Quinta-feira, 30 de Junho de 2011

Chuva e sorrisos


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

O Poema Infinito (54): a perfeita noção de insatisfação

 

E por vezes sobe-nos um silêncio por dentro que nos aflige de morte. Esse é o nome da solidão por onde a raiz da nossa origem emerge para próximo do abrandamento da dor. As estrelas transformam-se em rituais de gelo. Vem de longe a voz que nos faz esquecer o próprio nome. Perdemos o mundo tentando alimentar-nos da feroz beleza do amor, do fogo cruel do desejo. O sonho simula a violência. Levitamos diluindo-nos no escuro. O tempo fixa o horizonte da obsessão. Quero ignorar a sedução que me incendiou o dia. Todos os caminhos da luz conhecem a fonte do desejo. Por isso tento segurar mais um pouco a divindade desequilibrada que se viu traída pelo fogo do silêncio. Outra é a dor das tuas mãos atravessando o caminho do meu corpo já exausto. Novas estrelas determinam o caminho até ao rio onde se afogam os anjos virgens da verdade. Aí começa a perseguição infinita. A nova fé no nada varre o esplendor do elixir da eterna juventude. Um homem baptiza Deus nas lágrimas dos mártires. Fios de luz divina desenham na pele dos humanos vários trilhos da morte. Vamos ter de começar de novo. Vamos ter de suspender o rosto indelével da felicidade dos traidores. Vamos ter de remendar o mal das aberrações divinas. Vamos ter de entoar cânticos negros enquanto exaltamos a fragilidade da vida. Chovem-nos gotas de sal nos olhos cansados. As nossas cinzas paralisam-nos o futuro. Os sonhos transformam-se em poeira. Também eu feneço na cruz diária da dissimulação. Deus despedaça a golpes de machado a árvore da vida. Esse é mais um tesouro arrasado pela ilusão da palavra divina. Sobeja de mim a perfeita noção de insatisfação. Só assim consigo pensar na origem do bem. Na sua violência, na sua ordem, na sua intrínseca superioridade moral. Na sua paz guerreira. Bebo na fonte da verdade a ilusão da mentira. Embriago-me até ficar lúcido.


publicado por João Madureira às 07:00
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Terça-feira, 28 de Junho de 2011

Contrastes


publicado por João Madureira às 07:00
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Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

A utilidade das algemas e tagine de peixe à marroquina

 

Um meu amigo que está lá para baixo e que já não via há muito, muito tempo, diz que inventou (reciclou, adaptou) uma nova função para as algemas. De facto, o L. sempre teve uma fixação por algemas, daí acalentar, desde a infância, o sonho de ser polícia. É funcionário de acção educativa numa escola secundária do litoral sul. Do mal o menos.

 

“Tu sabes bem”, disse ele olhando para mim, mesmo parecendo o contrário, com os seus olhos estrábicos, “que as algemas e as correntes possuem virtualidades e funções na vida moderna que os seus inventores muito possivelmente não terão ponderado na época recuada em que foram inventadas e onde tudo era mais simples.”

 

Tornando a olhar para mim, deduzi eu, e não para o poste que estava ao meu lado, como parecia, pois ninguém fala para um poste estando sóbrio, continuou a sua dissertação: “Se eu fosse responsável autárquico pela segurança na zona onde habito, mandava instalar vários conjuntos de algemas e correntes nas paredes dos edifícios públicos. Quando os moradores se cansassem da televisão e de ir passear o cão, podiam acorrentar-se uns aos outros como exercício de treino. Passaria a ser uma forma de convívio interactivo entre vizinhos. Estou em crer que todos adorariam.”

 

Eu olhei para o L., ou melhor para os olhos do L. que nesse momento estavam a fixar com muito empenho uma velha fechadura de uma porta da Rua da Cadeia, e limitei-me a abanar a cabeça em sinal de concordância. Ele sorriu para a fechadura e continuou: “As mulheres, transbordando de fantasias juvenis, ou sexuais, diriam: «Esta noite o meu marido acorrentou-me. Senti-me nas nuvens. E o teu?» (Pausa para salivar.)

 

“E as crianças, quando saíssem da escola, iriam logo a correr para casa, onde os avós, ou a criada, estariam à sua espera para as acorrentar. Esse gesto singelo fazia mais pelo desenvolvimento da sua imaginação do que todas as aulas de Educação Visual durante um ano lectivo, além de as ajudar a aumentar a cultura geral que lhes é sonegada pela televisão, e reduziria consideravelmente a incidência da delinquência juvenil. Quando o pai, ou a mãe, ou ambos, chegassem a casa, toda a família escolheria o eleito do dia para ser acorrentado como prémio pelo facto de alguém em casa ter o privilégio de possuir um posto de trabalho, mesmo que a produtividade continuasse em níveis absolutamente medíocres. Mas não se pode ter tudo. Não é verdade, caro amigo?”, interrogou-me o L. olhando para a árvore que abanava as folhas sobre o meu lado direito.

 

Demos mais uns quantos passos, enquanto ele ganhava fôlego para mais uma investida. “Os nossos parentes mais idosos que causassem problemas seriam acorrentados na garagem. Apenas se lhes soltavam as mãos uma vez por mês para assinarem os cheques da segurança social. Como vês”, disse ele sorrindo para uma vaso colocado no parapeito de uma janela, “as algemas e as correntes poderiam ajudar a construir uma vida melhor para todos nós.”

 

Eu pus-me a olhar para ele que continuava com os olhos fixos no vaso e disse-lhe: “És um pândego”, com vontade de lhe dizer outra coisa. Cumprimentei-o mais uma vez, em sinal de despedida, e fui-me embora.

 

O L. nunca foi para mim uma pessoa querida. De facto, o pobre rapaz, por causa do seu olhar, e de outros atributos que agora não vêm ao caso, foi sempre um solitário. E continua. Lembro-me perfeitamente de uma vez no Liceu, quando estávamos no laboratório de química, o preparado do L. explodir, queimando-lhe as sobrancelhas e pregando a todos um susto de morte. O choque e o pânico fizeram com que ele molhasse as calças, mas nenhum de nós lhe ligou qualquer importância, nem mesmo o professor, que o detestava por explosões ocorridas nos vários anos de repetência. Durante o resto do dia andou pelo Liceu encharcado, e todos nós fizemos de conta que era invisível. Mas o L. era apenas estrábico.

 

Ganhei-lhe algum carinho porque uma vez me confessou que não podia ter filhos. Eu, então, perguntei-lhe, pesaroso, a razão de tamanha desventura. Ele, fixando um quadrado azul da pintura do Nadir Afonso que está na parede do Sport, deu-me uma resposta que ainda hoje me fascina e enternece: “Sou como Portugal, tenho os testículos subdesenvolvidos.” Só não chorei porque me ri.

 

PS – Por causa da crise da dívida pública, cujos juros não param de subir, e tudo por culpa de José Sócrates, aqui deixo aos estimados leitores mais uma receita para quatro pessoas, de preferência socialistas, para verem como elas doem na oposição: “Tagine de peixe à marroquina”.

 

Ingredintes: azeite, cebola, açafrão, canela em pó, coentros e cominhos moídos, açafrão-da-índia, tomate em pedaços, caldo de peixe, quatro lucianos-do-golfo (por sugestão do governo PSD) pequenos, limpos, sem espinhas (essas deixam-se para José Sócrates e seus apaniguados), sem cabeça e sem rabo (por sugestão dos ministros do CDS); azeitonas verdes descaroçadas (por sugestão do PCP), sumo de limão (em homenagem ao resultado do BE), coentros frescos picados e cuscuz (por inspiração da deputada do PSD por Vila Real, Manuela Tender) preparados de fresco para servir.

 

Confecção: Aqueça o azeite numa cataplana, em lume brando, junte a cebola e deixe cozer (entretanto vá lendo as promessas do PSD e do CDS para não as esquecer), mexa de vez em quando, durante dez minutos até a cebola ficar tenra (e terna como Pedro Passos Coelho, vulgo PPC, em campanha eleitoral), mas sem alourar, como o Paulo Portas. Junte o açafrão, a canela, os coentros moídos, os cominhos e o açafrão-da-índia e deixe cozer, mexendo sempre, durante mais trinta segundos. De seguida prepare os tomates (com cuidado, em homenagem ao meu amigo L.) e o caldo. Logo após mexa vigorosamente. Espere que levante fervura. Baixe o lume, tape e deixe cozer durante quinze minutos. Destape e deixe apurar mais vinte a trinta minutos. Corte cada Luciano-do-golfo (com a mesma precisão com que PPC se prepara para cortar na saúde, na educação e na segurança social), introduza-os na caçarola, envolvendo-os no molho. Deixe cozer, em lume brando, durante cinco a seis minutos. Adicione cuidadosamente (como é timbre do nosso Presidente da República) as azeitonas e o limão de conserva e os coentros frescos picados. Tempere com sal e pimenta e sirva acompanhado por cuscuz. 


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Domingo, 26 de Junho de 2011

O menino


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Sábado, 25 de Junho de 2011

Um homem, uma carreta e um cão


publicado por João Madureira às 07:00
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Sexta-feira, 24 de Junho de 2011

O Homem Sem Memória

 

69 – Aquele foi o Verão do seu contentamento. Acordava cedo e lia, quando podia, ou então, quando se deitava tarde, dormia mais um pouco para arranjar forças para brincar. Havia mesmo manhãs em que se levantava com as galinhas e ia para o seu forte, que era o terraço que servia de telhado à casa de banho, esperar pelo nascer do sol. Ali, com o seu chapéu à Daniel Boone, chorava de emoção quando via os primeiros raios de sol expandirem-se por cima do cume das montanhas. Este exercício de vigilância territorial era repetido ao pôr-do-sol, quando o José endireitava o seu chapéu de pele de raposa e entoava com a boca, transformada em cornetim, o hino do recolher dos seus féis exércitos imaginários.

O estranho chapéu à Daniel Boone resultou de uma investida solitária ao monte em busca de inimigos, que tanto podiam ser índios, como cowboys renegados, ou rebeldes sulistas. Numa dessas incursões deparou-se com uma raposa ferida de morte. Assinalou o local e deixou o animal entregue à sua sorte. Podia ter sido ele a dar-lhe o golpe de misericórdia, mas deixou que fosse o tempo a finalizar a tarefa. O José não conseguia matar nem uma mosca, quanto mais um animal belo e agonizante como aquele.

Passou lá no outro dia e encontrou, como esperava, o corpo inerte e frio do animal. Trouxe-o para casa e pediu a um amigo peleiro que o esfolasse e curtisse a pele. Depois levou-a a um alfaiate para dela fazer um boné com base numa fotografia do Daniel Boone publicada numa revista.

Passou a ser o herói do bairro. O ídolo das raparigas, que namoriscava sem se comprometer com nenhuma. Muitos dos seus amigos achavam-lhe graça e, de certa forma, admiravam a sua propensão para a fantasia. Via-se que não era como os outros. Vivia num mundo muito próprio. Alimentava-se de mitos, sonhos e conquistas.

Arranjou um amigo tão estouvado e tão solitário como ele que tinha um nome feminino. Todas as tardes partiam à desfilada, nos seus cavalos loucos, para o meio dos montes onde construíram cabanas de pinheiros e giestas, onde assavam as galinhas e os láparos caçados nas capoeiras e nas coelheiras dos seus familiares, onde bebiam os licores de laranja e anis preparados à base de concentrado adquirido nas farmácias, ao qual misturavam aguardente bagaceira e uma boa dose de açúcar. Fumavam cigarros feitos de barbas de milho seco ou, quando encontravam uma tribo de índios amiga, fumavam fortes cachimbadas de ervas aromáticas, até ficarem atordoados, à volta da fogueira e bebiam a meias, de garrafas especiais, os licores balsâmicos e açucarados.

Pescavam nos rios bogas, escalos, panjorcas, percas-sol, pimpões, trutas mariscas e enguias que abriam e secavam ao sol, ou davam aos gatos, ou se atreviam a assá-las num bom braseiro, ou então vendiam o peixe a algumas famílias com posses, e o que ainda sobrava entregavam-no ao asilo dos velhinhos, com a nítida intenção de alimentar os mais necessitados, mas o peixe do rio ia sempre parar ao prato do senhor abade, e de uma ou outra freira mais próxima da influência eucarística do guia espiritual, numa boa sertã recheada de suculentas postas fritas com cebola, tomate e pimento, que acompanhava com batata cozida, broa centeia e vinho branco de uma colheita privada de Arcossó.

O Graça – assim se chamava o seu amigo – vivia com a avó, pois a sua mãe tinha morrido vomitando os bofes devido a uma intoxicação de gás provocada por uma fuga de um esquentador instalado dentro da casa de banho. O seu pai, um sargento do exército português condecorado pela sua coragem em combate em comissões de serviço nas províncias ultramarinas (e coleccionador de orelhas e dedos de turras), vivia agora um segundo casamento onde não cabia o seu primogénito. Houve ainda uma tentativa que correu muito mal, pois um dia o Graça insultou a sua madrasta dizendo-lhe obscenidades e mostrando-lhe o pénis de forma ostensiva. Esta era a sua forma de marcar terreno em relação às fêmeas. Quando o irritavam, ou o provocavam, ou olhavam muito para ele, de imediato baixava as calças e as cuecas e ostentava o falo como se fosse um troféu de caça.

Nesse mesmo dia, quando o pai chegou a casa, tratou de o amansar com um chicote (ó ironia das ironias) feito de pénis de boi que o deixou às portas da morte. Dali foi para o hospital em estado de coma. Quando recuperou, passados alguns dias, foi entregue aos cuidados da sua avó materna, que lhe dedicava um carinho especial e que era recíproco.

Um dia, o José e o Graça, resolveram envolver-se numa luta feroz contra um bando de escoteiros mirins comandados por um meia leca de calções e chapéu colonial emprestado pelo seu pai, que era soldado da GNR. Ambos e dois lhe tinham uma raiva muito particular. Sobretudo porque tinha a mania que era bom, que se sabia impor e arregimentar soldados para o seu pelotão. Verdade é que os tratava com uma varinha de salgueiro e os vigiava com monóculo de plástico de fabrico próprio, numa tentativa de imitar o seu herói preferido, o General Spínola. O zelo era tanto, que, por vezes, à falta de animal para cavalgar, montava no lombo de um dos seus apaniguados, que tinha uma queda especial para fazer de burro. Como também não tinha cães, socorria-se de outros dois rapazes que eram especialmente dotados para rosnar, ladrar, seguir pistas, mijar junto dos troncos das árvores alçando a perna, e morder a barriga das pernas do inimigo.

O pai deste garboso capitão mirim era conhecido por, usando o seu carisma e prestígio de GNR zeloso e autuador, pois passava multas por tudo e por nada, conseguir alimentar a família à custa do povo temerário que ele patrulhava na companhia de outro imbecil do mesmo calibre. Sempre que as batatas, as cebolas, as couves, os grelos, as galinhas, os coelhos, um que outro cabrito ou cordeiro para os dias festivos, um que outro leitão para cevar lá em casa, atingiam o ponto crítico na despensa ou na corte, e o fumeiro desaparecia na arca do centeio, o mirim sénior fazia-se encontrado com determinado agricultor e encomendava-lhe aquilo que lhe faltava a troco de um próximo pagamento. Quando recebesse o vencimento prometia pagar, até com juros. Lá prometer prometia, mas nunca cumpria. Os pobres homens tinham-lhe medo e metiam-se em copas. Algum, menos avisado, a princípio ainda teve a ousadia de ir pedir-lhe o que lhe era devido. Ele prometeu-lhe, mais uma vez, ir pagar-lhe no dia seguinte. E cumpriu com o prometido. Mas, imediatamente a ter feito o pagamento, inspeccionou tudo o que tinha a inspeccionar, desde a licença e as vacinas dos cães, o tamanho da ponta metálica da aguilhada, as chedas dos carros de bois, a licença e porte de armas da caçadeira, as vacinas dos bovinos, a permissão de abate dos cabritos e dos porcos, a autorização para os galináceos que andavam pelas eiras e pelos caminhos a invadir propriedade privada, a autorização para a venda dos restantes animais, das batatas e dos feijões, a licença das navalhas e dos isqueiros espanhóis, enfim tudo o que podia ser escrutinado foi-o duplamente e o dinheiro que tinha recebido nem sequer deu para um décimo da multa que se viu obrigado a pagar ao Estado. Foi lição definitiva. Todos vendiam ao GNR a troco de um sorriso e de uma promessa de pagamento que era de imediato esquecida.  


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Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

Mulher sorrindo


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Quarta-feira, 22 de Junho de 2011

O Poema Infinito (53): o Capitão Gancho e a Sereia de Plástico

 

Surgiu de repente uma sereia de plástico no meio da viagem pelos mares da arábia. Eu vi. O marinheiro da proa esfacelou a coragem. O mar era estreito e pintado de cores monótonas. A costa, de vez em quando, vestia-se de neblina. Decidido, o Capitão Gancho começou a atravessar a memória da tripulação com pequenas lâminas de coral. Eu vi. Içaram a sereia para o veleiro. De seguida, a sereia de plástico levantou-se, luminescente, e abraçou o timoneiro que desfaleceu de cansaço. Os olhos vibráteis do Capitão Gancho escorregaram no sexo explícito da sereia e os marinheiros esconderam o pénis liso de encontro ao mastro do veleiro. O corpo da sereia encheu-se de pérolas fascinadas. O corpo do Capitão Gancho avolumou-se com os despojos do mar e das anémonas insones. A sereia de plástico amaciou os seus cabelos loiros e abriu os seus lábios húmidos. Um marinheiro desenhado a tinta-da-china sugou-lhe li-te-ral-mente a vagina. Limos de ciúme escorreram dentro do sonho do Capitão Gancho. Todos vigiaram o corpo exposto da sereia que continuava desenhada nos olhos implícitos do Capitão Gancho. De repente, o corpo da sereia sofreu a sequiosa transparência dos peixes luminosos. Nesse momento, o Capitão Gancho abriu o sexo da sereia de plástico e penetrou-a com um prazer vagaroso. Durante a noite, o veleiro navegou demoradamente em redor das ilhas alucinadas. Os marinheiros embriagaram-se com rum e ofereceram flores envenenadas aos amantes. Eu vi. A sereia, pela manhã, fendeu o seu próprio corpo com o gancho do Capitão Gancho. Depois chorou lágrimas verdadeiras sulcadas de solidão e adolescência. E mergulhou para sempre na escuridão incessante do mar. 


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Terça-feira, 21 de Junho de 2011

O homem e o burro


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Segunda-feira, 20 de Junho de 2011

A vontade de dizer não

 

Os meus amigos andam intrigados por eu desconfiar instintivamente das ideologias. Por vezes isso deixa-os perplexos, perguntando-se, e perguntando-me, no que é que eu acredito realmente, qual é a minha visão do mundo. O R., provocador como sempre, diz que eu sou o tipo de pessoa que passa após os primeiros 15 minutos num restaurante a debater os méritos relativos do peixe em relação à carne.

 

Mas a verdade é que sou mais do estilo de Tony Campolo, um conhecido ministro protestante branco dos EUA, que gosta de abanar os seus ouvintes com uma clemência confortável. Num sermão anunciou: “Há três coisas que hoje gostaria de dizer. Primeira: Enquanto vocês dormiam ontem à noite, trinta mil crianças morreram de fome ou de doenças relacionadas com má nutrição. Segunda: A maior parte de vocês está a cagar-se para isso. Terceira: O pior é que ficaram mais chocados por eu ter usado a palavra «cagar» do que com o facto de trinta mil crianças terem morrido ontem à noite.”

 

Apesar disso, todas as semanas as pessoas de todos os credos, religiões e ideologias continuam a rezar, e a pregar, nos santuários e nas televisões, completamente esquecidos destes factos. De novo volto a Campolo: “ Deus tem de estar farto desta merda.”

 

Os triunfadores do 5 de Junho vivem e morrem pela presunção de que são os génios do bem que triunfaram definitivamente sobre os anjos do mal. Pensam que tudo o que fizeram, e tudo o que aconteceu, foi intencional e brilhante. Depois de todo o idealismo serôdio do movimento “laranja”, e depois dos dias inaugurais da indigitação, o PSD e o CDS vão ter de aceitar a dura evidência de que governar é muito diferente de fazer campanha, é um passar da poesia à prosa, da celebração e babujaria à batalha e ao compromisso ou, por vezes, à derrota. E quando este governo de direita falhar, o meu receio é que as pessoas do meu país tenham medo de mais uma vez ter esperança de acreditar de novo. O perigo da desilusão é imenso porque os problemas são enormes.

 

O meu amigo R., vendo-me tão amargurado, argumentou, em abono da humanidade, que os melhores espécimes foram sempre maltratados ou assassinados: Pitágoras foi morto por causa de um diagrama, Séneca teve de cortar os pulsos, além de todos os santos e professores que se tornaram mártires.

 

Mas não se ficou por aí. Resolveu estereotipar-me: “De repente dei conta de uma tua qualidade. És do contra, possuis um sentimento de discórdia dentro de ti. Não deslizas ligeiramente pelas coisas. Apenas dás essa impressão.”

 

Esta foi mais uma das muitas vezes que alguém disse alguma coisa que posso considerar como verdadeira a meu respeito. De facto, o que ele disse é certo, possuo efectivamente um sentimento de oposição dentro de mim e um enorme desejo de oferecer resistência e de dizer “não”. É instintivo. Como há por aí tanta gente a dizer sim, a minha vontade é dizer não.

 

O meu amigo R. contou-me que, na sua perspectiva, os partidos políticos têm a qualidade de uma antiga, e famosa, escola de gatunos de Roma que era tão cara que os alunos assinavam um contrato comprometendo-se a pagar à instituição metade do que ganhassem durante cinco anos depois de se formarem.

 

Eu retorqui, por desfastio: “Olhando para ti, sou capaz de dizer que na nossa espécie somos todos muito semelhantes.” Ele concluiu: “Mas, apesar disso, as diferenças são agradáveis.”

 

Por fim lembrei-me de alguém amigo e conclui que, afinal, tinha acabado por descobrir, com amargura, como é pequena a vontade que as pessoas revelam em verem alguém ter êxito num projecto especial. E do consolo que algumas delas sentem quando o que é insignificante prevalece e todos os outros esforços vão por água abaixo. Isto sempre debaixo do manto diáfano da hipócrita camaradagem.

 

O R. tem razão, são a desgraça e o lixo o que dá unidade ao mundo. Supostamente, apenas a diversão torna esta perspectiva tolerável. E disse uma coisa inquietante: “Se pudéssemos transformar em lodo as falsidades corriqueiras de um dia, estrangularíamos o Tâmega, fazendo com que deixasse de correr. 


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Domingo, 19 de Junho de 2011

Mulher a falar


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Sábado, 18 de Junho de 2011

Mulher à varanda


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Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

O Homem Sem Memória

 

68 – Acordou cedinho e preparou-se para rezar as orações matinais mas lembrou-se que o que tinha rezado na casa do tio Manuel dava e sobrava para toda a semana. Por isso absteve-se de rezar. O que é demais é moléstia. Dormiu mais um pouco.

A sua querida avó preparou-lhe, sem o saber, um pequeno-almoço à inglesa: carne entremeada da pá frita na sertã, um ovo estrelado, pão centeio, café preparado na chicolateira, a que lhe juntou uma brasa incandescente, e por fim três nozes e meio cálice de aguardente, pois o dia tinha amanhecido frio e rabugento.

Foi à missa mas não rezou, observou e escutou o lento desenrolar da liturgia, o fleumático recitar das orações, os dissonantes cânticos das mulheres do coro, a voz desarranjada dos padres, a música hesitante da banda musical, os olhares distraídos e cabisbaixos dos homens, os gestos impacientes das crianças e dos jovens, a aparência compenetrada e débil das beatas, a aparência sofrida do Cristo na cruz em frente do sacrário e o semblante doce de prazer sofrido do São Sebastião pintado na cúpula de madeira do tecto da igreja.

Ridiculamente trajados, os rapazes pareciam homens miniaturais enfiados nos seus fatinhos pretos onde uma camisa inexoravelmente branca sobressaía dentro do colete acanhado. O laço e os sapatos de verniz, igualmente desventurados, constituíam o remate que lhes conferia um ar de irmãos replicados. Pareciam todos idênticos, como se fossem chineses ou os pretos dos filmes do Tarzan.

As raparigas trajavam invariavelmente vestidos brancos rendados para mostrar ao Criador, e às gentes da sua aldeia e das aldeias vizinhas, que eram fêmeas, virgens e puras. Usavam conjuntamente um laço a aconchegar o vestido ao pescoço, sapatos brancos de verniz e ainda um outro laço mais vistoso e colorido na cabeça. Todas ostentavam cabelos compridos. Era a imagem de marca da época.

Dentro da igreja, por cima do perfume a flores, do odor a suor e a cera, impunha-se o intenso cheiro da naftalina.

Depois da missa, seguiu-se a procissão. Como todos os anos, os andores eram subidos. Por isso, transportá-los pelo meio das ruas estreitas e sinuosas era tarefa para os homens mais fortes e determinados. Mesmo assim, muitas vezes entre o descer e levantar, o torcer à direita e virar à esquerda, muitos anjos deixavam as suas asas, alguns santos perdiam as suas auréolas, algumas santas os seus mantos e alguns homens a sua divina paciência.

Entretanto a banda tocava, as pessoas entoavam cânticos de louvor a todos os canonizados, e os foguetes estouravam no ar para lembrar aos povos em redor que os habitantes desta aldeia eram os mais devotos dos devotos.

Finalmente, a procissão chegou ao sítio onde tinha principiado. Os homens dos andores puderam, então, sentar-se nos bancos da igreja para limpar o suor e ganhar fôlego para se dirigirem até suas casas onde os aguardava um lauto almoço. Os músicos foram distribuídos um por cada casa. Ao seu tio Manuel calhou-lhe em sorte o regente da banda.

O almoço foi servido com algum requinte. Até o mestre ficou surpreendido. O senhor Manuel, nas suas várias estadias realizadas em França junto dos seus três filhos, tinha absorvido algumas das peculiaridades da cultura culinária francesa. Por exemplo, fornecia agora como entrada o melão em talhadas previamente descascadas para servir de acompanhamento às finas tranches de presunto, servia ternos folhados de galinha cozidos no forno, atreveu-se mesmo a dar a provar aos convidados “pâté de canard au Porto” com torradinhas, e, ó ousadia!, momentos antes do prato principal, colocou em frente de cada comensal meia alface tenra (colhida no seu quintal, mesmo ao lado das meloas, fruto que foi o primeiro a semear na aldeia com muito sucesso, para inveja dos invejosos),  guarnecida com um filete de anchova. Tudo isto foi regado com um branco palhete, colheita própria, de se lhe tirar o chapéu. O seu travo ligeiramente frutado e dulcificado veio mesmo a calhar para refrear o sabor intenso e ácido do sal da anchova.

Ainda todos estavam a recompor-se das torcidelas de nariz e da salivação excessiva por causa da anchova encavalitada na alface, quando foi servido o cabrito assado acompanhado de batatas também assadas e de um arroz de miúdos. O branco palhete foi de imediato substituído por um mais adequado tinto forte para desfazer gorduras e estimular a boa disposição.

A sobremesa, para os convidados mais requintados, foi composta por meias esferas de meloa guarnecidas com vinho generoso, colheita de um amigo da casa de origem duriense, e ainda por bolos, biscoitos sortidos, e um licor de noz de fabrico caseiro.

Foi servido ainda um café bem forte para cortar o álcool. E aos homens mais atrevidos foi oferecido um charuto de razoável qualidade, que alguns fumaram e outros guardaram para mais tarde. Depois dormiu-se a sesta.

Lá mais para o fim da tarde tocou a banda no coreto. O baile não foi muito participado por causa do calor. Mas o arraial foi de arromba.

Além da Filarmónica actuou um conjunto de músicos galegos que tocava todo o tipo de música. Com a banda bailavam os pares mais velhos, ou os jovens mais tradicionais. Com o conjunto dançavam todos, até os coxos, o que provocou uma nuvem de poeira que muito perturbou dançarinos e basbaques, apesar de o recinto ter sido regado durante a tarde. Nas tascas improvisadas, os forasteiros comiam, bebiam e folgavam. Os que eram conhecidos das pessoas da aldeia eram convidados a irem até às adegas beberem um copo e trincar algum pedaço de carne que tivesse sobrado. Por volta da meia-noite já todos os homens, e algumas mulheres, estavam bêbados. Era a hora má. Com os ânimos exaltados, surgiam as provocações dos da terra aos forasteiros e de estes aos da terra. Povos de aldeias vizinhas são rivais para toda a vida. Então se pelo meio algum deles se atrever a namoriscar rapariga do povo, o caldo fica mesmo entornado.

Foi o que aconteceu. No meio do arraial principiou um redemoinho de criaturas que mais parecia uma disputa entre bruxas e zângãos. Começou a chover porrada da grossa: murros, pontapés e paulada. O José, curioso, correu para lá. Aquilo só podia ser obra de gente mal-formada. Qual não foi o seu espanto quando verificou que, no meio do tumulto, estava o seu tio João a assentar porrada num rapaz emigrante de Soutelinho da Raia que se atreveu a dançar com a sua sobrinha mais nova, filha do seu irmão Manuel, sem a autorização do respectivo pai. Enquanto a rapariga chorava, depois de o pai lhe ter dado umas estaladas bem dadas, o tio João continuava a bater no pobre moço. E não abrandava. Isto fez com que os mancebos de Soutelinho se pusessem em guarda e sacassem das navalhas e dos trabucos dos respectivos bolsos. Acudiu a Guarda Republicana com as espingardas prontas para o que desse e viesse. O ambiente ficou à beira da guerra civil, uns de cá e outros de lá, cada um com as suas armadilhadas razões e cada qual com o seu orgulho ferido. Nisto o José abraçou o tio João e pediu-lhe que, por amor de Deus, pensasse no bom nome da família, no falecido pai e na querida mãe que estava ali afogada em pranto. Lembrou-lhe que também o avô José, e seu saudoso pai, veio de Vilela para a aldeia arranjar mulher que prestasse. E não se arrependeu. Agora o pobre rapaz não podia namorar com quem engraçasse? Ora, ora! Dominada a fera, estabeleceu-se o armistício. O Tio João foi para ao pé dos seus, a sua sobrinha foi para casa curtir as mágoas e a vergonha, e o rapaz namoradeiro, mesmo contra a sua vontade expressa, rumou no jipe da GNR caras à aldeia donde tinha sido nado e criado. 


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Quinta-feira, 16 de Junho de 2011

Mulher à esquina


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Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

O Poema Infinito (52): um poema de paixão

 

Este é um poema de paixão. O mundo concreto das palavras invade a doce demora das mãos. Voa um anjo comprido atrás de um peixe de luz enquanto uma mulher abstracta constrói a sua voz até ao regaço. Uma fêmea é uma palavra eterna. Eu toco na paixão da mulher e deito-me para a amar. A mulher mergulha o seu corpo no meu e os seus dedos descobrem o segredo das coisas puras. Arde-me o seu nome no meu rosto. Palavras irremediáveis circundam os seus olhos imensos. O silêncio esgota-se nas lágrimas multiplicadas. Arde uma estrela no nosso sexo. Toda a mágoa brilha na harmonia do desejo. O desejo é o eterno retorno da inquietação. Uma música subtil conquista o sigilo da benevolência repetida. O seu olhar é agora um relâmpago multiplicado. Eu sou a memória exacta dos lírios cegos. Isto que sinto não tem nome. É uma iluminação perpétua. Os nossos sexos são a imensa memória da vida. Amo-a como quem absorve um fruto maduro. O seu corpo é agora um espasmo incandescente. Atiro-a de encontro ao espaço imenso do meu olhar. A cama incendeia-se de gestos. O prazer multiplica-se por dentro das nossas bocas procurando a louca iluminação dos enigmas. A luz violenta da carne explode nas veias densas da possessão. Conquistar um corpo é a maior das aventuras. De novo o prazer levita na limpidez dos seus lábios húmidos de sexo. Um queixume de fantasia inverte os raios dos orgasmos. Uma ejaculação perfeita é um enigma concreto. Continuo a arder devagar. Morro mais um pouco na sua beleza. Alimentamo-nos no silêncio imprevisto do amor. A minha voz procura novamente o seu sexo. O último sentido canta a alegria da sua boca. Bebo-a. A curva quente dos seus cabelos começa a florir de novo. Estou tão perto dela que não me distingo. O meu sexo deseja o seu tempo. O amor é o sentido escondido da religião. Beijo os seus olhos incendiados e espero pela esperança efémera da vida. Este poema de paixão faz-se contra a violência do tempo. 


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Terça-feira, 14 de Junho de 2011

Reflexos num olhar


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Segunda-feira, 13 de Junho de 2011

Os porcos-espinhos de Schopenhauer


 

Thoreau escreveu que há por aí muitas vidas a serem vividas em discreto desespero. E foi isso o que me veio à ideia quando vi o vídeo onde duas raparigas agridem uma suposta amiga a mando de um rufia de bairro por presumíveis insultos à sua mãe.

 

De facto já há demasiadas pessoas oprimidas pelos impostos, pela inflação, pelo congelamento dos salários, envenenadas pela poluição ambiental, assustadas com a violência urbana, assustadas com uma nova cultura juvenil, desorientadas num mundo cada vez mais virtual.

 

Trabalharam toda a sua vida para conseguirem uma pequena casa nos arredores das grandes cidades, compraram vários electrodomésticos e dois carros. Agora a vida boa parece ter-se dissipado em fumo.

 

Presentemente vivem vidas vazias penando em empregos frustrantes ou num desemprego cíclico e desmotivante. Empanturram-se de comida rápida e fazem dieta com tranquilizantes e excitantes. Sobretudo afogam as suas mágoas em álcool. Sentem-se encurraladas, vigiadas, despersonalizadas. 

 

Muitas vivem a desventura de relações fátuas, ou deixam-se encurralar em casamentos que não são mais do que um teste doloroso às suas capacidades de resistência e que, muitas das vezes, terminam em agressão, quando não em violência doméstica. Daí irrompe um sentimento de culpa que marca definitivamente marido, mulher e filhos.

 

Os casais perdem sentimentalmente os filhos e perdem os sonhos que acalentaram.

 

As pessoas estão alienadas, despersonalizadas, sem qualquer sentimento de participação nos processos políticos e sociais. Sentem-se rejeitadas. Vivem sem esperança.

 

Todos os antigos valores que acalentaram enquanto jovens parecem tê-las abandonado numa estação do autocarro, deixando-as à deriva num mar de indiferença social.

 

As pessoas de hoje assemelham-se muito aos porcos-espinhos de Schopenhauer, que estão sempre a aproximar-se uns dos outros porque têm frio e por isso se picam mutuante quando demasiado perto. Deste modo é muito difícil, e muito ténue, uma situação de compromisso.

 

Para os profetas das certezas políticas e sociais lembro as palavras de um juiz liberal americano, chamado Learned Hand, e que Barack tem como lema: “O espírito de liberdade é o espírito que nunca está demasiado seguro do que está certo”.

 

Depois de todo o frenesim político que tomou conta do país nos últimos meses, e de todas as acusações que enxamearam os órgãos de comunicação social e as redes sociais, tenho sérias dúvidas que as pessoas de bem acalentem a ideia de se envolverem na política eleitoral. Cada vez estou mais céptico em relação à ideia de a política ser uma maneira de se mudar qualquer coisa.

O meu amigo R. pôs-me a seguinte questão à qual ainda não consegui responder de forma satisfatória: “Será que a política é realmente uma actividade para pessoas boas, decentes?”

 

Li que Obama, enquanto senador, acreditava ser capaz de convencer uma sala cheia de skinheads; pois acreditava que “todos nós somos uma mistura de impulsos nobres e ignóbeis e acho, que, em parte, é por isso que não inicio reuniões presumindo má-fé por parte dos outros”.

 

O momento político actual levou-me a pensar de novo que, em política, o interesse público nem sempre é uma prioridade para cada um dos seus protagonistas.

 

 

 

 

PS 1 – Em forma de homenagem a José Sócrates.

 

Quando aparece no mundo um verdadeiro génio, é possível reconhecê-lo através deste sinal: todos os estúpidos se unem contra ele.

Jonathan Swift; Thougthts on Various Subjects; Moral and Diverting


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Domingo, 12 de Junho de 2011

O casal e a Cruz


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Sábado, 11 de Junho de 2011

Interioridades


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Sexta-feira, 10 de Junho de 2011

O Homem Sem Memória

 

67 – Num belo e quente dia de Agosto, foi convidado pelo seu tio Manuel, também conhecido pelo Reza, em homenagem à sua extrema devoção a Deus e ao ritual das orações, a ir à festa da aldeia.

Foi de véspera, pois pretendia dar umas voltas pelos caminhos velhos que percorreu a pé e de burro na companhia do seu falecido avô materno. Desceu o rio no vau, mesmo junto à casa da avó, e foi até à Ribeira onde se lembrava de ver regar os tomates, os feijões, as ervilhas, as cebolas, as cenouras e os pimentos. Ainda tinha viva a imagem do avô a comer um tomate taludo e muito vermelho, depois de lhe aplicar dois cortes em cruz, lhe pôr umas areias de sal e lhe dar quatro dentadas. A ele deu-lhe uma mão cheia de morangos colhidos nas bordas do poço e no fim da faina beberam água fresca da nascente por um pimento transformado em copo.

Lembra-se de andar às carrachulas do avô, a cavalo no burro velho e atrelado à mão da avó. Um pouco mais abaixo, alapou-se junto a uma nogueira antiga onde costumava repousar e apanhar fresco. Chorou baixinho. Sentia muito a falta do avô, das suas mãos de bom gigante a partirem nozes com um murro, dos seus olhos meigos, do seu corpo enorme que lhe dava uma sensação de protecção como nunca mais sentiu. Desceu mais um pouco e visitou a Clerga onde se colhiam das melhores pavias da aldeia, boas cerejas, nêsperas e maçãs vermelhas muito ácidas, que eram as suas preferidas. De regresso a casa passou pelo chafariz e bebeu água com as mãos em concha. Cumprimentou o seu tio Artur, já bem bebido, encostado ao seu cavalo preto, que lhe perguntou quem era. Ele respondeu-lhe que era o José, o filho do seu irmão Ferreira. “O Padreco?”, perguntou o tio Artur, e continuou: “Pois olha que não te reconhecia. Até já botas barba. Estás um homem feito. Deus te abençoe, meu sobrinho. E não te esqueças de que o vinho é o sangue de Cristo. Eu, de tanto beber, vou direitinho para o céu.” “Ai vai, vai. E a beber assim vai bem mais rápido do que o que conta”, avisou-o o José. O seu tio riu-se um pouco mais e convidou-o para ir beber um copo à sua adega. O José, gentilmente, recusou. Ele, virando-se para o cavalo, disse: “Não vai o meu sobrinho padreco, vai aqui o meu rocinante.” Pegou na arreata do seu companheiro de trabalho e foi-se embora cambaleando. Quando chegou a casa já a sua avó tinha a comida pronta. Comeram os dois à lareira, apesar de ser Verão. Ele no escano. A sua avó sentada num banco com o prato no regaço. Depois da ceia, foram até casa do Tio Manuel para rezarem o terço. O filho mais velho da avó Maria tinha uma cisma por rezar que a todos incomodava. Rezava, e fazia rezar, toda a família logo de manhã em jejum, no início, no meio e no término do pequeno-almoço. A meio da manhã. No início, a meio e no fim do almoço. À hora do lanche. Antes, durante e no fim da ceia. E antes de deitar. Era enternecedor observar os olhos esbugalhados de fome e impaciência dos filhos e da mulher, quando às refeições olhavam para as panelas a fumegar e, com água na boca, iam recitando ave-marias e pais-nossos à velocidade do som. Mas de nada lhes valia, o seu ritmo é que comandava. Podiam eles despachar as ladainhas rapidamente que, enquanto o tio Manuel não desse por terminada a arenga, ninguém se atrevia a tocar na comida. Era o tocas. Aquele que ousasse servir-se antes de ele dar por terminada a reza era condenado ao jejum. Ficava sem comida e, como penitência, via-se condenado a rezar um terço inteirinho enquanto os demais comiam e bebiam. Se se ganha o céu com rezas, o tio Manuel conquistou um dos lugares mais perto do Criador. Isto no caso de Deus não ser mouco. Mesmo a sua mãe, que era muito religiosa e dada a preces e confissões, evitava, sempre que podia, ir rezar a casa do seu filho. Dizia ela que vinha sempre de lá com a língua mais seca do que a pele do bacalhau salgado. Mas havia alturas em que não se podia esquivar, nomeadamente nos aniversários da morte dos entes mais chegados, como era agora o caso. O avô José tinha morrido em Agosto. Fazia agora dez anos. Mas o tio Manuel não se limitava a rezar apenas no dia do aniversário da sua morte, todos os trinta e um dias do mês eram preenchidos com orações que, à força de tantas serem, obrigatoriamente tinham de recomendar a alma do seu falecido pai a Deus, isto no caso de Deus não ser surdo ou não entender português. O ar que lá por casa se respirava era de profundo silêncio e consternação. A excepção era feita no dia de festa. Afinal Deus também é um pouquinho de alegria. Mas no dia anterior todos lá em casa eram obrigados a duplicar a récita de ave-marias e pais-nossos. Mesmo os animais rezavam à sua maneira. Pelo menos era isso que parecia. Os cães, chegado o mês de Agosto, não ladravam, os gatos não miavam, as galinhas não cacarejavam, os chinos e os coelhos não chiavam, os recos não cuincavam, as vacas não mugiam, o burro não zurrava, nem o cavalo relinchava. Na casa do tio Manuel repetiam-se orações atrás de orações, enquanto a comida arrefecia.

Desta vez a avó do José aconselhou o neto a ser ele a comandar a reza do terço. Como andava no seminário talvez o seu filho ouvisse os conselhos do sobrinho. Ele ainda propôs rezar apenas um terço, mas o tio disse-lhe logo que não, pelo menos três que é a conta que Deus fez. A avó ainda lhe fez sinal para que insistisse. Mas ele disse que a não ser como ele mandava, no dia de festa também tinha de haver rezas nas horas das refeições, o que era uma maçada para os convidados que assim seriam obrigados a rezar pela alma dos que não eram seus. Não era que isso fosse pecado aos olhos de Deus. Mas era indelicado da sua parte obrigar a participar os seus convidados na salvação das almas dos entes queridos. A família tinha de ser capaz de resolver o problema, por conta própria. 


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Quinta-feira, 9 de Junho de 2011

O homem e o menino


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Quarta-feira, 8 de Junho de 2011

O Poema Infinito (51): abandono

 

Anoitece o povo no seu percurso circular. Deitado sobre a sombra do meu corpo sonho com árvores que falam. Correm as mães bendizendo os seus filhos. O perfume das coisas desperta conversas inverosímeis entre os pássaros. É este o modo antigo dos sonhos se reproduzirem entre as palavras luminosas. As estações do ano tornam-se translúcidas. As paisagens desdobram-se noutras paisagens que atravessam sistemas de fantasia. Uma fresca ansiedade invade a memória dos dias. Marco no chão a certeza da morte. As crianças repartem entre si as sementes da ternura. Desce dos astros o cântico mecânico da água. O tempo mostra os seus anéis. A Terra gira em volta de girassóis teocráticos. A aldeia rumina o seu passado glorioso. Os seus caminhos têm o sossego da morte. Colchões de erva e giesta inundam todos os caminhos. Dedos de silêncio afundam a geometria dos passos das almas. A manhã estende-se agora por cima dos campos absurdos. Um sol insólito invade as casas que implodem de solidão e abandono. Um sono de sílabas devora os nomes dos que já morreram. Uma tristeza antiga invade o pânico dos velhos que esperam estáticos mais uma hora de vida. As árvores encolhidas do quintal gastam a ternura da sua sombra nos gatos. O silêncio é cada vez mais um grito ensurdecedor. Até as pedras adoecem com o abandono. Tento enxotar a solidão. O mito dos factos acciona a geometria acumulada dos textos. Epítetos alegres caem dos ramos da memória. Alguém tosse um remorso obsessivo. Os cegos enxugam os seus olhos líquidos. As mamas das mulheres arrefecem nas suas rugas. Mesmo as tábuas das portas exibem o seu silêncio seco. O ar alisa a confusão pálida dos animais. Os velhos são agora as margens de um rio definitivamente seco. O dilúvio do abandono passeia entre as ruínas do interior. Alguém chora por causa do tempo feroz. O meu olhar encosta-se às palavras e caminha de encontro à insónia. A minha angústia mutila a noite. 


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Terça-feira, 7 de Junho de 2011

Sorriso


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Segunda-feira, 6 de Junho de 2011

O engano e a verdade

 

Há por aí muita gente a quem lhe desagrada o êxito. A mim desagrada-me apenas um certo êxito. Aquele que não deriva directamente do mérito. Quando ele é aleatório, fruto da sorte e não evidencia uma relação directa com o esforço e o talento. Mas também sei que o êxito é sempre um acessório.

 

E a fama que ele traz é um acessório enorme. Por isso sempre construí a vida em coerência com aquilo que penso. Confesso que nem sempre é a atitude mais fácil, ou confortável. O sentimento de perda é, por vezes, enorme. E a passagem do tempo – esse mestre da vida – acaba sempre por nos empurrar no sentido de fazermos um balanço entre aquilo com que sonhamos e aquilo que efectivamente alcançámos. Por isso, aqui estou, nem triste nem alegre, nem optimista nem derrotista. Apenas irritado.

 

Segundo Mark Twain, o tempo passa e a História, quase sempre semelhante a um rio, não se repete, mas rima.

 

Há por aí muita gente que sente a necessidade de eternizar a vida num minuto. E isso dói-me, pois sei que o que nos toca viver é a efemeridade absoluta. Efectivamente sei que existe uma saturação. E é essa saturação que faz com que olhemos de forma enviesada para tudo aquilo que até há bem pouco tempo considerávamos como um dado adquirido.

 

Errar é humano. É com o erro que se aprende. Nós caminhamos na vida errando. Sempre foi assim e sempre assim será. Por vezes alguém aproveita o erro em proveito próprio, deliberadamente, apenas com o intuito de triunfar. De ter êxito. E isso é indigno. Por exemplo, nos últimos vinte anos existiu muita gente poderosa que errou propositadamente. Que se aproveitou da sabedoria popular para desbaratar tudo aquilo que foi genuíno. Para derrotar deliberadamente o próprio povo que diziam, e teimam em afirmar, defender e honrar. Pensam

que o povo é cego.

 

De facto, o povo português não é cego mas parece. E essa cegueira advém-lhe da luta pela sobrevivência. Porque a maioria do povo está no limite da sobrevivência.

 

Tudo o que recentemente aconteceu em Portugal faz-me lembrar, com mágoa, reconheço, uma empresa de marketing que, num cartaz de promoção de um filme, colocou a expressão “filme excelente”, retirada de um artigo de um crítico de referência que tinha escrito efectivamente “de drama excelente este filme não tem nada”.

 

Para terminar aqui vos deixo, como premonição, este pequeno conto minimalista sobre um casal. No entanto aviso desde já que qualquer história é uma distorção. E eu não sou imparcial.

 

Pedro e Paula resolveram ir passar um fim-de-semana (com o feriado de terça-feira encostado ao sábado, por causa da nova lei) romântico a Paris. Ele já com o cabelo a rarear e ela com uma voz demasiado rouca por causa do tabaco. Ele tinha o sistema nervoso tão à flor da pele que era perceptível através das finas linhas azuis das suas mãos e da cara.

 

Esperavam relaxar, mas apenas conseguiram viver três dias stressantes na cidade luz. Em primeiro lugar, não conseguiram encontrar um único lugar onde pudessem comer bem e em conta. Calcorrearam mais caminho pelas ruas de Paris em três dias do que em quinze de passeios diários na sua querida cidade. E viram restaurantes. Nalguns chegaram mesmo a entrar. E num até se atreveram a sentar. Mas o que lhe agradava a ele nunca era do agrado dela. Discutiam os menus com uma raiva surda.

 

As sugestões dele eram rejeitadas por motivos nutricionais, estéticos, dietéticos, humanitários, ou, quando era chamada à razão, simplesmente porque não lhe parecia bem.

 

E o contrário também era verdadeiro: tudo o que lhe agradava a ela não o aprazia a ele, quer porque era caro de mais, ou, simplesmente, pelo facto do empregado ter sido indelicado com o Pedro por, supostamente, ter entendido que falava português, ou, meramente, pela simples razão de que não tinha os suficientes conhecimentos de francês que lhe permitissem distinguir o filet mignon do foie gra ou do escargot.  

 

Durante três longos dias percorreram a maior cidade gastronómica do mundo de fio a pavio, argumentando futilmente, famintos e envergonhados.

 

Quando, finalmente, regressaram ao apartamento depararam-se com uma praga de baratas. Ela gritou de horror. Era entomofóbica. É bem possível que ele também tivesse gritado de terror. Mas parou a tempo. Ela continuou. Se os gritos tivessem sido ouvidos no Inferno teriam eriçado o próprio Satanás. Pedro já tinha visto suficientes filmes para saber que nestes casos o que resulta é uma bofetada. Mas apenas fez o gesto de querer esbofetear Paula. No entanto, o simples esboço foi tão mau como se lhe tivesse batido a sério. Ou mesmo ainda pior. Pois o grito dela indicava perda temporária de sanidade, enquanto o gesto do José foi deliberadamente intencional. E tudo isto por causa da fome.

 

PS 1 – A ingratidão é uma coisa engraçada. Mas não importa. Aquilo que hoje consideramos um engano pode ser a verdade de amanhã.

 

PS 2 – A purga da mediocridade também se faz nestes momentos de transição. Há por aí muita barata que viveu no seu buraco de poder e que agora vai sentir o acre sabor da sua aviltante subserviência. O tempo é um aliado da verdade. Por isso permitam-me que sorria quando penso na incomodidade de algumas pessoas que, em vez de servirem um partido e um ideal, apenas se serviram dos dois para prejudicarem e iludirem as pessoas e a realidade. Quem nasceu para lagartixa nunca chegará a crocodilo. 


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Domingo, 5 de Junho de 2011

Vou-me embora


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Sábado, 4 de Junho de 2011

Ida para o lameiro


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Sexta-feira, 3 de Junho de 2011

O Homem Sem Memória

 

 

66 – O José, enquanto a família viveu no bairro da Cruz Santa, conviveu sobretudo com jovens que tinham abandonado a escola há muito tempo ou nem sequer lá tinham andado. Apesar da sua ignorância, ou do seu analfabetismo, eram rapazes solidários, amigos da pândega, educados e respeitadores.

Iam ao cinema ao sábado à noite e à missa aos domingos de manhã. E também iam às festas das aldeias. Podemos dizer que o José patenteava um genuíno afecto pelas festas e romarias. Não tanto pelo seu carácter popular ou religioso, mas antes pela sua bizarria humana.

Assistia às missas fixando os rostos dos paroquianos, observando os seus gestos mecânicos durante as liturgias, escutando a musicalidade das palavras repetidas até à exaustão e que todos conheciam de cor e salteado. Doía-lhe ver os rostos amargurados dos pecadores, quase todos pobres e alguns famintos. Que pecados poderiam ter aqueles pobres desgraçados? Meu Deus, que pecados? A haver pecado seria da parte de Deus que os abandonou à sua sorte logo à nascença. Deu-lhes vida e com ela sofrimento, pobreza e abandono. Um Deus tão severo, ou negligente, não sendo justo, não podia ser verdadeiro. Mas eles, pobres diabos, adoravam-no, veneravam-mo, temiam-no, vergavam-se à sua grandeza e ao seu esplendor. Rezavam-lhe com toda a fé que possuíam. E ela era muita, mas era uma fé feita de desespero, de subserviência, de medo. Não era uma fé redentora, era uma fé sofrida. Agradeciam-lhe o pão que não tinham, a vida que não suportavam, o amor que não sentiam, a saúde que faltava, os difíceis dias de labuta, as ninhadas de filhos. E faziam-lhe promessas. Davam-lhe o dinheiro que não possuíam, acendiam-lhe velas, ofertavam-lhe as melhores galinhas e coelhos, o melhor fumeiro, ou o presunto do reco. E ainda conseguiam ter forças e coragem para se arrastarem de joelhos em sucessivas voltas pelos adros à volta das igrejas, até ficarem com os joelhos em sangue.

O José começou a suspeitar que o Deus que o ensinaram a venerar, e que o Padre Zé o incentivou a defender e servir, ou era falso, ou era cruel. E o seminário, por incrível que pareça, ainda ajudou mais no sentido desta contraditória percepção. Ele estava destinado a servir um Deus que já não amava e em quem se recusava a acreditar.

No entanto, nas festas e romarias experimentava a sublimação da condição humana. Gostava de assistir às procissões, de observar as janelas e as varandas engalanadas com as mais finas colchas, as senhoras definidas pelos seus respeitosos véus, os homens de cabeça destapada, os anjinhos com os olhos brilhantes de alegria e com os seus sapatinhos de verniz e meia branca, os meninos de calções e as meninas de longas tranças, os andores dos santos repletos de notas balouçando ao sabor da passada dos transportadores, o padre à frente, a banda atrás, mulheres a cantar, homens a suar, foguetes no ar, rezas, olhares, sorrisos.

Apreciava o cheiro das pétalas das flores que decoravam os caminhos, o odor dos cordeiros assados, as conversas de ocasião, o sorriso das moçoilas, ao lábios das moçoilas, os seios, os traseiros e as coxas das moçoilas. E se durante a tarde se divertia a falar com uns e com outros, a beber cervejas e a chalacear com os amigos, a noite passava-a a dançar. Era no arraial que gostava de dar azo à sua veia de bailarino.

As senhoras gostavam de o ver dançar, pois ele requebrava bem a anca, dava arte ao movimento das pernas e prumo às costas e à cabeça. Dançava ao ritmo da música, qualquer que ela fosse, e adaptava-se como uma luva ao seu par. Por o saberem estudante de seminário, as mães entregavam-lhe as suas filhas para a dança sem pestanejarem. Em jeito de brincadeira, por vezes diziam-lhe: “O senhor é que há-de sair um bom padre.” Ao que ele retorquia: “E porque não, cara senhora. Jesus também dançava nas festas e chegou a Santo.” De novo a mãe da moçoila: “Olhe que não é isso o que a Bíblia diz.” Ele: “Cara senhora, não há só uma bíblia. Há muitas e nem todas dizem o mesmo.” Ela: “Quer o jovem insinuar que a Bíblia não diz a verdade?” De novo ele: “Não. Quero dizer que não há só uma verdade.” Ela novamente: “E em qual devemos acreditar?” Ele sofista: “Na que nos der mais jeito.” Ela já um pouco mais séria: “O senhor anda a estudar para padre ou para judeu.” Ele carrancudo: “Lembro-lhe que Cristo não era padre mas era judeu.” Ela desiludida, virando-se para a filha: “Vamo-nos embora Madalena, já não danças mais com este atrevido.” A Madalena: “E porquê mamã, ele dança tão bem e de forma tão séria.” Ela definitiva: “Porque eu mando. Mais a mais, eu bem vejo como ele mete a perna pelo meio das tuas. Pode andar a estudar para padre, mas vai sair judeu. Ou maçónico.”

O José nunca desanimava. Dali se ia com um sorriso nos lábios encomendar-se a outra senhora que tivesse ao seu lado uma filha linda e de formas bem sublinhadas. Detestava lambisgóias magras e frívolas. Apreciava moças de coxa redonda, seio forte e levantado, cara rosada e cabelo comprido e encaracolado. 



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Quinta-feira, 2 de Junho de 2011

No túnel


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Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

O Poema Infinito (50): perder a memória

 

Ver-te-ei sempre na tentativa vã de construíres a paciência com os instrumentos da suavidade e da calma como se a casa onde habitas fosse um prolongamento do teu rosto modelado pela luz. Acordas ao de leve erguendo o fundo dos sonhos enquanto encostas as mãos ao ventre. Todo o teu corpo é uma onda viva. Todo o teu sangue corre ligado à água, ao ar, ao fogo e à luz da lucidez. A terra inteira vive em ti. No centro cálido do teu sexo uma flor de desejo abre-se em espiral. O teu corpo é um braço que respira modelado pelo mar. Somos cada vez mais mortais. Essa é a nossa inocência. O livro que lês acende-se nos teus olhos. Um fogo violento incendeia a parede das palavras. A tua boca é agora ausência. A árvore da idade estende as suas mãos até às folhas mortas. Uma folha de rocio respira a terra. Um cavalo alado digere o sabor das ervas. Línguas de ar suspiram pelo mar e pela resistência transparente dos lábios. Pequenos animais encostam-se à parede do sono. Uma verdade nova vai nascer da fina embriaguez dos anjos. Uma fábula moderna cai do silêncio antigo. Fadas silenciosas agrupam-se na pureza das praias da infância. Temos o hábito da tristeza. A vida é a pátria do mutismo das tempestades. O amor é aqui onde se respira o corpo coberto de nudez. Uma árvore exacta treme no espelho construído por palavras abertas. És a minha amorosa confusão. Eu renasço nessa vertigem, num corpo unido pela desordem. Transformas o teu corpo numa página aberta de suspiros. Áleas perpendiculares compõem vértices de instantes. As palavras pobres produzem buracos deslizantes. A eternidade é um bloco hermético de nada. A dor é a única razão das mães. Alguém rasga a felicidade em pequenos pedaços. O teu corpo é agora uma língua ávida e livre. Outro dia começa a perder a memória. 


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