Domingo, 31 de Janeiro de 2010

Portefólio – São Caetano/Ervededo


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Sábado, 30 de Janeiro de 2010

O Homem Sem Memória

 

1 - Puseram-lhe o nome de José. José o pai de Jesus. O pai adoptivo de Jesus. José era também o nome do padrinho. José era ainda o nome do avô materno, o pai do seu padrinho. Baptizaram-no junto à pequena pia da igreja da aldeia. Deitaram-lhe a fria água benta na cabeça, chegaram-lhe uma pedrinha de sal aos lábios e chorou. Chorou por causa da água fria, do sal ainda hoje gosta. Do gosto do sal simples. Isto apesar da hipertensão. Ou talvez por isso mesmo. Depois desenharam-lhe uma cruz a óleo na testa e o senhor abade despachou a família e os poucos acompanhantes para fora do templo dizendo vá vá lá para fora que está na hora do meu almocinho.

Os seus pais e os poucos convidados comeram o que encontraram lá por casa e daí dirigiram-se às poulas de cada um para as trabalharem com a pouca vontade que tinham.

E o bebé andou sempre daqui para ali como mais um empecilho na vida complicada dos pais. Naquele tempo, os filhos eram um mal necessário. O fruto destemperado do viço. Não uma flor de cheiro, ou um bibelô, como os de agora, que são programados ao minuto e educados como príncipes, sobrando as orelhas de burro para os pais.

Criou-se o José entre os alforges do jerico e um caixote feito de ripas de madeira. Também o asno se chamava, por vezes, José. Como o avô. Conhecido como o burro do José. O Zé do canto. A mulher, a Maria do cântaro. Os bois também faziam parte da família, a um chamavam amarelo e ao outro castanho. Um era bravo e outro manso. Como convém a uma junta.

Nasceram ainda mais cinco irmãos. Mas deles mal se lembra. Recorda-se de ser pequeno. Ou melhor, não se recorda nada da sua infância, só do frio e da casa velha, que pensava grande mas que era, afinal, pequena.

Reconhece os pais, os avós e os irmãos pelas fotografias e apenas quando está a olhar para elas. Passados dois ou três dias são já na sua lembrança apenas vultos indistintos. A sua memória confunde tudo. Ou tudo inventa. Retalha a realidade e compõe-na arbitrariamente.

Da sua infância pensa recordar-se de estar à janela e ver os bêbados passarem nas noites de luar a cantar e mijarem junto à entrada do corte dos animais. Ou pensa lembrar-se de alguns homens levarem moças novas para os palheiros. Alguns, as próprias cunhadas ou irmãs. Outros, as filhas.

José não consegue lembrar-se direito do sucedido. Baralha tudo. Teve sempre uma mente propícia ao pecado. À especulação. Nunca conseguiu distinguir direito a realidade da ficção. Pensa lembrar-se que o seu pai era um homem sem vontade. E a sua mãe uma mulher lamurienta e agressiva. Agressiva para o pai, para os irmãos e para ele. Agressiva e triste. Uma mulher destemperada. Alucinada. O pai escondia-se atrás do fumo dos cigarros e nos efeitos do vinho e não dizia nada. Assistia. Deixava que o tempo pudesse intervir. Mas a violência de uma vida sem préstimo e sem rumo é difícil de viver e, sobretudo, deixa marcas irreversíveis na cabeça de cada um. Daí talvez a sua não reter nada. Ou quase nada. Ou misturar tudo. Num processo de renascimento perpétuo. Num esforço de reprovação da realidade.

 

2 – A gostar de alguém, o José gostava do burro do seu avô, o José, o burro, não o avô. Do avô também gostava, mas não tanto. Ou melhor, não tem nada claro se gostava ou não do avô. Do burro gostava. Gostava do burro porque era calmo, transportava as pessoas sem se lastimar, comia quando tinha de comer, nunca tinha pressa, montava as burras ao ar livre, não se escondia em palheiros.

Gostava ainda do menino Jesus, mais tarde chamado de Cristo, o suposto filho de José e Maria. E de Deus também.

A primeira vez que viu o menino de fralda branca foi estendido nas palhas do presépio da igreja, pois presépio próprio era coisa de fidalgos, com dois dedinhos das mãos em riste num gesto em tudo idêntico aos das senhoras finas e dos maricas quando bebem chá. Ou quando fumam. O menino era loiro, rosado, gordinho, risonho, o bebé ideal para mães ideais. Não para a sua que era rude e agressiva.

Muitas vezes pensou não ser filho de seus pais mas sim descendente de outras criaturas. Ou mesmo extraterrestres. Desde já deve ficar claro que nunca aspirou a ter um pai como Deus. Ou uma mãe como Maria. Contentava-se com bem menos. Apenas aspirava a ter uma mãe que não lhe gritasse e lhe desse carinho. Que fosse educada.

O menino do presépio era muito parecido com o neto do seu colega belga. Até no jeito amaneirado de sorrir e de mamar o leite pelo biberão.

Ajudou muitas vezes a montar o presépio na igreja matriz de Névoa onde o menino era mesmo um pouco maior do que um bebé de carne e osso. Unicamente o menino botava figura a três dimensões, todos os outros personagens eram desenhos recortados em madeira e delineados e pintados com tinta plástica. José, o putativo pai, era um homem velho e de aparência singela. Mais do que pai, parecia avô. A mãe estava desenhada com traços de uma jovem virgem calma e feliz. O menino sorria. O burro olhava a direito para Jesus. Maria contemplava embevecida o menino. A vaca examinava Maria. As ovelhas observavam o pastor. O pastor mirava para os Reis Magos. Os reis magos estudavam o céu estrelado.

Quando jovem, José, depois de uma noite de borga, foi cúmplice de um seu amigo que resolveu, num gesto revolucionário, urinar para as palhinhas da manjedoura onde o mesmo menino Jesus da sua infância sorria. Apesar da desfeita, o menino não deixou de sorrir. Ao revolucionário nasceu-lhe uma verruga na ponta do pénis.

Tudo o que fica dito, dito está. No entanto, para homem sem memória, o nosso José parece entrar em contradição. Mas é bom avisar que tudo o que ele conta lhe vem das recordações, se reais ou induzidas, isso só Deus sabe. Ou nem mesmo ele.

 

3 – José tem os olhos postos no “Sol” e nem quer acreditar. Já são passados 10 anos sobre a morte de Alberto Punhal. O Grande Líder. O Camarada de Cristal. Lá frio como a pedra era. Agora camarada. Camarada das suas ideias, podemos admitir que o foi. Mas camarada dos camaradas, só por pura ironia. Ou subserviência. Punhal foi sempre um homem de certezas absolutas. De verdades totais. De ideias fixas. Ninguém saía de uma reunião do Comité Central a pensar de forma divergente da de outro camarada. As diferenças unicamente eram possíveis no início dos debates. No final de cada reunião todos os camaradas pensavam da mesma maneira. De uma só forma. A uma só voz: a sua.

O “Sol” é um dos três jornais do regime. A voz do Governo e do Estado. A voz de Punhal. Ocupa o lugar do filho no triunvirato divino. O Pai é “A Verdade”, a voz do Partido. A voz profunda e ideológica de Punhal. O Espírito Santo escreve no “Verbo”, a voz da Igreja, a voz do Cardeal Pereira, que é amigo do regime. Ou se faz. Por isso abençoou o comunismo à portuguesa. Numa mistura típica lusitana. Tal e qual o cozido. O comunismo português triunfante em 1975 continua a reinar, num país que persiste em ser o mais atrasado da Europa. Que persevera na política do orgulhosamente só.

Actualmente Portugal tem duas romarias nacionais: a Festa da “Verdade” e Fátima. A primeira serve principalmente a espiritualidade da esquerda marxista-leninista, situada preferencialmente na Grande Lisboa e Alentejo. A segunda dá vazão à fé cristã da população do Norte.

Na Festa da “Verdade” comem-se caracóis, bebe-se cerveja e dança-se ao som da música rock e das canções de intervenção; na romaria de Fátima, com o acréscimo do socialismo científico, predomina agora o som das bandas de música e dos cantores populares, o churrasco de frango e o vinho tinto. A unir as duas festas persiste o fado moderno, o fado trova, o fado festa, o fado oração, que tanto canta os milagres dos pastorinhos como enaltece as virtudes divinatórias de Alberto Punhal.

 

4 – José gosta de reivindicar para si, como marca distintiva, as suas origens rurais. Mas ninguém o leva a sério. Saiu da sua aldeia com apenas um ano de idade e rumou caras a Lisboa. Podemos dizer que era o maior embrulho que os pais transportavam como bagagem. No Verão passava algum tempo na aldeia, na companhia da mãe. Mas eram férias. Porque muito mais lavado, penteado e anafado que os tristes meninos que viviam na aldeia, os seus avós passeavam-no como um troféu de caça, ou um bezerro recentemente adquirido e que, de certeza, se iria transformar num boi valente e guerreiro. Não destinado à lavoura, antes predestinado para a cobrição do gado rachado. O avô José transportava-o no burro. A avó passeava-o pela mão. Aldeia acima, aldeia abaixo. Habituou-se, por isso, a observar a subserviência dos pobres coitados que, porfiando no trabalho, apenas amealhavam miséria e fome. Os meninos que viviam na aldeia eram magros, sujos e maus. Tratavam-no com desdém, roubavam-lhe as bolachas, chamavam-no de filho-da-puta, paneleiro e cabrão. Ele apenas chorava, por isso as crianças teimavam nas palavras. E ele tornava a chorar e a dizer à mãe que os meninos eram “veras” e que queria ir embora.

Os avós e os tios trabalhavam nas terras como escravos. Sempre sujos, remendados, dizendo asneiras como os meninos, suando como os cavalos, cheirando como os bois, bebendo vinho como água. Quase sempre recusava a comida: os chícharros com couves regados com azeite rançoso, as batatas com grelos e carne gorda, o caldo de unto. E rejeitava o pão, que era centeio, escuro, duro e amargo. Por vezes a avó comprava-lhe, com muito sacrifício, um que outro “biju” e dava-lho barrado com margarina. Ele comia-o com gosto. Mas no resto da comida não tocava. Fazia apenas uma excepção: as batatas fritas às rodelas com presunto.

Era um verdadeiro fidalgo. Falava assertivamente carregado de vês. Mordia os primos e dizia-lhes que era muito mau, quase tão mau como os meninos que o castigavam com pontapés e cachaços. Eles só não lhe retribuíam o procedimento porque tinham medo da mão grossa e pesada do avô e da fina vergasta da avó. Por isso lhe tinham um ódio profundo.

Foi a partir daí que passou a desdenhar das ameaças veladas dos pobres coitados. A aldeia para ele foi sempre uma marca distintiva da protecção dos eleitos. Porque foi escolhido como o neto querido, aprendeu a necessidade de cair nas boas graças dos que têm o poder. Pois sempre assim foi e sempre assim será. Isso ele sabe-o muito bem. É o que se pode chamar de certeza absoluta. Mais totalitária que o marxismo-leninismo e o seu Partido e mais perfeita do que Deus e a sua Igreja. Mais completa, ainda, que a ciência, que, sendo estrutural, é também uma verdade compósita e em constante movimento. Uma verdade humana que ultrapassa em ciência a própria ciência, ultrapassa em ideologia o marxismo-leninismo e a respectiva dialéctica e ultrapassa em ensinamento as epístolas dos apóstolos bíblicos e até as instruções do próprio Deus.

 

 


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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

A história dorme uma longa sesta

“Esta tarde, porém, a história dorme uma longa sesta como normalmente sucede entre o fim de uma guerra e o início de outra. Mais de cem mil soldados soviéticos preparam a retirada do Afeganistão depois de se verem reduzidos a comer fatias de pão barradas com graxa de sapatos, e esses homens que vemos nas imagens televisivas são os vencedores indiscutíveis. Preparam-se para a paz e, porque são indivíduos cautelosos, vieram a Bahawalpur comprar tanques enquanto aguardam o final da guerra fria. Cumprida a missão daquele dia, apanham o avião de regresso a casa. Com os estômagos cheios, esgotaram os assuntos de conversa inconsequente. Nota-se a impaciência própria de gente educada que não quer ofender ninguém. Só mais tarde é que as pessoas dirão: Reparem nessas imagens, reparem como caminham, com passos cansados e relutantes, salta à vista que estavam a ser conduzidos ao avião pela mão invisível da morte.

As famílias dos generais vão receber uma generosa indemnização e as urnas envoltas em bandeiras, com instruções rigorosas para não as abrirem. As famílias dos pilotos serão detidas e encerradas em celas com os tectos salpicados de sangue, durante uns dias, e depois mandadas embora.

(…) O que encontraram entre os destroços do avião não foram cadáveres, não foram mártires de semblante sereno, como pretendeu o exército, não foram homens desfigurados e estropiados, não suficientemente fotogénicos para serem mostrados na televisão ou as famílias. Despojos. O que encontraram foram despojos. Pedaços de carne agarrados aos fragmentos dispersos do avião, ossos calcinados a assomarem por entre o emaranhado de metal retorcido, membros decepados e rostos convertidos numa massa de carne rosada. Ninguém poderá dizer se o caixão enterrado no cemitério de Arlington não contém partes dos despojos do general Zia ou se quem jaz sepultado na mesquita Faizal de Islamabade não são os despojos da estrela mais brilhante do Departamento de Estado. A única coisa que se pode afirmar com toda a certeza é que essas urnas não contêm os meus despojos.

É verdade, eu fui o único que se salvou.

(…) Até me levaram de regresso a casa.

(…) Os culpados cometem os delitos e os inocentes são castigados. É assim o mundo em que vivemos.

(…) É certo que se pode acusar os nossos homens de uniforme de muita coisa, mas nunca de serem imaginativos.

 

O Caso das Mangas Explosivas Mohammed Hanif Porto Editora

 


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Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

Portefólio – Feira dos Santos – Chaves – PB


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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Por trás da imobilidade das mãos das crianças violadas

 

O perdão não existe. Por trás da imobilidade das mãos das crianças violadas a beleza fermenta e celebra cadências onde figuras arrefecidas sopram manhãs vestidas de frio por cima das cabeças geométricas dos meninos pobres onde a luz bate e é esse o espírito de deus que responde abrasando jactos de imperfeição onde estrelas embriagadas continuam a soprar num vazio brando do tamanho de buracos negros. O perdão não existe. O deus louco das palavras inunda-me o cérebro de estupor. O perdão não existe. Os monstros não podem pedir perdão. O perdão não existe. As crianças imóveis choram trajando o frio violento da indiferença. O perdão não existe. Toda a noite as crianças rompem o silêncio da morte onde vozes celebram a assustadora fosforescência dos olhos exaltados. O perdão não existe. Tudo se espalha numa brancura explosiva. O perdão não existe. Uma vagarosa manhã de água inunda o rosto do mundo. O perdão não existe. A beleza gasta das mulheres despidas espanta os mortos. O perdão não existe. O prestígio das catástrofes compensa e engrandece. O perdão não existe. Os homens poderosos acordam a peste magnética das florestas atravessadas pelo inferno. O perdão não existe. Dentro das cidades os santos empobrecidos pela fé anémica dos fiéis dormem encostados às portas das igrejas. O perdão não existe. O hálito podre dos violadores expele a morte lenta do desejo. O perdão não existe. As mães mortas martelam a carne das roseiras bravas. O perdão não existe. Alguém corta a carne dos pensamentos destruídos dos abusados. O perdão não existe. Os pedófilos infelizes estendem a morte por cima das mães estranguladas de dor e ódio. E os seus filhos gemem debaixo do horror da violentação. O perdão não pode existir.


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Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Portefólio – Tâmega (em) cheio


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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

O Homem Sem Memória

 

4 – José gosta de reivindicar para si, como marca distintiva, as suas origens rurais. Mas ninguém o leva a sério. Saiu da sua aldeia com apenas um ano de idade e rumou caras a Lisboa. Podemos dizer que era o maior embrulho que os pais transportavam como bagagem. No Verão passava algum tempo na aldeia, na companhia da mãe. Mas eram férias. Porque muito mais lavado, penteado e anafado que os tristes meninos que viviam na aldeia, os seus avós passeavam-no como um troféu de caça, ou um bezerro recentemente adquirido e que, de certeza, se iria transformar num boi valente e guerreiro. Não destinado à lavoura, antes predestinado para a cobrição do gado rachado. O avô José transportava-o no burro. A avó passeava-o pela mão. Aldeia acima, aldeia abaixo. Habituou-se, por isso, a observar a subserviência dos pobres coitados que, porfiando no trabalho, apenas amealhavam miséria e fome. Os meninos que viviam na aldeia eram magros, sujos e maus. Tratavam-no com desdém, roubavam-lhe as bolachas, chamavam-no de filho-da-puta, paneleiro e cabrão. Ele apenas chorava, por isso as crianças teimavam nas palavras. E ele tornava a chorar e a dizer à mãe que os meninos eram “veras” e que queria ir embora.

Os avós e os tios trabalhavam nas terras como escravos. Sempre sujos, remendados, dizendo asneiras como os meninos, suando como os cavalos, cheirando como os bois, bebendo vinho como água. Quase sempre recusava a comida: os chícharros com couves regados com azeite rançoso, as batatas com grelos e carne gorda, o caldo de unto. E rejeitava o pão, que era centeio, escuro, duro e amargo. Por vezes a avó comprava-lhe, com muito sacrifício, um que outro “biju” e dava-lho barrado com margarina. Ele comia-o com gosto. Mas no resto da comida não tocava. Fazia apenas uma excepção: as batatas fritas às rodelas com presunto.

Era um verdadeiro fidalgo. Falava assertivamente carregado de vês. Mordia os primos e dizia-lhes que era muito mau, quase tão mau como os meninos que o castigavam com pontapés e cachaços. Eles só não lhe retribuíam o procedimento porque tinham medo da mão grossa e pesada do avô e da fina vergasta da avó. Por isso lhe tinham um ódio profundo.

Foi a partir daí que passou a desdenhar das ameaças veladas dos pobres coitados. A aldeia para ele foi sempre uma marca distintiva da protecção dos eleitos. Porque foi escolhido como o neto querido, aprendeu a necessidade de cair nas boas graças dos que têm o poder. Pois sempre assim foi e sempre assim será. Isso ele sabe-o muito bem. É o que se pode chamar de certeza absoluta. Mais totalitária que o marxismo-leninismo e o seu Partido e mais perfeita do que Deus e a sua Igreja. Mais completa, ainda, que a ciência, que, sendo estrutural, é também uma verdade compósita e em constante movimento. Uma verdade humana que ultrapassa em ciência a própria ciência, ultrapassa em ideologia o marxismo-leninismo e a respectiva dialéctica e ultrapassa em ensinamento as epístolas dos apóstolos bíblicos e até as instruções do próprio Deus.

 


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Domingo, 24 de Janeiro de 2010

Portefólio – São Caetano/Ervededo


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