Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Os alegres Gaiteiros de Lebução


publicado por João Madureira às 09:00
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Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

O vazio

 

Ontem à noite fui ao café como frequentemente o faço, sentei-me na última mesa do lado direito, pedi um café e uma Água das Pedras natural e quando olhei para a praça notei que estava vazia. Habitualmente a praça está vazia, mas desta vez reparei que o vento agitava com mais intensidade as poucas folhas mortas caídas no chão. Por isso parecia ainda mais vazia. E não era só a praça que estava vazia. O café também estava vazio. O empregado lá ao fundo limpava o balcão com um pano húmido e olhava a televisão como se ela estivesse tão vazia como a praça. Pareceu-me que o empregado estava, também ele, vazio. Felizmente que a chávena de café que o patrão me serviu à mesa não estava vazia. Para falar verdade, a chávena não veio vazia mas pouco faltou. Ali servem uma bica tão curta que pouco mais traz do que um dedal de água engrossada com cafeína.

 

Quando olhei de novo para a televisão fiquei com a impressão de que as imagens que ela transmitia também estavam vazias. Vazias de ideias, de bom gosto, vazias de qualidade, vazias de esperança. Apesar de estar cheia de imagens de pessoas que riam e batiam palmas, pareceu-me vazia. A televisão sugeriu-me uma lâmpada atrapalhada. Iam-se sucedendo imagens repetidas até à exaustão. De repente reconheci o Papa a sorrir evidenciando o seu típico olhar de rato de laboratório. Pareceu-me um homem vazio. Um homem seco onde as ideias de Cristo não fazem sentido. Pareceu-me um homem vazio de sentido, de humanidade. Senti-me ainda mais vazio.

 

O vazio de Deus cria um abismo na humanidade. A ideia de Deus é, também ela, um imenso vazio. O café caiu-me mal. Por isso bebi a água com algum desfastio. Atrapalhei-me com os meus pensamentos. Muitas vezes imagino que pensar ajuda a compreender o mundo. Outras vezes sinto que é precisamente o contrário. Quanto mais se pensa menos se percebe o mundo. Então quando me dizem que o Homem foi concebido à imagem e semelhança de Deus e reparo na merda que as suas imagens causam encho-me de vergonha e acabo o dia a pontapear as pedras do caminho antigo que me leva a casa.

 

A vida actual, aparentemente agitada, é uma vida gasta em cumprir rituais que cada vez nos deixa mais vazios. Trabalhamos para ganhar a vida e a vida esvazia-se todos os dias mais um dia como se ficasse feliz em nos aproximar do dia da morte. O trabalho mecânico pode encher as prateleiras do supermercado, as lojas, os centros comerciais, os restaurantes e os contentores do lixo, mas esvazia-nos a vida, que é um acto único, um milagre quântico. E depois ninguém pensa no resto.

 

A modernidade e o progresso foram pensados para nos esvaziar de sentido. Trabalhamos cinco dias, descansamos dois e depois a roda da sorte faz-nos voltar ao mesmo. A nossa vida é uma sucessão de fotocópias dos interesses dos outros. As nossas ideias são outra sucessão de fotocópias das ideias dos outros. Deixamos que a vida nos atravesse como se fossemos placas de vidro. Mas ninguém consegue viver sem trabalhar. E trabalhar para ganhar dinheiro deixa-nos cada vez mais vazios. O emprego dá-nos a capacidade de sobrevivência para nos afogar na rotina. E a rotina é ainda outro vazio que cada vez se amplia mais à medida que envelhecemos.

 

Envelhecer é um terrível vazio. Quando olho para os meus filhos aflijo-me com o seu sentido. Os meus filhos são os principais responsáveis por ainda não me ter afogado no imenso vazio da minha vida. Mas quando penso no vazio que lhes transmiti sinto-me mal. E também me aflijo quando olho para a minha mulher e reparo no trabalho e no carinho imenso que ela coloca na tentativa de preencher o vazio enorme das nossas vidas com imensos fragmentos de vazio. Os pequenos pedaços de vazio todos juntos tornam mais suportável o imenso vazio de uma vida humana.

 

Ao nível molecular a matéria é preenchida por vazio. Mas quando todo esse vazio se junta forma-se tudo aquilo que é sólido. Apesar disso o vazio está lá para suster os átomos e as suas trajectórias erráticas. E também por ali andam, naquele espaço infinitamente pequeno, os protões, os electrões e os quarks.

 

Mas agora atentem no que a ciência nos diz. Na nossa dimensão, ou seja no universo visível, os acontecimentos são definidos, os objectos têm limite fixo, a matéria sustenta-se na energia, o espaço é tridimensional e perceptível aos cinco sentidos, o tempo flui numa só direcção, as acções físicas são finitas, mutáveis e sujeitas à extinção, todas as coisas têm princípio e fim, os organismos nascem, desenvolvem-se e morrem, tudo o que vemos acontecer é previsível, as causas e os seus efeitos são estáticos.

 

Ao nível do universo quântico manifesta-se a criação, existe a energia, começa o tempo, o espaço encontra-se em constante expansão desde a sua origem (se é que existe origem pois já há cientista que afirmam que o espaço e o tempo sempre existiram), os factos são incertos e impredizíveis, as ondas e as partículas alternam-se umas com as outras, só existe a possibilidade de medir probabilidades, o nascimento e a morte sucedem-se à velocidade da luz, a informação está imersa em energia, somos informações frequenciais comandadas pela mente, somos partículas vibracionais de um todo unificado, somos eternos.

 

E é na eternidade que bate o ponto. Ou seja, a eternidade é um imenso vazio preenchido por outro vazio onde flutuam umas partículas de energia eterna. Agora, sabendo isto, pensem no sentido que tem em irem trabalhar amanhã. Agora, sabendo isso, pensem no sentido da vossa vida. Pensem no sentido do dinheiro, da casa, do carro, dos pasteis de nata, no sentido do café e das Águas das Pedras e da praça e da bandeja do patrão do café e no gesto do empregado a limpar o balcão ou no sentido da televisão, ou, pior ainda, no sentido do Papa que é um senhor velhinho que anda pelo mundo fora a falar de um Deus que nem sequer se manifesta a um nível cognoscível. Deus pode ser misterioso, mas tanto também não. E para quem tem tantas e tamanhas qualidades até lhe fica mal.

 

 

PS – O aconchego de um olhar, de uma carícia, de uma palavra, ajudam muito a vestir de beleza a alma humana, quer o ser que a acolhe seja jovem, velho, ou de meia-idade. Isto partindo do principio de que a alma existe. A não existir, apenas a sua ideia já é reconfortante. Se Deus não nos pode valer, valha-nos ao menos a sua alma, que é a modos como um cachecol que nos aconchega o pescoço numa manhã fria de Dezembro enquanto descemos a Rua de Santo António para irmos comer um pastel de carne acompanhado por uma meia de leite a fumegar ao Biquinho Doce e deparar com a qualidade dos seus produtos e com os sorrisos esbeltos das suas funcionárias.


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Domingo, 28 de Novembro de 2010

Tocador de flauta


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Sábado, 27 de Novembro de 2010

Autoretrato com Nikon 60 e boné aos quadrados


publicado por João Madureira às 09:00
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Sexta-feira, 26 de Novembro de 2010

O Homem Sem Memória

 

39 – Naquele sábado de manhã encheu-se de desenhar. À tarde foi aos níscarros. Mas só depois de uma grande pega com os pais.

O José gostava de ir aos níscarros para os pinhais, para junto dos salgueiros e das linhas de água. Iam em grupos pequenos apanhá-los mas não para os levar para casa. Ele adorava vislumbrá-los ao longe e aproximar-se sorrateiramente para nenhum outro colega se antecipar. Descobria-os com o seu olhar atento de caçador furtivo e disfarçava tão bem que raramente os seus companheiros se apercebiam. Apanhava os fradelhos, boletos, cantarelas, amarelos, sanchas, tortulhos e míscaros brancos, furava-lhes o caule e enfiava-os numa galha fina de giesta. Gostava da sua forma em guarda-chuva, da sua textura aveludada, do seu aspecto redondo e elegante. Deleitava-se a acariciá-los. Muitos deles tinham uma semelhança discreta com um pénis arregaçado. Não os levava para casa porque não apreciava o seu sabor. Preferia vendê-los a clientes certos que lhos adquiriam a um preço razoável. Com o dinheiro comprava chocolates ou, mais recentemente, cigarros. O seu grupo costumava ir fumá-los para as traseiras da escola da Vila. Apenas compravam marcas recentes, todas elas publicitadas na televisão: Kart, Negritas ou Ritz. Nunca adquiriam SG filtro pois era a marca dos cigarros que o professor fumava nos intervalos das aulas numa calma exasperante, ele que era tão lesto e rápido a bater nos alunos. O SG punha os dedos amarelos e deitava mau cheiro. Também não compravam maços de Português Suave, que eram os cigarros sem filtro que o guarda Ferreira fumava, pois ainda punha os dedos mais amarelos, cheirava pior e, quando se travava o fumo, fazia com que os pulmões ficassem tão intoxicados como quando engoliam o fumo das giestas nos dias em que o vento não o deixava sair pela chaminé da cozinha.

O José era mau fumador. As suas chupadelas no cigarro provocavam-lhe sempre tosse. E o sabor era horrível. Normalmente as coisas que os homens faziam eram para ele um grande mistério. Fumavam e isso era penoso de se fazer com a frequência com que os adultos o faziam. Bebiam vinho e o seu paladar era muito desagradável. Ingeriam cerveja que era azeda como o rabo do gato. E sorviam aguardente que queimava as goelas. E fodiam, o que provocava dor, pois muitas vezes ouviu a sua mãe a gemer alto como se lhe doesse o dente do siso e o seu pai a lamentar-se como se o Porto tivesse perdido um jogo frente ao Benfica. E quando olhava para os cães depois da cópula, vomitava por os ver com os sexos pegados e vermelhos como se fosse uma ferida infectada.

Quando chegou a casa ficou admirado por ver os pais em cuecas e camisola interior de alças e a depilar-se debaixo dos braços. Aquele ar de intimidade primeiro provocou-lhe estranheza e de seguida estimulou-lhe uma náusea interior próxima do desconforto. O guarda Ferreira e a Dona Rosa comportaram-se como se estivessem vestidos com a farpela de sempre. A pele dos braços e das pernas, de um branco leitoso, provocava enjoo. O pai, de sorriso nos lábios, cortava com a sua lâmina da barba os pêlos dos sovacos da mãe com um certo desembaraço. A Dona Rosa soltava timidamente pequenos trinados como se fosse uma jovem virgem à procura do primeiro beijo na boca. Estavam ambos ligeiramente corados, felizes, desenvoltos, como se fossem pássaros a dar banho num charco de água.

Agora fazia sentido a sua insistência para que deixasse de ler os livros que o senhor Carvalho da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian empenhadamente lhe aconselhava e fosse apanhar sol. “Estás tão franzino, filho”, disse a mãe. “Estás tão enfezado, José”, repetiu o pai como se fosse uma câmara de eco. E ele: “Não me apetece. Prefiro ficar em casa a ler do que ir ter com os parvos dos meus colegas. Eles não me deixam jogar à bola. Estão constantemente a chamar-me frangueiro. Já não os suporto. São uns ignorantes. Só estão bem a dizer asneiras, a insultar-se e a bater uns nos outros.” “Tens uma cor muito amarela, precisas de apanhar ar puro. Vai brincar, que te faz bem”, tornou a Dona Rosa a insistir. E a câmara de ressonância do pai: “Vai brincar, que te faz bem. Precisas de apanhar ar. Tens uma cor tão macilenta!” E ele teimoso: “Gosto mais de ler. Este livro é muito interessante. Vou passar a tarde a ler. Os meus amigos combinaram ir aos níscarros. E eu não gosto deles.” “Gosto eu”, disse a Dona Rosa. “E desde quando é que gostas dos meus colegas? Tu detesta-los”. E a Dona Rosa: “Eu gosto é dos níscarros. São muito bons. Nem de propósito, tenho ali um quilo de vitela de estufar que vai muito bem com os tortulhos. Vai a eles, José.” E de novo a câmara de eco do pai se fez ouvir: “A carne de vitela que a tua mãe comprou combina muito bem com boletos. Os níscarros que tu apanhas são uma delícia. Vai a eles, meu filho.” E a mãe de novo: “O Virtudes levou os teus irmãos a passear até ao rio. O Leão foi com eles. Só tu é que não queres ir apanhar sol. Andas tão enfezadinho meu filho!” E o pai: “Vá lá José, andas tão definhadinho e…” E o José: “Já disse que não me apetece ir aos níscarros. Prefiro ficar em casa a ler. Estou a habituar-me à vida de clausura. Afinal sempre vou para o seminário, ou não?” E a mãe: “Então não és capaz de fazer um favor aos teus pais e ires apanhar cogumelos para o jantar. Nós cá em casa adoramos cogumelos com carne. E os teus irmãos também.” E o pai: “Os teus irmãos mais pequenos apreciam comer míscaros brancos guisados com carne de vitela e…” E o José: “Já disse que…” E a mãe: “Se não vais a bem vais a mal”. E o pai: “Toma atenção ao que diz a tua mãe.” E o José: “Ainda não entendi bem porque razão quereis que eu saia de casa. Parece que…” Nesse momento o guarda Ferreira pôs-se de pé pegou no porta-moedas, abriu-o e disse: “Como já és crescido aqui tens dez escudos para gastares como quiseres. Vai e diverte-te.”

Como toda a teimosia tem um preço, o José, mesmo contrariado, pegou no dinheiro e foi aos cogumelos.


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Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010

O Senhor Doutel


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Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

O Poema Infinito (23): a tensíssima inevitabilidade

 

Escuto a unidade profunda do silêncio e sofro o seu domínio como se a alegria da dádiva acolhesse a extensão vagarosa do tempo pois sei que é por isso que o tempo deduz o espaço e apaga os seres vivos que se acolhem na renovada fronteira dos conceitos e depois lá dentro amplifica a fala e as palavras e o pensamento repousado dos anjos provisórios que estendem a infância até à transparência do orvalho e até aos bichos que olham o santíssimo sofrimento do trabalho apesar de a infância ocultar o brilho do espanto e o ímpeto do espírito e o silêncio do vento e a origem da vida e do universo como se tudo isto fosse o júbilo santíssimo da privação e da glória de deus e da surpresa que se desenvolve inadequadamente na acomodada sujeição da opulência tendo como pano de fundo a pobreza que empolga os demagogos sempre obedientes aos ditames da vacuidade e por isso também sei que a seguir é a felicidade quem toma conta da mentira e do disfarce e é por isso que escuto o rigor da fala e da língua que serve como o luminoso rumo do exílio e é por isso que a luz vinga a matéria embora a palavra se expanda para lá do jubiloso sossego das águas e por isso continuo a escutar o ritmo agudo do pensamento que ilumina os textos apócrifos pressentindo o cântico excelso das almas ociosas que se vão abrindo e rompendo os objectos bíblicos vinculando preces e maldições à liturgia sossegada dos ateus que estudam aprofundadamente o custo imperioso da maldade e rezam as palavras esquecidas pelo criador do universo e das partículas incrivelmente pequenas que deram origem ao cosmos sabendo que a língua de deus vai sofrendo com os adjectivos polícromos da ignorância e com a condição analítica do amor e do ódio e da ordenação vingativa do espaço ainda que a paciência se esgote na infinita impaciência do criador que continua atento ao fim do tempo e à perseverança dos átomos e à loucura brilhante das estrelas e ao eco íntimo da origem da vida e ao sítio azul da água e ao fulgor específico dos indícios divinos e à beleza inútil dos desertos e à ausência pacífica da eternidade e à imagem limpa do desejo e ao conflito eterno dos dias e das noites e à imagem do tempo que ultrapassa o big bang e a gravitação negra do desespero como se tudo pudesse vir a ser nada ou como se a ascensão de cristo fizesse sentido na era dos foguetões ou como se a carne de deus fosse casta ou ainda como se a virgem maria fosse mulher e por isso rezo penitências lentas inscritas nas paredes dos centros comerciais e recito os poemas encriptados nos manuais de instruções dos electrodomésticos e declamo alto os preços dos relógios de ouro e prego o júbilo incandescente dos frangos de churrasco e enalteço o fulgor das casas de banho automáticas e limpas e desinfectadas das estações de serviço e escrevo inconclusivas teses sobre as receitas tradicionais e sinto que deus se regozija com a total inutilidade do sacrifício humano como se fátima fosse um filme de animação e por isso sei que a iluminação das igrejas serve para jogar no totoloto divino e sei que o sinal perpétuo da desilusão toma conta de mim e por isso oiço o tempo de tréguas que se desperdiça no afecto infinito da luz e por isso também continuo a indigitar a razão a quem criou o infinito equívoco da natureza esperando lentamente pela tensíssima inevitabilidade da morte.


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Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

Rebanho de Ovelhas ou Auto Retrato Enquanto Povo


publicado por João Madureira às 09:00
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Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010

A crise e a lapidação

 

Ai como os jogos de crianças ganham tanta importância na hora de os jogar! Consomem as nossas capacidades inventivas. Todas as nossas energias. Mas quando crescemos e deixamos de os praticar, parece que nos desaparecem do espírito.

 

O que nunca me vai desaparecer do espírito é a sensação de rejeição sempre que queríamos jogar à bola. Quando chegava o momento de escolher as equipas era uma dor de alma. Ali ficava eu à espera que desta vez não fosse o último a ser seleccionado. Pois quando se é a última opção é porque não conseguimos ser opção nenhuma. E a história repetia-se permanentemente.

 

O mesmo sucede ao nosso país. Quando se põe na fila para jogar nunca ninguém o escolhe como parceiro. É um pouco como o engenheiro Sócrates quando se dispôs a dançar o tango do orçamento. Ou dançou só ou fá-lo agora com um parceiro que não quer bailar. Faz-me lembrar quando, na minha juventude, dançávamos sheik em vez de slow pela simples razão de que não havia par disponível.

 

A vida tem destas coisas, a maioria das vezes somos escolhidos, quase nunca temos oportunidade de escolher. Mesmo que por vezes sejamos invadidos pela sensação contrária.

 

O tempo que nos toca viver está a transformar-se numa autêntica tempestade eléctrica. Todos estamos em estado de choque. Os bancos, os economistas, os comentaristas, os políticos, os patrões, os empregados, os sindicalistas, os comunistas, os socialistas, os bloquistas, os bloguistas, os sociais-democratas, os partidários de Paulo Portas, os fadistas, os benfiquistas, os sportinguistas, o povo, as elites, o governo, a oposição, o Alberto João Jardim, etc. E olhem que este estado de coisas tem tendência para se agravar.

 

Desde criança que os relâmpagos me assustam. Apesar de afirmar o contrário. Sou mesmo capaz de troçar das mulheres e pôr-me com ar de chalaceiro a recordar que só nos lembramos de Santa Bárbara quando trovoa. Mas quando a seguir ao ribombar do trovão se lhe segue o magnífico dardo de um relâmpago o meu coração acelera para níveis preocupantes. E eu sou hipertenso. Os hipertensos sofrem muito com as crises. Os hipertensos e os tesos. Então se os hipertensos forem igualmente tesos aí ficam mesmo à beira de um ataque de coração, asma ou ansiedade. Com esta crise, que mais do que nacional é internacional, mesmo a Igreja e o Santo Padre estão apreensivos.

 

Isto não está para brincadeiras. Apesar de sentir que quase todos nós tentamos disfarçar o melhor possível a inquietação que nos atormenta.

 

A princípio pensei que a crise porque passamos fosse a modos que uma trovoada. Logo a seguir ao céu negro, ao barulho do embate das nuvens carregadas de água e do dardejar dos relâmpagos, sobreviria a bonança do astro rei e do céu azul. Mas esta trovoada tem-se revelado contínua e permanente e os céus não há meio de ficarem despejados. Pelo contrário, a cada trovão seguem-se milhares deles sempre em crescendo como uma ribombante sinfonia de Beethoven. E então que dizer dos relâmpagos! Se não fossem fruto da ficção para me ampararem nesta prosa um pouco angustiada, eram suficientes para produzirem mais energia eléctrica do que os aerogeradores que o engenheiro Sócrates semeou pelo cocuruto das serras do nosso país.

 

Por isso penso que a crise não é uma trovoada, é antes a guerra. E uma guerra ninguém a consegue vencer. Somos todos vencidos por ela. Apesar de, por vezes, ficarmos com a sensação do contrário. Na guerra mesmo os vencedores são vencidos.

 

Esta crise tem-se mostrado pródiga em orfandade. Ninguém parece responsável. Ou, pelo menos, responsável directo. E os zelotas apontam todos o dedo ao pecador que, na sua ilusão momentânea, pensam ser o actual primeiro-ministro, qual prostituta evangélica. É claro que também ele não está isento de culpa. Mas quem não tiver pecados nesta situação que atire a primeira pedra. Se for capaz. Pois, se por qualquer acto de Deus, os culpados fossem atingidos por uma carga divina de pedras, estamos em crer que nenhum dos que tanto criticam Sócrates se salvava de morrer lapidado.

 

Esta crise serve na perfeição como um laboratório experimental para se aquilatar da imensa hipocrisia, demagogia e irresponsabilidade que atravessa o nosso tecido político e social. Portugal é, pelo menos ouvindo os interlocutores políticos nacionais, um país de autistas. Ou mesmo de irresponsáveis. Sendo que no primeiro caso os interlocutores são inimputáveis aos olhos da Ciência e no segundo são criminosos aos olhos da Lei.

 

Mas o que mais nos fere é a insustentável leveza da visão da extrema-esquerda parlamentar, e ao seu actual compagnon de route, o putativo pai dos pobres, dos velhinhos, dos pensionistas, dos polícias e dos submarinos, o maior demagogo que apareceu no país após o 25 de Abril, o jornalista e reputado evangelizador Paulo Portas. Pois se a demagogia pagasse imposto, o maior contribuinte deixava de ser Herman José para passar a ser o líder do CDS.

 

E a mesma receita aplicada aos dirigentes do BE e do PCP faria com que estes mentores dos amanhãs que cantam (e meticulosos revisores históricos das noites estalinistas que dizimaram milhões de inocentes proletários e agricultores, comunistas, socialistas, democratas, independentes, católicos, ateus, islamitas, budistas, pretos, brancos, mulatos, amarelos, etc.) fossem obrigados a recorrer a empréstimos bancários que, estamos em crer, teriam dificuldade em obter, quer pela pouca credibilidade financeira, quer por causa dos incipientes negócios a que se dedicam.

 

Sim, nós sabemos que tal estratégia não resolvia toda a crise mas lá que tapava uns buracos, isso é mais que certo.

 

E como já quase todos pagaram a crise (os ricos, os pobres, os remediados, os burgueses, os funcionários públicos, os agricultores, os operários, os militares, os socialistas, os sociais-democratas, eis chegada a vez de os portugueses reclamarem aos comunistas que é chegada a sua vez.

 

Francisco Lopes, o candidato do PCP à Presidência da República, firmou que “país comunista não há nenhum no mundo. Nem nunca houve.” Partindo desse pressuposto, apelamos ao senhor deputado para que obrigue o seu partido a criar aqui em Portugal o primeiro país comunista do mundo. Nós que já demos novos mundos ao mundo podemos vir a criar o primeiro país comunista do planeta. E como vamos partir do zero, tudo é possível.

 

Agora que o país que dizem tanto amar está a tocar no fundo torna-se necessário que os marxistas-leninistas, com o seu espírito de missão, se instalem no governo para, de uma vez para sempre, provarem aquilo que valem. Eu sei que o problema será tirá-los de lá. Mas as situações desesperadas exigem soluções radicais. Prova disso é o incrível facto de Timor Leste se ter disponibilizado a comprar parte da dívida pública portuguesa. E outra prova, menos significativa é certo, mas mesmo assim paradigmática, é a intenção da China comunista mostrar apetência por adquirir títulos da dívida nacional.

 

E não são necessárias mais provas para evidenciar aquilo que afirmamos. Apenas o comunismo está em condições de salvar o nosso país.  Só os militantes do PCP estão em condições de convencerem os seus camaradas chineses a emprestarem-nos dinheiro. Urge proporcionar-lhes a oportunidade. Lá diz o nosso querido povo, que eles, mais do que ninguém amam e defendem: a ocasião faz o ladrão.

 

 

PS – Para executivos: Nunca se esqueçam que um fato deve assentar perfeitamente nas mangas, costas e calças. Tenham sempre em atenção que as bainhas devem bater na sola do sapato, sem que sobre tecido enrugado em baixo. Pormenor a ter em conta: use gravatas elegantes e discretas, fuja das espampanantes como Portugal foge do FMI. Pode, de vez em quando, optar pelas golas altas. Acompanhe tudo isto com perfume Bleu de Chanel, relógio Jumping Hour da Baume & Mercier, pasta cinza em pele Furla… e à crise chame um figo. Os comunistas que a paguem se forem os tais homens de coragem que tanto apregoam.


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Domingo, 21 de Novembro de 2010

Fala


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Sábado, 20 de Novembro de 2010

Nostalgia


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Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010

O Homem Sem Memória

 

38 – Naquele Inverno antes do filho do guarda Ferreira e da Dona Rosa ingressar no Seminário, caíram geadas tão fortes que chegaram e sobraram para transformarem as águas do Cávado numa pista de patinagem. As vacas, os burros e as ovelhas dispensaram durante vários dias as pontes para atravessarem o rio. As crianças deleitaram-se a escorregar em cima do gelo como se vivessem no Pólo Norte. Caíam e levantavam-se com muita facilidade, brincavam desesperadamente pois sabiam que aquela grossa folha de vidro que cobria o rio não ia durar muito. Mas enquanto durou, a rapaziada deixou de brincar nos sítios habituais para se divertir apenas em cima do gelo. Deslizaram em cima de papelão, em cima de troncos ou sentados em trenós improvisados construídos com galhos de carvalho atados com cordas de sisal. E riam-se muito, com o sorriso histérico e alarve típico das crianças quando sofrem de felicidade excessiva. Os mais pobres luziam debaixo das suas narinas o monco gelado. Até nisso a pobreza é arreliadora. Sempre presente, sempre a ditar as suas leis, sempre a pôr um sinal na cara dos mais sujos. Mas o José reparou, pela primeira vez, que o sorriso das crianças pobres e a sua felicidade eram iguaizinhos aos dos outros meninos.

O frio era tamanho que a escola fechou e os trabalhos do campo foram adiados por causa da terra ter endurecido tanto que se tornou impossível trabalhá-la. O Sol brilhou com tal intensidade que as galinhas não se atreveram a sair dos galinheiros. Até os leitões da Dona Rosa se sentiram tontos de luz quando ela lhes abriu a porta da corte para virem apanhar um pouco de ar. Apesar do brilho, os raios de Sol não aqueciam. As mulheres começaram a ficar aflitas porque não tinham onde lavar a roupa. Os homens começaram a ficar inquietos porque não tinham nada que fazer a não ser comer e beber. O gado começou a impacientar-se porque ia para os lameiros e vinha de lá com fome pois a erva estava gelada. Apenas as crianças se sentiam felizes com tanto frio e tanto gelo. Mas, para sua tristeza, ao fim de uma semana o tempo amainou e tudo voltou ao normal. Os pequenos voltaram à tortura da escola, os homens ao trabalho escravo das terras, as mulheres ao incómodo de terem de lavar a roupa e de se verem aflitas para a secarem.

Nos dias mais soalheiros, o José aproveitava as tardes para ir brincar com os colegas. Jogava ao botão, ao berlinde, ao pião, ao espeto, aos índios, à trinca cevada, com as caricas, ao futebol e ao hóquei. Apreciava brincar aos índios, jogava razoavelmente ao hóquei, mas detestava o futebol. E havia razões para isso.

O futebol a sério começou a ser jogado depois de terem assaltado a loja do azeiteiro da Portela que vendia rebuçados embrulhados em cromos de futebol. Nesse dia muitos dos rapazes tinham conseguido juntar alguns tostões para comprar jogadores. Por isso se dirigiram à loja onde dois sacos de serapilheira cheios de rebuçados os esperavam à porta. Quando entraram no estabelecimento comercial notaram, com alguma surpresa, que ninguém se encontrava nesse momento nem dentro nem fora do balcão. Olharam uns para os outros e o Alcino disse de uma vez só e a cantar, porque era gago, “ó rapaziada toca a encher os bolsos e a chispar, o último a chegar a casa do alfaiate é paneleiro”. O Carlos Perneta, por causa das coisas, avisou: “o paneleiro é o Luís e…”, quando viu os colegas a correr como desalmados também se pôs a caminho aos saltinhos chegando em último a casa do alfaiate. Os outros encontravam-se já a contar os rebuçados que cada um conseguiu roubar e enfiar ao bolso. Quando todo o grupo se preparava para chamar ao Carlos aquilo que todos sabemos, ele preveniu-os: “Ao primeiro que se atrever a chamar-me paneleiro fodo-lhe os cornos”. Apesar de manco, o Carlos tinha a força de um porco selvagem, por isso ninguém se atreveu a proferir o insulto.

No meio dos rebuçados vieram alguns cromos premiados que deram direito a cinco cadernetas e a uma bola de futebol. E foi essa bola que deu início às desavenças no grupo das brincadeiras. Nestas coisas do futebol havia sempre dois que escolhiam as equipas. E nenhum deles era o José. Um era o Alcino e o outro era o Rui. O José nem sequer era o terceiro a ser escolhido para a equipa do Rui, que era sempre a mais fraca, era o último, e ainda por cima depois do Carlos. Ele não servia para ser atacante, médio ou defesa, por isso o punham sempre à baliza, mas mesmo aí era quase sempre substituído por ser piteiro.

Um dia em que tinha apanhado da mãe e do professor e novamente da mãe e ainda mais uma vez do professor, e que tinha sido, como habitualmente, o último a ser escolhido para as equipas de futebol, quando num lance se recusou a defender uma bola que necessitava de um mergulho, o José limitou-se unicamente a ficar a ver passar a bola rasteira por cima da lama. Foi então quando todos os companheiros de equipa lhe começaram a chamar aselha e outras coisas do género. Naquele momento, o primogénito do guarda Ferreira encheu-se de razões e, num golpe em tudo parecido com o da sua mãe na matança do porco do cabo Aníbal, foi-se à bola e desferiu-lhe golpes tão certeiros que a inutilizaram para sempre. O José ainda perguntou aos adversários qual deles estava disposto a fazer de Eusébio. Os colegas, surpresos com tão incaracterístico dislate, limitaram-se a substituir o guarda-redes e a deixarem-no ir embora com a navalha no bolso. Depois continuaram a jogar com a velhinha bola de borracha ordinária.

Muitas vezes também jogavam o que apelidavam de hóquei em patins por não conhecerem a denominação de hóquei em campo. O único hóquei era o que praticavam o Livramento e todos os outros heróis lusos em jogos que eram autênticas batalhas de Aljubarrota, a equipa nacional sobre patins de que ouviam o relato na rádio a pilhas, que também servia para ouvir os folhetins radiofónicos que quase sempre punham a Dona Rosa a chorar e o Branduras num pranto lastimoso.

Habitualmente jogavam no coberto da escola primária porque o seu chão era em cimento liso o que permitia que a pequena bola rolasse de forma aceitável. O pequeno esférico de borracha tocavam-no à força de trochos de couve-galega, que, apesar de irregulares e pouco elegantes, possuíam a singular qualidade de serem macios na hora de malhar com eles nas canelas, nas mãos e nas cabeças dos adversários.

Para brincarem aos índios, ele e os amigos fabricavam arcos e flechas com as varas de aço dos guarda-chuvas. Com uma fabricavam o arco unindo as duas pontas da vareta com um fio resistente para criarem tensão. Com a outra faziam a flecha que iam aguçar na enorme pedra de afiar onde o pai do Jorge, que era o principal matador de porcos da vila, punha fio no seu arsenal de facas, machadas, podões, foices e gadanhas. E a vareta ficava tão afiada que, quando lançada pelo fio tenso do arco, se espetava com facilidade na madeira das árvores, das portas e dos portões. Por vezes as brincadeiras eram tão sérias, ou tão maldosas, que chegavam a ferir com gravidade muitos dos rapazes e um que outro animal.

O Alcino foi alvejado na cabeça e chorou baba e ranho na hora de lhe tirarem o ferro cravado, ele que se gabava de ser incapaz de chorar fosse pelo que fosse, como disso eram exemplo as estóicas tareias que levava do seu pai sem dar um ai ou verter uma lágrima, por pequenina que fosse. O Carlos foi atingido na perna esquerda, ele que era manco de nascença da direita. Ao Rui atravessaram-lhe a mão esquerda com uma perícia de fazer inveja ao próprio Cavalo Louco que crivava de setas quase todos os cóbois que tinham o azar de aparecer nos livros de banda desenhada do Roque. Ao Luís espetaram-lhe a flecha de aço na nádega esquerda porque era um rapaz com forte tendência para a homossexualidade, era baixo, tinha voz fina, rosto de menina, um cu redondo, saliente e beijava os rapazes na boca com mais mestria do que a professora quando beijava o escrivão do Tribunal no lugar dos encontros amorosos da Mijareta. A flechada no traseiro do Luís foi tão vigorosa que desmaiou quando o Doutor Diogo lhe arrancou o ferro aguçado que tinha entrado uns bons dez centímetros na carne. Mas não foi por isso que deixou de ser tão amaneirado, de mandar piropos a todos os rapazes, de beijar o José sempre que o apanhava a jeito.

Munidos de toda a raiva de que foram capazes, os pais dos feridos queixaram-se à guarda, ao padre Zé, ao professor e aos progenitores dos meninos que não foram alvejados para que os seus índios barrosões fossem severamente castigados e as suas armas confiscadas, com a sugestão implícita de que se não os conseguiam educar os mandassem sem demora para uma casa de reclusão.

Está visto que o José apanhou que se fartou. Ele que não tinha feito nenhum disparo na direcção de qualquer companheiro, que não tinha agredido ninguém, tendo sim sido foi alvo da persistente paneleirice do Luís, que lhe deu um beijo enquanto o Alcino, o Carlos e o Rui o agarravam. Foi nessa altura que os outros rapazes dispararam as suas flechas e provocaram os ferimentos descritos.


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Quinta-feira, 18 de Novembro de 2010

Esperar sentado


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Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

O Poema Infinito (22): Vigília

 

Que desespero me ergue diante de ti? Que dor é esta com que te escrevo? De onde vem esta onda escura que ilumina nos meus olhos a transparência dos teus? Encolho-me nas horas mortas e amo o reflexo protector da tua nudez que ainda dorme coberta pelo cicio das palavras doces pronunciadas irreversivelmente às primeiras horas da manhã. O tempo custa a passar porque está contaminado pela insónia. No entanto vejo tudo dilacerado pelo torpor do sangue. A Bela adormece agora junto ao Monstro. A minha vida sempre foi a de guardador de desilusões. Sempre a imaginar itinerários impossíveis, sempre a programar peregrinações, sempre a procurar paixões e travessias e fugas e desenhos místicos e palavras cabalísticas. Sempre a precisar de uma imobilidade transgressora. De novo o silêncio se sobrepõe à vulgaridade. De novo Deus revela a sua melancolia nos pássaros mortos de Inverno. De novo Deus é uma lâmina sagrada. De novo Deus é um fugitivo que com as suas mãos bondosas cria o vazio. E eu creio nos seus delírios de medo e nas suas visões apocalípticas. Deus é uma bomba de neutrões. Tudo está iluminado de uma escuridão ácida. E a noite torna a esconder-nos os sexos. E o sono é outra vez um deserto de mãos e de sonhos vagos e cristalizados. A tua língua é uma faísca desejosa e desejada. Invento o teu sorriso neste país de sal, nas suas cidades cansadas, nos seus desejos aflitos. Embalsamaram os meus heróis de banda desenhada e puseram os seus autores a tatuar negros e prostitutas árabes. Tudo se incendeia. Viajo agora rezando poemas pornográficos admiravelmente puros. Dizes: jamais o vento nos acordará. O teu corpo abriga a insónia do meu. Fingimos felicidade. Lá fora o Inverno veste-se de nevoeiro e de geada. Lá fora as horas tornam-se agressivas. Lá fora a luz dos candeeiros torna-se fixa. Digo-te: sinto-me triste na minha nudez pálida. Sonho com corpos vestidos de água afogados nas areias do deserto. Sonho com paisagens de lados invisíveis. Sonho com crianças azuis vestidas de brinquedos. É noite ainda e levanto-me extenuado. Vou dar um passeio para vigiar a morte. Depois olho para o rio calmo e decidido recorrer a ti. Olho-te eternamente pela primeira vez. Eu volto sempre para a tua simplicidade.


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Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

Conversas


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Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010

O substantivo feminino

 

Rachida Dati (eurodeputada francesa) numa breve declaração à televisão afirmou: “Vejo alguns (fundos de investimento estrangeiros) que visam rendibilidades de 20 a 25% numa altura em que a felação é quase nula”. Muitos órgãos de informação vieram dizer que esta sua curta declaração se ficou a dever a um lapsus linguae. Eu, com licença dos estimados leitores e de muitos jornalistas encartados, permito-me discordar.

 

O substantivo feminino felação (latim *fellatio, -onis, acçãoação de chupar, de fello, -are, chupar; prática sexual que consiste em estimular o pénis com a boca ou com a língua), segundo os comentaristas, deve ter surgido em vez do seu congénere deflação (inglês deflation) actoAto de retirar da circulação o papel-moeda, superabundante ≠ inflação). Lá poder podia mas a senhora deputada, seguindo o mesmo raciocínio, também podia querer dizer falação (discurso, palração), que é até o termo mais ajustado ao seu actual emprego. Pois os deputados, quer eles estejam adstritos aos respectivos parlamentos nacionais ou ao europeu, são exímios no discurso. É nesse papel que se sentem cómodos, felizes e onde exibem as suas boas práticas oratórias. Daí o terem sido eleitos pelos respectivos povos, que depositaram nos respectivos deputados todas as suas esperanças numa boa palração em defesa da honra e da dignidade pátrias. E, pelo que sabemos, publicamente pouco mais podem fazer do que falar muito… de vez em quando. Não por lhes faltar qualidade, mas sim por falta de tempo. É que os eurodeputados são muitos e o prazo estipulado para os debates não dá para todos. Ali cada minuto é contado ao milésimo de segundo.

 

Mas, contraditoriamente, a falação a que hipoteticamente a senhora deputada se podia estar a referir, em vez de diminuir com a crise, aumentou exponencialmente por essa Europa fora. E não foi só dentro dos parlamentos (quer ele seja o europeu, quer sejam os nacionais, os regionais ou mesmo os locais) que o debate se fez. Agora a discussão desceu à rua, democratizou-se. Este é o bom prenúncio das crises, o potencializar as discussões, as manifestações, as greves, os tumultos. Pois quem não se sente não é filho de boa gente. E nós sentimos tanto a turbulência que parecemos fidalgos (de fi[lho] de algo; 1. indivíduo que tem foros ou títulos de nobreza; 2. aquele que vive dos seus rendimentos; 3. popular, pejorativo: indivíduo que vive sem trabalhar e que anda bem vestido). E que fidalgos.

 

Nesta altura de crise nacional e internacional todos palram, mas, lá diz o povo, na sua inesgotável sabedoria: Parlamento onde não há tostão todos palram e ninguém tem razão. E como todos sabemos também quando ninguém tem razão é porque todos a temos. E o ter razão pode não nos dar pão, no entanto fornece-nos a energia suficiente para gritar e combater. Mas como em democracia os combates são civilizados, vimos para a rua gritar. E, como todos sabemos, porque o bom povo português nos ensinou, ovelha que não berra não mama. E no mamar é que está o ganho. O problema é que o leite já não dá para todos. E as tetas são cada vez menos. E agora nenhum português se conforma com beber apenas meio copo de leite quando se habituou a beber um ou dois ou três, e com chocolate. E quem é que presentemente anda a pé? Quem? Ninguém. Por vezes ainda observamos meia dúzia de maníacos das marchas a favor da saúde a calcorrear montes e vales. Mas fazem isso só para se armarem. Depois das caminhadas vão para casa empanturrar-se com salsichas e batatas fritas. Ou com bolinhos do Modelo, que são baratos e bons.

 

Mas cada vez se engorda mais. Os médicos bem nos avisam: comam menos para andarem menos. Quem muito anda muito se cansa. E quem se cansa tende a comer mais para repor as forças. E como comida puxa comida, lá tornamos a engordar. E depois o médico castiga-nos com mais caminhadas e outras tantas dietas e ainda outras porras que tais. E assim se desenvolve o tal círculo vicioso que é uma das mais temíveis doenças do nosso estado social.

 

E se a palração vai alta, a deflação tende a estabilizar. E é visível. É notório. É mensurável. Para isso estão os economistas que nos mostram os gráficos. Ou quando não são os economistas a mostrarem aqueles gráficos com os picos sempre lá no alto que nos fazem lembrar o Brunheiro, aparece o professor Marcelo com eles para nos ameaçar com a nossa insensatez, ou quando não é o professor a meter-nos medo, aparece a senhora Manuela Ferreira Leite a prometer-nos o Inferno em vida. Agora nem o engenheiro Sócrates nos dá boas notícias. Só nos fala em orçamento, orçamento, orçamento. Porra, parece que não há mais vida para além do orçamento. Até o senhor ministro da economia nos ameaça com o dilúvio caso não calcorreemos o caminho que nos aponta. Chega. Chamem o Jorge Sampaio, pois ele sabe que há mais vida para além do orçamento. Convidem o Santana Lopes para primeiro-ministro. Que ele sabe muito bem como cuidar de orçamentos em incubadoras. Peçam a Cavaco Silva para fazer o alto sacrifício de abandonar a presidência da república e voltar a ser de novo o ministro das finanças. Em Portugal, só ele e mais meia dúzia de economista seus amigos percebem alguma coisa de números. Dessa forma fazia um enorme favor ao país. E para presidente podia voltar Mário Soares pois só ele é fixe. E na Europa ninguém lhe mete medo. Ele e a sua autoridade podem bem com a senhora Merkel. Para enfrentar Sarkozy basta a Maria Barroso. O que eu quero dizer é que façamos um governo de salvação nacional. Um governo de unidade entre o PS e o PSD. E os outros três partidos também têm de participar neste esforço nacional através da oposição. É que todos os partidos no governo forçavam a que a oposição fosse feita pelos emigrantes. E eles são ainda poucos e possuem fracas qualificações. Mais a mais, a oposição em Portugal é das mais coerentes a nível europeu. Governo? Nunca. Oposição Sempre. Governo nunca mais. Os estrangeiros que paguem a crise.

 

Por isso é que a felação é quase nula. Eu não sei bem como se pode aferir da sua prática, já que é um acto que convida ao recato e à intimidade do lar. Mas com a crise, os níveis de bem-estar estão seriamente ameaçados e sem eles a frequência e a qualidade das felações têm necessariamente de se ressentir. O que eu não sabia é que estavam tão em baixo. Mas eu também não sou deputado europeu, nem sequer sou deputado municipal. E estou em crer que nem sequer faço parte daquela amostra significativa que as empresas de sondagens e estudos de mercado utilizam. A mim nunca me perguntaram em quem votava ou se me abstinha ou se votava na oposição ou no governo ou se ia utilizar o meu boletim de voto como se fosse o totoloto.

 

Mas a minha intuição diz-me que a senhora deputada europeia é bem capaz de saber daquilo que fala. Além disso as mulheres francesas não são nada preconceituosas. E utilizam a boca com muito mester. E a revolução francesa tem de servir para alguma coisa mais do que para ser invocada em vão.

 

 

PS – Caros leitores, aqui vos deixo mais uma dica: as camisas de xadrez para cavalheiros vieram para ficar neste Inverno. Por isso conjuguem-nas com t-shirt beje, umas calças confortáveis com suspensórios e com um must have da estação e o casaco de pele estilo “aviador”. Pode adquirir também uns óculos de sol castanhos Persol, ou tipo “aviador” road spirit, para combinar com o casaco, em preto e dourado, cinto de pele Hilfiger Denim; relógio Diesel, botas Camel e, se não for muito sugerir, uma manta Louis Vuitton e uma bicicleta Gant.


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Domingo, 14 de Novembro de 2010

Ironia


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Sábado, 13 de Novembro de 2010

Suor


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Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010

O Homem Sem Memória

 

37 – As nevadas tinham o dom de dulcificar os olhos castanhos do José. De Inverno, quando acordava, o seu primeiro instinto era abrir as portadas de madeira das janelas e pôr-se a observar os montes lá ao longe. Quando eles se vestiam com o xaile branco da neve rejubilava. Sabia que durante algumas horas o mundo – o mundo de todos, mas sobretudo o seu mundo – ia ficar mais limpo, mais uniforme, como se fosse gizado pela mão sábia de uma criança rigorosa. A neve tinha o condão de disfarçar por algum tempo a sujidade das ruas, a irregularidade dos caminhos, o tom pardacento das coberturas de colmo, a irregularidade tonal do vermelho velho das telhas das casas mais recentes, deixando virgens as passagens a percorrer, escondendo a bosta dos animais e as pedras velhas e gastas dos passeios. Tudo deixava de ter o aspecto degradante da pobreza.

O José deliciava-se a percorrer os caminhos antigos para neles deixar a sua pegada de astronauta evangélico. E dizia solenemente: este pode ser um pequeno passo para um rapaz humilde, mas tudo aponta para que seja um passo gigante em direcção ao futuro de um libertador de almas. E pisava o manto de neve com pegadas tão perfeitas e certeiras como as do próprio Deus no princípio do génesis.  

Quando ia desbravar os mantos alvos das cercanias preocupava-se em nunca ir acompanhado. Os seus amigos, se os tinha, e isso para ele não era, nem nunca mais foi, um dado adquirido, ficavam sempre, e para sempre, excluídos dos gestos eloquentes da iniciação monocórdica da recriação do mundo. Foi desta maneira que assimilou a dura experiência do individualismo, que tantos problemas lhe viria a criar durante a sua vida de militante de causas perdidas.

Quando agora lê, deslumbrado, o Corto Maltese na Sibéria ou A casa Dourada de Samarcanda, o que lhe vem à memória são as manhãs esplendorosas da neve no barroso. A luz do sol reverberando nos finos cristais e o silêncio nostálgico da beleza branca irradiando sedução. Foi por causa da neve que se converteu ao Comunismo e abandonou de vez a Igreja. O filme Dr. Jivago conquistou-o para sempre. Apesar de delicadamente reaccionária, a película tocou-lhe pela fragilidade subversiva, pelo desengano humano, pela crença idiota na Rússia Soviética, como se uma serpente deixasse a sua pele e prodigalizasse em luzir ao sol as escamas refulgentes da repulsa. Entre lágrimas grossas e confusas, via emergir do filme, como bálsamo instigador de dor, sublimação e redenção, as canções de cordel que o punham num estado próximo da prostração. Tinha medo de chegar a casa e de a ver consumida pelo fogo redentor da blasfémia, ou pela diabolização contra-revolucionária.

O comunismo era uma doutrina muito mais totalitária e absorvente do que o cristianismo. Funcionava muito melhor como apelo instantâneo, como liturgia diária, como sublimação subversora, como mentira universal. E isso enchia-o de tesão. Provocava-lhe cãibras nas pernas. Deus ao pé de Marx era como um profeta menor. E o Lenine discursando enquanto farrapos de neve lhe acariciavam o boné e o sobretudo, ou Maiakowski declamando poesia na redentora Praça Vermelha vestida com o branco virginal da ideologia igualitária, era uma iconografia tão intensa como um ícone ortodoxo russo, um santo no altar da igreja, ou um felácio ao pé da lareira. Nos dias de neve, enquanto os adultos se queixavam do frio e da imobilidade, e os animais se remetiam ao mutismo estúpido dos seres desinseridos, as crianças enchiam a vila com a alegria contagiante dos seus trinados. E brincavam a atirar bolas de neve uns aos outros, ou faziam bonecos com narizes, olhos e bocas de pequenos pedaços de carvão que tiravam das lareiras. E mijavam em cima da neve fazendo pequenas cavernas de cor amarelada enquanto se riam uns dos outros por causa dos seus pénis que ficavam tão pequenos e enrugados como morrões de pesca.

José observava-os de longe condenando-lhes as brincadeiras porque os mais travessos, muitas vezes, escondiam pedras dentro das bolas de neve, o que provocava uma razia de cabeças rachadas sem pistoleiro identificado. Lançavam-se os mais brandos para o meio dos merouços de neve e ali eram abandonados ao choro e à lamentação. E faziam-se bolas de neve do tamanho de rodas de carro de bois que iam engrossando enquanto rebolavam pela rua do Padre Zé abaixo em contacto com a neve por onde passavam. Os rebolos de neve apenas se detinham na Portela, mesmo ao pé da porta do pela porcos, que era a nomeada do barbeiro que por ali tinha uma quitanda em tudo parecida a uma lura.


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Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010

A escrita do tempo


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Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010

O Poema Infinito (21): Criação

 

A invenção do Mundo custou a parir cinco dias infinitos. Logo de seguida Deus criou os seres vivos em apenas dois. E o mesmo Deus ofertou o Mundo, ainda tosco e selvagem, aos animais e às plantas e aos homens que, na sua omnisciente visão, não são nem uma coisa nem outra. Valha-nos Deus. No início, o mundo foi feito através da iluminação cega da criação e Deus transformou-se em loucura e em espada e cortou as estrelas e modelou planetas e tingiu de escuro o firmamento e pôs calhaus a voar caoticamente entre eles. Posteriormente tornou-se amargo e amassou as montanhas e condenou animais a sê-lo para sempre e deu cor à humanidade criando o pecado e o sexo para ser praticado com conta, peso e medida. Deus fez o homem do barro e a mulher das costelas dele. Deus brincou com os humanos como se fossem bonecos de plasticina. Deus gosta muito de brincar. Nisso assemelha-se às crianças. Depois purificou as fontes e as crianças e deu vinho aos reis e aos pobres e colocou carga erótica nas coxas e nas mamas das mulheres e fez-lhes de seguida um rasgo entre pernas para parirem com dor. E pôs lá pêlos. E teve coragem de criar o macaco para o homem se sentir superior e de criar os homossexuais para confundir a sexualidade de uns e de outros. Depois criou os anjos sem sexo. E ainda criou o sexo sem anjos. E chegou mesmo a criar o sexo sem sexo. A que se seguiu o celibato de padres e de freiras. E criou os pedófilos que se abrigam dentro da sua Igreja. E criou caracóis para sugerir ao homem que se quiser prosseguir na sua evolução pode muito bem foder-se a si próprio sempre que queira sem incomodar ninguém e depois pôr muitos ovos para formar descendência. E criou Darwin para nos dizer que todos os seres vivos evoluem só que uns evoluem mais do que outros. E outros evoluíram tanto que chegaram a seres inteligentes e por isso conseguem ter consciência de que Ele existe. E criou a palavra virgem para distinguir a pureza das mulheres pois já sabia que ia ter um filho de uma que o foi antes e depois da fecundação e do nascimento do seu filho que foi utilizado para sofrer e redimir os homens e as mulheres e que, apesar de ser crucificado, de nada nos valeu pois os homens continuam tão maus como dantes e o seu único filho ficou para sempre crucificado numa cruz de pau feita de prata ou ouro que o seu representante na Terra ostenta como símbolo de poder. Mas o poder de Deus num homem é uma das coisas mais estúpidas que se pode conceber. E Deus, ao que por aí se diz, não é estúpido. Estúpida é a economia que foi criada pelo homem para enriquecer uns e empobrecer outros. A economia é uma prostituta rica que muitas vezes é abençoada pelo Homem e por Deus. E nisso o seu filho foi peremptório atribuindo a César o que é de César. Pois à mulher de César, que agora sabemos chamar-se Economia, não lhe basta ser séria também tem de parecê-lo. E finalmente criou o foguetão e enfiou lá dentro três homens que foram à Lua e um deles deu um pequeno passo para ele, disse ele, mas um grande passo para a Humanidade, disse ele também. E ninguém se atreveu a desmenti-lo. Ainda hoje se está a medir o seu tamanho e ninguém conseguiu definir com exactidão a sua extensão. São, por isso, insondáveis os caminhos do Senhor.


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Terça-feira, 9 de Novembro de 2010

No topo do mundo


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Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

O comentarista

 

Ontem pus-me a ver e a ouvir o solilóquio do Dr. Marcelo Rebelo de Sousa na TV e, devido à sua eloquência, quase adormeci de entusiasmo. O senhor comentarista consegue impregnar as suas críticas com argumentos tão credíveis e pertinentes que me fazem desconfiar que o senhor doutor não é português, porque se o fosse não conseguia dizer aquelas coisas tão bem ditas, não era capaz de transformar o que para o comum dos mortais são verdades de Lapalisse em teses argumentativas dignas do teatro de Sófocles. E ditas com aquele seu ciciar as palavras à moda dos sassamelos é enternecedor. Como enternecedoras são as suas doutas opiniões sobre os livros e sobre o governo e sobre o futebol e sobre o ténis e sobre ele próprio. O Dr. Marcelo podia e devia ser um exemplo para o país, para o governo e para o futebol e para o ténis e para ele próprio. O Dr. Rebelo tudo entende, tudo compreende, tudo explica e tudo escrutina com uma leveza digna dos maiores elogios. Não é que ele os necessite, não, para o Dr. Sousa elogios são a coisa mais comezinha que existe. E as suas opiniões também. Mas apenas são comezinhos na aparência, porque debaixo da simplicidade das suas análises reside toda uma sapiência que demorou décadas a construir. Por isso o imagino a citar Tácito em A Vida Agrícola: "Tudo quanto é desconhecido é aumentado”. Eu aprecio muito a sua brilhante verve, a sua dedicação introspectiva à crítica política sem necessitar de passar pela sua execução. Executar que executem os outros, pois para isso foram mandatados. Ele apenas tem a incumbência de alertar quem deve ser alertado. Ele vive e reflecte sobre a realidade. Nós vivemos na ilusão. Ele fala, analisa, lê, escreve, medita, nada todos os dias no mar perto de sua casa e come uma sandes ao almoço. Nós, os que o ouvimos com toda a atenção do mundo, bem o queremos imitar, mas não conseguimos. Falta-nos o apego à realidade. Portugal necessitava, necessita e necessitará de milhares de Marcelos espalhados pelas empresas, pelas universidades, pelas escolas, pelas esquadras, pelos centros de emprego, pelos hospitais, pelas câmaras municipais e pelas juntas de freguesia. E estamos em crer que mesmo assim seriam poucos. E quanto não daria a Igreja Católica para poder ter em cada púlpito e em cada igreja um Marcelo sacerdote? Em menos de um ano transformaria os templos frios e vazios em espaços a abarrotar de crentes sequiosos das suas singelas, mas sábias palavras. E era mesmo homem para, em conjunto com a palavra de Deus, nos indicar a leitura de um livro, as receitas mais económicas para a semana, o partido melhor colocado para ganhar as eleições, sem recorrer a sondagens, e de definir a estratégia e a táctica para o Benfica ganhar o campeonato de futebol dois anos seguidos. Era padre para fazer vir Cristo à Terra pela terceira vez, de ensinar o novo Evangelho ao próprio Cristo e, estamos em crer, ao mesmíssimo Deus, de o orientar na busca da verdade, de lhe explicar como devia amar o seu putativo pai e o seu Pai verdadeiro sem criar uma relação afectiva conflituosa e assim destruir o complexo de Édipo e muito mais tarde a teoria de Freud, como relacionar-se com os apóstolos sem despoletar ciúmes e traições, como tratar da sua relação com as mulheres, de lhe explicar da necessidade do novo relacionamento com os vendilhões do templo, de como fazer os milagres sem ser exibicionista, de como perdoar os pecados sem com isso pôr em causa a fé dos discípulos, da necessidade de evitar transformar a água em vinho, para dessa forma escusar dar maus exemplos que perduram desde há dois mil anos, de não secar as figueiras por vingança, de evitar multiplicar o pão e os peixes pois tais atitudes fazem descer perigosamente os preços desses produtos e põem em causa toda a economia nacional, de evitar dar a César o que é de César, porque César já morreu há uma porrada de anos e continua a receber dinheiro que não lhe serve para nada. O Dr. Rebelo podia mesmo vir a ser o novo Messias não se desse o caso de ser português. Fosse ele americano e outro galo cantaria, não o que cantarolou tão afinado e certeiro que fez com que Pedro negasse Cristo três vezes. Se o Dr. Sousa tivesse sido discípulo de Cristo é mais que certo que quem passaria à história como o Filho de Deus não seria o que hoje conhecemos e veneramos como tal, mas sim o comentador da televisão, pois, como todos bem sabemos, a progenitura do Filho de Deus continua a ser motivo de polémica. O Dr. Marcelo era mesmo capaz de fazer desistir o próprio Deus da ideia de matar o seu querido descendente para redimir e salvar os homens. Devido à sua eloquência, ao seu poder de persuasão e à capacidade de dormir pouco e ler à velocidade do Super-homem, era senhor para convencer o homem da cruz a desobedecer ao Pai e, em vez de ser morto para fundar uma religião e depois subir aos céus para fazer companhia ao seu solitário Pai, renegá-lo e seguir a profissão de advogado, ou político, que são ambas onde o poder da palavra e o dom de a usar em público são melhor aceites. E escusava a senhora de vendar os olhos para pegar na balança, pois se o seu pai fundador fosse Cristo ela nunca teria a necessidade de tapar os olhos e pesar os crimes dos homens para fazer justiça. Também é possível que se Cristo nascesse nos dias de hoje enveredasse pela carreira de comentarista político. Ou melhor, estamos em crer que se Cristo encarnasse num ser humano que tivesse o cartão de cidadão português, necessariamente teria de ser o Dr. Marcelo. E imagino-o a recitar o versículo do salmo cinquenta e sete do Evangelho segundo S. Mateus: “Levanta-te, glória minha, levanta-te, saltério e cítara: eu próprio me levantarei cedo”. Não foi em vão que por causa das promessas do senhor comentarista Cristo desceu à terra uns dias antes de o Dr. Marcelo aceitar ser presidente do PSD. Uma coisa é ser invocado em vão, outra, bem distinta, é ser citado como testemunha do Dr. Marcelo. Aí nem Cristo tem vontade de contrariar o senhor doutor comentarista. Pois uma coisa é ser amigo do Dr. Rebelo, outra, bem diversa, é ser-se seu inimigo. Ó Dr. Marcelo, nós aqui gostamos muito do senhor e assistimos sempre à sua homília dos domingos. A paz esteja consigo, porque a paciência está ainda connosco. Só não sabemos até quando.  

 

PS – Exclusivamente para senhoras. Seguindo a lucidez intrínseca das propostas do Professor Marcelo na televisão.

Para a estação fria que aí vem estão convidadas a transformarem-se numa personagem das boas séries da TVI e a desfilarem por essa cidade com a elegância levemente afectada de uma lady ou a viajarem até aos climas invernais do pólo norte, transformadas em esquimós modernas.

Gostos à parte, a nossa proposta assenta basicamente na sobriedade das cores, na subtileza do veludo e em looks que se pautam pela inspiração retro e pelo minimalismo.

E também está muito na moda neste Inverno votar no Professor Cavaco Silva. Paixões, beleza, design e preferências políticas não se discutem, seguem-se.


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Domingo, 7 de Novembro de 2010

O homem sofredor


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Sábado, 6 de Novembro de 2010

Lá no alto


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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

O Homem Sem Memória

 

36 – Quando o reco saiu da corte, os sete homens fizeram-lhe uma pega de caras como se de um touro se tratasse. E para touro só lhe faltavam os cornos. Era um bicho portentoso. O animal ia dar carne em abundância. E da boa. Alimentado em casa com batata barrosã, bolota, milho, centeio e couve-galega, até a carne gorda se comia como se fosse magra. Assada no espeto de pau, deixando cair o pingue no pão centeio, era um manjar de comer e chorar por mais. O José adorava comê-la acompanhada de cevada quentinha.

Momentos antes, a Dona Rosa fez o teatro de sempre e começou a fugir para longe tapando os ouvidos, afirmando que não conseguia assistir a um acto tão bárbaro. As outras mulheres encolheram os ombros e distribuíram-se pelos lugares estratégicos para levarem a cabo as diferentes tarefas, tais como aparar o sangue, pegar nos cestos ou fazer pequenos fachucos de palha.

Vários homens pegaram no porco pelas orelhas, outros filaram-no pelas patas e os restantes agarraram-no por onde puderam. Todos à uma, tombaram-no no chão e só depois é que o transportaram para o banco corrido onde o matador lhe enfiou o aço delicado e certeiro da faca até ao coração. Roncou que se fartou até se calar. Finalmente, os homens largaram-no. O matador insistiu em dar golpes perseverantes para o sangue continuar a correr para os alguidares de barro preto. O primeiro líquido escarlate foi dali directo para o pote. O outro foi misturado com um pouco de vinagre, para não tralhar, e mexido com paciência para vir a seu utilizado no fabrico dos chouriços de sangue e em apetitosas filhoses.

Agora todos se riam, os homens, as mulheres e as crianças. Muitas delas foram enviadas à procura das pedras para lavar o reco e andaram de casa em casa até um vizinho mais dado à brincadeira as fazer carregar com uns pedregulhos pesados enfiados dentro de um saco de serapilheira. Quando, exaustos, chegaram de novo ao terreiro, deitaram as pedras ao chão e puseram-se a olhar admirados para os homens que, agora, chalaceavam com a toleima dos garotos, enquanto chamuscavam o pêlo do animal com fachucos de palha centeia e o barbeavam com facas amoladas em pedra apropriada. Começaram a lavar o porco com rebos de granito do tamanho da palma da mão que abundavam por aqueles caminhos fora. Quanto mais observavam o olhar apalermado dos miúdos mais se riam. Muitos dos garotos não acharam muita graça a terem sido ludibriados e começaram a chorar e a proferir asneiras das grossas imitando o linguajar árduo e obsceno dos adultos.

Continuavam a rir os homens, riam agora algumas mulheres, riam muito os jovens que já tinham sido vítimas da mesma brincadeira estúpida e sádica. Mas o povo tem destas coisas, rir dos néscios, dos desgraçados e dos inocentes.

Quando o suíno ficou lavado, colocaram-no de barriga para cima mesmo a jeito de o matador o cortar com gestos certeiros e sábios. Primeiro foi-lhe retirada a pele da barriga junto com a carne gorda, depois foram sacadas as tripas e colocadas dentro de um cesto enorme protegido por um lençol de linho, com muito cuidado para não rebentarem. Mais logo serão lavadas no rio e com elas se fará todo o fumeiro necessário à alimentação da prole.

Em cima do couro liso do suíno, foi servido o sangue cozido ainda a fumegar, temperado com sal, alho e azeite. Foi ainda fornecido vinho para todos. Até para as crianças. Todos beberam. O vinho era bom e tinha a temida particularidade de emborrachar. Os homens gostavam de sentir-se bêbados. Ficavam mais descontraídos e assim a vida parecia-lhes mais suportável.

Depois de esventrado, o porco foi pendurado na trave mestra da adega e ali ficou à espera de enrijecer as carnes e de escorrer o pouco sangue que ainda lhe circulava nas veias. Dali a três dias ia ser desmanchado, o que era pretexto para tornar a convidar os amigos e para novamente se comer e se beber como Deus manda. Pelo menos é isso o que o povo diz. E o povo conhece bem Deus e os seus desmandos.

A rapaziada, cheia de força, encheu a bexiga do bicho e pôs-se a jogar a bola. Todos queriam ser o Eusébio. Mas não podiam porque o Abel, um órfão angolano que o Padre Zé tinha acolhido em sua casa durante dois anos até ir para o seminário, berrou para todos que o Pantera Negra só podia ser ele, pois era da mesma cor e tinha o mesmo jeito para jogar a bola. Os outros que se contentassem em ser o Torres, o Simões, o José Augusto, ou o Jaime Graça. O Eusébio barrosão fintava com tanta perícia que todos, em vez de jogar, se punham a olhar para ele como se de um artista de circo se tratasse. E a bola, de tão leve, teimava em pinchar sem rumo definido.

Mas foi o José quem se encarregou de terminar com o jogo que ainda mal tinha começado. Ou melhor, o seu pai coadjuvado pela Dona Rosa. Num lance mais arriscado, um dos jogadores, o filho de um cantoneiro com pouco jeito para a nobre arte do futebol, mas com forte inclinação para o mester da cacetada, avinagrado por o Abel lhe ter feito várias coxinhas seguidas e outras tantas interpoladas, num lance em que viu o José receber um passe de morte do Eusébio de Montalegre, foi-se-lhe às pernas e lesionou-o com gravidade. O guarda Ferreira, de cigarro em riste, apitou penalti. Mas foi interpelado pelo cantoneiro resmungando que aquilo nunca foi, nem nunca será, grande penalidade, que era notório que o pai protegia o filho e que, mais a mais, o futebol não é para maricas. “Tento na língua”, avisou o pai do José imbuído da sua dupla função de agente da autoridade e de juiz do assobio. E como o árbitro teimava na sua decisão de marcar pena máxima contra a equipa do filho, o cantoneiro elevou mais alto o seu desacordo e, após meter um pedaço de sangue cozido e pão à boca, e ainda depois de emborcar, de uma só vez, um copo de tinto, designado na gíria por penalti, foi-se caras ao árbitro e sentenciou: “Aqui pelo meu Coluna ninguém passa. Ele é dos valentes. O teu rapaz é que tem pouca força nas canetas. O futebol é para homens.” No momento, o Eusébio barrosão veio em defesa do seu companheiro de equipa e atacou: “O Simões pode não ser muito forte, mas finta como uma serpente.” “Cala-te preto”, avisou-o o pai do putativo Mário Coluna. “A tua opinião não é para aqui chamada.” “Ninguém chama preto ao meu afilhado preto. É uma ordem”, notificou o cabo Aníbal. “Ó Aníbal, só te pões ao lado dele porque é guarda. Que merda de valentia.” E ia para proferir mais qualquer coisa mas deteve-se porque a Dona Rosa pegou na bexiga cheia de ar e espetou-lhe o fio encolerizado da navalha que trazia sempre no bolso do avental e disse “acabou-se o jogo”. Todos se calaram no campo de futebol improvisado como se o árbitro tivesse decretado um minuto de silêncio em honra do reco morto. Como por milagre, a mulher do cabo Aníbal chegou-se à porta de casa para informar que o almoço estava na mesa. Todos esqueceram as desavenças e foram comer o cozido que cheirava estupendamente.


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Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010

O olhar do pastor


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Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010

O Poema Infinito (20): a beleza triste dos crisântemos tardios

 

Encontro em ti aquele repouso frio das manhãs que tanto tonificam a ironia e a alma quente da inutilidade. Por ti eu amo o intenso desânimo do conhecimento. E o mundo tem outra luz, uma luz fria que transforma a água salgada em gelo. Sinto-me uma ilha delimitada pelo longo silêncio das espadas velhas dos guerreiros, como se eles movessem os seus membros insolentes avisados pelo horror da morte. Batem os ossos e as veias nos gritos dos inimigos. Vagarosamente, a noite fulmina a poesia. Tu entoas uma velha canção de escravos: Conheço o nascer da Lua, conheço o nascer das estrelas, agora eu só quero descansar.  Eu canto ao teu ouvido uma versão aproximada: Caminho ao luar, ando debaixo das estrelas, agora eu só quero descansar. Daquilo que o espírito acende a força da tristeza silencia. Tu chamas-me agora um nome lindo e demorado. Por isso quando penso em ti sinto que posso enlouquecer eternamente. Esqueço os nossos nomes e os rostos e tomo nos meus braços indecisos o grito misterioso das palavras. Sinto o meu sexo a afogar-se no teu. Sinto os espinhos da coroa de Cristo tornarem-se infinitos. Sinto a distância de Deus multiplicada pelos espelhos. E lá está a criança que se afoga na indiferença das carícias. Todo o corpo é uma prisão. Todas as portas dos sentidos são impenetráveis. Todas as alegorias deixam as bocas húmidas. Toda a distância une. Toda a violência arde. Toda a seiva descobre a qualquer momento as folhas coloridas de morte. Toda a morte é sal na face dos homens. O teu vasto e amargo amor descobre as sombras agitadas da memória. Eu levanto o meu sexo túrgido até ao desenho penetrável do teu. Lembro-me então da beleza triste dos crisântemos tardios.  E choro.


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Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

Ovelhas


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Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010

O brincalhão

 

Quem tem amigos não morre na cadeia. Dito de outra forma, os meus amigos são aquilo que eu sou. Eu tenho amigos de todos os gostos e feitios. E gosto de todos eles. De todos sem excepção. Eles são tão diferentes uns dos outros que muitas vezes me pergunto como é que eu posso ser amigo de todos, ou todos podem ser meus amigos, sem nos questionarmos sobre o motivo das nossas diferenças, ou indiferenças. Todos diferentes todos iguais, lá diz, com toda a sapiência, a nossa escola democrática e inclusiva. E, contrariando o José Régio, e apesar de tudo, e apesar do Dantas, do Pim, do Almada Negreiros e do Paulo Portas, eu sei que vou por aí.

 

R. é o meu amigo mais brincalhão. É um patusco. Um homem capaz de pôr uma pedra a rir, ou, o que é ainda mais difícil, pôr a Manuela Ferreira Leite às gargalhadas. Tudo o que ele diz tem o condão de provocar uma risada imediata. Até se ri de si próprio com muita galhardia e independência. Qualquer frase articulada pelo R. tem graça, mesmo quando não tem graça nenhuma. E é isso que ele gere com abundante mestria: a capacidade de, do nada, conseguir estimular um sorriso em toda a gente, quer seja amiga ou inimiga, de esquerda ou de direita, católica ou não católica, homem ou mulher, gay ou lésbica, ecologista ou inimigo da natureza, branco, mulato ou preto, rico ou pobre, transmontano, não trasmontano ou indistinto, etc.

 

A última vez que o encontrei, disse-me, sem se rir, circunstância que provocou de imediato o meu sorriso, que leu numa revista uma reportagem dando conta que a pobreza começa a ser visível em muitos sectores da nossa população. Mas que fome sempre existiu. E que ele foi uma vítima dessa senhora vestida de preto.

 

Por mor das coisas, e do estilo, aqui vos deixo a sua prosa oral em registo directo e ao vivo.

 

«A fome, no meu tempo, provocava o riso, pois os pobres até se riam com ela. E quanto mais fome mais riso. Hoje as crianças pobres queixam-se que as suas mães às vezes só lhes dão meio copo de leite. Antes meio copo do que nenhum. No meu tempo, eu, que até nem era considerado pobre, ao pequeno-almoço, em minha casa classificado como mata-bicho, comia um caldo de unto acompanhado com um naco de pão centeio mais duro do que a própria fome. E ria-me muito quando o meu pai dava um peido e dizia “com a devida licença de vossemecês”. E a fome, desde que não seja permanente, pode ser fonte de saúde. E libertar os gazes do intestino também. Pelo menos é isso o que dizem alguns cientistas. E os médicos informam que devemos comer pouco: pouco peixe, pouquíssima carne, especialmente de vaca, que é a mais cara, e dizem que a abusar nas proteínas abusemos do atum e das sardinhas em lata, que são dos alimentos mais baratos que podemos encontrar em qualquer supermercado. Hoje morre-se muito mais de fartura do que de fome. A maioria das crianças é obesa. E a maioria dos adultos também. E sofrem do colesterol, da diabetes, da hipertensão, tudo doenças provocadas pelo excesso de gordura, sal e açúcares. A pobreza pode ser uma forma de combater esses flagelos. As crianças comem menos, bebem menos, crescem menos, engordam menos, brincam menos, estudam menos e todos sabemos que crianças que estudam menos são muito mais fáceis de aturar, não têm tendência a desenvolver aquele vício irritante de estarem sempre a questionar o porquê das coisas. E os pais podem poupar porque compram menos comida, menos roupa, menos brinquedos e menos livros e cadernos e esferográficas. E os livros são um verdadeiro luxo e custam tanto dinheiro que, a existir poupança na sua aquisição, pode ser encaminhado para uma conta poupança reforma que, a ser iniciada na infância, pode vir a representar a principal fonte de sustento na velhice, pois a segurança social qualquer dia dá o berro. Escrevem por aí os jornalistas que muitas crianças relatam que às vezes querem leite, mas sabem que as mães vão logo dizer não, pois sabem que elas não podem. Se as mães não podem, que peçam aos pais. Pois eles devem servir para alguma coisa. Eu quando era pequeno utilizava muito essa táctica. Quando pedia algo à minha mãe e ela não mo dava, logo de seguida ia ter com o meu pai para ver se conseguia dali alguma coisa. Ele por vezes dava-me o que lhe pedia. Outras vezes não. No entanto nunca perdia a graça e dava sempre um peido repetindo “com a licença de vossemecês”. Era conforme o bom humor e a disponibilidade. Lembro-me que leite não pedia, nem ao meu pai nem à minha mãe, pois sabia que leite era coisa que lá em casa não se consumia. Também dizem que muitas crianças referem que vão a casa da madrinha para tomarem banho. Tomar banho na minha infância era luxo semanal, quando era. Pois no Inverno não havia banho para ninguém. E as casas eram tão frias e acanhadas que só em pensar uma pessoa em despir-se, fosse para o que fosse, podia estimular uma forte constipação ou uma pneumonia. E não havia antibióticos para tomarmos. As doenças eram curadas com o tempo e com a sorte de cada um. E muitos de nós tinham mesmo azar e batiam a bota. Algumas famílias relataram às televisões que jantam muitas vezes arroz com molho. Agora são os pobres aqueles que têm acesso directo aos meios de comunicação social. Raramente lá vemos um rico. Um pobre passa fome, lá vai a televisão a correr bater à porta do casebre para dar voz à pobreza. Ora essas reportagens apenas servem para deprimir ainda mais o país, dando uma má imagem de Portugal, das nossas instituições democráticas, do nosso Governo e, sobretudo, do Estado Social. Muitas vezes comi as batatas cozidas secas acompanhadas com azeite rançoso ou com banha de porco ou os chícharros misturados com couves cortadas sem pinga de gordura, quer fosse vegetal ou animal. E não morri. Nem ninguém foi lá a casa perguntar se tinha fome, se dava banho ou se apenas bebia meio copo de leite ao pequeno-almoço. Antigamente passávamos fome e ninguém se metia connosco, nem ninguém tinha prazer em noticiar a pobreza alheia. Quando andava na tropa e vinha de viagem até cá cima para visitar a família, muitas vezes comi uma sandes de molho de vitela. E ainda cá estou. E também ninguém me entrevistou para o jornal. Cada um vivia como podia sem disso fazer alarde. A pobreza era vivida com vergonha e todos queríamos sair dela. Hoje todos querem ser pobres para aparecerem na televisão ou nos jornais, para serem citados pelos políticos, para serem beijados, abraçados e elogiados pelo presidente da República, para fazerem parte das estatísticas, para lhes darem roupa, comida, carinho, educação e protagonismo. Ser pobre hoje é quase um estatuto. A não se ser rico, o melhor é ser-se pobre. Pois os remediados são tão pobres como os pobres mas não são tão ajudados, nem aparecem tanto na televisão, nem nos programas de apoio ao que quer que seja. Está provado que o cidadão português necessita de ser apoiado em tudo. Um pobre chegou ao pé de um ministro e pediu-lhe uns óculos porque via mal ao longe. Que teve uns mas partiu-os. Outro lamentou-se que os pais dormem nuns cobertores no chão. Uma criança pobre confessou que gostava de fazer uma colecção do Mundial mas o pai não o deixou gastar dinheiro com cromos. À primeira vista todos estes depoimentos são enternecedores. Mas se o senhor ministro desse uns óculos a todos aqueles que os partem até eu partia os meus que já estão gastos, velhos e cansados como o dono. Eu cheguei a dormir num enxergão de palha coberto por um liteiro escutando o gracioso retinir dos guizos das vacas dos meus avós. E que encanto tinha aquele tlintlintlintlim.»

 

Depois de ouvir o meu amigo atentamente, e sempre com um sorriso nos lábios, disse-lhe em jeito de remate, pois tinha de ir passear o cão: «Catarina Portas tornou a falar aos jornais do seu sucesso empresarial e disse textualmente que “o nosso atraso pode ser o nosso avanço”. Com tanto e tão bom atraso é bem possível que esteja carregada de razão. Nós só lá vamos se potencializarmos aquilo no que somos bons: pobreza, lamechice e atraso. Então avante camarada avante…», levantei-me e fui-me embora. Ele, com um sorriso maroto nos lábios, atirou-me: presunção e água benta, cada um toma a que quer…

 

 

PS – Por falarmos em apostar no nosso atraso para conseguir o progresso, aqui fica uma proposta arrojada. Neste Inverno invente e misture peças clássicas gastas, com peças novas dos saldos, dado que agora ninguém se atreve a criticar seja quem for por andar com as calças rotas, os casacos coçados e as sapatilhas sujas, pois isso é tão essencial como usar marcas de criadores nacionais. E sempre fica mais barato. As peças com influências dos anos 50 e 70 invadem as passerelles e representam uma moda orgulhosamente nacional. Por isso tente, pois é no tentar, dizem os mais criativos e empreendedores, que está o ganho.


publicado por João Madureira às 09:00
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