Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

O Homem Sem Memória

 

17 – “Estamos fodidos, estamos fodidos, agora vai aparecer aí o Dr. Sebastião e pôr-nos a todos na rua. O funcionário já nos tinha avisado que não eram permitidas brincadeiras com armas de fogo dentro do Centro de Trabalho. Mas o Martins é maluco de todo. Se vier aí a polícia quero ver como ele descalça a bota”, disse o UEC subalterno. O UEC, que embirrava com os cristos pendurados na parede das salas de aula, avisou: “És um medricas. O Dr. Sebastião não manda em nós. Lá por o Centro de Trabalho estar alugado em nome dele não quer dizer que nos trate como carneiros. Mais a mais, ele é um burguês. E os burgueses podem ser aliados do proletariado para tomar o poder… mas, aí chegados, cada um está por sua conta e risco”.

E o Dr. Sebastião apareceu. Vinha furibundo e atrapalhado. Ele, que era um homem calmo e apresentável, apareceu no Centro de Trabalho desalinhado e histérico. E gaguejou durante muito tempo o seu discurso, quase até o tornar perceptível. Avisou a rapaziada que não permitia atitudes aventureiras dentro do CT, que a Dona Marcelina tinha aceitado alugar a casa ao Partido por se tratar do Dr. Sebastião (ele próprio), que era o seu médico e por quem tinha deveras respeito e admiração. Muita gente tinha advertido a Dona Marcelina que alugar a sua casa a comunistas era um mau negócio. Que podiam pôr bombas, que podiam andar aos tiros, que podiam incendiar a casa, avisaram-na. E a ditosa Dona Marcelina tudo isso contou ao Dr. Sebastião. A solução encontrada foi ele (o Dr. Sebastião) responsabilizar-se pelo bom comportamento dos seus camaradas. Mas ninguém pode prever o comportamento do ser humano. Muito menos em ambiente revolucionário. Isto apesar de a revolução estar longe e apenas chegar a Névoa através dos jornais (quase todos dominados pelos comunistas), da televisão (também dominada pelos comunistas) e da rádio (igualmente dominada pelos comunistas). Mesmo a revolução democrática e nacional estava literalmente ocupada pelos comunistas. E o mesmo se podia dizer das casas de banho (agora transformadas em autênticos jornais de parede) dos cafés, dos bares e dos restaurantes, onde as piadas brejeiras deram lugar a textos inflamados de apoio à revolução e de crítica contundente à classe dominante, onde todos os homens eram agora burgueses e paneleiros e as mulheres eram todas putas debochadas. Do lesbianismo ainda os militantes revolucionários da agit-prop não tinham sido informados. E os que não eram uma coisa nem outra só podiam ser trotskistas.

E agora aquilo. O Dr. Sebastião não se conformava. Os comunistas, que eram por definição gente responsável, educada e moralmente superior, andavam a dar tiros nas paredes, como se fossem garotos. Corriam até boatos que existiam no CT bombas enterradas.

Sobre as bombas, o UEC que alvejava cristos prontamente desmentiu o boato. Aquele era o seu tesouro revolucionário e não estava decidido a partilhar a informação da sua existência com um burguês, mesmo que se afirmasse comunista e tivesse passado pelas prisões salazaristas por distribuir jornais do Partido.

Perante o mutismo esquerdizante dos UEC, a indiferença activa do Martins e a sisudez imbecilizante do funcionário, o Dr. Sebastião acalmou. O passo seguinte foi marcar uma reunião da Comissão Política Concelhia para discutir o assunto para essa mesma noite. Perante o ambiente insurreccional que se vivia no CT, os camaradas dirigentes resolveram, a sugestão do Dr. Sebastião, reunir-se na sala de jantar da sua residência. A ter lugar no CT, a grande maioria dos quadros dirigentes revolucionários podia vir a ser insultada pela arraia ignara na casa que diziam sua, mas que de facto pertencia, por direito arrendatário ao Dr. Sebastião. Bem vistas as coisas, era ele quem pagava a renda. Em nome do Partido, é certo, mas o dinheiro era dele. Ou melhor, dos seus doentes, que a troco das consultas o remuneravam com algum custo mas copioso reconhecimento. Os comunistas mais rancorosos afirmavam, entre dentes, que a saúde era um direito do povo, por isso o dinheiro cobrado pelas consultas transformava o Dr. Sebastião num explorador. Mesmo aliado do povo e comunista detentor da indelével insígnia da sua passagem pelas prisões políticas fascistas, não deixava de ser um mero cúmplice circunstancial do proletariado que a seu tempo deixaria de poder prosseguir na mesma senda, por manifesta contradição de classe. O materialismo dialéctico assim o profetizava. E o que a ciência política marxista-leninista afirma nenhuma teoria burguesa consegue contradizer.


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Domingo, 30 de Maio de 2010

Portefólio – Festa Santo Amaro – 29 de Julho de 2004


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Sábado, 29 de Maio de 2010

Portefólio – Desfile Etnográfico – Chaves, Julho de 2004


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Sexta-feira, 28 de Maio de 2010

O princípio do paraíso

 

“ Aos catorze anos, Boris Ansky alistou-se no Exército Vermelho. A despedida dos pais foi comovente. Primeiro foi o pai que se pôs a chorar desconsoladamente, depois foi a mãe e por fim Boris lançou-se nos seus braços e também se pôs a chorar. A viagem até Moscovo foi inesquecível. No caminho viu rostos incríveis, ouviu conversas ou monólogos incríveis, leu nas paredes anúncios incríveis que anunciavam o princípio do paraíso e tudo o que encontrou, quer a caminhar quer de comboio, afectou-o vivamente pois era a primeira vez que saía da sua aldeia, se se exceptuarem duas viagens em que acompanhou os pais vendendo blusas pela comarca. Em Moscovo, dirigiu-se a um gabinete de recrutamento e ao alistar-se para combater Wrangel, disseram-lhe que Wrangel já havia sido derrotado. Então, Ansky disse que, bom, ele queria alistar-se para combater os polacos e disseram-lhe que os polacos já haviam sido derrotados. Então, Ansky gritou que queria alistar-se para combater Krasnov ou Denikin e disseram-lhe que Denikin e Krasnov já haviam sido derrotados. Então, Ansky disse que, bom, ele queria alistar-se para combater os cossacos brancos ou os checos ou Koltschak ou Yudenitsch ou as tropas aliadas e disseram-lhe que todos eles já haviam sido derrotados. As notícias chegam tarde à tua aldeia, disseram-lhe. E também lhe disseram: donde é que tu és, rapaz? E Ansky disse de Kostekino, junto ao Dniepre. E, então, um soldado velho que fumava cachimbo perguntou-lhe o seu nome e depois perguntou-lhe se ele era judeu. E Ansky disse que sim, que era judeu, e olhou para o velho soldado nos olhos e só então se apercebeu de que ele era zarolho e além disso lhe faltava um braço.

Tive um camarada judeu, na campanha contra os polacos – disse o velho exalando uma baforada de fumo pela boca.

– Como é que ele se chamava? – perguntou Ansky , talvez eu o conheça.

Conheces todos os judeus do país dos sovietes, rapaz? perguntou o soldado zarolho e manco.

Não, claro que não – disse Ansky, ficando corado.

Chamava-se Dimitri Verbitsky – disse o zarolho do seu canto – e morreu a cem quilómetros de Varsóvia.

Depois o zarolho remexeu-se, tapou-se com o cobertor até à nuca e disse: o nosso comandante chamava-se Korolenko e também morreu nesse mesmo dia.

(…) Naquele momento, que não chegou a durar nem um segundo, Ansky decidiu que não queria ser soldado, mas também naquele momento o suboficial do gabinete do exército estendeu-lhe um papel e disse-lhe que assinasse. Já era um soldado.”

 

Roberto Bolaño – 2666 – QUETZAL


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Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

Portefólio – Tâmega (em) cheio


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Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

Andam os peixes repetidos…

 

Andam os peixes repetidos. E as pedras. E as borboletas. Apenas os sons exaltam os sorrisos. Gritam as árvores a morte do diálogo entre civilizações. E tudo isto corresponde à inteligência exterior dos fluidos. Metes-me medo. Eu próprio me meto medo. Por isso as teias de aranha envelhecem na elocução hirta dos buracos. Tenho saudade das rodas velhas dos carros e das curvas alongadas das meretrizes bíblicas. E também tenho saudades da abundância de necessidades. A sombra das primaveras fixa o silêncio ensurdecedor dos poetas malditos. A febre dos loucos devora as macieiras em flor. Sinto uma tristeza imensa por não te conseguir cinematografar. Sei que sustentas o inferno nos sonhos intoleráveis. Uma mão deforma o amor e as palavras sinceras provocam a guerra. Oiço o espanto vertiginoso de Deus. Deus floresce imóvel na enxurrada do espanto. Deus é uma paixão concentrada na enorme inocência dos homens. Falam-me em beleza e eu respiro reticências. Falam-me em verdade e eu respiro reticências. Moram a meu lado a lentidão, o espanto, a perseverança e a crueldade. O homem devora a humanidade de Deus. Deus alimenta-se da mortalidade do homem. O azul basta-me, não o céu criptogâmico. Hoje escuto-me no inesgotável deslizamento do silêncio. Agora, só agora, consigo escutar a verdade da matéria. Tudo está ligado por átomos e pelo vazio.


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Terça-feira, 25 de Maio de 2010

Portefólio – Feira dos Santos – Chaves – PB


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