Sábado, 30 de Abril de 2011

Sorrisos


publicado por João Madureira às 07:00
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Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

O Homem Sem Memória

 

61 – Sábado de manhã, quando o dia começava a resplandecer, quando os pássaros prolongavam os seus voos, quando as flores começavam a brincar com a luz do sol e com as cores do arco-íris, José lia, sentado num banco do jardim, “O Malhadinhas” e não parava de sorrir e de se maravilhar com a prosa do escritor beirão. Continuava afectado com a ausência da sua namorada, mas tentava diversificar os motivos de desorganização sentimental. Por isso nada melhor do que saborear a genial prosa de Aquilino Ribeiro. Então ela apareceu como um anjo vestido de mulher. E, ao contrário da primeira vez, vestia saia curta. E movimentava-se dengosamente em cima das suas pernas bonitas. Aproximou-se do José sem ele dar conta e sentou-se a seu lado. Ele assustou-se. Olhou para ela e pôs cara feia. Foi o instinto o que lhe desenhou o esgar. Mas rejubilou por dentro. Ela sorriu-lhe com doçura e esperou que se recompusesse. Ele olhou outra vez para ela e manteve-se sério. Custou-lhe representar o papel de duro, mas o orgulho a isso o obrigava. Tentou concentrar-se na leitura do livro. Ela permaneceu ao seu lado calada e serena. Isso quase o fez rebentar de raiva. “Queres que me vá embora?”, perguntou ela atrapalhada. Ele não respondeu. Não conseguia atinar com o que devia responder. Queria fazer-lhe sentir que a sua ausência sem notícias o tinha magoado profundamente. O tinha feito sofrer. “José, por favor, olha para mim.” Pôs-se-lhe um nó na garganta, mas continuou a fazer que lia o livro. “Se não me ligas, vou-me embora. Custou-me vir ter contigo. Chegaram uns zunzuns aos ouvidos da madre relatando-lhe que eu me encontrava com um seminarista. Deves calcular o chinfrim que isso provocou. Ainda bem que o meu pai não foi informado na altura senão rebentava uma guerra civil em minha casa. A madre, no entanto resolveu convocar a minha mãe para uma reunião. Ela de um lado e eu do outro a esgrimirmos argumentos sobre o amor. A madre limitava-se a ouvir e a fazer que rezava. A minha mãe não se cansava de dizer que isso não existe. Que o amor é uma palavra sem sentido prático que aparece nos livros. Que é uma coisa de tontos. E eu a tentar fazer-lhe ver que se não ama o meu pai não devia ter casado com ele. “Que remédio, minha filha”, respondeu-me a minha mãe. “O amor, por aqui, é engravidar, parir e calar. Nós somos umas barrigas de encher.” O José riu-se com a acutilância da última frase. Então pediu-lhe desculpa pelo seu comportamento e deu-lhe um beijo. Ela correspondeu e aninhou-se nos seus braços. Estiveram assim durante muito tempo. A ouvirem-se respirar e a sentirem os corações a bater num ritmo suavemente descompassado. “Gosto de ti, Graça”, pronunciou ele por fim. Ela beijou-o delicadamente nos lábios e disse que também o amava. Beijaram-se repetidamente. “Porque não vieste ter comigo no outro dia?”, perguntou o José colocando a medo um travo ligeiramente amargo nas palavras. “Esperei por ti como nunca tinha esperado por ninguém na vida. E doeu-me.” “Eu sei, li a tua carta. Mas não podia fazer nada. A minha condição feminina impõe-me provações que, mesmo sendo naturais, me infligem estados físicos delicados. Todos os meses passo três dias que me põem de cama com dores. ” “Delicada é a tua forma de falar.” “Honesta e forte é a tua maneira de escrever.” Tornaram a beijar-se como dois amantes e então ele leu-lhe várias passagens de “O Malhadinhas”. E riram-se como dois tontos.


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Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

Danças


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Quarta-feira, 27 de Abril de 2011

O Poema Infinito (45): o pecado original

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal é impotência de Portugal? As paredes do mar assaltam os sonhos. Mães de cristal reflectem a luz antiga. É esta uma memória amarga e translúcida. O bálsamo do silêncio persegue a boca frígida da vida, por isso as coisas vivas perfumam o céu de azul. É este o modo antigo do poema. As frases quase obscenas levantam os corpos. O sono afasta-se escrevendo palavras maduras de sexo. As tuas mãos são agora berços. Anoitece. Os meus braços são árvores que falam desdobrando planícies angustiadas. As notícias continuam a mastigar a fantasia. Careço de sossego. Túneis de néon atravessam a ansiedade. Pedem-nos certezas mas apenas vivemos ansiosamente. Colho o teu rosto no meio do sol. Voam olhares pelos jardins da ternura. Alguém semeia camponeses na memória dos citadinos. Deus resplandece nos nossos corpos engelhados de tempo. Crianças colhem corações tímidos. Borboletas cotejam a luz da lua. Van Gogh desce dos astros procurando o cheiro da erva. Mulheres cantam intervalos de chuva. Homens teocráticos passeiam a desgraça alheia. Alguém rega a dor com olhos de água. Bocas deslocam sonhos. Padres baptizam hermetismos. Anjos dividem a morte. Deus joga aos dados com Einstein. O entendimento morre de morte natural. Já não há metafísica suficiente para entender os néscios. Fogos-fátuos rimam com os corpos tristes. A Diabo empresta de novo o pecado a Deus. As frases divinas confundem-se na Babel globalizada. Cristo volta a ser crucificado em nome da paixão humana. Ninguém o salva desta eterna repetição. Os filhos dos homens choram lágrimas salgadas de impotência. O sangue do sacrificado desenha geometrias bárbaras. Barrabás volta a ser libertado em vez do ungido. O bom povo, aos gritos, assim o exige. Os corpos dos profetas são de novo navios de sangue, suor e lágrimas. 


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Terça-feira, 26 de Abril de 2011

O acordeonista


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Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

Iluminações

 

Parece que o ainda líder da recém demitida oposição não revela um talento especial para a política. Não acerta bem nos tempos. Deixa-se levar pelo ressentimento e pela excitação. Como a sua principal preocupação é chegar ao poder a todo o custo, é a isso que se dedica com obstinação. Apesar de legítimo é pouco ético. Vê-se ao longe que o seu talento não é para vir a desempenhar as nobres funções de primeiro-ministro mas sim a de ser gestor de uma empresa privada, com alguns capitais públicos, onde o inglês seja a linguagem de trabalho, pois apenas nesse idioma é que alcança exprimir as suas verdadeiras intenções. 

 

Nota-se que a grande maioria da actual classe política está tão à rasca como a dita geração. Se têm jeito para consertar carros, consideram que devem cantar ópera; se sabem cantar, acham que devem ser engenheiros informáticos; se têm queda para a engenharia querem ser directores escolares; e se revelam apetência pelas relações internacionais querem ser logo membros do Governo. É um despeito. É a necessidade de provar que por terem pertencido às juventudes partidárias são auto-suficientes para exercerem todos os cargos e mais alguns. E quase sempre com os resultados que estão aí à vista. 

 

Não pensem que estou a tentar dar a entender aquilo que estou a dar a entender. Essa não é a minha maneira de ser. Mas sempre vos digo que nos faz falta um Catão (considerado o primeiro escritor em prosa latina de importância; foi o primeiro autor de uma história completa da Itália em  latim. Alguns historiadores argumentam que, de não ser pelo impacto que causaram os seus escritos, o grego teria substituído o latim como língua literária em Roma) ou um Lincoln, que andou mais de seis quilómetros no meio de uma ventania gelada para devolver três cêntimos a um freguês. Está visto que já não existem homens desta têmpera. E mesmo o aio de Afonso Henriques apenas empenhou a palavra, não devolveu o que não era dele. Uma coisa é a palavra, outra bem distinta é o dinheiro.

 

É bem provável que estejamos a viver a época mínima da política. Sinto que nos estão a tratar como meras crianças cuja única parcela de grandeza é igual à que um catraio retira dos reis de contos de fadas. Daí a necessidade de estarem constantemente a invocar os homens que já se foram, pois apenas eles conseguiriam salvar o que dizem já estar irremediavelmente perdido.

 

Mas rejubilemos, pois, como muito bem explica o meu amigo R., não devemos ficar zangados porque alguém nos diz a verdade. Isto se tivermos a sorte de encontrar quem nos a diga.

 

Isto está tão mal que qualquer dia a Europa faz-nos o que os esquimós fazem com os familiares velhos: deixam-nos numa casota de gelo com comida para dois dias. E o pior não é o abandono, mas a esmola. Porque uma coisa é comer a própria comida, outra bem diferente é comer um prato esmolado, mesmo que o valor em calorias seja o mesmo.

 

Sente-se no ar a tragédia. Acho que os portugueses nunca antes se observaram uns aos outros com tanta hostilidade. Permitam-me a sinceridade, considero que se está a fazer tanto ruído à volta da nossa situação política, económica e social que não vai ser possível tomar uma decisão correcta. E a mentira hesita no ar. Não é por se dizer uma mentira dezenas de vezes que ela se transforma em verdade. Mas, convenhamos, é isso o que a maioria dos políticos faz. Acredita nas suas próprias mentiras repetidas até à exaustão. Depois passam a acreditar nessas suas palavras, a acreditar no poder da fala. Mas uma coisa é falar bem, outra, bem distinta, é dizer a verdade.

 

Eu continuo a desconfiar dos iluminados que nos apontam o caminho. Torço o nariz àqueles que se colocam à frente do resto da turbamulta para interceptarem o grande raio social. Suspeito dos que fazem queimadas no meio da sociedade portuguesa. É que os jorros de fogo podem provocar um incêndio que desbaste o país.

 

Sei que ainda não estou suficientemente velho para estar cansado da política. Mas cada vez mais me sinto confinado a escutar a minha própria consciência. É a isso que dou valor.

 

Em verdade vos digo que não sei se esta situação podia ter sido evitada. Todos sabemos que ela é irremediavelmente má. Sinto, no entanto, que quem se achar com forças para encontrar uma saída é um homem esperançoso ou, simplesmente, tolo. 


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Domingo, 24 de Abril de 2011

Linhas do Tempo


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Sábado, 23 de Abril de 2011

Expressões


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Sexta-feira, 22 de Abril de 2011

O Homem Sem Memória

 

60 – Ele apareceu. Ela não. Nunca se sentiu tão triste. Foi para o seminário e escreveu-lhe uma carta que intitulou como Primeira Epistola de José à Sua Namorada. Rezava assim: Esperei-te mesmo antes de te esperar. Esperei toda a noite que amanhecesse. Esperei toda a manhã que chegasse a hora do almoço. Depois esperei pela hora da saída dos estudantes do Liceu. O tempo não passava como era habitual. E, decorridos os dez minutos que se demora a chegar ao jardim, desesperei. Esperei mais um pouco. Esperei outro. E outro ainda. E tu não apareceste. Apenas alguns pares de namorados sorridentes, de olhos brilhantes, a chilrear como pássaros ao sol, com as mãos saltitantes e com as bocas sequiosas, é que se passeavam na minha frente numa felicidade que me magoou até à alma. Pareciam querubins. Mas tu não chegavas. Tu, definitivamente, não chegaste. Desesperei mais um pouco e como, irremediavelmente, não apareceste, voltei para o seminário. Não consegui jantar. Os padres vieram ter comigo ao quarto e perguntaram-me se estava doente. Disse-lhes que não. O que era mentira. O que eu sentia era doentio. Só podia ser. Não está bem de saúde quem sua porque pensa numa mulher, ou quem chora porque não ouviu a sua voz, ou quem se desespera porque falhou um encontro. Não se encontra no seu perfeito juízo quem faz juras de amor a Cristo na cruz pensando exclusivamente na namorada. Não se encontra nada bem quem pensa vender a sua alma a Lúcifer em troca de conquistar a mulher cobiçada. Poucas vezes me senti tão mal. Nem depois da operação às amígdalas. Perguntaram-me os pinguins do seminário se tinha, por alguma razão especial, iniciado algum jejum espiritual. Disse-lhes que sim. E não menti. Se na noite anterior tinha adormecido como um santo, nesta dormi como um demónio agitado. Não sonhei contigo. Sonhei com a tua ausência. Eu, que ainda não tinha conseguido incorporar-te na minha consciência, comecei a sofrer a tua ausência. E isso é como estar doente antes de o estar. Eu, que ainda mal comecei a adorar o teu sorriso rápido e claro, a estimar o teu olhar doce e sincero, a amar o teu andar decidido e perplexo, o teu corpo esguio e bem esculpido, desabei em cima da minha credulidade. O amor não é um fogacho. Eu é que sou para aqui um parvo que se apaixona logo ao primeiro olhar. Uma rapariga como tu, para mim, é uma deusa. Mas eu para ti devo ser algo como um foguete numa festa de Verão. Sinto que não te toquei o coração. Eu sou para aqui um parvo a quem deves ter concedido alguma da tua amizade. Mas eu, para que saibas, não consigo ter amigos, quanto mais amigas. É estranho que nunca me tenha sentido tão só na vida. Eu que sou um solitário. Não consigo ler, não consigo comer, não consigo falar. Rezo. Mas não a Deus. Rezo para ti. Rezo porque tenho pena de mim próprio. Rezo como uma beata para que não me deixes. Tu que ainda mal chegaste à minha vida. Rezo para que o tempo passe rápido. Rezo para que apareças. Rezo para que sejas o meu milagre de Fátima. O amor entre dois seres humanos é uma coisa quase demoníaca. É uma febre de posse terrível. Penso nos teus olhos e quero-os só para mim. Quero-os fixos nos meus. Sem se poderem desviar para mais ninguém. Penso nos teus lábios e remordo-me de ciúme só de pensar que possam ter beijado algum outro rapaz.  Eles que nem tocaram nos meus. Penso nas tuas mãos e assemelho-as às da Virgem Maria que se encontra no altar da capela do seminário: alvas, frágeis, doces. Sofro porque não te tenho. Penso no teu corpo e ardo de desejo. E sofro. Sofro porque penso na possibilidade de que outro, que não eu, o possa possuir. Sofro porque não te tenho. Sofro porque te espero. Sofro porque te desejo. Sofro porque não te vejo. Sofro porque mal te conheço. Sofro porque sofrer tanto depois de um encontro com uma rapariga que mal se conhece é tão estúpido que dá pena. Sei que outros da minha condição, por amarem tanto como eu, flagelaram a sua carne com severidade. Eu não consigo. Sou capaz de morrer à fome por um ideal. Mas bater em mim próprio não consigo. Essa talvez seja uma outra forma de prazer. Perverso por certo, mas prazer. No fundo, o prazer é uma outra forma de dor. Por isso é que gememos quando atingimos o orgasmo. E quanto mais prazer temos mais gememos. É uma dor ao contrário. Antes de me sentar para escrever esta carta joguei xadrez com um colega que se tem revelado um quase amigo. E digo quase porque eu não consigo ser verdadeiramente amigo de ninguém. Bebi quase uma garrafa de vinho do porto. Perdi a partida de xadrez mas ganhei coragem para te escrever o que acabei de escrever. Peço desculpa pela sinceridade. Mas o meu compromisso com a verdade é para mim sagrado. Amo-te. Não há outra maneira de dizer aquilo que sinto. Mas sou pessoa para te dizer que a palavra não encerra em si tudo aquilo que experimento. Além de me parecer um pouco estúpida. 


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Quinta-feira, 21 de Abril de 2011

Autógrafo


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Quarta-feira, 20 de Abril de 2011

O Poema Infinito (44): a iluminação das palavras

 

A vida surge por entre o espectáculo silencioso das coisas. Recomeça a germinar o tempo cansado das árvores. Gritos claros condensam os sonhos rápidos das crianças. Raparigas eternas navegam na consciência dos rios. Chega o cheiro grávido da madrugada. Lisos corcéis de bruma reacendem a coragem dos deuses sem futuro. Das paredes redondas do dia jorram memórias brancas temperadas por olhares silenciosos. Uma vertigem lenta apaixona-se pelos horizontes trémulos do teu corpo. Um sopro constrói o desejo. Revejo de novo a certeza oculta do teu sexo. Nesse intervalo o espaço vive dentro dos teus olhos ilimitados. Respiramos na margem da paixão. Todas as palavras se iluminam por dentro. Todas as formas se prolongam no esboço dos teus seios. O desejo é uma distância calma onde navega o branco espesso da luxúria. Palavras nuas inflamam-se na sombra nos novos nomes. O equilíbrio da música é agora uma tentativa de movimento livre. Os nossos corpos são de novo pasto de movimentos transparentes. Os nossos corpos são barcos que respiram danças de água e luz. A posse respira lentamente nas nossas ancas. Um fogo erótico navega no entusiasmo dos sonhos. O mito do amor consome a esperança do desejo. As palavras nuas envergonham-se agora do nosso pecado. Viajamos por entre as nebulosas. Estamos nus e giramos na evidência das palavras. Anjos exactos escrevem frases suicidas. Somos de novo a voz inicial dos jardins profundos. O sabor a pão das rosas não é o nosso álibi. O som longínquo do mar dorme na espuma do silêncio. Nós trazemos preso, na garganta, o travo aflito da verdade.


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Terça-feira, 19 de Abril de 2011

São Sebastião partilhado


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Segunda-feira, 18 de Abril de 2011

Panegírico incongruente

 

Estávamos nós a observar os movimentos de um cão, mais a sua dona, com a nítida intenção de evacuar nas ervas do jardim, quando o G. se saiu com esta: “O Ca…Ca… Ca… va… va… co, nes… nes… nes… ta crise po… po… po… lí… lí… ti… ti… ca es… es… es… tá a comportar-se co… co… mo os meus tes… tes… tes… tí… tí… cu… cu… (risos) los, colabora mas não entra.” Todos nos rimos a bom rir, para espanto do poodle e da sua querida dona.

 

O J., olhando de lado para o G., disse pesaroso: “A história tende a repetir-se. Na primeira vez como comédia e na segunda como tragédia.” E para ali ficamos calados observando como depois de o cão colocar o seu cocó na zona pública, se foi dali com uma calma e uma elegância quase a raiar o obsceno. O mesmo se pode dizer da sua dona.

 

O meu amigo G. é gago, no entanto possui uma inteligência muito viva. Tem um rosto rechonchudo, mas expressivo, característica que o torna muito parecido com o presidente da Assembleia da República, Jaime Gama. É frágil. E por causa da sua insuficiência, costuma defender-se com os vários exemplos da história dos deficientes: a imbecilidade dos espartanos; o facto de Demétrio, o feiticeiro bíblico, possuir um braço enfezado; de Moisés ser gago como ele; de César e Maomé sofrerem de epilepsia; de Camões ser cego de um olho.

 

O G., quando tinha doze anos, era já um grande jogador de hóquei em patins. Podia perfeitamente ter sido um campeão no F. C. Porto. Mas perdeu o interesse. Depois tornou-se, com a ajuda do pai, que também era gago, um especialista em selos. Mas também perdeu o interesse pelo coleccionismo. A seguir foi comunista, mas isso também não durou. Daí passou a estudar fagote, prática que abandonou ainda a meio. Podemos dizer que teve diversos interesses, mas nenhum o satisfez. Quando foi para a universidade confessou-me que o seu sonho era poder ser um cardeal renascentista. Ele sabia que as obras de arte não são eternas. Que a beleza é perecível. Que o tédio nasce do esforço inútil.

 

Ele não gosta do Cavaco por causa da sua personalidade monótona. Mas diz-se adepto de Sócrates. Considera-o um verdadeiro líder. Pois quanto mais forte é uma sociedade, mais ela exige que nós nos mantenhamos preparados para cumprir as nossas obrigações sociais. E quanto maior for a nossa disponibilidade, menor será a nossa importância. Diz que é isso o que não perdoam ao primeiro-ministro demissionário: a sua disponibilidade, o seu sentido de missão. Afirma, quase sem gaguejar, que vai ficar na história como o melhor primeiro-ministro pós 25 de Abril. O que nos pôs a todos a chorar… de riso. “Fo… fo… fo… dei… dei… vos”, esclareceu.

 

“Não estou a dizer-vos que a… a… meis o… o… homem. Apenas que lhe res… res… res… pei… pei… teis a obra. Eu sei que quan… quan… quan… to mais amarmos uma pe…. pe…. sso… sso… a mais ela é capaz de nos en… en… ganar. As crianças a… a… mam, as pessoas res… res… peitam. O respeito é melhor do que o a… a… mor”, disse o G. a gaguejar nas entrelinhas. Nós tornamos a chorar de riso. “Fo… fo… fo… dei… dei… vos”, concluiu.

 

Depois de uma breve pausa voltou à carga: “É meu dever de a… a… a… migo abrir-vos os o… o… o… lhos. Neste mundo em que os cré… cré… cré… du… du… los, amorosos e sim… sim… ples vivem cercados pe… pe… los astuciosos e du… du… ros de co… co… ração, um homem bom ten… ten… de a ser perseguido e vi… vi… li… li… pendia… a… do. É a… a… a… vida. O homem fo… fo… (da-se) fo… fo… i seduzido pelos vo… vo… tos de confian… an… ça.”

 

Mas foi com o final da sua intervenção que nos pôs a pensar. Se não acreditam, leiam e depois conversamos. “A de… de… mo… mo… cra… cra… cia não é um fim. É, antes, um pro… pro… cesso dinâmico que exige a… a… profunda… da… mento e constante aperfei… fei… çoamen… men… to. Em democracia, os po… po… po…. po… (po… po… rra) po… po… líticos e os go… go… go… ver… ver… nantes não podem esperar vi… vi… tórias retumbantes e muito me… me… nos a… a… ceitar derro… rro… tas to… to… tais. Haverá sempre vi… vi… tórias e de… de… rrotas, pe… pe… quenas ou gran… gran… des, pouco im… im… im… porta. A arte da po… po… lítica democrática está no pro… pro… ce… ce… sso interminável que é pô-la em prá… prá… tica, através de um pro… pro… pró… ce… ce… sso que exige or… or… ganiza… za… ção, renova… va… ção, inova… va… va…. ção e adaptabi… bi… lida… da… de, procurando, sobretu… tu… do, melhorar a go… go… verna… na… ção. A nós cabe-nos pro… pro… teger e pro… pro… mover a democra… cra… cia. Ficai sabendo que os pro… pro… cessos democrá… crá… crá… ticos não são estradas de sentido ú… ú… ú… nico. Tanto a… a… vançam como re… re… cuam. Sócrates é, neste mo… mo…. mento, um ho… ho… mem sentado. E um homem sentado, como diz o pro… pro… pro… vérbio, já não pode cair, só es… es… pera levan… van… tar-se. A Cavaco, a Pa… pa… ssos Coelho e a Paulo Por… por… tas resta-lhes o ca… ca… minho de tentar pa… pa… rar o ven… ven… to com as mãos. Pois quem se… se… meia ventos co… co… lhe, com toda a cer… cer… teza, tempesta… ta… des.”


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Domingo, 17 de Abril de 2011

Sintonizar a rádio


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Sábado, 16 de Abril de 2011

Atenção


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Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

O Homem Sem Memória

 

59 – José só vislumbrava uma possibilidade de fuga à condição do frio e da solidão. Arranjar namorada. Por isso começou a rondar, sempre que o dispensavam, o Liceu e a Escola Técnica. Namorar uma rapariga não podia ser pecado maior do que um aprendiz de padre ter frio e ir-se deitar na cama de outro homem. Um homem dormir com outro homem em pecado é um sofrimento pavoroso. Passou a andar ainda mais sozinho.

Lia nos jardins, enternecia-se com o frágil bailar dos pássaros, com os seus cânticos chilreantes e buscava inebriado uma rapariga que o atingisse com o seu encanto e se deixasse tocar pelo desespero amoroso e solitário. Um dia encontrou-a. O que lhe chamou logo a atenção foram os seus enormes olhos. Que eram verdes, com pálpebras como asas de cotovias e pestanas grandes e genuinamente arqueadas. Usava calças à boca-de-sino, muito coloridas e estampadas com losangos, muito cingidas nas ancas, torneando-lhe às nádegas e as coxas com um toque clássico. Era fácil adivinhar-lhe a nitidez do corpo. E para isso a blusa, também apertada, sugeria linhas esbeltas e uns seios bem proporcionados. Também tinha uns lábios carnudos e um sorriso cheio de alegria reservada, mas genuína, revelando uma certa instabilidade emocional. Ela estudava no Liceu. Como era de Tourém, vivia interna numa residência de freiras. Foi por ser do barroso que estabeleceram de imediato uma amena conversa. Para não haver equívocos futuros, disse-lhe logo que era estudante no seminário. Ela sorriu e disse que, pelo que sabia, a amizade com raparigas não estava proibida aos seminaristas. Ele, sorrindo também, confirmou a evidência. “E se a amizade fosse dar a outra coisa?”, perguntou-lhe o José atrapalhado. “Aí logo se vê. O futuro a Deus pertence”, respondeu ela sorrindo muito, fazendo brilhar o marfim dos seus lindos dentes. Ele, rindo-se mais, exprimiu que essa era uma ideia pela qual tudo faria para não olvidar. E continuaram a falar esquecendo-se do tempo e da condição. Galhofando como tontos, felizes por recordarem a beleza agreste da sua terra, o frio e o calor da lareira, a ceia fumegante comida no escano, a saudade da família, as brincadeiras com os colegas, a liberdade. Ambos confessaram que se sentiam sozinhos e que tanto as freiras como os padres eram pessoas de coração duro, de palavras agrestes, de sentimentos pouco cristãos, falsamente puritanos, sexualmente ambíguos e sentimentalmente promíscuos. Eram pessoas secas, com pouco para dar. Como se a dedicação a Deus lhes roubasse a grandeza humana que tanto apregoavam. Descobriram que gostavam muito de ler, por isso combinaram trocar livros e ideias. Feliz, o José convidou-a para irem beber uma laranjada ao café. Ela recusou porque por lá lanchavam muitas das beatas que frequentavam a igreja e praticavam a caridade como quem compra um bilhete da lotaria para a eternidade. Ele sorriu muito com a expressão e disse-lhe que tinha jeito para utilizar as palavras com verdade e com graça, por isso devia escrever. Ela desculpou-se, lembrando que era uma leitora atenta. José lembrou-lhe que um escritor é sempre o melhor dos leitores. Ela, deixando-se levar pela emoção provocada pelo elogio, beijou-o ternamente na face como se fosse sua grande amiga. Ele corou. Ela sorriu ainda mais e afirmou que a sua timidez era amorosa. Ele tentou abraçá-la, mas ela esquivou-se ternamente e disse-lhe: “Cada coisa a seu tempo. Não nos precipitemos.” Ele pediu-lhe perdão. Ela respondeu-lhe que não era para tanto. “Só que não gosto de precipitar as coisas. O que tem de ser será. Temos tempo de sobra para pecar. Por agora limitemo-nos a desfrutar deste momento que, por ser irrepetível, é sagrado.”

Combinaram um encontro para o dia seguinte. Cada um prometeu levar um livro para troca.

Para grande espanto dos lúgubres colegas, o solitário José dormiu toda a noite com um enorme sorriso nos lábios. 


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Quinta-feira, 14 de Abril de 2011

Tão caras?


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Quarta-feira, 13 de Abril de 2011

O Poema Infinito (43): a eternidade

 

A eternidade é um relâmpago. As vias do desassossego voltam a invadir o horizonte, descobrindo na sua unidade aberta ímpetos concretos de paixão. São altas as palavras estremecidas pela tua ausência. A luz tropeça nos ponteiros da gravidade e a alma estuda as promessas que se separam de Deus. Religiões longínquas distanciam-se do ímpeto concreto da vigília. O silêncio maior toma agora conta do rigor profundo do adeus. O teu corpo emudecido irradia nomes transfigurados. Um dilúvio de brilhos torna feliz o silêncio acústico da água. Noé e os seus animais descem da arca espantados com o paraíso. O mundo é agora um domingo sacramentado pelo eco da salvação. O pensamento abre a claridade das causas imponderáveis. O tempo urge. É ainda antigo o pecado original. É ainda ancestral a posse vaginal. É ainda vingativo o enigma da vida. A lei da sobrevivência dispensa a sabedoria dos livros. A terra recupera os seus frutos maduros. A noite sossega o dia. Os homens sábios estudam a velhice e erguem-lhe monumentos exaustos. Os corpos e os espíritos misturam-se compenetrando-se da sua abstracção. Deus dá indícios de impaciência. Os anjos tremem. A Sua subtil firmeza de absurdo queimou o exercício da vida. A solitária teimosia da criação do mundo discriminou, para sempre, a razão humana. Por isso somos a energia do nada. A energia da epifania do sagrado. Os homens implodem na gravitação do infinito. Somente a glória do presente concede as tréguas da vida. A memória é um fósforo cicatrizado na lucidez. A luz divina repousa agora na harmonia do silêncio. E esse silêncio rompe o eterno vagar do sentido da vida. Deus escreve na escuridão antiga do Verbo. Por isso o mundo está suspenso na irracionalidade. A matéria põe a mesa do espírito. A transparência luminosa da glória consubstancia a unidade da vida. Deus pede o resultado da sua ordenação. A sua tepidez divina estende-se pelo sofrimento iluminado da lei, da ordem e do caos. Os anjos ganham sexos robustos por desregramento celestial. A eternidade já ultrapassou o seu excesso de felicidade.


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Terça-feira, 12 de Abril de 2011

Sol e sombra


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Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

Nostalgias

 

Hoje acordei nostálgico. Sou daqueles que gosta mais da lembrança do que do aroma da flor presente. Sou daqueles que sente saudade de qualquer passado. Por isso tenho uma alma romântica. Apesar do meu cinismo.

 

Recordo-me perfeitamente do A., um camarada meio aristocrata meio revolucionário, que, depois do 25 de Abril, apesar de se dizer filho adoptivo da classe operária, utilizava, com todo o requinte, nas campanhas de dinamização cultural por essas aldeias fora, perante a incredulidade do povo analfabeto e dos militares do MFA, os seus cremes de barbear e os seus cigarros de luxo.

 

Mesmo no meio das serranias conseguia encomendar refeições abastadas, comendo-as com todos os requintes. E era com certa tristeza, e inveja, que ao almoço, ou ao jantar, partilhávamos tão sublime momento. Nunca vi, homem ou mulher, revolucionário, reaccionário ou indiferente, alimentar-se com tanta delicadeza.

 

A. podia perfeitamente, à semelhança do rei Luís XIV, o Rei-Sol, convidar todos os seus amigos para o espectáculo que era vê-lo nutrir-se. E, para cúmulo, comia tão bem como pensava. Nunca mais conheci pessoa tão inteligente como o A. Isto apesar de ter conhecido durante a minha vida quatro ou cinco pessoas verdadeiramente inteligentes.

 

A., para espanto de quase todos, viveu durante algumas semanas no meio dos montes, das pessoas e dos animais. Dormia no chão. Deitando-se com o Sol e levantando-se com o Sol. Ele que tão habituado estava às noitadas, lendo até ao amanhecer e dormindo até do meio-dia, que era a altura em que se levantava para almoçar, fazendo vida de menino rico, que era aquilo que verdadeiramente era.

 

O J. era o oposto do A., falava muito e atrapalhava-se com frequência. Por isso os seus amigos tinham criado uma frase que repetiam amiúde: «J., faz uma pausa.», era essa a forma mais delicada que todos utilizavam para interromper a sua verborreia. E a comer metia impressão. Este era o chefe de brigada. Apesar de chefe não tinha charme nenhum. E um dirigente revolucionário sem charme é como um capitalista sem capital.

 

O A. costumava dizer muitas vezes: «O segredo da felicidade está em aceitar o que a vida nos dá.» Ao que todos respondíamos: «Isso é muito reaccionário.» Ele fechava-se em copas e punha-se a fumar um dos seus cheirosos cigarros e a ler um livro, que, apesar de afirmar a pés juntos ser da autoria de um verdadeiro marxista-leninista, nunca era de nem de Marx nem de Lenine, ou de qualquer dos muitos sucedâneos.

 

A. era também um excelente contador de histórias. E nunca contava daquelas que têm um fim majestoso porque, segundo dizia, nas grandes histórias o fim nunca acontece onde nós esperamos.

 

O A., nas suas noites de inspiração, olhava para o céu estrelado e dizia coisas tão inteligentes como esta: «O homem é fundamentalmente um contador de histórias. Procurar um desígnio, buscar uma causa, lutar por um ideal é, quase sempre, a busca de um enredo e de um modelo para o progresso da história da humanidade.» Para rematar citava Fernando Pessoa por entre o chocalhar dos badalos dos animais nas cortes ou um que outro ladrar de um cão esfomeado: «A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida.»

 

Apesar de, naquela altura, namorar uma rapariga encantadora, mas pobre, casou-se com uma matrona rica, irritante e rabugenta, capaz de transformar a vida a dois num inferno devido ao seu espírito quezilento. Mas, como todos sabemos, um poeta satisfeito é um poeta medíocre. Um poeta feliz é insuportável. Na idade madura pôs de lado os poemas em que se queixava das suas desgraças matrimoniais para compor uns verdadeiramente sublimes onde insultava a sua mulher.

 

Nos seus tempos de revolucionário, nos intervalos das campanhas de alfabetização, disfarçava-se de amante e gostava de se estender no sofá enquanto a sua namorada de ocasião se despia à luz das velas e untava os braços, à semelhança das mulheres árabes, com uma mistura de azeite e verbena. Nesse momento, ela olhava para ele tentando perceber aonde poderia chegar a excentricidade. E ele, fazendo-se de sonso, baixava os olhos e invariavelmente dizia: «Ainda bem que não és modesta quando se trata de vir para a cama. És a minha mulher. Preferia viver como teu escravo para todo o sempre a passar um único momento sem ti». Repetiu isto a uma vintena de miúdas. Todas de esquerda. E a estratégia resultou sempre.

 

Dali a dois dias já ele estava novamente na serra a tentar fazer a revolução, a fumar os seus cigarros de importação e a ingurgitar, com todo o requinte, as suas frugais refeições que a todos deixava água na boca.

 

Os processos revolucionários têm destas preciosidades. Daí a expressão popular: deitar pérolas, com vossa licença, a porcos.


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Domingo, 10 de Abril de 2011

Janela discreta


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Sábado, 9 de Abril de 2011

Diálogos


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Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

O Homem Sem Memória

 

58 – Desta vez foi para o seminário sozinho e a assobiar. E fumou na paragem para almoço. E riu-se. E emocionou-se quase até às lágrimas. E sentiu-se um macho vencedor. E ainda leu boa parte da Via Sinuosa de Aquilino Ribeiro. Foi mesmo capaz de desculpar o choradinho da mãe, a gaguez do pai, as lágrimas sentidas do Virtudes e as promessas de amor eterno da irmã do Alcino. Talvez fosse um pecado enorme aos olhos de um Deus bondoso, mas da rapariga que lhe entregou a virgindade na sacristia apenas lhe desejava o físico. O amor tem de ser outra coisa. Obrigatoriamente. O amor é muito mais do que possuir um corpo. É muito mais do que penetrar uma vagina, do que apalpar seios e nádegas, muito mais do que beijos. O amor é como uma febre partilhada. É o ciúme doloroso de mais alguém poder partilhar, sequer, um olhar da mulher amada. O amor é uma insatisfação constante. Uma necessidade inadiável. Só quando dói é que o amor é verdadeiro. E como agora não sentia isso por ninguém, concluiu, e bem, que já não amava, que nunca tinha amado verdadeiramente alguém. A Luisinha ainda foi ícone para uma ou outra masturbação em noites de instabilidade psicológica. A irmã do Alcino ainda foi tema de conversa entre si e o padre que lhe servia de orientador espiritual. Depois ambas ocuparam o espaço dos cromos da bola ou dos santinhos do missal. Até mesmo as zonas erógenas foram sendo diluídas pelas nuvens do tempo. Delas ficou uma terna saudade. A mesma que passou a dedicar aos amigos do peito, ao sol de Agosto, à neve de Inverno, à lareira nas noites de geada, aos chouriços de cabaça.

Transformou-se num cavaleiro solitário. Cada vez mais metido dentro de si. Rezava muito. Meditava ainda mais. Estudava o suficiente. E lia com avidez todos os livros considerados malévolos. Especialmente os evangelhos apócrifos.

Muitos dos seus colegas, pretextando frio e solidão, deitavam-se nas camas uns dos outros. Até alguns padres se atreveram a exercício tão pouco recomendável aos olhos da Madre Igreja e aos homens de um prazer só. O frio era muito. Era sim senhor. Mas aquela necessidade premente, urgente, convergente, indiciava algo mais do que isso. A necessidade, dizem, cria o órgão. Mas o José, para o bem e para o mal, era muito senhor do seu cu. E do seu pénis também. O pecado da depravação era-lhe inconcebível. Mais facilmente acreditava na infalibilidade de Deus do que numa relação homossexual. Com muita mais facilidade acreditava na virgindade de Nossa Senhora do que na possibilidade de obter prazer através da sodomia. Era, sempre foi e sempre será, uma criatura prudente. Viu muita coisa, ouviu ainda mais, mas sempre soube ver, ouvir e calar. Não era defeito, era mesmo feitio. Mas, por mais que tentasse disfarçar, fugia dos friorentos e solitários como o diabo da cruz. Muitas vezes lhe perguntaram se não tinha frio. Outras tantas respondeu colérico: “Vai-te foder.” Ao que os friorentos, ou os mais gozões, retrucavam: “Dizer asneiras é pecado.” Ao que ele invariavelmente respondia: “Muito maior é o pecado da sodomia.” Ao que o Padre Manuel, o irmão mais feminino do seminário, contrapunha: “Calai-vos, por amor de Deus. O senhor reitor pode ouvir”.

Numa coisa os seminaristas friorentos e solitários eram heróis: no silêncio. Comiam e calavam. Nisso eram muito discretos. Muitos deles acreditavam, ou faziam que acreditavam, que aquilo que não se vê não existe. E à noite todos os gatos são pardos. E a carne é pecadora. Toda a carne. E Deus não peca porque é feito de outra coisa. De um material neutro, incolor, inodoro, insípido, incombustível. Deus não peca porque não tem frio. Porque não se sente só. Porque não tem que procriar. 


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Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

Sorriso


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Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

O Poema Infinito (42): as mulheres sábias

 

As mulheres sábias matam os pássaros do desejo para dançarem enfeitadas com as suas plumagens. Apelidam-nas de cruéis. Elas inclinam a cabeça e isolam-se em movimentos metálicos cheios de dor. Os seus corpos misteriosos estendem-se nos caminhos tranquilos das montanhas e esperam. As suas mãos respiram o sono do tempo, a distância dos rios, o perfume dos lençóis de musgo. Os seus corpos respiram os caminhos estreitos de madressilvas e os ecos do voo dos pássaros. Uma textura fina nasce do cântico frio do sono. A solidão desce as escadas do silêncio e grita gestos perplexos. Um colorido de luz fica imobilizado na memória dos curandeiros cegos. As mulheres sábias retiram-se agora presas no clamor dos guerreiros assombrados pela morte dos seus inimigos. Dizem acreditar no amor. E depois gritam poemas mudos de pavor. Os corpos esvaziam-se do desejo. Um delírio espesso ergue-se na madrugada. As mulheres sábias acendem agora fogueiras. A vontade do amor é afogada pelo desejo súbito da chuva. Estão tristes as mulheres sábias porque os seus homens dormem o sono da morte. Por isso não conseguem comer, nem beber, nem dormir. Dói-lhes a claridade do sofrimento das mulheres dos guerreiros derrotados. Dói-lhes o tempo de não ter tempo. Dói-lhes a espera. Doem-lhes os filhos que não vão nascer. O medo é agora uma tontura escrita em pergaminhos reais. Por isso choram. A memória fica coberta de sangue. Os guerreiros acordam aflitos e começam a dançar em redor das fogueiras. Os campos abrem-se para receber os corpos dos desaparecidos. Nas montanhas justificam-se os rios por entre as árvores perplexas. Arrepios longínquos prolongam-se pelas estradas do império. Os gritos de vitória soam como verdades inúteis. As mulheres sábias vão por fim pentear-se nos espelhos correntes dos rios que lavaram as mãos sujas de sangue dos guerreiros vitoriosos. 


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Terça-feira, 5 de Abril de 2011

Hora do almoço


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Segunda-feira, 4 de Abril de 2011

Amigos

 

O meu amigo F. anda muito sorumbático. A sua equipa de futebol vai perder o campeonato e seu partido meteu-se numa alhada da qual não vai conseguir sair sem perder alguns anéis e, estou em crer, um que outro dedo. Agora deu-lhe para tecer loas, não ao Sócrates, que foi chão que já deu uvas, mas à água. Tem por ela uma espécie de amor supersticioso, diz que nada há melhor para o homem, nem sequer a mulher. Eu permiti-me discordar. Mas ele insistiu no sabor da água, no som da água, na vista da água. Diz que nada o acalma mais. Depois põe-se a chorar. E confessa que é um amante do que é pobre e do que é fraco. Diz que lá na quinta, quando recebe a visita dos netos, sente subir por ele acima tamanha saudade que se põe a acariciá-los com tal intensidade que por vezes quase os magoa. Agora tudo o que vive lhe merece amor. Ele que foi uma criança travessa, um adolescente irreverente e um adulto belicoso, agora não consegue pisar um formigueiro e condói-se até ao pranto com a sede de uma planta. Deprimido como anda, deu-lhe para descobrir, através de uma fotografia antiga publicada num blog, uma grande semelhança do seu filho com um avô da sua esposa, que diziam meio louco, e por ter traído os republicanos por trinta dinheiros se enforcou na figueira que ainda subsiste numa das suas terras abandonadas. No entanto, e apesar de tudo, gosta do seu país. Põe-se de pé sempre que o hino toca, e chora se assiste ao hastear da bandeira quando o nosso compatriota Obikwelo ganha uma medalha de ouro.

 

De outra massa é feito o R. Esse é todo derrotista. Sente-se mal no país. Acha mesmo que Portugal não o merece. Diz que o país importa tudo. Até putas e atletas. Importamos leis, ideais, teorias, romances, filosofias, políticas, assuntos, ciência, tecnologia, estética, ética, estilo, moda, indústria, futebolistas, maneiras, doenças, remédios e anedotas. Vem tudo em contentores. O progresso custa-nos os olhos da cara. E não presta porque é em segunda mão. Não foi feito por nós e, muito menos, para nós. A forma é mais larga, mais alta e mais funda. Nesta sua nova fase, que pensamos passageira, como tudo nele, recita-nos uns poemas mexerucos que diz escrever, imitando a voz do saudoso João Villaret, animando-se com o decorrer das cacofonias e das rimas, ferindo as palavras mais delicadas, beijando as locuções mais ásperas, soltando interjeições com uma sonoridade tonitruante nos finais de cada estrofe. Ele, que já foi político, queixa-se agora penosamente da sua falta de memória. Essa é a principal doença que ataca quem foi servidor da polis. No entanto critica nos adversários a pouca memória em relação ao passado recente. Uma coisa que é indispensável a quem segue a vida pública.

 

Já o L. queixa-se amargamente da falta de elites em Portugal. E, já agora, da falta de pessoas e de pessoal. Quer-se um primeiro-ministro vai-se buscar aos partidos maioritários um burocrata sem carisma, currículo e inteligência. Quanto mais cinzento melhor. Quer-se um presidente vai-se buscar um ex-primeiro-ministro maldisposto, frustrado e reformado ao baú dos partidos maioritários. Quer-se um varredor para o serviço de limpeza municipal vai-se buscar um dos militantes desempregados do partido que ocupa a cadeira presidencial na autarquia do concelho. Quer-se arranjar um gestor para um banco vai-se à procura de um ex-ministro de um governo dos partidos maioritários. Quer-se arranjar um canalizador começa a busca da agulha no palheiro. 

 

Apesar de tudo aprecio o J. que colecciona bustos dos tiranos (Hitler, Lenine, Estaline, Mao, Fidel, Salazar, Mussolini, Pinochet, etc.) para transformá-los nos seus alvos de injúrias. O J. é muito engenhoso. E muito inventivo. Sobretudo quando odeia. Gosta do seu bocadinho de espírito. Por alguma razão é o meu amigo mais chegado.

 

Motivo de chacota no grupo é o C. que, agora nos cinquenta, resolveu apaixonar-se de novo, e por uma emigrante do Leste loira e roliça como uma pêra Williams. É o amor em tempo de crise. Escreve-lhe cartas de amor finas, delicadas e frescas. Diz-se surpreendido com a felicidade em olhar as estrelas quando o céu está limpo, ou em ir ao mercado pela manhã comprar flores para oferecer à mulher amada. Tem na alma um eterno sorriso que os seus lábios repetem como se fosse tolo de todo. Dá pena. Mas também apela à ternura do grupo. E se há coisa que nós sejamos é ternurentos. É a ternura dos cinquenta.


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Domingo, 3 de Abril de 2011

Telefonema


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Sábado, 2 de Abril de 2011

O sapateiro


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Sexta-feira, 1 de Abril de 2011

O Homem Sem Memória

 

57 – Pedro três vezes negou Jesus. Outras tantas negou Luisinha o José. Negou-o quando disse que não tinha namorado, quando afirmou que não gostava dele e quando revelou que, verdadeiramente, nem sua amiga era. Três vezes passou o José em frente da casa da Luisinha. E três vezes regressou de lá mais triste que a própria tristeza. Apesar de ainda a amar, na sua memória o rosto da Luisinha começou a transformar-se numa fotografia cada vez mais desfocada. E, nesse entretanto, a sua amada passou da negação à traição. Começou a sorrir, com um sorriso daqueles que apenas se vêem no cinema, e a farfalhar com os piropos de um adónis mais bronzeado do que um rebuçado da Régua. Apaixonou-se. Ou quase. Esqueceu-se das promessas de amor eterno ditas e juramentadas a lágrimas grossas no dia anterior à ida do José para o seminário. O filho do guarda Ferreira até era bom rapaz, relativamente bonito, relativamente educado, relativamente culto, mas era pobre, de famílias humildes, filho de gente rude. E andava a estudar para padre. Apesar de jurar que depois de concluir os estudos no seminário estava determinado a abandonar a carreira eclesiástica para se casar com a Lusinha, a Luisinha nunca acreditou que a promessa fosse para valer. A não ser padre, a que cargo com algum prestígio social é que o José podia aspirar? E o adónis da Póvoa era um regalo para os seus olhos de saloia consumada. Nestas coisas as raparigas são como os passarinhos que se deixam hipnotizar pelas serpentes e vão enfiar-se tolamente na sua boca sem emitirem o mais leve pio. Tonta de excitação, deixou-se apalpar e beijar sem sequer ter feito qualquer tipo de contrato verbal com o rapaz de bronze. A Luisinha todos os dias pecava por palavras, pensamentos, actos e omissões e uma que outra perversão masturbatória.

Por seu lado, o José, que não tinha cão para caçar, começou a caçar com um gato. O seu desespero sentimental metamorfoseou-se em vingança luxuriosa. Se a sua namorada o traía com um veraneante de meia tigela – e a notícia chegou-lhe em forma de carta redigida por uma das muitas primas da Luisinha – ele estava autorizado a desmanchar o seu contrato e a procurar amparo feminino. Foi à procura da irmã do Alcino. Os seus suspiros na igreja tinham-lhe chegado aos ouvidos em forma daquilo que eram: apelos sexuais.

Um dia fez-se visita do Padre e, durante os momentos de espera, pois o senhor abade dormia todos as santas tardes de Verão a sua sesta retemperadora, combinou encontrar-se com ela. No domingo pediu emprestado o macho a um colega do seu pai e dirigiu-se para os lados do Senhor da Piedade. Disse à mãe que ia passar lá todo o dia a estudar, a rezar e a meditar. A Dona Rosa fez-lhe uma merenda digna de um bispo, disse-lhe para levar um liteiro e uma toalha de linho onde pôr a mesa. “Levas algum colega contigo?”, perguntou. “Não mãe, vou sozinho”, respondeu seco. Ao que ela retorquiu, como era seu feitio: “Mais vale só que mal acompanhado.”

A irmã do Alcino foi ter com ele montada numa burra já muito velha, mas ainda com a força suficiente para ir e vir sem morrer pelo caminho. Além disso, a rapariga pouco mais pesava do que uma ovelha.

As montadas passaram todo o dia à sombra dos carvalhos a pastar a erva tenra que crescia junto a um rego de água fresca. Como o José tinha pedido as chaves da igreja ao Padre Zé, os jovens amigos resolveram amar-se dentro da sacristia, não fosse dar-se o caso de por ali passar algum mirone. Os amantes consumiram todo o santo dia a fornicar e a falar de Deus e do pecado. Ele leu-lhe lindas passagens da Bíblia onde o amor desabrochava por entre os homens para glorificação de Deus e das suas ovelhas. Ele benzeu-lho o sexo. Ela fez-lhe alguns felatios inocentes. Três vezes a penetrou com avidez. Ela correspondeu com toda a delicadeza de fêmea. No fim da primeira vez, caiu algum sangue no liteiro. Ele, a princípio, pensou que tinha escolhido mal o dia. “Só faltava vir-te agora a menstruação!”, disse desanimado. Ela olhou para ele com um sorrido doce e com os lhos brilhantes e respondeu: “Não é a menstruação, tolo, foi a minha virgindade.” “E então aquelas coisas no palheiro?” Aquilo não foi nada, com as vossas minhocas só conseguistes fazer-me cócegas. E eu só fiz isso porque a minha mãe, que sofre de uma doença ruim, necessitava urgentemente de comprar remédios. O dinheiro que o meu pai ganha estrafana-o todo em vinho.” “Deus te abençoe Maria.” “Não sei se pode, José. Eu peco muito.” “Claro que pode. E tu bem o mereces.” “Este é o meu corpo que te foi entregue. Este é o meu sangue, o sangue da vida…”


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