Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2007

Espaço dos olhares

 

 

 

Há espaço por onde circulam vontades.

Há vontade por onde circulam espaços.

Há espaço. Há espaços.

 

Eu também estou aí, no espaço da vossa vontade. Na vontade do vosso espaço. Em todo o espaço que há em vós.

Há espaço. Surgem espaços.

 

Têm os olhares sinceros espaço para anteverem a disponibilidade que em vós permanece.

Tenho que ser sincero: eu existo por causa dos vossos olhares. Por causa do vosso espaço. Por causa do espaço que me dais.

 

E isso não é uma dádiva. É um sortilégio imenso.

 


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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007

Bonitas palavras

 

 

Que bem fala o senhor Bispo.

Emprega bonitas palavras, palavras que soam bem, palavras que, por certo, são palavras de Deus. Outra coisa não seria de esperar.

Pena é que eu não as entenda lá muito bem. Mas isso pouco importa. O que interessa não são as palavras. O que interessa é Deus. E Deus, como muito bem diz o senhor Bispo, é palavras.

Ninguém vai para o Céu por dizer palavras bonitas, apenas vai para o Céu quem acredita em Deus. Um analfabeto vai para o Céu. Um surdo-mudo vai para o Céu. Etc.

Ora é isso que me leva a pensar que Deus, sendo também uma palavra, é muito mais do que isso. Nisso é como o senhor Bispo, que, apesar de dizer bonitas palavras, é mais do que as palavras que pronuncia.

Um bispo é um mensageiro. Um líder espiritual da cristandade. Um organizador da Fé. Um orientador de devoções. Um semeador de vontades.

Um bispo é mais do que um padre. E um padre é mais do que um acólito. E um acólito é mais do que um cristão não praticante. E um cristão não praticante é mais do que um agnóstico. E um agnóstico é mais do que um ateu. E um ateu não é nada. Ou quase nada. Também não podemos ser tão radicais.

Um bispo é o contrário de um ateu. É um cavaleiro da redenção, um juiz da crença, um legislador do bem, uma alma boa, uma bondade correcta e digna, uma dignidade temporal, um temporal benfazejo, uma iluminação das trevas, um anti-demónio muito bem informado. Mas mesmo muito bem informado. E formado.

O senhor Bispo fala bem, por isso chegou a bispo. Um padre que fala bem chega sempre a bispo.

Eu gosto muito do senhor Bispo. As suas palavras soam-me bem. Muitas delas não as entendo, mas isso pouco importa. O que é verdadeiramente importante é o seu contexto. E o contexto é bom.

Todos os católicos são bons. É claro que há uns católicos que são melhores do que outros, mas essa é a ordem natural das coisas.

É que nem todos somos iguais como devíamos ser.

Eu acho que devíamos ser todos iguais, devíamos ser todos bispos.

Se assim fosse é que a cristandade era linda. Linda e poderosa. Éramos a modos que um exército de milhões de bispos. A Terra passava a ser a casa de Deus. A sua casa de férias e repouso.

A Terra passava a ser o Céu.

 


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Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007

Brrummm, plang, plong, pling, pong, ping, peng…

 

 

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Domingo, 25 de Fevereiro de 2007

Obliquidades e outras encadernações

 

 

Está tudo inclinado. Uns inclinam-se para aqui. Outros inclinam-se para ali. E ainda há outros que se inclinam para acolá. Sim, todos se inclinam.

 

Dizem: todos nos inclinamos. Sim, todos nos inclinamos. Só que uns inclinam-se mais que outros. E sempre para o mesmo lado. Mesmo que pareça que se inclinam para outro lado, inclinam-se sempre para o mesmo.

 

O problema não está no lado, está na inclinação. E quando uma pessoa se inclina, o problema não reside no lado, mas na inclinação.

 

Não é o ângulo, é a inclinação. É a subordinação à inclinação, já que a subordinação não tem lado, só tem inclinação.

 

O alecrim cheira bem. Sim, o alecrim cheira bem. Cheira bem o alecrim.

De que lado é que está o alecrim?

 

Sim, a igreja cheira bem, cheira a perfume de rosas. Mas as rosas inclinam-se para que lado?

 

Hoje já o alecrim cheira a rosas e as rosas cheiram a plástico.

Para onde se inclina o cheiro de plástico das rosas?

 

Inclinam-se os templos para o tempo da contemplação dos templos.

 

Serão os templos rosas?

 

Será o templo contemplação?

 

Será o templo plástico de rosas?

 

Serão as rosas alecrins temporais?

 

Serão os templos monumentos à indigência das inclinações?

 

Onde há inclinações sobram os botões de rosas.

 

Ai os cravos! Ai as inclinações!

 

Sobram os botões.

 

Sobram as rosas.

 

Só não sobram as contrafacções.

 


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Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

Espelhos atrapalhados

 

 

Lembro-me que nesta rua havia árvores. Eu penso que por aqui existiam árvores. Actualmente só há espelhos. Vidros que nos espelham, espelhos que se espelham, espelhos que se multiplicam em imagens indistintas.

O que produz, ou se reproduz, onde ambiciona chegar?

As imagens provêm da memória. Da nossa boa memória. Como se uma memória fosse sempre boa! Como se uma memória fosse sempre memória!

Tudo aqui se multiplica. Até a hediondez.

Há nesta época comercial um desconforto lânguido pelo redundante.

Por aqui o mundo arrasta-se de encontro ao esquecimento. Com desconforto e abandono.

Sentam-se nas cadeiras de lona os fantasmas da incoerência. As sombras desdobram-se em ciclos fúteis de irrealidade.

Onde andas tu, inocência? Onde se escondem os delírios da nossa juventude?

Tudo gira em sentido contrário. Tudo volta a não ser. O torvelinho do tempo enlouquece as paredes inundadas de sol.

Por onde andas tu, desengano?

Atrapalhas-te nos espelhos das montras, tu, imagem infiel da realidade.

Por hoje abandono-te no reflexo contemplativo do deslumbramento.

Mais logo procurarei construir o puzzle da minha memória desgovernada.

Sei qual é a peça que falta, só não a consigo é encontrar.

 


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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

Luminosidades

 

 

À noitinha acontecimentos bonitos ocorrem sem eu saber bem porquê.

Um dos mais extraordinários é quando um camião carregado de luz trespassa a parede da minha sala.

O invulgar é que o camião é só luminosidade, o seu motor não gera ruído algum.

Eu adivinho quase sempre o momento da sua passagem.

Quando isso acontece, sento-me no sofá e fotografo-o com alguma voracidade contemplativa.

Observado de fora, este facto pode até parecer bizarro, mas, para mim, tornou-se usual.

Agora já não me assusta. Antes pelo contrário, tem o doce condão de me empolgar.

A luz em movimento rectilíneo é adrenalina pura.

 


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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007

O mendigo e o carro desconhecido

 

 

Ena pá, que grande máquina! Até brilha. Alguém lhe andou a puxar o brilho. Olha, olha, olha, os bancos são em pele e o tablier é feito em madeira de cerejeira.

Isto é que é uma máquina! Um carro assim até dá gosto. É tão bom que nem sei de que marca é. Mas tenho a certeza que não é conhecido. Se fosse conhecido eu identificava-o logo.

Posso não saber ler mas sei identificar um carro pelo símbolo. O do Honda é como uma ponte. O do Volkswagen parece uma embalagem de ovos do supermercado. O do Audi são uns aros enfiados noutros e assim. O emblema do Mercedes é igual ao símbolo do ípis. O do Toyota é um desenho mal feito, lá à moda dos japoneses. O símbolo do Peugeot é um leão arrepiado. O símbolo do Citroen é muito parecido com as divisas de um cabo. O da Mitsubichi parece o 4 de paus. E o do BMW é assim a modos que uma coisa pintada à maneira moderna. E por aí fora. A mim nenhum carro me passa despercebido. Eu topo-os mesmo ao longe.

Este é que não conheço, mas sei que é dos bons. Isto é carro de rico. Deve ser carro de um doutor médico, desses que fazem exames à … porra … à "prosta" dos homens. Desses que vêm cá uma vez por mês e ganham logo uma pipa de dinheiro.

Olho para este carro e fico todo arrepiado. Também fico arreliado. Uns com tanto e outros com nada. O dinheiro anda muito mal distribuído. Ó se anda!

Eu gosto muito de carros. Gosto muito de os ver, pois outra coisa não posso fazer. Só posso olhar para eles.

Nisso sou muito diferente do Zefereino que, com a raiva que lhes têm, é bem capaz de pegar num prego e riscá-los todinhos. E quanto mais bonito for o carro mais ele o risca. Têm-lhes uma raiva surda. Diz que o dinheiro que custa cada um deles dava bem para alimentar uma família durante vários anos e ainda sobrava dinheiro para a roupa, para ir passar férias ao Algarve e para pagar os remédios que a doença da fartura provoca.

O Zeferino é um cão raivoso. Mas tem lá a sua razão. Este mundo está muito mal arranjado. Uns com tudo e outros com nada. Isto custa a aguentar. Ó se custa!

Fora a injustiça da situação concreta de cada um, eu gosto muito de carros. Então esta espada enche-me as medidas. Se me saísse o Euromilhões era um igualzinho a este que eu comprava. Até podia pentear-me e arranjar o nó da gravata mirando-me no parachoques. E também ia atrair muita Donzela Diesel, como diz o Rui “Beloso”.

As raparigas são doidas por carros bons. E por dinheiro. Gostam de homens com dinheiro e posição. Eles até podem ser para ali uns cangalhos, mas se tiverem o bolso cheio de notas, elas caem logo pelo beicinho. Depois é só abrir as pernas e fechar os olhos, ou ao contrário, ou lá como é.

Eu também já sou para aqui um cavaco velho, mas se tivesse uma máquina destas, de certeza que não me faltavam mulheres.

 


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Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2007

Almas

 

 

 

Anda o Mundo atrapalhado e os humanos em busca da sua alma.

Uns buscam a sua alma no universo e outros procuram o universo na sua alma.

Uns procuram Deus para que lhes salve a alma.

Outros procuram a alma para que ela lhes indique o caminho de Deus.

Uns andam às costas de Deus – os iluminados.

Outros andam com Deus às costas – os humildes.

Uns procuram a luz.

Outros refugiam-se na sombra.

 


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Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2007

A espera

 

 

E lá estamos nós à espera. À espera do que há-de vir. À espera de ir, para logo a vir. E à espera de vir, para logo tornar a ir. E lá continuamos à espera. Esperamos uns pelos outros. Eu espero por ti. Tu esperas por mim. Eu espero por ele. E ela por ti. Eu espero descansar depois do trabalho para logo estar pronto para de novo ir trabalhar e de novo poder esperar e pensar em descansar. Espero pela noite para dormir. E espero pela manhã para ir trabalhar. Espero pelos sábados para ir ao cinema e pelos domingos para ir à missa. E espero por dias de sol. E espero que me saia o totoloto e espero que me saias da frente porque me incomodas.

A vida é uma espera permanente. Esperamos por um bom emprego, por uns bons dias de férias, esperamos por obter um trabalho descansado e bem remunerado. E esperamos pelas esperas dos outros. Só que quem espera desespera e nunca alcança.

Estou à vossa espera. Eu que nunca espero, estou à vossa espera sentado num banco de jardim que também espera. Um banco de jardim espera sempre por alguém.

Há várias formas de se esperar: esperar de pé, esperar encostado, esperar de cócoras ou deitado. Mas a melhor forma de esperar é mesmo sentado.

O melhor é esperar sentado. Se espera, espere sentado.

E se não quer esperar vá-se embora, pois aqui só há lugar para quem gosta de esperar.

Só que eu não gosto de esperar como os outros esperam. Eu gosto de esperar como quem não espera. Eu só espero porque a isso sou obrigado. Eu até gostava mais de não esperar. Mas tenho de esperar porque os outros também esperam e se uma pessoa não espera quando os outros esperam não consegue esperar convenientemente. Ora uma espera que não seja conveniente não é uma verdadeira espera.

Esperar é preciso, viver não é preciso.

Há pessoas que passam a vida a esperar e tanto esperam que desesperam. Só que o desespero não é uma boa forma de esperar. Espera-se melhor sentado.

Há longas esperas e esperas curtas. As longas são mais descansadas, mas também mais aborrecidas. As esperas curtas são mais engraçadas.

Hoje esperei que me fartei. Fartei-me de esperar. Mas, por fim, a espera chegou perto de mim e sentou-se no seu justo lugar.

Por isso a minha espera não foi em vão.

Rejubilemos então.

 


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Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007

Plung, plung, plung, plang, plung, pling, pling…

 

 

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Domingo, 18 de Fevereiro de 2007

A alminha dos passarinhos

 

 

Eu gosto muito de passarinhos. Do seu chilrear e da paleta policromática das suas penas. Do seu corpo franzino, da sua intrínseca fragilidade, da sua beleza espontânea.

Um pássaro sempre foi para mim o símbolo inabalável da liberdade.

Eu considero-os muito. Respeito-os e presto-lhes homenagem. Sou incapaz de viver sem ouvir o seu pipilar, sem os sentir por perto.

Por isso os conservo em casa dentro de bonitas e ergonómicas gaiolas que são o que de melhor se pode dar a um passarinho. Poleiros espaçosos, arame anti-ferrugem, sementes dietéticas, bebedouros espaçosos. E só quem ouve o cantar feliz de um passarinho na sua gaiola é capaz de perceber o bem que fazemos a esses seres frágeis e delicados que nos fazem sempre pensar num ser superior.

É muito difícil conceber Deus sem pássaros por perto.

Pássaros numa gaiola, roupa a secar ao sol e Deus dentro de um livro da catequese são a imagem perfeita da extraordinária alma humana.

 


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Sábado, 17 de Fevereiro de 2007

É preciso ter cuidado

 

 

É preciso ter cuidado com os cães.

E também é preciso ter cuidado com os homens e com feito de estufa e com as marés negras e com o consumo desenfreado e com a inflação e com o défice do Estado e com o endividamento das famílias portuguesas e com a guerra do Iraque e com o Irão e com Israel.

É preciso ainda ter muito cuidado com a condução nas estradas e com os alimentos transgénicos e com a gripe das aves e com a brigada de trânsito e com o excesso de gordura na alimentação e com as bebidas alcoólicas e com o consumo do tabaco e com o consumo das drogas leves e com o consumo das drogas semi-leves e com o consumo das drogas duras e com o consumo das drogas muito duras

E igualmente preciso ter muito cuidado com as drogas duríssimas e é preciso ter cuidado com os traficantes de todas essas drogas e de dólares falsos e de roupa contrafeita.

É preciso ter cuidado com as aves, especialmente com as migratórias, e é preciso ter cuidado com as alergias e com as constipações e com o sal na comida e com os fundamentalistas islâmicos e também é preciso ter muito cuidado com os socialistas. Especialmente com a nova vaga de socialistas que não usam gravata, nem princípios, nem valores, nem ideologia.

É preciso ter muito cuidado quando se vota porque agora uma pessoa vota num socialista e sai-lhe um primeiro-ministro demasiadamente preocupado em fechar todo o interior do país: as escolas, os tribunais, os hospitais, os centros de saúde, as esquadras da PSP e as da GNR e as freguesias e os concelhos.

 


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Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007

Não sei se…

 

 

Não sei se é da sombra, se é do sol, se é do estio, ou da velhice, ou pura insinuação.

Não sei se é da ardência, ou da depressão, se é da sede, se é da fantasia, se é da dor, ou do amor, ou da angústia, ou da missão.

Não sei se é da fome, ou da razão, ou da neurose, ou da absolvição.

Se calhar toda a culpa é do cão.

Não sei se é da felação, ou do cio, ou da exaustão, ou dos dias, ou das fantasias, ou da insolação.

Não sei se é da missa, ou da alienação, ou culpa do vizinho, ou excesso de sugestão.

Não sei se é de propósito, ou fruto da imaginação.

Não sei se a culpa não é mesmo toda do cão.

Não sei se é culpa de Deus, ou efeito da oração, não sei se é resultado do facto, ou produto da imaginação.

Não sei se é da hipótese, ou por causa do sermão, não sei se é de propósito, ou por falta de educação.

Não sei mesmo se a culpa não é toda da porra do cão.

Não sei se é do capricho, se é da formalização, se é semente do vício, ou vigor da exaltação.

Não sei se é do espírito, ou da consideração, se é fruto do cansaço, ou mesmo da fornicação.

Não sei se é da sede, ou da aflição, ou da opacidade, ou da transfiguração.

Não sei se é da raiva, ou da comiseração. Não sei se é da calma, ou se é culpa do cão.

Não sei se é da vista, se é do coração, ou se é da alergia, ou da constipação.

Não sei se é da dor de cabeça, ou fruto da auscultação, ou se é da paciência, ou resultado da frustração. Ou mesmo culpa de Maio, ou da ruminação.

Não sei se é do cavalo, ou se é culpa do cão.

Não sei se é dor de alma, se é pura aversão.

Não sei até se será sim, ou simplesmente não.

 


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Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007

Já estou farto de dançar

 

 

Ora agora viras tu, ora agora viro eu, ora agora viras tu, viras tu mais eu. E vai de roda, e vai de roda, e vai de roda e troca o par. E vai de roda, e vai de roda, e vai de roda e toca a rodar. Água leva o regadinho, água leva o regador, e roda e toca, e toca e roda, e água leva a roda do regadinho que baila e torna a virar. Ora agora bailas tu, ora agora viro eu, ora agora bailas tu que eu já me estou a chatear.

As mulheres não cantam, gritam. Os homens não tocam, arrebunham os instrumentos. Os dançarinos saltam. As dançarinas meneiam-se sem graça, antes com esforço. E eu para aqui estou vestido como nunca ninguém se vestiu, a dançar modinhas que nunca ninguém dançou, com bilhinhas de barro de Nantes que dão à água um sabor estranho.

E os basbaques a olharem para nós como se gostassem muito de folclore.

Os portugueses nem folclore de jeito têm. Parece o mesmo de Trás-os-Montes ao Algarve. Sempre as mesmas danças de roda com par, de mãos erguidas ou na cintura. Sempre a pular e a rodar. Então o bailinho da Madeira é pavoroso, parecem velhos com reumatismo a arrastar os pés pela calçada, com um testo na cabeça e uns bonecos de madeira a agitarem-se como macacos histéricos.

Que rico folclore, parecem cabras no monte.

Que desengraçado é o nosso folclore. É bem o espelho da nossa pobreza cultural, pois das outras nem é bom falar. Homens vestidos com calças pretas, colete às três pancadas, camisa branca. E mulheres de saias e saiotes, blusas e xailes. E colares de ouro. Sempre a mesma música estridente e monótona, os mesmos berros arreliadores, as mesmas batidas no bombo: bumba, bumba, catrapumba, catrapumba, bumba, bumba.


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Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007

Eu sou do norte

 

 

O musgo nas árvores indica sempre o norte.

Eu sou do norte, mas não tenho norte, nem sorte.

A minha avó dizia-me: vai para oeste; e eu dirigia-me para este, nunca para sul. Eu sou do norte, do norte geográfico, do norte magnético, do norte polar. Eu sou do norte e posso até ser de todos os outros pontos cardeais, mas nunca por nunca posso ser do sul.

O sul é o oposto do norte e eu sou do norte, do norte geográfico, do norte magnético, do norte afectivo e nostálgico. E da saudade. O norte é saudade. O norte é o oposto do sul. O norte é verde e o sul é cinzento. O norte é a direcção certa. É o ponto cardeal de referência.

Eu sou do norte porque gosto.

O meu avô dizia-me muitas vezes: vai para este e eu dirigia-me para leste, nunca para sul. O sul é confusão. O norte é o norte. O sul não sei bem aquilo que é. Mas uma certeza tenho: o sul não é o norte. O sul é o oposto do norte. Ora uma coisa não pode ser ela própria e o seu contrário. Isso só é possível ao nível da física quântica. Mas essa física é uma ciência “nanitiva”. Por isso não serve de exemplo para a nossa dimensão. Além disso o meu avô não percebia nada de física quântica. A bem dizer nem da outra física percebia algo que se visse. No entanto também ele era do norte. Tal como eu, também tinha pouca sorte, mas era do norte. Eu sou do norte. O meu avô era do norte. A minha avó também. E os meus pais igualmente. A minha família é toda do norte. Por isso eu sou do norte, nunca do sul. Eu sou do norte. De todos os “nortes” possíveis.

Eu sou do norte. O norte é deslumbramento, ficção, carinho, dicotomia, afirmação, camaradagem. Mas camaradagem sã, camaradagem de direita, camaradagem do tipo da que existe na tropa, não camaradagem de esquerda. Essa é a camaradagem do sul.

No norte os ventos são agrestes, a vegetação é densa, o frio é agressivo, as pessoas afirmativas e os animais domésticos são domésticos, os outros é que não. Ao contrário do sul, onde há animais domésticos que são selvagens e animais selvagens que são domésticos e, pasme-se, existem até animais que nem sabem se são domésticos ou selvagens. Por isso são do sul. O sul é confusão.

 No norte os rios são caudalosos, os céus limpos, os caminhos encantados, as casas sóbrias, os frutos doces. No norte os frutos doces são doces. Ao contrário do sul onde os frutos doces por vezes amargam e onde os frutos amargos por vezes também amargam.

No norte os vegetais são suculentos, a poesia simples, a comida diversificada, os sorrisos sinceros, as palavras quentes, os gestos duros, os olhares sinceros, os jardins nostálgicos, os monumentos eternos, as pedras grandes, o musgo fofo, os peixes saborosos, as aves coloridas e alegres, os desejos inevitáveis, o amor denso, o carinho sofrido e o lume forte.

Por isso eu sou do norte, de todos os “nortes”. Nunca serei do sul.

Ser do norte é um desatino, é dor que dói e não se sente e tudo o que se segue. Ser do norte também é ser original. Camões era do norte.

Ser do sul é um acaso. Camões não era do sul. Camões era do norte.

Já Cavaco Silva é do sul e está tudo dito.

José Sócrates é do norte. Bem, ele não é bem do norte. Por exemplo, não é tão do norte como eu. Mas é do norte, porque, como atrás expliquei, quem não é do sul, só pode ser do norte.

Ser do norte é orgulho.

O sul é o sol do meio-dia, um sol castigador, um sol que come a sombra dos seres vivos.

O norte vê o sol a deslocar-se no horizonte. O norte sabe o que é a beleza e o seu oposto.

 


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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007

A estranheza dos dias

 

 

O mundo hoje parece-me mais estranho do que ontem. E ontem o dia foi bastante estranho.

Nasceram-me olhos de mosca. Por isso te multiplico sem que te apercebas. Só o verde se agrega.

Está o tempo velho. E eu também.

O sol está inclinado sobre as pedras das muralhas.

Hoje também o sol está estranho.

Os meus olhos de mosca multiplicam as imagens. Todas as imagens que se movem.

Também as imagens estão velhas como o tempo. E estranhas como o sol. E esquisitas como o dia de ontem.

O tempo está fixo junto à sombra das muralhas. As muralhas esqueceram-se do seu propósito, por isso se deixam tombar pausadamente sobre o tempo que envelhece.

Tudo isto contemplo com os meus olhos de mosca, até a imagem de um homem que morre sem experiência.

Os meus olhos poliédricos multiplicam os teus passos, por isso saltas de fotograma em fotograma.

Os meus olhos de mosca decompõem a luz. É essa decomposição o sentir do tempo.

Os meus olhos de mosca fragmentam a física quântica, por isso passas a ser um átomo louco que reside onde nunca está. É essa a sua génese.

Os meus olhos de mosca não choram, nem se abrem, nem se fecham. Só observam. Fixam as imagens e desmultiplicam-nas até não se aperceberem qual é a verdadeira.

Para os meus olhos de mosca, as imagens envelhecem muito depressa. Tornam o tempo feroz.

É a ferocidade do tempo responsável pelo envelhecimento.

O tempo exige sempre mais tempo. Este tempo, o tempo passado, o tempo do futuro. O futuro do tempo. Todo o tempo.

Tudo é tempo.

O tempo tem a ferocidade dos deuses. Por isso nos enlouquece, porque não se enxerga. Mas está sempre aí.

 


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Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007

Plung, ping, plung, pang, plung, ping, plung...

 

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Domingo, 11 de Fevereiro de 2007

Eu sou água

 

 

Eu sou água. Um campo explosivo de hidrogénio e oxigénio desfazendo as margens do apocalipse.

Eu sou a água que arrefece os reactores das centrais nucleares.

Eu sou a água que se mistura com o sangue para o tornar líquido.

Não sei se me vês, mas faço de conta que sim. E isso basta-me.

Eu sou água. E isso basta-me. Água em todos os estados.

Deus é feito de água. Água em estado permanente.

Eu sou a velhice da água.

Eu sou o hidrogénio explosivo das margens.

Eu sou o oxigénio persistente do teu respirar.

Eu sou a água do teu respirar. O seu vapor simbólico.

Eu sou o fogo da água permanente de Deus.

Eu sou água em êxtases sucessivos, conforme a vontade surda de te voltar a imaginar.

Eu sou a tua vontade de falar.

A água salgada das lágrimas do teu prazer.

Eu sou a tua água vital.

 


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Sábado, 10 de Fevereiro de 2007

Para sempre

 

Voltarei, eu sei que voltarei. Eu volto sempre. Nisso sou como o criminoso que volta sempre ao local do crime. E é esse o meu castigo.

Sonho sempre em voltar. Correr mundo, mas voltar.

Já não consigo precisar por onde andam os teus passos. Voam-me as recordações na memória. É difícil defini-las.

Os teus passos têm o som da melancolia, o longo desenho do nevoeiro quando submerge o vale.

Recordo-te passeando rente às paredes das casas, olhando o caminho como se ele fosse uma miragem.

Eu atrás de ti e tu sempre a afastar-te, rente às paredes e perseguindo o destino do caminho.

Pintei os teus passos na minha cabeça, seguindo a vereda do rio quando a chuva persiste em desenhar circunferências nas linhas da água.

Tu não vais e eu volto. Sei que voltarei para descansar. Sei que voltarei para ter paz. Sei que voltarei para te seguir. Só que desta vez dar-te-ei a mão para que me ajudes a encontrar o caminho. A determinação do teu caminho.

Voltarei. Eu sei que voltarei deixando para trás as obsessões, as obsessões metafísicas dos teus olhos que se abrem com a delicadeza do voo das borboletas.

Voltarei, eu sei que voltarei. Só não sei é como. Mas também não importa. O que interessa é voltar. Voltar como quem caminha na loucura calma do entardecer.

Voltarei, eu sei que voltarei. Para sempre.

 


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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007

A noite que a luz descansa

 

Liberta-me da tua noite.

Liberta-te da minha noite.

Faz desta noite a noite de todas os dias, de todos os teus dias

a partir desta noite.

Hoje, pelo menos, liberta a noite que há em ti.

Liberta também a luz que a ilumina.

Hoje é a noite da luz, da nossa luz que ilumina as ruas da cidade.

Peço-te, ao menos hoje, liberta a cidade da luz.

Liberta a luz

da noite, da tua noite, da minha luz.

Liberta a noite da luz,

a luz

da noite.

Por favor, peço-te, liberta a noite, a tua luz, a noite que adormece de olhos abertos.

Por favor, liberta a tua luz que explode na noite, na noite de todas as noites.

Agora já podes descansar. A luz da noite, por fim, adormeceu.

 


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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007

A nave de pedra

 

 

 

A nave de pedra não navega, desliza. Desliza no tempo, no seu tempo de história imensa. Na consumação dos séculos.

Contempla o rio, o vale e o céu sempre iguais e sempre diferentes.

As pessoas olham para ela e admiram-na. Ela apenas lhes devota indiferença.

 

Homens vão e vêm, chegam e partem, nascem e morrem, mas o céu é perfeito. Eu sou do céu onde me farto de azul.

Eu não gosto dos homens, gosto do vento, do vento que acaricia todas as noites as pedras que me constituem.

O vento é meu amigo, faz-me cócegas.

 

Eu sonho ainda que alguém irá cantar ópera nas minhas ameias. Lembrando batalhas, heróis e bruxas. Homenageando cavalos alados ou reis magos ou princesas encantadas.

Sou um castelo de granito cheio de ilusões. Adorava ouvir de novo o ribombar dos canhões, o tilintar das armas, os gritos dos guerreiros, assistir às batalhas.

 

Como devem perceber, um castelo não gosta de paz. Não foi feito para a paz. Um castelo é guerra. Guerra de homens e não de máquinas.

 

Sinto que gostava de ser útil. Útil de novo, não monumento inválido e reformado, uma inutilidade prática, um símbolo obtuso.

Abomino a simbologia.

 


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Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2007

O desenho das horas

 

Por favor, desenha-me as horas. As tuas horas. As minhas horas. As horas. Todas as horas.

Desenha-me as horas, por favor!

Desenha-me as horas que levo a chegar até ti. As horas que te não tenho. As horas de espera. As horas de tédio, as horas de riso, as horas de desespero.

Desenha-me o desespero das horas, das horas dos outros que também chegam, que também partem e também esperam. E desesperam.

Desenha-me as horas do início do Mundo. As horas da Criação. As horas de tudo e as horas de nada.

Desenha-me o tempo antes das horas e as horas antes do tempo e as horas depois das horas.

Desenha-me, por favor, o infinito das horas infinitas. As horas da tua vida, do teu tempo. As horas das horas das horas.

Desenha-me as horas frias, as horas arrefecidas pelo gelo e pela neve, as horas molhadas de chuva, de nevoeiro ou de orvalho.

Desenha-me as tuas horas nas minhas horas. Desenha-me as horas todas. Todas as horas.

Desenha-me a passagem das horas, a sua lenta passagem quando cruzam os montes.

Desenha-me a seguir a pressa das horas quando nos amamos.

Desenha-me o passar das horas sobre o teu corpo e sobre o meu. O inexorável passar das horas sobre os nossos corpos.

Por favor, desenha-me as horas livres, as horas de liberdade, as horas libertas, as horas libertadas. As horas todas em que te não vejo.

Desenha-me as horas amargas, as horas de tédio, as horas do crepúsculo. As horas da morte e as horas da vida.

Desenha-me todas as horas do Mundo, o mundo das tuas horas, as horas todas.

Desenha-me as horas, por favor.

 


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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007

O ângulo de Deus

 

 

Depois das janelas, a luz, a tua luz combustível, os teus frémitos animais.

 

Depois da luz, o desejo. O meu desejo, que é igualmente teu.

 

Depois das mulheres, os homens. E depois dos homens, Deus.

 

As mulheres.

Os homens.

Deus.

 

O Deus dos homens. E das mulheres.

 

Mas é especialmente a luz o que se incendeia nos vidros espelhados das janelas. Das tuas janelas. Dos teus olhos.

 

São os olhares vulcões activos quando encantados de ânsia.

 

Tens o desejo dos vulcões prontos a ficarem eruptivos.

 

Sinto que me acendes quando Deus passeia pela brisa da tarde.

 

Também as sombras me sugerem a tua luz, lá rente ao chão, onde as lagartixas se aquecem.

 

As folhas caídas incendeiam-se de aspectos quando estão quase a desaparecer.

 

Tenho os nervos das folhas impressos na pele. Essas folhas agitadas pelo vento nostálgico de Outono.

 

Tenho os nervos fixos na água das lágrimas frescas do orvalho quando os teus olhos se expressam na sinuosidade dos filamentos.

 

Quando o dia principia a descansar nas janelas da casa grande, desço as escadas e vou de encontro ao teu ângulo incendiado.

 


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Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

Plang, ping, plong, pung, plang, peng, plong, pang, plang…

 

 

Plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, pang, pong, plong, plang, plong, pling, pang, pong, pang, pong, ping, plang, plong, plang, plong, plang, peng, pang, pong, pang, pong, ping peng, pang, pong, ping, pang, pong, ping, pang, pong, plang, plong, plang, plong, plang, pung, ping, pang, pang, pong, ping, plang, plong, plang, plong, plang, peng, pang, pong, pang, pong, ping, plang, plong, plang, plong, plang,  peng, pang, pong, ping, pang, pong, plang, plong, plang, plong, plang,  ping, pang, pong, pung, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, plung, plung, plang, plong, plang, plong, plang, plung, plung, plung, plung, plung, plang, plong, plang, plong, plang, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plong, plang, plong, pling, pang, pong, pang, plang, plong, plang, plong, plang, pong, ping peng, pang, pong, pang, pong, plang, plong, plang, plong, plang, ping, peng, pang, pong, ping, pang, pong, ping, pang, pong, pung, ping, pang…


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Domingo, 4 de Fevereiro de 2007

A epifania das pedras duvidosas

 

 

Olho para as pedras e tenho dúvidas. Dúvidas existenciais. Tenho dúvidas, muitas dúvidas, sobretudo dúvidas existenciais. E outras. Ou outras? Sobretudo dúvidas. Muitas dúvidas.

Cada paralelo um dúvida. Ou mais que uma. Talvez duas. Talvez três. Ou quatro… dúvidas. Sim, dúvidas. Dúvidas existenciais e outras. Ou outras. Quantas dúvidas tenho!? Dúvidas existenciais.

Olho para as pedras e tenho dúvidas. As tuas e as minhas. Dúvidas, muitas dúvidas. E muito existenciais.

Eu tenho dúvidas. E muitas.

Tenho dúvidas sobre o rigor das pedras, ou sobre o seu alinhamento. Dúvidas sobre o alinhamento, sobretudo das pedras. Ou sobre o rigor das dúvidas.

Uma boa dúvida requer rigor, muito rigor.

Tenho dúvidas sobre o alinhamento, sobretudo sobre o alinhamento das pedras. E também tenho dúvidas sobre as pedras. Sobre o seu rigor. Sobre as suas rigorosas dúvidas.

Tenho ainda dúvidas sobre as dúvidas, ou sobre o seu alinhamento, ou, até, sobre o rigor das dúvidas das pedras duvidosas. Isto partindo do princípio de que as pedras têm dúvidas, do que eu duvido.

Por isso olho para as pedras e duvido da minha dúvida com a certeza que ainda duvidarei mais da existência.

 


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Sábado, 3 de Fevereiro de 2007

Tenra é a noite

 

 

Terna é a noite quando a luz se desfaz de encontro à tua idiotice. Ou à minha, tanto faz. A tua idiotice, ou a minha, já que tanto faz, de encontro à noite é tão terna como a luz, já que a luz é inversamente proporcional à escuridão. Ora tudo que é inversamente proporcional à idiotice é luz. E sendo luz reluz como a noite no hemisfério norte. E antes tal norte que tamanha sorte. Só que a sorte é aziaga. Exceptuando a noite polar que não é noite mas sombra lunar. É por isso que adoro a noite porque gosto de coisas ternas. A tua terna noite ou a tua tenra carne?

Ser ou não ser, eis a ambição terna, porque a noite é tenra.

 


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Sexta-feira, 2 de Fevereiro de 2007

Há dias assim

 

 

Há dias assim. Há árvores de pé. Há folhas que caem, mulheres que choram, homens que conduzem, cães que ladram, formigas que trabalham, nuvens que voam de encontro às montanhas, olhos que se abrem e fecham com regularidade, bocas que falam, lábios que beijam, pés que andam, rios que correm para o mar, peixes que nadam sem pensarem ser pescados, ondas que vão e vêm, vento que sopra, ervas que crescem, dedos que apontam, gemidos que se expandem, tiros que matam, reuniões inconclusivas, jantares de solidariedade para com os esfomeados, florestas que ardem, homens que sonham, mulheres que sofrem, músicos que tocam fora de horas, horas que se lamentam fora dos relógios, relógios que se fartam de medir o tempo. E também há crianças que sorriem e outras que choram, operários no desemprego, fábricas cheias de carros, carros cheios de gente, gente farta da outra gente e pneus cheios de ar. E ainda há o ar gasto dos doentes, o sopro esforçado dos deuses, os legumes viçosos e muito saborosos mas impregnados de partículas químicas prejudiciais à saúde, pessoas que lêem até enlouquecer, pessoas que fazem que lêem até ficarem cheias de ideias feitas, cavalos de corrida que descansam nos estábulos, mendigos que se esforçam por desenvolver as suas boas práticas e assim atingirem a excelência para poderem progredir na carreira, polícias que se fartam de passear. E depois ainda há a lenta viagem dos buracos negros em direcção ao absurdo da matéria, macacos a aprender a ser gente, gente a aprender a imitar e a amar os macacos e os cães e os gatos e as espécies em vias de extinção, tais como as baleias, o lince da Malcata e os homens honestos e as cegonhas de bico preto e asas brancas e de patas altas e de asas com dois metros de comprimento por um de largura, ou coisa que o valha. E também existem pessoas que se manifestam pela igualdade de oportunidades e a favor do aborto e contra o aborto e contra a pena de morte e contra a morte da pena e contra a pena propriamente dita e contra o governo e contra a oposição e contra a co-incineração no Outão ou em qualquer outro sítio e contra a fome de uns e contra a fartura de outros e contra o Ocidente e contra a América e contra o negócio de papagaios loiros de bico amarelo e asas azuis que falam muito e depressa e contra as pegas que escrevem devagar discursos políticos e contra os políticos que escrevem sempre as mesmas idiotices nos jornais e contra os directores de jornais que não escrevem aquilo que os leitores querem e contra os que são contra os que se manifestam contra tudo e contra nada.

Há dias assim, que são contra. Mas também há dias assado e que são a favor. Hoje o dia é assim, contra, muito contra. Amanhã poderá ser a favor, por isso assado. Ou asado. Ou azarado. Ou talvez não. Ainda não sabemos. E essa é a maravilha a que chamamos futuro.

 


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Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2007

Beleza demagógica

– Que lindo pôr-do-sol! Vou buscar a máquina e fotografá-lo. Gosto de ver o sol a pôr-se por entre as cores fortes do anoitecer. Não te seduz esta beleza?

– …

– Não é belo?

– …

– Não é lindo de morrer?

– Não. Não é.

– Achas que não é belo o pôr-do-sol?

– Considero que é apenas uma beleza estúpida.

– E porquê?

– Porque é excessiva. Porque é frequente, corriqueira, banal. Porque é apriorística, rotineira. Não tem subtileza nenhuma. Não é uma beleza trabalhada. É uma beleza que acontece, uma beleza frequente, normal, lógica, redundante.

– A beleza do pôr-do-sol sugere-me Deus.

– O pôr-do-sol Deus! Essa é boa. Se fosse o nascer do sol ainda se percebia. Tinha a sua lógica divina. O pôr-do-sol é como a sua própria antítese.

– Achas que o pôr-do-sol é a antítese de Deus?

– Eu não acho nada. Limito-me a raciocinar segundo os teus cânones. A mim tanto se me faz. Nem o pôr-do-sol é belo, nem Deus existe. É tudo uma ilusão.

– Não te entendo. Cada vez te entendo menos.

– Olha, eu também. Cada vez me entendo menos.

– Mesmo contra a tua opinião, vou fotografá-lo. Acho-o deslumbrante. O pôr-do-sol põe-me eufórica. Sinto-me plena de infinito.

– Balelas! Tu limitas-te a ser demagógica. No fundo, o pôr-do-sol é uma beleza demagógica. É uma beleza que se repete, que enfastia como um bolo demasiado doce, como um beijo demasiado prolongado, como uma cópula contemplativa.

– És estranho! Deves fazer muito esforço para conseguires dizer que não gostas do pôr-do-sol. É impossível não se gostar do pôr-do-sol. É impossível não se ser sensível à sua beleza cromática. És um casmurro.

– Sim, eu sou isso tudo e mais alguma coisa. Sou a tua coisa. O teu factor estranho. A tua sombra cinética. A tua desilusão metafórica. Sou o teu “incomplemento”. Mas, apesar disso, e da tua máquina fotográfica, não gosto do pôr-do-sol. Nem da sua ilusão. Não é a contemplação que faz a beleza, é a tensão, é o rasgo simbólico, a atitude, o desequilíbrio. Sim, a beleza é desequilíbrio sensorial. É fractura, apelo, tensão...

– Clic… já está!

 


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