coisa.

– Que coisa, mãe?

– Qualquer coisa. Uma sandes de fiambre ou de queijo e um sumol para beberes, por exemplo.

– Mas mãe apetecia-me muito beber leite quente. É que estou cheia de fome e ainda é longe até ao café.

– Tem paciência. Espera um pouco. Deixa-me acabar de dar de mamar ao teu irmão.

– Mãe, estou cheia de fome e de frio e estou toda molhada. E apetecia-me muito beber leite quente.

– Será que também queres mamar? Não tens vergonha! Uma menina da tua idade a querer mamar na teta da mãe.

– Mas mãe o Rui também já é crescidinho e mesmo assim tu ainda lha dás.

– Não me digas que estás com ciúmes do teu irmão.

– Não sei. Eu ainda sou pequenina e tenho muita vontade de beber leite quente. Dá-me a teta, mãe. Sinto tantas saudades de mamar.

– Se não te calas, o que te dou é um bom par de bofetadas.

 


publicado por João Madureira às 22:00
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Mas que grande erudição

 

 

Isto é tudo uma questão de ter ou não ter barba. Ou de a ter meia crescida ou desfeita. Ou feita. Ou de estar bem escanhoada.

Ou não. No fundo é tudo uma grande ilusão. Refiro-me, sobretudo, ao ter ou não ter barba. Ou ao ser ou não ser barbudo, ou cabeludo, ou narigudo.

É especialmente uma questão de estilo, de aparência, de ilusão. Ou desilusão. Ou frustração.

Agora calha-nos tudo.

É a sorte. Como em tudo na vida, é preciso ter sorte. A sorte dos afortunados. Ou a desgraça dos simples. Pois são uma e a mesma coisa. Salvo seja, a diferença cromática dos discursos sociológicos.

Aparentando uma quietude ilusória, actualmente o mundo treme tanto que não sabemos bem quais são os nossos princípios. Nem quem os possui sabe muito bem aquilo que tem. Nem atina muito bem naquilo que defende, se é que defende alguma coisa.

Ora, ora, ora, a retórica é muito bonita mas nada acrescenta à vida, só a ilude. A luz é apenas um acrescento afrodisíaco. Mas é um consolo.

A essência não reside nas palavras, mas nos sentimentos. É por isso que nos aproximamos mais uns dos outros quando pensamos que nos estamos a afastar.

É nas ausências quando mais sentimos a falta de quem é amigo.

 


publicado por João Madureira às 01:45
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Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007

Reflexões de um cão ou do seu dono

 

 

Sim, hoje vou passeá-lo. É que está já um pouco obeso. Por isso tenho de o levar a dar uma volta. Mas não posso puxar muito por ele, pois já tem alguma idade e pode sentir-se mal. Tem que fazer algum exercício, mas com regra. Também sofre de asma e o seu coração já revela alguns problemas. É gordura a mais e exercício a menos. Tenho de vos confessar que ele gosta pouco de sair, prefere ver televisão ou ficar deitado no sofá a dormir. Só o faz porque eu o forço a isso. Ou melhor, porque me ponho inquieto. E quando estou inquieto ele também fica. E depois põe-se a andar de um lado para o outro como se tivesse muita vontade de urinar. Ele já não urina como urinava. Agora custa-lhe mais. Também já respira com alguma dificuldade. E tem gases. A velhice é complicada. Mas, no fundo, nós toleramo-nos, compreendemo-nos e conseguimos viver juntos sem grandes dramas. Conhecemos os defeitos e as qualidades de cada um. Sobretudo fazemos companhia um ao outro. Ele sente-se muito sozinho. E eu também. Somos uns solitários. Ele ressona e agita-se muito durante o sono. Ele não sonha, sofre. É tudo muito complicado. Temos uma vida simples mas uma memória sofrida. Por vezes os vizinhos queixam-se dos uivos durante a noite, ou dos roncos, ou dos gritos, ou dos gemidos. Nós também temos queixas dos nossos vizinhos mas preferimos ficar calados. Tudo nos envolve. Ou, dito de outro modo, deixamo-nos envolver por tudo. Somos muito senhores do nosso nariz, mas custa-nos muito adormecer nas noites de Verão. E também nos custa dormir nos noites frias de Inverno. É tudo uma aflição. Ou nos incomoda o calor, ou nos apoquenta o frio. Os nossos desejos são muito inconstantes. Se está frio suspiramos pelo calor. Se está calor pensamos com agrado no frio de Inverno. Se está sol desejamos a chuva. E se está a chover clamamos por dias secos e solarengos. Se estamos em casa queremos sair. Se andamos a passear desejamos regressar rapidamente à preguiça do sofá. Ainda agora mesmo saímos de casa para o passeio da tarde e já estamos a pensar em regressar. Pesam-nos muito os membros. E o rabo. E a barriga. Pesa-nos também muito a letargia.

 


publicado por João Madureira às 19:17
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Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007

A borbulha desintegradora de Virgínia Woolf

 

 

Quando passava a mão pelo teu rosto espelhado ele desintegrou-se de imediato. E não eras um sonho. Nem sequer eras uma miragem. Eras uma possibilidade.

Não sei bem o que eras, só sei que quando deslizava a mão pelo teu rosto espelhado te desintegraste como se tivesses vontade disso.

Os teus olhos estavam carregados de desilusão. E espelhados, tal e qual o teu rosto.

Sei que eras tu pelos suspiros que desenhavas com os lábios. Depois desintegraste-te. E não eras um sonho. Nem sequer uma memória. Eras tu reflectida nos teus próprios olhos. Espreitando-te num espelho revelador, como se necessitasses de uma derradeira imagem antes de desapareceres.

E choraste. Sei que choraste porque o adivinhei na tua ausência. A tua ausência era pranto. E mágoa. E desespero. Um desespero lacrimejante, como uma chuva contínua e oblíqua.

Os teus olhos reflexivos também eram oblíquos. Como oblíqua era a tua vontade. A tua desesperada vontade de desintegração.

Os teus olhos eram casas. Casas aristocráticas inundadas de vento, repletas de ar oprimido, de partículas alegóricas.

Tu eras uma presença oblíqua à janela quando a chuva caía ainda obliquamente no rio.

O rio era o teu olhar apaixonado. O rio era a tua existência. O rio era a tua morte. E as ondas. E os juncos. E as pedras. As pedras nos teus bolsos. E a loucura oblíqua da chuva. E a demência inclinada das ondas. E o desvario ambíguo dos salgueiros.

A tua loucura era líquida.

O fumo triste do teu cigarro sem filtro também era líquido.

E a tua inquietação também era líquida.

Entraste dentro da tua borbulha desintegradora e foste nas ondas até ao mar. Só depois desististe de escrever. Por fim.

 


publicado por João Madureira às 19:54
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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007

O Wally já não sabe onde está

 

 

Eu sou o Wally e estou cada vez mais velho e míope. Antigamente escondia-me no meio da multidão à espera que me encontrassem. Sabia sempre onde estava. Tinha grande sentido de orientação e sabia escolher os melhores sítios para me misturar com a gente e assim passar despercebido. Posso dizer que gostava da minha profissão. Sempre gostei, aliás. Sempre gostei de me misturar com as pessoas, de passear incógnito no meio da multidão, apreciando o andar das mulheres, os sorrisos das crianças ou os gestos magnânimes dos homens. Também via passar os comboios na companhia do meu amigo George Simenon. Sempre tive um pequeno fascínio por comboios. Especialmente pelos antigos, ainda movidos a vapor. Viajava muito de um lado para o outro. E sempre de comboio.

No desempenho da minha profissão escolhia sempre lugares com muitas pessoas, tais como praças públicas, mercados, feiras, parques temáticos, jardins zoológicos, festas, praias e estâncias balneares. Depois elegia um sítio muito discreto, a meu gosto, e ali me deixava ficar até os desenhadores concluírem o seu diligente trabalho de esboçar tudo aquilo com muito pormenor. Para me identificarem faziam-me vestir uma camisa às riscas brancas e vermelhas, colocavam-me na cabeça um gorro do mesmo género e colocavam-me uns ridículos óculos redondos pretos sem lentes. Eu por ali ficava algumas horas à espera da conclusão dos trabalhos dos artistas. Naqueles longos espaços de tempo em que permanecia quieto lia muito, sobretudo romances russos. Sou um amante da literatura russa. Aprecio a loucura dos seus amores impossíveis e as dúvidas existenciais dos seus heróis. E amo profundamente as páginas que descrevem as estepes russas, a imensidão dos bosques de bétulas e a neve perpétua.

Acabo de me reformar. E fi-lo enquanto era tempo. Reformei-me porque me cansei de que andassem sempre a procurar-me. Agora sou eu quem procuro as pessoas. O que é estranho é que antigamente sabia sempre onde estava. Agora nunca me descubro. Nunca sei bem onde estou. Actualmente sou eu quem me procuro porque nunca sei onde me encontro.

 


publicado por João Madureira às 21:01
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Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007

Nostalgia do feno

 

 

Escrevo-te de C. para dizer que ando muito nostálgico. Ando cada vez mais nostálgico. Não sei se é do tempo, se é da comida, se é de ter cada vez mais saudades da minha terra ou, sobretudo, da minha infância.

Sim, lembro-me. Sim, ainda me lembro que foi num palheiro cheio de feno até quase ao tecto que tive a minha primeira experiência sexual. Foi com uma rapariguinha muito nova, quase tão nova como eu. Dela mal me recordo. Tudo são sombras e inexactidões. O que ainda sinto é o forte cheiro do feno seco. A sua agressividade. A sua insipidez vegetal. Posso até dizer-te que essa minha recordação é a preto e branco, tal como uma fotografia feita de luz e sombra, onde a luz rasga os corpos e a sombra lhes atribui a forma ligeiramente rectilínea. Senti então que a minha vergonha andava aos gritos. Que aquilo era uma um acto pecaminoso. Ainda hoje sinto o mesmo. Ainda hoje sofro a incomodidade daquele acto estranho, daquele fogo proibido, daquele acto animalesco.

Bem, em nós quase tudo é animalesco. Sobretudo o sexo. O sexo tem algo de arrasador. Qualquer coisa que nos transforma em pecadores obsessivos. Qualquer coisa que nos aproxima da barbárie, do primário. Da pulsão animal.

Apetecia-me dizer que foi bonito. Mas não foi. Não há beleza nenhuma em praticar algo que se estranha, quer na forma, quer no sentimento.

Lembro-me também de ter ficado enjoado e triste. Sobretudo, desiludido.

Podia escrever que o sexo me faz feliz, mas não é essa a verdade. O sexo só me angustia.

Sim. Talvez sinta o acto sexual como uma angústia feliz.

Também podia escrever que a vida sem sexo não é vida, o que até é verdade. Mas não o vou fazer.

Não sei se já te deste conta que uma pessoa pode escrever aquilo que diz não querer escrever, mas escrevê-lo na mesma, ficando assim a ideia ao contrário. Ou melhor, ficando assim escrita a ideia contrária à própria ideia inicial.

Para resumir, posso confessar-te que o sexo para mim tem o mesmo sentido que a ideia imediatamente anterior. A mesma simplicidade de construção e a mesma complexidade de compreensão.

E, suficientemente baralhado, por aqui me fico.

Um forte abraço.

 

PS – Por favor, não te esqueças de administrar a injecção anticonceptiva à cadela e de esfregar o pelo à égua.

 


publicado por João Madureira às 19:16
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Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007

Ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung…

 

 

Ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang…

 


publicado por João Madureira às 18:26
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Domingo, 21 de Janeiro de 2007

Parábola do regaço da Isabel

 

 

– O que trazes no regaço, Isabel?

– São pimentos, João.

 

– O que trazes no regaço, Isabel?

– São tomates, João.

 

– O que trazes no regaço, Isabel?

– São cebolas, João.

 

– O que trazes no regaço, Isabel?

– São batatas, João.

 

– O que trazes no regaço, Isabel?

– São cenouras, João.

 

– O que trazes no regaço, Isabel?

– São feijões, João.

 

– O que trazes no regaço, Isabel?

– São ervilhas, João.

– Então mostra lá.

– Porquê, João?

– Porque sim.

 

Entretanto o chão enche-se de lindas pétalas azuis caídas do avental da Isabel. A Isabel começa a chorar. O João monta no seu cavalo alado e desaparece no nevoeiro.

 


publicado por João Madureira às 19:01
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Sábado, 20 de Janeiro de 2007

A força

 

 

Um olhar tem muita força: a força da verdade.

E a verdade tem muita força.

Por seu lado a força tem muita potência.

A força tem muito a ver connosco. Tem muito a ver com a vida. Tem muito a ver com tudo.

Sem força não era possível pensar, por exemplo. Ou andar. Ou amar. Ou rir. Sem força nada era possível.

A força, mesmo usada em pequenas doses, pode mudar o mundo dos outros. E até o nosso.

A força exercida no momento certo pode fazer com que uma vida se crie ou se destrua. Por isso o grande problema não está na força, propriamente dita, mas sim na sua aplicação.

Utilizar a força com talento não é tarefa fácil. Depende da energia que se coloca na intenção.

A intenção é já, em si mesma, uma força. Uma força bestial.

Quando usamos a força com agilidade podemos conseguir milagres.

Claro que o critério pode fazer com que a força se expanda ou se retraia.

Há vários tipos de força, umas delas é a centrípeta e a outra é a centrífuga.

Mas também existem forças ascendentes e descendentes, forças vivas e forças estranhas, forças relativas e absolutas, forças convergentes e divergentes.

Até existem forças ocultas.

Estas são mais de carácter esotérico, o que, em si mesmo, nada quer significar a não ser que são estranhas e pouco dadas à racionalidade.

Fora isso, até são um género de forças que fazem com que nos elevemos ao patamar da subtileza. E olhem que a subtileza só se consegue adquirir utilizando a força como se ela não existisse.

A subtileza é uma força ao contrário. Uma força que se combate a si própria. Mas que batalha quase sem darmos por isso. É a modos que uma força imperceptível que se desloca sem nos apercebermos.

Ou melhor, a subtileza não se desloca, desliza utilizando uma força que, em, si própria, se exerce de dentro para fora e de fora para dentro. Isto tudo ao mesmo tempo. É a força quântica.

Existe ainda a força dos desejos que, a acreditarmos nos livros da especialidade, é a que os homens mais procuram para serem felizes.

Só que, ao contrário da força do desejo, a força da felicidade não existe. Só existe a força de querer ser feliz.

 


publicado por João Madureira às 19:19
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Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007

O préstito dos homens

 

 

Lá vai a procissão. Lá vão os homens atrás de Deus. E Deus cada vez lhes foge mais. Mas eles, os homens, não desistem. São teimosos, os homens. Mas Deus sempre foge um pouco mais quando eles pensam que se estão a aproximar. Por isso lá vão eles, em procissão, a segui-lo. Sempre em procissão. Milhões de homens atrás de Deus. Sempre atrás dele. Sempre em procissão. Devotos, os homens, continuam. E insistem na procura. Por isso vão em procissão. Uns atrás dos outros. E todos atrás de Deus. E Deus a fugir-lhes. Sempre à sua frente. Sempre a fugir-lhes. E eles sempre em procissão. Uns atrás dos outros. E todos atrás de Deus. E Deus que lhes foge. E a procissão lá continua contínua no seu lento caminhar, na sua crença, na sua fé de avançar atrás de Deus. Todos atrás de Deus. Os homens atrás de Deus, em procissão. Sempre atrás de Deus, sempre em procissão. E Deus a fugir-lhes. Sempre um pouco mais além. Sempre mais além. E os homens incessantemente atrás dele, em procissão, no seu lento caminhar, sempre a rezar e a caminhar, a rezar lentamente e a caminhar. Sempre em procissão, atrás dele. E ele sempre a fugir-lhes. Sempre um pouco mais à frente. Sempre além. Sempre mais além.


publicado por João Madureira às 21:11
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Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2007

O inevitável voo das narcejas

Tudo ao monte e fé na beleza.

E eu queria ter fé, nem que fosse na incerteza.

Existe subtileza no voar das narcejas.

 

Tudo ao monte, pois eu sou a tua fonte.

No monte dos vendavais fugiram os pardais.

Ao longe, as narcejas continuam a voar sem parar.

 

De encontro à morte vai o mais forte.

E essa é a sua única sorte, a morte.

Voando ao desbarato, as narcejas desmultiplicam-se em penas.

 

Se existe algo que sobreviva, esse algo é o monte.

E depois do monte, a fonte.

E as narcejas sobem e descem rasgando o ar.

 

Saltando de fraga em fraga, um lobo velho caça.

As urzes dilatam as suas cores e os seus odores.

Entretanto as narcejas chilreiam de entusiasmo.

 

Deitado numa cova da encosta, eu, o lobo, bocejo.

Uma cobra ondula pelo meio das carquejas.

E uma narceja, louca de entusiasmo, pousa ao pé de mim.

 

Um coelho sai da toca e a Alice segue-lhe os passos.

Pudesse eu comer personagens de histórias e acabava mesmo ali o País das Maravilhas.

Outra narceja, presumivelmente enamorada, repenica o canto.

 

Eu uivo forte, como lobo mau que sou.

Mas o monte não dá acordo, só ressona poeira.

Um par de narcejas levanta voo e desaparece no azul.

 

Dizem-me que a Alice já não mora aqui, que se divorciou.

Os tempos estão a mudar, e eu com eles.

A narceja que enlouqueceu de entusiasmo caiu a meus pés.

 

O eco do tiro que a matou ainda ressoa pelo sopé do monte: pum… um… um… um…

 


publicado por João Madureira às 19:49
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Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2007

O portão que importa

 

Tu és o meu portão da glória.

Eu sou apenas uma porta em branco.

Tu és o meu portão voluptuoso.

Eu sou apenas uma porta lisa e metafísica.

 

Cada vez sou mais aquela porta encolhida que já ninguém se entusiasma em abrir ou franquear.

Para aqui estou em silêncio prolongado observando a luz do poente.

 

Cada vez sou mais a porta que não importa.

 

Cada vez me fecho mais por dentro enquanto as dobradiças gemem no esforço da minha sustentação.

 


publicado por João Madureira às 20:19
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Terça-feira, 16 de Janeiro de 2007

A meditação do castanheiro excêntrico

 

 

Cai-me o céu nos braços. Nestes braços que se abrem à luz magnífica do sol, ao voo dos pássaros irresolutos, ao azul transparente do delírio.

Quanto mais vivo mais me apetece viver. Por isso multiplico os ramos. Por isso engrosso as raízes. Por isso rebento em cada Primavera na confusão verde dos gomos adventícios. E sou folhas. E sou verde e sou sombra e paz e símbolo. E falo com os gnomos. E com os bichos do monte. E com as abelhas esotéricas. E com os grilos cantantes. E com as bruxas que voam em vassouras de giestas. E com as fadas ninfomaníacas. E com os touros. E com os burros. E com os porcos. E com os cães.

Só não gosto dos homens, da sua cobiça, do seu sentido de missão, da sua religiosidade sacrificial. Da sua domesticidade imbecil.

Os homens comem-me os frutos mas primeiro tudo faço para que se piquem nos ouriços.

Gosto mais de alimentar os porcos, pelo menos esses não falam em dinheiro. Só roncam porque têm fome.

Os porcos têm sempre fome, nisso assemelham-se aos humanos.

Os humanos estão sempre a comer e a falar. A dizer mal uns dos outros, sempre a invejarem-se, sempre a competirem por coisas sem valor nenhum, como o dinheiro, ou o ouro. É curioso que eles adoram o ouro e buscam-no por toda a parte mas não conseguem comê-lo. Só o transportam ao peito ou ostentam-no nos dedos. Alguns fazem mesmo dentes com ele, mas não o comem, só o exibem. Outros escondem-no em cofres e só olham para ele à noite, com medo que lho roubem.

Mas o que eu mais gosto é de ver nascer o sol todos os dias. Todos os dias. Todos os dias.

Gosto de ver nascer o sol todos os dias. De ver nascer o sol. O sol.

Todos os dias o sol.Todos os dias.

Todos os dias do mundo, o sol a cair-me nos braços

 


publicado por João Madureira às 18:44
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Segunda-feira, 15 de Janeiro de 2007

Plang, plong, pling, pleng…

 

Plang, plang, plang, plang, plang, plang, plang, plang, plang, plang, plang, plang, plang, pleng, pleng, pleng, pleng, pleng, pleng, pleng, pleng, pleng, pleng, pleng, pleng, pleng, ping, peng, pang, pong, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang, plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling pleng, plang, plong, plang, plong, pling, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling , peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping…


publicado por João Madureira às 19:50
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Domingo, 14 de Janeiro de 2007

A árvore inquieta

 

Sinto-me como um leão enjaulado. Dou voltas e voltas e não me consigo lembrar da última vez que saí contigo. Agora só leio e escrevo. E dou voltas. De vez em quando espreito lá para fora mas só vejo uma pequena árvore que nunca sai do sítio, tal como eu. Sinto-me como uma árvore que está lá fora à espera de entrar no quarto e escrever. Cada vez procuro mais ser como uma árvore que espera apanhar sol e escrever com as suas raízes poemas essenciais. Não consigo ter paz, só inquietação. Uma inquietação que mata. A vida é inquietação. E por mais voltas que dê, a conclusão é sempre a mesma. Por isso escrevo em busca da resposta para o sentido da vida. Mas a vida tem essa disposição inquietante para se transformar num labirinto concêntrico onde nos perdemos de cada vez que tentamos encontrar-nos. E em cada encontro nos separamos para mais tarde nos encontramos e depois nos tornarmos a perder e de seguida nos tornarmos a encontrar. Sempre em círculos concêntricos, sempre às voltas, sempre em busca de respostas, sempre à procura de um sentido para a vida.


publicado por João Madureira às 19:02
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Sábado, 13 de Janeiro de 2007

A exuberância do olhar

 

Curiosamente o meu melhor amigo de infância foi uma menina. Uma menina que gostava muito de olhar o céu deitada na relva junto ao rio. Gostava também de ouvir cantar os grilos nos lameiros, de correr atrás da sua sombra, de sorrir quando olhava para mim. E sorria com tanta calma e beleza que ainda hoje a sua recordação me acalma o espírito e me enche de doçura.

É, afinal, a única doçura que tolero.

Foi ela quem desencadeou a minha paixão pela banda desenhada. Tinha eu dez anos quando me emprestou um álbum do Astérix em encadernação cartonada e encapado com papel vegetal grosso e ligeiramente gorduroso.

Era esta menina filha de um casal amigo lá de casa. Tinha quatro irmãos e vivia na companhia feliz de uma avó amorosa e de um cão. Cheirava sempre a flores silvestres e tinha uns olhos doces como o mel. Possuía uma voz tão bem timbrada como uma viola acústica de doze cordas. Cantava muito bem e enchia o seu cão de festas. Carícias que seriam melhor aplicadas no seu amigo ciumento. Mas ela nunca misturava sentimentos. Nem regras. E, sobretudo, não era dada a bajulices.

Respirava sempre de uma maneira delicada. Andava de uma maneira delicada. Comia de uma maneira delicada. Falava de uma maneira delicada. E chorava de uma maneira delicada.

Gostava muito de desenhar linhas ténues na superfície lisa do rio enquanto olhava para mim e sorria como se não existisse maldade. Por vezes cantava em surdina canções que ela própria inventava.

Acho que nunca brinquei com ela. Só a seguia.

Por vezes dava-me a mão e corria como um suspiro a esconder-se no ar. E é aí onde hoje mora.

 


publicado por João Madureira às 18:55
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Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007

O esplendor da inutilidade

 

Sou um homem feliz. Sou um homem feliz e realizado. Estou extraordinariamente satisfeito com esta sociedade da globalização. Estou desempregado. Sou pobre e, por isso mesmo, famoso. E admirado. As pessoas de hoje encontram imensa piada aos necessitados. Consideram-nos cidadãos exemplares, pessoas íntegras, desprendidas e honestas. Celebram a nossa inteira disponibilidade para sorrir. Congratulam-se com o nosso talento para dormir ao relento. Rejubilam com a nossa incapacidade premeditada em cumprir horários. Somos pobres – os pobres –, mas honrados. E livres. Nós, os pobres, somos livres. E, em si mesma, a liberdade é uma riqueza incomparável. O mesmo se pode dizer da pobreza de espírito. Abençoados os pobres de espírito pois é deles o reino dos céus.

Só um desempregado é inteiramente livre. Não tem que trabalhar, nem sequer fazer que trabalha. Não tem que ser útil. Não tem que ser escravo da obrigação, nem mesmo servo desta sociedade mediatizada, autofágica, aerofágica e formal.

Existe actualmente um sentido libertador nos militantes da inutilidade.

Os úteis são muito úteis para a inutilidade, mas completamente inúteis para a utilidade. E o contrário, estamos em crer, também é verdadeiro.

Os úteis olham para nós com muita inveja. E os intelectuais têm por nós uma admiração sincera. E os políticos também – honra lhes seja feita. No fundo, penso que se identificam espiritualmente connosco, que partilham dos mesmos sólidos valores. Tal como nós, eles sentem-se verdadeiramente úteis na sua inutilidade funcional. São, tal como nós, uns refinados idealistas, cidadãos que apreciam a beleza da paz de espírito, do desprendimento, da introspecção, da subjectividade de princípios. E fins. Porque, bem vistas as coisas, um princípio já e um fim em si mesmo.

E o mundo é um lugar tão belo! E a vida é um valor tão absolutamente absoluto!

Agora sou livre porque não tenho que ser escravo das convenções sociais. Só cumprimento quem quero, só falo com quem me apetece, só me relaciono com quem escolho. Sou um cidadão liberto da hipocrisia. Não vivo dependente da etiqueta social, das relações obrigatórias, das mistificações religiosas, ou, até, ideológicas.

Presentemente já só me preocupo com realidades essenciais, tais como dormir num banco com vista para um canteiro de amores-perfeitos, acordar num lugar virado a nascente para desfrutar do nascer do dia, ou ser retratado por um fotógrafo amador. Em todos os sentidos.

 


publicado por João Madureira às 21:18
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Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007

O solilóquio libidinoso da digressionista ocasional

 

 

Vou filmar este bicho espantoso enclausurado dentro do contentor da camioneta. 

Depois da vitória, o encarceramento. Ó desconsolada ironia!

Já filmei o animal a turrar com o seu competidor. Já o filmei a resfolegar. Até já o cinematografei a espumar de irritação.

É um magnífico animal, sem dúvida. Uma autêntica força da natureza. Um cântico à virilidade. E que genitais, meu deus! Que genitais! Que quadris! Que força!

Quando mostrar isto à Mimi de certeza que vai alterar-se copiosamente e sorrir. Ela adora animais potentes. Ela é doida por genitais. Tudo o que sugere virilidade a aproxima da parede. E ela adora ser encostada à parede. Ou estendida no chão. Ou assentada metodicamente numa mesa.

Este toiro bravo faz-me evocar o Manuel. Era ele um autêntico beligerante. Era montês a esgrimir gládios. Era arrojado e destemido. Saracoteava com muito talento a silvestre agitação dos guerreiros.

Agora vou confeccionar um grande plano do frontispício do viril bovino para cinematografar os seus olhos. Olhos serenos. Olhos diligentes.

E que genitais, meu deus! Vou também filmar os chifres. Armadura alta. Arnês apontando o céu. E que genitais, meu deus!

Também tem o dorso bem desenhado, pernas enérgicas e locomoção segura.

E que genitais, meu deus! Que potência! São testículos telúricos. Uma ejaculação deste bichano deve ser como uma trovoada de Verão.

Tem os músculos bem tonificados. E que genitais, meu deus! Nunca pensei que existisse realidade tão magnificente.

A penetração dum bicho destes deve deixar a fêmea em estado de deslumbramento.

Quando se desloca parece dócil. Mas quando investe contra o adversário até o piso tirita. Provoca cútis de galinha e tremores na espinha aos indivíduos alterosos. E que genitais, meu deus! Que genitais!

Genitais destes são um excelso cântico à multiplicação indómita.

E o Manelinho!?

Bem, o Manelinho quando observar estas expressivas imagens vai dar saltinhos de contentamento. Vai emitir gritinhos de luxúria. Vai irradiar vagidos sincréticos e apologéticos.

Mas que genitais, deus meu! Que opulência reprodutora! Que idiossincrasia indomável!

Que estratégia construtiva!

Que genialidade!

Que genitais, meu deus!

Que genes e tais!

Bem alentados os genes.

Bem ocorridos os garanhões informais.

Bem aventurados esses.

 


publicado por João Madureira às 23:46
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Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2007

A cor dos gatos à noite

 

À noite todos os gatos são pardos. Ou será que são parvos?

Pelo contrário, as gatas à noite ganham cor e denguice.

Eles bebem e fumam. E olham.

Elas passeiam, riem-se e vão à casa de banho.

Os gatos tornam a olhar para as gatas e falam de futebol com muito entusiasmo. Mas mesmo muito entusiasmo.

Elas lambem o pêlo e miam baixinho.

Eles falam da arbitragem e da caça aos tordos.

Elas juram que não querem mais artigos de feira e fazem projectos para irem aos saldos à Beneton.

Eles, os gatos, riem-se muito com as anedotas que contam sobre os casos mediáticos que envolvem figuras públicas. E bebem. E fumam. E olham. Quando olham.

As gatas, elas, cruzam e descruzam as pernas com muito entusiasmo, riem-se novamente e vão de novo em grupo à casa de banho.

 


publicado por João Madureira às 18:36
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Terça-feira, 9 de Janeiro de 2007

A sentida ausência do Anjo da Noite

 

Por onde andavas tu quando eu deambulava pelas margens do silêncio?

Por onde andavas tu quando eu sonhava em ser herói de banda desenhada?

Por onde andavas tu quando eu queria brincar aos polícias e ladrões?

Por onde andavas tu quando te pedi ajuda para atravessar a ponte dos segredos da puberdade?

Por onde andavas tu quando eu tentava compreender a elegia dos amanhãs que cantam (ou dançam? É que já não me encontro no meio das minha memórias)?

Por onde andavas tu quando eu aprendia a amar com ódio e a odiar com amor?

Por onde andavas tu quando o Francisco se afogou no rio mesmo junto à ponte romana?

Por onde andavas tu quando o meu passarinho morreu sem eu lhe poder valer?

Por onde andavas tu quando o meu pai morreu?

Por onde andavas tu quando me roubaram o dinheiro na colónia de férias?

Por onde andavas tu quando me roubaram a inocência?

Por onde andavas tu quando as luzes iluminavam apenas as ruas e não os espíritos dos néscios?

Por onde andavas tu quando os meus primos mataram um cão doente com uma machada?

Por onde andavas tu quando nos deixaste lapidar vários pássaros nus em cima de um muro?

Por onde andavas tu quando fumei o meu primeiro cigarro?

Por onde andavas tu quando descobri que, afinal, sou tão mortal como os outros seres vivos?

Por onde andavas tu quando o Fernando Pessoa fumou ópio estragado e por isso escreveu as quadras ao jeito popular?

Por onde andavas quando eras necessário?

Agora já não preciso de ti. Por isso renuncio à tua ajuda. Agora apenas necessito de que te vás embora e me deixes em paz com as minhas desilusões.

Agora já não és um amigo. És, apenas, um desenho num rectângulo encaixilhado.

 


publicado por João Madureira às 19:17
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Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2007

Plang, pling, plong, plung, pleng…

 

Plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, plang, plong, plang, plong, plang, plong, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung,  pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling pleng, plang, plong, plang, plong, pling, plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, plang…


publicado por João Madureira às 18:47
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Domingo, 7 de Janeiro de 2007

A verdade redentora das pontes

 

Se há coisa que aprecio é a sensatez. A sensatez dos delírios. A alteração objectiva das impressões rotineiras, pois é nesse interstício onde muitas vezes encontro o meu pendor natural para a abstracção.

Fora isso, deslumbro-me sempre com a tentação solitária das pontes, com a minúcia dos seus arcos introspectivos, com a lúcida paciência das suas pedras, com o tabuleiro admiravelmente plano da sua vontade.

Admiro também os caminhos, todos os caminhos que ando até lá chegar.

As curvas mais ou menos acentuadas, as rectas determinadas, as ladeiras sensíveis, o objectivo exclusivo em ir e vir, a poesia sadia da superstição de caminhante.

E por aí vamos sempre vacilantes na nossa determinação objectiva. Porque é objectiva a própria intenção de chegar e partir sem sair do lugar.

Quando há vontade anda sempre muito próxima a sensatez. E se há coisa que a sensatez aprecie é uma ponte.

Porque as pontes – sobretudo elas – contêm o pragmático princípio que faculta a passagem das pessoas de uma margem para a outra de um rio sem se molharem.

É essa a sua verdade redentora.

 


publicado por João Madureira às 18:39
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Sábado, 6 de Janeiro de 2007

Bolinhos de amor

 

Os adeptos das feiras são muito dados a festejar. São muito folgazões. Dizem-se muito solidários. E muito amigos dos seus amigos. Respeitam a cultura local. E a global. Mas têm a intrépida vontade de construir um mundo novo. Só não sei se tal teimosia é um bom ou mau presságio. Mas se é teimosia reflecte determinação. E, sendo assim, sugere vontade.

Gostam muito de ver, experimentar, deduzir, polemizar, discutir e catequizar.

São superiores a dar conselhos, a orientar-nos no melhor negócio, a pôr intenção em tudo o que é humano. E, como todos sabemos, tudo o que é humano é relativo. Como relativa é a minha disposição para usar gravata.

Mas se quase todos os gostos são relativos, com muito bem verbaliza o nosso povo, a minha paixão pelos bolinhos de amor é absoluta. Sobretudo se forem de feira.

Os bolinhos de amor têm a particularidade de serem caseiros. Bem, nas feiras tudo é caseiro, muito caseirinho, muito tradicional, muito conforme a nossa cultura ancestral. E a nossa cultura ancestral é, indesmentivelmente, muito caseirinha, muito arranjadinha, muito singela.

A verdade é que nós gostamos muito daquilo que é nosso. Somos muito educadinhos e espertinhos. E gostamos muito de feiras.

Quando vou a uma feira sinto-me em casa. Ou melhor, no largo da minha aldeia. Reconheço as pessoas, os trajes, mais ou menos tradicionais, o linguajar, os olhares, os odores e os sabores. E, sobretudo, os bolinhos de amor que compro numa barraca muito asseada e de confiança.

Quem me conhece sabe bem da minha fixação pela doçaria. Sou especialmente doido pela doçaria campestre. A conventual provoca-me perturbações existenciais.

 


publicado por João Madureira às 18:56
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Sexta-feira, 5 de Janeiro de 2007

Agora vou com os da feira e venho com os do mercado

 

Quando era rapaz novo – se é que alguma vez o fui, pois cada vez duvido mais de tal premissa – disseram-me que havia feiras e que estas eram muito necessárias para as pessoas se abastecerem de animais e outros produtos indispensáveis ao nosso dia a dia.

Mais tarde falaram-me do mercado.

Um pouco depois explicaram-me as regras porque se regia o referido mercado.

Quase ao mesmo tempo introduziram-me na lei da oferta e da procura, na especulação capitalista, na exploração da mão-de-obra barata e outros conceitos rigorosamente marxistas e até, convenhamos, um pouco leninistas.

Tenho que confessar que já nessa altura era um exíguo dissidente em potência, pois inclinava-me mais para o marxismo de Grouxo, vá-se lá saber porquê!

Como era cachopo ainda imaturo, acreditei piamente nas locuções dos explicadores e cheguei mesmo a ir com eles à feira.

Ajudei a fazer muita publicidade dessas ideias, auxiliei a implementar muita barraca de apoio, a publicitar muito remédio serôdio, muita mezinha milagrosa, muito disto, muito daquilo, também muito daqueloutro e por aí fora, num processo verdadeiramente educativo e deveras original, tão original como a chuva em Abril e o ramalhete de cravos no mesmo mês, só que a 25, que não azul, mas sim vermelho, ou encarnado como as papoilas, ou, ainda, como tudo o que é caduco e desengraçado, mas fiel e multiplicador. Pois!

Depois cansei-me da música de feira, da literatura de cordel, da banha da cobra e deixei-me transportar pelos que vinham do mercado.

Tanto uns como outros eram muito chatos e deveras aborrecidos.

Se uns afirmavam que sim, os segundos respondiam que sim mas…, enquanto os primeiros já se tinham posto no lado do talvez, e, por vezes, até tinham a higiénica ousadia de dizer não. Mas era sempre sol de pouca dura.

As certezas e os princípios apresentavam-nos sempre como relativos. E nisso tinham a sua razão. Só que a perdiam quando a tal relatividade se esfumava da prédica, especialmente quando eram eles os protagonistas da história, ou quando o negócio lhes corria de feição.

Alguns até conseguiam vender carne de porco por carne de vitela.

Quando lhes chamava a atenção para a contradição, argumentavam que, afinal, tudo era carne e por isso mesmo possuía as mesmas propriedades nutritivas.

Resumindo e filosofando: agora tanto vou com os da feira como venho com os do mercado. E sou mesmo capaz de nem ir nem vir com nenhum deles.

O mal já está feito. E assumido.

Agora deslumbro-me com o hipnótico esplendor das grandes superfícies.

 


publicado por João Madureira às 21:09
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Quinta-feira, 4 de Janeiro de 2007

É preciso ter lata!

 

Antigamente havia pouca lata e muito latoeiro.

Agora há cada vez mais lata e os latoeiros estão em vias de extinção.

Antigamente também existia muita precisão de baldes de baixo custo. Pois as necessidades eram muitas e diversas.

Havendo alguma lata a bom preço, que não era fixo, mas era baixo, relativamente, claro está, o trabalho lá se ia fazendo. Os pacientes latoeiros faziam bacias, almotolias, funis, jarros, mas, sobretudo, caldeiros.

Actualmente tal produto foi substituído pelo plástico, que é ruim de destruir, mesmo pela terra, e possibilita a produção em série.

Sendo o plástico matéria barata e bastante maleável, relativamente, claro está, aproveitam-na agora para confeccionar vários coisas, desde logo a muita e famosa comida, mas também próteses, roupa, carros, sorrisos e até caras e corpos.

Também há muito dinheiro de plástico. E caras plásticas. E políticas plastificadas, tal e qual os cartões de crédito e de débito.

Ainda não fizeram nenhum primeiro-ministro de plástico, mas pelo caminho que isto leva, já não falta tudo.

Bem vistas as coisas, até temos um presidente que é um “cara de pau”.

Mas lata, lata, possuem-na, em quantidades assinaláveis, os mais variados autarcas espalhados pelo interior do país que proclamam aos quatro ventos a sua aposta no desenvolvimento, na educação e na cultura. Facto que tem provocado a debandada geral dos portugueses para o litoral.

Mas com esse tipo de lata já não se fabricam caldeiros, só se imprimem gazetas de província.

É que hoje come-se muito mais do que soía e por isso as necessidades são outras.

 


publicado por João Madureira às 20:58
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Quarta-feira, 3 de Janeiro de 2007

Inclinações

 

Eu inclino-me por ti, tu inclinas-te por mim, nós inclinamo-nos como a sombra. Com o mesmo rigor, com a mesma objectividade, com a mesma beleza fria.

De inclinações está o mundo cheio. E de poluição. E de água salgada. E de animais. De muitos animais que não sabem lá muito bem aquilo que andam a fazer. Se é que andam a fazer alguma coisa.

As inclinações são como as sombras. É sempre preciso uma fonte de luz e um objecto opaco que se meta ao meio.

Eu sempre tive uma inclinação por sombras. Por sombras oblíquas e verdades rectas.

O resto é conversa.

Também gosto de conversas inclinadas, de diálogos misturados e de declarações sensatas.

Fora a abstracção, as inclinações são como as fronteiras, linhas imaginárias que delimitam território conquistado ao vizinho.

E o resto é apenas uma inclinação altruísta, tal como a sombra de um castanheiro centenário que se expõe aos anos com muita decência e verticalidade.

E é em demanda de recolhimento que os pardais morrem de frio no Inverno.

Também eles possuem a sua inclinação pelo penar.

 


publicado por João Madureira às 17:50
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Terça-feira, 2 de Janeiro de 2007

Lagartos ao sol

Tão bem que se está aqui ao sol. Recebendo este sol de Inverno que nos aquece a alma. A alma e o corpo. O corpo e a alma.

O sol de frente, como os touros. Recebemos o sol de frente como os touros. Mas o sol aquece. Só é fúria se for persistente.

Este sol, bem tomado, é uma bênção.

Então, e o céu? Este céu subitamente azul. Este azul subitamente céu.

Vamos para o céu, não tarda. Mas enquanto não, sabe bem apanhar este sol de frente.

Já lá vai o tempo em que apreciava muito o frio. Agora suspiro por um bocadinho de sol para me aquecer as articulações.

Antigamente adorava as manhãs de geada e de passear no nevoeiro. Sonhava com a neve, com a sua imaculada uniformidade, com a beleza autêntica do seu branco rigoroso.

Agora regozijo-me com o sol de Inverno. Com a sua benevolente razão de calor.

 


publicado por João Madureira às 18:59
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