Sábado, 31 de Julho de 2010

Portefólio – Desfile Etnográfico – Chaves, Julho de 2004


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Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

O carneiro de Jesus

 

“Sempre que a senhora Margit tinha ou lido demasiado ou comido muitos restos de hóstias, ficava com o estômago tão santificado que, ao descascar batatas, tinha de arrotar e praguejar ainda mais. Desde que conhecia a Senhora Margit que para mim santificado remetia para um ramalhar branco, seco na boca, que provocava arrotos e pragas.

O seu Jesus fora comprado à pressa de um saco de crucifixos com Jesus, entre o autocarro e as escadas do santuário, numa peregrinação de Agosto. O Jesus que ela beijava não era mais que os restos de um carneiro de chapa da fábrica, o regateio aldeão de qualquer operário de dia ou de noite, entre turnos. A única coisa justa neste Jesus da parede era o facto de ter sido roubado e enganar o Estado.

Como os demais Jesus do saco, também este significara dinheiro para a pinga à mesa da tasca, no dia a seguir à peregrinação.

A janela do quarto da Senhora Margit dava para o pátio interior. Ali havia três grandes tílias e, à sombra delas, tão grande como um quarto, um jardim abandonado com um buxo quebrado e erva alta. No rés-do-chão da casa viviam a Senhora Grauberg e o neto e o Senhor Feyerabend, um homem velho de bigode negro. Era frequente vê-lo sentado num banco à porta de casa a ler a Bíblia. O neto da Senhora Grauberg brincava no buxo, e a senhora Grauberg gritava, de tantas em tantas horas, a mesma frase para o pátio: Anda comer. Em resposta, o neto gritava-lhe sempre a mesma frase: O que é o comer? A senhora Grauberg levantava o braço e sacudia a mão a ameaçar palmadas e depois gritava: Espera que eu já te vou mostra. A Senhora Grauberg tinha-se mudado da Mondgasse para aqui, com o neto. Não suportava continuar a viver na casa da cidade fabril, porque a mãe do neto tinha morrido de cesariana na Mondgasse. Pai não havia. Já não se reconhece a cidade fabril na Senhora Grauberg, dizia a Senhora Margit, a Senhora Grauberg arranja-se sempre de modo inteligente para ir à cidade.

A Senhora Margit dizia ainda: Os Judeus ou são muito espertos ou muito estúpidos. Esperteza e estupidez não têm nada a ver com o saber muito ou pouco, dizia ela. Há alguns que sabem muito, mas não se pode dizer que sejam espertos, outros sabem pouco, mas não se pode dizer que sejam estúpidos. Saber e estupidez só têm a ver com Deus. O Senhor Feyerabend é de certeza muito esperto, mas tresanda a suor. Isso já não tem nada a ver com Deus.

(…) A desconfiança fazia com que tudo aquilo de que me cercava escorregasse para longe de mim. Observava os meus dedos em cada gesto, mas não conhecia a verdade da minha própria mão melhor que os dedos da minha mãe ou os dedos de Tereza. Sabia tão pouco sobre ela como sobre o Ditador e as suas doenças, ou sobre os guardas e transeuntes, ou sobre o Capitão Pjele e o cão Pjele. Também já nada sabia sobre carneiros de chapa e operários ou sobre a modista e as paciências para ler a vida. E tão-pouco sobre fuga e sorte.

Na fábrica, mesmo junto à empena, que, no seu ponto mais alto, olhava para o céu e, no mais baixo, para o pátio, havia uma palavra de ordem:

Proletários de todo o mundo uni-vos.

E cá em baixo, no chão, andavam os sapatos que só poderiam sair do país se fugissem. Os sapatos escorregadios, empoeirados, ressoantes ou silenciosos calcorreavam o empedrado. Intuía que eles tinham outros caminhos, que, como tantos outros sapatos, um dia deixariam de passar por baixo desta palavra de ordem.

(…) Aqui na fábrica ninguém tinha esperado por Paul, nem sequer uma hora. Não teve sorte, diziam, depois de ele não comparecer ao trabalho, como tantos outros antes dele. Faziam bicha na loja. Quando a morte era servida a alguém, avançavam um lugar. Que sabiam disso o leite do nevoeiro, os círculos de ar, ou a curvatura dos carris. Uma morte tão barata como um buraco no bolso: metia-se a mão lá dentro, e o corpo todo era sugado. A obsessão assaltava-os com mais força quanto mais pessoas morriam.

Murmurava-se de modo diverso sobre os mortos das fugas que sobre as doenças do ditados. Este aparecia ainda no mesmo dia na televisão e afastava a proximidade da morte com a resistência dos discursos mais longos. Enquanto discursava, descobria-se uma nova doença, para o empurrar para a morte.

(…) Quando tanto a Senhora Grauberg como o Senhor Feyerabend e eu deixávamos de seguir com os olhos mais as meias brancas até ao joelho do que o miúdo, a porta da Senhora Grauberg fechou-se. O Senhor Feyerabend disse: Como está a ver, as crianças saúdam como faziam sob Hitler. Também o Senhor Feyerabend atentava nas palavras. Tchau era para ele a primeira sílaba de Ceausescu.

 

Herta Müller – A Terra das Ameixas Verdes – Difel


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Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

Portefólio – 8 de Julho - Dia da Cidade de Chaves (2010)


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Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

Salto inocentemente sobre a metafísica

 

Salto inocentemente pela metafísica dos livros. O homem possui a exacta ideia da fome e do sexo. E sente as suas réplicas. Em tempos fui uma estrela deitada num berço. Agora sou a sombra de uma estrela cadente. Descendo das pequenas caridades dos afectos, das perguntas limpas, do alento dos beijos nocturnos. Em mim habitam as superfícies profundas, as palavras simples e as mulheres desejadas. Sou o espaço lento da tua respiração. Inclino-me na tua face direita e ofereço-me em teu sacrifício. Consagro-te tudo o que tenho, que é pouco, mas que é muito. Para sempre ficarei na tua boca a decifrar o raro pormenor do amor. Agarro-me a ti como um náufrago. Oiço o cintilar do teu sexo. Sou a noite frágil da carne. Sinto-me a desdobrar as palavras antigas em círculos completos. Declaro-te a minha voz iluminada pela luxúria. A minha súplica ainda persegue os gritos proféticos dos modernistas. Agora fundamento as causas nos seus efeitos. Apoio-me no teu cepticismo prático. Sinto a triste realidade da minha alma rejeitar a divindade. Dilato-me na irresistível vontade da dúvida.


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Terça-feira, 27 de Julho de 2010

Portefólio – Feira dos Santos – Chaves – PB


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Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

O Homem Sem Memória

 

24 – O guarda Ferreira costumava demorar muito até se decidir ir para casa. Preferia de longe escutar os amigos dos copos a dissertar sobre nada e sobre coisa nenhuma, do que ouvir os impropérios da mulher sempre a criticar-lhe a inclinação pelo vinho e pelo cigarro na companhia de bêbados e debochados, em vez de estar em casa a jantar com a família. A mãe do José era uma mulher conflituosa, possessiva, de relação difícil. Para ela, quase todas as mulheres eram putas. Especialmente as mais novas e bonitas. Todas as semanas arranjava ao marido uma nova amante. E insinuava que era essa a principal razão porque não gostava de ir para casa fazer companhia aos seus, comer a comida que ela preparava no pote, aquecer-se à lareira, ensinar as contas aos filhos e rezar o terço antes de irem para a cama.

Mas o guarda Ferreira demorava sempre o tempo de mais um copo e de dois ou três cigarros antes de se decidir ir para casa. O José também se deixava ficar ali na modorra a ver a televisão, a comer um bolo e a beber um Sumol. Estava visto que nenhum dos dois apreciava os jantares em família. E como quase todas as noites a sua mãe lhes pregava um sermão, a um porque só bebia e fumava e a outro porque não estudava e era incapaz de ir buscar o seu pai e trazê-lo para casa a horas de cear; tanto o guarda Ferreira como o seu filho não se moderavam em adiar sempre mais um pouco a hora de recolher.

Muitas vezes, antes de chegar a casa, o pai do José amparava-se na esquina da casa do Padre Zé e vomitava o vinho que tinha bebido. Depois sentava-se num muro que havia por ali perto e fumava mais um cigarro. Falava pouco com o filho, mas apreciava a sua companhia, porque o José não o censurava, nem sequer com o olhar. Por vezes, pai e filho olhavam para o céu estrelado. Nessas alturas o guarda Ferreira fazia sempre o mesmo comentário: há tantas estrelas no céu, meu filho, que até dá que pensar qual a razão da nossa existência. Então José olhava para o rosto do pai, sempre um rosto triste, e murmurava: pois é pai, a vida é fodida. Com um sorriso nos lábios, o guarda Ferreira perguntava ao filho onde tinha aprendido pensamentos tão profundos e a dizer asneiras na presença de um guarda-republicano.

Custava-lhes sempre ir para casa. Mas os últimos metros eram uma autêntica via-sacra. Abriam o portão a custo, atravessavam os dez metros do pátio como quem transporta um saco de batatas às costas, subiam as escadas como se elas os levassem à forca, abriam a porta de casa como se fosse a da prisão e por fim lá descortinavam a mãe, a temida Dona Rosa, como se fosse uma loba no cio, a rosnar de raiva, a ameaçar e a ferir os seus com palavras cruas e duras. Por vezes fazia que desmaiava, pretextando um ataque nervoso. Punha tudo em sobressalto: filhos, marido, vizinhos e até o cão. O Leão era o único que ainda se surpreendia com o teatro que ela protagonizava, o pobre inocente. O cão era-lhe fiel e dedicado. Ela batia-lhe muito, em excesso. Aquela mulher fazia tudo com excesso. Batia no Leão com uma vergasta. E ele, que era um cão possante, apanhava a porrada sem se mexer, gania como que a pedir desculpa, e, no fim, chorava, ia lamber-lhe as mãos e deitava-se aos seus pés, como que a protegê-la. O Leão era, por isso, o único que recebia o carinho da mãe do José. Talvez porque o tratamento resultava no cão, ela estendia-o aos filhos para ver se obtinha o mesmo resultado. Ao marido, na impossibilidade física de o fustigar com a chibata, vergastava-o com palavras azedas, sujas, impróprias de uma mãe e mulher.


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Domingo, 25 de Julho de 2010

Portefólio – Corpo de Cristo – 26 de Maio de 2005


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Sábado, 24 de Julho de 2010

Portefólio – Desfile Etnográfico – Chaves, Julho de 2004


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