Sexta-feira, 31 de Dezembro de 2010

O Homem Sem Memória

 

44 – Ainda mal se viam os primeiros raios de sol e já o Artur, o filho mais novo de um colega do guarda Ferreira, subia na burra a rua que conduzia ao largo onde costumavam estacionar as carreiras com destino a Chaves e a Braga. O pai e a mãe iam a pé. A mala seguia em cima do pescoço da jumenta tenteada pelas mãos do Artur.

O guarda Ferreira e a Dona Rosa, com o João ao colo, acompanharam o José também a penates. Como não tinham burro, o José foi no macho que o cabo Aníbal lhes emprestou. Um pouco mais atrás seguiam o Virtudes, que carregava o malote por excesso de zelo, e o Leão que abanava a cauda de contentamento. A tomar conta da criançada lá em casa ficou a irmã do Alcino.

O José, ao contrário do seu colega Artur, ia triste. Nunca se tinha aventurado a passar quinze dias fora da companhia da mãe, do pai, dos irmãos e dos amigos. Ia ser duro. A mãe olhava para ele e choramingava. O pai olhava para ele e sorria. O Virtudes olhava para ele e assobiava. O Leão olhava para ele, abanava a cauda e ladrava. O João olhava para ele e cantava a canção da “galinha põe o ovo” com a ajuda da mãe. O Artur olhava para o José e gozava. O pai do Artur olhava para a mãe do Artur e depois para o ar fungoso do José e ainda para o ar alegre do seu filho e gozava. O macho olhava para a burra e ruminava.

Fizeram-se as despedidas. A Dona Rosa continuou a choramingar e a dar conselhos ao filho sobre os diversos cuidados a ter com os rufias que se aproveitam destas ocasiões para humilhar e roubar os meninos mais inocentes e bem-educados. O guarda Ferreira acendeu um cigarro, deu um beijo envergonhado e mais algum dinheiro ao filho e abalou para o posto a assobiar o hino do Porto; o José deu um beijo à mãe, fez uma festa ao cão e outra ao macho, e entrou para a camioneta. O Virtudes pegou no irmão mais novo do José e também entrou na carreira. Ia fazer o desmame do João a Chaves, pois o raio do garoto não havia maneira de deixar em paz a teta da mãe. Já tinham experimentado a técnica de pôr malagueta no bico do seio da Dona Rosa, mas o malandro, depois de chorar baba e ranho, voltava ao mesmo. E como o leite e as forças já iam faltando à mãe, o Virtudes lembrou-se de o levar três dias a Chaves para dessa forma violenta abandonar definitivamente o vício da teta. É que parecia mal um menino tão crescido agarrar-se à mama da mãe como se fosse um cordeiro faminto. Aquilo era doentio. Além disso trilhava-a com os dentes, inflamando-lhe os mamilos. O João, quando viu que a mãe continuava a chorar e não entrava na camioneta pôs-se a gritar. Mas o Virtudes deu-lhe uma guloseima, acariciou-o, começou a galhofar e o João calou-se. O José sentou-se ao lado do amigo e do irmão e tentou pensar numa coisa alegre. Pensou no mar e no sol. Já sentia saudades. Desde que abalara de Lisboa nunca mais tinha ido à praia. Não é que gostasse muito da água. Tinha-lhe até medo.

Isso aconteceu porque uma vez uma senhora sueca, tentando ser simpática, pegou-o ao colo e levou-o para dentro de água para o ensinar a nadar. Mas ele atrapalhou-se e começou a chorar. Como a senhora não se apercebeu, continuou a praticar distintos exercícios de mergulho e lançamento o que lhe provocou uma aflição muito próxima do pânico. Depois desse dia, mal alguém o aproximava da margem do Tejo ou da água do mar, começava a tremer e a chorar. O máximo que conseguia fazer era pôr-se no areal onde as ondas iam morrer e deixar que aquele nico de água lhe banhasse as pernas. Mesmo assim arrepiava-se e contraía todos os músculos do corpo.

Chegados a Chaves, despediu-se do Virtudes e do irmão e, na companhia do Artur, já um rapaz experimentado nestas andanças, rumou ao posto da GNR onde foi integrado no grupo que, sob a supervisão de um colega do pai, se dirigiu ao comboio que os levaria ao Porto.

Aí pernoitaram numa das casernas do posto central. Foi uma noite terrível para o José, mas divertidíssima para o Artur e os demais rapazes que estavam habituados a estas aventuras. Mal se fechou a porta e se apagaram as luzes, estabeleceu-se uma batalha de almofadas que se prolongou por muito tempo. O José e os demais caloiros tornaram-se nos alvos da chacota e da fúria dos malandrins. Os caloiros não dormiram nada porque mal fechavam os olhos eram logo vítimas de mais um assalto de almofadas. Não é que doesse muito, mas moía. Sobretudo a paciência. O José chorou que se fartou.

O Artur nem uma única vez o defendeu. O filho da puta. Era até o que mais se empenhava em castigá-lo. Aquele cabrão sádico. Não perdia por esperar. Quando fosse padre não o absolveria de nenhum pecado. E, dessa maneira, ia para o inferno, com toda a certeza. E isso era o menos, pois estava determinado a pedir ao Alcino para lhe armarem uma emboscada e lhe fazerem por trás o que fizeram à irmã pela frente. E não iam cobrar nada pelo serviço. Era-lhe muito bem feito. Ao filho da puta!

Razão tinha a Dona Rosa quando apelidava a mãe do Artur de puta relaxada e o pai de corno manso. Ao princípio custava-lhe ouvir a mãe dizer: “Sempre tão pintada, tão asseada, tão folgada, a puta do sargento Pires. E o corno manso do marido, em troca, tem sempre os serviços mais leves. Mal sai do posto. É ele o correio do sargento. É ele quem recebe dos contrabandistas a paga pela distribuição das patrulhas e pela falta de vigilância nos caminhos que vão dar à fronteira. São meia dúzia os que recebem o grosso da maquia. Os outros contentam-se com as migalhas. E tu, Ferreira, nem pareces meu marido. Deixares-te endrominar pelo sargento e pelo corno manso. Se fosse comigo, quem os fodia era eu. Ou me pagavam convenientemente ou denunciava-os. Não se ficavam a rir. Ai não ficavam não.”

Agora dava-lhe razão. O Artur só podia ser filho de uma puta e de um corno manso.

Ficou cheio de medo quando o Artur, no meio da galhofa, apontando para ele e virando-se para o grupo de mafarricos, vociferou: “Lá na praia temos de lhe ir ao cu”. Todos se riram como se isso fosse normal. Ele pensou nas palavras da mãe: “Nunca te afastes dos monitores.”


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Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

Olhar perdido


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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

O Poema Infinito (28): a luz repousa…

 

A luz repousa no sossego jubiloso da água e o silêncio das palavras esquecidas ergue-se à altura da transparência íntima. Somente o pastor que reza as insónias da paz infinita dos ermos penetra na condição viva do desespero. O deus profano das brisas sopra presépios incandescentes e o seu pungente cântico de amor eleva-se imperiosamente sobre o hábito intemporal do parto doloroso da virgem mãe do menino. Os símbolos instrumentalizam a sabedoria. O hábito estuda o improviso da entrega. Todo o corpo é vida e morte. Por isso dentro de ti me ilumino com o rigor do sossego. Come-me, eu sou a minha carne e o teu desejo. Tu és o meu vinho especial. Tu és o meu vínculo à nostalgia da infância, à presença escrita dos frutos lúcidos.  Especificas agora a iluminação eterna do vagar, do sossego coetâneo da entrega. A terra antiga sofre a paciência triste do trabalho. Os anos sossegam o profundo silêncio da velhice. Todo o corpo organiza o abstracto. O azul dos verbos íntimos percorre a paciência imprevista da palavra amor que está agora nua na nossa boca. Por isso a imagem do dia soletra a insubmissa palavra eternidade. O tempo implode nas imagens evidentes da dúvida. Sou agora o sinal interior da ausência.


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Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010

Fotógrafos furtivos


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Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2010

O mictório e a matança

 

Fui para a matança com a preocupação estampada no rosto. Até o F. deu conta. “O que é que te desassossega tanto?”, perguntou ele a sorrir. Mandei-o passear, está claro. Pus-me a olhar para a máquina fotográfica como se lhe faltasse alguma peça. Mas não faltava lá nada. Era só impressão. Por vezes dá-me para estas coisas. Por exemplo, o mictório direito da casa de banho masculina do Modelo está avariado vai para uns meses. E aquilo incomoda-me. Não é que o terceiro mictório seja assim tão necessário, ou importante, na hora de aliviar a bexiga. Com os dois restantes, os cavalheiros que lá se deslocam para fazerem as suas micções conseguem despachar-se sem que se formem bichas. Mas o que me inquieta é que seja o terceiro mictório do Modelo. Se fosse o segundo mictório de um tribunal, o quarto de um centro de saúde, ou o primeiro de uma escola, vá que não. São instituições de serviço público, pagas com os nossos impostos e onde o dinheiro não abunda e a gestão financeira é rigorosa. Mas o Modelo, meu Deus, o Modelo não tem essa desculpa. O Modelo é uma referência comercial, económica e social de cariz privado com prestígio nacional e internacional, com lucros fabulosos. Será que não consegue arranjar alguém para consertar o mictório direito da sua superfície em Chaves? Eu não acredito. Estou em crer que o lucro da venda de vinte cadernetas da Popota dá e sobra para pagar o conserto do já anteriormente referenciado mictório. Por amor de Deus, consertem-no. Esse pequeno sinal de desleixo e incompetência pode deitar por terra a boa imagem que possuem na nossa comunidade. Eu sei que as casas de banho estão sempre limpas, que os produtos estão sempre bem expostos, que as prateleiras se encontram quase sempre repletas de promoções, de boas promoções, que têm descontos em cartão, que oferecem descontos sem ser em cartão, que vendem três pela importância de dois, que vendem polvo de qualidade por quinze euros o quilo, que vendem bacalhau com uma razoável relação entre a sua qualidade e o seu valor, que vendem o quilo da carne a preços difíceis de encontrar no comércio tradicional, que vendem brinquedos pelo preço de chupa-chupas e que oferecem vales de desconto aos clientes. Sei que limpam constantemente o chão do edifício, que trocam qualquer produto que esteja deteriorado, que alguns produtos quase os dão para as pessoas aí se deslocarem frequentemente, pois o que o Modelo mais aprecia e privilegia são as visitas dos seus estimados clientes, nem que seja apenas para ir tomar um café e comer uma nata, que fazem parte de uma outra promoção e que também ela pode ser acumulada em cartão. Sei que fazem feiras do vinho, do queijo, da chouriça, do presunto e do peixe onde só não compra quem for parvo ou então adepto do comércio tradicional. Sei que o pessoal é competente, simpático, trabalhador e pago a horas. Sei que os sindicalistas se queixam dos baixos salários praticados pela Sonae, mas os sindicalistas também se queixam por tudo e por nada. Sei que o parque de estacionamento é bom, que os carrinhos das compras são robustos, que os senhores da segurança dispensam muito bem a polícia. Sei que a loja book it tem bons livros com um desconto permanente de 10%, que disponibiliza gratuitamente jornais e revistas aos seus clientes mais assíduos, vizinhos ou reformados, publicações que as pessoas lêem em pé ou mesmo sentados em cadeiras confortáveis. Sei que a Modalfa faz promoções que metem as dos ciganos e as dos chineses num chinelo. Sei de tudo isto. Mas o pormenor do mictório não me sai da cabeça. Ali está ele para lembrar às pessoas que até a maior superfície comercial pode ter os seus defeitos. Dizem que a arte está nos pormenores. E que a qualidade nos detalhes. Quem persegue a perfeição não pode esquecer que um simples mictório avariado pode deitar por terra todo prestígio acumulado ao longo de anos a bem servir os consumidores portugueses. Então a Sonae consegue alimentar quase metade da população portuguesa, consegue organizar concertos e mega piqueniques com o Tony Carreira e é incapaz de consertar em tempo útil um mictório de um seu estabelecimento em Chaves? Eu sei que estamos em crise, mas não acredito que ela seja tão grave que não permita disponibilizar algumas verbas para o conserto de um mictório em terras de Aquae Flaviae. E a desculpa de que a mão-de-obra escasseia em Portugal é mais um mito a juntar ao do D. Sebastião. Dados oficiais dão conta que 550.846 é o número de desempregados em Portugal e quase 60% são do sector terciário, sobretudo das áreas das actividades imobiliárias, administrativas e serviços de apoio. Mas 18.929 foram as ofertas de emprego por preencher no final do mês de Outubro de 2010. A maioria das ofertas registadas nesse mês relaciona-se com postos de trabalho na área das actividades e serviços a retalho de hotelaria e restauração e construção civil. O problema é que anda aqui falta de informação. Há mictórios avariados, existem desempregados e há ofertas de emprego que ficam por preencher. Na opinião do senhor secretário de Estado, Valter Lemos, isto é possível devido a um desfasamento geográfico muito complicado. Pois há regiões que não têm gente suficiente para as necessidades. Ora como Portugal, mesmo não parecendo, é enorme, as pessoas não se podem deslocar. Por isso as ofertas de emprego ficam por preencher. São os custos da nossa dimensão. Os custos do desenvolvimento. Estou em crer que se o conserto do mictório do Modelo pudesse ser feito por computador e via internet, ele já lá estava a cumprir com o seu destino. Assim não. Fica mais uma vez provado que a informática e as novas tecnologias não resolvem tudo.


Agora que já desabafei posso finalmente descrever (fotografar) a matança do porco da Abobeleira. O porco ali vem, fazem-lhe uma pega. (Fotografias). Ele berra, foge, berra, foge. (Fotografias). Os homens vão atrás dele, pegam-lhe nas patas, prendem-lhe o focinho com uma corda e levam-no para o banco. (Fotografias). Ele berra, berra cada vez mais. (Fotografias). Os homens riem e deitam-no no assento. (Fotografias). A senhora do alguidar aproxima-se, o matador faz um pequeno corte experimental, aponta a faca e faz força. (Fotografias). A faca entra pela carne adentro em direcção ao coração. (Fotografias). Os homens riem, o porco berra, o sangue brota da garganta do animal com força, parece uma torneira aberta. (Fotografias).  Um pouco mais de energia na faca e o animal começa a dar sinais de fraqueza. (Fotografias).  Berra mais um pouco e o sangue continua a brotar com intensidade. (Fotografias).  O alguidar grande fica meado. Dali vai para o pote que já ferve. (Fotografias). O porco é agora chamuscado, raspado e lavado. (Fotografia). Depois de bem barbeado, é aberto, estripado e pendurado. (Fotografias). Corta-se a cabeça e os pés e ali fica até ser desmanchado. (Fotografias).  Os Lumbudus vão agora dar um passeio, passam pela barragem romana, pelo moinho, pela ribeira. Regressamos. Prepara-se o sangue, os rins e o fígado. (Fotografias). É o almoço. Come-se, bebe-se, fala-se, convive-se. Fotografa-se ainda mais. Vamos tomar café e passamos pela casa do Nel onde comemos uma sopa. (Fotografias). Passamos a tarde a falar e a fotografar. Logo mais aparece a vereação Municipal e vários presidentes de junta. (Fotografias). Come-se a feijoada e as febras assadas e bebe-se mais um pouco. (Fotografias). Posteriormente entram em cena os músicos. Mais fotografias, risos, conversa, mais fotografias, música, conversa. Está na hora de ir. Cá fora ainda nos entretemos mais um pouco a fotografar nuvens de fogo produzidas por alguém que lança no ar as brasas da fogueira que arde desde a manhã. Tudo está bem quando acaba em bem.


 

PS – Agora que aí vem 2011, compre para si ou para oferecer, isso fica à sua inteira responsabilidade, para homem, o livro “Golfe”, um cachecol Fred Perry, umas luvas Camel, um fato Ermenegildo Zegna, um colete Ermenegildo Zegna, uma gravata Ermenegildo Zegna, uma camisa Ermenegildo Zegna, o livro “Tudo Isto é Fado”, uns óculos Dolce & Gabanna e uns botões de punho Dunhill.

 

Para as senhoras aconselhamos: babydoll Ebony&Ivory, mala Louis Vuitton, óculos Funny da Alain Afflelou, vestido Deprés Nuno Baltazar, perfume Nina Ricci, lingerie Triumph Merry Sparkle e sapatos Pedro Garcia.

 

 

 

 

 


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Domingo, 26 de Dezembro de 2010

Pai Natal desconfiado


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Sábado, 25 de Dezembro de 2010

Postal de Boas Festas

 

Foda-se, Pai Natal, repito, e restante família. Acabaram-se os postais de Boas-Festas. Essa era já a minha vontade desde há muito tempo, mas não a podia exprimir assim tão abertamente. Eu já tenho tudo aquilo o que posso ter. Até tenho um blog. Só não tenho o que mais quero. Que são as estrelas no meu bolso para as dar à L. E foi isso sempre o que eu mais quis. Dar-lhe estrelas. E também dar as estrelas e os planetas ao V. e ao A. E oferecer, desembrulhadas, as constelações mais longínquas ao meu pai, que já não posso ver, mas de quem sinto imensa falta. E à minha mãe que me morreu nos olhos. E recompensar os cantos de trigo e os rebuçados que a minha avó me deu pondo-se no teu lugar quando a abandonaste num Natal longínquo de 1966. Foda-se Pai Natal. Desculpa Pai Natal. Eu sempre pensei que não existias, mas agora sei que existes e que és uma grande merda. Simbolicamente, claro. E isso é muito pior do que se verdadeiramente não existisses. Transformaram-te em realidade, uma dura, crua e sinistra realidade. Uma obsessão. Uma conspiração contra os sentimentos, contra a beleza, contra a fraternidade. Contra a simplicidade das sensações mais íntimas e mais puras. Tu és só presentes. Tu és só presente. E os ausentes? Hã? E os ausentes? Onde estão os ausentes? Só cintilas com dinheiro. Só sorris no meio do desperdício e da futilidade. Só ajudas os que têm. Só iludes os que não são capazes de sonhar. E os ausentes, que tanta falta me fazem, onde estão? Foda-se, Pai Natal, deixaste que te transformassem num velho de barbas branquinhas todo vestido de vermelho. E, ainda por cima, gordo. Muito gordo. E que se ri como um comentarista de rádio que dá peidos sonoros, roucos, untuosos e vernáculos. Foda-se, Pai Natal, dás pena. Apetece mesmo dar-te com o pinheirinho artificial nas trombas e depois pôr-te à geada enrolado em luzinhas intermitentes. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar. Sempre a piscar.


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Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

O Homem Sem Memória

 

43 – Mal chegou a casa, ainda vacilante nos seus passos frouxos, já depois de deixar os seus amigos no café a beber ainda o último copo de vinho, ordenou olhando na direcção da mulher: “Arranja a mala do José porque na segunda-feira vai para a colónia de férias.” “O quê?”, perguntou a Dona Rosa. “O quê?”, perguntou o José. “Já disse, prepara a mala do José porque na segunda-feira vai para a colónia de férias em Matosinhos.” “Mas...”, exclamou a Dona Rosa. “Mas...”, exclamou o José. “Não há mas nem meio mas”, avisou o guarda Ferreira, “como nunca mais foi à praia desde que viemos de Lisboa, vai agora antes de ingressar no seminário.” “Quem o inscreveu?”, perguntou a Dona Rosa. “Quem me inscreveu?”, perguntou o José. “Fui eu”, respondeu o guarda Ferreira com a autoridade necessária. “Afinal quem é que manda cá em casa?”, perguntou apreensivo o guarda Ferreira. O Leão ladrou no curral dando sinal de que se preparava mais uma batalha familiar. O Virtudes subiu as escadas para vir proteger as crianças. A Dona Rosa armou-se de varapau em riste e o José pegou no livro e foi para o quarto ler. Ou fazer que lia. Mas a guerra terminou ainda antes de começar. O guarda Ferreira serviu-se de vinho do garrafão, pegou numa linguiça, embrulhou-a numa folha de couve e colocou-a no meio das brasas. Um pouco a custo, assentou-se no escano. Depois deu um pontapé no gato e começou a falar sozinho. Entretanto a mulher tentou tirar nabos da púcara: “Quando foi que o inscreveste para a colónia de férias?” “Quando os meus colegas inscreveram os seus filhos.” “Mas não me disseste nada!” “Não te disse nada porque já sabia que ias dizer que não. Eu sei que o rapaz precisa de sol. Está magro como um cão.” “Vê lá como falas do teu filho. Mais magro estás tu. Também vais para a colónia de férias?” “Não me faças rir. Com estas flausinas da cor do leite ia ser um enchente de riso.” “Tu de calções de banho e eu de biquíni íamos ser o casal mais vistoso da praia.” “Lá isso íamos. De tão brancos ainda ofuscávamos o sol.” E riram-se os dois. Até o José se riu lá no quarto. “Não te rias dos teus pais que é feio”, gracejou o guarda Ferreira. Então a Dona Rosa começou a cantar a canção que agora passava muito na rádio: “Já arranjei muito bem / Tudo quanto convém / P'ra praia levar. / O pente, o espelho, o batom…” Ouvindo a dona a cantar, o Leão atreveu-se a subir as escadas e foi para ao pé dela pôr-se a ganir. Logo de seguida subiu o Virtudes e a rapaziada. Vendo que o ambiente se tinha composto, o José pousou o livro e veio para o escano. O pai deu-lhe um pouco da linguiça e disse-lhe para beber um golo de vinho da sua pichorra. Ele bebeu, mas a custo. Afinal já se estava a transformar num homem. Já fumava, já pinava, só lhe faltava mesmo começar a beber para ser um homem. O seu irmão João começou a rir-se naquele seu encantador trinado de menino feliz e riu tanto que deu um peido. Todos começaram a rir como tolos. E nunca mais paravam. E quanto mais se riam, mais vontade tinham de continuar a rir. Então o José, como quase sempre fazia, pegou no seu irmão João e começou a balançá-lo de um lado para o outro e a fazer-lhe cócegas na barriga com os lábios e o ar que expelia pela boca. Então o João, esgotado, no momento em que o José abria a boca para respirar depois de mais uma sopradela na barriga do irmão, mijou-lhe em cima com a naturalidade das crianças. Nesse momento o riso colectivo atingiu o clímax. Feliz, o Virtudes levantou-se de onde estava sentado, pegou no menino ao colo e deu-lhe o biberão de leite. A Dona Rosa, mais corada que um pimento, e como sabe que momentos destes não abundam na vida de um casal, lembrou aos meninos que estava na hora da deita. O José, ainda com o cabelo húmido depois de se ter ido lavar, juntou-se ao Virtudes e ambos ajudaram os irmãos a despir-se e a vestir as ceroulas e a camisa de dormir e contaram mais uma vez a meias a Lenda da Maria Mantela, história que tinha o apreciado dom de os acalmar. Depois adormeceram. O Virtudes ainda se entreteve a beber um copo e finalmente também foi embora. O guarda Ferreira, a inseparável pichorra, mais a Dona Rosa, continuaram a conversar noite dentro. O José, na cama, não conseguia dormir. Chegou mesmo a contar e recontar os jogadores que tinha repetidos e não conseguia trocar. Mas o sono não chegava. Ouviu o pai a bater a porta da rua e a dar duas voltas à chave na fechadura. Depois a Dona Rosa e o guarda Ferreira foram para a cama. De seguida ouviu qualquer coisa como “chega para cá o rabiosque que eu aqueço-to…” a que se seguiu “não sejas estouvado… sim… umm… sim… shh… que o José tem ouvidos de fuinha… anda lá Ferreira… não se me endireita… shh… sim… vá lá homem… queres que te… sim… shh… ummm… anda lá… não se em endireita… vá lá que eu ajudo… abre mais um pouco as… shh… umm… força… agora… shh… eu faço-te mais umas festinhas… não consigo… é do ciga… caralho…


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Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010

Luís, o Pensador


publicado por João Madureira às 09:00
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Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010

O Poema Infinito (27): saem as paisagens da água

 

Saem as paisagens da água vestidas com crianças azuis. É o tempo do espanto. As cidades explicam a luz na contemplação da chuva. O silêncio exibe a dilatação dos gritos. Os sexos navegam húmidos na cumplicidade das manhãs. A vida reproduz-se a uma velocidade incrível. Dormimos agora o sono das palavras possíveis. Reconstruímos a verdade das ilusões. A realidade é um momento. Os olhos imaginam pintores clássicos adorando os seus modelos. Van Gogh salta incendiado pelo amarelo das searas. Jesus incendeia o sangue dos peixes do Mar da Galileia. Deus estremece na transparência dos objectos. Os nossos corpos naufragam numa outra língua onde tudo é desejo. As paisagens atravessam agora as paredes da madrugada. Somos crianças em corpos de adultos. Por isso escrevo os textos possíveis onde anoto criteriosamente o caos da vida. Pássaros nitidamente cinematográficos desenham metáforas no céu. Agora os dias vêm carregados de inscrições premonitórias. As velhas cicatrizes saltam das promessas estonteantes. As noites antigas sofrem o aroma perturbante do vazio. Arde-me nos pés o caminho do regresso. Ao contrário de Ulisses, jamais encontrarei o caminho para Ítaca. A viagem termina antes de começar.


publicado por João Madureira às 09:00
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Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

Decapitação


publicado por João Madureira às 09:00
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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

As pontes

 

Eu e alguns dos meus amigos costumamos passear junto ao Tâmega e, de vez em quando, atravessamos as pontes que unem as suas margens com muita determinação. Se há coisa em que sejamos determinados é na travessia de pontes.


Se há coisa em que o bom povo português é determinado é em fazer pontes, nós somos mais determinados em as atravessar. Cada louco com a sua mania. É que nós, além de sermos portugueses por obrigação (adopção?), somos transmontanos por condição. E disso não podemos fugir. Ninguém escolhe o seu país de origem e muito menos a terra onde nasce.


Mas, como ia dizendo, o nosso grupo aprecia muito passear junto ao rio, de olhar para as suas margens, para as pessoas que por ali passeiam e de conversar sobre tudo e sobre nada. Que é quase a mesma coisa. Nisso assemelhámo-nos muito aos políticos e aos padres. Mas só nisso. Porque, enfim, somos honestos, não mentimos, prometemos apenas aquilo que podemos cumprir, somos amigos uns dos outros sem segundas intenções, pagamos sempre aquilo que comemos e bebemos, as casas, os carros e as viagens que fazemos são pagos unicamente com o dinheiro dos nossos salários, e não garantimos, nem nos iludimos, com o paraíso, seja ele terrestre ou divino. E, sobretudo (podem sorrir, pois estão perdoados), as nossas conversas são quase sempre muito instruídas e espirituosas.


O R. possui um tipo de generosidade autista: não sabe dar, não sabe receber, não sabe agradecer. Mas diz coisas que nos espantam, tais como: “Os inteligentes estão condenados a serem atormentados pelos estúpidos.”.


O L., com o espanto, até se engasgou. Ele que é de convivência fácil mas de difícil intimidade. Ser íntimo do L. só à base de muito porfiar. Além disso faz parte dessa categoria de espíritos que extrai uma alegria sarcástica de ter razão contra o maior número. Mas eu gosto dele. Aprecio-lhe a lucidez e a coragem.


O meu amigo D. contou-nos que se sentia triste porque lhe tinha morrido o pai. E eu senti-me triste também, apesar de o meu pai ter morrido há já muito tempo. E não era velho por aí além. Podemos dizer até que era novo. Era ainda novo para morrer. Depois pensei nos avôs que não conheci. E ainda fiquei mais triste. Seguidamente olhei para ele e disse-lhe algo como: “Aprecio a simplicidade pelo facto de ela ser o resultado da esgotante labuta de eliminar os elementos supérfluos”. Ele pôs-se a olhar para mim como se eu tivesse dito ou uma grande verdade ou a maior das idiotices. Mas eu não me descosi. Por vezes dizemos coisas tão profundas que nem sabemos lá muito bem o que elas querem significar. Mas também a quem é que isso pode magoar? Os amigos gostam de nós com todos os nossos defeitos e com todas as nossas virtudes.


O F., que tem um jeito especial para o pessimismo social, deu-nos conta das suas últimas investigações: “Os cientistas sociais são peremptórios quando afirmam que o potencial humano só pode ser desenvolvido quando não estamos assustados, encolerizados ou esfomeados. Sendo assim, fica justificado o baixo grau do nosso desenvolvimento”. Tal tirada foi suficiente para que atravessássemos o Tâmega sem que alguém no grupo proferisse uma única palavra. Apenas quando chegámos à outra margem é que o D. se referiu ao tempo. Todos concordámos com ele. Estava sol, corria uma aragem não muito agradável, as nuvens junto ao Brunheiro estavam a deslocar-se a uma velocidade curiosa e a temperatura ia descer muito durante a noite.


Eu, para não deixar a conversa destrambelhar e também para dar um arzinho da minha graça, citei G. K. Chesterton: “Porque se inventou uma razão para explicar o resultado, quase se nega o resultado para justificar a razão.”


O F. voltou à carga com os cientistas sociais, a sua nova mania: “Fez-se um estudo denominado «pager» sobre as relações de uma família e chegou-se à conclusão que os dois membros de um casal médio passam menos de dez minutos por dia a fazer seja o que for que possa ser designado por tempo de qualidade”.


Eu voltei a G. K. Chesterton: “Uma vez mais, aquilo que conduz ao engano é a dimensão da teoria, no sentido em que a fantasia é maior do que os factos”.


“Tu gostas muito de te armar”, comentou o D. Eu olhei na sua direcção e quase me arrependi de me ter sentido solidário com ele ainda há pouco. Mas disfarcei. Os amigos também devem disfarçar os seus pérfidos sentimentos. Com os amigos apenas são permitidos as boas sensações, tudo o resto fica de fora.


O R., olhando para a Ponte Romana, começou a assobiar uma melodia e todos nos calámos para a ouvir. Ele imita muito bem o canto de vários pássaros.


“Que bem assobias R. Dá gosto ouvir-te. Fazes-me lembrar a Primavera e os agradáveis momentos que eu passei na aldeia”, disse o L.


“Que bucólico estás”, disse o D.


O F., que não é muito apreciador destas pequenas minudências que dão alegria e sentido à vida, disse do alto da sua erudição: “Maria Helena da Rocha, a primeira mulher a doutorar-se na Universidade de Coimbra e uma das responsáveis pelo novo Acordo Ortográfico disse ao Expresso que ler pela primeira vez a Ilíada no original (grego) foi tão emocionante que ficou doente”.


“Tem graça, a mim isso acontece-me quando leio os livros do António Lobo Antunes”, atirou maldosamente o L.


Eu, para aliviar um pouco a tensão no grupo, disse em tom de brincadeira: “A ex-candidata a deputada no Brasil, Gabriela Leite, afirmou aos jornais ter sido prostituta durante anos não por necessidade mas por prazer. «Escolhi ser puta porque é uma profissão que eu gosto», confessou.


Todos se riram, menos o F. que citou Ben Johnson: “A linguagem revela o homem”.


“Neste caso a mulher”, corrigi.


“Está bom de ver que Gabriela Leite pretendia juntar o útil ao agradável”, disse o R.


“Tu lá sabes do que falas”, provocou o L.


“Eu apenas fui candidato independente em lugar não elegível numa lista do… (pi)”, admitiu o R. E depois aconselhou: “Esperai aqui por mim que vou ali mijar e já volto”. Era esta a sua forma de dizer que se ia embora porque a conversa não lhe estava a agradar. Nós respeitamos a sua vontade e continuamos a andar e a atravessar as pontes que ainda nos faltava atravessar.


Os amigos vão e vêm. É esta uma verdade muito conveniente.

 

 

PS – É um sinal de bom gosto, e também de alguma inteligência prática, comprar calçado Cohibas. E para acompanhar no bom gosto pode, se apreciar claro está, fumar charutos Cohiba Behike. Pormenor importante, as cintas dos charutos desta linha têm, pela primeira vez, dois hologramas identificativos de segurança.


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Domingo, 19 de Dezembro de 2010

O homem e o copo de vinho


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Sábado, 18 de Dezembro de 2010

Abobeleira - O porco a caminho do banco


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Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010

O Homem Sem Memória

 

42 – Veio o calor e o José entusiasmou-se com as brincadeiras. As aulas estavam a acabar e os exames foram fáceis. Tudo lhe sorria: a natureza, a mãe, os livros, as raparigas. Sobretudo as raparigas que desde tempos imemoriais gostam dos mancebos que vão para a guerra ou dos efebos que vão para padres. Os homens devem ser guerreiros ou santos.

Os colegas miravam-no com um ar cada vez mais sério, um pouco desconfiados, ou mesmo revelando uma inveja mal disfarçada. O filho do guarda Ferreira ia sair da terra para estudar numa grande cidade. Abalava da parvónia para ser sacerdote.

Ser padre era uma das poucas formas dos filhos dos pobres poderem singrar na vida. Ia aprender a falar bem, a comer com proveito, a beber virtuosamente, a dar-se caridosamente com gente necessitada e a relacionar-se proveitosamente com gente culta e rica. Ele dizia que não pensava nisso. As férias aí estavam para ser preenchidas com brincadeiras. A mãe chorava pelos cantos enquanto lhe compunha o enxoval constituído por lençóis de linho, calças, camisas, camisolas, casacos, meias, sapatos e um crucifixo banhado a prata que a madrinha lhe ofereceu dentro de uma caixa de madeira recomendando-lhe a rogatória da sua alma a Deus.

E continuava a chorar. Parece que só actualmente lhe estava a chegar o amor pelo filho mais velho. No momento que ele se ia embora é que aludia à falta que lhe fazia. “Ai o meu José que se me vai embora! O que vai ser de mim agora. Ele era o meu guardião. Era quem ia buscar o bêbado do pai à taberna.” Ao que as amigas respondiam: “Deixa-te disso, mulher.” Ao que marido respondia: “Deixa-te disso, mulher.” E ela: “Sabeis lá vós o que significa perder um filho. O meu querido filho que tanto me custou a criar.” E as outras mulheres: “Nem que tivesse ido para a guerra. Onde se viu tamanha toleima? Tu devias estar contente. No guerra morreu o Mário para nunca mais. Isso é que dá pena. Dá pena e tristeza…” Ao que a Dona Rosa ripostava: “Ele não morreu na guerra, morreu nas mandíbulas de um crocodilo”. E elas: “Morreu em África vestindo a farda militar, por isso morreu na guerra. Tudo o resto é má-língua. Aquilo foi algum turra que ensinou o crocodilo a merendar soldados portugueses. Assim não se gastam balas. Parece que os pretos terroristas têm poucas. Contra isso não há nada a fazer.” Ao que a Dona Rosa contrapôs: “Isso não é guerra não é nada. É circo.” “Sim, a guerra é um circo”, concordaram todas quantas lavavam no tanque da Vila a roupa para a festa do Senhor da Piedade. A Dona Rosa era já a quinta vez que lavava os lençóis de linho do enxoval do filho. As companheiras avisaram-na: “De tanto os lavares, vão ficar rotos antes de serem usados.” “Quero-os tão limpos como a alma do Senhor”, sarrazinou ela.

Naquele preciso momento, o José e os amigos estavam a divertir-se no palheiro. Brincavam em cima do feno e atrapalhavam-se respirando o seu intenso cheiro e as partículas suspensas no ar. Pareciam tolos de todo. Depois vieram cá para fora gritar e tornaram a entrar.

No palheiro havia pouca luz, mas a suficiente para verem a um canto o Carlos Perneta sentado no colo do Luís enquanto este o beijava e lhe introduzia a língua na boca.

“O que estão eles a fazer?”, perguntou o José boquiaberto. “Estão a treinar os beijos à maneira da professora e do escrivão do Tribunal”, responderam confusamente as silhuetas dos amigos. “Assim não está certo”, balbuciou o José. “Assim não presta. O natural é os beijos serem dados entre homens e mulheres.” “Mas isto é um treino”, responderam de novo as silhuetas saltitantes dos amigos. “A mim não me parece nada um treino. Aquilo é mesmo a valer”, teimou o José. “Parem já com essa merda, paneleiros do caralho, antes que vos foda os cornos”, sentenciou o Alcino entrando de rompante no palheiro. “Vamos pinar.” Avisou o Alcino. “Eu não sei pinar”, confessou o José. “Além disso vou para o seminário e não me posso habituar a essas coisas.” “No seminário também pinam. E pinam muito.” Lembrou o Alcino. “Mas se lá não há mulheres, como é que pinam?”, perguntou de novo o José. “Pinam no cu uns dos outros”, respondeu afoito o Luís que já se tinha levantado. “E tu como o sabes?”, perguntou mais uma vez o José. “Ouviu-o ao Padre Zé”, respondeu o Luís. “És um mentiroso”, gritou o José. “O Padre Zé não é paneleiro.”

Todos se calaram quando viram entrar no palheiro a irmã do Alcino que, apenas com doze anos, trabalhava como uma escrava em casa do pároco. Ela disse: “O José tem razão, o Padre Zé não é paneleiro. Ele gosta muito de pinar as beatas.” “Mas elas são velhas!”, disse o José. “Também as há novas.” Explicou a irmã do Alcino. “São as que se confessam mais. O Padre Zé pediu-me várias vezes batatinhas, mas eu não consigo imaginar o cabrão a meter aquele salpicão grosso na minha rata. É assustador. Ele que o meta nas beatas, que a têm larga. De gordas que estão conseguem aguentar-lhe bem as fouçadas sem se queixarem muito. E a confissão tudo lava aos olhos do Senhor.” Tu és uma pecadora do caralho”, advertiu-a o José. “Vê lá como falas do senhor abade.”

“Vou-vos ensinar a pinar”, afirmou a irmã do Alcino. “A troco de vinte e cinco tostões cada, dou-vos uma lição das boas. O meu Alcino recebe. Fazem fila lá fora, entra um de cada vez, deita-se em cima de mim e pina.”

“Ouviram, tudo lá para fora. Só entra um de cada vez. Dá-me cinco croas, deita-se em cima da minha irmã e pina”, explicou novamente o Alcino.

“E como se pina? Eu não sei pinar”, desabafou o José. “Além disso não tenho dinheiro.” “Quem não tem dinheiro não tem vícios”, avisou o Alcino. Mas a irmã condescendeu: “Pagas-me quando fores padre, mas com juros.” Ao que o Alcino retorquiu: “Sem dinheiro ninguém pina.” “Eu empresto-lhe o dinheiro”, disse o Luís. “Mas quero assistir.”

“Pinar não tem nada de complicado. Tentais enfiar a piroca na minha rata e depois levantais e baixais o rabo. O resto é comigo.” Explicou a irmã do Alcino.

Todos pinaram o que tinham a pinar, sem grande convicção. Apenas o José vomitou no fim. Todos lhe perguntaram: “Vieste-te.” Ele confessou com sinceridade: “Não, cansei-me.”


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Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

Quentes e boas


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Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

O Poema Infinito (26): o segredo do tempo

 

Esta é a minha oferta iluminada: o nada. Esta é a minha invenção: a espada. Este é o meu interior: o fogo. Este é o meu corpo: uma estrela de sal. Esta é a minha verdade: a palavra. Por isso eu subo espantado por cada virgindade perdia. Por isso eu ardo em cada taça de vinho. Por isso sorrio em cada cálice de angústia. Por isso me custa dormir em cada sinal de glória. Por isso tenho vertigens em cada deus nas alturas. Por isso cada noite atravessa o meu sangue cantando hinos de glória. Toda a palavra renascida é um perdão. Todos os meus beijos são a loucura da procura dos teus. Deus é disso testemunha invisível. Pela terra adiante o perdão redentor sopra a alucinação da sua insignificância. A morte é o seu sinal glorificado. As tecedeiras beijam as mãos das avós e atravessam as manhãs como flores líricas. Talvez a intimidade das palavras seja vã, mas todos os poemas revelam coisas. Toda a carne é complicada. O seu desejo quente sobe por nós como uma vertigem poderosa. Somos a inspiração fodida dos anjos. Lúcifer morre no seu sexo negro. Deus morre no seu sexo esdrúxulo. Sinto que enlouqueço nos meses frios como se fosse o espinho precário de uma rosa maldita. Milagroso é o tempo secreto do mundo.


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Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

Sorriso

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Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

A conversa

 

E lá estávamos os três a olhar a praça com olhos piscos por causa do sol e por causa da saudade. Eu, o meu amigo R. e o meu outro amigo, o L. O L. é muito dado à política e ao futebol. O R. é muito dado ao estudo. E eu não sou dado a nada. Cada um é para o que nasce. Eu não sou dado a nada mas valorizo tudo. E valorizo sobretudo os meus amigos. Para mim os amigos são tudo. Ou quase.

 

O R. ainda não se conseguiu conformar com o facto de terem substituído as Freiras por uma praça chã. Sem alma e sem fulgor. O meu amigo L. já se conseguiu conformar com o facto mas continua a não entender as causas. Eu, por conseguinte, acho que o progresso é uma coisa imparável. Mas, confesso, sinto ainda muito a falta do Jardim das Freiras.

 

O R. olhou lá bem para o fundo, na direcção do tanque e do repuxo, e disse baixinho: “Ando a tirar um curso pela internet.” “Andas?”, perguntei eu a fingir interesse e surpresa. O L. abençoou retoricamente a confissão e aplaudiu a iniciativa. E disse ainda que a internet é uma coisa boa. Eu também concordei para logo semi-discordar, referindo que também ela tem o seu lado mau, pois vicia e torna os seres humanos mais autistas. O R. olhou para mim com os seus olhinhos de recém-reformado e disse que não consegue estar sem ocupação. Que tem de se entreter com alguma coisa. Os seus cinquenta e seis anos transmitem-lhe ainda muita inquietação. E a nós intensa impressão. Podemos dizer que reformar-se com esta idade é uma espécie de prémio da lotaria. Nós que só vamos conseguir, quando muito, reformar-nos aos sessenta e cinco, roemo-nos de inveja. Mas sorrimos para disfarçar.

 

O R. olhou para mim e disse que anda a estudar as várias espécies de águas engarrafadas. Ele que é um excelente apreciador de vinhos. Eu olhei para ele e depois olhei para o L., seguidamente olhei para a praça lá ao fundo e para o tanque e para o repuxo. E olhei novamente para o R. Ele olhou para o L. e novamente para mim e depois para o repuxo e seguidamente para o tanque de água da praça. E disse olhando para a fachada da Biblioteca Municipal: “Eu aprecio muito a água do Luso. Mas agora apenas a compro em garrafas de vidro.” E olhou para a porta do café Sport onde acabava de entrar um ex-autarca do PS. Eu olhei para o quiosque onde naquele momento um ex-autarca do PSD comprava o DN. E perguntei: “E porquê?” E o L.: “E porquê o quê?” E o R.: “Deves prestar atenção à conversa se queres conversar.”Eu concordei com a cabeça. O L. concordou com a cabeça. Então o R. explicou: “A água tem tendência a oxidar nas garrafas de plástico.”Eu concordei e dei uma achega: “A água mineral quer-se fresca, sem mau gosto.” E olhei novamente lá para fora, na direcção da esquina do Lopes. O L. olhou para o R. e o R. olhou para mim que nesse mesmo instante tentava focar a imagem de uma senhora que me pareceu uma antiga colega de Liceu. O L. olhando na direcção dos Correios desabafou: “Eu não percebo realmente a diferença entre a água de nascente e a água natural. Se é que existe alguma diferença.” Eu olhando para o repuxo, depois para o L. e ainda novamente para a esquina do Lopes e outra vez para o tanque lá ao fundo disse: “Alguma diferença deve haver. Não é verdade R.?” E o meu amigo R. olhando para um menino que naquele momento andava de bicicleta no meio da praça, acompanhado pelo pai, e olhando de novo para o tanque e para o repuxo explicou: “A água natural é qualquer água de origem subterrânea. Ou seja, cujo conteúdo mineral não foi alterado, embora a água possa ter sido desinfectada ou filtrada.” “Muito interessante” diz desinteressadamente o L. E adianta distraído, olhando para as pernas bem torneadas de uma senhora de meia-idade que beberrica um café enquanto come uma nata: “Sabeis que o Pedro Passos Coelho entrou no PSD através de um campeonato de cartas organizado pelos laranjinhas no Verão?” “Ai sim?”, digo eu olhando para o quiosque onde a senhora se entretém a olhar para a praça na direcção dos Correios. “Sim”, diz o L. tentado puxar a conversa para a política enquanto olha para a esquina do Lopes. Eu olho para o repuxo e depois para o tanque e ainda mais numa vez para a fachada da Biblioteca Municipal e outra vez para o R., enquanto ele olha para o L. e depois novamente para mim e diz: “Na água de nascente os minerais podem ser acrescentados ou retirados e, geralmente, não é tratada. A maioria da água vendida em Portugal é de nascente. A diferença entre a água destilada e a água purificada é…”, hesita um pouco que é o suficiente para o L. olhar para mim e puxar a conversa para a política: “A crise vai matar o Sócrates. Os ratos do PS já começaram a abandonar o barco, pois…” hesita um momento enquanto olha para a esquina do Lopes e de seguida para as pernas da senhora de meia-idade. Eu aproveito para dizer alguma coisa de cultural, enquanto olho para o R., depois para o L., novamente para o repuxo e posteriormente para o tanque e novamente para o quiosque: “O Thomas Pynchon acaba de…” e hesito um momento porque vejo novamente a minha provável colega de Liceu a atravessar a praça em direcção à Lapa, facto logo aproveitado para o L. tornar a puxar a conversa para o seu lado: “E esse em que equipa joga?” Nesse momento o R. olhando com ar de caso para mim e depois para o repuxo, novamente para mim e novamente para o tanque, diz: “Na água destilada ou purificada a maior parte dos minerais foi retirada. A água foi fervida e o vapor condensado. É água pura.” O L. olha na minha direcção, depois na direcção das pernas da senhora de meia-idade, ainda depois na direcção do quiosque onde agora um aluno do Liceu compra a Blitz, e diz: “Tenho pena da juventude porque não tem grande futuro. Portugal é um país de…” “A água destilada tem um gosto insípido…”, diz o R. olhando pata mim. “Como o PSD…” diz o L. olhando para as pernas da senhora de meia-idade… “E geralmente não é para beber.” Conclui o R. olhando na direcção da esquina do Lopes. Então o L. olhando para a praça e seguidamente para as pernas da senhora de meia-idade, adianta. “O Porto vai ganhar as próximas eleições legislativas….” Eu, olhando para o L., mas não olhando para as pernas da senhora de meia-idade corrijo: “Queres dizer o PSD, não é verdade?” Ele deixando de olhar para as pernas da senhora de meia-idade corrige: “Sim, eu queria dizer o PSD…” “E a água mineral?”, pergunto eu na direcção do R. e depois olhando para a esquina do Lopes onde ninguém vai a passar. E ele olhando para o tanque e depois para o repuxo: “A água mineral não contém substâncias químicas, nem sais, nem cafeína…” “E o PS?”, pergunta o L. olhando para as pernas da senhora de meia-idade que olha para o meu amigo R. e ele novamente para mim. “A água gasosa tem picos por causa do dióxido de carbono…”, depois hesita e eu prontifico-me a continuar: “Acaba de sair um novo livro de Saul Bellow…”, mas o L. não me deixa acabar e, olhando para o sítio onde a senhora de meia-idade tinha exibido as pernas, diz: “O Sousa Tavares já escreveu outro livro?” O R., olhando para o quiosque onde uma senhora de idade compra uma revista de croché, explica: “Quem gosta de água gasosa deve comprar sempre a que é naturalmente gasosa, porque só essa é que possui o dióxido de carbono que está na origem. É essa a grande diferença entre a das Pedras e a de Carvalhelhos.” Eu olho de novo para o R. e de seguida para o menino que continua a andar de bicicleta no meio da praça debaixo do olhar atento do pai  e pergunto: “Qual é a água que se deve beber depois de fazer exercício?” O L. olhando para mim como se não me visse diz: “O PS vai ter de mudar de treinador, senão não se safa.” Eu olhando para o tanque e depois para o repuxo corrijo: “Queres tu dizer, o Benfica…” E, ele, olhando para a senhora de meia-idade que agora sobe a Rua de Santo António diz: “Umas boas pernas são meio caminho andado para…” “Ganhar as eleições o P…”, tento dizer eu mas sou logo interrompendo pelo R. que olhando para a fachada da Biblioteca Municipal como quem olha para o infinito, diz: “Mais do que a marca, o que deves procurar é que ela esteja bem fria.” “O quê?”, pergunta o L. olhando para as pernas bem esculpidas de uma jovem que se sentou numa mesa mesmo à nossa frente. “Porque é absorvida mais rapidamente do que se estiver à temperatura ambiente”, responde o R. olhando para o L. que olha para as pernas da jovem da saia curta. “Mas não achas que a água é o melhor para repor os fluidos, já que entra na corrente sanguínea mais rapidamente do que qualquer outro líquido?”, pergunto eu olhando para o R. que olha para o L. que continua a olhar para as pernas da jovem de saia curta e perna longa.  “Sim, o Cavaco Silva vai ganhar o campeonato…” diz inconclusivamente o L. olhando para o busto da jovem que abre e fechas as pernas enquanto sopra na meia de leite que se prepara para beber. Entretanto toca o meu telemóvel avisando-me que está na hora de ir fazer os meus quinze quilómetros de bicicleta sem sair do lugar. Saio dali olhando para o espelho que me transmite uma imagem já um pouco gasta. O R. olha para o L. e ele olha para a jovem que olha embevecida para o ecrã do seu computador. O namorado da jovem pousa suavemente a sua mão na coxa da namorada enquanto bebe uma Água da Pedras fresca com limão e olha distraidamente para o L. que olha de novo para o repuxo e para o tanque, enquanto reza baixinho: “Ai que saudades tenho das antigas Freiras e do meu tempo de estudante.”

 

 

PS – Se vai comprar uma toillete para o Ano Novo sugerimos-lhe uma camisa Mirto, que já as fazem desde 1956, pois eles seleccionam as melhores telas e dão mais de oitenta passos para confeccionar uma grande camisa. A gravata deve ser da Dustin. Como está frio aconselhamos também um gorro de bombazina Failsworth, um cachecol de lã Merino e Lambswool da Johnston’s, e um pack de 3 garrfas de whiskys Talisker. Para dar um toque ainda mais british, sugerimos camisolas de lã Lambswool Alain Paine e uns sapatos Berwick, Emidio Tucci ou George’s. Sugerimos ainda um casaco de pele Emidio Tucci. E, já agora, deve optar por uma eau de toilette 100ml e emulsion après-rasage da Terre D’ermès.

 

Se vai oferecer prendas, seja original e decida-se pelo papel higiénico Renova (The black toilet paper company) que é um papel às cores (nós sugerimos o vermelho para dar com a quadra). É muito macio, elegante, alegre e pode ser utilizado em milhentas coisas. Pode também decidir-se pelo livro de José Saramago Nas Suas Palavras, pelo berbequim Bosh, que é um óptimo saca-rolhas, ou então pela Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen.


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Domingo, 12 de Dezembro de 2010

Pôr-do-Sol em Barroso


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Sábado, 11 de Dezembro de 2010

Cantador


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Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

O Homem Sem Memória

 

41 – O mesmo discurso que serviu ao senhor presidente da Câmara para enaltecer os mancebos de Montalegre que foram mobilizados para defender Angola, que era nossa, serviu para fazer o elogio fúnebre do Mário.

Enquanto o autarca repetia as palavras de há um ano atrás, agora perante uma assembleia de chorões, os rapazes da primária mascavam chicletes com uma raiva triste. O caixão lá estava bem selado, não fosse dar-se o caso de o Mário tentar surpreender alguém. Os seus pais choravam convulsivamente e as suas irmãs já nem isso conseguiam fazer devido à exaustão. A namorada enfraqueceu de tal forma que nem a deixaram ir ao enterro. O Carlos Torlim chorava também mas hirto como o tronco seco de um carvalho. As lágrimas corriam-lhe tão frias e decididas pelo rosto como se ele fosse não de carne mas de pedra lascada.

O Padre Zé escutava o panegírico do senhor presidente com uma serenidade que foi admirada por todos. Parecia um deus conformado com a desdita dos homens. Para ele tudo aquilo fazia sentido, a juventude e a velhice, a guerra e a pátria, o cristianismo e o ateísmo, Deus e o Demónio, Salazar e Marcelo Caetano, Fátima e o Papa, a vida e a morte. E as lágrimas também faziam todo o sentido. As lágrimas eram, na sua perspectiva, a manifestação física da alma. Daí a frequência das lágrimas e do sofrimento em toda a liturgia cristã. Daí o símbolo dos cristão ser a cruz que é sofrimento, que é redenção, que são lágrimas. Cristo chorou quando o seu Pai lhe deu o cálice a beber. E disse: “Meu Pai, se possível, afaste de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, mas sim como tu queres” (Mateus 26:39). E qualquer que tenha sido o conteúdo do cálice bebido por Jesus levou-O a suar grandes gotas de sangue. Por isso clamou: "Oh, Deus, se for possível, afaste de mim essa carga. Ela é pesada demais. Eu preferiria que ela fosse de mim afastada". Quando Job foi servido do seu cálice de dor, gritou: "A minha dor é tão grande que não consigo ver por onde ando. Banho as minhas feridas em lágrimas". Quando David bebeu o cálice das dores, a sua cama tornou-se um leito de lágrimas. E disse: "O meu peito e os meus ossos estão consumidos pela dor". E o Padre Zé, muitas vezes em transe induzido, escutava durante as homílias as palavras do próprio Jesus: "Mestre, se de alguma maneira for possível, faz com que esse cálice de dor seja de mim afastado".

As lágrimas são salgadas. O primeiro símbolo dos cristãos foi um peixe. Ora o peixe vive na água e a grande maioria anda na água do mar. Daí as lágrimas. Daí a alma. Daí o sal. Por isso no baptismo se deita água na cabeça do bebé e se lhe introduz um grão de sal na boca. Por isso ele chora.

O Padre Zé acreditava mesmo que os caminhos do Senhor são insondáveis. A nossa vida na Terra é uma passagem para a vida eterna. Primeiro temos de ser concebidos como seres humanos para nos consubstanciarmos e ainda para nos distinguirmos dos outros animais, assim ganhamos direito a um corpo e a uma alma. Mas o corpo é o menos, pois é uma morada transitória. O importante é a alma. “É”, dizia ele para a irmã e para a sobrinha, “como um carro que nos leva de um lado ao outro, que precisa de gasolina e algum cuidado, mas que fenece com o uso e a idade. O corpo é uma máquina. Mas o que conta é a alma. É a alma que temos de salvar. O corpo é uma limitação humana. Por isso Deus não tem corpo. Deus é a Alma das almas. Deus é o Infinito e o mais Além. Deus é tudo. Nós não somos nada”.

“A Pátria é tudo”, dizia arrepiado o senhor Presidente da Câmara. E com a pele toda eriçada de tristeza e júbilo, elogiou Salazar e a sua obra, Marcelo Caetano e a sua inteligência, Américo Tomás e a sua serena navegação, o Império e a sua grandeza, o Ultramar e a sua protecção, a Igreja e a sua bondade, o Comunismo e a sua maldade. E disse ainda que se sentia orgulhoso com a enérgica entrega dos jovens barrosões à defesa da integridade nacional, pois Portugal é só um de Lisboa a Timor. E falou de D. Afonso Henriques e de muitos mais reis, e da gesta portuguesa dos Descobrimentos e da nossa Língua que foi a pátria de Camões. Abordou as dificuldades porque Portugal estava a passar, enalteceu o esforço e o trabalho dos portugueses que labutam lá fora, o trabalho dos portugueses que labutam cá dentro e dissertou sobre as dificuldades que a sua Câmara estava a enfrentar, sobre as obras que era necessário fazer, do esforço solidário da metrópole com as colónias, falou da aposta do Governo na educação, na batata de semente, na sementeira dos cereais, no combate à subversão e ao contrabando, apelou à vigilância dos patriotas, à necessidade de se beber menos e de ir mais à missa e rezar a tempo e horas e de pecar menos também e de não pôr em causa a política do Governo e das instituições públicas e a guarda. Por fim falou do Mário. E dos outros mários que morreram e morrem em combate para defenderem a pátria. Esta pátria tão amada, mãe de heróis, alfobre de guerreiros, barco de navegadores intrépidos, terra de génios. E chorou em cima do papel do discurso quando disse: “O Mário era um filho querido desta terra, era um exemplo para os nossos jovens, era como se fosse meu filho. A dor provocada pela sua morte vai ser difícil de ultrapassar. Por isso perdoai estas minhas lágrimas. E perdoai, bom Deus, se fordes capaz, a esses terroristas que ceifaram mais uma existência vicejante de um barrosão. Eu também tenho filhos e imagino o quanto deve custar perder um na guerra.”

Houve um minuto de silêncio aproveitado por muitos para pensar que uma coisa é fazer discursos e outra bem distinta é dizer a verdade. Todos os presentes sabiam que o filho mais velho do senhor presidente tinha feito a guerra em Lisboa com o cu sentado numa poltrona no gabinete de um general casado com uma senhora filha de um senhor muito influente na capital, que por seu lado descendia de outro senhor que se tinha casado com outra senhora também ela filha de um casal muito influente na província. Nestas coisas, como em muitas outras, a pátria é mãe para uns e madrasta para os restantes.

De seguida o Padre Zé latinou o que tinha a latinar, encomendou o que tinha a encomendar, abençoou o que tinha de abençoar e o Mário lá foi a enterrar como um herói.

No derradeiro momento, ouviu-se uma salva de disparos produzida pelo grupo de guardas da GNR do posto de Montalegre. Alguém tocou um cornetim. E o Mário desceu tão fundo quanto lho permitiu a profundidade da cova.

Uns segundos após os disparos, um milhafre caiu fulminado aos pés do maior contrabandista de Vilar de Perdizes que passava por comerciante na Vila. O Virtudes, que estava perto da Dona Rosa, segredou-lhe ao ouvido: “Isto é mau agouro. Aquele homem vai morrer em breve.” O José, que, com alguma razão, acreditava em tudo o que Virtudes dizia, nas brincadeiras da tarde armou-se em bruxo e proferiu a sentença mascando a chiclete da manhã: “A morte do milhafre foi mau agouro. O Parreco de Vilar de Perdizes vai morrer em breve.” Passados três dias foi abatido a tiro, junto à fronteira, numa rusga da Guarda Fiscal.  

O mau agouro provocou outra vítima. O guarda Afonso foi suspenso durante cinco dias por, em vez de balas de pólvora, ter usado balas com projéctil.

Durante vários dias foi comentado o facto de a urna do Mário ser de chumbo e ter vindo selada. Soube-se mais tarde que o caixão veio vazio, pois o Mário não morreu em combate. Foi vítima de um descuido quando foi tomar banho num rio infestado de crocodilos.


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Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

Neve no barroso


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Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

O Poema Infinito (25): este é o tempo…

 

 

O tempo da árvore genealógica possui uma aridez fecunda. É uma música longa iluminada pelo sonho da terra. Há nos seus braços uma glória humilde onde os lábios do sonho negam as fendas das muralhas. É o tempo do destino. A terra abraça as ervas e as fontes acumulam os raios de sol que permitem a claridade da água. Os homens dormem nos olhos das mulheres. Chega o silêncio branco da nudez e as casas engolem os sonhos e as pessoas ardem nos quartos e os rapazes e as raparigas beijam as palavras enamoradas. O desejo ergue-se repetido pelos corpos disfarçados de circunstância. E os sonhos repetidos repetem-se de novo. É claro o tempo ausente. É clara a mágoa dos caminhos e o silêncio dos pássaros. É clara a paciência dos teoremas e a vida sacrificada dos poetas. São claros os limites do tempo e a lucidez dos murmúrios. Uma multidão de pássaros atravessa o céu azul na direcção do templo das palavras. Os corpos em sílabas das crianças sofrem as palavras nuas da desilusão. Mas as paisagens continuam a existir rigorosamente renovadas pelos olhares dos pintores. Como se fossem, sobretudo, um fino pó de silêncio. O delírio nasce na claridade aberta da música. E a música começa na razão simples da melodia. É tranquila a invenção dos corpos. A hora vagarosa do entardecer dilata o brilho dos teus olhos. O tempo dos sonhos finge um destino. O tempo presente imagina a razão. O tempo das palavras tem agora o sabor aborrecido da repetição. Este é o tempo de viver até ao fim a nitidez das mãos divididas. Este é o tempo de acreditar em coisa nenhuma. Este é o tempo fecundo da irracionalidade. Há nos olhos dos homens o tempo escuro da desilusão. É o tempo da insónia. Este é o tempo das festas tristes e das carícias atrapalhadas e dos corpos entusiasmados pelo tédio. Este é o tempo da fantasia das promessas cumpridas. Este é o tempo da razão do dinheiro. Este é o tempo da canção das armas. Este é o tempo dos amos silenciosos. Este é o tempo da insónia. Este é o tempo duro dos sorrisos devastados. Este é o tempo fecundo das desilusões proclamadas. Este é o tempo do remorso e das esmolas e da sopa dos pobres. Este é o tempo da febre das cidades. Este é o tempo presente das circunstâncias ferozes e dos versos disfarçados e dos juramentos falsos e dos destinos fingidos e dos corpos cansados e dos homens solitários e das mulheres violentadas. Este é o tempo dos amigos forçados e das armas silenciosas. Este é o tempo dos lugares comuns. Este é o tempo de começar de novo.


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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

O homem da vassoura de giesta


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Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

A estúpida da economia e o sentido da vida

 

Todos os apelos mediáticos vão no sentido de pensar e repensar a economia. Na década de 1990, o ex-presidente democrata Bill Clinton popularizou a frase "É a economia, estúpido", para resumir numa frase qual seria o eixo de sua campanha eleitoral para derrotar Bush, pai, e depois para assegurar a sua reeleição. E isto fazia sentido.

 

Agora, esta mesma frase poderia responder perfeitamente à pergunta de porque perdeu Obama. Foi, em grande medida, o resultado da irritação de um sector do povo norte-americano frente a um presidente que prometeu "mudar radicalmente a política”, mas que rapidamente se viu cercado pela realidade económica. E isto faz sentido.

 

Eu sei que é aí que reside a equação da nossa sobrevivência. Depois lembro-me das aulas de Física: energia, massa, velocidade da luz e penso que se as pessoas fossem do tamanho de átomos, a população da Terra cabia toda na cabeça de um alfinete. Afinal, qual o sentido da vida?

 

Por que estamos aqui, o que é isto tudo? Os Monty Python tentaram, sem grande êxito comercial e filosófico, responder à questão mais importante da Humanidade: Qual é o sentido da vida? E fizeram-no explorando as várias fases da vida, começando com o nascimento: um médico parece mais interessado no seu equipamento do que em entregar o bebé ao cuidado da mãe; um casal católico apostólico e romano tem uma caterva de filhos, porque "cada esperma é sagrado"; na época essencial da aprendizagem e da vida, jovens frequentam uma igreja católica e assistem a aulas de educação sexual; também se fala da guerra onde um oficial parte para o ataque, mas é frustrado por seus subordinados que pretendem comemorar o seu aniversário; o director de uma campanha militar em África perde uma perna presumivelmente devido à mordidela de um tigre supostamente africano, etc.

 

E agora algo completamente diferente. Depois do sentido vem a aprendizagem. E outra questão se nos levanta. Será que a Humanidade aprende com a História? Parece que devia, mas não aprende. Apesar de todo o progresso tecnológico e científico não se pode falar de progresso humano. No essencial, o Homem é o mesmo que era há milhares de anos. É necessário percebermos que atrás de nós há séculos e séculos de experiência humana que é essencial para a percepção daquilo que somos, daquilo que nos cai em cima e temos, por muito que nos custe, de digerir e tentar responder. O que pretendo dizer é que a vida não tem um grande sentido, apenas faz sentido vista em pequenas parcelas.

 

É tempo de nos deixarmos de ilusões, pois o mundo será sempre o mesmo, quer a hegemonia seja protagonizada pelos americanos, pelos europeus ou pelos chineses. Com a globalização ou sem ela, com a paz ou com a guerra, com as revoluções ou as contra revoluções, com as reformas ou os governos estáveis, teremos sempre de contar com o sofrimento, a desigualdade social, a luta pela vida e a morte. Este é um sentido da vida. Será?

 

Será que faz sentido a proibição, ainda que agora ligeiramente mitigada, por parte do Papa e da Igreja católica do uso do preservativo? Será que faz sentido a fé? Se Deus criou isto tudo porque razão não se opõe à desgraça? Porque é que não corrige o mal terrível que é o de fazer sofrer as crianças? Como é que faz sofrer as pessoas que não possuem defesa nenhuma? Como permitiu os campos de concentração nazis e os gulages comunistas? Porque razão Deus não intervém para acabar com essas coisas?

 

Os católicos dizem que Deus se revela através dos símbolos. Os ateus dizem que linguagem simbólica não tem importância. O que conta é a realidade física e objectiva. E não se sai disto. Eu sei que faz parte da cultura das pessoas perceber que a visão do mundo não é só uma visão racional, nem nos podemos restringir apenas a uma interpretação lógica. Eu sei que quem escreveu a Bíblia o fez recorrendo sobretudo aos símbolos. Essa era a expressão primitiva dos povos e da sua visão do mundo. Mas quando a mulher de Lot olha para trás e fica transformada em estátua de sal, o que é que isso quer significar para o povo de Deus? É simbólico em relação a quê? Ao pecado? À sodomia? À fornicação? À anarquia? À desobediência?

 

Também os republicanos portugueses fizeram das bigodaças o seu símbolo identitário e esculpiram o busto da República em forma de uma bonita mulher e deu naquilo que deu. Os símbolos são úteis ao espírito mas não resolvem a trivialidade da vida humana. Se a vida se pudesse modificar através dos símbolos, vivíamos no melhor dos mundos.

 

A vida e o seu sentido são dois caminhos que se bifurcam. Mas voltemos de novo à economia. Todos sabemos que o Capital elimina as subtis particularidades de uma cultura. O investimento estrangeiro, os mercados globais, as aquisições feitas pelos grandes grupos económicos, o fluxo da informação através dos meios de comunicação transnacionais, a influência atenuadora do dinheiro electrónico e do sexo ciberespacial, o dinheiro e o sexo virtuais e a uniformidade dos desejos dos consumidores, tudo isto leva a que as pessoas queiram as mesmas coisas, pois são induzidas a um mesmo leque de escolhas. E tudo isto porque não faz nenhum sentido, faz todo o sentido do mundo.

 

Por esse mundo fora os sósias de Marx, Lenine, Estaline, Fidel Castro, Trotsky, Mao, Álvaro Cunhal são presentemente stript-teasers nos clubes nocturnos da globalização política.

 

Todos os travestis fazem os clipes da Gloria Gaynor ou da Amália. O Benfica sonha eternamente com um sósia do Eusébio. E o país procura eternamente um ditador para as suas finanças públicas. É isto a vida. É isto a vida?

 

Será que ela fez sentido?

 

O escritor Onésimo Teotónio Almeida descobriu numa gasolineira em Vila da Povoação, em São Miguel, Ângelo Bento Melo que antes ou depois do horário de trabalho mantém, aos 56 anos, o hábito de ler. E já leu Victor Hugo, Jorge Luis Borges, Ferreira de Castro, Eça, Guimarães Rosa, Selma Lagerlöf, Saramago, García Márques, Faulkner, etc. Isto apesar de ter feito apenas o ciclo preparatório. Isto sim faz sentido. Mas não é a vida. O senhor Ângelo diz que “um livro é um tesouro que enriquece a mente, é melhor que a jóia que sua dama adorna é a grande voz do pensamento, e dá-nos conselhos a toda a hora”.  

 

Está visto que a vida não tem lá grande sentido, mas o senhor Ângelo tem. Tem todo o sentido do mundo. A vida é um livro que se compra caro e que depois de lido se enfia na prateleira para fazer volume. E que bonito que fica numa graciosa prateleira ao pé dos outros. É por causa dos livros que aprendemos a ler e a escrever e a pensar. São os livros que nos ensinam o sentido da vida. A vida pode não ter sentido mas os livros têm sentido. A vida tem o sentido das gravuras de Foz de Côa. Tem o sentido do avião a jacto. A vida tem o sentido do bom gosto, da nudez, da preguiça, da linguiça, da rima, da estética, da ética, da teoria política. A vida tem o sentido do Natal, do futebol e dos frangos de churrasco, tem o sentido da tabuada, tem o sentido do casamento, sobretudo entre os homossexuais, tem o sentido do Alberto João Jardim, tem o sentido das perversidades. A vida tem o sentido da morte.

 

 

PS – Karl Lagerfeld apresentou a sua colecção Chanel. Apresentou modelos envergando minivestidos de tweed com aplicações de pele e botas do espaço, chapinhando na água em torno de um icebergue gigante que a Chanel mandou vir da Suécia. Os ecologistas acusaram-no de ser insensível às questões ambientais. Ele contrapôs que o aquecimento global pode ser um disparate.

 

Não sei se a ecologia faz sentido, se as questões ambientais fazem grande sentido, se Karl faz muito sentido, mas sei que a moda faz sentido. Nisso é como a vida.


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Domingo, 5 de Dezembro de 2010

Mulher na neve


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Sábado, 4 de Dezembro de 2010

Olhares


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Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

O Homem Sem Memória

 

40 - Foi no princípio da Primavera que o Padre Zé resolveu mexer no telhado da igreja junto ao cemitério, pois as infiltrações da água da chuva e da neve tinham começado a manchar a enorme imagem iconográfica pintada no tecto de madeira. Os rapazes ajudaram a transportar as telhas que entregavam aos operários para as colocarem no espaço donde tiravam as que estavam partidas ou deterioradas. Depois do trabalho, cada garoto recebeu vinte e cinco tostões, que deram à justa para comprar dois chicletes dos jogadores e para cinco rebuçados de tostão.

Era nesta igreja onde se rezava a missa aos mortos. Depois das almas encomendadas a Deus apenas se tornava necessário andar uns poucos metros para entregar o corpo dos defuntos à terra.

Foi no início da Primavera que o José e os amigos, mascando chiclete, assistiram ao enterro do Mário Jorge, um mancebo que nem há um não tinha ido para Angola combater na guerra colonial.

O Mário Jorge era um jovem muito querido na Vila por ser educado, trabalhador, simples e um jogador de pau exímio. No dia em que ficou aprovado na inspecção, ele e mais os dez mancebos que foram considerados aptos para o serviço militar, fartaram-se de jogar ao jogo do pau, de deitar foguetes, tocar concertina, bombos e ferrinhos, comer e beber à tripa forra e dançar no baile de celebração pela subida honra de terem sido escolhidos para irem defender a Fé e a Honra do Império. Apenas o Carlos Torlim chorou como uma madalena por ter sido dado como não apto devido a ter os pés chatos. Ao choro do mancebo reprovado juntou-se o das mães, das irmãs e das namoradas dos eleitos. Os pais e os irmãos mais velhos, para não pensarem na desdita que representava o facto daqueles rapazes terem já o passaporte para a guerra e, provavelmente, para a morte, emborracharam-se com cerveja, vinho ou aguardente.

Durante a tarde e a noite, a rapaziada andou em bando descendo da Vila para a Portela e subindo da Portela para a Vila em grande cantoria e algazarra como se lhes tivesse tocado a sorte grande. Todos os homens deram os parabéns aos distinguidos e palavras de consolo ao Carlos dos pés rasos. Ele é que não se conformava com “a puta da situação” de ter sido dado como inapto. E por isso chorava. Todos os mancebos aprovados tentaram consolá-lo referindo que, bem vistas as coisas, por causa dos pés chatos tinha ficado livre da tropa, que era, no fundo, o que todos almejavam, mesmo parecendo que não. Mas o Carlos não se conformava em ter ficado com a caderneta militar manchada com o carimbo da inaptidão física para defender Angola, que era nossa, como muito bem dizia o Padre Zé nas suas homilias de Domingo. “Vou ser a vergonha lá de casa. Agora nem a minha futura namorada me vai querer. Um homem que não vai à guerra não presta para nada”, choramingava o Carlos Torlim. O Mário Jorge bem o tentava animar: “Não te apoquentes mais. Não vais à guerra de África mas ficas aqui a defender as nossas namoradas da investida dos burgessos das aldeias”. E o Carlos: “Os burgessos das aldeias não se atrevem a vir à Vila namorar”. Ao que o Mário Jorge contrapôs: “Sendo assim, deves deitar o olho aos minhotos que vêm para aí de concertina em riste intentar enganar as nossas moçoilas com os seus cantares ao desafio. Esses mariolas são muito manhosos. Nós confiamos em ti para protegeres o nosso grémio.” O Carlos, agora menos fungoso, respondeu: “Deixa-os por minha conta. Se forem capazes de se atrever a molestar as nossas raparigas vou-me a eles com o meu pau e desanco-os como se fossem espanhóis. Posso ter os pés chatos, mas, graças a Deus, estas mãos são muito rápidas a manobrar um pau à maneira antiga. Por cada paulada é um corno que vai ao ar. Se tiverem a ousadia de andarem por aí a namoriscar as cachopas ponho-lhes aquele lombo mais escuro do que a pele dos turras”. “Prometes?”, disse o Mário Jorge. “Está prometido”, proferiu o Carlos Torlim. E disse ainda mais: “E tu tens de me prometer que regressas são e salvo.” Ao que o Mário Jorge respondeu: “Lá prometer prometo, não sei é se vou conseguir cumprir.” “Tu és um homem corajoso e de palavra e por isso vais regressar inteiro. Nem quero pensar no que o teu pai faria se não fosses capaz. És o único rapaz da família e o teu pai só se atreveu a comprar as terras com a intenção de tas deixar.”

Tudo serenou durante um bom bocado. Comeu-se e bebeu-se com alguma parcimónia. Uns falavam e outros ouviam, uns choravam e outros riam, uns diziam sim e outros diziam não. Muitos atreveram-se a dizer talvez, o que é quase blasfémia para um barrosão, sem que isso fosse motivo de discórdia.

Depois da ceia deu-se início ao arraial. Enquanto uns tocavam os demais dançavam. Depois de várias modas, os que dançavam pegavam e esgalhavam os instrumentos para produzirem melodias que soassem minimamente perceptíveis, e os que acabavam de tocar iam procurar par e dançar com nas festas judias. Os mais nervosos gargalhavam muito alto, davam pulos enormes e inventavam paços de dança estrambólicos.

O Mário comeu como um pardal, bebeu moderadamente, dançou pouco, tocou a modinho, sorriu-se para todos com muito carinho, já como se se estivesse a despedir. O seu pai olhou para o seu morgado e para o infinito, como se fossem parentes. Por vezes beberricava do copo e abanava a cabeça como se pronunciasse um não maior do que Serra do Larouco. Não, o seu filho não. O seu filho não devia ir à tropa. Lá morria-se a valer. Estava mesmo capaz de admitir que tinha sido preferível o seu filho ter nascido com os pés chatos e ser reprovado na inspecção militar. Ele que até há bem pouco tempo zombava dos que, por causa de defeitos físicos, se viam livres da tropa. Era mesmo homem para trocar as duas juntas de bois e a leira maior para que a sorte do seu filho fosse outra. Ou então trocar a sorte do Mário com a do Carlos, que não deixava de se autoflagelar por ter sido considerado inapto para o serviço militar. “Que vá o manco para a guerra, caralho, que vá o manco para a guerra e não o meu filho que tanto me custou a criar. Que Deus me perdoe. Mas o meu querido filho não.”- atreveu-se a pensar.

Um pouco mais ao lado, no meio do mulherio, a mãe do Mário chorava que se fartava. E como a mãe chorava, as suas cinco filhas choravam também. E da mesma forma, com o mesmo sentido de desgraça e de inconformismo. Ali apenas os mancebos riam a bom rir. À festa juntaram-se uns mariolas que ou ainda não tinham sido chamados à inspecção ou então já tinham passado à peluda sem muitas mazelas ou achaques visíveis. Com a animação da música e do vinho, trocaram-se pares, apalpadelas, dixotes e olhares.

No meio da animação, um dos rapazes, depois de dançar com a irmã mais velha do Mário (que era a mulher ambicionada pelo Carlos Torlim, e por quem ele chorava baba e ranho por causa da vergonha de agora não ser visto como homem capaz de ir à tropa) e logo após ter o atrevimento de pegar à sorrelfa e com algum entusiasmo na namorada do Mário, foi avisado pelo Carlos que ali não era bem-vindo, nem ele nem os seus companheiros.

Como palavra puxa palavra, o galarim armou-se em teso e disse que ele dançava com quem quisesse e que festa feita no meio da rua estava aberta a toda a gente. E que, referindo-se às raparigas, quem não quer ser raposa não lhe veste a pele. E mais isto e mais aquilo até que a música parou, os bailarinos imobilizaram-se, o vinho deixou de escorrer nas gargantas mais sequiosas, os cigarros começaram a ser fumados com mais intensidade, os olhos começaram a ficar chispantes, as mãos pegaram nas navalhas que andavam nos bolsos fundos das calças, as pistolas foram apalpadas e o Mário dirigiu-se ao rufia e pediu-lhe que se fosse embora que a festa era para os mancebos da Vila que tinham sido dados como aptos para o serviço militar. Mal o brigão se atreveu a dar um passo mais arriscado em direcção ao Mário, o pau do Carlos ergueu-se mais rápido que uma fagulha de um torgo ao lume e desabou na cabeça do atrevido como se fosse o raio de um anjo vingador. O som do impacto foi audível nos paços do concelho onde o senhor presidente da câmara rabiscava o discurso com que pretendia glorificar os dignos filhos de Montalegre distinguidos com a subida honra de poderem defender as províncias ultramarinas que eram mais do que nossas.

Olhando para o rapaz estendido no chão com olhos de guardador de rebanhos, o Carlos Torlim virando-se para o Mário Jorge disse: “E vai um.” Ao que o segundo retorquiu: “E se o mataste?” “Se o matei, é defunto”, disse o Carlos sem se desmanchar. “Que continue o baile.”


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Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010

Solar valpacense


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