Domingo, 31 de Outubro de 2010

À porta da igreja


publicado por João Madureira às 09:40
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Sábado, 30 de Outubro de 2010

Se os malhos dos Santos são assim como serão o dos pecadores?


publicado por João Madureira às 09:00
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Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

O Homem Sem Memória

 

35 – Quando o José saiu para a rua, ainda a escuridão teimava em demorar-se mais um pouco antes de o dia nascer. Fazia um frio de rachar. Tinha nevado durante a noite. Pouco, mas daquela neve parecida com farinha que se entranha em tudo. E por cima da neve tinha geado. Quando os primeiros raios de sol iluminaram os montes, os caminhos, as telhas e o colmo das casas da Portela, José sentiu-se mais reconfortado. Encolhido dentro da samarra, bufava nas mãos e caminhava a modinho. Os seus olhos ainda com remelas, pois apenas arranjou coragem para lavar a cara à maneira dos gatos, patenteavam alguma dificuldade em manter-se abertos devido à aragem fria que fazia com que chorasse mesmo sem vontade. Dona Rosa tinha deixado o Virtudes a tomar conta da rapaziada e também ali ia, debaixo do seu sofrido xaile, como quem vai para um funeral. O guarda Ferreira, embrulhado no capote, caminhava resoluto enquanto fumava tão sofregamente o seu primeiro cigarro do dia como se fosse um náufrago depois de vir à tona da água.

O corpo do José ainda lhe doía por causa da imobilidade provocada pelo peso do liteiro. Porque o frio apertava nessas noites de neve e geada, a Dona Rosa estendia por cima dos vários cobertores de lã uma manta de farrapos que pouco aquecia mas que tinha o condão de imobilizar o seu filho mais velho debaixo do enorme peso. O corpo de frango de aviário do José sentia-o como se de uma armadura de ferro se tratasse. A princípio ainda se queixou: “Mãe, não me ponhas esse peso de morte em cima de mim, pois eu não me consigo mexer, nem que queira”. Ao que ela respondeu com maus modos: “É preferível não te mexeres do que acordares de manhã morto e teso com o frio”. Ao que ele respondeu: “Mãe, se morrer durante a noite não posso acordar de manhã”. Ao que ela retorquiu: “Não te faças de engraçado comigo se não levas duas lambadas”. Ao que o seu pai, já meio ébrio devido ao vinho com mel aquecido que ia beberricando na pota, que agora estagiava junto ao borralho, objectou: “Foda-se Rosa, deixa o teu filho em paz. Com o peso do liteiro, o garoto é capaz de não morrer de frio mas sim abafado por esse manto do demónio”. Ao que ela retorquiu: “Cala-te bêbado, ainda não te chega de vinho? O vinho e o cigarro hão-de levar-te à cova bem mais cedo do que o que tu pensas”. E ele: “Antes morto que ter de te aturar. Sabes que mais, vai-te foder”. E calou-se. José começou a chorar devagarinho.

Não contente com o desaguisado que protagonizou, a Dona Rosa virou-se para o filho mais velho e bolçou: “Assim também não te pões a mexer na gaita. Andas magro como um cão. Tão novo e tão punheteiro. Sais ao teu pai. Lá fora fode qualquer puta, aqui em casa só bebe e fuma. E a mulher que vá para o caralho. O pai é um putanheiro e o filho é um punheteiro. Só me apetece ir para o monte gritar”. E o guarda Ferreira: “És uma loba esfaimada com o cio. Vai, vai e não voltes”. E calou-se. José continuou a chorar devagar… devagarinho.

José tinha começado a masturbar-se muito recentemente por causa dos colegas. Todos juntos eram uns autênticos animais selvagens. Reproduziam os comportamentos uns dos outros como se fossem macacos. Se um cuspia os outros cuspiam também, se um dizia uma asneira das grossas os outros repetiam-na em coro e riam-se como o tolo de Padornelos, se um mijava de cima do muro em frente das velhas da vila, os outros empoleiravam-se a seu lado e urinavam para ver quem mandava o seu jacto mais longe. Se um puxava do seu envergonhado pénis e começava a tocá-lo com cadência, todos os outros abriam a braguilha e deitavam os seus pífaros de barro branco de fora e punham-se a esfregá-los com tanta força como se os quisessem esfolar. Muitos puxavam tanto a pele que a glande se deformava. Ali não havia dor, apenas uma disputa para ver quem conseguia ser mais arrojado no momento da erecção. E elas ainda eram todas muito incipientes para produzirem algo de que se pudessem vangloriar. Ainda faltava muito para uma erecção como a de um burro, que era o que todos almejavam. Estavam mesmo longe da proeza do macaco da Dona Aninhas do Castelo que, deixado com rédea larga, sodomizou e estrangulou todas as galinhas que encontrou no terreiro em frente da casa da dona.

Os mais arrojados metiam o sexo ainda virgem de fêmea nos buracos dos muros ou nos orifícios das árvores ou nas frinchas das portas e punham-se a fornicá-las com os movimentos certos. Alguns tiveram mesmo de tratar os pífaros com sulfamidas e mercúrio. E gemiam muito quando se sentavam nos bancos da escola. Os mais sofridos eram olhados como os autênticos borrões da vila. Muitos deles atreveram-se mesmo a reutilizar os preservativos do namorado da professora Rosalina. Mas acabaram por desistir, ainda lhes sobrava muito espaço para preencher.

Por causa do frio, não se sentiam os cheiros da bosta e do suor dos animais. Apenas se conseguia cheirar o forte odor a aguardente e a tabaco que o guarda Ferreira exalava. Iluminada pelo sol nascente, a Portela parecia um postal de boas-festas, com as casas humildes cobertas de neve e os beirais a reluzirem os pingentes de gelo. No silêncio da manhã apenas eram audíveis os passos dos Ferreiras.

No meio do silêncio da madrugada, a Dona Rosa começou a chorar lembrando-se que logo de manhãzinha, quando foi acomodar os animais, deu com a galinha velha morta a um canto, o presente que a madrinha de um dos filhos lhe oferecera na altura do baptizado. “A Ruiva era uma boa poedeira e criava cada ninhada de franguinhos de fazer inveja à mais pintada”, balbuciou a Dona Rosa entre baba e ranho. “Eu bem te disse para a cozermos quando o José esteve doente”, lembrou o guarda Ferreira. “Eu era lá capaz de comer a Ruiva”, indignou-se a Dona Rosa.

Quando chegaram a casa do cabo Aníbal, já os potes ferviam e cá fora no terreiro ardia uma valente fogueira de rachas de carvalho negral. Sentados em dois bancos corridos, seis homens esperavam ordens do dono da casa para atacar o porco, que era animal para pesar mais de duzentos quilos. O suíno, pressentindo a presença de tantos humanos, encontrava-se na corte mais silencioso do que o mudo de Padornelos.

A Dona Emília, a esposa do cabo Aníbal, vendo a Dona Rosa tão fungosa, perguntou: “Ó mulher quem é que te morreu?” Ao que ela respondeu: “Foi a Ruiva, a galinha velha que a madrinha do meu Eugénio lhe deu no dia do baptizado. E eu tinha-lhe tanto carinho. Era como se fosse da família.” “Pára lá com a choradeira, mulher. Antes a tivesses comido.” “Não podia, tinha-lhe muito carinho”, repetiu a Dona Rosa. Para concluir: “Eu respeito muito os meus. Para mim a família é sagrada.”


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Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

Dá-me lume


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Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010

O Poema Infinito (19): a nudez, o gozo e a salvação

 

Estamos nus e gozamos. Nascem do teu corpo os séculos líricos onde os poetas dormem a sua inércia sonâmbula como se fossem raízes de sicómoros onde presumivelmente Judas se enforcou por causa da taxa cambial da traição sem se interessar verdadeiramente com a qualidade dos figos nem com o seu grau de doçura. E quem nunca sentiu o travo amargo da traição que atire a primeira pedra. E quem nunca sonhou ser rico que atire os primeiros trinta dinheiros. As paisagens nos teus olhos são agora tão suaves como poemas japoneses. Felizmente que os anjos continuam a existir na vaidade libertina dos amantes. Nasce de ti a plenitude densa das imagens puras. E os nossos corpos navegam e cavalgam como a vida exaltada. Está na hora dos anjos exactos. Santo Deus da Misericórdia acode à evidência dos espíritos aflitos de todos aqueles que não choram por causa da altivez da sua dor. Deus Santo auxilia os que utilizam as palavras plenas da fragilidade dos ornamentos. Agora as tuas pálpebras ganham a densidade sussurrante da infância. São tão nítidas como o voo glorificado dos pássaros de Inverno. O meu destino foi desviado na primeira posse do teu corpo quando a tua vagina sabia ao sal frágil da puberdade. Sinto de novo as titilações brancas do desejo. Oiço a claridade gritar sonhos abstractos. Sinto o abraço infinito do sorriso das avós. Sinto o gosto a terra molhada dos teus lábios. Sinto o sabor escuro da noite. E a sua espessura e a obliquidade da luz dos espelhos. Sinto a proximidade do mar e o amor cansado das cidades estranguladas onde os homens morrem caindo directamente das imagens. Sou agora o tempo concreto da ausência. A hecatombe das ruas agrestes, Deus e o Diabo na terra do sol. Dizes: possuis o sabor amargo dos sonhos proibidos. Dizes: és cada vez mais o tempo ausente nos olhos dos alucinados. Dizes ainda: os teus sonhos cada vez se perdem mais nas mãos dos amigos. Sim, eu sei da desordem implacável do tempo das utopias. Sim, eu sei que jurei viver até ao fim. Sim, eu sei do rigor caótico dos meus versos sombrios. Sim, eu sei dos orgasmos curtos e dos poemas disfarçados de poemas e dos orgasmos disfarçados de gemidos corajosos na sua perfeita mentira. Sim, eu sei dos vícios impessoais que fingimos ser destino. Este é agora o tempo do silêncio comprimido das armas disfarçadas. Este é o tempo dos muros dourados da tolerância e do amor obrigado e das árvores afogadas em ecologia e dos direitos cansados dos trabalhadores sindicalizados e encolerizados e organizados pelas cores da inércia e da desilusão e da ilusão e do implacável logro da igualdade. Deus da Lucidez atende à sedenta lucidez dos abismos dos crápulas porque é deles o reino dos céus. Tu dizes, por fim, as palavras cegas de lucidez: salve-se quem puder.


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Terça-feira, 26 de Outubro de 2010

O doce olhar das avós


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Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

O especialista

 

O meu amigo F. é a educação em pessoa. Ou melhor, é um tratado ambulante de boas maneiras e um especialista em subtilezas. Ele expressa toda uma série de condutas e conhecimentos de um modo educado e cortês. É um mesuras, “um querido”, como o evocam as amigas da sua esposa, ou um “certinho”, um “barra”, como o distinguem os amigos. Ou um “merdas”, segundo a opinião da minha esposa. Mas a ela tem de se dar algum desconto, pois é muito crítica em relação aos meus amigos. O F. faz as coisas com uma urbanidade digna dos maiores encómios. E foge do antagonismo como o Diabo da Cruz. Ou o Deus verdadeiro da maldade e do pecado original.

 

O meu amigo dá-se bem com toda a gente. Elogia a conduta das pessoas bem-educadas, aplaude o bom gosto dos burgueses, enaltece o conhecimento dos sábios, exalta o estatuto social dos homens de leis e as individualidades do estetoscópio, gaba os professores eficazes e os bons alunos, eleva os presidentes de câmara que foram galardoados com a comenda no 10 de Junho, dá vivas à República, aplaude a coerência e a perseverança dos monárquicos que ainda o são depois de tantos anos de poder do povo, celebra a democracia, compreende e perdoa o Estado Novo, chora hiperbolicamente com a miséria dos pobres, emociona-se com o canto dos pássaros, com o nascer e o pôr-do-sol, com os discursos do Presidente da República, com as desculpas do Primeiro-Ministro, com as promessas do Líder da Oposição, adora jantar na companhia daqueles que apreciam, mais do que a qualidade dos manjares, a subtileza do acto cerimonial de comer uma refeição de acordo com a etiqueta e com as leis do protocolo, preza os fatos de lã e de linho de fino corte, entende as combinações das peças de um traje de cerimónia, sabe qual o nó de gravata que dá com os diversos tipos de colarinho, sabe lindos poemas de amor, quer eles sejam dirigidos à natureza, à fauna, à flora, ao amor em tempos de guerra, ao amor em períodos de paz, ao amor espiritual, ao amor carnal e ao amor estrito senso, distingue o bem do mal com muito rigor, apesar de liberal, distingue as classes melhor que um marxista-leninista, aprecia subjectivamente um bom estalinista, preza objectivamente um convicto capitalista, sabe rezar todas as orações dignas desse nome, conduz com um irrepreensível rigor, sabe combinar as meias com os sapatos e estes com as calças (por exemplo, com calças cinzentas devemos usar meias cinzentas, mas também podemos usar meia pretas e o cinto tem de estar de acordo com os sapatos, mas alguns especialistas defendem que o que deve estar de acordo com o cinto são as calças porque os sapatos ficam muito longe) e estas com o blazer e este com a camisa e com o cinto e com a gravata (ou vice-versa) e revela um especialíssimo gosto na escolha dos botões de punho, além disso consulta com apreciável delicadeza e elevado conhecimento técnico uma carta de vinhos, uma carta de águas, uma carta de whiskies, vodkas, ou conhaques, distingue um cordeiro do monte de um borrego do vale logo à primeira mordiscadela, caracteriza e destrinça os cogumelos pelo cheiro durante a cozedura ou no acto de os comer, que é quando todos os cogumelos se tornam mais ou menos indistintos, distingue pela pigmentação o salmão fumado de aquacultura do selvagem, diferencia as pessoas não pela cor, mas pela aura, distingue a carne de um porco bísaro de um de marca branca pela textura da carne, diferencia um pato mudo de um que grasna mesmo depois de mortos e depenados, distingue uma linguiça barrosã de uma de Chaves de olhos fechados, sabe quando comer, sabe quando beber, sabe quando deve interpelar alguém à mesa, sabe dizer uma laracha, sabe fungar delicadamente para um lenço, sabe pôr as mãos para beber, comer, urinar, acariciar um rosto, os seios, as coxas e o sexo da sua esposa, sabe beijar a sua mulher e a do próximo sem a cobiçar, sabe cobiçar a mulher do próximo dentro das regras definidas pela boa educação, sabe olhar sem ver, sabe observar sem olhar, sabe mesmo chorar sem sofrer, ou falar sem nada dizer…

 

Um dia enchi-me de coragem e pedi-lhe para me acompanhar no jantar de celebração do aniversário da minha boda. A sua presença era a modos que metade da prenda que resolvi oferecer à minha mulher. Pagava-lhe o jantar num dos melhores restaurantes do país se ele se dignasse acompanhar-me e assessorar-me em todos os aspectos relacionados com a etiqueta, o protocolo e as boas maneiras. Ele assim fez. Até lhe arranjei companhia: a sua mulher, que ele poucas vezes se aventura a tirar de casa. Tudo por causa da sua irrepreensível boa educação e etc.

 

Para não fastidiar os estimados leitores, passo, com vossa licença, por cima do especial pormenor da roupagem, não sem antes dizer que trajámos do bom e calçámos do melhor. Mas a qualidade esteve toda concentrada no repasto. Foi muito caro, mas, até por isso, inesquecível. Fomos a um restaurante da capital, de influência anglo-saxónica. Fora o pequeno detalhe do preço, a comida foi escolhida com o saber requintado do meu amigo F. Amigos destes há poucos. A sua erudição é fruto de quase uma vida inteira de perseverante estudo e de monitorização persistente dos conhecimentos adquiridos, quer através dos livros, quer através de filmes, quer através da internet, quer através da intuição. De facto, o meu amigo F. é muito intuitivo.

 

Depois de olhar para a carta, disse que ia pedir um prato diferente para cada um de nós. Assim éramos superiormente servidos e sempre podíamos, à falta de melhor tema para conversar, dissertarmos sobre a comida. “E a bebida”, lembrei eu. “E a também a bebida”, concordou ele. “Sim”, concordaram igualmente as nossas queridas e estimadas esposas. E se a água escolhida para a sua esposa foi tema de conversa por causa do interessantíssimo preço, então o vinho deu para conversarmos cerca de uma hora (que foi o tempo que esperámos pela comida) sobre a qualidade manifesta do seu odor, paladar, textura e cor. Sobre o preço nada dissemos, por pensar, eu, que era manifestação de mau gosto e ele para tornar evidente que a qualidade está invariavelmente ligada ao custo. E ali não havia especulação. O que se pagava pelo precioso néctar era o real valor e nada mais do que isso.

 

Para mim encomendou peixe-anjo e lulas ceviche com caviar dourado e empada de arenque fumado com molho de tomates verdes. Para beber como aperitivo encomendou Bellini rosé numa flute de espumante. Para a minha mulher pediu tapas de presunto pata-negra e veado com molho de iogurte, vegetais e pedaços de manga. Para acompanhar exigiu uma garrafa de tinto Caro, um vinho argentino que, nas suas doutas palavras de expert “oferece uma adorável profundidade de fruta e é altamente focado, detalhista e elegante". “Nem mais”, disse eu. “Concordo”, concordou a minha mulher. É por essas e por outras que a minha mulher se parece muito com o meu amigo. Os seus níveis de adesão com a opinião dos especialistas é assombrosa. Mas adiante. Para a sua mulher, e é nestes pormenores que se aquilata do amor e do carinho que o meu amigo dedica à sua esposa, pediu sashimi com queijo de cabra (e podem pensar que a razão que levou o meu amigo a pedir esse prato para a sua esposa foi a evidencia de ela, como transmontana, apreciar o queijo de cabra, mas estão enganados, ela é doida por sashimi, e olhem que estas coisas não se topam logo nos primeiros vinte e cinco anos de casados, só lá para as bodas de ouro, e isso apenas os mais argutos e documentados, como é o caso do meu amigo F.) e pato fumado com endívia e xarope de ácer. Para ele rogou, por causa do regime, vieira recheada e salmão selvagem grelhado com vinagre de framboesa e pêra-abacate. Para acompanhar os pratos da nossa dieta solicitou ao empregado uma garrafa de Sauvignon Blanc de 2005. No final encomendou um bolo, pequeno no tamanho, enorme na qualidade e colossal no preço. E para o acompanhar Perriet-Jouët reserva servido em Flutes Fantasy Cristal Atlantis.

 

Sabem, eu fui educado (enganado?) nos finais dos anos sessenta, uma altura em que o movimento naturalista, muito ao estilo de Rousseau, perguntava: “Porque não havemos de dizer aquilo que pensamos?” Mas numa sociedade civilizada têm de existir algumas restrições. Se seguíssemos todos os nossos impulsos, matávamo-nos uns aos outros.

 

E foi por essa razão que, quando me trouxeram a conta, paguei com o cartão MasterCard Platinum e comecei a implodir. Mas sempre com um sorriso nos lábios. A convivência com o meu amigo F. tem-me ajudado imenso na hora de expor os meus impulsos. Apesar de o querer matar (metaforicamente, é claro), cumprimentei-o efusivamente (também metaforicamente, claro está) na hora da despedida. Pespeguei dois beijos à esposa do meu amigo pensando que se ela fosse um porquinho mealheiro (alegoricamente, é claro) e visse transformada a comida que levava no estômago em dobrões de ouro (simbolicamente, claro está) era mulher para tilintar como uma slot machine quando dá o prémio máximo.

 

Quando cheguei à suite do hotel encomendei morangos e um champanhe mais em conta do que o servido no restaurante e fomos (eu mais a minha mulher) para os nossos aposentos. Quando chegou a hora de prestar o exame de aniversário, olhei para ela e disse-lhe que a amava cada vez mais. Ela perguntou-me, cuningulus aparte, se havia nas minhas palavras alguma ironia. Eu disse-lhe que não. Mas nós não devemos dizer sempre aquilo que pensamos. Metaforicamente, é claro.

 

 

PS – Dedicado especialmente a todos os maridos que, na companhia das suas queridas e estimadas esposas, vão comemorar no próximo Inverno as bodas de prata, ouro ou diamante.

 

Um presente requintado é sempre uma mais-valia para a vida a dois.

 

Este ano o que está a dar são as peças com pêlo e peles. Todos os criadores, por causa do aquecimento global, apresentaram também as suas criações em tecidos sintéticos. Mas se não é ecologista (alegoricamente, claro está), pode decidir-se por malas e sapatos, casacos e até vestidos com aplicações de pêlo natural. Pode ainda optar por cabedal em casacos e vestidos.

 

Por favor assente o nome dos criadores, pois é aí que reside o toque de classe. Para as peças com pêlo: Channel, Dolce&Gabanna, Lanvin, Vivienne, Westwood, Kenzo e Marc Jacobs. Para as peças em pele: Hermès, DKNY, Bottega; Venetta, Dior e Céline.


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Domingo, 24 de Outubro de 2010

Silêncios...


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Sábado, 23 de Outubro de 2010

Nas nuvens


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Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010

O Homem Sem Memória

 

34 – Sachar as batatas é tarefa violenta para uma criança. Sobretudo se não estiver habituada aos duros trabalhos do campo. E este era o caso do José. Franzino e de saúde um pouco débil, o filho do guarda Ferreira tinha umas mãos mimosas, brancas, de pele quase transparente onde se observavam as linhas rosadas das veias finas. Todo o seu fino corpo de vara verde era de um branco leitoso e delicado, em nítido contraste com o cabelo e os olhos castanhos. Mesmo quando se ria, os seus olhos permaneciam tristes e interrogativos.

Com três anos foi operado às amígdalas e às adenóides em Lisboa por fazer amigdalites e otites com muita frequência. Foi para o hospital militar às carrachulas da Dona Rosa, nesse tempo ainda menina Rosa, a quem os homens mandavam piropos e assobios circunflexos. Lembra-se de no hospital lhe meterem um aparelho na boca com um sabor doce e enjoativo e de mais nada a não ser de acordar com incomodativas dores na boca, na garganta e no nariz. Lembra-se, ainda, de comer gelados, apesar de ser tempo frio. Lembra-se também dos beijos que a mãe lhe dava, contrastando com os castigos com o cinto ou atando-o com linhas à mesa da sala de jantar que era comum a dois inquilinos.

Quando regressou a casa encheram-no de mimos, deram-lhe carrinhos dos bombeiros, carros de corrida, bombons, mais gelados, um chapéu de palha que mal estreou, pois numa tarde soalheira, junto ao Tejo, enquanto olhava para os cacilheiros, um vento brincalhão lançou-o ao rio, ao que o guarda Ferreira, em vez de se atirar à água para o ir buscar, limitou-se a remocar: “melhor seria que o comesse um burro albardeiro”.

Foi também por essa altura que apareceu lá por casa o Mário, que era um GNR nado e criado na aldeia transmontana de Vilela Meã, muito amigo da família, mas a quem um desgosto de amor levou ao suicídio. Antes de tal acontecer, o guarda Mário jantava muitas vezes lá em casa, sobretudo nos dias festivos. Estando longe da aldeia e dos seus, convivia tão de perto com a família Ferreira que era como se fosse membro dela. Era um verdadeiro tio para o José. Dava-lhe dinheiro para ir comprar fruta ao vizinho do rés-do-chão ou para ir comprar rebuçados e chocolates ao bar do quartel das Janelas Verdes e também lhe oferecia santos com as orações impressas no verso por onde o José aprendeu a ler. O Mário apareceu uma semana antes do dia de Natal com um enorme peru que armadilhou a casa de cagadelas e se fartou de espalhar milho e de correr atrás do gato mijão. Dois dias antes da consoada, a casa encheu-se do cheiro intenso e melancólico da aguardente. O peru foi embebedado com sopas de pão e bagaço, com requintes de crueldade. Nas alturas de maior bebedeira, o peru rodopiava por aquela sala como se fosse um bailarino de ballet moderno, tropeçando nas próprias patas, mas levantando-se com tanta graça que até a vizinha velha se mijou a rir. O dia de Natal foi dedicado a abrir prendas – sobretudo as ofertadas pelo Mário que eram generosas e cheias de bom gosto, evidenciando as suas qualidades de verdadeiro amigo que gostava de ver as outras pessoas alegres e felizes – e a comer o peru recheado acompanhado com batas assadas no forno. Comeu-se e bebeu-se. Bebeu-se e comeu-se. Ao fim da tarde o Mário levou o José a dar um passeio pois, disse ele para a namorada que lhe havia de ser fatal, “a Rosa e o Ferreira necessitam de ter algum tempo para estar a sós”. E aquelas palavras faziam todo o sentido, pois o José dormia no mesmo quarto dos pais e todos tinham insónias frequentes.

No dia de Ano Novo, o Mário passou lá por casa e parecia outro, calado, triste, desanimado e lacrimejante. Todos três ficaram a olhar para ele como se estivessem a assistir à missa. Ele sentou-se num banco e disse: “Aquela puta deixou-me. Trocou-me por um fadista merdoso e bêbado que a enche de porrada e a colocou como empregada de balcão de um bar de alterne.” “Deixa lá isso Mário, mulheres há muitas”, disse o guarda Ferreira. “E eu gostava tanto dela”, confessou o guarda enamorado com as mãos postas. “Ela não te merece, Mário”, sentenciou a mãe do José. Por fim falou o José que, no seu indignado clamor de anjo rabudo, proferiu: “Manda-a para o caralho”. Palavras que foram de imediato censuradas com uma valente bofetada da menina Rosa que fez com que o seu filho fosse projectado para um metro de distância. Ocorrência que levou a que o guarda Ferreira se levantasse da sua cadeira e pespega-se um valente murro na mulher que a derrubou de imediato como se fosse um saco de batatas. Ela não se ficou e, pegando numa faca, lançou-se na direcção do marido com ela em riste e só não o atingiu em cheio no peito porque o Mário lhe passou uma rasteira que fez com que caísse ao chão e espetasse a faca na madeira do soalho.

Mário pediu desculpa por ter provocado toda aquela desavença e saiu porta fora como se levasse fogo no rabo. Foi a última vez que o vimos. Nessa mesma noite pegou na sua espingarda meteu-a debaixo dos queixos e carregou no gatilho. Foi preciso uma manhã inteira para limpar o tecto da caserna do posto da GNR.

Por causa da operação feita em Lisboa, o José ficou com as defesas corporais debilitadas, continuando a fazer otites e amigdalites com frequência. Por isso os seus pais evitavam que brincasse muito na rua e que fizesse esforços físicos que o pusessem a suar. Quando suava quase sempre ficava doente. E quanto mais doente ficava, mais suava. Era essa a razão porque não o obrigavam a trabalhar no campo.

Mas nesse dia, enquanto os seus pais andavam a sachar as batatas numa terra perto de Donões, o José encontrava-se na companhia do Virtudes igualmente a sachar batatas numa leira pequena junto à Igreja Matriz. O José fazia que as sachava, mas mesmo assim esfolou as palmas das mãos ao manejar o cabo da enxada. E, por causa do esforço, suou muito. À noite começou a ter febre e vomitou o jantar. Passou toda a noite a delirar. A mãe limpava-o e mudava-lhe a camisola de hora a hora. Pela manhã foi o médico lá a casa e receitou-lhe vários medicamentos, vitaminas e óleo de fígado de bacalhau. Durante três dias e três noites esteve com febres altas e com dores que o puseram num estado de prostração desanimante. A Dona Rosa já chorava pelos cantos. Mas o Virtudes, à base de rezas, boa vontade e boa disposição, conseguiu que o José arrebitasse.

Na tarde do quarto dia, a mãe pegou nele ao colo e foi-lhe mostrar o fogão Siul novo que o pai tinha comprado ao senhor da Spar. Era um fogão branco a gás, de pernas altas, com quatro bocas e um forno pequeno, que dava para assar um frango, se fosse dos pequenos. O José ainda hoje se lembra da visão do fogão e pergunta-se porquê? Talvez por não conseguir atinar com a utilidade de um fogão numa cozinha enorme onde todo o santo dia ardia uma fogueira enorme, onde os potes fumegavam como se fossem a caldeira de uma locomotiva e onde o caldeirão da comida dos porcos fervia a toda a hora pendurado na grade central que estava fixa à trave mestra que segurava o telhado. Ou talvez porque já não se lembrava de alguma vez a sua mãe o ter pegado ao colo e de lhe dar como alimento leite-creme.

Com as ceroulas e a camisola vestida, o José fez ao colo da mãe o trajecto do quarto até ao escano da cozinha. No pote maior já fervia a água que a mãe deitou na bacia onde era costume lavar a roupa e pôr as carnes de sorça para o fumeiro. Ele gemeu um pouco, enrolou-se no cobertor e disse à mãe que não lhe apetecia tomar banho. Ela disse: “Estás todo cagado, filho. Já há cinco dias que não te lavas”. Ao que ele ripostou, empregando uma palavra que tinha aprendido no dicionário que o Padre Zé lhe tinha emprestado: “Sujo, mãe, sujo. Não sejas tão escatológica”. Ao que ela respondeu rindo-se muito: “O que eu sou é escanifobética”. Depois o João também se começou a rir e deu um peido sonoro como sempre acontecia quando gargalhava com vontade. Foi a vez dos outros irmãos se rirem também o que provocou novo peido do João e mais riso nos irmãos e na dona Rosa a que se juntou o Leão e o Virtudes, sempre num crescendo de hilaridade que nos abstemos de dar conta mais detalhada porque, afinal, já foi descrita em momento anterior. 


publicado por João Madureira às 09:00
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Quinta-feira, 21 de Outubro de 2010

Portefólio – 8 de Julho - Dia da Cidade de Chaves (2010)


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Portefólio – 8 de Julho - Dia da Cidade de Chaves (2010)


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Portefólio – 8 de Julho - Dia da Cidade de Chaves (2010)


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Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010

O Poema Infinito (18): dedos pousando suavemente sobre o sexo

 

Os teus dedos pousando suavemente sobre o sexo defendem o sonho de um orgasmo sagrado. É quando o dia acorda que morre o instinto dos corpos. Elevo os olhos e neles fica suspenso o teu rosto aonde ainda deduzo carícias e demais memórias frívolas. A luz expõe o excesso do tempo e aviva a cor das palavras resignadas. As locuções pomposas poluem a existência. As sentenças austeras chicoteiam a verdade. As promessas indeléveis invadem a tranquilidade magoada das cinzas. Morre abandonada na dor dos teus lábios a dura fragilidade do coito da solidão. Perdemos demasiado tempo em busca do fulgor rigoroso da fé. Essa é a febre paralisada desde o pecado original. Gritas num murmúrio: Deixámo-nos vencer pela súplica da morbidez. Por isso mordo o teu pescoço como se eu fosse um cão vadio. Por isso trago suspenso no meu pénis uma cantiga de sangue. Por isso sinto a dor antiga da morte. E mordo-a também. O prazer nasce do difícil equilíbrio da instabilidade. O amor germina na ilusão da posse. Mas o que eu desejo conter é a película informe do teu rosto impresso em espuma. Somos cândidos demais para tanto sofrimento. Somos arcaicos demais para tanta instrução. Trazes-me os sons da meninice adormecida por isso entrego-te agora o tesouro da minha irresoluta ilusão. Peso o teu silêncio na minha dor. Dizes: O amor é uma roda de vento. Pedes: Deixa-me levitar no teu corpo cheio de rotinas. Depois imitas a violência do silêncio e recolhes na tua vagina as raízes das minhas origens. Apesar do Outono dos corpos, a iluminação da Primavera ainda cintila na íris dos nossos olhos de feras amansadas. Dizes: Tu ainda és o meu algoritmo de lava. Por minutos, a proximidade dos nossos corpos não pressente a proximidade do abrandamento da dor. Cumprimos mais um ritual. Levitamos nos vagidos legítimos dos gestos crispados dos orgasmos. Encolho-me no teu corpo e adormeço como se fosse de novo, e para sempre, um anjo demoníaco.  


publicado por João Madureira às 09:00
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Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

Portefólio (eterno) – Feira dos Santos – Chaves – PB


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Portefólio (eterno) – Feira dos Santos – Chaves – PB


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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

Como se escreve um haiku

 

Tenho uma vida tão ocupada, mas gosto tanto de poesia, que a leio em voz alta enfiado no carro enquanto as escovas cilíndricas da lavagem automática fazem o seu serviço. Leio Herberto Helder, Al Berto, António Ramos Rosa, Fernando Echevarría, Fernando Pessoa, etc., tendo como música de fundo os sons mecânicos da estrutura metálica que vai e vem fazendo chuva e depois insiste novamente soprando forte ventania na chapa metálica do meu bólide. Pode não parecer logo à primeira vista, mas um carro a brilhar também tem a sua poesia.

 

Mas não é de lavagens automáticas que vos quero falar hoje. A bem dizer hoje não sei bem do que vos quero falar. E seguramente também não é do meu carro. Podia falar-vos de política, mas não tenho vontade. O que por aí abunda mais são comentaristas políticos, chorões e aldrabões. As televisões estão cheias deles. Há muito quem comente e pouco quem faça. E nas lavagens automáticas também se comenta muita coisa, mas faz-se pouco. São as máquinas quem faz o trabalho árduo. E essas possuem a rara virtude de nada comentarem. Limitam-se a fazer o seu serviço com qualidade. Nas estações de serviço comenta-se o futebol, o preço da gasolina e o tempo. Podemos mesmo dizer que Portugal é um país de comentaristas e pessoas que lavam os seus carros nas lavagens automáticas.

 

As pessoas que vão às estações de serviço gostam muito de comer bolos e beber café. Gostam especialmente de natas, mas também se deleitam com queijadas, croissants, madalenas ou bolas de berlim. As pessoas quando comem, sobretudo bolos, ou bolachas, ou torradas sem manteiga, também têm muita poesia. Especialmente as que comem muito e não engordam. Essas são pessoas afortunadas. Por isso podem ler poesia à vontade pois não lhes provoca efeitos secundários. Não sei se sabem, mas a poesia provoca muitos efeitos secundários. Sobretudo a boa. A outra dá ressaca ou provoca azia.

 

Quando vou a uma lavagem automática, por vezes ponho a música alto para experimentar o som da aparelhagem do meu bólide. E ela tem um som que inebria. Eu comprei o meu bólide, que é um carro sport cheio de genica, por causa, sobretudo, da aparelhagem. Aquela aparelhagem tem muita poesia, é a modos que um poema do Al Berto repleto de vitalidade e sublimação. Depois também gosto de contemplar as gotas de água a deslizar pelo vidro traseiro do meu bólide. Muitas vezes pego na minha Nikon de bolso e fotografo o vidro pejado de linhas sinuosas desenhadas pelas gotas de água sopradas pela maquineta.

 

A minha Nikon de bolso também tem muita poesia. Comparo-a aos poemas haiku. E aqui vos deixo um de minha autoria: No carro sujo / a água / escreve. E é disto que hoje vos vou falar, da poesia haiku e da nobre arte de a escrever.

 

À primeira vista o poema de apenas três versos parece pequeno. E é pequeno. Todos os poemas haiku são pequenos. Têm todos apenas três versos. Mas isso não quer dizer que não dêem muito trabalho a escrever. A poesia é um trabalho árduo. O seu resultado pode parecer singelo, mas não é. Chamo no entanto a vossa atenção para o facto de que o que a seguir se dá conta pode ser o resultado (e foi) de muito mais trabalho do que aquilo que parece. Posso dizer-vos, sem comprometer a minha discrição, que fiz dezasseis cortes, dois acrescentos e cinco revisões.

 

Agora, se estão dispostos à explicação, façam o favor de me seguir. Para escrever o meu haiku comecei por: O meu carro preto e sujo / quando está na lavagem automática a apanhar com a água / fica como se tivesse sido escrito. Convenhamos que assim não fica lá grande coisa. É muito extenso. Há palavras a mais em todos os versos. Então temos de o trabalhar.

 

Desfazemo-nos logo no primeiro verso do pronome possessivo e do primeiro adjectivo, pois os  dados relativos ao proprietário da viatura e à sua cor (não a cor da proprietário, bien sur, mas sim ao do bólide) não interessam ao leitor, nem importam à qualidade do poema, nem aproveitam à excelência da linguagem poética, por isso vão fora. O primeiro verso fica então: O carro sujo

 

No segundo verso decido-me por um corte radical (ou melhor será dizer, uma barrela) e fica apenas o nome final que é o elemento fundamental. Então ficamos apenas, e só, com o artigo definido e o nome: a água… Mais um pouco e era harakiri (腹切り) puro, ou Seppuku (切腹). Mas a arte está em saber o que cortar e quando parar.

 

Relativamente ao terceiro verso decido-me mesmo pelo Seppuku (切腹), ou harakiri (腹切り), por isso vai todo à vida e substituo-o pela forma verbal escreve. Sendo assim temos: O carro sujo / a água / escreve.

 

Ficando deste modo, o artigo definido “o” do primeiro verso tem de ser combinado com a preposição “em” para dar lugar ao locativo “no”.

 

Sendo assim, a versão final fica desta forma: No carro sujo / a água / escreve. 

 

Podem os amigos leitores comentar que o único adjectivo também podia ir à vida. E até podia. Mas para a água escrever algo que se veja, o carro, na minha perspectiva, tem de estar sujo. E essa foi a razão porque deixei na terceira posição o adjectivo a adjectivar o que tinha de ser devidamente adjectivado.

 

E por hoje é tudo. 

 

 

PS – (Apenas para senhoras modernas ou para aquelas que aspiram a sê-lo) – Para este Outono o que está a dar são as peças de roupa militares: casaco preto de aviador em pele, calça verde ou jeans e botins castanhos.

 

Um conselho: Esta tendência é perfeita para os dias mais descontraídos, mas a nossa sugestão vai no sentido das estimadas leitoras evitarem os exageros. É que o carnaval ainda vem longe.

 

Outro conselho: Opte apenas por uma das peças sugeridas e conjugue-a com um vestido ou uns ténis espaciais.

 


publicado por João Madureira às 09:00
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Domingo, 17 de Outubro de 2010

Portefólio – Corpo de Cristo – 26 de Maio de 2005


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