Sexta-feira, 30 de Abril de 2010

As flores também vão para o Inferno

 

“– Sabias que o velho Mr. Radley era um Anabaptista lava-pés dos sete costados?...

– Isso é o que a senhora é, certo?

– Não sou assim tão devota, minha filha. Sou uma Anabaptista.

– Vocês não acreditam todos na cerimónia do lava-pés?

– Acreditamos. Em casa, na banheira.

– Mas nós não podemos comungar com vocês todos…

Aparentemente decidindo que era mais fácil definir o anabaptismo primitivo do que a comunhão fechada, Miss Maudie afirmou:

– Os lava-pés acreditam que tudo o que dá prazer é pecado. Sabias que um destes sábados houve alguns que saíram da mata e vieram p’rá aqui dizer-me que eu e as minhas flores íamos para o Inferno?

– As suas flores também?

– Sim, senhora. E que vão arder juntamente comigo. Achavam que eu passava demasiado tempo a desfrutar da Natureza que Deus nos deu e não dentro de casa a ler a Bíblia.

A minha confiança nos sermões do púlpito diminui com a visão de Miss Maudie a arder para sempre nos vários infernos Protestantes. Era verdade que ela tinha uma língua afiada e não andava propriamente pelo bairro a fazer boas acções, como fazia Miss Stephanie Crawford. Mas enquanto ninguém que tivesse um pouco de tino confiava em Miss Stephanie, eu e o Jem tínhamos uma confiança quase inabalável em Miss Maudie. Nunca tinha feito queixa de nós, nunca nos tinha perseguido e não estava minimamente interessada na nossa vida privada. Era nossa amiga. Por isso não compreendíamos como é que uma criatura tão atinada podia viver com o perigo do eterno tormento.

– Mas isso não está certo, Miss Maudie. A senhora é a melhor pessoa que conheço.

Miss Maudie sorriu.

– Obrigado, minha cara amiga. O problema, é que os lava-pés pensam que as mulheres por si só já são um pecado. Sabes, eles levam a Bíblia à letra.

(…) – Retira já o que disseste, rapaz!

Esta ordem, dada por mim ao Cecil Jacobs, marcava o início de tempos um tanto ou quanto conturbados, tanto para mim, como para o Jem. Cerrei os punhos e estava pronta apara atacar. O Atticus já tinha prometido que me castigava se soubesse que eu tinha andado à pancada, já era bem crescidinha para coisas tão infantis, e quanto mais cedo aprendesse a controlar-me, melhor seria para todos. Mas depressa me esqueci de tudo isso.

A culpa foi toda do Cecil Jacobs. Tinha andado a dizer no recreio da escola que o paizinho da Scout Finch defendia os pretos. Eu neguei-o. Mas depois até contei ao Jem.

– O qu’é qu’ele q’ria dizer com aquilo? – perguntei.

– Nada – disse o Jem. – Pergunta ao Atticus, ele explica-te.

– Defendes pretos, Atticus? – perguntei-lhe eu nessa mesma tarde.

– Claro que sim. Não digas preto, Scout. É feio.

– Mas’é o qu’toda a gente diz na escola.

– Então, a partir de agora passa a ser toda a gente, menos uma pessoa…

– Mas então, se não queres que cresça a falar desta maneira, por que é que me mandas pr’á escola?

O meu pai olhou para mim de forma indulgente. Via-se que estava obviamente divertido. Apesar do nosso compromisso, a minha campanha para evitar a escola tinha continuado aqui e ali, desde a minha primeira dose de aula: o início de Setembro último tinha trazido consigo depressões, tonturas e leves queixas gástricas. Cheguei ao ponto de pagar uma moeda só para ter o privilégio de esfregar a minha cabeça contra a do filho da cozinheira, Miss Rachel, que sofria de tremendas impigens. Não adiantou.

Só que agora havia outra coisa que me apoquentava.”

 

Por Favor Não Matem a Cotovia – Harper Lee – Difel


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Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

Portefólio – Tâmega (em) cheio


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Quarta-feira, 28 de Abril de 2010

Palavras queimadas pela razão

 

São claras as crianças inesperadas como candeias mortais. Acondiciono lentamente o silêncio como se adquirisse o espírito purificado de um grito. Uma luz interior repousa sobre a íntima unidade do Poema. Lágrimas fortemente anunciadoras circundam o teu rosto. Palavras adormecidas percebem o teu sentido impenetrável. A manhã começa a fender os lírios e os raios de sol decompõem os sorrisos inertes. Fazes-me doer o mundo. Corres pela memória das paisagens entre a água e o silêncio. A tua cabeça vibra veementemente coberta de insónias. Renasces na melancolia dos dias mastigando auroras irrelevantes. Imagino se será possível desfazer em mim essa espécie de força confusa fixa na vontade possessiva do desejo. Uma mão nasce fechada fora do tempo. Inclina-se para ti uma sombra densamente evocativa. A tenebrosa densidade da carne reclama a suspensão do desejo. O teu sexo é um livro quente alimentado de superlativos. Estamos no quarto tentando imaginar uma ideia pura do tempo. Todo o tempo começa agora. As palavras nascem queimadas pela razão. Estou iluminado por dentro. Tu levitas a meu lado. Entretanto deito-me no teu nome e pulo no teu olhar como se fosses uma estrela candente. Sou a própria natureza da dor. Respiro o teu corpo com sofreguidão. O amor acumula-se no lugar do silêncio.  


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Terça-feira, 27 de Abril de 2010

Portefólio – Feira dos Santos – Chaves – PB


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Segunda-feira, 26 de Abril de 2010

O Homem Sem Memória

 

13 – Foi através de vários outros buracos deixados de propósito no muro feito com os tijolos elaborados com “A verdade “ que José fez as suas noites de vigilância revolucionária na sede do partido – a casa de todos os comunistas. Foi através deles que observou as noites a passar sem que nada de extraordinário acontecesse: nem os reaccionários davam sinais de si, nem os revolucionários davam indícios claros de investirem todas as suas forças na revolução.

De facto, os marxistas-leninistas em Névoa eram poucos, mas tamanho nunca foi qualidade e nisso os comunistas batiam aos pontos todas as outras organizações políticas. Eram os que pintavam mais paredes, os que colavam mais cartazes, os que faziam mais comunicados, os que vendiam mais jornais, autocolantes e emblemas, os que organizavam mais comícios e manifestações, os que reuniam mais vezes e os que mais criticavam os erros da nossa sociedade. E ela tinha tantos.

Durante as noites de vigilância, José congeminava no que faria se os reaccionários resolvessem atacar a sede do Partido. E quase sempre se ficava pelo exercício heróico da morte exemplar. Durante o período mais quente da revolução, os comunistas mais avisados visitavam o centro de trabalho logo após o almoço e ao fim da tarde, “pois pernoitar nele era um autêntico suicídio”, explicavam eles em justificação da sua avisada cobardia. E como quase todos faziam parte das estruturas dirigentes, era um erro crasso deixarem-se apanhar desprevenidos no meio da balbúrdia subversiva. Muitos eram profissionais prestigiados (pequeno-burgueses, nas palavras inquinadas da minoritária célula proletária) que quase sempre acumulavam com a condição de pais responsáveis. A tarefa tinha de ficar com os camaradas que não tinham compromissos assumidos: os solteiros, os desempregados e os jovens estudantes. Ou seja, a missão da defesa interior do edifício e vigilância de proximidade ficava a cargo de um SUV (Soldados Unidos Vencerão) nervoso e pouco responsável, pois tinha ordens expressas do partido para não aparecer na sede, e dos três UEC (incluído o ciclista e caçador de Cristos com espingarda de chumbo). Marcelino, o chefe da Brigada Brejnev, defendia o flanco esquerdo, a partir da janela da sua casa; e mais três companheiros da brigada Camarada Vasco (um filho de um comerciante abastado, um proprietário de um restaurante e um desempregado de longa duração) estavam incumbidos de activarem o “triângulo das bermudas”, que consistia na produção e comunicação de sinais luminosos entre as janelas do quarto onde dormia o funcionário do Partido, o automóvel do filho do comerciante e a lanterna do revolucionário desempregado de longa duração, que se empoleirava no cimo de um dos muitos plátanos que existiam disseminados pela Praça. O triângulo era activado sempre que se aproximava um carro suspeito a altas horas da madrugada, pois existia a forte desconfiança que essa poderia ser a maneira de alguma brigada reaccionária colocar uma bomba na casa do Partido.


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Domingo, 25 de Abril de 2010

Portefólio – São Caetano/Ervededo


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Sábado, 24 de Abril de 2010

Portefólio – Desfile Etnográfico – Chaves, Julho de 2004


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