Quinta-feira, 31 de Março de 2011

O homem da boina


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 30 de Março de 2011

O Poema Infinito (41): pontos de silêncio

 

Sempre acreditei no rigoroso sorriso da neve ao sol como se fosse possível libertar-se do inverno. Essa intolerável beleza forma todos os pontos do silêncio. Por isso as vozes dos puros convergem cruelmente para o desespero. As palavras de amor são agora lágrimas secretas encostadas à tua face. Pássaros inclinados adivinham o abrigo do medo. O sono não tarda a revelar os vestígios da infância. Abrigas-me no teu corpo absurdamente nu embalando-me num sonho de desejo. Por isso o voo da vida é breve mas iluminado. Um medo precipitado abre de novo o dia. A memória dispersa-se em fragmentos. As estações justificam-se umas às outras. O vento espalha medos. O dia começa a arder desde dentro. O prazer da carne é agora uma aurora lenta. Desgastamos as mãos na chuva seca das línguas de fogo. A esperança é uma desilusão doirada. A dor dos frutos acaricia a fé. O luar dos teus olhos torna-se o destino da origem. Os espíritos abrandam a sua dor pela proximidade do nosso acto de amor. O desejo honra a necessidade. O sonho ilumina a infância. Aves incertas deslizam na eterna saudade das origens. Tu és a minha verdadeira ilusão. Mora a luz no filamento dos teus olhos incendiados. Os teus dedos percorrem assustados o pânico do meu sexo. A longa travessia da noite fez-nos regressar ao ponto de partida. Toda a extensão do tempo se afoga na geometria alucinada da luz. Esgota-se a terra no coração dos amantes. Tem sido difícil a descoberta dos lugares sagrados. Tu cantas agora uma canção de regresso. A minha voz encontra de novo o teu nome.


publicado por João Madureira às 07:00
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Terça-feira, 29 de Março de 2011

Sol de Inverno


publicado por João Madureira às 07:00
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Segunda-feira, 28 de Março de 2011

A Rede Social

 

Depois de anos de sedução do facebook por mim, decidi corresponder a tanta solicitação. Pega daqui, pega dali, o programa enviou-me para vários e distintos amigos. Depois de observar rapidamente, como muito bem manda a aplicação electrónica, os vários pedidos e sugestões, fui desembocar numa possível lista de gente apegada a estas coisas: os amigos da amizade. Um deles saltou-me logo à vista: Nadir Afonso. E eu, que sou ingénuo, embora não o pareça, principalmente nos afectos, tentei ver se o Mestre me aceitava como seu amigo no facebook. Cliquei e… chumbei. E logo, valha-me Deus, quando o quis adicionar como amigo no badaladíssimo facebook. A tal rede social que a todos põe em contacto. Isto apesar de me identificar como seu conhecido. O que é verdade. Mas o facebook rejeitou-me a petição. O Mestre tem demasiados amigos. Demasiados amigos!? Tentei de novo. Às vezes com as máquinas é preciso paciência e perseverança. Infelizmente, tornou a explicar: este utilizador já tem demasiados amigos. Eu pensei, cá com os meus botões, que ninguém tem demasiados amigos. Os amigos nunca são de mais. Mas, infelizmente, para o facebook, para mim e para o Mestre, muitos amigos são demasiados. Afinal a pintura abstracta tem bem mais seguidores do que aquilo que eu pensava. E ainda bem para a arte e para o Mestre. E infelizmente para mim. Mas a arte vale este sacrifício.

 

Chateado com a tal rede social, dali me fui ter um face to face com os meus amigos. Podem não ser artistas como o Mestre, mas são meus amigos e não partilham da mesma ideia do facebook, para eles, e para mim, claro está, os amigos nunca são demais.

 

O L., enchendo-se de orgulho, informou-nos que os dentes dos cavalos selvagens se modificaram, confirmando assim a hipótese evolutiva da selecção natural de Darwin (Deus 0 – Darwin 1). O estudo da revista Sciense revela, depois de analisados 6500 fósseis de cavalos selvagens, alguns com 55 milhões de anos, que houve um processo de adaptação de hábitos alimentares devido a alterações climáticas. Os investigadores comprovaram que as modificações dos dentes não são imediatas, demoram pelo menos um milhão de anos para afiarem depois de um episódio de alteração climática, o que se traduz em 100 mil gerações.

 

O R., inconveniente como sempre, resolveu por um pouco de pimenta na amena cavaqueira dizendo que era por isso que os dentes do L. eram tão afiados. Querendo com isso insinuar que o nosso amigo tinha dentes de cavalo. Sentindo-se tocado, pois este nosso amigo tem pouco sentido de humor, se é que tem algum, disse que o R. é que tinha cara de equídeo. O R. ripostou duro afirmando que ele, o L., tinha orelhas de burro. Dali passou-se a insinuações de que uns zurravam, que outros estavam casados com éguas, etc. Nesse momento resolvi liderar o processo de pacificação e contei-lhes um pequeno episódio.

 

«Na minha aldeia em tempos existiu um padre que era um pregador muito afamado. Tagarelava esplendidamente da família de Deus e lembrava, com um sorriso de bochecha a bochecha, que no seio da Madre Igreja qualquer um dos seus filhos tinha a obrigação de partilhar tudo. Ou quase. Um belo dia, o amigo regedor bateu à sua porta para lhe pedir o burro emprestado. Um burro de bom porte, quase um mulo. Mas o padre, se era generoso nas palavras, era a modos que sovina nos actos. E, não lho querendo emprestar, disse: “Lamento mas já o emprestei ao Tio Chico do Outeiro.” Nesse momento o burro começou a zurrar no pátio da casa. Por isso o regedor exclamou, surpreendido: “Mas estou a ouvi-lo a zurrar aí dentro!” Ao que o cura respondeu com a ira do Criador do Antigo Testamento: “Mas tu, criatura de Deus, acreditas no Padre Zé ou no seu burro?”

 

“Essa é boa”, concordaram os meus amigos entre sorrisos sinceros.

 

“Por falar em burricadas… Segundo António Barreto”, Lembrou B., “José Sócrates quis ser despedido. Isto apesar dos dados estatísticos nos dizerem que em Portugal se fez uma casa em cada 6 minutos.”

 

Eu chalaceei: “Portugal tem de escolher um primeiro-ministro que governe em estado de auto-hipnose.”

 

Ao que o R. contrapôs: “Se o Governo é mau, a Oposição é péssima.”

 

O F., que é um descendente dos sofistas, resolveu citar Jean-Luc Godard, do seu Filme Socialismo: “Hoje em dia, o que mudou é que os canalhas são sinceros.” Todos concordámos.

 

O L. resolveu colocar ainda mais achas na fogueira: “Eu não sei como é possível que num país com 10 milhões de habitantes, um Presidente da República, que manda menos do que a rainha de Inglaterra, possa gastar 16 milhões de euros por ano. Ou seja, precisamente o dobro do Rei de Espanha. E para tão pouco mester necessitar do trabalho de 500 pessoas.”

 

Eu chalaceei de novo: “A Presidência da República não é uma instituição política. É uma fundação de solidariedade social.”

 

“Razão tem o Bagão Félix. Isto está por um fio. E aponta uma solução de Governo. A única capaz de salvar Portugal: uma coligação entre o PSD, o CDS e o PCP”, lembrou o R.

 

Ao que eu atirei: “Esse é bem mais papagaio do que o seu papagaio Pelé.”

 

 

 

 

PS – Para ajudar a amar ainda mais os já amadíssimos poetas portugueses, essas vozes derradeiras da nossa suprema gesta, a gesta lusitana, aqui fica uma “quadra ao gosto popular”, de Fernando Pessoa: Já duas vezes te disse / Que nunca mais te diria / O que te torno a dizer / E fica para outro dia. E mais outra: O papagaio do paço / Não falava – assobiava / Sabia bem que a verdade / Não é coisa de palavra.


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Domingo, 27 de Março de 2011

Timidez III


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Sábado, 26 de Março de 2011

À espera da toalha


publicado por João Madureira às 07:00
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Sexta-feira, 25 de Março de 2011

O Homem Sem Memória

 

56 – José regressou ao seminário sem ter visto a Luisinha que estava de férias na Póvoa na companhia da família. O seu pai, o presidente da Câmara, por vezes dava-se a estes luxos, para bem dos seus filhos, pois detestava o sol, mas, sobretudo, embirrava com as nortadas, que eram permanentes, e com a temperatura da água, que era glacial. Ia a banhos com a família por causa do iodo. Um médico amigo a isso o tinha aconselhado. E se havia coisa que ele amava na vida, para além do insípido poder, da tímida glória, do sempre pouco dinheiro, da gloriosa mulher do seu secretário e da sua querida mãezinha, era da sua filha mais nova, a Luisinha. E quando o médico lhe disse, em tom de confidência, que nas terras do interior o iodo era raro, e que a ocorrência de deficit de iodo na infância podia originar o cretinismo, quase teve um ataque. Logo lhe veio à memória a imagem dos bandos de crianças que habitavam as aldeias e enxameavam as ruas da vila, com as suas caras de ratos esfaimados, ranhosos, sujos, esfarrapados, com o seu característico ar esgazeado, enfim, cretinos de todo. Por isso perguntou ao doutor se toda aquela cretinice era devido à falta de iodo? Ele respondeu-lhe que não é a esse tipo de cretinice que a ciência se refere. “A cretinice a que te referes”, disse ele pronunciando os esses e os erres com modos delicados, “provém de uma palavra do dialecto franco-provençal, ‘crétin’, que significava cristão. O seu actual uso resulta do costume de usar a expressão «pobre cristão» ou «cristão», no sentido de «inocente», para designar os loucos e os débeis mentais.” “Cala-te, por amor de Deus, cala-te lá, pois se o Padre Zé ouve o que para aí estás a dizer ainda te excomunga e eu não quero ser o responsável por o meu maior amigo ser condenado às eternas chamas do Inferno”, disse o pai da Luisinha, entre o atrapalhado e o irónico. Ele que não possui a mínima réstia de humor. E concretizou o conceito arrancado a algum velho dicionário da Língua Portuguesa enquanto decorava os parcos princípios de Direito que conseguiu absorver à custa de muito porfiar: “Um cretino é uma pessoa de pouca inteligência ou estúpida.” O médico, porfiando em aclarar de vez a ideia, elucidou: “Na Medicina, é um indivíduo que sofre de cretinismo, ou seja, um indivíduo dotado de debilidade mental por deficiência da tiróide, mais exactamente a falta de tiroxina, hormónio proveniente dessa glândula endócrina. O indivíduo que sofre de cretinismo manifesta atraso mental e físico. A doença inicia-se geralmente quando o bebé ainda está no útero materno. Uma vez nascido é difícil detectar o problema, sendo necessário recorrer ao teste do pezinho para identificar a doença a tempo de tratá-la. Só que por cá não existe tal prática médica. Aqui nasce-se com falta de tiroxina e fica-se cretino para toda a vida. Quem sofre de cretinismo é o filho do Rei da Portela, a filha do Zé da Avó, o filho do João de Donões, o filho do…” “Cala-te para aí, Francisquinho! Esses são atrasados mentais.” “Pois é desses que a medicina fala”, teimou o Doutor Chico, Francisco ou Franscisquinho para a família mais chegada e para os amigos mais chegados da família mais chegada, nos quais se incluía a família do pai da Luisinha, de seu nome Ricardo, ou Ricardinho para a família mais chegada ou para os amigos da família mais chegada, nos quais se incluía a família do Doutor Chico, Chiquinho, Franscisco ou Franscisquinho, assim nomeado pelas circunstâncias já acima elucidadas. E, como se estivesse numa oral na Faculdade de Medicina, acrescentou: “O iodo é um elemento químico essencial. Uma das funções conhecidas do iodo é como parte integrante dos hormónios tireóideos. A glândula da tiróide fabrica, como já referi, os hormónios tiroxina e tri-oidotironina, que contém iodo. O deficit de iodo conduz ao hipotiroidismo de que resultam o bócio e mixedema. Fui explícito?” “Isso para mim é chinês”, respondeu o Dr. Ricardo, Ricardinho, ou simplesmente Rica para a sua querida mamã, a sua amante e esposa do seu dilecto secretário, e da sua filha Luisinha. Para rematar: “E onde se pode comprar o iodo?” “Desse tipo de que te falo só o podes encontrar abundantemente junto ao mar, especialmente nas praias do Norte. E é de graça.” “Pode ser de graça para os que por lá vivem, mas para as gentes do interior custa bom dinheiro, especialmente nos gastos com o Hotel. A nossa interioridade fica cara. Qualquer dia isto transforma-se num deserto.” (Palavras premonitórias que vieram a ser decoradas e espargidas por outros políticos com o mesmo ou ainda maior prestígio do que o do autarca barrosão. A história do poder autárquico ainda está por escrever, meus senhores. E quando ela for registada, vamos de certeza descobrir, com o espanto hipócrita dos homens proeminentes da capital e seus célebres subúrbios, que foi aqui, no Norte do Norte de Portugal, que as grandes ideias fundadoras da nossa democracia tiveram a sua génese.) “Não te queixes, Ricardo, que com a Câmara bem te tens safado. Eu é que peno por estas terras do demo. Dedico-me ao exercício da medicina com a determinação de um frade. Trabalho copiosamente mas não amealho um centavo. Tudo se me vai em agasalhos e mantimento. Sou para aqui um infeliz.” “Dizem por aí que ainda te sobra algum para ires às putas a Xinzo. Ai Francisquinho, a vida custa a todos. Eu, por exemplo, nasci com o espírito de formiga. Sou um infeliz. Venho de casa para o trabalho e vou do trabalho para casa. Tu não, és um galaroz que traz as donzelas mais abastadas presas pelo beicinho. Mas tem cuidado com o que fazes. Por aqui a honra das famílias abastadas é um bem que se defende a pólvora e chumbo e que se paga com a morte do D. Juan.” “Por isso é que eu vou às putas a Xinzo. Em Chaves sou muito conhecido. Dava escandaleira pela certa.”

Foi por causa da primeira parte desta elucidativa e esclarecedora conversa que o aflito pai da Luisinha resolveu rumar caras à grossa areia, ao sol castigador e ao mar frio e picado da Póvoa, para aí encontrar o apreciado iodo. Isso fez com que o José e a Luisinha se tenham desencontrado. Ora longe da vista longe do coração. Ela começou a sorrir para outros rapazes, outros rapazes começaram a sorrir para a Luisinha. Por isso a Luisinha começou a sonhar com rapazes de outra condição, com diferentes estilos, distinto tom de pele, outro linguajar, diferente gingar de pernas. Principiou a expor-se de uma forma mais artística. O retrato mental do José desvaneceu-se na cabeça da Luisinha tal e qual as brumas matutinas da praia quando o dia começa a aquecer ao sol.


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Quinta-feira, 24 de Março de 2011

A caminho da festa


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 23 de Março de 2011

O Poema Infinito (40): combustão fria

 

Arde devagar a inclinação do tempo. Animais prolixos aprendem a impaciente luta da sobrevivência. Torrentes infindáveis de outonos comovidos dançam devagar o assombro da resignação. Há um homem triste com orvalho dentro da alma que suspira imagens tremendamente puras e frias. As suas mãos sobem pelo corpo unindo os fragmentos do desejo. E fuma coisas tão tristes como a própria tristeza. Na sua cara bate a luz glauca dos archotes antigos. É perseguido pelo admirável pensamento das equivalências da ressurreição. Oiço o seu respirar por dentro das palavras como se a morte fosse um pensamento. Nele a imagem do tempo constrói sorrisos instantâneos. A seu lado alguém canta a devastadora mágoa do abandono. Esse homem vive na profunda eternidade do momento. E voa por dentro do silêncio. E chora canções admiravelmente tristes. E dança em cima dos símbolos apagados da existência. Os seus dedos purificam as pedras tumulares e ligam a vida à carne e preenchem a eterna desilusão da existência. Oiço-o cantar de novo uma música brusca e os meus olhos enchem-se de luar. As crianças vestem-se com campânulas de vento e gemem a melancolia dos gestos. O mundo é agora um livro de espelhos. Penso na beleza oculta dos peixes e dos desejos. Deus sorri rapidíssimo sobre as imagens bruxuleantes da beleza. Trinta moedas ainda queimam na memória dos traidores. Esse é o fruto da amizade. Apagam-se as luzes no coração dos simples. A sua alma crente cai nos degraus do gólgota. 


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Terça-feira, 22 de Março de 2011

Contentamento


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Segunda-feira, 21 de Março de 2011

Estar ou não estar… à rasca

 

De repente uma geração descobriu que estava à rasca. E a descoberta bateu certo com a realidade. Depois organizou-se fora dos partidos e dos sindicatos tradicionais e veio para a rua gritar. E, apesar do improviso, fez-se ouvir. Está claro que este grito de alerta pôs à rasca toda uma sociedade. Mesmo os que mostram muita compreensão pela nova realidade social e política, também estão à rasca. Só que esta “nova” realidade é uma verdade de muitos séculos.

 

Carlos Santos Ferreira, presidente do BCP, disse em entrevista que o convidaram para dar uma lição e por isso teve a ideia de falar das crises dos últimos 500 anos. Só que ao fim de algum tempo desistiu, pois já ia na terceira ou quarta grave crise e ainda ia nos anos 1500.

 

E olhem que é verdade. Ando a ler a História de Portugal, coordenada pelo Rui Ramos, e se há coisa em que Portugal seja coeso é nas crises. A palavra crise é a que confere coerência à nossa já longa história. E com isto quero dizer que houve sempre gente à rasca. Gerações e gerações de portugueses sempre à rasca.

 

Por exemplo, a minha geração viu-se à rasca para estudar, vestir e até comer. A geração anterior viu-se mesmo muito à rasca com a guerra colonial. E a geração dos meus pais viu-se tremendamente à rasca para sobreviver. Nessa altura em cada família nasciam doze filhos para chegarem à idade adulta três ou quatro. Havia muita fome. Não havia luz na maioria das localidades, não existia televisão e a rádio era uma raridade muito apreciada mas quase nunca escutada. E andavam descalços. Trabalhavam como escravos sem direito a nada, a não ser ao sol e à chuva. Andavam sujos, esfarrapados. E descalços. E então que dizer da geração dos pais dos meus pais. Viviam quase na idade média entre animais, em casebres onde mal entrava a luz, onde não havia quartos de banho, nem água corrente, nem assistência social, nem subsídio de desemprego, nem esperança. Onde quase toda a gente era analfabeta. Onde a justiça era feita à base da porrada e da aplicação de sentenças ao deus dará. Pagava-se ao padre, ao senhor doutor e ao regedor. Devia-se na taberna, na farmácia e no alfaiate. Bebia-se a água das fontes, comia-se o caldo com unto, batatas com batatas, pão de quinze dias, carne gorda e salgada e peixe tão fresco como o da aldeia do Astérix. Quase toda a gente andava descalça. Dispenso-me de recuar um pouco mais no tempo. Falta-me a coragem.

 

Mas voltando ao tempo presente. O grande problema nacional é que a geração que está à rasca não sabe lá muito bem o que é estar verdadeiramente à rasca. E cheira-me que ainda vai ficar mais à rasca, pois à rasca estamos todos. E quando todos estamos à rasca, os que estão mais à rasca tendem a ficar ainda mais à rasca. E olhem que aquilo que vos digo não é ficção. Basta recuar 50 anos para, como já expliquei, batermos com a consciência na realidade. Anda por aí muito jovem à rasca – e a maioria dos que vi na televisão são disso bom exemplo –, que para eles a fome é apenas uma palavra, andar descalço é coisa dos povos indígenas africanos ou dos índios da Amazónia, e não ter luz nem água canalizada em casa é uma ficção pré-histórica. Isto para não falar dos que, à custa dos pais, comem e bebem até ficar obesos, vestem-se, ou despem-se, com roupa de marca e até se deslocam em carros nada baratos.

 

Pois é verdade que muitos dos jovens que dizem estar à rasca ainda não se deram conta que mais à rasca do que eles estão os seus pais. E à rasca está o primeiro-ministro que não sabe como pode sair do poder sem ser acusado de desertor. À rasca está o líder do PSD que ainda não atinou com a forma de conseguir com que José Sócrates fique no poder até isto rebentar sem ser acusado de frouxo. À rasca está o Governo que não sabe se governa ou desgoverna ou tudo não passa de um pesadelo. À rasca está a oposição de direita que, apesar de contestar as medidas tomadas pelo executivo socialista, sabe que quando for para lá apenas lhe resta aplicar as mesmas soluções sugeridas (impostas) pela Europa desenvolvida. À rasca está a oposição de esquerda com o movimento dos jovens à rasca porque lhes está a tirar o direito (divino) do protesto, da indignação e da moralidade. À rasca está Cavaco Silva que não atina com o método de mandar embora o Governo sem ser acusado pelos socialistas de proceder da mesma forma que os presidentes Soares e Sampaio, que tão criticados foram pelo PSD e pelo CDS.

 

Estar à rasca não custa muito nos tempos de hoje, o que custa mesmo é sair da situação com perspectivas de futuro que não sejam alicerçadas na fantasia. E gente à rasca haverá sempre. Por isso, minha gente, o que é que o povo quer? Comprar um carro novo. E o Continente está cheiinho de gente, as estradas entopem com o trânsito, os restaurantes estão à pinha, as discotecas e os bares vendem cerveja como água. As universidades estão a abarrotar de gente que sabe que o curso onde foram desencalhar apenas lhes dá direito a ficarem mais à rasca. No entanto insistem. O que eles querem ser é licenciados. Para quê é que não sabem lá muito bem. Mas também a quem é que isso interessa? Diz o povo que não há pior cego do que aquele que não quer ver. E a geração à rasca anda há já demasiado tempo com óculos de sol de marca ray ban que os seus pais lhe ofereceram no começo da Primavera.

 

 

 

PS – Receitas para ajudar a Geração à Rasca a combater a crise.

 

Lagostins com alho e ervas aromáticas

 

Ingredientes (para 2 pessoas de apetite circunspecto, ou comedido) – 12 lagostins crus com casca e sumo de meio limão; 2 dentes de alho previamente esmagados; 3 colheres de sopa de salsa fresca picada; 1 colher de sopa de manteiga amolecida; sal e pimenta; quartos de limão, pão estaladiço e alface

 

Confecção: Um – Lave e descasque os lagostins. Com uma faca afiada, faça uma incisão ao longo da face dorsal e retire a tripa preta.  Dois – Misture o sumo de limão com o alho, as ervas e a manteiga até formar uma pasta. Tempere bem com sal e pimenta. Espalhe a pasta sobre os lagostins e deixe marinar durante 30 minutos. Três – Leve os lagostins a grelhar debaixo de um grill pré-aquecido durante 5-6 minutos e mais alguns segundos. Em alternativa, aqueça uma frigideira e frite os lagostins na pasta até estarem cozidos. Transfira os lagostins para pratos quentes e regue-os com os sucos. Sirva de imediato com os quartos de limão, pão estaladiço e alface.


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Domingo, 20 de Março de 2011

Esperar sentados


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Sábado, 19 de Março de 2011

Concentração


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Sexta-feira, 18 de Março de 2011

O Homem Sem Memória

 

55 - A Dona Rosa passou um mês banhada em lágrimas. Chorou como uma Madalena arrependida quando viu o filho entrar-lhe portas adentro entre os vivas do Virtudes, o latir do Leão e o fumo do cigarro do guarda Ferreira. Depois continuou a chorar na hora da ceia. E chorou quando o viu deitar-se. Chorou quando serviu o mata-bicho ao marido e o pequeno-almoço ao José. Chorou quando o contemplou a ajudar à missa no domingo, especialmente quando o José leu a primeira epístola de S. Paulo aos Coríntios. E ficou em pranto quando, com uma voz angelical, quase perversa, o José fez ecoar pelo espaço das abóbadas da igreja o capítulo 13 da epístola onde Paulo fala grandiosamente sobre o amor: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que retine ou como o sino que vibra. (Pausa circunspecta e olhar para o infinito do José, choro miudinho da Dona Rosa, impassibilidade do Padre Zé, fungadela do guarda Ferreira, soluço do Virtudes, suspiro da irmã do Alcino, silêncio prudente do resto da assembleia de Deus, flato aerofágico e eructação simultânea do comerciante Artur, latido do Leão fora de portas da igreja.) E ainda que tivesse o dom da profecia, e entendesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. (Impassibilidade do Padre Zé, pausa ponderada e olhar para o infinito do José, choro atrapalhado da Dona Rosa, suspiro do Virtudes, suspiro da irmã do Celestino, silêncio prudente da assembleia de Deus, latido fora de portas da igreja do Leão, eructação aerofágica e flato simultâneo do comerciante Artur.) E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria. (Pausa reflectida e contida do José, flato aerofágico e eructação simultânea do comerciante Artur, eructação aerofágica e flato simultâneo do comerciante Artur, olhos no tecto da direcção de Cristo ressuscitado do José, pranto da Dona Rosa, impassibilidade do Padre Zé, fundagela para o lenço do guarda Ferreira, soluço do Virtudes, latido do Leão fora de portas da igreja.) O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é egoísta, não trata com ligeireza, não se envaidece, não se porta com indecência, (suspiro da irmã do Alcino, impassibilidade do padre Zé) não busca os seus interesses, não se abespinha, não faz juízos de valor, não folga com a injustiça, mas rejubila com a verdade. (Tosse contida do presidente da câmara.) Tudo tolera, tudo crê, tudo espera e tudo aguenta. (Três suspiros da irmã do Alcino e um suspiro do Virtudes, impassibilidade do Padre Zé.) O Amor nunca falha. (Impassibilidade do Padre Zé, olhar do José pregado no presidente da Câmara, choro da Dona Rosa, enxugar de olhos com o lenço por parte do guarda Ferreira, suspiro do Virtudes, gemido da irmã do Alcino, eructação aerofágica e flato simultâneo do comerciante Artur, latido fora de portas da igreja do Leão.) Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, (choro da Dona Rosa), falava como menino, (pranto da Dona Rosa), sentia como menino, (carpido da Dona Rosa), discorria como menino, (lhanto da Dona Rosa), mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino (limpar de lágrimas com o lenço por parte do Guarda Ferreira). Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor. (Pausa final do José, olhar interessado do Padre Zé, sorriso no rosto quase sempre contristado do guarda Ferreira, lágrimas e sorriso aberto por parte da Dona Rosa, enorme e definitivo suspiro da irmã do Alcino, sorriso e lágrimas no rosto do Virtudes, latido do Leão fora de portas da igreja, flato aerofágico e eructação simultânea do comerciante Artur, coro do Carlos, do Alcino, do Luís e do Rui: porco; voz do Padre Zé desde o púlpito: ele é doente; voz da irmã do Alcino: que meta uma rolha; sorrisos silenciosos da maioria da assembleia de Deus, de Deus e de um mafarrico encarregue da espionagem e partidário do humor primário.)


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Quinta-feira, 17 de Março de 2011

Sapateiro remendão


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Quarta-feira, 16 de Março de 2011

O Poema Infinito (39): o grito

 

Inunda-me uma fogueira de gestos. Um homem grita por entre as imagens dos sonhos. A felicidade é leve como um salto mortal. O amor continua a evaporar-se como a água numa panela ao lume. Por isso as tuas mãos percorrem os dias cheios à procura de nada. O vento sopra árvores silenciosas e o céu cospe palavras vãs. As planícies enchem-se de nomes brancos e o espaço satisfaz-se de infinito. Tudo está mais além. Sempre mais além. Anunciam-se cantos livres. A felicidade rompe de dentro da alma dos ateus. Tempestades de nomes erguem-se na harmonia selvagem de um mar em ruínas. O dia é agora um estuário de bramidos. Dizem que é neve o branco do frio. Afirmam que é exacta a perspectiva infinita. Deslizando sobre os precipícios, Deus renasce extraordinariamente invisível. Não são homens os que vemos dançar em redor da sua luz. São os seus inúteis sonhos de grandeza. Lemos essa claridade com os olhos cegos de terra. O tempo concreto das pedras decide o desejo claro das cidades. Os meus olhos agrestes choram palavras escritas nos limites da saudade. A razão tem tempo. As armas estão guardas nos corações dos soldados. Alguém escreve cartas cheias de gritos. Os pacifistas desertam do paraíso das suas fantasias de aluguer. O reino da bondade está agora obeso de amor e com o coração afadigado de absurdo. Os homens libertados continuam brilhantes de tristeza, felizes de silêncio, ricos de miséria. As suas bocas alegram-se com os catecismos das multidões. Os profetas dos pássaros escondidos alegram-se com as sementes secas das manifestações, reivindicações, revoluções e outras divindades cinzentas. A liberdade é um grito rouco de perplexidades. Os seus mártires são cadáveres redondos de apelos. Os poemas chegam agora como telegramas nus ornamentados de crenças rigorosas. Por isso pesa tanto a sua inutilidade proclamada. Apenas a infância é libertadora. Tudo o resto é um grito sabiamente inútil. A vida continua na sua improbabilidade exacta. Por favor, político, burocrata, economista, primata, escreve isso na tua inútil acta. 


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Terça-feira, 15 de Março de 2011

Sorriso a preto e branco


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Segunda-feira, 14 de Março de 2011

Em busca do tempo perdido

 

O meu amigo J. é muito parecido com o poeta Pedro Tamen, nomeadamente na bonomia que lhe esconde um apontamento levemente depressivo. Mas apenas nisso, pois o J. não gosta de poesia e detesta o ensaio. No entanto é um fanático do romance. E se o Pedro Tamen teve a pachorra de traduzir para português o roman-fleuve da Marcel Proust Em Busca do Tempo Perdido, em francês À la Recherche du Temps Perdu  [obra dividida em sete livros: Du côté de chez Swann (No caminho de Swann 1913); À l'ombre des jeunes filles en fleurs (À sombra das raparigas em flor, 1919), que recebeu o prémio Goncourt desse ano; le Côté de Guermantes (O caminho de Guermantes, publicado em 2 volumes de 1920 e 1921); Sodome et Gomorrhe (Sodoma e Gomorra, publicado em 2 volumes em 1921-1922); la Prisonnière (A prisioneira, publicado postumamente em 1923); Albertine disparue (A Fugitiva - Albertine desaparecida, publicado postumamente em 1927) (título original: La Fugitive); le Temps retrouvé (O tempo reencontrado, publicado postumamente em 1927)], o meu amigo já conseguiu ler os dois primeiros volumes, e olhem que existem poucos portugueses capazes de se gabarem de semelhante feito. Além disso, o meu amigo J., à semelhança do poeta tradutor, faz questão em não usar gravata e, tal como ele, fez uma jura de nunca mais ir a vernissages.

 

No passado fim-de-semana, o meu amigo veio juntar-se a nós com um sorriso nos lábios, ele que é carrancudo e apenas costuma gargalhar nos anos bissextos. O J., mal se sentou, comunicou, extasiado, que tinha caído mais um tabu, o que muito nos admirou, pois o meu amigo é a favor da manutenção de quase todos os tabus, desde que em 1994 Cavaco Silva inventou o primeiro grande "tabu" da nossa democracia sobre uma hipotética recandidatura nas legislativas do ano seguinte. Dúvida só desfeita muito próximo das eleições, quando deixou a liderança do PSD para Fernando Nogueira, com o sucesso que todos lhe reconhecemos.

 

“Afinal há sexo depois dos 65 anos”, exclamou o J. tão inadvertidamente alto que chocou algumas senhoras próximas da reforma que estavam na mesa ao lado. “No entanto é preciso tomar atenção com os comprimidos para a hipertensão, pois parece que tiram a erecção.”

 

Vai daí, eu para dar um arzinho da minha graça, lembrei que um cantor pop de 16 anos se queixou aos jornais de que uma mãe lhe atirou um soutien para o palco com o número de telefone no seu interior. “Agora imaginem se alguma avó mais atrevida se lembra de enviar uma das suas enormes cuecas com o endereço de email lá dentro. Os concertos podem vir a degenerar em lutas familiares. Uma sociedade onde um rapaz de 16 anos pode ser objecto de assédio sexual por parte de três gerações de mulheres não é lá muito tranquilizadora. Pode ser democrática, igualitária, solidária, mas deixa-me deveras apreensivo. Daí à pornografia vai um passo. E eu abomino a pornografia.”

 

O R. pegou na deixa e, azedo e de direita liberal como é, veio logo espalhar peçonha: “Eu, apesar de não apreciar essa forma de expressão artística, concordo com o actor James Franco (nomeado para o Óscar de melhor actor pelo seu papel em 127 Horas) quando diz que se devem respeitar os ‘actores da pornografia porque eles não estão apenas a fazê-lo. Eles estão a vendê-lo. É a mesma coisa com um beijo. Não se trata do beijo que se sente melhor, é a imagem que conta’.

 

Eu tentei trabalhar, ou atrapalhar, a conversa, mesmo sem querer: “Ora explica-te lá melhor!”

 

Mas naquela conversa de surdos, foi o F. que resolveu dar a cara. Por isso olhou para nós como se estivesse noutro lado qualquer menos ali e disse com toda a calma do mundo: “Na actual situação política é extremamente complicado ir para eleições.”

 

Novamente me meti ao barulho e tentei trazer para a conversa as revelações do Wikileaks sobre Portugal. E olhem que elas são muito engraçadas. Por exemplo, relativamente às nossas chefias militares referem que “há em Portugal uma cultura nas Forças Armadas em que, quase sempre, a melhor decisão que se pode tomar é não tomar decisões. Até para uma banda tocar é preciso uma autorização de topo”. E entretanto o que é que os militares de topo fazem? Segundo revela o Wikileaks esperam o tempo suficiente, pois como muito bem dizem os oficiais, dessa forma chegarão a coronéis ou a generais. Por isso é que Portugal tem mais Generais e Almirantes por soldado do que quase todas as outras forças armadas modernas.

 

Vindo da casa de banho, o R. aproveitou também para malhar forte: “Enquanto os militares esperam sentados mais uma promoção, os agentes em greve da PJ deixaram escapar, durante uma operação de pedofilia, dois homens suspeitos. Entretanto a nossa geração de jovens mais qualificada de sempre aguarda sentada nas cadeiras da sala dos seus pais que lhe dêem alguma coisa para fazer, que lhe confiram sentido, que lhe outorguem um futuro.”

 

“Eu de política não percebo nada, nisso sou como o novo líder da JSD de Chaves, mas sempre vos digo que é necessário que todos poupem, a começar pelo Estado”, disse ironicamente o L.

 

“Ainda mais?”, perguntou indignado o F. “Qualquer dia acontece-nos o mesmo que ao burro do Tio Chico que, sob rigorosa vigilância do seu dono, quando já estava a habituar-se a viver sem comer, morreu assim sem mais nem menos.”

 

 

PS – Para ajudar a “Geração à Rasca”, aqui fica parte do seu manifesto que poderá consultar na íntegra em http://geracãoenrascada.wordpress.com

 

“Nós, desempregados, ‘quinhentoseuristas’ e outros remunerados, escravos disfarçados, subcontratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal, protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregados e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável.”



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Domingo, 13 de Março de 2011

Ao frio em Montalegre


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Sábado, 12 de Março de 2011

Sorriso entre pás


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Sexta-feira, 11 de Março de 2011

O Homem Sem Memória

 

54 – Passado um ano voltou a Montalegre. Mais crescido, mais magro, mais branco. Mais triste.

O Verão corria tépido e luminoso, permitindo que as pessoas andassem de roupas mais leves e com um ar ligeiramente lavado. Agora, que tomava banho todos os dias, até de água fria, era mais sensível à aparência dos demais. Sempre apreciou o ar limpo e trigueiro da Luisinha, em contraste com o ar baço e pardacento da maioria das raparigas da vila. Do aspecto dos seus colegas nem é bom falar. Tinham uma aparência de cordeiros tresmalhados e famintos.

Os rapazes continuavam galhofeiros e despreocupados. Mas tinham crescido. Pareciam mais corpulentos e tisnados. Sobretudo mais alegres. E isso intrigava-o. Enciumava-o que ali no meio dos penedos os seus amigos crescessem brutos e felizes. Era como um anátema. Como se fosse possível na pobreza e na boçalidade ser-se feliz. Pelos vistos, sim, era possível. Ao contrário dele que, entre rezas, ladainhas, evangelhos, padre-nossos, ave-marias, livros, discussões, estudos e cogitações, dissidências e absolvições, se sentia um desventurado carregado de tristeza e frustração.

Todos o acolhiam agora de uma forma diferente, apesar de formalmente nada ter mudado. Todos o tratavam por tu, perguntavam-lhe pela vida no seminário, incitando-o a jogar, a rir, a galhofar e a dizer mal do Padre Zé. Ele sorria, que remédio. Um futuro abade tem de aprender a dizer ámen com todos os cordeiros de Deus, por muito que lhe custe.

“Afinal somos todos filhos de Deus”, pensava o José. “E iguais aos seus olhos. O ladrão e o roubado, o assassino e a vítima, o violado e o estuprado, o patrão e o empregado, o rico e o pobre, o remediado e o pobre, o pecador e o santo, o bom e o mau, o homem e a mulher. Mas também o salteador e o opulento, o amo e o aviltado, o homossexual e o chefe de família, o juiz e o carrasco, o médico e o doente, o jogador de futebol e o treinador, o banqueiro e o economista, o comunista e o fascista, o democrata e o ditador, o filho e Abraão, Cristo e Barrabás, Nossa Senhora e a sua desditosa virgindade.”

“Segundo Deus”, continuava a pensar o José com uma irritação crescente, “para o caso tanto faz, são seus filhos e ponto final. Ele não descrimina. Pois se ele não descrimina, descrimino eu. Eu não sou capaz de por tudo no mesmo saco. E Deus, se é que existe, e disso tenho muitas dúvidas, que me perdoe como eu lhe perdoo – na qualidade de seu filho e em nome de todos os outros seus filhos de boa vontade, – toda a dor do mundo, toda a pobreza, toda a desgraça, todas as guerras, toda a descriminação, toda a dor e, sobretudo, o arrufo de ter castigado Adão e Eva com a noção de pecado e com a vergonha da nudez, do sexo e da boa vida.”

Convenhamos que tais pensamentos, mesmo que sinceros e sentidos, num futuro clérigo católico responsável pela evangelização dos seus leigos não eram bom sinal. Mas, convenhamos ainda mais um pouco, Deus e a sua Igreja sabem bem as linhas com que se cosem.


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Quinta-feira, 10 de Março de 2011

Matar o bicho em Couto de Dornelas (II)


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Quarta-feira, 9 de Março de 2011

O Poema Infinito (38): a expansão dos buracos negros

 

Escuto sobretudo a existência desenvolta do teu olhar imperioso como se dele pudesse surgir a persistência. Essa leitura exposta cumpre o desígnio da luz. É a realidade vencida pela radical presença do infinito. Todo o tempo do mundo vai crescendo na tua ausência. O teu nome é definitivamente uma imagem eterna, como se a tua aparência pudesse pensar o paraíso. Resplandecem os animais num eclipse luminoso de fúria. O tempo é uma incerteza concentrada no meu pensamento espantado. Abstraio a felicidade. Esse é um outro filme incerto. Uma irradiação do silêncio. A tua respiração empolga o azul doce dos objectos. A minha vista voa tangencialmente sobre a nostalgia. Os pássaros trazem-me palavras sentadas. Este é o meu padrão nostálgico. Os conceitos prolongam-se pela antiguidade fora com um ritmo certo. Sabemos que a idade do vento é relativa. A velhice é uma sabedoria amarga. Por isso as folhas mortas elevam o enigma da vida. O esplendor do Sol recupera o dia. Deus apura a transparência dos peixes e Jesus sossega na cruz. O trabalho da paz é eterno como eterno é o caminho da guerra. De novo regressa o exílio da análise. A face oculta da verdade volta a ordenar-se no júbilo da fome. Tudo é de uma abstracção assustadora. Os poderosos irradiam ritmos de prepotência. Alguém inventa o ponto íntimo da desunião. A paixão humana é agora um eco. Voltam de novo as imagens da expiação. A tarde impetuosa desce numa inclinação de espanto. O pensamento repousa novamente nas palavras fixas. Escuto a profundidade do silêncio. Todos rezamos a um Deus específico. Toda a pobreza é ilegítima. Toda a humildade é ridícula. Dispo os sinais e escuto. Esta é uma outra insistência. O meu país interior expande-se de conceitos. O tempo tem agora um ritmo agudo. A dúvida que nasce é uma penitência de viagem. É essa a inteligência da piedade. Deus tende piedade dos indícios. Senhor tende piedade das dúvidas. Senhor tende piedade da fragilidade e da esperança. Deus tende piedade dos milagres. 


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Terça-feira, 8 de Março de 2011

Amena cavaqueira


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Segunda-feira, 7 de Março de 2011

Travanços e acelerações

 

Hoje começo pela desgraça. Dizem por aí os políticos e os economistas encartados que estamos à beira da bancarrota. É muito provável que assim seja. E quem não tiver culpas que atire a primeira pedra. No entanto, o que mais me entristece é a bancarrota ideológica a que assistimos impávidos e serenos como se a nobre arte da política fosse, ao mesmo tempo, uma brincadeira e uma birra de miúdos.

 

O Expresso noticiou, vai para uns dias, que o buraco financeiro passou de 680 milhões para 281 milhões de euros. O que foi um travanço digno de registo. Sócrates rejubilou, Passos Coelho engasgou-se e Cavaco Silva ficou, mais uma vez, mudo e quedo, como é seu timbre. E ainda bem, pois, como muito bem diz o nosso querido e adorado povo, quando o homem fala ou entra…  (bip censório) ou sai… (bip censório).

 

Depois de, nos últimos meses, o nosso primeiro-ministro andar pelo mundo fora a promover a economia portuguesa e a tentar vender a dívida nacional, agora resolveu, e bem, arrumar as malas e dedicar-se a visitar a nossa ditosa pátria bem-amada, para inaugurar escolas, lançar as primeiras pedras de variadas barragens, etc. Sócrates revelou um ar orgulhoso, Passos Coelho ficou vermelho de inveja e o filho dilecto de Boliqueime, mais uma vez, ficou quedo e mudo como um penedo, como é seu estilo. E ainda bem, pois lá diz o povo: mais vale estar calado e passar por… (bip censório) do que falar e provar que realmente… (bip censório).

 

Um estudo do Infarmed patenteia que na última década o consumo de psicofármacos cresceu 52%. Os portugueses tomaram mais 177% de antidepressivos, 140% de antipsicóticos e 11% de ansiolíticos. Por isso é que os especialistas afirmam, e com razão, que o país está cada vez mais deprimido, psicótico e ansioso. Pudera. Anda deprimido por causa do Governo, anda psicótico por causa do Presidente da República que nem preside nem sai de cima, e anda ansioso por causa do Passos Coelho. E este vosso amigo também contribuiu, e continua a contribuir, para mais um recorde nacional que põe a Europa inteirinha a olhar para nós com cara de caso. Às segundas, quartas e sextas tomo o meu xanaxsezinho, às terças, quintas e sábados ingiro o meu longactilzeco e aos domingos engulo o meu lexotam e ponho-me a ver os campeonatos de bilhar transmitidos pela tv cabo.

 

Apesar de o mundo nos estar a cair na cabeça aos pedaços, tenho um luxo de que não prescindo. De ano a ano vou até à minha aldeia para poder libertar-me, por alguns dias, do ruído violento da cidade. E foi o que fiz este fim-de-semana. Durante todo o caminho matutei nas palavras do sexólogo Frascisco Allen Gomes sobre a diversidade das paixões. Ei-las: “Conheci uma mulher que a primeira vez que teve um orgasmo foi quando viu uma nota numa pauta.” De seguida lembrei-me que eu, quando recebi o meu primeiro ordenado, uns insípidos 16 contos (no ano de 1980), quase tive uma erecção quando olhei para as notas de mil. Mas daí a um orgasmo, valha-me Deus!

 

Numa curva mais ousada, curvei tanto e tão abreviado que me veio à lembrança Manuela Ferreira Leite e a sua confissão, ao Expresso, por entre sorrisos e brincadeiras, onde manifesta a sua predilecção por bacalhau, um bacalhau especial que ela aprendeu a cozinhar nas aulas de culinária que teve no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, enquanto frequentava a curso de Economia. Depois lembrei-me do orgasmo da paciente do senhor sexólogo, relacionei-o com a canção do Bacalhau Quer… (bip censório) popularizada pelo menino Saul Ricardo e daí passei à memória do sorriso da senhora ex-ministra das finanças do PSD e assustei-me. Parei e hiperventilei, como um valente, para acalmar. Após meia hora de exercícios, voltei ao lugar e resolvi definitivamente deixar de pensar na política, na sexologia e na economia e concentrar-me no jazz que brotava a jorros pelas colunas da aparelhagem do meu Audi A3, que são uma maravilha. Nunca Miles Davis me soou tão bem.

 

Quando cheguei a casa, a minha tia Belmira tinha a estufar no pote duas perdizes. Depois de me aquecer um pouco à lareira, baixei a tampa do escano e devorei-as com o requinte dos glutões.

 

Eu venho à minha aldeia para dormir tranquilamente, para ouvir os galos, os sinos da igreja sem altifalantes e os distintos sons da natureza.

 

Ainda existe por cá um velho homem, um pobre de espírito, que sempre acreditou na inteligência dos animais e por isso continua a viver feliz da vida. Apesar do ar de cemitério da localidade, não sofre de depressão. Vive praticamente com a bicharada lá em casa. Quando se sente só trava longas conversas com as vacas, a burra, os porcos, as galinhas, as cabras e as ovelhas. As pessoas das pequenas localidades passam grande parte do tempo a pensar no universo, ao contrário das pessoas da cidade que, educadas e cultas como são, pensam sobretudo umas nas outras. O meu avô morreu a olhar para uma nogueira que havia do outro lado do ribeiro. Hoje morre-se a olhar para a televisão.

 

Li algures que viver é escrever a lápis mas sem borracha. O que nos vale é que as pessoas morrem a pensar noutra coisa. E por aqui me fico, com licença de vossas excelências.

 

 

PS - Sugestões para ajudar a relaxar e a dormir melhor e também a desenvolver o raciocínio, a memória e a fazer contas por causa da crise, da poupança, dos cortes dos ordenados e da declaração do IRS.

 

Primeiro: Conte de 1000 até onde puder de sete em sete. Eu começo e o estimado leitor continua: 1000, 993, 986, 979, 972, etc.

 

Segundo: Recite a tabuada do oito, que é uma das mais difíceis. Nós ajudamos: 8x0=0; 8x2=16; 8x3=24; 8x4=32, 8x5=40; 8x6=48; 8x7=56; 8x8=64; 8x9=72; 8x10=80. Agora feche o olhos e entoe novamente. Se não conseguir, abra-os e recite de novo a tabuada como se estivesse a rezar as vezes que for necessário.



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Domingo, 6 de Março de 2011

À espera


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Sábado, 5 de Março de 2011

Timidez


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Sexta-feira, 4 de Março de 2011

O Homem Sem Memória

 

53 – Passou um ano de cão. Cheio de frio, ougado, com uma fome permanente e com umas saudades da sua família e da sua vila tão eternas como Deus. Chorava por dentro e por fora. Sempre sozinho. Como quem reza. Quando desesperava pensava nos dias de neve passados junto à lareira e nos olhos verdes e claros da Luisinha.

Ali no seminário tudo era frio e escuro, os padres, os colegas, os dormitórios, a comida, a amizade, a coexistência, o estudo, Deus, o Demónio. Até os sonhos. Quando desesperava pensava nas brincadeiras com os colegas em dias de sol e nos lábios carnudos da Luisinha.

Dormia mal, comia pior, rezava com uma correcta antipatia, estudava a custo, ouvia o latinório dos seus professores como quem escuta pragas ou insultos. Não atinava com qualquer tipo de razão em tudo aquilo. Nada ali fazia sentido. Nem Deus. Ou muito menos Ele. Tanto discurso vazio, tanta palavra oca, tanto ritual estéril e absurdo. Quando desesperava pensava nas idas aos níscarros e nos cabelos encaracolados da Luisinha.

Se alguma coisa aprendeu durante aquele primeiro ano foi que Deus é uma imensa ausência. Nunca o pressentiu, nunca o intuiu, nunca lhe sentiu o alento, ou o toque espiritual. E fartou-se de o procurar nos livros, nas palavras dos padres mais complacentes, nos sentimentos mais nobres dos colegas, nos dias de sol, nas noites de chuva, nas tardes de reflexão e estudo, ou logo de manhã muito cedo quando acordava com o repicar dos sinos. Mas só sentia frio, fome, insegurança, desespero, tristeza, desilusão. Uma irremediável desilusão. E quando desesperava pensava nas manhãs de domingo banhadas de leituras e de sol. E no sorriso lindo da Luisinha.

Aquele era um casarão de homens vazios, que viviam o dia-a-dia a enganar-se com as palavras, a iludir-se com os textos sagrados, a estudar retórica e várias latinices decrépitas, a aprender a mais absurda das profissões, a de propagadores da salvação e da vida eterna. Eles que duvidavam das trevas e da luz, que punham em causa o suplício da castidade, que desconfiavam dos milagres, que questionavam a razão do Inferno, que identificavam o céu com uma palavra cheia de ambiguidades, que diziam amar a pobreza mas a abominavam, que sonhavam em ser lascivos, que aspiravam a comer frugalmente, a ter carro e casa e mulher, ou homem se fosse essa a inclinação do seu fervor. De facto, por ali habitava muito animal misógino. Mas quando desesperava pensava nas noites lentas de Inverno quando, junto à lareira, ouvia as histórias fantásticas e fantasmagóricas contadas pelo Virtudes. E nas palavras meigas ciciadas ao seu ouvido pela Luisinha.

Descobriu que o pecado, mais do que Deus, Cristo, os apóstolos, os anjos, ou a Virgem, era o centro das inquietações e das pulsões de todos aqueles rapazes desalentados, frios e calculistas. E quando desesperava pensava nas batatas cozidas e nos chouriços de cabaça comidos no escano enquanto o Joãozinho mamava na teta da mãe e lhe sorria com o seu ar travesso. E nos mamilos da Luisinha. 

Fartou-se de procurar Deus, mas o Criador teimou sempre em jogar com ele ao gato e ao rato. Deus nunca lhe apareceu, nunca se revelou, nem a ele nem a ninguém ali por perto. E havia muitos rapazes que o esperavam com toda a ansiedade e toda a ilusão do mundo. A fé e a razão andavam sempre aos baldões dentro do seu cérebro sem nunca se encontrarem. E quando desesperava pensava na sua colecção de jogadores e nas coxas de rã da Luisinha.

Fartou-se de ler livros devotamente apócrifos. A biblioteca nisso era exemplarmente variada. E quem descobria aqueles livros não podia pensar que os lia em vão. O conhecimento não se pode apagar da cabeça de uma pessoa como quem apaga um verso de amor escrito a lápis num caderno da escola. O conhecimento pode trazer lucidez, mas quase sempre é a fonte de todas as angústias, de todas as depressões, de todas as dúvidas. Um cientista pode desconfiar da ciência que ninguém lhe leva a mal. Mas um futuro servidor de Deus não pode, nunca, suspeitar da Sua existência. Mas o José suspeitava. Por isso chorava de raiva.

E quando desesperava pensava nos dias em que enchia a boca de chicletes e corria impaciente até ao castelo. E no rabo enérgico da Luisinha.

Conjecturava que se não conseguia encontrar o caminho de Deus através dos livros e das prédicas dos seus professores e colegas mais velhos, muito menos podia atinar com o atalho divino através de um putativo chamamento. A fé não o convocava. O seminário não o satisfazia. Os estudos não o catequizavam. Os seus professores não conseguiam evidenciar-lhe a verdadeira razão de ser cristão e padre. Ali falava-se muito de sacrifício, de ajuda, de dádiva, de entrega, mas ele sentia o mesmo que quando ouvia palrar os ricos lá da terra na sua desinteressada ajuda aos pobres para dar a Deus. O dilema continuava a ressoar na sua cabeça: é mais difícil entrar um rico no reino dos céus do que um camelo… E quando desesperava ainda mais masturbava-se pensando na vagina rosada da Luisinha. O pecado, Deus meu, é salvação.


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Quinta-feira, 3 de Março de 2011

Mulher ao sol


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Quarta-feira, 2 de Março de 2011

O Poema Infinito (37): belos sonhos

 

Hoje é dia de espalhar as sementes da água que germinarão nos jardins dos homens-vegetais. A inevitável flor de Março florescerá no interior das rochas e os pássaros cantarão estátuas de murmúrios. Lagos de memória expandir-se-ão sobre as paisagens de papel, os corpos irradiarão silêncios frios e as paixões serão ritualizadas por cima dos desertos do tempo. As mãos imobilizadas pela queda das sombras murcharão como túneis de voz. Os peixes serão azuis ou não serão peixes e o azul será um sexo nómada ou não será amor. A boca aberta suga a seiva da luz, o desejo treme como a noite. Abril chegará calçado de desilusão desassossegando o peso enigmático das máscaras revolucionárias. Murcham os lábios nos beijos dos espelhos, os corpos desaparecem dentro do seu peso. Os olhares explodem dentro dos frutos verdes. Louvada seja a música das cidades incendiadas. Louvado seja o chão pendurado no altar. Louvados sejam também os mapas mentais dos textos sagrados. Tenho ainda presa na boca a imobilidade do teu sexo. Sonhos voluptuosos de fotografias assustadas descem por dentro das horas tristes. No teu rosto sorri a hora do pranto. O gelo da noite acumula alegria. Crianças morrem alegres murmurando as sílabas da palavra imortalidade. O colete-de-forças divino volta a atacar. Folhas secas de esperança voarão para fora dos gestos. Alguém mente várias verdades primárias. Este é o primeiro dia da criação. O segundo é um caixote de trevas absolutas. No terceiro nascerá uma luz cega que nos guiará até ao abismo. Os restantes serão sílabas de água salgada. Sereias peregrinas adormecem disfarçadas de travestis. Os astros invadem a terra. O sexo de Deus roça nas montanhas abrigadas do vento Leste. Prostitutas virgens gemem cheias de cio. Romeu e Julieta desincham depois de mais uma cópula venenosa. Shakespeare sodomiza um demónio adormecido. Santos repousam vigiando multidões frágeis. Generais eunucos cantam hinos de glória. Fernando pessoa estrangula os seus heterónimos depois de fumar ópio e de ter bebido uma garrafa de absinto. Da Vinci fornica um anjo depois de o ter pintado no tecto da Capela sistina. Exércitos de faraós derrubam as pirâmides e escondem o Sol. Tarzan abandona as histórias aos quadradinhos, divorcia-se da Jane e contrai matrimónio com um gorila de Bornéu. Sinais de beleza entardecem nos olhos dos cegos. Lá fora o dia constrói a noite. E eu preparo-me para adormecer. Já basta de sonhos tão belos. 


publicado por João Madureira às 07:00
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