Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

Fornicar ou não fornicar, eis a questão

 

Quando os Babilónios conduziram os judeus para o cativeiro, pediram-lhes que tocassem harpa. E os judeus disseram: “Trabalharemos para vós, mas não tocaremos.” É o que agora devemos passar a dizer. Trabalharemos para o Estado mas não vamos fornicar mais sem a ajuda, a tempo inteiro, dos contraceptivos. Não vamos continuar com isso de fazer crianças. Não queremos conceber crianças para as colocar perante a indiferença do Estado. Por isso não vamos tocar gaita-de-beiços. Fodei-vos.

 

Tenho este pensamento estranho enquanto a chuva forte tamborila nas janelas e coloco uns cilindros de madeira sintética na lareira. De seguida tomo o meu ansiolítico, preparo o café e abro uma garrafa de água mineral. E também me boto a fumar uma cigarrilha, pois ando a tentar deixar o vício do tabaco. Volto a pensar na Crise e sublinho na revista LER as palavras de Abel Barros Pinheiro: “Crise é o momento da decisão, é afinal um estado de ânimo propenso à acção e consequentemente à felicidade. As pessoas, como se sabe, ficam mais felizes quando se mexem.” É o que eu tenho de fazer. Mexer-me. Fornicar é preciso, viver não é preciso. Fornicar mas não procriar. Temos que fazer como os judeus. Já que nos cortam no salário, nós temos de cortar na procriação. Afinal o povo é quem mais ordena. E se o povo não procriar ninguém mais procria coisa que valha a pena.

 

Entretanto olho para a lareira e fixo-me durante um instante na estranha chama produzida pela lenha sintética. Enquanto puxo o fumo da cigarrilha lembro-me de um poema de Carlos de Oliveira: Entra pela janela / o anjo camponês; / com a terceira luz na mão; / minucioso, habituado / aos interiores de cereal, / aos utensílios / que dormem na fuligem; / os seus olhos rurais / não compreendem bem os símbolos / desta colheita: hélices, motores furiosos, / e estende mais o braço; planta / no ar, como uma árvore, / a chama do candeeiro. Seguidamente olho para o meu bonsai de plástico e choro. Eu, que sempre me senti, como bem definiu um meu falecido amigo, um rural empedernido.

 

E agora algo completamente diferente. Pego nos jornais e revistas e ponho-me a ler.

 

Começo pelas palavras do senhor embaixador inglês, na hora da despedida. Depois de ler a entrevista ao Expresso, orgulho-me da nossa relação com os ingleses. O senhor embaixador adora-nos. Considera que a nossa sociedade é mais aberta que a sua, que o coração é o lugar mais importante do corpo de qualquer português. E isto é lindo, lindo. E vindo de quem vem, até me provoca pele de galinha. Fico mesmo arrependido de ter tomado o meu ansioliticozinho, pois ler tão bonitas palavras chegava e sobrava para combater a minha depressão por um dia ou dois. Mas agora já está e não posso vomitar o comprimido.

 

O senhor Richard Ellis é um amante da nossa língua. O Foreign Office pagou-lhe um curso intensivo de português. E ele, para aproveitar o tempo e o dinheiro ao máximo, estudou o português básico com as encantadoras peixeiras de Matosinhos. Aprendeu, inclusive, a verbalizar, sem soletrar, alguns palavrões. Ai este bom povo português! Na sua opinião avalizada, o Norte é o melhor lugar para aprender uns palavrões. Nisso somos parecidos a nuestros hermanos.

 

É evidente que ainda estudou a nossa língua com outras pessoas mais distintas. Daí a sua preferência por três vocábulos: “pantufa”, palavra maravilhosa que presumivelmente aprendeu com algum conselheiro de Estado; “paralelepípedo”, que de certeza conheceu com um professor pós-doutorado da Universidade; e a “brutal” (o adjectivo é seu) palavra “arroto”, que de certeza ouviu nalgum jantar com a família de acolhimento em Matosinhos. Mais tarde percebeu porque se arrota tanto em Portugal. “Em Portugal”, disse o senhor Embaixador, “nada se faz sem a frase ‘temos de almoçar’. Eu gosto imenso”. Também nós, senhor embaixador, também nós. Por isso adoramos arrotar. Quando comemos libertamo-nos. Até dos gases. É a nossa catarse.

 

E disse mais outra coisa admirável. E intrinsecamente verdadeira: “Uma reunião de trabalho em Portugal é um desastre. Ninguém diz nada, é para inglês ver. Depois as pessoas abrem a porta e saem – e aí é que começa a reunião.”

 

Novamente olho para a lareira onde arde o quinto cilindro de madeira sintética. Dou nova golada na água mineral e bocejo. Lá fora a água da chuva continua a tamborilar nos vidros das janelas. Distraído, ou talvez não, fixo-me numa frase de Eduardo Lourenço: “Os portugueses tendem a confiar na providência.” Por isso sigo uma sugestão do Expresso e vou para a cozinha tentar combater a crise. Pois é mais do que evidente que não se pode combatê-la com comprimidos.

 

PS1 – Como os almoços e os jantares são as despesas que mais fazem subir o orçamento familiar, devemos confeccionar vários petiscos que podemos comer durante a semana. Cozinhar todas as refeições para um ou para dois é um desperdício. Vá ao Modelo, ao E.Leclerc, ou ao Pingo Doce e esteja atento às promoções. Há várias durante a semana. Aproveite ainda as feiras que aí se fazem para comprar bom vinho, enchidos e queijo a preços baixos. Se morar junto de um Ikea pode lá comer por umas cascas de alho: uma sopa e uma sandes podem chegar a custar apenas um euro. Maia barato nem nos chineses consegue.

PS2 – Se se der bem com a cozinha e for adepto do Facebook, pode apostar numa interessante estratégia para ganhar algum dinheiro: combine jantares lá em casa, publicite-os na internet, cobre 20 euros por cabeça e aproveite para fazer novos conhecimentos e rever alguns antigos. Se a sua sala for espaçosa e nela tiver uma mesa grande, pode arrecadar 200 euros numa noite.

 

E ainda dizem por aí que o Expresso apenas serve para encher o cesto dos papéis.

 


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Domingo, 30 de Janeiro de 2011

Cozinha Couto de Dornelas - São Sebastião


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Sábado, 29 de Janeiro de 2011

O pão e a luz


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Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

48 – “O meu José falou na barriga da mãe”, disse com a voz entaramelada o guarda Ferreira enquanto fumava mais um cigarro e bebia outro copo de vinho encostado ao balcão. “Não é verdade meu filho?”, perguntou alto o pai ao filho que lá ao fundo via a televisão. “Como é que posso saber tal coisa?”, respondeu o José. “Só se fosse adivinho.” “Mas é isso mesmo que tu és”, insistiu, orgulhoso, o pai. “Se fosse adivinho adivinhava a lotaria”, proferiu sorrindo o José. “És adivinho mas não és desses. Tu foste escolhido por Deus para semear a sua palavra. Para adivinhar a morte, para prever os desastres, para alindar as calamidades, para vencer a dor, para alumiar a noite”, sentenciou o guarda José preparando-se para beber de uma assentada o terceiro copo de vinho da noite. O José, com os olhos pespegados na televisão, sorriu quando viu o João Villaret iniciar a sua récita abanando gentilmente as bochechas e a papada: “Tocam os sinos da torre da Igreja, / Há rosmaninho e alecrim pelo chão. / Na nossa aldeia que Deus a proteja! / Vai passando a procissão.” O José pôs-se de pé e começou a marchar ao ritmo das palavras do mestre declamador e atreveu-se a recitar como uma câmara de eco: “Mesmo na frente, marchando a compasso, / De fardas novas, vem o solidó. / Quando o regente lhe acena com o braço, / Logo o trombone faz popó, popó.”

O guarda José, já alegrete, sorria, bebia, fumava e insistia: “Ali onde o vê-des, falou na barriga da mãe, disse coisas estranhas, profetizou alegrias e tristezas, vida e morte, batalhas e pacificação. Chegou a adivinhar a morte do meu sogro e a vaticinar a ida e a volta, da guerra de Angola, dos meus dois cunhados. Desde que nasceu que todos lá em casa o consideramos e até lhe temos um certo receio. Tememos as suas palavras. Ele é como os cães que latem na noite pressagiando a morte de alguém. Tem um sexto sentido para a tragédia. É um adivinho.”

E lá vai outro copo de vinho. E mais um cigarro. E o José, junto ao televisor, porfiava em entreter-se com o João Villaret: “Olha os bombeiros, tão bem alinhados! / Que se houver fogo vai tudo num fole. / Trazem ao ombro brilhantes machados, / E os capacetes rebrilham ao sol.”

Enquanto marchava e acompanhava o recitador, os amigos do pai principiaram a olhar para o rapaz de outra maneira. Também eles já tinham ouvido falar dos meninos que falaram na barriga das mães. Eram a modos que bruxos, predestinados a conciliarem-se com o Demónio, bons para fazerem rezas, benzeduras, curativos através de palavras mágicas, mafarricos sempre com um pé na igreja e outra no cemitério, homens da noite, amantes de bruxas, alquimistas. Por isso perguntaram ao guarda José se era mesmo verdade que o rapaz tinha falado na barriga da mãe, adivinhado a morte do avô e a ventura dos seus tios. Ele disse que sim. Que não era mentiroso, nem mesmo quando era civil. Que podia beber um copo a mais, mas nunca por nunca bebia o juízo.

Lá ao fundo, o José perseverava na sua procissão: “Ai, que bonitos que vão os anjinhos! / Com que cuidado os vestiram em casa! / Um deles leva a coroa de espinhos. / E o mais pequeno perdeu uma asa!”

Saindo de dentro do balcão, o dono do café levou um bolo de arroz e um Sumol à mesa do José. Quando olhou surpreendido para o homem, ele estremeceu e, sorrindo como uma criança com medo do desconhecido, perguntou-lhe se via no seu futuro algum infortúnio. O José olhou para o pai e, lendo nos seus olhos uma mensagem apaziguadora, disse que não, que nada de grave lhe ia acontecer. O José estava habituado a estas pantomimas no seio familiar. O embuste já vinha de longe. A Dona Rosa era mestra em inventar ocorrências estranhas na gestação dos filhos para conseguir amedrontar quem nela confiava. Gostava de fazer sentir aos outros um certo incómodo que lhe transmitia poder. Administrar o medo e a ignorância é a pior forma de poder. Gostava de sentir que uma praga sua era mais temida que uma premonição do Padre Zé.

“Vamos embora pai”, insistiu o José enquanto marchava e repetia a última quadra que tinha ouvido ao João Villaret: “Tocam os sinos na torre da igreja, / Há rosmaninho e alecrim pelo chão. / Na nossa aldeia que Deus a proteja! / Já passou a procissão.” E o pai: “Vamos já, só bebo mais um copo para a sossega.” E o José: “Vamos embora pai, se não ainda acontece alguma desgraça.”


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Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

Atenção


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Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

O Poema Infinito (32): hora de ponta

 

Eu voltei a cair em ti. Sei-o agora: tu és a minha autobiografia. Vieste numa manhã clara e fria trazer-me a lembrança do adeus. O desejo colhia violetas de algodão numeradas. Os candeeiros sobrevoavam a espessura alucinada. Começaram a trepidar-me dentro da cabeça os gestos densos da noite peregrina. As manchas do dia começaram a invadir o ecrã destruindo as arcas do medo. O filme do entardecer saltou repentinamente sobre as avenidas onde os pássaros desnecessários voavam curvados sobre gravuras chinesas. Os eunucos acariciam agora o sexo dos anjos. Lá fora as crianças mastigam intensamente histórias egocêntricas. As casas transformam-se em gaiolas aromáticas. Todas as camas estão infestadas de Brancas-de-Neve. O Gato das Botas dança numa pista de circo. Cossacos bêbedos violam lenines cheios de sono. As aves, no seu peso diluído pelas sombras, pousam à entrada dos templos de papel iluminados pelas figueiras do mal. E a água desce magicamente da montanha impregnando-nos as gargantas de seiva. Não sinto as tuas mãos nas minhas mãos aflitas. Não sinto o bater de asas do prazer. A noite sangra nas páginas lisas dos missais. Dormem agora as paisagens na ilusão do alento brilhante das árvores. Os deuses perdem-se na memória do tempo. Mulheres sexualmente nuas desequilibram-se nos seus corpos húmidos. Rodo bruscamente a cabeça tentando apanhar a tua imagem. As coisas deliciosas estão sempre sufocadas pelo excesso de ar. Os teus dedos afogam a minha sensualidade. É esta uma espécie de felicidade incerta. Os teus olhos amanhecem rapidíssimos experimentando boleros esfuziantes. Escrevo textos para revelar os meus segredos íntimos. E sinto cada vez mais a efemeridade autofágica do desejo. As horas de espera enlouquecem as ruas e a solidão. É hora de ponta na minha cabeça.


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Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

Amanhecer em Couto de Dornelas


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Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011

Fobias

 

J. veio na minha direcção balouçando como um barco soprado pelo vento leste, sentou-se a meu lado rindo-se e sabendo da minha pogonofobia (medo das barbas compridas, daí o não gostar do Pai Natal, de temer Marx e de abominar Maomé) deu-me a boa nova de que tinha rapado a sua. Podia ser agora muito bem-vindo à nossa mesa de café.


Cá no grupo todos sofremos de afecções mais ou menos ridículas exprimidas por palavras derivadas do grego que tentam etiquetar os medos irracionais. Somos almas sensíveis.


O R. sofre de antofobia (medo das flores), por isso não vai a casamentos, baptizados, aniversários, comícios do PS, procissões, funerais e é alérgico às comemorações do 25 de Abril, dia em que nunca sai à rua, “nem morto”, como faz questão de afirmar.


O C. sofre de deipnofobia (medo dos jantares de festa), por isso nunca ceia no Natal, não almoça no dia de Ano Novo, não vai a casamentos nem a baptizados, não alinha nos jantares do 25 de Abril e já se deixou da vida política activa porque actualmente todas as acções partidárias se resumem a jantares-comício, onde se come mal e se evita falar de política sem ser na forma de stand-up comedy.


O N. sofre de tridecafobia (medo do número treze) por isso não joga no totobola e ausenta-se do país todos os treze de Maio, esteja cá o Papa ou até Deus. Diz que é por isso que é ateu. Que Nossa Senhora ter aparecido a treze de Maio deitou tudo a perder. Daí as pragas com que o nosso país vem sendo castigado desde essa altura.


Eu sofro também de iofobia (medo da ferrugem), por isso não vou à aldeia por causa dos portões, das portas e das janelas de ferro, detesto carros velhos e, sobretudo, abomino as feiras das velharias onde se vêem pessoas loucas a comprar por bom dinheiro objectos de ferro completamente enferrujados. De todas as afecções, esta parece-me a menos ridícula, a menos irracional, pois a ferrugem é a prova provada do fracasso da obra humana. O desígnio, a aposta, a experiência, tudo fracassa, tudo desiste. E ninguém tem a coragem, ou a vontade, de limpar seja o que for. Já ninguém esfrega garfos, colheres ou facas, deitam-se fora.


Agora que olho para a minha tertúlia com olhos de ver, reparo que muita coisa se alterou. E para pior. É o tempo. A ferrugem. Primeiro, quando nos sentávamos à roda de uma mesa falávamos de política, de futebol e de sexo. Depois passámos a falar de futebol, de sexo e de política. Mais para diante começámos a falar de futebol, de sexo e de comida. Posteriormente optámos apenas pelo sexo e pela comida. Agora só falamos seriamente de comida, pois consideramos as relações sexuais o cúmulo da frivolidade. O nosso grupo é, actualmente, a obra-prima do tédio e da vacuidade. Como a presidência da república.


A princípio dava gosto reunirmo-nos. Era até um acto de liberdade. Disputávamos um campeonato de opiniões e crenças que, aparentemente irreconciliáveis, possuíam a virtude de nos divertir. Cultivávamos mesmo um certo humor sardónico e cínico que nos punha a falar apaixonadamente mesmo sendo extremamente insinceros. Nada do que é português nos é estranho.


Por exemplo, lembro-me bem do dia em que o C., depois de um divórcio triste, nos apresentou a sua nova companheira, moça atraente que já tinha dado umas voltas com o R. Mal o par virou costas, o N. disse: “Aí está o exemplo de que mulheres obviamente atraentes por vezes acabam por se fartar dos homens obviamente atraentes, pondo de parte as suas qualidades, as suas expectativas, os seus corações indistintos. É dessa forma que a história se inverte, a princesa beija o sapo e aprecia.”


Eu reagi de imediato dizendo que era uma infâmia falar do C. nas suas costas.


O C. podia ser aquilo que consideramos fisicamente feio, mas era lindo por dentro. Era o tipo de pessoa que chama a atenção do empregado para o facto de se ter prejudicado no troco, o tipo de cavalheiro que cede o lugar às grávidas, às crianças, aos velhos e aos enfermos; o tipo de homem – e nisso é muito parecido comigo - que nunca lê primeiro a última página de um romance, preferindo chegar ao fim por meios leais.


O N. é um tipo de pessoa que se realiza em ser do contra. A sua máxima é: “Se é mau, não gosto. Mas se é bom… detesto.”


Eu, para não dizerem que só falo dos meus amigos, vou definir-me através das palavras da minha queria madrinha. Dizia ela, com algum exagero, convenhamos: “O meu afilhado possui uma elevada sensibilidade reforçada por uma inteligência excepcional. Mas quanto mais inteligente se é mais deprimido se está condenado a ser. Por isso podia muito bem ser protagonista de um romance de Lobo Antunes.”


Eu continuo a achar que a minha madrinha é uma fada boa, uma mulher distinta. Sei-o porque, segundo as palavras de Mandelstam, um homem ou uma mulher se medem pela maneira como reagem à poesia.


 

PS – Receitas para ajudar a combater a crise.


Linguini com salmão fumado e rúcula: Ingredientes – 365 gramas de linguini seco; 2 colheres normais de azeite; 1 dente de alho muito bem picado, 117 gramas de salmão fumado cortado em tirinhas; 58,3 gramas de rúcula; sal e pimenta, e ainda metades de limão para guarnecer.


Confecção – Leve a lume médio uma panela com água temperada com sal e quando estiver a ferver, introduza a massa. Espere que volte a levantar fervura e deixe cozer durante 9 a 11 minutos, ou até que a massa fique tenra mas resistente quando a trincar. Imediatamente antes do final da cozedura, aqueça o azeite num tacho de fundo espesso, junte o alho e frite, em lume brando, mexendo, mexendo sempre, durante 1 minuto e 10 segundos. Não deixe que o alho fique escuro senão amarga. Junte o salmão e a rúcula. Tempere com sal e pimenta e deixe cozer, mexendo, mexendo sempre, durante 1 minuto e 12 segundos. Retire o tacho do lume. De seguida escorra a massa e transfira-a para uma travessa aquecida. Junte agora a mistura de salmão fumado e rúcula, envolva-a ligeiramente e sirva-a guarnecida com as metades de limão.


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Domingo, 23 de Janeiro de 2011

Auto-retrato


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Sábado, 22 de Janeiro de 2011

O cão pedinte


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Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

47 - Bem avisou o agente da autoridade: “Ó senhor Martins, não me faça uma desfeita dessas. Os Pereiras foram sempre uns ranhosos. Uns cheios de fome. Agora com o contrabando lá vão comendo carne do talho de vez em quando. Mas é sol de pouca dura. São uns desgraçados. As mulheres são para aí uma piolhosas. Nada que se compare às lá de casa.”

Mas o guarda Martins nada de lhe ligar. Quando largava a presa não lhe tornava a deitar o dente. Por isso respondeu com maus modos: “Sai-me da frente, filho de uma giesta seca. Ou me largas ou nunca mais passas um saco de café que seja. Tu sabes como eu sou, abocanho e largo. Sou um caçador de boca fina.”

Mas ele voltava ao mesmo: “Ó guarda Martins, nós sempre o tratámos bem, servimos-lhe sempre o melhor pedaço de presunto, o salpicão mais refinado, a melhor galinha, o coelho do monte mais vistoso. A melhor franga…”

“Deslarga-me cabrão. Quero lá saber da tua franga. Já está muito usada. Eu gosto delas virgueiras. A tua mulher tampouco me importa. É um pedaço de toucinho amarelado com sabor a ranço. Comer carne do mesmo animal causa-me fastio. Deixo para ti os restos da porca gorda e da franga desarranjada,” replicava o guarda-fiscal enquanto tocava o cavalo para a frente.

Mas o contrabandista não se dava por vencido. Os pobres possuem essa coragem imensa de nunca esgotarem a sua capacidade de súplica. E tornou: “Ó Martins, não me troque por esse miserável do Pereira. Ainda lhe põe remédio dos ratos na comida. Até comprei uma banheira de cobre para a Rosita dar banho em água de rosas. Comprei-lhe um vestido novo e umas cuecas modernas no Gomerzindo de Xinzo.”

“Umas cuecas novas?”, admirou-se o guarda. “E para que as quer? Sempre andou com as partes ao léu.”

“É para lhe agradar”, respondeu o contrabandista. “A pombinha chama por si muitas vezes. Diz que gosta dos rebuçados que lhe dá.”

“Desses rebuçados já tu lhe deste antes de mim, meu debochado. Eu sempre gostei de as adestrar. Mas a tua Rosita já estava treinada. Por isso perdi o interesse. Podes tu voltar a dar de mamar à miúda, meu canalha. Deslarga-me filho-da-puta.”

“Está visto que não me conhece. Carne que eu não como dou-a aos cães”, proferiu cerrando os dentes o contrabandista. E pôs-se a correr pelo monte fora como um galgo. O guarda Martins tirou a pistola do coldre, fustigou o cavalo com o pinguelim e correu à desfilada disparando tiros de raiva. Mas aqueles ermos eram bem melhores de percorrer a pé que de ginete. E a cavalgadura do guarda-fiscal fora treinada para trotar com fidalguia e aprumo em campo raso. Por isso retraiu-se na hora da caçada.

Ao longe ecoou o grito de vingança do contrabandista: “Hei-de matar-te, meu filho de uma grandessíssima puta, nem que seja a última coisa que faço na vida. De mim ninguém se fica a rir.”

Os tempos foram passando. O agente da autoridade continuou na sua vida de contrabandista e pedófilo. O contrabandista perseverou na sua rotina de cabrão, cheira cus e chefe de família. Aliciou vários guardas-fiscais, outros tantos republicanos, um que outro agente da judiciária e dois pides, dos bons. Conseguiu ganhar mais algum dinheiro, distribuiu benesses, fez-se amigo do sargento e conseguiu mesmo comprar uma pistola de guerra como a que usava o guarda Martins. Mas a sua arma preferida passou a ser uma navalha de ponta e mola que afiava todos os dias. Foi também apalpando terreno, mas com muita cautela, pois sabia que o guarda Martins tinha bons e leais amigos e espiões competentes distribuídos um pouco por todo o lado.

Primeiro foi falando mal do homem que o tinha abandonado e desprezado, dizendo que ele era um debochado, um pedófilo e um traidor. Todos os que o ouviam lhe respondiam da mesma maneira: “Olha que tu!” E ele: “Posso ser aquilo que sou, mas de mim ninguém se fica a rir.” Depois começou a persegui-lo com toda a experiência de homem do contrabando. Estudava-lhe as rotinas, anotava mentalmente as horas dos passeios e sabia de cor os dias em que invariavelmente o guarda Martins ia a casa da família Pereira locupletar-se com o gado da capoeira.

Como já se disse, o guarda Martins não fumava, não bebia vinho nem cerveja, mas libava, quando saciado de sexo, um whisky velho de marca a que juntava um charuto cubano. Escusado será dizer que nesses dias, o seu sexto sentido se desvanecia e muitas das vezes era o tino do cavalo que o conduzia a casa sem se enganar no caminho.

Era noite estrelada e fria quando o cavalo e o cavaleiro, bufando ambos das ventas, viram aparecer ao longe um vulto embuçado numa capa de burel. O cavalo relinchou. O guarda Martins berrou: “Quem vem lá que faça alto senão é um homem morto.” Mas o vulto não obedeceu. O guarda Martins sacou então da pistola e, dando uma chupadela no charuto, tornou a ameaçar: “Quem vem lá que faça alto senão é um homem morto.” E mais uma vez o vulto nada de obedecer. Quando chegou mais perto, o vulto desembuçou-se e deu lugar à fina figura da Rosita em cima de umas andas que gritou muito alto o nome da guarda. Então o cavalo empinou-se e fez com que o surpreendido guarda caísse ao chão. Quando se sentiu sem carga, a montada do agente da autoridade Martins pôs-se em fuga deixando o seu estimado dono estatelado no chão. Por detrás da Rosita surgiu o seu pai que se aproximou do surpreendido guarda e lhe deu com o cipó de torgo na cabeça. Desfalecido, mas não inconsciente, viu como o contrabandista lhe apertava as mãos e os pés como quem se prepara para matar um animal.

O guarda ouviu o contrabandista dizer para a filha: “Chega-me aí a navalha.” “Para que queres tu uma navalha, filho de um reco?, balbuciou o guarda Martins. “Para te capar”, respondeu a Rosita. Então baixaram-lhe as calças, as cuecas e, com gesto certeiro, de um só golpe deceparam-lhe o pénis. “Este já está”, informou o pai. “Mete-lhe o rebuçado na boca, para que desfrute”, pediu a Rosita.

O contrabandista benzeu-se e assim fez.

 


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Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

A mulher do candidato


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Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

O Poema Infinito (31): derradeira infância iluminada

 

Vens do espaço infinito dissipando o vento e incendiando com versos e trovas o mundo das imagens rasgando o mar que há-de vir brandindo o amor que sobe voluptuosamente pelo corpo do desejo e nos teus dedos de mar e calma desvanecesse-se a solidão e o universo expande-se à velocidade dos barcos seduzidos pela textura do sal e dos peixes que pensam ter a sua origem divina nos promontórios onde os deuses se sentam para descobrirem os corais feitos de sol e saudade e de ilusões e de sinais pacificados onde os filamentos do teu rosto e do teu sexo queimam a luz do poema onde um pequeno e discreto messias fala da sua divindade humana segurando-se firmemente nas escarpas escorregadias da ciência onde a condição humana aprende a castigar o prazer e o medo e os beijos de noites suficientes onde por vezes se acendem os sorrisos curtos dos poetas e a incerteza desce no teu brilho solar e se nega a beijar o dia onde agora poisa a minha domesticada carícia onde o sacramentos dos dias e das estrelas dançam num ritual de liberdade obsessiva onde os santos escrevem os seus nomes nas margens cristalinas do rio do esquecimento e é aí que o equilíbrio e a ordem se apagam fundido o dia a descrença e a fé nova do nada quando observamos o esplendor da purificação do baptismo e da consumação da desordem e da irracionalidade da ordem onde a idade recomeça a desenhar mais uma linha de tempo e onde os gestos fazem a sua longa travessia de auto comiseração num longo ocaso de manhãs oníricas e com o fogo nas veias invento uma nova possibilidade de uma outra infância onde o meu coração de pássaro não pode ser ferido nem tocado nem suspendido nem acariciado em demasia nem infectado pela exaltação da vacuidade nem pelas lágrimas de deus nem pelos ais das mães nem pelas chagas impetuosas do saber nem pelo cântico negro do bem e do mal onde o conhecimento do inferno aviva a dor frágil do amor e da morte onde os lamentos silenciosos aguentam a busca do tempo e a poeira dourada e a chuva vencida e os corpos desiludidos e as mentes brilhantes e as carícias de fogo e as cinzas dos sonhos e os lábios que mordem quando mentem e talvez por isso um cristo redimido numa cruz de sofrimento ilumina a oração dos descrentes e eu rezo pensando na fúria dos teus olhos liquefeitos na ilusão feliz do céu no acto imperfeito da fecundação no húmus amargo das raízes da esperança na lassidão insidiosa da embriaguez na felicidade coalhada do amor na doçura sóbria da vida na dor da ausência da gulosa dor da ausência na invisível escolha do silêncio na porta falsa da fé na violência quantificada que precede o acto de amor e na aura do sonho de uma derradeira infância iluminada…

 


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Terça-feira, 18 de Janeiro de 2011

O pôr do sol em Coimbra


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Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

A crise e os idiotas

 

Estávamos nós a debater a crise nacional e internacional com tanto entusiasmo como discutimos futebol quando o P. se saiu com esta: “Podem-se ter todos os direitos do mundo, mas quando se é pobre, esses direitos não querem dizer nada; e quando se vive em Portugal pensando que se vive na América, não se vai a parte alguma. O problema da nossa crise é a realidade. A nossa realidade. Até aqui vivemos na ficção dos empréstimos e dos direitos: mais um direito, mais um empréstimo; mais um empréstimo, mais um direito. Agora toca-nos viver a realidade da política. Acabaram-se os empréstimos e dizem os idiotas que ficaram os direitos. Direitos sem dinheiro não existem, são pura ficção.

 

O R. engasgou-se com o café, o N. assoou-se com toda a força e o C. disse uma asneira, depois outra e ainda mais outra e lembrou que não nos devemos limitar a observar o mundo mas antes a modificá-lo. Em uníssono mandamo-lo à merda. Até o cego da lotaria se riu a bom rir e o seu cão ladrou algo de enigmático. Marx é hoje um tremendo equívoco.

 

O P., embalado pela sua recente inspiração política, tornou a falar: “Tal como Herodes, o primeiro-ministro é uma raposa – demasiado esperto para nós, demasiado esperto para a imprensa, demasiado esperto para o seu próprio bem e demasiado esperto para Portugal.” Desta vez quem se engasgou foi o cão e o cego foi vender a lotaria para outro lado. Nós limitámo-nos a concordar sem sabermos lá muito bem porquê.

 

“Deixa lá os eufemismos e trata de ser prático”, pediu o C.  “O engenheiro Sócrates nunca foi o que se considera ser um primeiro-ministro socialista”, tentou concluir. Ao que o R. objectou: “Os socialistas queriam algo que era tão simples: socialismo… Mas Sócrates é demasiado justo para isso.” Desta vez quem se engasgou foi o empregado do café que tinha acabado de servir meio whisky a cada um. C., com um olho na bebida e outro no R., disse tentando ser alternativo: “Reconheço que os socialistas foram cínicos em relação a Sócrates, apesar de não conseguirem deixar de o admirar.” O C., pousando o whisky, asseverou descaradamente: “Sócrates esteve sempre interessado em… Sócrates.” Desta vez ninguém riu, ou sorriu sequer. O R. rematou como é seu timbre: “A verdade não aceita alternativa.”

 

Então o C., virando-se para o R. com toda a surpresa estampada no rosto, comentou: “És o que se pode chamar de um homem sábio. Sábio até de mais.” Mas o R., de novo inspirado, retorquiu inflamado como um gelado que me serviram no restaurante chinês: “Estou farto que me digam que sou bem informado e que sei aquilo que digo. Ninguém diz isso acerca de Marcelo Rebelo de Sousa. Nem sequer gosto que digam que sou inteligente. Isso é rebaixante. É manifestamente óbvio que sou inteligente. Porque não dizeis simplesmente que sei do que estou a falar. O N. considera que ainda me falta muito para ser tão bom como o Marcelo Sousa. Eu respondo: O que me falta é um pai antigo ministro do antigo regime, uma cátedra numa universidade, falar de tudo sem verdadeiramente perceber de nada e aparecer na televisão. Eu não tenho vergonha de ser transmontano, nem peço desculpa por falar a língua de Camões.”

 

O silêncio impôs-se como um anátema. Todos agitámos o gelo no copo e nele molhámos o bico como passarinhos resfriados.

 

PS – Receitas para ajudar a combater a crise.

Camarão fu yung: Ingredientes (para 4 pessoas de apetite moderado ou para 6 pessoas que sejam muitos boas a controlar o apetite e as boas maneiras) – 1 colher de sopa de azeite; 112,5 gramas de camarão cru, descascado e sem tripa, 4 ovos suavemente batidos; 1 colher pequena de sal e 1 pitada de pimenta branca; 2 colheres de cebolinhos chineses, finamente picados.

Confecção – Num wok ou frigideira pré-aquecidos, aqueça o azeite e salteie o camarão até começar a ficar da cor partidária do senhor primeiro-ministro. De seguida tempere os ovos batidos com o sal e a pimenta e deite-os por cima dos camarões. Salteie durante 1 minuto e depois adicione os cebolinhos. Deixe cozer mais 4 minutos, mexendo sempre até os ovos estarem completamente cozidos, mas ainda moles, e sirva de imediato.


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Domingo, 16 de Janeiro de 2011

Olhar o frio


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Sábado, 15 de Janeiro de 2011

O quarteto fantástico da Abobeleira


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Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

46 – Ninguém queria acreditar, mas o guarda-fiscal Martins jazia morto e arrefecia no carreiro que ligava Vilar de Perdizes à fronteira. Ali estava ele a fitar o céu com os seus olhos agora cegos e com o pénis ensanguentado, e definitivamente morto, criteriosamente enfiado na boca.

O Martins era um homem severo, rancoroso e interesseiro. Aos olhos dos pobres era visto como um verdadeiro filho-da-puta, aos olhos dos abastados era encarado como homem cumpridor, bom pai de família, prestimoso e temente a Deus. Era um vigarista, mais candongueiro que guarda, apreciador de amantes e de putas, marido infiel e tirano, mas celibatário no casamento, pedófilo prudente, pai lobo, filho ingrato, amigo desleal, tocador de concertina e gaita-de-beiços e, ainda por cima, fogueteiro. Ou melhor, era sócio misterioso numa empresa pirotécnica da zona. Era ainda feio como um sarronco. Batia nos filhos, maltratava os animais, espancava os contrabandistas e violava, quando podia, meninas muito jovens, sobretudo crianças. Sentia-se bem com o mal dos outros e apreciava ver sofrer. Mas era um guarda-fiscal competente, pois conhecia todas as redes de contrabando, os trilhos utilizados pelos contrabandistas e as suas artimanhas. A raia seca era toda sua. Ganhava a meias com o contrabando por si autorizado. E também a meias ganhava com o outro. Se apanhava algum contrabandista carregado de café, azeite, bacalhau, polvo, chocolates, tabaco, perfumes ou bananas, dispunha os bens capturados da seguinte maneira: metade para si e a outra metade dividida em partes incertas pelo Estado e pelo colega de patrulha. Era pegar ou largar. No fim das partilhas, nunca se esquecia de cobrar a taxa destinada ao sargento do posto, trinta por cento do serviço. Não fumava, não bebia vinho ou cerveja e gostava de passear montado no seu alazão, adornado de pistola e pinguelim. Cantava muito bem o fado, talento muito apreciado pelas forças vivas da Vila e pelas senhoras mal consorciadas. Era ainda caçador afamado.

O Martins gostava de acossar as mulheres dos contrabandistas e as suas filhas mais novas. Fazia-o com alguma discrição, mas não era homem para dissimular muito. Os homens do contrabando conheciam-lhe o feitio, por isso faziam-se desentendidos. Era o contrabando ou a honra. Mas a honra, nos lugarejos da fronteira, não dava de comer a ninguém. Ou quase. No entanto, diga-se em abono da verdade, não era as mulheres maduras o que mais apreciava. Cobiçava, principalmente, as fêmeas mais novas. Meninas púberes, ou crianças mesmo.

Os pedófilos mais frequentes são quase sempre gente da família mais chegada, quando não os próprios progenitores. Por isso o guarda Martins, pressentindo na família alguma atitude mais temerária por parte dos pais, ou manos, ou tios, começava a patrulhar a casa com o seu instinto de predador sexual e quase sempre alcançava os seus desígnios. Com a mãe amantizada, com o pai contrabandista, os irmãos oficiando o mesmo e os tios foçando em idêntico mester, a criança não tinha escapatória possível. Passava a ser o arranjo de todos. Mas também era sabido que o Martins enquanto andasse a cear a pardalita não autorizava que mais ninguém lá metesse o dente. E fazia-se respeitar. Era pegar ou largar. O Martins não era besta que se perdesse de amores por ninguém. Detestava o uso. E não era animal de tradições.

Podia ser amante da mãe, copular a filha mais velha e estuprar a menina mais nova da família, nada disso lhe tirava o sossego. Era um homem que pensava que o prejuízo próprio não durava. Quem se acostuma a subjugar destrói a grandeza moral da vida. E o gozo é um vórtice escravizador.

Mas nem as certezas são imutáveis, nem os prepotentes estão isentos do livre arbítrio. Pode-se comprar a honra de um homem, de dez, de cem, mas não se pode conseguir a honra de todos ao mesmo tempo. Além disso, o ser humano é imprevisível. Não os filhos-da-puta, já que esses estão amaldiçoados à desventura do insofrimento.

A princípio, o guarda Martins distinguia-se por ser um predador cauteloso, um raposo finório. Patrulhava o galinheiro com todos os sinais exteriores da estima, do trabalho e do seu enaltecido profissionalismo. Primeiro prendia o pai, de seguida comedia-se em ficar com a carga. Numa terceira fase aliciava o contrabandista para fazer parte da sua rede. A conquista da mulher era o passo subsequente, pois sabia que para chegar ao objecto predilecto tinha de passar pelas fêmeas mais velhas. Logo que elas ficavam amansadas, lançava-se na submissão das pardalitas.

Por vezes isso acontecia numa mesma aldeia entre famílias rivais. Os homens a tudo se acomodam. Mas a inveja é sempre maior que a própria condição humana. E dessa vez o contrabandista abandonado encheu-se de fundamentos e prometeu vingar-se em reunião familiar, pois podia ser corno, a sua mulher e as suas filhas mais novas umas putas do caralho, os seu filhos uns cobardolas, e a sua Rosita uma menina desgraçada para a existência logo desde criança, mas a honra é um pacto triste. Que Deus o amnistiasse, mas ser trocado pela família do Pereira, que sempre foram uns borra-botas, isso não podia aceitar. Vá-se a honra mas fique a tradição. E a sua família sempre foi mais importante do que a dele. Os Pereiras sempre foram cabaneiros, uns infelizes que nunca tiveram onde cair mortos.


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Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011

Anoitecer na aldeia


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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

O Poema Infinito (30): o logro

 

Espero um tempo novo feito de palavras virgens recitadas por jubilosos jovens bebedores de vinho puro. Das suas mãos hão-de nascer os sinais ardentes da esperança e os seus dedos irão moldar um mundo novo. Já aí vem o esplendor da revolução. Os demónios da opressão vergam-se perante a luz violenta da liberdade. As estrelas da inocência brilham nos olhos dos idealistas. Devagar o espírito dos livros transforma o sangue espesso dos mártires em seiva que alimenta os novos heróis redentores. Deus é uma estrela sonâmbula. Os campos de batalha cheiram a trevo. Os astros da madrugada derramam esperança. A vitória dos que triunfam é bela. O espírito dos guerreiros espelha a invenção do amor. Os chefes amam com lágrimas fortes os seus mais intrépidos combatentes. Os campos enchem-se de cânticos. Começa de novo o mundo a girar na sua rota perfeita. Os astros estão alinhados. As mulheres inventam de novo amores loucos e heróis infinitos. A terra arada brota em cereais nobres. As árvores de fruto alimentam os pássaros que sobrevoam os campos gloriosos da batalha. Viver torna a ser uma arte pura. Pintam-se quadros soberbos dos semideuses. O pensamento é livre. As primaveras são instintivas. O pão e a alegria são o dinheiro do reino. O rei tem força. As manhãs nascem sublimes. A beleza vibra na boca das princesas. As mães embalam os seus filhos com palavras de ouro. Os poetas inspiram-se na vida simples dos virtuosos. As águas são puras como a alma dos mártires. O leite renasce nos úberes das fêmeas. O fogo provoca o contentamento dos jovens. Os sorrisos nascem da bondade. A verdade é a aurora do império. A esperança é integral. Tudo o que eu digo está vivo na frescura de um coração novo. Tudo o que eu escrevo é mentira.

 


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Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

Diniz e os polícias


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Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011

A tensão e o polvo frito com amêijoas e camarão

 

Escrevo esta crónica debaixo de uma grande tensão. É só tensão, tensão e palavras umas atrás de outras, como se a escrita fosse um caminho que vai dar a algum lado. As palavras são tensão, a vida é tensão. Tudo tende para o eufemismo e para o mais além. A alegria é tensão. A tristeza é tensão. Toda a tensão tende para a paranóia.

 

Gostaria de escrever algo de útil, mas creio que não sou capaz. Tendo, como já afirmei anteriormente, cada vez mais, para a tensão. Tudo o que leio me orienta para o mesmo caminho. Para o caminho tenso da realidade. Para a depressão. Para a economia. Para a depressão tensa da economia. Ou para a economia tensa da depressão. Ou, ainda, para a tensão tensa da epifania.

 

Deus do céu, ao que isto chegou. Uma pessoa, mesmo que não queira, é obrigada a ler o que vem nos jornais. Todos são unânimes em dizer que Portugal se portou como uma cigarra. Mas, por outro lado, os números evidenciam que as dívidas ao Fisco davam para pagar todo o défice deste ano e ainda sobrava para pagar os gastos com a Casa Civil do presidente da República. São cerca de 12,8 mil milhões de euros. O problema é que não há gente capaz de cobrar tal dívida. A economia portuguesa estagnou, a dívida cresceu e por isso somos obrigados a financiar-nos no estrangeiro. Ou seja, o país está de tanga em pleno Inverno.

 

É a paranóia completa: 600 mil desempregados, o FMI está aí à porta, a banca portuguesa tem o seu financiamento em risco, o TGV ameaça, ao mesmo tempo, prosseguir e estagnar, os políticos ameaçam-nos com boas intenções e sacrifícios. Além disso aumenta o IVA, as deduções fiscais vão diminuir, os salários na função pública vão sofrer cortes significativos. Vão subir as rendas, o crédito, a água, o gás, a electricidade, a gasolina, as portagens e os transportes.

 

E de novo sou invadido pela tensão. Pela depressão. O meu mundo está a ficar cada vez mais curto e pobre. Morreu Bobby Farrell, a cara e o corpo dos Boney M, e a irmã mais velha da família Von Trapp, protagonista do filme Música no Coração. E a Bolsa de Lisboa encolheu 6,3 mil milhões de euros em 2010.

 

E se tudo isto não bastasse, o constitucionalista Gomes Canotilho disse que “um presidente não é neutro nem moderador, é um cargo político. Todos temos as mãos sujas.” Afirmação que contradiz todo o argumentário político de Cavaco Silva, que além de não ler jornais, não ter dúvidas e raramente se enganar, afirmou que para serem mais honestos do que ele, os outros candidatos à presidência da república tinham de nascer duas vezes. E mesmo assim…

 

No entanto permiti-me que vos cite Vasco Pulido Valente (Confiança, Público de 7 de Janeiro de 2011), o emancipado, e putativo, opinion maker do regime, ele que é tão british, que não morre de amores pelas esquerdas, e virtuoso deputado do PSD seleccionado por Cavaco Silva: “Verdade que 300 mil euros não são uma fortuna e que a excitação da época levava com naturalidade a excessos lamentáveis. Só que a alegada candura de Cavaco não o recomenda. Quem se envolveu – porque ele de perto ou de longe se envolveu – na trapalhada do BPN não é aparentemente a criatura indicada para superintender, com o seu conselho e a sua prudência, a economia de Portugal inteiro. Quem nos garante que do assento etéreo a que tornará a subir não sairão opiniões ruinosas para o país? Quem nos garante que esse primoroso economista que tanto respeitávamos não se deixará enganar por um trafulha qualquer da Venezuela ou da Líbia? O dr. Cavaco pede confiança aos portugueses; e faz muito bem. Mas, com o caso BPN perdeu ele próprio a confiança dos portugueses.”

 

Dizem os sociólogos que cada vez mais as pessoas precisam de se envolver na cidadania com ideias. As lideranças carismáticas têm de fazer um enorme esforço para administrar o carisma. Daí as eleições para chefia da nossa república serem aquilo que são: um enorme vazio de ideias, com personalidades políticas que não conseguem entusiasmar nem os mais intrépidos militantes partidários.  

 

Lá fora, o Papa criou uma agência financeira contra a lavagem de dinheiro. Cá dentro, o Governo acusa Cavaco Silva de “branquear” Oliveira Costa. E o presidente, por causa das coisas, e apesar das pressões, decidiu promulgar o Orçamento de Estado de 2011. Isto é o que se chama serviço público. E é por estas e por outras que vamos tornar a eleger um homem desta grandeza.

 

E se tudo isto não bastasse, o Expresso diz-nos que 2011 vai ser um ano mais triste e escuro porque várias câmaras vão reduzir o apoio a associações e os fundos para festas e bailes populares, com a firme intenção de poupar milhões. Várias aldeias do país vão ter a luz cortada durante a madrugada, obras estruturantes vão paralisar, vai diminuir drasticamente a cedência dos autocarros, as excursões, os almoços e as romarias subsidiadas.

 

E como se não bastasse a crise económica, aí vai mais uma má notícia: um relatório do GAVE refere que os alunos do 8º ao 12º ano de 1700 escolas do país não conseguem estruturar um texto encadeado, explicar um raciocínio com lógica, utilizar linguagem rigorosa ou articular conceitos.

 

Outra: Francis Obikwelu, referenciado pelo El País como implicado na operação “galgo”, nega as suspeitas, lembrando que na sua vida só tomou vitaminas e que sempre correu limpo. E disso somos nós testemunhas, sempre o vimos correr limpo e, mais do que isso, envergando roupa desportiva de marca e muito colorida.

 

 

 

PS – E por causa da crise, mas mudando de paradigma, aqui fica uma receita de polvo frito com amêijoas e camarão, que encontrámos no livro “Receitas Bagos d’Ouro”, cujo produto das vendas reverte a favor das crianças carenciadas de São João da Pesqueira e Sabrosa.

 

Ingredientes para quatro pessoas adultas, ou para três adultos e duas crianças em idade escolar básica: 800 gramas de polvo cozido e cortado às rodelas; 12 camarões selvagens descascados; 28 amêijoas; 8 dentes de alho esmagados; azeite virgem extra q.b.; 16 batatinhas novas cozidas; coentros.

 

Confecção: Tapa-se o fundo de uma caçarola com azeite, deitam-se de seguida os alhos, os coentros, as batatinhas e os camarões. Assim que estes estiverem fritos, viram-se e junta-se-lhes as amêijoas. Quando que os ingredientes estiverem a fervilhar, introduz-se o polvo e mistura-se tudo até as amêijoas ficarem abertas. Se não simpatizar com o gosto dos coentros pode substituí-los por salsa. Acompanhe com um Branco do Douro de fino aroma.


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Domingo, 9 de Janeiro de 2011

A velha árvore


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Sábado, 8 de Janeiro de 2011

A nitidez dos fotógrafo


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Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

45 – E foi o que fez. Durante os quinze dias nunca se afastou dos monitores. Nem mesmo quando eles se punham nos muros a namorar com as monitoras que do outro lado vigiavam o grupo feminino. O Artur ainda tentou várias vezes levá-lo consigo para as brincadeiras nas camaratas. Mas ele nunca baixou a guarda.

Logo no primeiro dia foi vacinado e ao fim da primeira semana foi fazer um raio x na companhia de muitos outros companheiros, todos bem acomodados dentro de uma carrinha, como se fossem prisioneiros. Tudo ali tinha um aspecto militar. Deslocavam-se sempre em fila indiana, vestiam bata igual, usavam o mesmo chapéu, dormiam em camaratas com vários beliches de duas camas, respondiam à chamada da voz de comando, levantavam-se cedo, faziam as camas, varriam o chão, vigiavam-se mutuamente, eram obrigados a denunciar os colegas que supostamente se portavam mal, tinham de obedecer cegamente aos mais velhos, especialmente aos que eram chefes de grupo, rezavam mal se levantavam, na hora das refeições e ao deitar. Também podiam ver televisão, mas eram poucos os que se aventuravam, pois era certo e sabido que as camas dos ausentes eram vandalizadas, os armários arrombados e as malas saqueadas.

O José pôs especial cuidado na guarda do dinheiro que os pais lhe tinham entregue. A mãe pediu-lhe encarecidamente que lhe comprasse uma regueifa em Valongo, quando lá passasse de comboio, pois desde que tinha chegado a Montalegre apenas comia do pão centeio que amassava e cozia no forno da Portela.

O José passou mal os quinze dias de férias. Cheio de saudades. Quando via alguns colegas serem visitados pelos pais chorava lágrimas amargas, sentindo-se triste e abandonado. Como se fosse um cão. Nesses momentos chegou a ter saudades dos impropérios da mãe e das conversas de bêbados do pai e dos seus amigos de taberna. E o Artur, em vez de lhe fazer companhia, gozava-o chamando-lhe maricas e quando o via a chorar convocava os outros capangas e punham-se todos a caçoá-lo. Ele limitava-se a chorar e a procurar a companhia dos monitores, não fossem aqueles garotos pervertidos e promíscuos lembrar-se de o sodomizarem em grupo como era prática entre os mais velhos. Os abusados não eram capazes de se libertarem da prática por medo a serem gozados e novamente violentados. Era comer e calar.

Mijaram-lhe na cama, ataram-lhe os cobertores, deitaram-lhe sal e açúcar entre os lençóis, puseram-lhe ratazanas na mala, e, por fim, roubaram-lhe o magro pecúlio. Fartou-se de chorar. Sentiu-se impotente mas rezou a Deus para que matasse os sodomitas e transformasse o Artur num inválido a necessitar de auxílio permanente. Deus lhe perdoasse tão ousado pedido. Se fosse capaz.

As refeições eram outra tortura. Especialmente o almoço e o jantar. O pequeno-almoço era tolerável, pois podia beber café com leite e comer a sêmea bem untada com manteiga. O lanche era sempre um pão com marmelada servido na praia. E mais nada. A refeição do meio-dia era difícil de engolir e a da noite possuía o mesmo encanto. A sopa era uma lavadura gordurosa e de péssimo aspecto. O prato principal era ou frango ou peixe vermelho assado no forno, com poucas variantes. A sobremesa era invariavelmente maçã reineta. O menu só melhorava nos dias em que ia lá comer com os rapazes algum graduado da GNR. Nessas poucas ocasiões atreviam-se a servir canja de galinha, vitela, batatas assadas e, como sobremesa, pudim, um discurso sobre as virtudes do serviço militar e da defesa da ordem pública a que os pais se dedicavam. E, como estavam na presença de jovens filhos de guardas-republicanos, era sempre feito um apelo veemente à militância na Mocidade Portuguesa, esse alfobre de virtudes, essa escola de boas vontades, essa instituição de acolhimento dos melhores filhos da nação.

Os banhos eram outra tortura. Iam a pé para a praia, de mão dada e a cantar o hino da Mocidade Portuguesa, calcorreando grandes distâncias debaixo do sol castigador. Chegados à praia, eram introduzidos dentro de uma barraca onde cada um era forçado a despir-se e a escolher uns calções do montão que fora recentemente utilizado pelo grupo que tinha ido a banhos antes. Tinham de os vestir à pressa, pouco interessando que fossem ou largos ou apertados de mais, punham-se em fila e caminhavam em direcção ao mar onde o banheiro pegava em cada um e o introduzia na onda que se aproximava ameaçadora. Arrepiados de frio e com os olhos piscos, todos voltavam a correr para ao pé da barraca onde se secavam ao sol com a pele a picar devido ao sal do mar.

E a forma não variou durante os quinze dias. Escolher os calções, correr para a água, ser introduzido nas ondas, correr para a barraca a tremer de frio e com os olhos piscos, secar ao sol e, com a pele como bacalhau, comer o pão com marmelada e regressar de mão dada e a cantar o hino da Mocidade Portuguesa. Depois era tomar banho, ser desparasitado, vestir-se, ir jantar, ver os monitores a namorar, contemplar ao longe no mar os barcos e o farol, ou então, nas noites de nevoeiro, ouvir os balidos intermitentes da sirene. Depois ir para a cama, ser incomodado, ouvir histórias escabrosas, gemidos inquietantes, ameaças preocupantes, roncos exasperantes, peidos, gargalhadas, novamente gemidos, observar masturbações, corridas de umas camas para as outras, sentir o cheiro a urina de alguns colchões e adormecer com a inquietação no peito. Para acordar cedo, tomar o pequeno-almoço, rezar, brincar, almoçar, ir para a praia, mergulhar, secar, vir embora a cantar, jantar, rezar, ouvir a sirene do farol, ver os monitores a namorar, chorar, sentir saudades, chorar, ir para a cama, ser incomodado, ser insultado, ouvir gemidos, sorrisos, ver mais masturbações, sentir o cheiro acre da urina, ver colegas a dormir com os olhos quase totalmente abertos por causa das lombrigas, sentir novamente saudades, chorar, rezar para que as férias acabem e para que o Artur fique paralítico e os seus horríveis colegas morram afogados no mar, etc.

Quando a tortura das férias chegou finalmente ao fim, o José ficou tão contente que nem se inquietou muito com o dinheiro que lhe tinham roubado. Guardou duas sêmeas na mala, embrulhou vários pedaços de marmelada em guardanapos com a intenção de os levar à mãe. Na viagem de regresso, enquanto os colegas compravam as regueifas em Valongo e os rebuçados na Régua, comeu as sêmeas recheadas de marmelada e adormeceu.

Para seu alívio, a mãe, quando o viu sair da camioneta, correu para ele deu-lhe um grande beijo e não falou na regueifa, apenas lhe disse que tinha sentido saudades suas. Ele abraçou-se a ela e chorou de alegria. O pesadelo tinha terminado. “Tudo é relativo”, pensou, “até a desgraça”.


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Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2011

Chupar a vida


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Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011

O Poema Infinito (29): a chama

 

Penso na clara noite que se suspende no dia que há-de vir. É esse o objectivo da luz. O meu destino funde-se nos teus olhos fixos nas pautas de música sacra. Sou eu que me abro nos desígnios do vento eventualmente autêntico pela identidade da poesia. O meu desejo abre um espaço certo onde a voz dos sonhos recomeça a nascer. Sou agora fogo. No enunciado das pedras que piso sinto o intervalo entre o caminho e o caminhante. A minha vereda existe nas palavras que ardem. Essa é agora a minha condição. A certeza dos rostos, a brancura da liberdade, os fios luminosos da paz, a memória longínqua do cântico dos galos, o rosto húmido da terra. Todas as evidências se comovem. O sussurro das lâminas do sofrimento acompanha o passado. O céu eterno visita-nos no espelho da memória. Semeio nos livros as sementes da pureza. E neles regresso a uma idade nova. Existe sempre um caminho para lado nenhum. Um atalho que conduz ao sono. Propago-me de montanha em montanha ouvindo o silêncio dos pássaros. É neles que pressinto a raiz do tempo. A infeliz extensão da morte. No meio das pedras nascem as ervas que olham a nascente rente ao chão. Da pureza da água sai o mutismo do vento. Sonho com uma manhã de poemas e poetas ascendentes onde as palavras se renovam na orla dos trilhos antigos. O ar estremece na língua viva do vento. Bebo a cor do mar e teço o promontório da paixão. Da superfície das algas ergue-se a cabeça dos peixes que acreditam em sermões. Caminhamos agora na terra que somos. Todo o espaço é uma pequena ponte. Pequenas gotas de esperança sulcam-nos a pele engelhada. Descemos os degraus dos dias que hão-de vir enquanto as fontes persistem na sua sede de terra. A vida continua a iluminar-nos o caminho como a chama de uma candeia ao vento.


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Terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

Sorriso


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Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011

Caminhar ao frio

 

Lá fora chove muito. Para o lado das montanhas as nuvens carregam o céu. Para o lado da cidade os carros enchem a estrada. E eu, em frente do computador, tento alinhavar umas palavras que me libertem por alguns momentos desta inquietação permanente de escrever. Enquanto escrevo não penso na escrita. Penso noutras coisas.

 

De repente, o país encheu-se de pobres. E não foi só o país. As televisões e os jornais estão carregadinhos deles. São uma das setes pragas do Egipto. E quando o povo passa fome temos de tomar atenção aos sinais. Por exemplo, nas aldeias os chupões deitam mais fumo e nas cidades as chaminés expelem menos. Outro sinal inquietante é a intervenção do clero. Esperem aí, não é o clero que é inquietante, é a sua intervenção. É preciso avisar desde já que sou republicano mas não sou anti-clerical. Nem uso bigode. Por isso vejam nas minhas palavras apenas um sinal de alerta, não uma diatribe contra os homens vestidos de negro.

 

Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e responsável pela Pastoral Social da Igreja (ó diabo!) deu uma entrevista ao Expresso onde afirma, entre outras coisas, que “não podemos ficar sentadinhos no sofá”. Bem, senhor bispo, com este tempo frio e invernoso o seu apelo é já por si o cabo dos trabalhos. E penso que se nos sentarmos num banco, no escano, ou mesmo numa cadeira, a situação política e social portuguesa não se altera substancialmente. Mas o senhor bispo lá deve saber do que fala. E mesmo se mudasse apenas podia ser para pior. Além disso, que outra coisa podem fazer os cerca de 500 mil desempregados? Caminhar ao frio, apanhar chuva, molhar as botas, constipar-se? Deixe-os estar descansados em casa. Assim sempre poupam as forças, não comem tanto, não precisam de se vestir para sair à rua, podem fazer a sua vidinha apenas envergando o fato de treino, podem ver os programas televisivos matinais na caminha, enquanto os filhos estão na escola, podem ver a telenovela da tarde na cadeira de encosto, enquanto os filhos estão na escola, e podem ver o filme da noite sentados no sofá, enquanto os seus filhos terminam os trabalhos da escola antes de irem para a cama.

 

O senhor bispo disse outra coisa inquietante: “Estamos a brincar com o fogo se não tomarmos medidas para ajudar instituições próximas das pessoas a equilibrar as suas vidas”. Eu brincar com o fogo não brinco. O senhor bispo não sei. Eu não o faço porque não possuo lareira. Aqueço-me com um aquecedor daqueles que arremessam ar quente quando os ligamos. Antigamente aquecia-me com um aquecedor, ou dois, a gás. Mas tive que me desfazer deles porque acabavam sempre por criar uma atmosfera pesada dentro de casa. E as sucessivas crises nacionais, que sempre me acompanharam ao longo da vida, foram permanentemente um factor de pressão sobre a saúde e o orçamento familiar. Além disso a minha avó, e mais tarde a minha mãe, sempre me disseram que brincar com o fogo fazia com que eu mijasse na cama. Está claro que me abstinha de brincar com as brasas à lareira na presença delas, mas fazia-o às escondidas e, posso agora confessar ao senhor bispo, sem receio nenhum, que também é para isso que o senhor é aquilo que é, nunca mijei na cama. Ou melhor, mijei uma vez, quando inaugurei a minha puberdade e sonhei com as coxas da Sofia Loren depois de as vislumbrar num filme que vi no antigo Cine Teatro, ainda o senhor Zé Mota, o contínuo do Liceu, era vendedor de bilhetes e o senhor Zé Mário tomava conta do bar onde eu comprava no intervalo uma sandes de fiambre e um Sumol e a Dona Francília tomava conta do cinema. E olhe, senhor bispo auxiliar, esses também foram tempos de profunda crise e, se bem me lembro, havia bem mais pobreza, muitos menos carros, as calças dos rapazes eram cerzidas, não para estarem na moda mas porque não havia dinheiro para ter mais do que um ou dois pares, a maioria dos jovens não estudava, a maioria das mulheres não tinha emprego, grande parte dos homens eram agricultores pobres, não havia Serviço Nacional de Saúde, nem Segurança Social minimamente credível, nem subsídio de desemprego condigno, nem reformas universais, nem muitas outras coisas que agora existem e que a maioria das pessoas se habituou a usufruir sem se inteirar que é preciso trabalhar para criar riqueza, que o dinheiro não nasce nos montes como a erva, que a dignidade e a responsabilidade não são palavras vãs.

 

O senhor bispo disse ainda que, e passo a citá-lo, “que há pobres, há gente com fome, há gente aflita porque perdeu o emprego”. Pois há senhor bispo auxiliar, pois há. Mas sempre houve. E ainda lhe digo mais, ainda que me custe, sempre houve e haverá. E gente como senhor também, que pensa que só faz sentido um padre onde existe pobreza. Nesse aspecto, a Igreja é como o Partido Comunista, só medra na pobreza, só resplandece na miséria, só se transcende na desgraça. É a iconografia. Cristo era pobre. É o que por aí se diz. Existem historiadores que dão isso de barato. Mas se ele era pobre, não quer dizer que defendesse a pobreza. Ou que a achasse redentora. Mas tem de concordar comigo que o mito de um Cristo para ricos era coisa que só lembraria ao demónio. Mas, senhor bispo, desculpe-me a pergunta, considera que a Igreja de Roma, Roma e o Papa são sinónimos de pobreza? Diz-se por aí que o Estado devia desfazer-se da maior parte dos seus bens para prover à crise social que existe. Mas porque razão as instituições denominadas de solidariedade social pedem cada vez mais o apoio do Estado sem o qual, confessam, não têm capacidade de subsistir? Sabe senhor bispo, estou em crer que se a Igreja alienasse algum do seu património também podia auxiliar o Estado a tomar conta dos seus contribuintes. Então que dizer da opulência do Vaticano? O Papa, que é o símbolo universal da Igreja Católica, veste-se impregnado a ouro, transporta uma cruz de Cristo banhada a ouro, e usa um anel que é outro símbolo da sua opulência e do seu poder. Ele que é o representante de Cristo na Terra. E Cristo, entendamo-nos, é o símbolo terreno da pobreza, dos pobres de espírito, dos desalojados, das vítimas da guerra, das vítimas da desgraça e da doença.

 

O senhor bispo diz ainda que “temos na política mais gestores do que líderes”. Não sei se é verdade, mas sei, isso sim, que é verdade que há demasiados homens de cabeção e batina a imiscuir-se na política. Quando vêem que o poder espiritual se esvazia depois de avanços civilizacionais, passam à guerrilha política vestidos de cordeiros do Senhor. Ganhem juízo, comprem umas sandálias e agarrem num bastão e percorram outra vez o caminho de Damasco. A seguirem pela senda da prestidigitação e do maquiavelismo, Deus pode muito bem nunca lhes perdoar a vergonha. Se é que acreditam nele. Olhe que usar o preservativo não deve ser nunca o tema central do apostolado de uma fé. A camisa-de-vénus é um regulador social, um acto de higiene e de liberdade individual. Só mais uma questão para terminar: Se Cristo, os seus apóstolos e Maria Madalena fossem vivos, acha que só teriam relações sexuais para procriar? Eu, que sou um homem de fé e acredito nos homens, vou cometer a heresia de afirmar que se Cristo fosse vivo, ele mesmo usaria a camisinha se disso tivesse necessidade. Cristo queria salvar as almas dos homens porque os amava e pretendia que eles vivessem alegres e felizes.

 

PS – Se são católicos, agora no novo ano podem adquirir para oferecer aos mais necessitados fatos, camisolas, camisas e cintos na Zara ou na Modalfa, pois os pobres de hoje não aceitam roupa em segunda mão, comprada nos ciganos ou nos chineses. E têm toda a razão, lá por serem pobres não são obrigados a vestir roupa que já foi usada, confeccionada com defeito ou fabricada com matéria-prima de reduzida qualidade. Também têm a sua dignidade, mesmo não parecendo.

 

Aos seguidores de outros credos, e mesmo aos agnósticos, o apelo é o mesmo. Nunca se esqueçam que a pobreza não distingue orientações de qualquer tipo. E muito menos as sexuais.


publicado por João Madureira às 09:00
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Domingo, 2 de Janeiro de 2011

O olhar cansado do tempo


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