Terça-feira, 31 de Maio de 2011

O homem do guarda-chuva


publicado por João Madureira às 07:00
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Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

O verdadeiro culpado

 

Estava eu em frente da montra da sapataria Patela a transformar o preço de uns sapatos em quilos de arroz, massa, batatas, frango, febras de porco, latas de sardinha, atum, garrafas de azeite, dúzias de ovos, embalagens de leite, pão e vinho, quando o H., olhando para o meu ar de espanto, disparou à queima-roupa as seguintes palavras que ele atribuiu a Fukuyama, o profeta do fim da História: “As ideologias vergaram-se ao apelo de líderes carismáticos. É a rivalidade pessoal entre políticos que move os líderes carismáticos. É a rivalidade pessoal entre políticos que move o mundo e não as suas diferentes ideias. O meio utilizado tornou-se o fim. O poder deslocou-se do Parlamento para a televisão. A imagem é mais determinante do que a substância. E o Estado, ainda hoje um enorme centro de poder, perdeu o seu lugar determinante com as sucessivas crises e a globalização”.

 

O R., depois de atravessar a rua na passadeira para experimentar os reflexos de um condutor mais acelerado, disse a rir, como é seu costume e feitio: “Foi o rancor a Sócrates o que levou Pedro Passos Coelho a desencadear a actual crise política. Pensou que bastava provocar novas eleições para despachar o Sócrates para a reforma. Mas parece que a porca lhe vai sair mal capada. Em vez de se preocupar essencialmente com a situação do país, optou por apostar na sua carreira política. Confundiu os seus desejos com a realidade e isso pode vir a ser-lhe fatal. Além disso, o povo português não é apologista de vindictas, insultos e desqualificações. Já acusaram o homem de tudo, mas ninguém conseguiu provar nada. E Pedro Passos Coelho, em vez de apontar ideias e soluções para o país, fala mal de Sócrates e do Estado. Em vez de apresentar projectos, diz mal de Sócrates e do Estado. Quando alguém o questiona sobre um futuro governo de coligação, Pedro Passos Coelho diz que ou ele ou Sócrates, os dois nunca, como se o dirigente do PS tivesse lepra; quando lhe falam dos problemas da educação ele responde que a solução é afastar Sócrates para acabar com a escola pública e assim emagrecer o Estado; quando lhe falam de economia e finanças responde que com Sócrates não faz governo; quando lhe falam de agricultura, explica que o engenheiro Sócrates é o principal responsável pela crise do arroz, pelo tamanho do tomate, pela falta de cor das cerejas ou dos morangos, pela subida do preço dos cereais no mercado internacional; quando lhe falam de cultura diz que o engenheiro Sócrates é o principal culpado por em média um português ler menos do que um livro por ano; quando o questionam sobre o desporto refere que o engenheiro Sócrates é o primeiro responsável pelo facto de o Benfica ter perdido o campeonato nacional e pelo facto de alguns atletas de alta competição terem falhado provas internacionais devido a lesões, pois com um governo por si chefiado acabam as lesões, a estações do ano voltam ao normal, o míldio deixa de atacar as vinhas, o Benfica volta a ser campeão e os sacanas dos transmontanos, esses calaceiros, vão ter de passar a pagar portagens. Quando o questionam sobre o Serviço Nacional de Saúde refere que os privados podem fazer melhor e que a culpa da falta de aspirinas e pensos em alguns hospitais, ou Centros de Saúde, é culpa do José Sócrates. Além disso, o engenheiro Sócrates é culpado…”,

 

“Podes calar-te um momento e deixar falar o F.”, propôs o J. Mas o F. informou que não lhe apetecia falar pois as sondagens agora resolveram ir contra a realidade. E ele recusa-se a admitir que, depois de tudo, o povo português se volte a enganar dando a vitória ao PS do engenheiro Sócrates. “A ser assim, não é o povo que tem de mudar de governo, mas sim o PSD que tem de mudar de povo”, atirou-lhe o R. com malícia. Ele nem chus nem bus.

 

O H. voltou a Fukuyama: “Os países não são pobres por falta de recursos, mas porque lhes faltam instituições políticas efectivas”.

 

“Olha, é como o parlamento, a cada eleição que passa vai perdendo qualidade. Cada vez mais se parece com as assembleias municipais onde pouco se aprende e nada se resolve”, insistiu o R.

 

 “Cuidadinho com a língua, que eu sou deputado municipal e não te admito que fales nesse tom jocoso”, advertiu-o o A. “Bem, então condescendo, o parlamento parece uma assembleia de gaiatos aos berros onde ganha a discussão aquele que falar mais alto e disser pior do engenheiro Sócrates”, disse o R.

 

Depois de um silêncio embaraçoso, o R. voltou à carga: “Penso que o Pedro Passos Coelho já está arrependido.” “Arrependido?”, berramos todos juntos. “Sim, arrependido. Quando lhe entregaram a chave da sede nacional ficou como um miúdo a quem ofereceram um brinquedo novo. Então sentou-se à secretária e pensou que para chegar ao governo bastava apelar aos rapazes perdidos do Peter Pan e falar mal do Sócrates. Resolveu montar uma tragédia. Ele era o bom e o Sócrates o vilão.  Esqueceu-se dos princípios básicos em democracia: a educação, a tolerância e a paciência. As grandes palavras inequívocas devem ser reservadas para as grandes ocasiões inequívocas. E a paciência é a mãe de todas as virtudes. No PSD já todos pensam no senhor que se segue.”

 

Então aproveitei para desatar a conversa e cada um ir à sua vida: “Nem tudo o que parece é. E a vida não é uma estrada direita. Nem sempre a verdade triunfa.” E dali nos fomos todos com o coração um pouco mais apertado. A democracia tem destes defeitos. Triunfa aquele que recebe mais votos, independentemente da razão, da coerência, ou da qualidade dos seus projectos. E projectos, tal como os chapéus, há muitos e para todos os gostos e feitios.  


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Domingo, 29 de Maio de 2011

Ida para o lameiro


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Sábado, 28 de Maio de 2011

Debaixo de chuva


publicado por João Madureira às 07:00
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Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

O Homem Sem Memória

 

65 – A família Ferreira alugou uma casa no lugar da Cruz Santa, bem longe do centro de Névoa. O dinheiro e uma certa avareza da Dona Rosa não deram para mais. Era uma habitação pequenina, nova e geminada. Na outra vivia um casal sem filhos, ele polícia e ela empregada de limpeza. A casa possuía dois quartos, uma cozinha, uma sala e uma casa de banho exterior com serventia para as duas famílias. Os penicos passaram a ter muito menos usança, somente durante as noites frias de Inverno é que se recorria a eles. A casa de banho tinha ainda um chuveiro que ninguém utilizava por não ter água quente. Na parte da frente, cada família tinha um pedaço de terra que podia amanhar para colher batatas temporãs, couves, cenouras, cebolas, tomates, ervilhas e favas. Não existia cortelho para os porcos, nem espaço para os coelhos e as galinhas. A vida passou, por isso mesmo, a ser um pouco mais difícil. Compravam o reco já cevado e matavam-no à pressa, pedindo a vizinhos e amigos que curassem as pás, os presuntos e o fumeiro nas suas cozinhas. O resto da carne compravam-na fiado no talho, onde tinham conta aberta. 

O bairro, conhecido como o do francês, era constituído por três edifícios murados, todos iguais, onde viviam seis famílias, incluindo a do senhorio, um ex-emigrante proprietário de uma sapataria a meio da Rua Direita, em Névoa. Para alegrar os dias de semana, era frequente ouvir-se música de baile proveniente dos ensaios da Orquestra Pereira, um conjunto constituído por todos os cinco elementos da família do mesmo nome. A mãe cantava, o pai tocava guitarra eléctrica e fazia os coros, os três filhos tocavam respectivamente bateria, saxofone e viola baixo. Tocavam bonitos tuístes, chá-chá-chás, boleros, valsas, passodobles, tangos e um que outro rock mais tradicional.

O José passava muitos fins-de-semana em casa, acordando cedo para, antes de ir à missa, ler muitos e bons romances. Alguns de amor, outros de ódio e ainda outros de temática social e política. A sua mãe avisava-o constantemente que tanta leitura ainda havia de o pôr maluco. Ele limitava-se a ler e, quando os olhos lhe doíam e os ouvidos começavam a encher-se de ruídos estranhos, levantava-se da cama, que também era sofá, e ia passear para o monte. Algumas raparigas mais atrevidas seguiam-lhe os passos e mandavam-lhe piropos. As mais atrevidas exibiam-lhe as vergonhas e prometiam dar-lhas a troco de benzeduras e uma que outra nota de vinte para ajudar na compra de roupa bonita. Ele ria-se e mandava-as embora. Dizia-lhes para se manterem castas, senão não chegariam a casar. Elas diziam que não queriam casar-se porque por ali só havia torgueiros, trolhas e bêbados. “Eles também são filhos de Deus”, avisava-as. Elas retorquiam-lhe que a ser filhos de alguma coisa o seriam da puta que os pariu e do próprio demónio. Os homens do bairro brutalizavam as mulheres, enchiam-nas de filhos e afogavam-se em álcool.

A sua educação cristã e as suas convicções marxistas levaram-no a conviver com os jovens operários, estudantes e empregados de balcão. Ia às tabernas, aos bailes e ao cinema. Jogava ao sapo, à sueca, ao dominó. Lia-lhes partes da bíblia, poemas revolucionários, cantava-lhes canções de protesto. Eles toleravam-no, por vezes elogiavam-no e outras vezes, já muito bebidos e fumados, insultavam-no. O José não lhes levava a mal. Compreendia-os. Nas férias grandes chegou a trabalhar nas obras com muitos deles. Peneirava a areia, juntava-lhe cimento e água, fazia a massa com que os trolhas de primeira classe cimentavam as paredes. Ia-lhes buscar as cervejas. Escrevia cartas de amor aos analfabetos, explicava-lhes muitos dos filmes, ensinava-os a ler, dava-lhes conselhos como deviam falar com as namoradas, como deviam vestir, andar, falar e até comer. Foi com eles às putas a Feces e não se deitou com nenhuma. Eles ficaram de boca aberta. Não era por andar a estudar para padre que se comportou dessa maneira. Simplesmente não era capaz de ter relações sexuais com uma mulher a quem tinha de pagar. Dizia, e cumpria, que só conseguia ir para a cama com uma mulher por amor. Eles explicavam-lhe: “Mas esse é o trabalho destas mulheres, o seu sustento. Se não as foderes elas não ganham dinheiro. E sem dinheiro não podem sobreviver. “Não consigo”, desculpava-se. Mas, por compromisso com a razão e a condição humanas, sempre que ia a um prostíbulo, pagava os serviços a uma das mulheres e sentava-se a falar com ela. Muitas vezes, um que outro companheiro de farra, se não fosse muito pedir, sugeria-lhe a possibilidade de poder aproveitar a sua puta para mais uma foda. E como o serviço já estava pago, era pecado deitar fora o cibo. Nem uma única vez ele autorizou que a sua puta fosse utilizada por outro. Ele dizia-lhes lindas palavras, falava-lhes ao coração, condoía-se da sua condição, falava-lhes na possibilidade de um futuro melhor. Elas achavam-lhe graça, sorriam-lhe, beijavam-no ternamente na face, davam gritinhos de prazer e pediam-lhe namoro e segredavam-lhe ao ouvido: “Leva-me daqui para fora. Faz de mim tua mulher.” Ele sorria e dizia que não podia ter mulher que fosse sua. O que era mentira, como sabemos. Mas mentir por piedade não é pecado que aflija Deus. 


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Quinta-feira, 26 de Maio de 2011

Conversa no baloiço


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Quarta-feira, 25 de Maio de 2011

O Poema Infinito (49): o eterno segundo

 

Que longínquo estamos do tempo da luz, da ordem iluminada do conhecimento, da alegria lenta das águas, do sofrimento alegre da paz, do espírito livre do tempo disseminado. De outro tempo chega a tua imagem e a tua voz. A luz segue o teu rosto. O enigma da vida recupera os frutos da nossa idade. Sou agora o teu sossego. Todo o pensamento organiza o conflito. Daí se deduz a paciência para viver. Murcham agora as imagens das imagens como se fossem palavras submissas. Vem tudo do rigor da idiotice. Da estúpida rigidez da verdade fixa. Os olhos dos mentirosos enchem-se de palavras fúteis. Sempre ali a pairar como um tormento de piedade. As manhãs nefastas engordam mulheres de salto fino e grossa ambição. Tudo se ilumina na caduca noite da frivolidade. O milagre do pão prodigioso sofre da ideia concreta dos afectos. Os homens estudam vestígios do vento nas arestas das pedras dos castelos. Deus dorme infinitamente. E os humanos escutam o eco da sua ausência. A glória é uma operação intensa que abre a dádiva das trevas. Sinto que a distância aumenta em relação à verdade. E a verdade fecunda cicatrizes de ódio. Uma extensão vagarosa de sentimentos alarga o ímpeto do espírito. A humildade é a sábia surpresa da vida. Tudo assenta na nítida obsessão pelas palavras. Na íntima glória do verbo. No anunciado júbilo pelo adjectivo. Alarga-se o espaço. Aquilo. A razão fica do outro lado. A perfídia rasura a realidade. Esse é o ponto exacto da dor. A dor escrita e rescrita. A dor sagrada dos sagrados. O silêncio vencido dos néscios. A dúvida ilustre dos pensadores. É tão real este ar que respiro que me faz sentir aos tombos dentro da Alice no País das Maravilhas. O mundo já está todo pensado. Os seus horizontes abrem novos conceitos de tempo. Um vento desassossegado espalha todas as palavras de todas as línguas escritas, faladas e pensadas. Um sol inclemente incendeia esse deserto infinito de vida. São agora estas palavras uma região longínqua onde as chuvas caem para regarem os campos acústicos da fecundação. Os deuses consubstanciam o pasmo do tempo. É essa a eternidade do meu segundo.


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Terça-feira, 24 de Maio de 2011

Passear ao sol


publicado por João Madureira às 07:00
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Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

Pedro Passos Coelho e mais qualquer coisa

 

Isto da modernidade tem muito que se lhe diga. Cada vez mais nos inundamos numa torrente de informação e ansiedade. É isso o que me dói.

 

Mas, para ser sincero convosco, tenho de confessar que não consigo tirar da cabeça as palavras de Pedro Passos Coelho proferidas em Beja, numa tentativa de responder a uma pergunta sobre a possível extinção do Ministério da Agricultura por parte do PSD no caso de constituir governo: “Esse não faz parte dos ministérios a extinguir. Ficará Ministério da Agricultura mais qualquer coisa.”

 

Eu imagino-o florescente no seio da natureza observando as suas particularidades, apontando e designando as flores pelos seus nomes: violetas, papoilas, ranúnculos, cravos, rosas, miosótis, gipsófilas. Ele a enunciá-las e o povo a dizer de maneira simples e breve: Olha, flores. E de novo a eloquência do discurso: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

Está claro que o PPC não pertenceu a uma juventude de ouro, ou de prata, pertenceu à juventude de cobre, a uma juventude suficientemente cinzenta a quem o Estado pagou a educação com os impostos do trabalho. Mas agora a revolução social foi-se. Ficou a evolução do privado. E de novo a maldita frase a bombar na minha cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

PPC confunde muito as frases. Quer dizer uma palavra, mas diz outra diferente. Quase sempre se esquece do nome do Estado, que lhe parece um substantivo absolutamente vulgar e que provoca erisipela nos dirigentes do PSD. Por vezes, para não se esquecerem ou pronunciá-la com vício de forma, repetem: Estado, Estado. Até parece que o PSD nunca viveu à custa do Estado que agora quer transformar num negócio de feira. É difícil viver no vazio ideológico. E o PSD não tem ideologia. E de novo a maldita frase a bombar na minha cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

Dizem-me que o PSD já não é o PSD. A solidão está a matá-lo. E por vezes os seus dirigentes ficam zangados com o povo. Ou seja, Pedro Passos Coelho, por puro oportunismo eleitoral, vai a uma feira de agricultura falar do seu tema preferido, que não sabemos ainda bem qual é, e, ao abordá-lo, esquece-se completamente do objectivo da sua visita. Mas, como a maioria dos políticos da geração de cobre, obrigados ao método sofista do equívoco, tagarelam por natureza, experimentando por vezes a necessidade de comunicar alguma coisa, seja a quem seja: amigo, inimigo, polícia, ladrão, patrão, empregado, ilustre ou desconhecido, rico ou pobre. Até aos animais presentes nas feiras de agricultura. De noite fala sozinho ao espelho na companhia da sua esposa silenciosa. No outro dia sai-lhe: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

Vê-se que o PPC aprecia na política a sua voluptuosidade. O seu frenesim. Por isso se apaixonou por ela. Mas, como hei-de dizer, apaixonou-se não por inteiro, mas por algumas partes do seu corpo, pelas toilettes, deixando de fora o Estado. Por isso é o fenómeno que é. E de novo a maldita frase a bombar na minha cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

Deixem-me contar-vos algo de um meu amigo que se parece imenso com o candidato do PSD a primeiro-ministro. Também o H. bailou toda a sua vida. E ainda agora baila o que dela resta: inofensivamente, com vulgaridade. Tudo lhe vem à baila. Começou a bailaricar em criança. Folgava melhor do que todos. Pelo fim do liceu, o bailarico proporcionou-lhe conhecimentos. No fim do curso na faculdade, no seu círculo de amigos e conhecidos partidários, o bailarico arranjou-lhe, espontaneamente, uma série de protectores influentes. Meteu-se a sério na política. O facto é que ainda continua a dançar. Ainda dança o que resta dele próprio. E outra vez a maldita frase a bombar na minha cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”.

 

O programa político do PSD tem uma peculiaridade interessante. Tem a beleza incaracterística dos indistintos. Possui os traços do rosto liberal, um nariz marxista, a boca social-democrata, e as orelhas levemente parecidas com a democracia cristã.  O PPC anda a juntar-se aos factos. Podemos dizer que o seu espanto perante o descalabro económico e político do país raia o fingimento. A não ser assim, um de nós os dois está louco. Por isso estou espantado. E a maldita frase não me sai da cabeça: será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa.

 

Tenho de confessar: ser homem de Estado, sendo contra o Estado, é uma situação difícil. E a maldita frase não me sai da cabeça: “será Ministério da Agricultura mais qualquer coisa”. Pobre país, pobre Estado, pobre PPC. O actual líder do PSD será sempre um político atrapalhado mais qualquer coisa. Mesmo que essa coisa seja o cargo de primeiro-ministro. Mas lá diz o ditado: quem nasceu para lagarto nunca chegará a crocodilo. 


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Domingo, 22 de Maio de 2011

Barriga ao sol


publicado por João Madureira às 07:00
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Sábado, 21 de Maio de 2011

Boa tarde meus senhores


publicado por João Madureira às 07:00
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Sexta-feira, 20 de Maio de 2011

O Homem Sem Memória

 

64 - O tempo passou, mas a raiva não. E se há coisa que um barrosão tenha é memória. Pode passar o tempo, mas a indignação permanece como uma verruga. É como uma doença crónica. Pode ser tratada, mas jamais desaparece.

Continuou-se a contrabandear, a trabalhar os campos, a patrulhar as aldeias. Os contrabandistas trocavam e vendiam café, gado, polvo, chocolates, bananas, sapatos, armas, azeite e farinha. Os agricultores cultivaram batatas e centeio. Os guardas autuavam os carros de bois por causa do chiar das rodas, pelo facto das aguilhadas terem a ponta de metal maior do que os cinco milímetros permitidos por lei, pelo facto de os cães não terem licença, as galinhas andarem livremente nas ruas, ou as donas de casa despejarem as águas para a via pública.

Num dia solarengo e frio, o guarda Artur à paisana, quando numa encruzilhada virava caras a Montalegre acompanhado dos seus cães de caça e exibindo várias perdizes e coelhos à cintura, deu de chofre com um jovem que não conhecia. Deu-lhe os bons dias como era seu hábito e até sorriu de contente. O rapaz não lhe respondeu, apontou-lhe calmamente a caçadeira e disparou. De seguida chegou-se junto do corpo do guarda ofegante e pronunciou: “Para não morreres na ignorância de quem te mandou para o outro mundo, faço questão em te informar que sou o filho mais velho do Justo de Padornelos.” O guarda Artur, com o espanto estampado no rosto lívido, ainda conseguiu dizer: “Não foi por querer. Disparou-se-me a espingarda.” O rapaz contrapôs: “Tiraste a vida a um homem honrado. E esse homem honrado era meu pai. Por isso vais morrer.” “Perdoa-me. Não me mates. Foi sem querer. Disparou-se-me a espingarda”, desculpou-se de novo o GNR. “Por mim até era capaz de o fazer, mas a minha mãe não o consente. Ela não te perdoa. Não consegue. Desde o dia da morte de meu pai nunca mais aquela mulher dormiu uma noite que fosse. Grita e geme enquanto dorme. Vive num pesadelo. Vai todos os dias ao cemitério. Não tem paz. Só a morte a pode acalmar. A dela ou a tua. Para mim a opção é clara. Eu jurei-lhe que te matava antes mesmo de ir para a tropa. E os Justos de Padornelos são gente de uma só palavra”, explicou o rapaz com muita calma. “Pensa nos meus filhos. Ainda são tão pequeninos!”, balbuciou o guarda Artur enquanto expelia um fio de sangue pelo canto da boca. “Que Deus me perdoe”, disse o filho do Justo de Padornelos enquanto se benzia. Depois virou o cano na direcção do coração do GNR e disparou um tiro certeiro. Ainda pensou descarregar o segundo cartucho na direcção da cabeça para desfigurar o assassino de seu pai. Mas teve dó. O seu acto de misericórdia e redenção consistiu em deixá-lo ir para o outro mundo com o rosto completo, não fosse Deus, ou alguém em seu nome, pôr-se a fazer perguntas indiscretas sobre o que tinha acontecido e quem tinha feito aquela maldade. Pois uma coisa é matar porque assim obriga o código de honra de um barrosão, outra bem diferente é despachar um GNR nervoso e fanfarrão com o rosto desfeito para a eternidade.

Este acto de vingança iniciou um período de guerra entre os vários sectores da sociedade. Os guardas, feridos na sua honra e amedrontados no seu viver, começaram a espiolhar todos os caminhos da região como se andassem atrás do bando do Juan. Os contrabandistas começaram a espiar os agentes da autoridade como quem quer afastar a peste negra. Os agricultores começaram a amanhar as suas terras com o claro receio de que uma guerra poderia rebentar entre os dois bandos e que eles seriam as principais vítimas. Os lobos quando estão feridos, ou se sentem acossados, investem ainda com mais ferocidade. O sangue clama por mais sangue. A honra por mais honra. A vingança por ainda mais vingança.

O caos tomou conta da vida dos barrosões. Os guardas da GNR começaram a perseguir e a prender os contrabandistas, e o respectivo contrabando, no território e nas clientelas controladas pela GF. Os guardas da GF, ofendidos e amargurados, responderam na mesma moeda. Tais desvarios só trouxeram à região mais pobreza. Os produtos essenciais à vida das populações carenciadas começaram a escassear. E os que ainda eram comercializados atingiram valores proibitivos. Até os cães se começaram a engalfinhar por tudo e por nada. As vacas começaram a escornar os donos mais desprevenidos e as galinhas começaram a pôr fora os seus ovos. Os porcos cuincavam tanto nas lojas que parecia que tinha chegado a época das matanças. Isto em Setembro. Mesmo o padre Zé se começou a enganar nas prédicas, a confundir os sermões, a trocar as epístolas, a carregar nas penitências. As próprias beatas começaram a ver o seu estatuto em causa. Se em épocas normais se confessavam e apenas tinham que cumprir a penitência mínima, um padre-nosso e uma ave-maria, nos tempos conturbados começaram a ser obrigadas a rezar tanto ou mais do que os pecadores crónicos. E isso trouxe-lhes desconforto e provocou uma que outra desistência no coro da igreja. Mas o pior ainda estava para vir. Que os GNR vigiassem os GF e os contrabandistas e que os GF vigiassem os GNR e os contrabandistas e estes vigiassem os GNR e os GF ainda vá que não vá. Agora os GNR vigiarem-se a si próprios é que lhes foi ousadia fatal.

No posto de Montalegre havia duas facções, uma liderada pelo sargento, Alves, que era o chefe de posto, e uma outra dirigida pelo subchefe, o primeiro-cabo Sarmento. Sabendo disto, o chefe do posto da GF combinou com o chefe do bando de contrabandistas seu amigo que montasse uma armadilha com a intenção confessa de trocar as voltas às patrulhas da GNR. Ou seja, que os contrabandistas controlados pela facção do sargento Alves fossem denunciados e presos pela facção do primeiro-cabo Sarmento e vice-versa. Com as rotinas trocadas e com os caminhos enredados, num mesmo dia as forças da GF e da GNR apreenderam mais contrabando do que em todo o último ano. Tal prodígio de eficácia foi mesmo notícia nos jornais nacionais. Alguns dos contrabandistas presos, depois de apertados por agentes especiais vindos da capital de distrito ou mesmo do comando da região norte, resolveram falar. Toda a marosca foi descoberta. E o que primeiro tinha motivado as propostas de louvores e condecorações foi transformado em castigos e transferências. Muitos dos contrabandistas foram condenados a penas de prisão, com pena suspensa, e ao pagamento de multas avultadas. Mas esse foi o preço a pagar pelo facto de se verem livres dos guardas prevaricadores. Quem não quis uma boa madrasta ficou com uma ruim mãe. A sorte é assim. Todos os guardas foram substituídos por colegas mais jovem e ainda sem vícios. E o tempo que se gastou na aprendizagem dos caminhos do contrabando, na identificação dos cabecilhas, nos contactos iniciais e no recebimento das primeiras lembranças por patrulharem os caminhos vazios, deu tempo para que a paz e a concórdia voltassem de novo a Montalegre e às aldeias vizinhas.

Escusado será dizer que os cães tornaram a passear pacatamente pela Vila e pela Portela como se fossem ovelhas, as vacas passaram a ir e a vir dos lameiros ao som de modinhas assobiadas ou a toque de gaita-de-beiços, os recos voltaram ao silêncio da engorda e as galinhas poedeiras começaram a pôr dois ovos por dia e dentro dos limites da casa dos donos. Até o Padre Zé conseguiu de novo o milagre de atinar com as epístolas, de acertar com os sermões e de administrar penitências de acordo com os pecados de cada um.

O guarda Ferreira, metido na embrulhada do contrabando por fazer patrulha com um guarda corrompido, apesar de alegar inocência, foi admoestado pelo instrutor do processo com estas palavras, muito ao gosto popular: “Tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta.” Pela parvoíce ganhou uma guia de marcha para o Porto. A Dona Rosa, enjoada com uma nova gravidez, decidiu transferir-se para Névoa, onde a vida era mais em conta e onde os filhos tinham facilidade em estudar no Liceu ou na Escola Técnica, além de poder dar um pulo à sua aldeia sempre que lhe apetecesse. A vida a dois cada vez mais era um quebranto triste em cima de uma rotina amargurada. A solução encontrada foi um bom remedeio. 


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Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

Atenção e movimento


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Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

O Poema Infinito (48): tempo indigno

 

vivemos tempos indignos onde os aprendizes de feiticeiro se escondem da razão debaixo das pedras do poder e a miséria de novo aí vem erguendo lagartos ao sol por isso dizes que os métodos do vento são antigas fórmulas de palavras douradas pelas sementes do silêncio e o silêncio volta à superfície para sentir o corpo do mar onde ainda pesa o sal e a luz verde e de novo o corpo cai em cima da idade e a superfície da idade produz um sismo da mesma intensidade do voo dos pássaros e o destino volta a ser a extensão infindável do sonho dos homens e um outro fogo sobrevoa as planícies escritas pelo suor dos camponeses daí as tempestades tolherem a árdua escrita dos poemas furiosos onde os relâmpagos incendeiam as searas do desejo onde a arte dança inebriada pelo fogo líquido dos alquimistas e onde deus é a efémera alegria das sombras por isso as flores rejeitam o nascimento de mais pétalas e os colibris exaustos suspiram por voos normais e os verdadeiros feiticeiros agravam o impossível regresso do paraíso e os gnomos com gestos desenfreados abrem a sua pele numa tentativa de remediar o mal esse é o conhecimento do inferno onde os inocentes choram o engano de deus e as palavras estilhaçam o pudor e consomem a verdade numa paz de fragmentos onde cristo expõe de novo as suas chagas para espanto dos seus fiéis seguidores que mais uma vez exaltam a fragilidade da sua religião interior como se isso fosse um milagre consumado enquanto perdemos o céu e a chuva e o sol das invectivas da fé só aí os dedos desgastados pelas carícias limpam as lágrimas dos amantes separados enquanto os pecadores engolem os espinhos da luz da redenção enquanto os apóstolos conduzem o seu rebanho ao despenhadeiro da esperança e as bocas amanhecidas pregam o abandono e a solidão por isso se perpetuam os infernos como tesouros estragados de dor e a ilusão conserta rostos sulcados de rugas enquanto a ausência incendeia as raízes insidiosas da lógica e da razão enquanto alguém rouba felicidade dos falsos abismos são esses os deuses ilegítimos da eternidade


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Terça-feira, 17 de Maio de 2011

Senhora das Brotas à chuva


publicado por João Madureira às 07:00
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Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

Dialécticas e copos de vinho

 

Depois de almoçarmos umas excelentes costeletas com batatas fritas no Manco e de as acompanharmos com um tinto da casa com origem na região de Valpaços, fomo-nos estender na relva do jardim, como quatro jovens irreverentes, cada qual acompanhado pela respectiva garrafa de água das pedras para ajudar a digestão. É que os anos vão passando e as digestões cada vez se tornam mais lentas e difíceis.

 

Pusemo-nos a olhar o céu, na ocasião decorado com nuvens altas de um branco sagrado. Distraidamente, e talvez um pouco sugestionados pela pinga, identificámos várias aparências: um cavalo de corrida, uma égua barrosã, o castelo da Walt Disney, um barco veleiro, um dos submarinos do Paulo Portas, Cavaco Silva, Nossa Senhora de Fátima e os três pastorinhos, o beato João Paulo II, uma sereia, o rosto da minha avó, Pinóquio, o Rato Mickey, José Sócrates e Pedro Passos Coelho.

 

Com a visão do candidato do PSD a primeiro-ministro, logo o F. se entusiasmou e teve mais uma das suas tiradas filosóficas: “O PPC sofre da síndrome das areias movediças. Sabe que se vai enterrar, mas hesita entre a morte lenta, se ficar quieto, ou a morte rápida, se se mexer. E quanto mais se mexe mais se enterra.”

 

O L., homem mais prudente, atirou-lhe sorrateiro: “Não confundas a nuvem com Juno”. O que, convenhamos, é uma tirada de se lhe tirar o chapéu. Todos nos rimos, até o F. E dali nos fomos entreter ao estilo do PSD, a jogar às cartas.

 

Enquanto o R. tirava o plástico ao baralho novo, o L. disse que a ser verdade o que vem no Expresso, que a Troika vai reestruturar Portugal de alto a abaixo, o melhor será dispensar os políticos e entregar isto aos directores-gerais dos respectivos ministérios. Depois de aprovadas as medidas impostas pelo FMI, o novo governo vai ser um verbo-de-encher. Eu baralhei as cartas, o L. partiu o baralho e o F. deu-as.

 

E assim nos entretemos durante um bom pedaço da tarde, jogando à sueca por entre várias insinuações, e mesmo algumas acusações, de incapacidade para baralhar com sabedoria, de falta competência para prever as jogadas, de gerir mal os trunfos, de destrunfar a desoras, etc. Tal e qual as acusações da oposição ao governo e do governo às oposições.

 

Finda a contenda, resolvemos ir petiscar como pretexto para beber mais uma ou duas garrafas de tinto do Gorgoço. E discutimos política. A política, entre nós que somos bons amigos, só é analisada enquanto comemos e bebemos. Noutros contextos é um jogo perigoso, que já provocou zangas, insultos e amuos. A comida e a bebida são um excelente apaziguador. Mas convém controlar sempre os índices da bebida. Pois, quando se desequilibram os pratos da balança, pode rebentar a guerra. E, como todos sabemos, um homem atestado de razões etílicas a discutir política é um verdadeiro kamikaze. 

 

Comecei eu. Pois sou o mais atrevido. E desta vez com algo mais chegado à cultura. O escritor Mário Vargas Llosa, o Nobel da literatura de 2010, disse numa entrevista que a Net liquidou a gramática, gerando “uma espécie de barbárie sintáctica”. Os jovens de agora (“se fossem só os jovens”, comentou o R. enquanto metia um pedaço de queijo à boca) abreviam palavras nas redes sociais e nos SMS. Os meus amigos olharam para mim como se estivessem à espera de mais alguma coisa. Eu, de maroto, enrolei uma fatia de presunto, adicionei-lhe um pedaço de queijo e enfiei-os na boca. De seguida trinquei um pedaço de pão centeio, mastiguei tudo bem mastigado, salivei a rigor e engoli. E eles ainda à espera. Fazendo-me distraído, peguei no copo de vinho e sorvi um trago satisfatório. Dei o estalido com a língua para manifestar o bem que tudo aquilo me soube e, calmamente, peguei no meu bloco de notas e li as palavras do escritor peruano: “Se escreves assim, se falas assim, é porque pensas assim, e se pensas assim é porque pensas como um macaco. Isso parece-me preocupante. Talvez as pessoas sejam mais felizes assim. Talvez os macacos sejam mais felizes do que os seres humanos. Não sei”.

 

“Eu não sei se os macacos são mais felizes do que humanos, mas de certeza que os portugueses são uns infelizes. O que poderá significar que sendo os portugueses infelizes são mais humanos e sendo mais humanos são diferentes dos macacos”, complicou o L. O vinho do Gorgoço tem destas contra-indicações.

 

O F., molhando apenas os lábios com o vinho, lamentou: “Quem passou uma Páscoa infeliz em Portugal foi o presidente da Comissão Europeia que viu o seu partido destruir aquilo em que tanto se empenhou. Veio nos jornais que, para Durão Barroso, a forma como o PSD supervisionou o chumbo do PEC e a leviandade de que deu mostras ao provocar uma crise política em Portugal, foi um erro que contrariou os planos da própria União Europeia. A estratégia de Bruxelas passava por almofadar a situação económica e financeira portuguesa com a nítida intenção de ganhar tempo até que um novo mecanismo de ajuda pudesse entrar em vigor. Com a leviandade do PSD tudo ficou comprometido”. “Por isso é que os barrosistas ficaram de fora das listas do PSD para as legislativas”, lembrou o R. E, enquanto carregava no tinto, sobrecarregou ainda mais nas cores, como é seu timbre: “Pedro Passos Coelho não tem programa eleitoral, não tem ideias, não tem prática política suficiente, e, muito mais grave do que isso, não tem qualquer tipo de experiência governamental, nem equipa para governar Portugal. Entregar-lhe os destinos do país é como entregar os comandos de um Boeing com um motor a arder e com o outro aos soluços ao piloto estagiário.

 

O L., mais conservador, resolveu citar Miguel Sousa Tavares: “O voto útil, desta vez, é entre duas inutilidades: uma, porque já sabemos onde nos leva; a outra, porque temos todas as razões para suspeitar que nos levará para pior ainda”. “Não vem mais vinho para esta mesa”, exclamou o R. enquanto sorria e bebia mais um copo.

 

Eu, na tentativa de ironizar, resolvi trazer Eduardo Catroga à liça. “Parece que já abriu a caça ao funcionalismo público lá para os lados do PSD”. O L., como bom conservador, sorriu e fez o desabafo: “Explica-te melhor”. E eu expliquei-lhe, como é meu timbre, socorrendo-me das próprias palavras do dito: “Há tanta coisa para caçar no Estado e tanta gordura para cortar.” (…) Como medida adicional, é possível “cancelar entradas de novos funcionários por uns anos”.

 

“Com esta receita do PSD então é que a geração à rasca fica mesmo sem futuro”, disse o R. O F. tentou contemporizar: “O PSD também tem dito algumas verdades, por muito que nos custe a admitir a alguns de nós”. O R., bebendo outro copo, declamou António Aleixo: “Para a mentira ser segura / e atingir profundidade / deve trazer à mistura / qualquer coisa de verdade. O F. suspirou. E o L. levou-se dos diabos e disse para falarmos de futebol. Mas como dois são do Benfica, um é do Sporting e outro é adepto dos Dragões, propus que falássemos do tempo. E foi o que fizemos até nos irmos embora. 


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Domingo, 15 de Maio de 2011

Concentração


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Sábado, 14 de Maio de 2011

O homem dos casacos


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Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

O Homem Sem Memória

 

63 – Se é verdade que o José, com muita pena, foi o primeiro a abandonar Montalegre, o resto da família não perdeu pela demora. O seu pai, por punição disciplinar, foi obrigado a emigrar para o Porto. A restante família, por questões logísticas, sentimentais e económicas, foi de abalada para Névoa. A história da diáspora, se a isso me autorizarem, pode ser contada em poucas palavras.

Montalegre era essencialmente uma terra de lavradores, guardas e contrabandistas. Sendo que os contrabandistas também eram, muitos deles, lavradores e agentes da autoridade; os guardas eram todos lavradores e, muitos deles, contrabandistas; e os lavradores eram quase todos contrabandistas e muitos deles guardas, ou amigos de guardas, ou familiares de guardas, que por seu lado eram amigos de contrabandistas e estes cúmplices dos agricultores, que eram guardas, etc., numa espiral de cumplicidades vertiginosas, engenhosas e lucrativas.

E todos eram igualmente caçadores. Caçavam perdizes, codornizes, coelhos e lebres. Por vezes caçavam-se uns aos outros. Numa terra de fronteira, mesmo não havendo guerra, também não existe paz. Todos vivem em ambiente de armistício. Apesar de conviverem, vigiavam-se mútua e permanentemente. Eram raposas finas. Conheciam-se todos uns aos outros, sabiam os caminhos, os carinhos, as amantes, os amantes, os deslizes, as virtudes e os defeitos. Apesar do cuidado com que conviviam, nem sempre conseguiam controlar todos os movimentos que as massas humanas protagonizam.

Tudo se acelerou num dia de chega de bois no campo de futebol do Montalegre. Lutavam os bois de Padornelos e Sendim. A guarda foi incumbida de não deixar levar para dentro do recinto os varapaus que cada homem transportava consigo. Eles, muito a custo, lá foram deixando, numa cerca à guarda da GNR, os bordões que tanto serviam para tocar o gado, como para amparar o corpo, como para marcar terreno, ou para dar porrada em caso de necessidade. E uma chega de bois é sempre a circunstância adequada para cada um fazer valer as suas forças. Ou o boi do povo faz o que tem a fazer, que é vencer o adversário, ou o povo o faz por ele. Por vezes vence o boi, mas sai derrotado o povo da respectiva aldeia. Ganhar em toda a linha é um calha. Quase sempre chegam-se os bois para logo de seguida se chegarem os povos das aldeias.

Os bordões que se juntaram à entrada do recinto compuseram uma pirâmide com mais de dois metros de altura. Mas a cara dos assistentes revelava algum desconforto. Um barrosão sem um cajado na mão sente-se meio despido. Mal os bois entraram no campo as pessoas começaram a ulular incentivando os animais à luta. Os animais primeiro olharam em volta, depois começaram a esgaravatar o chão com as patas e finalmente encaixaram os cornos um no outro com toda a força que tinham. A terra começou a tremer com o pisar dos bichos e com os pulos dos assistentes. Cada marrada dada era sentida com arrepios, gritos e assobios. O boi de Sendim, espumando da boca, numa investida lateral, fez vários lanhos no quadril do seu adversário, que o pôs a sangrar como um porco. O garboso animal, sentindo-se gravemente ferido, abandonou a luta e correu para longe do recinto. Principiaram os vivas ao boi vencedor, que normalmente são acompanhados de cajados em riste, mas que desta vez se limitaram a ser de punho e mãos levantadas e lenços a esvoaçar. Ouviram-se também vários desafios verbais que tiveram o condão de provocar uma guerra campal entre os contendentes. Mas lutar à unha é coisa para fracos. No barroso quando se bate em alguém é logo para estrumar o adversário. Um barrosão sente que ganhou a luta quando o seu inimigo cai ao chão tal e qual um carvalho abatido a golpe de machado. E, para esse feito, nada há de mais eficiente e nobre do que um varapau. Por isso cada contendor se dirigiu ao merouço dos cajados e pegou no primeiro a que conseguiu deitar a mão, sem grandes preocupações de atinar com o legítimo. Podemos dizer que os guardas foram impotentes para deter a mole humana que se deslocou na sua direcção. Apenas um guarda se armou em valente e gritou “alto senão disparo”. Mas o ulular da multidão em alvoroço e a força da turba a correr traduziram a ordem inútil. Nervoso, ou assarapantado, o GNR disparou vários tiros. Um deles abateu cobardemente um dos melhores homens de Padornelos. A luta entre civis acabou logo ali. Muitos dos presentes ainda acariciaram as pistolas que traziam camufladas nos bolsos, mas o bom senso e a honra barrosã foram mais fortes. Se alguém matasse ali na frente de todos um GNR era certo e sabido que ia passar as passas do Algarve, o povo da sua aldeia certamente seria severamente castigado e a sua família de certeza que sofreria consequências dolorosas. Há falta de guarda para abater, alguns dos homens mais irados de Padornelos, vendo o seu chefe morto no chão, enxugaram os olhos e correram atrás do seu boi. Encontraram-no a beber água numa ribeira. Com os rostos sombrios de raiva e desgosto, fuzilaram o pobre animal. 


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Quinta-feira, 12 de Maio de 2011

Chamada de atenção


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Quarta-feira, 11 de Maio de 2011

O Poema Infinito (47): equinócios de espanto

 

Ai a tontura do deserto, a iluminada meditação da luz e da areia. A tontura da sede, a febre do céu. O mel das noites árabes. Também já fui berbere. Por isso te amei num oásis de palavras doces e frescas. Descobri nos teus olhos, que eram outras tantas estrelas, o meu mapa astrológico. A luminescência dos alperces amadureceu-me a solidão. Na órbita dos nossos corpos giraram então astros indefesos. É esse o destino dos mares interiores, estenderem-se pela memória como serpentes emplumadas. Das tuas mãos caem rosas feitas de fios de seda. As nossas bocas ficam sedentas. Depois voltamos à cidade. Que é outro deserto. O deserto da desvelo. Fico com o corpo coberto por uma linha azul. O deserto é agora uma folha de papel cheia de texturas desenhadas a tinta-da-china. Uma maré de crepúsculos invade-me o sexo. Cruzam-se as palavras com os pássaros migradores. O espaço é outro corpo coberto de desejo. O sonho deriva do delírio. O dia foge de nós como um objecto estranho. A noite germina na insónia da sobrevivência. O tempo perde-se no tempo que procura um outro tempo. Viajamos agora pelas paredes brancas do quarto. O deus da volúpia tornou-se perigoso. Os corpos cansados imaginam a morte. Outro será o tempo para morrer. Pássaros incertos embalsamam com os seus voos as paisagens da memória. Outro será o tempo de esperar. As claridades humildes cantarão viagens inseguras. Contigo adormeço a pensar nos relâmpagos. Em ti pouso o pensamento. Outra é a lógica das peregrinações interiores. Amacio a minha pele nos teus lábios ansiosos. Nós abatemos a tiro de palavras a obscenidade e a infâmia. Ardem as cidades que habitam dentro dos livros infelizes. Deles fogem os animais assustados. Desta vez Noé construiu um foguetão. E da sua boca saem equinócios de espanto. 


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Terça-feira, 10 de Maio de 2011

Fotógrafos no descanso


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Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

O homem da pita

 

Enquanto praticava, durante o fim-de-semana, um dos desportos nacionais mais apreciados, o passear nos centros comerciais, entrei distraidamente na Bertrand. Lá dentro havia muitos livros nos escaparates dos topes, ainda muitos mais nas prateleiras, e viam-se algumas pessoas que aproveitavam para, devido à crise, ler algumas páginas de livros que não dá nenhum jeito comprar por causa do seu preço elevado. Porque quando a crise aperta são os objectos de cultura os mais sacrificados. Eles e os carros novos de gama baixa e média.

 

Pois, como ia dizendo, entrei na livraria e pude constatar, com alguma satisfação, convenhamos, que as capas de várias revistas e jornais davam especial destaque à Bimby e ao António Barreto. Ou seja, deu para ver, mesmo a um cidadão distraído como eu, que estes são os dois produtos mais mediáticos nos tempos que correm.

 

Com a Bimby podemos bimbar várias receitas de culinária e com o António Barreto podemos bombar no país e na classe política. Especialmente nos socialistas, que agora, com a crise, são os bombos da festa. E se com a Bimby, a cozinha mais pequena do mundo, podemos confeccionar todo o tipo de pratos, com o António Barreto podemos ficar a saber que o povo português trabalha pouco, produz pouco, ganha pouco, lê ainda menos, é insuficientemente instruído, mas, mesmo assim, vive acima das suas posses.

 

E podemos ficar também a saber que o engenheiro Sócrates é o culpado de tudo isto e ainda da chuva que cai fora de época, do sol que aparece e desaparece sem um critério unitário, das geadas fora de tempo, das trovoadas de granizo e das trombas de água, do nevoeiro matinal e da crise. Ou seja, foi ele quem provocou a desregulação da economia e das finanças internacionais, além de aumentar o buraco de ozono e de ser um dos principais responsáveis pelo aumento do preço do petróleo, daí o estarmos como estamos.

 

Ande a culpa lá por onde andar, às costas do Sócrates vai parar. E é bom que assim seja, pois dá um jeito do caraças. Por tudo isso, e por alguma coisinha mais, o António Barreto ganhou, durante algumas semanas, o estatuto de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas enquanto o putativo comentarista do PSD é um palrador mediático destinado às classes média baixa e baixa, o António Barreto é um upgrade do mesmo produto mas dirigido às classes média, média alta e alta.

 

Estou em crer que me desviei do propósito que desta vez tinha para escrever. O destinatário não era nem a Bimby, nem o António Barreto e muito menos o Professor Marcelo, mas antes o candidato a presidente da Assembleia da República pelo PSD, Fernando Nobre.

 

Confesso que fiquei com uma lágrima no canto do olho quando, durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais, ouvi o candidato da AMI falar do pretinho africano que corria atrás da pita para lhe roubar a migalha de pão que ela levava no bico. Mas desde já aviso os estimados leitores que o que nessa altura verdadeiramente me espantou foi a erro de análise do amigo Fernando. Ele, poeta como é, pensou que o pretinho faminto tinha os olhos postos na migalha no bico da pita. No entanto, se fosse etnologista, ou transmontano, que são condições sinónimas, perceberia que o que o menino famélico perseguia era a pita e não a migalha de pão que ela transportava no bico. Uma pessoa cheia de fome, podendo optar entre a migalha e a pita, não hesita um momento. Reconheço que a imagem do menino atrás da galinha, para lhe roubar a migalha de pão, é muito mais apelativa, mas, infelizmente, é falsa. Pode ter um efeito mediático directo e dar votos, mas não está de acordo com a condição humana, animal portanto. 

 

Eu sei, o Fernando Nobre é lusitano. E por isso pensa que o fado é o único género de humor tipicamente português. Por isso o ter recorrido ao mau humor, que explora a tristeza em vez da alegria. Nisso, como em muitas mais coisas, andamos ao contrário do resto do mundo. Lá fora riem-se com o nosso subdesenvolvimento. Nós por cá votamos num cómico que resolve respeitar a tradição transformando os seus momentos de campanha em espectáculos fadistas onde as pessoas se sentem tristes e apreciam.

 

Não estou a dizer que o Fernando Nobre é um humorista voluntário. Nessa armadilha não caio. Portugal, todos o sabemos, é um país de cómicos involuntários. Em Portugal, os políticos cada vez mais se parecem com personagens criadas por humoristas. O humor é um termo geral que abrange distintas variações, registos e géneros: a sátira, a paródia, a ironia, o sarcasmo, o abjecto, obscenidade e o discurso político.

 

Sabendo que existe uma linha muito ténue entre o que nos faz rir e o que nos deprime, e que a graça está sempre a um milímetro da desgraça, mesmo assim não resistimos a lembrar que Fernando Nobre, foi, inicialmente, um simpatizante da monarquia, apoiou Mário Soares na recandidatura a presidente da República, foi mandatário, nas últimas eleições europeias, do Bloco de Esquerda, foi candidato à Presidência da República contra os candidatos dos partidos, e agora é cabeça de lista das legislativas do PSD por Lisboa, com a promessa de lhe entregarem o cargo de presidente da Assembleia da República. Ele que detestava os partidos, que abominava a política e que criticava os deputados por nada fazerem.

 

Os dirigentes do Bloco de Esquerda, também eles fadistas empedernidos e excelentes humoristas involuntários, já vieram afirmar que esta atitude do Fernando Nobre “é o fim de uma imensa fraude”.

 

É bem possível que os eleitores mais indignados resolvam ir a banhos. Nós, por aqui, achamos mais sensato sair deste filme lembrando uma das frases mais emblemáticas do cinema português (A Canção de Lisboa): «Vamos embora que isto é uma aldravice».

 

 

PS – Segundo o Correio da Manhã, no passado ano, a AMI rendeu ao seu fundador e presidente, o cidadão Fernando Nobre, e à sua esposa, a respectiva secretária-geral, 73.170 euros, o que dá um rendimento bruto mensal de 5226 euros. Bem prega Frei Tomás…


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Domingo, 8 de Maio de 2011

Boa disposição


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Sábado, 7 de Maio de 2011

Raio X


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Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

O Homem Sem Memória

 

62 – E o namoro começou a seguir o seu caminho. Mas toda a obra humana tem sempre os seus encómios. Motiva sempre o seu contrário. Os seres humanos nisso são exemplares. O ciúme triunfa sempre por cima dos outros sentimentos. As relações humanas são uma espécie de guerrilha urbana. Luta-se sempre contra um inimigo difuso e fugidio. E nessa luta ninguém sai vencedor. O que se pretende é infligir o máximo de danos possíveis ao putativo inimigo.

Numa pequena cidade de província tudo se sabe, tudo se comenta, tudo se condena. E o namoro de uma rapariga interna de um colégio com um rude barrosão, pobre, e, ainda por cima, estudante de seminário, deu logo nas vistas. O pai da Graça, com vários amigos na cidade, foi de imediato avisado do desaforo. Devido ao melindre da situação da filha resolveu vir num fim-de-semana espiá-la. Enfiou-se clandestinamente numa pensão perto do colégio e montou o cerco. Por sorte, a sua vigilância coincidiu com o período menstrual da filha que, devido aos achaques, nem sequer saiu da cama. Regressou a Tourém menos apreensivo. Mas nas mulheres nunca confiar. Depois de várias diligências realizadas entre rapazes amigos, incumbiu dois ou três de se manterem vigilantes e de lhe comunicarem o desenrolar dos acontecimentos. Disso deu conta à sua mulher que de imediato se pôs em contacto com a filha para a informar que andava a ser vigiada por uns camafeus amigos do pai. Ela pôs-se logo em guarda e resolveu dar conta ao José do cerco que à sua volta se estava a montar. Preveniu-o que a rapaziada que a vigiava a expensas do pai era vingativa e pouco escrupulosa nos procedimentos. Metiam o aço de uma navalha de ponta e mola no buxo de um individuo ainda com mais facilidade do que botavam abaixo um copo de tinto do Douro.

O José ouviu o que tinha a ouvir e, como não era rapaz temerário, resolveu usar como trunfos a seu favor um ou dois amigos discretos, pois mais não tinha, e estabeleceu, por sua conta e risco, uma rede de informação para despistar e ludibriar a equipa contrária. A cultura e o bom senso principiaram a dar os seus frutos e a sobrepor-se à verborreia e à boçalidade masculina dos rufias.

Começou a namorar longe da cidade, utilizando os transportes públicos, em lugares recônditos, ou no escurinho do cinema. Quanto mais o perseguiam mais desfrutava dos momentos furtivos que ele e a namorada passavam juntos. Um olhar sabia a uva moscatel, um beijo a pavia suculenta e uma carícia mais avantajada a maçã reineta. Sentia-se um herói romântico, uma pessoa vítima dos preconceitos sociais, um amante sério e deslumbrado. Escrevia poemas densos de amor perseguido, cartas repletas de alusões políticas e religiosas e lia livros cada vez mais perigosos. Via-se que a Graça, apesar de viver debaixo de alguma pressão, também se sentia feliz. Cada momento passado em comum era intenso. A adversidade no amor tem destas coisas, põe mel no lugar do fel.

Quanto mais o perigo rondava mais a ousadia dos seus gestos amorosos aumentava. E chegaram, mesmo sem premeditar, a vias de facto. Soube-lhes pela vida.

“Estás arrependida?”, perguntou-lhe o José. “Ninguém se pode arrepender de se sentir humano”. “Amo-te!”, disse o José corando ligeiramente. “Também eu te amo!”, respondeu-lhe a Graça sem corar nem um bocadinho.

E novamente se amaram como quem colhe os frutos mais suculentos de uma árvore. 


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Quinta-feira, 5 de Maio de 2011

Família depois das compras


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Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

O Poema Infinito (46): levitações

 

O silêncio arde. A Primavera nasceu cercada de vozes. O bebé sorve mecanicamente o leite da teta de sua mãe. Palavras mudas germinam na sua boca. E os seus olhos choram lágrimas límpidas e amargas. Começa um novo tempo. Alguém morre imperfeito. As flores continuam glaciais apesar das suas cores quentes. A melancolia torna-se severa. As primeiras músicas de água voam entre luas excepcionais. Degrau a degrau, a alegria desce das árvores espalhando sal na terra. Ardem os séculos nas mãos dos guerreiros do medo. A razão é uma loucura cruel. Um novo espaço forma-se em redor das espadas. Apagam-se as fogueiras do medo e um destino imóvel toma conta dos pensamentos. O sangue dos mártires rega os arbustos. Os homens passam devagar a caminho da glória. Alguém toca hinos de terror. Os archotes iluminam o amor e o ódio. Outros homens sorriem no seu contentamento cego. A meu lado levita o sonho. Dói-me a dor dos homens, o seu poder confuso, o seu destino. O chefe oculta-se na sua razão e ordena a guerra. Todo o poder é mudo. Os espíritos violentos derrubam as portas da cidade misteriosa. Procuram no seu seio a inspiração luminosa para a vitória. Deus é uma distância impenetrável. O seu sexo repleto de criação ampara-se na angústia dos beijos quentes. Raios de fogo invadem as portas das palavras proibidas. Estamos universalmente sozinhos. É madrugada e a legítima pureza do absurdo procura abrigo nas nossas mãos entrelaçadas. Hoje o sexo desenhou-nos a beleza. O esplendor da vida curva-se perante o seu instante. Outra não é a lucidez dos sorrisos. Nós corremos pelo nevoeiro dentro. Nós colhemos o amor no silêncio do nosso olhar. Nós somos as palavras íntimas. As palavras ínfimas. Nós somos o tempo legítimo da pureza. Dói-nos o permanente pensamento da vida. 


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Terça-feira, 3 de Maio de 2011

Bonomia


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Segunda-feira, 2 de Maio de 2011

Divagações

 

Saímos do café e dirigimo-nos ao jardim. O R. deteve-se algum tempo a contemplar o parque, aspirando o cheiro da folhagem. Faz isto sempre que se sente um pouco agitado. Disse-me, visivelmente emocionado, que cada vez pensa mais nos homens que ficam sozinhos, grupo no qual se inclui com todo o direito. “É terrível perder a mulher que se amou, mas ainda é perda maior não ter mulher para amarrar nos braços antes de a desgraça nos bater à porta…”, filosofou olhando na direcção de um pássaro morto espezinhado entre as ervas do jardim.

 

O meu amigo é um homem que normalmente acorda com a sensação de perda. E como nestes tempos todos perdemos diariamente sempre qualquer coisa, é o amigo certo para tempos incertos. Há uns anos atrás, como não havia nada de palpável que pudesse censurar a si próprio de ter perdido, encontrava a necessária puerilidade na actualidade e no desporto. Agora é a política o que lhe mete medo. Mas nem sempre foi assim.

 

Quando jovem pensou enveredar por uma carreira no mundo das artes. Acabou em caixeiro-viajante, não sem antes passar por uma infinidade de pequenos empregos inadequados e de ter namorado mulheres igualmente inadequadas. Um emprego significava sempre uma namorada nova.

 

A sua grande paixão abandonou-o por o considerar frouxo e frívolo. Ele prometeu-lhe ser um rochedo quando antes era nuvem passageira. Ela avisou-o: “Não vais nada. É conduta que não faz parte da tua natureza.” Ele replicou ofendido: “Não cuidei eu de ti quando estiveste doente?”Ao que ela atirou certeira: “Sim. És maravilhoso para mim quando estou doente. O problema é que quando estou boa não me serves para nada.”Foi mais ou menos por essa altura que nos tornámos íntimos. Os amigos são para as ocasiões.

 

Andámos na mesma escola. Aí fomos sempre mais rivais do que amigos. Mas, tenho de vos confessar, a rivalidade também pode durar toda uma vida. Apesar de poder parecer o contrário.

 

A sua inocência desviou-o sempre da verdade (crueldade?) da vida. Foi sempre um efabulador. Pagava a amizade em copos de bebidas caras nos bares onde a maioria dos seus amigos não tinha dinheiro para frequentar. Descrevia-nos com um assinalável nível de pormenores as suas aventuras eróticas. Falava-nos das suas boémias com cara de caso. Mimava-se a si próprio com fatos caros e, sobretudo, aos sábados de manhã, frequentava as barbearias onde lhe punham sobre a pele toalhas quentes molhadas com perfume de alfazema, ao mesmo tempo que se falava de futebol e política a sério.

 

Namorou com uma rapariga tão parecida com a Madalena Iglesias que todos nós equacionámos a possibilidade de ela ser a própria Madalena Iglesias revista e aumentada. Mas nunca conseguiu manter uma relação amorosa por muito tempo. As mulheres deixavam-no sempre. É verdade que o R. dançava com elas de rosto junto e era bom de ver como todas elas lhe entregavam as suas almas em confidência. Mas uma coisa é ser o confessor de uma mulher. Outra bem distinta é ser o seu amado. Era por ser engraçado que elas confiavam nele. Apenas por isso.

 

Uma coisa é certa, o R. foi sempre um amante falhado mas um esquerdista emproado. Nunca conseguiu ser mais nada, a não ser um marxista bastante deprimido. Nas últimas eleições legislativas perguntei-lhe se ia votar no Bloco de Esquerda. Ele fez-se distraído e nada respondeu. Eu voltei a insistir. Então, visivelmente irritado, atirou-me com esta: “Acabaste de me enfiar num estereótipo. E nada existe de mais constrangedor do que estereotipar os amigos.” Eu pedi-lhe de imediato desculpa. Ele voltou à liça: “Foram os estereótipos o que nos lixou a vida enquanto nação. Todos os nossos inimigos se tornaram mais fortes depois de os combatermos. Nestas como noutras coisas, ficou claro que os rufiões são aqueles que acabam por se derrotar a si próprios.” Eu argumentei que a vergonha é um assunto privado. Um assunto de família. E que quando alguém da nossa família age erradamente é nosso dever dizer-lhe. Não boicotá-lo.

 

Ele argumentou: “Sou filósofo, não tenho a certeza de nada. Mas tu não és definitivamente o meu oráculo.”Eu respondi-lhe: “Eu sou adepto do Sócrates. É tudo quanto me basta de filosofia.” Ele insistiu: “És um demagogo.” Eu resolvi terminar com a conversa: “Eu não alinho em linchamentos públicos. Combatam-se as ideias, mas não se persigam homens para eliminá-los na praça pública. E não te esqueças, lá diz o povo na sua ancestral sabedoria: atrás de mim virá quem bom de mim fará.”


publicado por João Madureira às 07:00
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