Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

Cosmocópula coçadora

 

Fui todo o caminho a pensar naquilo. Naquilo que são as palavras de Francisco José Viegas, mais conhecido no nosso grupo de amigos como FJV. O perspicaz FJV. Eis as suas palavras vertidas no Editorial da revista LER: “Sendo certo que a ignorância e a pusilanimidade tomaram o poder sobre o sistema de divulgação da cultura e da educação contemporânea, conviria marcar posição sobre esse debate. Para não o deixar limitado aos idiotas, que detectam uma grande leveza nos pilares da crise – mas têm sido os idiotas inúteis de todos os tempos”.

 

É verdade que me senti, ao mesmo tempo, agitado e perplexo, pois penso que quase entendi o que o escritor de policiais duriense escreveu, mas, logo de seguida, fui invadido pela sensação contrária. O FJV tem destas particularidades. A capacidade de dizer as coisas sem as objectivar. Isso é, e foi, desde sempre, algo só ao alcance dos denunciadores de idiotas. E o FJV, honra lhe seja feita, foi desde muito jovem, já desde as cadeiras do Liceu, um denunciador de idiotas, dos idiotas que detectam uma grande leveza nos pilares da crise, os idiotas inúteis de sempre. Pois os idiotas devoram tudo, são como os glutões. Claro que dizer isto é dizer pouco. Mas os intelectuais nem sempre podem dizer tudo. Muitas vezes não dizem mesmo nada, mas não é porque sejam incapazes de revelar coisas pertinentes. Quase sempre quando não explicam determinada coisa é porque não a querem mesmo explicar. É aí, todos o sabemos, onde se aloja o segredo da genialidade, em tudo aquilo que se deixa por dizer.

 

Eu sei, todos sabemos, que os verdadeiros intelectuais estão, ou vão, a caminho de Lisboa. Não há volta a dar-lhe. Na província ninguém consegue escrever nada de sério e, muito menos, de relevante. Por aqui não há estímulo. Não existem contactos. Não se encontram lugares interessantes, não se conhecem pessoas atraentes, não podemos conviver com os oráculos da sabedoria. Conhecem os estimados leitores algum intelectual, com o mínimo de qualidade exigida, que escreva e viva na província? A província é boa para passar o Natal, a Páscoa e uma semana de férias no Verão. A província retempera. Nisso é como a água das Caldas, ajuda a digestão, estimula a vesícula, equilibra o estômago e desentope o fígado. Mas aqui ninguém medra. Aqui, culturalmente falando, nada viceja, tudo se acinzenta. Ninguém sai da cepa torta. Limitamo-nos a discutir as notícias sensacionalistas do Correio da Manhã e a escolher livremente o nosso presidente da junta. Pois, os senhores deputados escolhem-nos eles lá em Lisboa. Nós apenas nos limitámos a concordar e a votar nos seleccionados por quem sabe das coisas da política e da cultura. E mesmo os nomes dos vários candidatos a presidentes de câmara têm, obrigatoriamente, de ter a bênção dos directórios alfacinhas. Por isso é que eles têm tanta qualidade.

 

Eu ainda pensei escrever um livro sobre estas coisas, mas desisti porque sei de ciência certa que me falta a atmosfera criadora da capital.

 

Eu bem os vejo. Eu conheço-os. Saem daqui medíocres, mal vestidos, falando à trasmontana, trocando os bes pelos ves e, passados alguns anos, lá pela época do Natal, ei-los que se passeiam a pé Rua de Santo António abaixo e Rua Direita acima, deslumbrantes, tépidos e emblemáticos, chamando chóriço ao chouriço, aprumando muito os lábios no momento de beijar as senhoras, sorrindo afectadamente quando encontram os seus antigos colegas de escola, distinguindo um café de uma bica, uma bica de uma italiana, uma italina de um cimbalino, um fino de uma imperial, um panachê de um tango, um vinho QPRD de um DOC, identificando praças e centros comerciais, diferenciando uma sala de espectáculos, do próprio espectáculo e este dos espectadores. Coisa que não está ao alcance de qualquer um.

 

Por isso os invejo. Os admiro. Leio-lhes embevecidamente as crónicas futebolísticas, os editoriais eminentemente culturais, as receitas de cozinha, as pontuações das cervejas, os apontamentos de viagens, as dissertações sentimentais sobres os charutos e as cigarrilhas, os poemas sobre os whiskies, as opiniões sobre a política, a cultura, a cultura política, a política cultural, sobre o futebol, sobre o desporto de massas e de elites, sobre os livros que falam de livros, os escritores que dissertam sobre outros escritores e estes sobre o ser e o nada, o vazio e o universo, o espaço, o infinito e o mais além.

 

Hoje, por muito que me custe admiti-lo, arrependo-me profundamente de não ter rumado, enquanto jovem, até à capital. Não sei se algum dia chegaria a ser escritor, mas provinciano não era de certeza absoluta. E sempre podia sonhar com um cargo à frente de alguma instituição do Estado, por pequena que fosse. Agora aqui residente apenas posso aspirar a participar nalguma associação de cariz cultural que tudo deve à carolice e nada ao resto. Aqui não se faz carreira, constroem-se bizarrias e alimentam-se depressões e outras tantas ilusões.

 

Aqui faz-se o fumeiro, colhem-se (deixem-me sonhar) as couves e as batatas e dança-se o folclore nos festivais gastronómicos. Na capital gere-se o país, produzem-se as ideias, fabricam-se os projectos, publicam-se os livros, vive-se com quem se quer e fornica-se a esmo. E isso, por muito que ainda nos custe, é civilização. É progresso. É cultura.

 

Na capital, como muito bem escreveu alguém de quem agora não lembro o nome, viver é cada vez mais escrever a lápis mas sem borracha. Já fornicar por lá tem de ser um acto em que a borrachinha tem obrigatoriamente de estar presente. O lápis que se amanhe.

 

 

PS – Sugestão muito cultural sobre como ajudar a iludir a crise e a viver melhor na província as noites de sono ou de sonho.

 

Roupa:

Para a parceira: Soutien, cinta de ligas e cuecas Valisére em tons de vermelho; ou camisa de noite Triumph, cuecas Bjorn Börg e lingerie Impetus em tons de preto.

Para o parceiro: Pijama Coup de Coer, boxers Impetus, Sloggi ou também Bjorn Börg.

 

Literatura:

Para todos: Poesia erótica de Natália Correia. Sugestão principal: Cosmocópula.

Poesia erótica de Bocage: Sugestão principal: Soneto do Gozador Coçador.


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Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

Aldeia global


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Sábado, 26 de Fevereiro de 2011

Matar o bicho em Couto de Dornelas


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Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

52 - Sentia uma enorme saudade da neve nas serras, da geada nos telhados, da ida aos níscarros, e dos enormes olhos verdes da Luisinha. Sentia uma saudade enorme de escorregar no gelo, das brincadeiras no feno, de jogar ao par e ao pernão com o rapa na noite de Natal, de brincar aos índios e aos cobóis pela estrada fora, e dos resplandecentes olhos verdes da Luisinha. Sentia uma saudade intensa de jogar ao espeto, ao botão, ao berlinde, e dos pestanudos olhos verdes da Luisinha. Sentia uma peculiar saudade das batatas cozidas no pote, das couves e do chouriço de cabaça. E do pão com manteiga. E dos verdes olhos da Luisinha. E das pernas da Luisinha. E da sua vaginazinha coberta da mesma penugem dos pardais no ninho. E do creme quente nas manhãs mansas de convalescença. E dos cabelos aloirados e dos tenros olhos da Luisinha. E de ler os livros nas manhãs solarengas dos domingos. E dos trinados pretensamente lânguidos da Luisinha quando lhe mexia nas maminhas enquanto ela tremeluzia as pupilas verdes dos seus olhos lindos. E de brincar no Castelo e de caçar à fisga pássaros tresmalhados pela luz do sol. E dos intencionais e delicados olhos delicados da Luisinha. E precipitadamente conseguia sentir todas e mais algumas saudades de impulsionar a roda de ferro com a gancha de arame Rua Direita acima e Rua do Castelo abaixo e de se aquecer à lareira e de brincar com o Joãozinho. E de olhar a luz do Sol pela manhã e de apreciar o luar nas noites de Primavera.  E de observar o trajecto das nuvens sob o azul do céu. E de espiar o céu atrapalhado do barroso. E de ver chover e trovejar. E de ver lacrimejar os olhos aquíferos da Luisinha. E de sentir o vento gemer nas janelas do seu quarto. E de brincar no Cávado como um índio rastejador. E de ir ver namorar substantivamente a professora e o escrivão do tribunal. E de os ver poder. E poder. E poder. E chilrear como as aves sedentárias. E de observar os pássaros a palrar como o casal de funcionários públicos. E das coxas de rã da Luisinha. E de ouvir roncar os recos. E das missas de domingo. E das procissões. E da cona da Luisinha. E do som cavo e profundamente triste dos sinos da Igreja Matriz. E dos cânticos solenes da Páscoa. E dos incêndios inquisitoriais do Carnaval. E dos enterros absurdamente cerimoniais dos mortos na guerra. E de sentir que a saudade não é uma coisa boa. E de sentir que a saudade não o tranquilizava por aí além. Mas Deus sabe que quem consegue ir também é capaz de vir. Deus, basicamente, é uma estrada de ida e volta. Deus é o mito do eterno retorno. Deus é uma estrada asfaltada. O seu Deus, o do eterno abandono, ainda vai ser capaz de pintalgar a fotografia do seu mundo a preto e branco num daguerreótipo colorido com as delicadas pinceladas das aguarelas.

A profecia do seu mentor indicava que apenas tornaria a Montalegre passado um ano. Não sabia se ia aguentar. 


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Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

A senhora das argolas de ouro


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Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011

O Poema Infinito (36): o silêncio do fogo

 

Toda a extensão do tempo nos incendeia as veias de fogo e os teus olhos ficam lindos de morrer e novamente o universo emite o seu rumor de vento e vertigem, por isso deus olha a morte debruçado sobre as margens do rio do tempo e acelera o amor das palavras e decepa a superfície do poema a golpes de lâmina vertiginosa quando todo o animal acossado pela sua indecente animalidade regressa ao ponto de partida, daí eu saber que a tua beleza é habitada por abismos e a tua lucidez é inflamada pela fulguração dos teus lábios, por isso o mundo acorda constantemente esmagado pelo clarão dos oceanos poluídos e pelas auroras boreais massificadas e pelo sangue incendiado do prazer e dos corpos cansados de desejo e pelos sexos desfeitos das paisagens e pelo deslumbramento minimal dos amantes quando todos os nomes por ti pronunciados ficam mudos nas chagas iluminadas da memória, por isso em verdade te digo que todos os momentos são breves, que toda a dor é infinita, que as mães reúnem melodias primárias e se deixam mamar pelos filhos e que nas suas mãos abertas o carinho tem a doçura do nascer e do pôr-do-sol e só então me olhas como se eu fosse uma cicatriz no teu desejo, como se eu fosse quase uma força ameaçadora, como se o meu carinho estivesse à beira do precipício, como se a estranha vontade de amar pousasse na tua memória como um pássaro frio e como se a vontade de foder fosse o pecado original, daí deus ser uma paisagem branca dentro de um hemisfério de luminosidades ainda dentro de outra luz negra de energia e ainda mais dentro de um buraco brilhante de desejo e vontade e calor, por isso a minha alegria é uma dúvida triste, por isso o filamento do tempo é maior que a lâmpada da vida, daí a velha arte da procriação ser instintiva, daí o dia de hoje ser sólido, daí a beleza ser cruel para os feios e a fealdade ser atroz para os belos, daí a sabedoria ser suavemente inócua, daí a morte ser uma flor preta, daí o amor ser ameaçador, daí os gestos serem dicionários rápidos e é talvez por isso que o meu hábito de te desejar domina a revelação do nosso entardecer sincero e às vezes o desenho fulgurante da tua vontade ilumina a noite e dá luz à intensa monotonia do abandono e à tristeza incompleta do destino. Por isso dizes a rir que o amor é silêncio…


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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

Marcar mesa


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Domingo, 20 de Fevereiro de 2011

Sinais inequívocos de desenvolvimento (abaixo a reacção)

 

O dia amanheceu vai para meia hora e já o mundo que eu contemplo da janela do meu escritório se encheu de luz. Primeiro foram os cumes das serras que se iluminaram, a seguir a luz desceu mansa sobre as encostas para vir pousar suavemente sobre o vale. Posteriormente chegou à minha janela e por ela entrou aos borbotões. Pousou delicadamente sobre alguns livros, acariciou parte do tampo da minha secretária e compôs desenhos interessantes nas paredes depois de ser filtrada pela persiana. Finalmente chegou ao pintassilgo e cessou a sua trajectória descendente indo fazer cócegas ao cágado que se espreguiçava no chão encerado.

 

Lá fora reparo, entusiasmado, nos reflexos prateados da geada, nos passarinhos que voam baixo e nos reformados mais novos que logo de manhã fazem as suas caminhadas pela saúde.

 

Enquanto os meus sapatos novos comprados nos saldos da Baviera alargam na forma de madeira, pois o peito do meu pé continua mais alto do que devia, eu rejubilo com o trinado eufórico do pintassilgo que, dentro da gaiola, exprime a sua liberdade. Talvez uma liberdade vigiada, mas mesmo assim liberdade. É melhor estar enfiado numa gaiola, protegido do frio, com acesso automático à água e ao sustento, do que gozar da inglória liberdade de ser acometido pelo frio ameaçador das noites transmontanas. E o que é, afinal, caros leitores, a liberdade? Aliás, a liberdade nem sempre é o melhor sistema de vida. Nem sequer o mais natural. Que o digam os passarinhos que tombam das árvores como folhas mortas.

 

Repleto de esperança, lembro-me, com orgulho, de várias notícias que dão conta do nosso imparável desenvolvimento. Isto apesar das análises inglórias dos velhos do Restelo, das críticas acéfalas dos deputados da oposição e das censuras estapafúrdicas do suposto próximo primeiro-ministro, dos seus putativos ministros e, ainda, para fartar a vilanagem, dos presumíveis secretários e subsecretários de Estado. A todos eles, liberais, neo-liberias e ultra-liberais da treta, lembro as sábias palavras de Churchill: “Um político que não sabe mentir é irresponsável”. Por isso, verdade seja dita, os nossos homens, mulheres, e mesmo os moços e as moças dos partidos, são de uma responsabilidade avassaladora.

 

Se me dão licença, lembro aos estimados leitores que, por favor, percebam os sinais. Nos últimos seis meses foram vendidos em Portugal cerca de três milhões de telemóveis e a taxa de desemprego cada vez está mais próxima da dos países mais desenvolvidos da Comunidade Europeia. E só não enxerga estas evidências quem está de má fé.

 

É claro que nem toda a gente perfilha destas ideias. Especialmente os homens das artes que costumam andar lá por fora a trabalhar (ou a fazer que trabalham, pois nisto das artes é muito difícil distinguir o que é trabalho do que é diversão), e depois se acham no direito de, quando se atrevem a vir cá passar uns dias para matar saudades, se porem logo a dizer mal do seu próprio país.

 

O fotógrafo Paulo Nozolino é disso o exemplo paradigmático. Começou por criticar as cidades para logo chegar às pessoas. “A cidade são as pessoas e a cabeça das pessoas está cada vez pior.” Mas não se ficou por aí, o ingrato, foi ainda mais longe e mais fundo: “O que eu rejeito neste país é a incapacidade de pensar que as pessoas têm. São como carneiros. Como se explica viver num país que aboliu a Filosofia?”

 

Não me quero deitar a adivinhar, mas quase que me atrevo a dizer que as nossas elites têm muito mau perder. Julgam-se melhores do que a terra que os viu nascer, desprezam e criticam, com laivos de malvadez, o seu próprio povo.

 

O poeta Pedro Tamen, por exemplo, disse em entrevista que “os poetas, no seu reduto, não são tipos normais. Vêem um bocadinho mais do que os outros.” Não deixa de ser irónico, mas o poeta mais famoso de Portugal – Camões, O Luís Vaz nado em Vilar de Nantes - era cego de um olho, por isso tinha necessariamente de enxergar pior do que a maioria do seu povo que, ao que sabemos, possuía, e ainda, dizem, possui os dois. Fernando Pessoa era míope até dizer chega; Ruy Belo idem aspas; o mesmo se pode expressar acerca de Alexandre O’Neill. E o próprio autor de tão incongruentes palavras usa uns óculos que evidenciam uma miopia acentuada. Ora quem isto afirma não lobriga muito bem o alcance das suas opiniões. Não se observa ao espelho.

 

Mas o mais forte indício do nosso desenvolvimento tem a ver com a percentagem crescente de suicídios. Os suicídios têm aumentado nos últimos anos, passando já a barreira do milhar, e a maioria dos suicidários são homens. Por incrível que pareça, a taxa de suicídios é um sinal de desenvolvimento, para tanto basta estudar os países do norte da Europa, que aliam os altos níveis de desenvolvimento com os também elevados índices de suicídios. É visível que esta é uma notícia que, apesar da dupla interpretação oficial, por parte do Governo e da Oposição, constitui um sinal que nos enche de orgulho, dissimulado, é certo, mas, mesmo assim, orgulho, apesar de tudo.

 

Quando os vários índices de desenvolvimento são tão desalentadores, é reconfortante inteirarmo-nos, mesmo em acto de contrição e confissão pessoal e intransmissível, de uma informação (a da taxa de suicídios, claro está) que aponta um caminho: o crescimento sustentado da nossa qualidade de vida.

 

PS – Reconfortante é também saber, através da opinião avalizada da psicóloga Joana Almeida, que “a bissexualidade é uma orientação sexual e não uma zona de transição”. Agora sim, ficámos todos mais tranquilos.


Mas, se o amigo leitor estiver de acordo, podemos estender este conforto ainda um pouco mais. Fique a saber que existem ainda os pomossexuais, que são pessoas que evitam rótulos restritos como hetero, homo ou bissexual.



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Rente aos potes


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Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

Menina com pão ao fundo


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Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

51 – O macho e a carroça que transportava o baú e as malas com o enxoval do José começaram a subir a ladeira ainda se enxergava um lusco-fusco premonitório. Perto do pelourinho o bicho aliviou um pouco a sua asma e seguidamente desceu a ladeira, caras ao comércio do senhor Aníbal, um valpacense que ali na vila negociava o bom vinho da sua terra a preços razoáveis. Era na sua camioneta que as malas com o enxoval e a restante roupa do José iam fazer o caminho do seminário. Nela seguiria também o Virtudes para ajudar no que fosse preciso. O José tinha lugar reservado no NSU do Padre Zé. Nisso o senhor abade foi inflexível, o futuro cura tinha de ser acompanhado pelo padrinho espiritual. Fora ele quem lhe tinha sugerido a ideia, quem tinha insistido no propósito, quem tinha dirimido os argumentos favoráveis, resumindo: quem, nas palavras do guarda Ferreira, tinha endrominado o seu admirado filho. Não é que a ideia lhe fosse estranha ou a situação virgem na família. Um tio seu fora, em tempos, para o bem e para o mal, padre afamado na sua freguesia. Possuía poder político, poder económico e espiritual na comunidade, e possuía, ainda, de vez em quando, as mulheres dos outros ou uma que outra fêmea solitária mas intensamente devotada a Deus e muito próxima dos seus santos. Comia e bebia como um abade, caçava como um príncipe e dormia como um anjo. Até que um ataque o fulminou num repente.

A Dona Rosa, devido ao seu carácter teatral, foi aconselhada a ficar em casa a tratar dos filhos. Mas ela teimou, teimou e venceu. Parecia uma pita riça, desgrenhada e choramingona, quando saiu de casa rodeada dos seus pintos banhados em lágrimas e ranho por assistirem, impotentes, à triste encenação neo-realista da mãe a chorar, o Leão a ladrar, o Virtudes a gemer e o guarda Ferreira a fumar nervoso um maço de cigarros sem filtro entre o despertar e o mata-bicho.

Quando o José se acomodou no assento da frente do carro e o Padre Zé empreendeu a viagem de ida, a Dona Rosa desmaiou devagarinho, para não se magoar, pousando serenamente o Joãozinho no passeio e gritando para o mundo: “Este filho há-de matar-me do coração.” O guarda José limitou-se a acender mais um cigarro e, pegando no Joãozinho, ordenou: “Vamos para casa, filhos. A vossa mãe parece que quer ficar a dormir no meio da estrada.” O Leão, solidário com a patroa, pôs-se a lamber o rosto da Dona Rosa.

Estrada fora, acelerando muito de vez em quando e curvando com suavidade para o moço não enjoar, o cipreste falou ao seu discípulo da nova vida que ia encontrar pelo simples facto de ingressar no seminário. Dedicar a vida a Deus e à sua Igreja era uma tarefa da mais alta responsabilidade. Muitos eram os convocados mas poucos os eleitos. José, olhando para os montes ao redor, reprimia o choro com todas as suas forças. Ainda só iam em São Vicente da Chã e já sentia uma saudade imensa do que deixava para trás.


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Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

A repórter e a malga


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Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

O Poema Infinito (35): exaltação

 

Descubro o teu nome numa paisagem vertiginosa. A Primavera está impossivelmente deitada sobre o abismo dos cálices transparentes da juventude. Eu sou teu através das palavras. Parece que sorris numa solidão espantada. Olhas-me como se eu fosse a tua infância flutuando na fantasia vagarosa das águas. Estávamos debaixo de uma árvore inspirada e eterna. O meu amor invisível envolvia a tua carne rápida. A luz silenciosa dos teus olhos devorava o ardor humilde da música dos pássaros e do vento. A cidade delicada cumpria silenciosamente o nascer do nosso desejo. Sonhávamos com aventuras iluminadas por misteriosas delicadezas. O pensamento cobria-se de rostos e de instrumentos musicais. Voávamos à velocidade dos sorrisos. O brilho dos dias iluminava as cidades de ouro. O amor era ainda uma geografia irradiante. Ardíamos no calor do tempo. As nossas mãos corriam nos nossos corpos como sexos sumptuosos. As águas cantavam nos rios. E os milagres morriam ao sol. Corríamos no brilho das janelas onde a luz do luar dançava num murmúrio gelado. Descobríamos a virgindade apurada das flores e as últimas chuvas de Março rodeadas de palavras exemplares. Dormíamos inclinados sobre a melancolia e sonhávamos com um deus secreto. Comecei então a trazer cavalos incendiados para os meus poemas que te declamava enquanto restituías deslumbramentos à imaginada pureza dos homens e das mulheres. A realidade já nesse tempo nos sorria enigmaticamente. Ardíamos devagar comovidos pela inclinação demorada da verdade. A inspiração demoníaca dos poemas levantava-se sobre as águas do rio e cumpria o paraíso. Todo o fogo da terra ardia na velocidade das estrelas. E as casas levantavam-se loucas de imobilidade. E novamente as nossas mãos multiplicavam desejo e carícias e beleza e paciência. A nossa voz ardia encantada por nos escutarmos. A secreta eternidade dos gestos transformava cada instante numa história de desejo. E do desejo nascia mais desejo. E o tempo acontecia espantado com a nossa juventude. Tu eras uma árvore exaltante. Os teus lábios diziam verdades veladas pelo silêncio. E o silêncio dizia mais silêncio. E depois todo o silêncio se transformava na palavra amor. E de novo o mundo tornava a nascer. E os bichos cresciam como uma religião frágil. E o fogo nascia fecundo confundindo as madrugadas. E as nossas mãos formavam tempestades e os livros repletos de flores de ideias morriam espantados de tantos mistérios. Também este poema se faz de carne e tempo, da esplêndida violência da vida. Por isso continuo a colher o espanto que então semeámos. Continuo a beijar o milagre do acaso a encher cada instante de existência com a inocência da alegria. O corpo chama o corpo. A sagrada loucura da vida descansa agora na doce claridade da manhã. Sei que continua a existir alguma coisa capaz de denominar o elo dos nossos corpos. Arde-nos ainda a carne quando o sangue atravessa a noite. Os beijos ainda sopram alucinados. A manhã começa a descansar deitada no meu poema. E eu começo a descansar prostrado por cima de ti. O silêncio da tua língua sugere de novo o mundo da lascívia.


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Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

A senhora do lenço


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Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011

E de repente…

 

E de repente aconteceu algo inaudito. Algo de completamente diferente do que estávamos habituados a observar. Mas eu nada de dar parte de fraco. Nem de forte, convenhamos. Por vezes acontecem-nos coisas destas, desabam sobre nós acontecimentos de que não estávamos minimamente à espera. Mas é isso que dá sentido à vida. O inesperado. Uma vida vivida no ramerrame do dia-a-dia torna-se insuportável. Eu, digo-vos a verdade, não a conseguia aguentar. Ainda bem que sou solteiro. Tenho toda a liberdade do mundo, ou quase. O casamento condiciona muito a vida de uma pessoa, ou das duas. Mas, como vos ia dizendo, naquele dia aconteceu algo de surpreendente. Algo de completamente inesperado. Todos os que lá estávamos concordámos que uma oportunidade daquelas unicamente sucede uma vez na vida. Ou nem isso. Foi extraordinário. Ninguém estava à espera. Se alguém estivesse à espera de assistir a algo parecido, presumivelmente aquilo não tinha acontecido. Mas aconteceu, assim de repente. E foi por ser algo de inesperado que fez com que tivesse resultado. Quase nunca estamos no lugar certo à hora certa. Quase sempre estamos no lugar errado à hora errada. Mas daquela vez não. Todos os que lá estávamos sentimos um misto de temor e júbilo. É difícil de definir tamanha sensação. Apenas posso dizer que foi estranha. Essa é a mais pura das verdades. Experimentei um sentimento de incredulidade, mas não me deixei influenciar pela dúvida de questionar tudo o que ali sucedeu. Uns dizem que foi a surpresa o que fez com que todos quantos lá estávamos não conseguíssemos sair do lugar. A senhora que se encontrava ao meu lado ria e chorava ao mesmo tempo. Parecia doida. Mas doida varrida. No entanto, momentos antes, nenhum de nós conseguia conjecturar que aquela mulher, de porte tão distinto, tão senhora de si, se fosse abaixo daquela maneira. Parecia hipnotizada. Como vos disse anteriormente, aquilo aconteceu tão de repente que nem deu tempo para nos prepararmos. Mas foi bonito de ver. De viver. Podeis pensar que exagero. Mas juro-vos que o que vos exponho tem tudo a ver com a realidade mais primária. Não foi nada do outro mundo. A singeleza de tais acontecimentos é o que lhes confere cor e substância. Podeis-vos rir à vontade, mas tive a nítida sensação de ter voltado aos tempos de outrora. Não na perspectiva politicamente redutora. Não. Antes na dimensão poética da infância. Não caio facilmente nesses lugares comuns. E ali sucedeu tudo, menos um déjà vu. O simbolismo foi enorme. Enorme. A catarse quase nos afogou na nostalgia. Simbolicamente foi sublime. Nem todos os dias temos força anímica para nos deixarmos levar pela mais pura das ousadias. Sim, já sei que sou tudo menos ousado. Ou pelo menos julgo que é assim que me definis. Mas digo-vos que não sou apenas aquilo que pensais que sou. Alvejo um pouco mais. Ou menos. Ou tanto. Tanto e tão pouco. Depende da perspectiva. Da vossa perspectiva. Não é por sermos amigos que obrigatoriamente possuímos a mesma perspectiva. Confesso-vos que na maioria das vezes não concordo em nada com a vossa raison d'être. Mas não é isso o que verdadeiramente importa na amizade. Na amizade o que interessa é a tolerância. A amizade por vezes tolhe-nos a compreensão. Ou a dimensão do entendimento. O movimento. O ego. Sacrificámo-nos para nada. Os amigos não podem ser juízes de amigos. Foi pena não estardes lá comigo. Uma coisa daquelas era digna de ser vista e vivida na companhia dos amigos. Não de desconhecidos, ou afins. Mas, verdade seja dita, naquela ocasião todos os desconhecidos me pareceram amigos de longa data. Perdoai-me, se puderdes, a franqueza. Os rostos dos que assistiram espelhavam a maior das incredulidades. Mas todos acreditaram que aquilo a que assistiram foi dos acontecimentos mais importantes da sua vida. Sinto que foi a sua imprevisibilidade o que lhe conferiu a aparência singular. Fiquei estupefacto e rendido. Não estava nada à espera de assistir a uma coisa daquelas naquele local. Mas não foi o local o que determinou o seu simbolismo. A ter existido algum simbolismo foi a total ausência de símbolos. De facto, admito que sim. Sim, a minha resposta é positiva. Nem podia ser doutra maneira. Vós já me conheceis o suficiente e por isso sois as principais testemunhas de que eu não invento nada. A minha capacidade efabuladora é muito reduzida. E realidade basta-me. Não sou homem para criar uma outra realidade. A minha chega-me e sobra-me. Mas, como vos ia dizendo, algo de completamente diferente aconteceu…

 

 

 

PS – Receitas para ajudar a combater a crise.

Caril de camarão e ananás:

Ingredientes (para 4 pessoas de apetite moderado, ou prudente) – 552,23 ml de creme de coco angolano; ½ ananás fresco madeirense, descascado e cortado em cubos de 2 cm de aresta; 2 colheres de sopa de pasta de caril vermelha tailandesa; 2 colheres de sopa de molho de peixe tailandês; 2 colheres de chá de açúcar brasileiro; 354,76 gramas de camarão gigante cru de Moçambique; 2 colheres de sopa de coentros alentejanos frescos, picados; flor comestível para guarnecer (rosa, nastúrcio ou capuchinha); arroz de jasmim tailandês cozido em vapor, para servir.

Confecção: Coloque o creme de coco, o ananás, a pasta de caril, o molho de peixe e o açúcar numa frigideira grande. Leve a lume médio até querer levantar fervura. Descasque e retire a tripa ao camarão. Junte o camarão e os coentros picados na frigideira e deixe guisar, em lume muito brando, durante 3,21 segundos ou até os camarões estarem cozidos. De seguida guarneça com uma flor (rosa se for mulher socialista, nastúrcio ou capuchinha se for militante da oposição) e sirva com arroz de jasmim cozido em vapor.

 

PS 1 – Este é um possível conto inteiramente dedicado ao prazenteiro demagogo Paulo Portas.


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Domingo, 13 de Fevereiro de 2011

O pecado da carne


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Sábado, 12 de Fevereiro de 2011

O baile


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Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

50 – “Vá embora senhor Ferreira”, aconselhou novamente o dono do café. “A despesa de hoje fica por conta da casa. Acompanhe a sua senhora. Vá em paz.” Mas o guarda Ferreira, para provar que quem mandava lá em casa era ele, pediu novo copo de vinho, acendeu outro cigarro e disse: “Eu vou para casa quando me apetecer. Em mim ninguém manda. Muito menos este estafermo de mulher.” “Estafermo és tu, meu bebedolas”, ripostou a Dona Rosa. “Exijo respeito”, disse o soldado da GNR. Mas a sua senhora nada de se calar: “O respeito ganha-se, não se impõe. Sabes bem que um bêbado não é respeitado por ninguém. Nem sequer pelos outros bêbados. Eu só saio daqui quando tu também saíres.” “Tu não és a minha mulher, tu és o vivo demónio de saias.” “Não me insulta quem quer, meu bebedolas. Só quem eu deixo.”

“Vaca”. “Bêbado”. “Puta”. “Borracho”… e marido e mulher continuaram a trocar insultos com uma raiva inusitada. O dono do café, quase em estado de choque, resolveu implorar ao seu melhor cliente: “Faça-me o grande favor de ir embora, amigo Ferreira. Tire-me a sua mulher do meu café. E leve a pobre criança para casa. Se vocês os dois já não se conseguem respeitar, honrem ao menos a inocência e a dignidade do vosso filho.”

O guarda Ferreira pegou na mão do José e abalou dali para fora com toda a tristeza do mundo dentro do seu coração.

“Quando chegarmos a casa fodo-te os cornos, minha bruxa do caralho”, ameaçou entre dentes o guarda Ferreira enquanto descia a Rua Direita aos ziguezagues.

Enquanto a coruja do castelo se entretinha na caça a mais um rato e piava o seu entusiasmo, a Dona Rosa confessou o seu desengano: “Trouxeste-me para este degredo onde mesmo os bichos se sentem mal. És o culpado da nossa desgraça. Vivíamos tão bem em Lisboa. Éramos tão felizes! Não éramos filho? O José: “Não sei, mãe.” “Não éramos homem?” O guarda Ferreira: “Foste tu a culpada de ter pedido a transferência para o Porto e depois para Montalegre. Eu não queria vir. Fui-me embora destas terras porque não queria ser aqui escravo. Mas tu… tu desde que chegaste a Lisboa, todos os dias me atazanavas o espírito para pedir a transferência. Dizias que não te davas bem, que tinhas saudades dos teus pais, que os eléctricos te incomodavam, que os homens te perseguiam, que os vizinhos te afligiam, que o sol te fazia mal, que aquilo não era vida. Que não podias criar as pitas e os coelhos, de que tanto gostavas. Que não podias cevar o porco. Que não podias semear as batatas, os feijões, os tomates e os pimentos. Que não te podias aquecer ao lume. Que cozinhavas num fogão a petróleo, que partilhavas a sala, a cozinha e o quarto de banho com uma velha, um casal de pescadores, um maluco, um solteirão e um gato. Que não tinhas intimidade. Que o José dormia aos pés da cama. Que as mulheres dos meus colegas te gozavam por usares o cabelo até à cintura. E o Leão: “Ão, ão, ão…” E o guarda Ferreira: “Cala-te cão.” E o Leão: “Ão, ão, ão…” Novamente o guarda Ferreira: “Cala-te cão.” Novamente a Dona Rosa: “Isso foi quando cheguei. Mas depois queria ficar e eras tu que querias vir embora. Que não conseguíamos amealhar tostão. Que o aluguer da casa era alto. Que os homens olhavam para mim como se me quisessem comer. Que o meu patrão era mulherengo. Que o teu capitão era um ditador. Que o vinho não prestava. Acho que nos obrigaste a vir embora porque lá não podias embebedar-te à vontade. Foi isso não foi?” Novamente o guarda Ferreira: “Eu não podia fazer um pedido de transferência e de seguida retirá-lo por puro capricho da minha mulher. A GNR tem as suas regras. Tudo tem as suas regras. Até tu tens as tuas regras.” A Dona Rosa enraivecida: “Eu já não tenho regra há três meses.” Novamente o guarda Ferreira: “Não me digas que andas outra vez grávida? Para que raio nos serve comprar as camisas-de-vénus?” A Dona Rosa condescendente: “Com a pingota nem sequer reparas que não as usamos. É o cabo dos trabalhos pôr-te a piroca de pé, quanto mais enfiar-te lá a borracha” O guarda Ferreira amparando um poste de electricidade: “Tem tento na língua. O José mesmo lá à frente pode ouvir-nos.” A Dona Rosa despeitada: “Ele está farto de nos ouvir.” Novamente o Leão: “Ão, ão, ão…” O Virtudes, junto ao portão, com o João ao colo: “Venham para casa, almas de Deus.” Novamente o Leão: “Ão, ão, ão…” O Virtudes virado para o José: “Anda cá meu filho. Não chores mais. Não chores mais meu filho. Guarda as lágrimas para o seminário. De certeza que vais verter muitas. Os teus pais amam-se tanto que se detestam. É a filha da puta da vida.”

 


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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

A bênção de São Sebastião


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

O Poema Infinito (34): a ti voltarei


Nós somos pequenas lâmpadas que persistem no vento experimentado na marcha dos dias nas calçadas do tempo. As pequenas gotas de vida persistem. O espaço verga-se na densa imensidão do sol. Ignoro o amor da erva e declino-me nos teus braços erguidos. A ausência do rumor do vento nas folhagens queima a alegria. As minhas palavras dizem a falta súbita do silêncio. O teu odor a fêmea é misterioso. O desejo ganha força. Eu insisto. A água banha-se no teu corpo jorrando carícias. Não quero sentir de novo a ânsia expectante dos espectros. Volto a escrever o gesto duro da ausência. Volto a duvidar da harmonia. Volto a desejar o desejo. Volto a coincidir na vasta ilusão do que escrevo. Ou como te descrevo. Aos meus olhos cansados custa-lhes fabricar uma nova realidade. A terra enche-se de mulheres descalças. A terra é um átrio circular inflexivelmente harmonioso. Eu sou um quadrado perfeito. Tu és água quase silenciosa. O vento volta a polvilhar de cinzas as memórias. As sombras vangloriam-se com o triunfo da noite. O tempo ganha tempo ao tempo. E nele nasce uma linguagem sem pintura. Envelhece a carne ao sol. A liberdade já não me quer. O silêncio é idêntico à exactidão de Deus. Nutro-me do teu calor circular. A fome visual anseia pela aparência colorida dos espelhos. Escrevo na perfeita ilusão da justiça. Na ilusão do amor inflexível. Eu sou o homem que te ama e escuta. No silêncio lento da tua língua procuro o amanhecer dos frutos, a luz que acende a carne, a verdade lenta do sangue, a circulação infinita do desejo. Bebo-te sossegadamente recitando poemas de flores embriagadas. Os sussurros da lascívia conquistam-nos os sexos. Um perfume de fecundidade cresce nos lábios dos rios, nos degraus extensos das pedras, na crua luxúria das árvores. É sobre o silêncio, sobre a noite, sobre os corpos exactos, sobre as línguas de sol, sobre os pães da fome, sobre os dias rigorosos, sobre a terra e o espaço que desejo falar-te e sobre a verdade e sobre os nomes puros e sobre as bocas alongadas das nascentes e sobre as fissuras dos mares. E sobre as folhas verdes. E sobre a extensa ambição do meu desejo. E sobre a fome conjugada dos abraços. E sobre a forma do fogo. E sobre as nuvens densas do envelhecimento. E sobre a serenidade das páginas dos livros. E sobre os bichos translúcidos que habitam a minha cabeça. Por isso tudo a ti voltarei descansado na minha nudez e sobre o silêncio da noite tornarei a habitar-te.


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Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011

Uma questão de afirmação


publicado por João Madureira às 09:00
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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011

O candeeiro, o sapato, o santo e o risotto

 

Porque os meus olhos já necessitam de ajuda para poder ler a LER comprei um candeeiro novo com lente de aumento. Tenho-o junto ao sofá. Possui uma lente que aumenta três vezes e, graças ao ponto bifocal, chega a ampliar 5 vezes. Vem equipado com 12 luzes led (tecnologia de baixo consumo energético) e com um braço flexível para podê-lo inclinar como me der jeito. É leve e por isso posso deslocá-lo para onde quero. Funciona a pilhas ou a electricidade.

 

Foi com a sua ajuda que consegui ler o discurso alternativo de Manuel Villaverde Cabral, onde o sociólogo, historiador e político afirma que “se não há revolta é porque os papás estão a aguentar”. Li uma bonita história de Rogério Casanova intitulada “O Coelhinho Tomé e a Crise na Floresta Mágica”, onde “todos os animais estavam muito contentes com a situação pois as agências de notação de risco Libelinha & Noitibó tinham examinado demoradamente a probabilidade de incumprimento dos empréstimos subjacentes aos produtos e não encontraram problema nenhum; o rating dos produtos era tão bom como o rating do pôr-do-sol”. Inteirei-me ainda que os cães aparecem, sobretudo, nos livros que não são sobre cães. Pois eles saltam nos romances de Jack London, nos de John Steinbeck, nos de Charles Dickens, onde por vezes os homens são mais cães que os próprios cães, nos de Thomas Pynchon, onde um cão chega mesmo a ler Henry James. Já para não falar do Garryowen, um cachorro que só aparece num capítulo do Ulisses, de James Joyce, passado num bar, e que se limita a rosnar.

 

Tudo isto e mais alguma coisa anotei com letra bem desenhada no meu caderno de notas para discutir com o meu amigo T., que, agora reformado, decidiu dedicar-se à literatura.

 

Curiosamente, por alguma razão ditada pelo subconsciente, quando cheguei junto dele, em vez de lhe ler estes meus apontamentos, li-lhe um outro relacionado com São Tomás de Aquino. Mas antes de escrever o pensamento do senhor Santo, informo os estimados leitores que estudou teologia em Colónia e em Paris, onde foi discípulo de Santo Alberto Magno que o "descobriu" e se impressionou com a sua inteligência. Era na altura conhecido como o "boi mudo". Dele disse Santo Alberto Magno: "Quando este boi mugir, o mundo inteiro ouvirá o seu mugido."

 

Vamos agora dar lugar a um mugido seu: “As acções intensas fortalecem um hábito. Não a mera repetição. A intensidade favorece o aperfeiçoamento moral. Uma força de vontade intensa e perseverante. Eis um elemento da seriedade. A constância. Eis um dos elementos. Uma intencionalidade bem vincada. Um fito por nós escolhido.”

 

O T. olhou para mim e encolheu os ombros. Li-lhe então as minhas anotações retiradas da revista dirigida pelo Francisco José Viegas. Ele encolheu de novo os ombros. Eu perguntei-lhe se não tinha compreendido as citações ou se simplesmente não lhe interessava a mensagem. Ele tornou a encolher os ombros. Decidi pedir um café. Foi então quando ele puxou do seu bloco de notas e, dirigindo-se a mim, replicou: “Ora diz-me lá como se chamam as partes do teu sapato?” “Da minha bota, quererás tu dizer”, corrigi eu. “Ou isso”, persistiu ele. “E para que raio deveria eu conhecer o nome das partes do meu calçado?, questionei-o para podermos avançar na direcção certa. Ele disse: “Que nos interessam os mugidos do Santo boi se não dominarmos a nomenclatura básica dos ofícios que nos vão permitir sobreviver à Crise. Temos que regressar ao básico. Temos de tornar a aprender a trabalhar a terra, a tratar da floresta, a plantar o jericó, a podar as árvores, a rachar a lenha, a criar o porco, a fazer as chouriças, a cozer o pão, a tratar das galinhas e dos coelhos, a remendar as calças, a cerzir as meias e as camisas, a fazer os sapatos e a consertá-los.”

 

Depois do T. falar ficámos um bom pedaço a meditar. Ele meditou olhando para a praça e eu meditei olhando para a chávena vazia. Finalizada a meditação, veio a insistência: “Ora diz-me lá como se chamam as partes do teu sapato?” “Da minha bota, quererás tu dizer”, corrigi novamente eu. “Ou isso”, insistiu ele. “E para que raio deveria eu conhecer o nome das partes do meu calçado?, argumentei para podermos adiantar conversa.

 

Então, com a sua voz de papagaio, respondeu “porque sim” e começou a lição: “Parte inferior plana, sola e tacão; parte interior, pala e atacador; tira de cabedal que bordeja a orla superior do sapato (“bota, T., bota e não sapato”) abaixo do atacador, cano; parte rija sobre o calcanhar, contraforte; peça em forma de meia-nau, entre o cano e a tira acima da sola, enfranque; tira acima da sola, vira; parte frontal que cobre o peito do pé, gáspea; perfurações de ambos os lados, acima da pala onde se enfiam os atacadores, ilhós; protecção metálica em cada ponta do atacador, agulheta. E é tudo.”

 

“É tudo e não é pouco! E, já agora, espera aqui por mim que vou ali ao sapateiro da Ladeira a ver se me empresta, ou vende, um par de sovelas e um rolo de fio. Não posso deixar esmorecer o entusiasmo que em mim criaste. Já me imagino carregado de inspiração a coser as solas das botas junto ao meu candeeiro com lente de aumento. Eu de um lado do sofá a enfiar o fio pelo buraco feito pela sovela e a minha mulher do outro a fazer croché enquanto o senhor presidente da república reeleito nos comove com mais uma das suas passeatas para português ver. O mundo pode ser um sítio encantador. E a vida um evento curioso.”

 

PS – Receitas para ajudar a combater a crise.

Risotto de lagosta: ingredientes (para 2 pessoas de apetite médio, ou médio-baixo) – 1 lagosta com 475 gramas previamente cozida; 1 colher de sopa de azeite; 56,23 gramas de manteiga; ½ cebola de Loivos finamente picada; 1 dente de alho, também finamente picado; 1 colher de chá de folhas de tomilho, picadas; 182,5 gramas de arroz arbório; 160 ml de vinho branco gaseificado, de preferência Murganheira Reserva; 637 gramas de caldo de peixe a ferver; 1 colher de chá de grãos de pimenta verdes ou rosas em salmoura, escorridos e toscamente picados; 1 colher de sopa de salsa fresca, picada.

Confecção: Prepare a lagosta (torça-lhe as patas e rache-as; corte o corpo ao meio; remova as entranhas do animal e deite-as fora; retire a carne da cauda e pique-a. Reserve-a com as patas. Num tacho, aqueça o azeite e a manteiga, junte a cebola e refogue, junte o alho e refogue mais 29 segundos. Adicione agora o tomilho. Baixe o lume, junte o arroz e envolva no azeite e na manteiga. Frite e mexa durante 3 minutos até os grãos ficarem translúcidos. Adicione o vinho e deixe cozer durante 1 minuto. Mexa. Junte o caldo a ferver. Continue a mexer. Junte mais líquido de cada vez que o arroz necessite. Coza até o arroz ficar cremoso. 5 minutos antes do final da cozedura, junte as patas e a lagosta. Retire o tacho do lume e, continuando a mexer, junte os grãos de pimenta, o resto da manteiga e a salsa. Transfira para pratos individuais aquecidos e sirva de imediato.


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Domingo, 6 de Fevereiro de 2011

O acordeonista


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Sábado, 5 de Fevereiro de 2011

Escarpas do Douro


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Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

49 – Os amigos, pressentindo algum mau agoiro nas palavras do futuro padreco, também aconselharam o guarda José a ir embora. Todos conheciam o mau génio da Dona Rosa. E uma desgraça nunca vem só. Logo de manhã, os três recos mais taludos da criação do GNR tinham morrido vitimados pela peste suína.

Mas o guarda desculpava-se e teimava em beber, pela quarta última vez, mais um copo para a sossega. O José persistia na sua marcha de um lado para o outro enquanto as notícias do telejornal encalhavam na mais profunda indiferença de todos quantos estavam no café.

Antes mesmo de se fixar no cão, o José arrepiou-se como se tivesse visto um fantasma. Era mesmo o Leão. E onde aparecia o Leão era certo e sabido que havia logo de lhe suceder a Dona Rosa.

O José correu para junto do pai e escondeu-se nas suas costas. O pai olhou para ele e perguntou-lhe a razão de tal brincadeira. Ele tentou falar mas não conseguiu. Todos adivinharam o pior. E o pior aconteceu.

“Lá vem a bruxa”, disse um a rir-se de nervoso. A Dona Rosa entrou no café e começou logo a disparatar. “És a desgraça da minha casa. Um bêbado incorrigível.” “Cala-te mulher. Tem tento na língua”, pediu o guarda Ferreira. “Afinal de contas és a mulher de um agente da autoridade”. E ela: “Bom agente da autoridade tu me saíste. Um GNR que se dê ao respeito não vem todos os dias para aqui beber copos de vinho na companhia destes estroinas.” “Cuidado com que diz, Dona Rosa,” avisou o dono do estabelecimento. “Esta é uma casa séria e de gente de respeito. Por isso tenha tento na língua.” “Não vejo grande seriedade numa casa que vive da desgraça dos outros. Tem-nos bem endrominados. Por certo deita alguma mistela na merda do vinho”, disse cuspindo raiva a Dona Rosa. “Este vinho é de Valpaços, minha senhora, não é merda nenhuma”, contrapôs o dono do bar. “Nem que fosse do Douro ou do Alentejo, depois de baptizado fica todo igual. E quem ganha a vida a embebedar os outros não pode ser gente honesta. Todas as noites estes bebedolas enchem o odre de vinhaça pagando e bebendo, bebendo e pagando, copo atrás de copo enquanto os filhos e as mulheres manjam tristemente uma malga de caldo desenxabida acompanhada de água da fonte. São todos uns bebedolas e uns putanheiros”, ralhou a Dona Rosa. Ao guarda Ferreira nem se lhe engolia o vinho que teimava em ingerir para não fazer outro disparate. O José, encostado à porta, observava a mãe enquanto chorava copiosamente. O dono do café fazia que lavava e limpava os copos. Os restantes homens bebiam em silêncio como se estivessem num velório. O Leão, junto à dona, atreveu-se a ladrar. Mas foi atrevimento que mesmo a Dona Rosa desaprovou com uma vergastada.

O guarda Ferreira, acendendo outro cigarro na beata do que acabava de fumar, pediu à mulher: “Vai embora Rosa que eu já vou. Leva contigo o rapaz. Por favor, não nos envergonhes mais. Por favor Rosa.” “Quem nos envergonhas és tu. O povo já te conhece como o guarda borrachicas. Todas as noites chegas a casa a cambalear. Que belo exemplo para os teus filhos. Lembra-te que o mais velho vai para o seminário e precisa de guardar de ti a imagem de um pai respeitado…” “E de uma mãe educada”, atalhou-a o marido.

O José, olhando para o pai com os mesmos olhos que a mãe de Jesus olhou para o seu filho pregado na Cruz quando os guardas romanos o gozavam desafiando-o a descer e a ir-se embora pelo próprio pé, continuou a chorar com tanta desonra que acabou por mijar nas calças. Os outros homens, pressentindo que a tragédia picaresca tendia a piorar, começaram a despedir-se e aconselharam o guarda Ferreira a fazer o mesmo. “Por hoje já basta”, disseram a modos que envergonhados os desprotegidos maridos das suas esposas antes de abandonarem o tasco. “Vai para casa que o Virtudes já tem o caldo feito, os animais acomodados e os teus filhos mais novos comidos e dormidos.”

A Dona Rosa, picada pelo remoque, novamente os insultou com todo o engenho e arte que possuía para executar tal tarefa. Eles mandaram-na àquela parte, por respeito ao Guarda Ferreira, e foram-se dali até outra taberna beber o que cada um tinha por medida.

Homens de barba rija e com eles no sítio, bebiam o que tinham a beber sem que as respectivas mulheres metessem o bico onde não eram chamadas. As regras do casal eram entendidas pelas duas partes logo no segundo dia após o casamento. As desinteligências resolvem-se no remanso do lar. O decoro tem de imperar fora de portas. Quando falta o respeito entre um homem e uma mulher a vida transforma-se num inferno. E, pela parte masculina, quando não funciona a palavra trabalha o cinto, a vergasta ou o tabefe. Em situação idêntica, as mulheres quase sempre resolvem apropriar-se da sexualidade do casal e, na sua lenta marcha vaginal, atacam com a tortura da castidade. O mundo não é perfeito. Todos o sabemos desde que Adão e Eva se armaram em finórios. E Deus, que é Deus, também não se portou lá muito bem com as duas criaturas. E deitar todas as culpas à cobra e à maçã não chega para expiar toda a incúria do supremo e toda a aselhice do Adão. Mas, apesar de tudo, nenhum daqueles corajosos homens, que eram amigos do guarda Ferreira, se atrevia a imaginar o que era viver com a bruxa de portas a dentro. Deus os livrasse de tal maldição.

 


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Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

Uma campanha alegre


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Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011

O Poema Infinito (33): a pulsação da luz

 

Abre-se a extensão do acolhimento e devagar a narração ganha outro sentido. A intimidade do lume empolga a glória da vida. A era antiga move-se na direcção da palavra. Ao longe aparecem os nomes claros dos lugares eternos. Alguém anuncia o júbilo do amanhecer. O mundo fica agora suspenso no próprio olhar. Pulsa a luz nos nossos olhos contemplando o ritmo agudo da vida. É perceptível a transparência do adeus. Põe-se a mesa onde são servidos os sinais do espírito. O tempo alarga-se para lá dos objectos. O mar sucumbe ao vagar eterno da matéria. O ritmo largo das manhãs prolonga o teu rosto e o rosto das deusas prolíferas. As portas abrem-se iniciando o enigma da sabedoria. As árvores deslumbram-se nos seus frutos e apuram a paciência da terra. Os corpos irradiam actos. A iluminação dos amantes rompe do interior do seu desejo. Os seus sexos são anjos imperiosos. Depois do amor invade-nos o vagar eterno da nostalgia. É azul a subtil firmeza do silêncio e da solidão. O tempo sobe pela nossa imagem enraizando a sua teimosia. É a sua lei. Os objectos adequam-se ao remanso das águas. Voltamos à viagem, à teimosa penitência do caminho. A alegria surge como uma eterna tarde de domingo. A previsão da tua face é um indício de luz. É impetuosa a inclinação da posse. A expansão do espaço devolve-nos a celebração da ausência. A palavra funde a ausência. Escutamos o silêncio ruidoso do adeus. A necessidade amplia a falta dos desaparecidos.


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Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011

A patrulha da GNR


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