Sábado, 31 de Março de 2007

O destino das águas

 

 

 

Encerram as tuas palavras lindos conceitos.

Também elas possuem metáforas de águas tranquilas, sombras harmoniosas de azul, amarelos calmos, reflexos doirados.

Encerram as tuas mãos gestos meigos e expressivos. São singelas as suas iluminações crepusculares.

Já fui assim. Lembro-me bem disso. De ser assim. Lembro-me bem dessa ventura.

Corriam calmos os dias e as manhãs nasciam doces e iluminadas. As nossas manhãs.

Nessa claridade todas as manhãs do mundo eram calmas. Como calmos eram os teus beijos florescentes. Como calmo era o prazer de ciciar de prazer.

A alegria iniciava o seu vórtice linear quando os pássaros voavam em direcções loucas excitados pelas titilações amplas dos ventos ascendentes.

Eram curvas as germinações das árvores excitadas.

Eram curvos os teus seios ardentes.

Eram curvos ou teus gestos.

Nem mesmo quando a noite chegava os nossos olhos deixavam de estar repletos de luz. Cintilavam as palavras na nossa frente enquanto descíamos a avenida.

Há dias assim, cheios de doces memórias.

Também há dias em que as águas do rio correm tranquilas em direcção ao mar.

Têm as águas esse propósito: o destino seminal de desaguar.

E cumprem-no.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 30 de Março de 2007

A salvação do espírito

 

 

Ando atarefado com o estudo e a elaboração da tese “A arte de estar só”.

Mas para estar só é necessário acreditar, como Musil, que a leitura ajuda a conseguir a salvação do espírito.

Há por aí muitos políticos que são apenas analfabetos altivos. Alguns andam disfarçados de escritores, ou de técnicos superiores com teses feitas e publicadas.

Eu sei, só não recordo onde li, que sem literatura a vida não tem sentido. E, claro está, só disso se convence quem lê.

E nesta descoberta da “arte de estar só”, muito me ajudam os livros, especialmente os de Emerson, onde está escrita a ideia de que uma biblioteca é uma espécie de gabinete mágico, pois nela encontram-se encantados os melhores espíritos da humanidade.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 29 de Março de 2007

Perseguições

 

 

A mim perseguem-me as montanhas. É como um delírio poético.

As montanhas a invadirem-me os olhos, a preenchê-los devagar.

Montanhas nervosas e floridas, montanhas calmas e intuitivas, montanhas longas e curvilíneas.

Mesmo assim perseguido, visto-me de negro, ponho um chapéu de aba larga e vou passear.

Depois sinto a vontade de visitar a nascente atrapalhada de um rio.

Sentado nas suas margens, procuro lembrar-me de algum verso de Herberto Hélder e não consigo.

Estou louco de palavras. Elas escorrem-me das mãos e caem no chão, desiludidas.

A loucura aproxima-se em passos sincopados.

As montanhas continuam a perseguir-me como quem procura um louco homicida.

Afinal, até a luz do luar se refugia nos ramos verdes das giestas.

São os meus olhos urzes que florescem em tons rosados de exaltação.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 28 de Março de 2007

A ladeira

 

 

Vejo e não te vejo.

Resguardo-me no cansaço da minha visão que te não vê.

Queria poder ver-te como te via.

São os momentos em que te não vejo ladeiras íngremes.

Há uma imensidão de pedras fazendo o caminho.

É esse o roteiro da subida. A ascensão premonitória. A ilusão.

Tanto quando se desce, como quando se sobe, tem de existir determinação. E não é a determinação da vontade. É, antes, a inevitabilidade do procedimento.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 27 de Março de 2007

A vontade das varandas

 

 

Têm as varandas a vontade suspensa.

Uma mulher numa varanda interrompe o seu olhar panorâmico e sorri. E, nesse sorriso, que é irreflectido, abriga-se a beleza da tarde.

A mão esquerda acaricia o ferro aquecido do corrimão e aí se deixa ficar mais um pouco, como quem espera uma carícia oblíqua.

Os olhos da mulher recolhem-se por momentos dentro das pálpebras húmidas e fixam o verde dos prados.

Tem esse gesto o ritmo lento da respiração calma da mulher.

Não é a mulher que está calma, são os seus gestos. Os seus gestos lisos.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 26 de Março de 2007

Plung, pling, plong, plink, plank…

 

 

Plung, plung, plung, plink, plank, plung, plung, plung, plink, plank, plung, plung, plung, plink, plank, plung, plung, plung, plink, plank,  plung, pling, pling, plink, plank, pling, plong, plang, plink, plank, plong, plang, plong, plink, plank, pling pang, ping, plink, plank, pling, plang, plong, plink, plank, plung, plung, plung, plink, plank, plung, plung, plung, plink, plank, plung, plung, plung, plink, plank, plung, plung, plung, plink, plank, plung, plung, plung, plink, plank…


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 25 de Março de 2007

Os socos revolucionários e as soquinhas surrealistas

 

 

“Com as Minhas Tamanquinhas” (1987, movie play), é um dos melhores álbuns de música portuguesa. Sobretudo porque, sendo José Afonso um cantor identificado como revolucionário, encerra o que é fundamental na genialidade: a simplicidade implícita e não a complexidade explícita.

Na minha opinião, José Afonso é o único cantor de “intervenção” que não perde nem uma milésima da sua a qualidade e actualidade com o passar dos anos.

A sua genialidade reside na sua mensagem implícita. No que diz e não quer dizer. E no que não diz e quer dizer. A sua genialidade insere-se na revolução surrealista, que, mesmo não parecendo, é o oposto da revolução socialista, especialmente do seu sucedâneo neo-realista.

E se, nalgumas canções, as palavras pecam por excesso de apologia revolucionária (no sentido marxista-leninista), a música soa, na sua limpidez, como contraponto genial.

Nenhum cantor de “intervenção” gozou tanto com o lado caricato dos revolucionários encartados, quando não com a mesmíssima revolução. Prova disso é o facto de José Afonso ter fugido do PCP como o próprio diabo da mesmíssima cruz.

Ele conhecia de ginjeira o “Staline” português, quer ele se intitulasse Cunhal ou Manuel Tiago.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 24 de Março de 2007

Joaquim, o Perfeito

 

 

– Espera aqui um pouco que eu já volto – disse eu ao Joaquim, e fui-me embora deixando-o a falar sozinho no meio da multidão.

O Joaquim é bom rapaz mas é chato como a potassa. Enrola-se, e enrola-nos, sempre numa conversa de parvos e não há quem o aguente. Ainda por cima tem o vício de estar sempre a bater-nos nos braços para que lhe prestemos a devida atenção.

Além disso, é daquelas pessoas que, quando fala, não dialoga, impõe. Impõe sempre a sua opinião, que, no Joaquim, não é opinião, mas certeza absoluta. É ele um homem de certezas absolutas. Tem tanta certeza, e tantas certezas, que incomoda.

Se fala de futebol diz logo que o Simão Sabrosa é o melhor jogador do mundo e arredores, pois ele, como se vê, é do Benfica. Não se esquecendo de lembrar, enquanto cospe bolinhas de saliva, que os jogadores do Porto são todos uns trogloditas manhosos e encartados, e os do Sporting uns copinhos de leite misturados com café.

É ele, nas suas próprias palavras e na sua especial visão, o melhor treinador do mundo. Muito melhor que o José Mourinho. Que, na sua douta opinião, não passa de um “treinadorzeco” mediano, arrogante, mas com muita sorte.

Se fala de política, arrasa de uma penada o primeiro-ministro, os ministros e os secretários de Estado. Só ele é que conseguia endireitar o país. E logo se emaranha no enunciado do perfil do seu político ideal: uma mistura de Salazar, Cunhal, Soares, Sócrates, Sá Carneiro, Cavaco Silva e Durão Barroso. Todos misturados num indivíduo só: no Joaquim, claro.

Na sua perspectiva, ele chegava e sobrava para governar Portugal. Só ele sem mais ninguém por perto a importuná-lo. Talvez, se as coisas se pusessem um pouco feias, era capaz de ir buscar alguns directores-gerais para o coadjuvarem. Mas esse cenário só o poderia admitir em casos de extrema gravidade para o nosso querido país.

É esse o protótipo de governo ideal. Ele e só ele. Até dispensava de serviço o próprio presidente da república. E o parlamento. E os respectivos deputados que, na sua óptica, só servem para se sentarem e levantarem e assim ganharem o dinheiro dos contribuintes. Todos eles. Uma cambada de chulos e corruptos.

E quando fala de mulheres é ele o macho perfeito.

Quando fala de maridos é ele o marido perfeito.

Quando fala de filhos é ele o pai perfeito.

Quando fala de pais é ele o filho perfeito.

Só ele é perfeito. O Joaquim.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 23 de Março de 2007

Os buracos da memória

 

 

 

Começaram a aparecer-me buracos na memória. Buracos diversos. Uns maiores que outros. Mas todos significativos.

Alguns são mesmo como buracos negros, cheios de uma energia que tudo absorve à sua volta. São esses os que mais me preocupam, pois consomem toda a sua luz e uma memória sem luz não é uma verdadeira memória.

Até agora conseguia aquecer-me nas chamas da minha memória. A sua luz era-me benéfica. A sua cor quente. A sua intensidade tranquilizadora.

Era a minha memória uma memória inteira. E a ela podia recorrer para me harmonizar.

Agora não. Agora tropeço nos seus buracos e por isso gasto muito mais tempo para avançar.

Cada vez mais a minha memória se parece com um campo de guerra dinamitado.

Antigamente a minha memória era leve. Actualmente, e apesar dos buracos que nela se multiplicam como cogumelos, cada vez pesa mais. Cresce simbolicamente, e, por incrível que pareça, é isso o que a torna mais densa.

Não é fácil conviver com uma memória pesada e cheia de buracos.

Um buraco na memória é uma ratoeira pois lembra-nos a vontade de o preencher com outras memórias, mesmo que falsas. E juntar memórias verdadeiras com memórias falsas é um exercício arriscado. Pois a qualquer momento as podemos trocar e nunca mais as conseguimos distinguir.

É como misturar um documentário científico com excertos de um filme de animação da Disney.

 


publicado por João Madureira às 23:10
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 22 de Março de 2007

A voz silenciosa

 

 

Ando à procura do silêncio, não para silenciar realidades, mas para lhes dar voz.

É essa a voz silenciosa. A voz do silêncio. Não o silêncio da voz. Pois esse silêncio não vibra, não suspira, não respira. Não ama.

O silêncio é, ele próprio, uma busca. É como procurar a imagem perfeita e, à medida que dela nos vamos aproximando, mais ela se afasta, sempre enfeitiçando-nos com a sua beleza inalcançável.

Tanto a verdadeira beleza como o silêncio absoluto são inatingíveis. São, quando muito, um conceito, mas um conceito repleto de significado. O significado do silêncio. O silêncio significativo.

A intenção de silêncio de um ser humano é o acto mais belo e desesperado que existe.

O silêncio não deve ser nem precoce nem tardio. Quando assim acontece não é vivido é, apenas, circunstancial. E um silêncio circunstancial é frívolo. E tudo o que é frívolo é inconsequente. E o silêncio pode ser tudo menos inconsequente.

O silêncio – o verdadeiro silêncio – é um terramoto perfeito. É um cataclismo interior que desfaz tudo à sua volta.

E o verdadeiro silêncio, porque interior, resiste até ao maior barulho, ao escândalo, à repressão, à aleivosia, à imbecilidade.

Se há coisa que o silêncio derrote com dignidade é a imbecilidade humana.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 21 de Março de 2007

Um hífen pessoal e intransmissível

 

 

Chamam-me as folhas. Eu sinto-o. Eu sei-o. Eu pressinto-o.

Sei que me chamam.

Chamam-me as folhas que estão longe. Mas chamam-me, sobretudo, aquelas que já não estão aqui.

Chamam-me as folhas com palavras de silêncio.

Chamam-me de Jerusalém as folhas das oliveiras que escutaram os segredos dos apóstolos de Cristo.

Chamam-me os prosélitos do Antigo Testamento.

Mas eu não sou testemunho, nem testemunha.

Eu sou um Ícaro desiludido. Ou um ácaro intoxicado. Ou um poeta enlouquecido.

Hoje já nem as palavras chamam pelos poetas.

Hoje as palavras são números, são estatísticas, são desculpas.

Agora as palavras já não são palavras, são apenas simbologia barata.

As palavras de hoje são como as folhas das plantas densas de fertilizantes, muito bonitas, mas tóxicas.

Têm, apesar da beleza, um alento mortal.

Morrem hoje as palavras de encontro às folhas queimadas de verde.

É o verde de hoje uma ilusão. São as palavras de hoje uma logro.

Chamo as palavras e elas mentem-me.

Eu sei que não são elas quem me mente, é antes a química fatal de quem as aduba.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 20 de Março de 2007

O princípio da procura

 

 

Houve tempos em que eu andava atrás de alguma coisa, talvez de um sonho, sei lá, talvez à procura de alguém.

Lembro-me que procurava qualquer coisa, algo que não conseguia objectivar.

Há sempre alguma coisa que nos faz falta.

Acho que fazemos falta uns aos outros. Por isso nos procuramos. Por isso temos a certeza que existe sempre algo à nossa espera. Alguma coisa que nos espera.

Comecei a procurar pessoas, várias pessoas com quem sonhava. Nem sequer sabia se existiam. Mas eu procurava-as na mesma. Porque quando se busca algo não interessa se ele existe ou não. O que importa é o princípio da procura.

Todos sentimos que algo havemos de encontrar.

O que interessa é a determinação da procura, não o objecto da procura.

Muitas vezes procuramos uma coisa e encontramos outra que, sendo até diferente daquela que procurávamos, não deixa de ser tão interessante, ou até ainda mais, como aquela que procurávamos. É este o elemento surpresa da procura.

Procurar é um exercício sério. Por vezes é um destino. O destino da procura.

Quando se procura sempre se encontra. É este o princípio da procura. Quem procura sempre encontra.

Por vezes, quando encontramos algo, até já nos tínhamos esquecido do objecto da procura. Mas isso pouco importa, porque o encontro é sempre compensador. Mesmo parecendo que não.

A procura é sempre um caminho. E este é também um dos princípios básicos da procura.

O caminho de quem procura é cada um que o faz. Porque cada um é que sabe aquilo que procura. Mesmo parecendo o contrário.

A procura é sempre pessoal, porque, senão, não existe.

Antes de iniciarmos a procura é essencial procurarmos primeiro o nosso caminho. Essa é a noção básica do seu sucesso.

Sem caminho não há verdadeira procura.

Nem sem caminhante.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 19 de Março de 2007

Plung, pang, pong, ping, peng, plong, plank…

 

 

Plung, plung, plung, plung, plung, plank, plung, plung, plung, plung, pang, plank, pong, ping peng, pang, pong, plank, pang, pong, ping, peng, pang, plung, plank, plung, plung, plung, plung, plung, plank, pang, pong, ping, peng, plung, plank, plung, plung, plung, plung, plung, plank, pang, pong, pang, pong, ping, peng, plank, pang, pong, ping, ping, ping, plank, peng, pung, ping, pung, ping, ping, plank, peng, pung, ping, pung, ping, ping, plank, peng, pung, ping, plung, plung, plank, plung, plung, plung, plung, pung, plank, ping, ping, peng, pung, ping, pung, plank, ping, ping, peng, pung, ping, plank, pung, ping, ping, plung, plung, plung, plank, plung, plung, plung, pang, pong, ping, plank, pang, pong, plung, plung, plung, plung, plank, plung, plung, pung, ping, pang, plank, pong, ping, pang, pong, ping, pang, plank, pong, pung, ping, pang, plung, plung, plank, plung, pang, pong, pung, plung, plung, plank, plung, plung, plung, plung, ping, pang, plank, pong, ping, pang, pong, pung, ping, plank, pung, ping, ping, peng, pung, ping, plank, pung, ping, ping, peng, pung, ping, plank,  pung, ping, ping, peng, pung, ping, plank, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plank, pung, ping, ping, peng, pung, ping, plank, pung, ping, ping, peng, pung, ping, plank


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 18 de Março de 2007

As linhas rectilíneas do tempo curvo

 

 

 

O tempo é como areia escoando-se por entre os dedos da mão.

O tempo corre em linha recta em direcção ao infinito. E o curioso é que dizem que o tempo é curvo, assim como o espaço, assim como o universo.

Tudo se curva.

Também são curvos os olhares dos amantes. Como curva é a melancolia. A melancolia sofre de uma curvatura profunda. A melancolia agrava-se com o tempo. E o tempo escoa-se por entre os dedos do universo.

Mesmo não parecendo, surgem dos ângulos temporais as memórias da vida. Da origem da vida. Da origem. Da vida na origem.

Escoam-se os dedos por entre as infinitas areias do pó de estrelas. Do infinito. No infinito. Nas estrelas. No tempo. Na curva do tempo. Nas estrelas. No infinito que se curva na melancolia dos olhos dos amantes.

Infinitos olhares. Os olhares infinitos que se curvam na melancolia das estrelas. Nas infinitas estrelas dos olhares circulares.

Tudo se curva até ao infinito.

O tempo curvo. A vida curva. As estrelas curvas.

Os amantes curvos.

O tempo circular que é areia a escorrer das nossas mãos a todos os segundos que passam. Esse tempo que é vida e o princípio da morte. Esse tempo que é pouco tempo e todo o tempo do mundo.

A curva do tempo infinito e criador.

O tempo. A curva. A vida. A origem. Absolutamente tudo. Absolutamente nada. Absolutamente. A vida. A curva. O tempo.

O infinito.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 17 de Março de 2007

A escada e o corrimão

 

 

É tudo uma questão de perspectiva.

Há uns que sobem e há outros que descem.

Há uns que descem enquanto sobem e outros que sobem enquanto descem. Há os que andam sempre a descer e há outros que sobem sempre. Há os que sabem que sobem e dizem que descem e há os que descem e têm a impressão que sobem. E há mesmo os que fazem que descem e sobem. Há ainda os que sobem e descem e tornam a subir sem se aperceberem bem daquilo que fazem. Há os que descem a subir e os que sobem a descer. E há os que descem e não querem e há os que sobem sem saber. Existem mesmo aqueles que sobem mas queriam descer e os que sobem com muita firmeza sem saberem que ao subirem dessa forma descem logo a seguir. Uns sobem para logo descer. Outros descem para logo subir. Há também aqueles que descem e não tornam subir, pois essa é a sua firme determinação, e os que descem com a vontade firme de subir logo que possível. Há os que sobem depressa, os que sobem devagar e há outros que sobem nem depressa nem devagar. Há os que sobem com muito estilo. Há outros que só sobem se não forem notados. Há os que só sobem acompanhados. Outros fazem-no durante a noite e ainda outros durante o dia. Há os que descem por mania. E os que descem em conjunto. Há aqueles que nunca sobem por onde desceram. E o contrário também é muito frequente. Existem muitos que descem logo que chegam ao cimo e há outros que o fazem só passado muito tempo. Há outros que sobem e descem, descem e sobem e tornam a descer e tornam a subir e assim sucessivamente, sem tino ou destino.

No caminho que isto leva pode ser a história interminável, mas não, é apenas um exercício de estilo, ou um conceito gasto, ou desnecessário, ou um metáfora andrógina, ou um filme mudo disfarçado de livro profético, ou o princípio de ser degrau enquanto tu és escada, ou outra coisa no género, ou no estilo, porque tu és estilo e eu sou loucura, porque tu és livre enquanto eu sou… eu sou… eu sou… o corrimão?

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 16 de Março de 2007

Tem de haver alguma razão

 

 

 

Por alguma razão objectiva, subjectiva ou outra, os portugueses escolheram como dois dos melhores lusitanos de sempre Oliveira Salazar e Álvaro Cunhal.

 

Tem de existir uma razão profunda para que os coladores de cartazes, os animadores de caravanas eleitorais, as juventudes partidárias, os chefes das secções concelhias ou distritais dos partidos políticos, ou afins, cheguem a vereadores, presidentes de Câmara, governadores civis, secretários de Estado, ministros e, até, administradores de empresas públicas.

 

Há, com toda a certeza, uma explicação científica para que os portugueses oiçam, sem desligar a televisão, a telefonia, ou rasgar o jornal, os “fazedores de opinião” que, quase sempre, utilizam esses espaços para se orientarem no acesso aos cargos e empregos partidários, ou mesmo para chefiarem o Governo.

 

Tem de haver uma razão forte para que os portugueses, depois de votarem nos sucessivos pândegos que nos governam (ou desgovernam?), lhes permitam, a esses responsáveis pelos problemas que criaram ao país, virem à televisão explicar e apontar soluções para essas mesmas dificuldades.

 

Deve haver alguma razão sensacional para que os portugueses votem nos políticos que lhes mentem e rejeitem aqueles que lhes dizem a verdade.

 

E também deve haver uma forte razão para que os políticos que mentem cheguem ao Governo e que só com essas mentiras lhes seja possível conduzir uma política impopular e que, mesmo assim, esses exemplos claros de desonestidade não afectem o Governo e até tenham a nossa aprovação tácita para o PS continuar a liderar, destacado, as intenções de voto dos portugueses.

 

Tem de existir uma razão muito própria para que Fátima seja o recanto da nossa vida espiritual e a identidade do nosso povo.

 

Tem de haver uma razão para que, enquanto nós definhamos, o país aqui ao lado vá prosperando e prosperando e prosperando.

 

Tem de existir alguma razão para que, tendo sido as nossas duas sociedades, (a portuguesa e a espanhola) amordaçadas por regimes autoritários de direita, singularmente corporativos, estatizantes e medíocres, as respectivas cidadanias geradas pela democracia sejam bem distintas.

 

Tem de haver uma razão para que a interactividade em Portugal seja chocantemente amorfa.

 

Tem de haver uma razão plausível para que os portugueses só se queixem, lamentem, mas não se mexam, nem se organizem.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 15 de Março de 2007

O passeio dos santos

 

 

Estão os santos com sorte.

Por vezes os homens ficam generosos e resolvem trazer os seus santos padroeiros a dar um passeio pela cidade.

Os homens passeiam-nos aos ombros, numa cadência certa para as pacientes esculturas não se atrapalharem, ou assustarem.

A virtude dos santos é a paciência. Por isso são santos. E também são seres disponíveis, amáveis, generosos e, muitas vezes, solidários. Já o mesmo não se pode dizer dos homens, pois são seres muito impacientes, cheios de voracidade, ambição, pressa.

Os santos já foram humanos. Agora são mais do que isso, são elementos protectores. E há muitos santos. E diversos. Mais do que um por dia. Todos os dias do ano.

Os homens colocam-nos em altares para assim lhes prestarem a devida homenagem e para a eles recorrerem quando necessitados de apoio, amparo, aconselhamento.

Desta vez alinharam-nos na praça em frente da igreja e desde ali puderam escutar as sábias palavras do senhor bispo que lhes disse interpretar, o que eles deviam interpretar, sem tradução ou missa cantada, num clamor de sentimentos e devoções, mas não deixando de lembrar que, a quem devemos rezar é a Deus, e a quem devemos amar são os seres humanos. Mais coisa, menos coisa. Fora os seres. Ou, talvez, os humanos. Salvo seja. Pois penso que isto é consensual. Não sexual. Nem homossexual. Nem outonal.

Penso que os santos sabem disso muito bem. No entanto deixam-se utilizar como símbolos religiosos. Não é por ambição que o fazem. É por oferecimento. Além disso, os seres humanos tratam-nos bem e até lhes oferecem dinheiro, animais e objectos valiosos em ouro. E eles, porque não ligam às coisas terrenas, confiam-nos aos senhores padres e estes aos senhores bispos e estes, por seu lado, oferecem-nos às pessoas mais necessitadas. Isto num ritmo e cadência muito convenientes. Sempre a fluir. A intenção e a solidariedade sempre a fluírem num ciclo perfeito e ininterrupto. Num ciclo glorioso de dar a quem precisa, de ajudar quem necessita, de auxiliar quem está desprotegido e inseguro. Sempre a fluir a bondade humana. Sempre a fluir a solidariedade. A ir e a vir. A fluir.

E, num gesto de grandiosidade, pegam nos seus santos padroeiros e vão passeá-los para a cidade. Para o burgo os poder contemplar em grupo, para lhes serem prestadas as devidas homenagens. Depois eles vão à frente e a procissão segue-os religiosamente na retaguarda. Num passeio fraterno e contemplativo, abençoando as ruas, as pessoas, as pedras, as ervas, o ar, as nuvens, o céu. Abençoando tudo e todos. Inundando, com as flores que os adornam, a cidade de rubor e odor.

E nós olhando os andores e os andores andando. Tudo como convém. Tudo como Deus manda.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 14 de Março de 2007

O sonho e a realidade

 

 

Quando era criança sonhava ser bailarino. Era uma aspiração bizarra em mim, já que não consigo sequer dançar o baile dos passarinhos, pois tenho pé de chumbo, ouvido de mercador e sofro da síndrome de timidez introspectiva anti-social.

Mas, como ia dizendo, quando era pequeno sonhava muito e mal, como se vê. Sonhava também em ser pintor ou escritor ou agricultor. Sonhava muito em ser agricultor. Mas não era um sonho romântico, como à primeira vista pode parecer. Sonhava ser, não um agricultor à maneira dos meus avós, mas antes um agricultor abastado, com muitos e muitos e muitos hectares de terra, metade sequeiro e outra metade regadio, uma grande floresta, pastos, e até rios para os animais poderem beber à vontade. Queria ser o que hoje conhecemos com um agricultor tipo CAP, que é um agricultor rico, estudado, bem-falante com o seu escritório repleto de projectos financiados pela Europa, ou pelo Estado Português, pois para o dito tanto monta.

Nas minhas fantasias cheguei mesmo a misturar o sonho de ser bailarino com o de ser agricultor abastado. Quando misturava os sonhos via-me a dançar como um cossaco em grandes festas rurais, para espanto dos aldeões, da minha criadagem e, até, para espanto do gado, especialmente do mais chegado, como os cães de caça, os cavalos de trote e os de corrida. Sim, cavalos de corrida, porque sonhava que tinha vários cavalos que ganhavam todas as corridas em que participavam. Mas eu, generoso como me sonhava, distribuía os prémios pelas instituições de caridade, obras de cariz social, apoio à ciência, aos ecologistas e às associações de defesa dos animais desvalidos, abandonados e carenciados e das plantas em vias de extinção. Nunca nos meus sonhos me vi a financiar a política ou políticos porque, os que então conhecia, eram, ao contrário dos de hoje, verdade seja dita, homens pouco sérios, ambiciosos, aldrabões compulsivos e demagogos inveterados. Naquela altura ainda as mulheres não se metiam nessas aventuras. Tinham mais que fazer.

No meu sonho também organizava sumptuosos bailes clássicos, onde tudo vinha vestido a rigor e onde eu me encontrava, por genuíno imprevisto do destino, com uma princesa russa empobrecida, ou outra no género, vítima da fúria revolucionária dos maçons, bolcheviques, ou de ambos ao mesmo tempo, mas linda de morrer, por quem eu me apaixonava perdidamente, bem assim como ela por mim, e onde a própria me fazia declarações de amor na sua língua materna, traduzidas pela sua querida e estimada mãe, que era uma santa, mas que tinha sido violada pelos malditos revolucionários quando cantava ópera numa festa de aniversário do seu querido esposo, um rei honesto, intrépido, sereno, valente, sábio, poliglota, amante da arte e da agricultura e, curiosamente, também ele bailarino de grande talento…

Depois acordava do sonho e ficava tão arreliado com a realidade que, mais tarde, me transformei num revolucionário e fui pérfido durante algum tempo.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 13 de Março de 2007

Da Alma Lusa e outras ilustrações estapafúrdicas

 

 

Ainda me lembro dos soldadinhos de chumbo, dos bonecos de trapos, dos cães de porcelana, dos vasos com flores, ou dos ferros de passar pintados, ou das lamparinas esquisitas.

Eram todos esses objectos elementos significativamente decoradores das nossas casas que, mesmo sendo humildes, estavam repletas de amor e carinho e amizade e fraternidade e solidariedade. O nosso mundo era pequeno, mas autêntico. Quase sempre reflectindo o esplendor reluzente da autenticidade e da pobreza, da sinceridade, do desejo, da urgência da comida, do enlevo da roupa, ou da protecção da religião. Muitas vezes até misturando todas estas coisas em conjunto.

Agora não. Agora o tempo é só incerto, a pobreza uma palavra, a singeleza um subterfúgio, a sinceridade uma ficção, a educação uma treta e a religião uma espécie de diversão.

Agora o que está na moda é rejeitar tudo o que faz parte intrínseca da nossa cultura e aceitar tudo o que vem de fora.

Desdenhamos das meias de lã e compramos meias de plástico. Desprezamos os carros de bois, as mocas de Rio Maior, os malhos tradicionais e compramos bonecos de pau feitos em África, representando gente que não conhecemos, nem gostamos, nem apreciamos.

Hoje os valores estão subvertidos. Em vez de um boi, ou de um burro, ou de uma cabra, ou de um porco, enchemos as nossas casas de girafas, leões, búfalos, hipopótamos, tigres, macacos ou outros bichos do estilo. Como se todos fossemos africanos, retornados, influentes colonizadores, ou adeptos da Interculturalidade.

Compramos os brinquedos aos chineses, as camisolas aos andinos e a bonecada pretensamente decorativa, e a cheirar a graxa, aos africanos.

Estão os transmontanos loucos. Loucos varridos. Isto é, se ainda há transmontanos de gema, pois a mim parece-me que já só existem transmontanos da treta.

Agora as maçãs e a “picanha” que comemos vêm da América do Sul, o peixe chega-nos da Grécia e as sapatilhas da China.

E tudo isto podia até ser cómico se não fosse trágico. Como trágica é a obra de Camões “Os Lusíadas”. Onde este poeta imortal nos fala das ninfas, das ninfetas, dos deuses e das suas cornetas, dos homens de coração puro, dos conquistadores, dos reis lusos, das rainhas lusas, dos bravos portugueses, dos guerreiros destemidos. E da alma lusa. Sim, e da Alma Lusa.

Agora os escritores só escrevem odes à cultura dos outros, à sua música, à sua gastronomia, aos seus etecéteras. Como se todos os outros povos fossem melhores do que o nosso. E esta nova ideologia até podia ser trágica, mas é, apenas, ridiculamente cómica.

Portugal já não é um país de poetas. Agora limita-se a ser um país de gatos fedorentos.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Segunda-feira, 12 de Março de 2007

Plung, pling, plung, plang, plin...

 

 

Plung, pling, plung, plang, plin, plong, plang, plong, pling, plin, plung, plung, plung, plung, plin, pling, plung, pang, plong, plin, ping, pleng, pang, plang, plin, plong, plang, plong, pling, plin, pong, pang, plong, pling, plin, peng, pang, plung, plung, plin, pling, plung, plong, plung, plin, pang, plong, ping, pleng, plin, plung, plung, plung, pling, plin, plung, plung, pang, plong, plin, plang, plong, plang, plong, plin, pling, pang, pong, ping, plin, pleng, pang, plang, plong, plin, plang, plong, pling, pong, plin, pling, plung, plung, plung, plin, pling, plung, plung, pang, plin, pong, pling, pang, pong, plin, plung, plung, plang, plong, plin,  plang, plong, pling, plung, plin, plung, pling, plung, pung, plin, ping, pang, pong, ping, plin, pang, plong, ping, pang, plin, plong, pung, pling, pang, plin, plung, plung, plung, plang, plin, plong, plang, plong, pling, plin, pang, plong, pung, plung, plin, plung, pleng, plung, plung, plin, plung, ping, pang, pong, plin, pling, plang, plong, pung, plin, ping, plung, ping, ping, plin, pleng, pung, ping, plung, plin, ping, ping, pleng, pung, plin,  pling, pung, ping, ping, plin, pleng, pung, ping, plung, plin,  plung, plong, plung, pling, plin, plung, pung, ping, pling, plin, pleng, pung, ping, plung, plin, ping, ping pleng, pung, plin, ping, plung, pling, pling, plin …


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 11 de Março de 2007

A velocidade da luz

 

 

Nada me entusiasma. São os teus olhos objectos raros.

Se o Mundo mudar que mude. São os teus olhos objectos raros. A desafectação impera. Já nada me importa. Eu sou exportação. São os teus olhos objectos raros. O conteúdo da negação. O subterfúgio da obrigação. O desinteresse da endogeneização. São os teus olhos objectos raros

São as perguntas respostas, quando bem feitas. São os teus olhos objectos raros. São as desfeitas outras tantas desculpas, quando reforçadas. Ai os sortilégios! Ai os abrenúncios! Ai os caleidoscópios! Ora, ora, ora, já estás fora de hora e … São os teus olhos objectos raros… e … e … tu és pau e em pau te hás-de transformar.

Não lhe ponhas verniz que estraga. São os teus olhos objectos raros. Não lhe aumentes a intensidade que quebra. Não te armes que não aguentas. Ou … São os teus olhos objectos raros… ou… São os teus olhos objectos raros ou… São os teus olhos objectos raros… ou… vês, já não estou aqui. Nem aí. Nem acolá. Ai a melodia intrínseca à desfeita. Não me desfaças. Não me obrigues. Não te desmembres. Não te deslocalizes. Não te descontentes. Não te “dessexualizes”.  São os teus olhos objectos raros.

Há um membro pronunciado em cada conceito hiperbólico. São os teus olhos objectos raros. Há e há e há e torna a haver. E se não há é porque deixa de haver.

Noutro sentido vai a pronúncia do Norte. São os teus olhos objectos raros.

Antes o Norte que tal sorte. São os teus olhos objectos raros.

Antes a sorte que tal Norte. São os teus olhos objectos raros. Antes a morte que o desalento. São os teus olhos objectos raros. É esta a pronúncia do Nordeste.

Antes o Leste que o Sul.

Já o vento se deslocaliza na imensidão das praias. São os teus olhos objectos raros.

Tu és pó e em pó te hás-de tornar. São os teus olhos objectos raros.

Não te martirizes. Há muito mais céu que olhares. E há muito mais azul que mar. São os teus olhos objectos raros.

Porque me olhas assim? São os teus olhos objectos raros.

Será que sou assim tão estranho? São os teus olhos objectos raros.

Estranho é o teu conceito de proximidade. São os teus olhos objectos raros.

Em cada dia que passa mais a luz se afirma como o princípio de tudo. Tudo é luz ou em luz se há-de transformar. Tu és luz ou em luz te hás-de transformar. São os teus olhos objectos raros São os teus olhos objectos raros São os teus olhos objectos raros. São os teus olhos objectos raros. São os teus olhos objectos raros. São os teus olhos objectos raros… pling, plang, plong… São os teus olhos objectos raros… pling, plang, plong, pling, plang, plong, pling, plang, plong, pling, plang, plong, pling, plang, plong, pling, plang, plong, pling, plang, plong, pling, plang, plong…. objectos raros. São os teus olhos objectos raros. São os teus olhos objectos raros. São os… plang, plong, pling, plang, plong, pling, plang, plong, pling, plang, plong, pling… Tu és luz ou em luz te hás-de transformar... São os teus olhos objectos raros… plong, pling, plang, plong, pling, plang, plong, pling… luz… luz… luz

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 10 de Março de 2007

Sintomas

 

 

Desprendem-se os olhares e depois voam os pássaros na direcção do rio.

O rio é uma ponte e a ponte é uma estrada e a estrada é uma inclinação e a inclinação é uma metáfora e a metáfora é isso mesmo, uma metáfora.

Depois inclinam-se os paradoxos e subvertem-se os devaneios. Vai-não-vai os carros escorregam dentro do próprio ruído e confundem-se com o seu vestígio.

São os sintomas do devaneio.

O dia, dizem, é uma atrapalhação. Também as pedras são sintomas do progresso. E o progresso uma ideologia sucessiva. E o sucesso um contratempo simbólico.

Os sintomas do absurdo são por demais evidentes.

Também eu gostava de ser evidente.

Andar às voltas e nisto que dá.

 


publicado por João Madureira às 22:26
link do post | comentar | favorito
|

O princípio imediato

 

 

Hoje apetece-me correr. Quando se corre pensa-se melhor. Deve ser porque o cérebro fica mais irrigado de sangue ou de qualquer coisa no estilo. Eu costumo pensar enquanto corro. Também costumo olhar enquanto ando e falar enquanto sonho. E também costumo cansar-me enquanto sonho que corro. E quando corro, mesmo sem sonhar. Fora isso, distraio-me com muita frequência. E comovo-me com bastante facilidade. Mesmo enquanto corro. No entanto é com alguma dificuldade que me concentro, independentemente de correr ou não correr, de olhar ou não olhar. Ou de me distrair. Mas penso que estou a sonhar. E distraio-me. Mas a minha grande dificuldade reside no facto de não conseguir entender convenientemente a realidade. Mesmo quando estou em descanso. No fim fico cansado, mas sonho que estou a sonhar. Dizem-me que não percepciono a realidade com a conveniência que ela nos impõe. Por isso considero que devem ter alguma razão. Para mim a realidade parece-me outra coisa, qualquer coisa entre o inventado e a não existência. A realidade parece o meu cansaço. Uma irrealidade física e uma realidade filosófica. Ou, dito de outra forma, se isto que vejo, concretamente, e sinto, algumas vezes, é a realidade, então melhor é não a tentar perceber. Se é que há nela algo que se possa entender.

 

Há um princípio imediato que subsiste à realidade, que é aquele que se baseia em tudo o que está para além dela. Por exemplo, ontem desci 120 degraus, mais coisa menos coisa, e tive a nítida sensação de que os tinha subido. Mais coisa, menos coisa.

Assisti na televisão à festa de aniversário da RTP, na própria RTP, mais coisa menos coisa, e fiquei com a nítida sensação de que estava assistir às bodas de ouro dos meus tios que já morreram.

Quando observei a gala da TVI, pareceu-me assistir ao desfile de carnaval de Aveiro.

E quando hoje espreitei o telejornal pareceu-me observar um aquário de lagostas, e outros crustáceos, num restaurante de Albufeira. Ou por ali perto. Mais coisa menos coisa.

 

Depois apercebei-me, não sem alguma surpresa, que tinha entrado dentro do romance de Robert Musil – O Jovem Törless –, mais precisamente na página 56 da edição portuguesa do Círculo de Leitores, e, aí chegado, não sem algum resignação, aguentei o que sofria o tal rapaz, e, até, com o mesmo vigor das palavras escritas: “Törless recuperou a calma; a estranheza desapareceu, tornando-se cada dia mais irreal, como rastos de um sonho que não se podem afirmar no mundo real, firme e ensolarado”.

 

Ao fim do dia senti, com algum desconforto, diga-se de passagem, que embati contra o vidro da janela da sala de jantar, enquanto voava e zunia com algum desalento rebarbativo.

 


publicado por João Madureira às 00:22
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 8 de Março de 2007

Amarcord

 

 

Lembras-te?

Eu lembro-me. Lembro-me de ti. Lembro-me de mim. E lembro-me de me lembrar de ti quase todos os dias. Também me lembro de me lembrar dos dias em que me lembrava de ti.

 

Há qualquer coisa de estático na estética.

E há, com toda a certeza, algo de estético na estática da espera.

 

Lembro-me que enquanto te esperava me enchia de tristeza por causa da solidão que me abafava.

 

A espera é uma desilusão.

 

Eu não sei esperar!

A espera deixa-me exausto.

 

Julgo saber que passeava na tua lembrança. As árvores ondulavam ao vento, a chuva fazia pequenos regos de água na rua, os pássaros recolhiam-se debaixo da ponte e eu olhava para a curva por onde devias aparecer.

 

Toda a espera tem a lógica do desalento. Por vezes as horas dormem nos nossos sonhos. E isso pode ser considerado como um momento de felicidade.

 

Eu esperava-te encostado a uma árvore olhando para as horas do relógio da igreja.

 

Então curvava um pouco o olhar e voltava a lembrar-me de me lembrar de ti. Sentia-te aparecer. Eu sentia-te aparecer. Mas não aparecias. Nesse momento lembrava-me de que aparecias sempre um pouco depois de te sentir aparecer. O que aparecia primeiro eram os teus olhos. O verde dos teus olhos. Depois chegavam os teus passos quentes e as tuas mãos preenchidas de estética. Também os teus cabelos apareciam de encontro ao meu olhar. E os teus lábios. Sim, lembro-me que os teus lábios apareciam cheios, quase prontos a explodirem nos meus.

 

Lembro-me que naquele momento também eu aparecia na espera. Eu era eu mais a minha espera. Era quase tu. Mas ainda era eu quem te esperava.

 

A curva da estrada, então, alongava-se até chegares perto de mim e beijava-te lembrando-me de te lembrar para me lembrares quando ficava aflito na tua lembrança.

 

Ficava aflito. Parecia calmo, mas estava aflito.

Como te digo, eu não sei esperar. Fico aflito porque sei que chegas sempre um pouco depois de eu te sentir aparecer.

 

Eu lembro-me de ficar aflito por te ver aparecer no sítio onde o tempo faz a curva.

 

Ainda hoje o verde dos teus olhos me aflige porque chego sempre um pouco antes de ti.

 


publicado por João Madureira às 22:50
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 7 de Março de 2007

O descanso

 

 

Deixem-me descansar em paz.

Agora tudo me apoquenta. São os anos, as varizes, as artroses, a tensão alta, o colesterol, a diabetes, a ulcera, os dentes, os pulmões, o coração, a vista e tudo e tudo e tudo.

Agora canso-me por tudo e por nada. Estou perto do fim.

É a vida!

Todos os anos venho aqui visitar os meus antepassados, pôr-lhes flores nas campas, conversar um bocadinho com cada um. E tenho aqui muito com quem conversar. Quase todos os que me eram próximos já para aqui estão em silêncio, à minha espera. Mas eu teimo em ficar mais um pouco. Por isso ainda agora mesmo me sentei nas escadas deste jazigo. É túmulo de rico, mas de certeza que não se importa que uma pobre de Cristo se sente nas suas escadas.

Preciso de descansar. Eu canso-me muito. É do coração. E dos pulmões e tudo e tudo e tudo. As pernas já não me ajudam. Também se cansam, as coitadas. Elas já andaram muito, verdade se diga. É que antigamente tudo andava a pé, não é como nos dias de hoje em que anda tudo de carro. Agora só não vão de “popó” para o café porque não cabem na porta. Mas com o tempo lá chegarão.

Os que andam de carro também se cansam. Cansam-se de andar de carro e cansam-se quando se sentam e quando se levantam e quando dão dois passos.

Também, pudera, não fazem nenhum exercício físico e depois é aquilo que se vê: todos sofrem das doenças da fartura.

No meu tempo era tudo mais elegante. Lembro-me que quando andava na escola éramos todos como espetos, delgadinhos e com olhos e orelhas de rato. Havia muita fome e pouca fartura. O que antigamente escasseava, hoje sobra. Mas a vida continua complicada como sempre.

É curiosa a vida!

Antigamente sonhava-se com comida. E roupa. Todos queriam ser rechonchudos, pois a magreza era sinal evidente de pobreza, bem assim como os remendos na roupa.

Hoje não. Hoje tudo quer ser magro e andar com as calças todas rotas e coçadas e com blusas tão curtas que se lhes vê quase tudo o que não é para ver.

São curiosas as pessoas!

Quando têm a possibilidade de serem rechonchudinhas e andarem bem vestidas, preferem fazer dieta até ficarem doentes e trajarem roupa de mendigos, ou de parvos.

São curiosas as pessoas!

E agora desculpem-me mas tenho de os deixar e ir falar ali com os meus. Faço-o sempre primeiro com o meu marido, que em paz descanse. Depois vou visitar os meus pais e algum dos meus irmãos e tias e primos e alguns meus amigos e colegas.

Os que me enchem o pensamento já quase todos aqui repousam.

É este o meu território de memória.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Terça-feira, 6 de Março de 2007

Está tudo fotografado

 

 

Uma imagem é óbvia.

As palavras são outra coisa. São coisas de outros. São causas próprias em terrenos alheios. São ideias em busca de concretização.

Uma imagem é a concretização à procura de uma ideia.

Uma imagem é óbvia porque o que é óbvio não se diz, sente-se.

O que é óbvio, obviamente, vê-se, não se descreve.

As palavras servem para descrever, não para olhar uma imagem.

As imagens são sensações objectivas.

Como objectivos são os momentos que se captam através da lente de uma máquina fotográfica.

Quase sempre uma objectiva é indiscreta. E o que é indiscreto incomoda-nos. Mais do que isso, o que é indiscreto tem a característica de nos desesperar, tem a particularidade de nos expor, tem a deselegância de nos incomodar.

Por vezes acontece que uma fotografia mostra tudo sem dizer nada. É essa a sua forma de dizer tudo, mas sem palavras.

Há pessoas que postas perante uma máquina fotográfica logo se disfarçam de outras.

Há outras que se encontram a elas próprias, como se andassem perdidas.

Ainda há aquelas que ficam logo indistintas, como se fossem criaturas subjectivas. Como se objectivamente não existissem.

Há fotografias que, mesmo nada dizendo, dão muito que pensar.

Há também palavras que, mesmo muito objectivas, permanecem, sobretudo, subjectivas.

E, como diz o poeta, já há subjectividade suficiente para não se pensar metafisicamente em nada.

É óbvio que as palavras não fotografam lá grande coisa. Assim como existem fotografias que não falam lá muito bem.

No entanto há sempre alguém que é aldrabado.

Uma fotografia também pode aldrabar muito. Por vezes até dizem a verdade. Mas isso pouco importa.

Para quê importar-nos com filosofias se a vida é para ser vivida.

É que há quem viva sem palavras, mas também há quem fale por imagens.

Está, pois, tudo… fotografado.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 5 de Março de 2007

Ping, plong, plung, plung, pang, peng…

 

 

Ping, peng, pang, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, pong, pang, pong, ping peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, ping, peng, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pleng, plang, plong, plang, plong, pling pang, pong, pang, pong, pang, pong, pang, pleng, plang, plong, plang, plong, pling, pong, ping, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plang, plong, plang, plong, pling, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plang, plong, plang, plong, pling, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, plung, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, pong, ping, peng, pang, pang, pong, ping, peng, pang, pong, pang, plong, pling pleng, plang, plong, plang, plong, pling, plang, plong, plang, plong, plang, plong, pling, pleng, plang, plong, plang, plong, pling…


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 4 de Março de 2007

A luz da tua sombra

 

 

Enrique Vila-Matas, no seu livro Mal de Montano, que ele designa como a “doença da literatura”, escreve o seguinte: “A literatura permitiu-me sempre compreender a vida. Mas precisamente por isso deixa-me à margem dela”.

 

E mais adiante: “Então agarras-te ao que tens mais à mão: falas de ti mesmo. E ao escreveres sobre ti mesmo começas a ver-te como se fosses outro, tratas-te como se fosses outro: afastas-te de ti mesmo à medida que te aproximas de ti mesmo”.

 

Para rematar a ideia, cita o poeta António Machado: “Também a verdade se inventa”.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 3 de Março de 2007

Resguardos

 

 

A vida é, por vezes, uma parede. Uma parede feita de teimosia e silêncio.

A vida é uma composição metódica, mesmo parecendo anárquica.

A vida é um aforismo.

Uma parede é um eufemismo.

Eu sou uma eufonia.

 

De ladrilhos se compõe o rectângulo de um olhar desconfiado.

Eu sempre desconfiei de olhares ladrilhados.

Eu gosto de pessoas que têm olhares condimentados.

Dizem-me que é por causa das cores.

 

A cor é um movimento de luz, uma gôndola que atravessa Veneza.

A luz é uma libação que não autoriza divergências semânticas.

 

Adormecem as paredes na ternura da noite.

 

Tu és teia hiperbólica que a aranha não tece, hipnotiza.

 

Pudesse eu substituir a luz e as cores sonhariam em compor, de novo, a luz deslumbrante dos quadros de Vermeer.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Sexta-feira, 2 de Março de 2007

Castiçais ambulantes

 

 

E lá vamos de novo em procissão. Uns andam. Outros observam. Ou melhor: todos observamos. Os que estão parados observam os que andam. E os que andam observam os que estão parados.

Isto é tudo um jogo de reflexos.

Uns estão parados porque esperam pela sua vez de entrarem na procissão. Esses são os pacientes.

A vida é uma eterna paciência. O mesmo se pode dizer de uma procissão.

Uma procissão é, sobretudo, paciência. É paciência e fé. Mas é, sobretudo, paciência.

Alguns observam a procissão das suas janelas, onde previamente colocaram lindas colchas em homenagem a Deus e aos homens e às mulheres que o veneram.

A procissão é um exercício de organização espontânea. Ou quase. No Homem quase nada é espontâneo. E muito menos na religião.

Quando era pequeno assisti e participei em muitas procissões. Ainda me lembro de algumas delas. Sobretudo das que se realizavam durante a noite e onde se usavam velas. Pareceriam almas, as velinhas. Não os seres humanos, esses assemelhavam-se a castiçais ambulantes.

 


publicado por João Madureira às 22:00
link do post | comentar | favorito
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 11 seguidores

.pesquisar

 

.Novembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9


21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. 368 - Pérolas e diamantes...

. No Porto

. No Porto

. No Porto

. Poema Infinito (380): O p...

. No Porto

. No Porto

. 367 - Pérolas e diamantes...

. Em Montalegre

. Em Montalegre

. ...

. Poema Infinito (379): Pro...

. Em Montalegre

. Em Montalegre

. 366 - Pérolas e diamantes...

. Na Feira dos Santos

. Na Feira dos Santos

. Na Feira dos Santos

. Poema Infinito (378): As ...

. Na Feira dos Santos

. Na Feira dos Santos

. 365 - Pérolas e diamantes...

. Na feira do gado - Santos...

. Na feira do gado - Santos...

. Na feira do gado - Santos...

. Poema Infinito (377): Sím...

. Na feira do gado - Santos...

. Na feira do gado - Santos...

. 364 - Pérolas e diamantes...

. No Louvre

. No Louvre

. ...

. Poema Infinito (376): O d...

. No Louvre

. No Louvre

. 363 - Pérolas e diamantes...

. Louvre - Interiores

. Louvre

. Louvre

. Poema Infinito (375): O g...

. Louvre

. Em Paris

. 362 - Pérolas e diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (374): Lab...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 361 - Pérolas e diamantes...

.arquivos

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.Visitas

.A Li(n)gar