Domingo, 31 de Julho de 2011

Duelo à sombra


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Sábado, 30 de Julho de 2011

O Maestro


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Sexta-feira, 29 de Julho de 2011

O Homem Sem Memória

 

74 – Se havia uma coisa que caracterizava as férias grandes estudantis em território nacional é que elas eram mesmo grandes. Mas grandes mesmo. Eram noventa dias de lazer e brincadeira que a maioria dos estudantes preenchia como sabia e podia. No Verão do seu contentamento, o José gozou que se fartou. Entre as campanhas territoriais e os fins-de-semana alucinantes vividos à beira rio, existiram ainda várias e distintas incursões semanais em aldeias da vizinhança. Uma delas foi em Outeiro Raso, na casa de um amigo da família, o Carlos Trolaró.

O Carlos tinha os pais e a irmã em França, mas fazia que estudava em Névoa. Era um no meio de centenas de estudantes em idênticas condições. Passava o ano lectivo na cidade entretido a passear os livros. No Verão rumava caras Outeiro Raso para aí desfrutar de uma vida regalada e independente.

Com a família longe, entretinha-se a vadiar pelos campos fora e a habitar solitário a sua casa, tipo maison, que os pais tinham construído na croa do povo, já um pouco afastada do núcleo antigo de casebres que ainda davam alma ao lugar. Podia optar por residir em casa dos avós, mas o Carlos preferia viver só que mal acompanhado. Os avós eram uns chatos, uns velhos ranhetas que lhe punham a vida num inferno. E o contrário também era verdadeiro. Ou ainda mais verdadeiro do que a primeira premissa.

O Carlos Trolaró tinha um sonho que se subdividia em dois: queria ser guarda-redes de futebol ou cantor romântico à boa maneira do seu ídolo Adamo. Explicava que não se importava mesmo nada em acumular as duas funções. “C´est la vie, mon pote.”

Carlos convidou o José para lhe fazer companhia na sua grande maison e também para desempenhar o distinto cargo de treinador. Por isso os dias passaram a ser preenchidos com uma rotina exercida a tempo e horas. Acordavam a meio da manhã, tomavam um pequeno-almoço de pão com manteiga e leite frio, dirigiam-se ao campo de futebol, arrimado no cocuruto de um monte aplainado, e aí treinavam até se esgotarem. Pelo menos o Carlos esgotava-se com todas as forças que possuía, pois saía do campo a pingar suor. O outeirense era um guarda-redes esforçado, lá isso era, mas era ainda muito mais um piteiro dos grandalhões. Perguntava insistentemente ao amigo, e treinador ocasional, se eram visíveis melhorias no seu desempenho. O José dizia que sim. O Carlos então insistia para que lhe despachasse uns remates mais difíceis, mais encostados aos postes, ou à trave da baliza. E o José, para não contrariar o amigo, assim procedia. Mas as coisas teimavam em acontecer como não deviam, pois a cada remate do José a bola insistia em entrar sempre na baliza à guarda do seu guarda-redes. Então o Carlos exasperava-se e culpava o amigo de não ser um bom treinador e muito menos seu amigo. Era entre suor, ranho e rancor que terminavam todas as manhãs de treino.

À vinda, passavam no comércio do senhor Zé Crispim onde o guarda-redes outeirense tinha, por indicação expressa dos pais, conta aberta. Aí compravam cervejas, sumóis, manteiga, pão, sardinhas, atum de conserva e várias latas de salsichas Izidoro.

Ao almoço e ao jantar comiam invariavelmente batatas fritas, salsichas e ovos estrelados, que era o único prato que sabiam confeccionar. Ainda tentaram manjar as sardinhas e o atum em lata, mas aquilo soube-lhes tão mal que o deitaram às galinhas. Mas até esses bichos, que não são nada esquisitos quanto à sua alimentação, rejeitaram a oferta com uma determinação que os fez rir durante algum tempo. Após o almoço dormiam a sesta. Mais à tardinha davam longos passeios pelos montes armados com a pressão de ar do Carlos. Abatiam indiscriminadamente, à chumbada, distinto passaredo, que penduravam à cintura como os caçadores adultos. Chegados a casa, serviam os troféus de caça ao gato que começou a engordar a olhos vistos.

À noite é que eram elas. O Carlos andava apaixonado pela filha da dona da Serração da aldeia. E o Carlos apaixonado era um caso sério. Vestia-se a rigor, com camisa branca de colarinhos colossais, calças pretas de tirilene à boca-de-sino, meias brancas, sapatos escuros de ponta fina, cordão graúdo de ouro ao pescoço, pulseira do mesmo feitio e material, relógio luzidio e cabelo empoupado com brilhantina. Além disso encharcava-se em perfume que tinha a rara qualidade de atrair toda mosquitada das redondezas. E, depois de empunhar a sua guitarra de cordas de plástico comprada em Feces, punha-se a tange-la como se fosse o vivo demónio em figura de músico de rock. Escusado será dizer que o Carlos não conseguia afinar o instrumento e muito menos tirar dele uma única nota ou acorde que estivesse com as mais elementares regras e leis da música. Podemos mesmo afirmar que ele tinha ainda menos jeito para a música do que para o futebol. Mas nenhum desses equívocos o demovia das suas serenatas quotidianas.

Postados na varanda de casa de onde se avistava a janela iluminada do quarto da moradia da amada do Carlos, o José alumiava a figura garbosa do Carlos com um feixe de luz produzido por uma lanterna de pilhas. Nessa ocasião, o Adamo de Outeiro Raso começava a fustigar as cordas da viola e a entoar suspeitos versos das cantigas do seu ídolo numa imitação mais que duvidosa de francês que alcançava unir na mesma conjuntura, e num coro imenso, a ululação solidária de todos os cães da aldeia, um que outro uivo que bem podia ser de lobo, ou mesmo o regougar de vários raposos ou raposas, pois para o efeito tanto vale. E o Carlos cantava a primeira a segunda e a terceira canções com a mesma coragem e denodo com que deixava entrar a bola na baliza que supostamente defendia. Fazia mesmo vários encores por noite. Só desistia quando ficava rouco ou se finava a amarela luz do foco. 

Deitava-se sempre exausto, mas só adormecia depois de realçar a beleza da sua amada, que por acaso era muito pouco prendada (mas quem feio ama bonito lhe parece), e depois de lhe enaltecer as virtudes e de insistir com o José para lhe confessar, debaixo de juramento, se via alguma virtude nas esforçadas serenatas. O José, depois de jurar por tudo quanto era sagrado que dizia a verdade e só a verdade e mais nada do que verdade, confirmava todas as ilusões do amigo, dado que os amigos são para as ocasiões, pois era fiel ao provérbio de cariz popular: quem muito jura muito mente. 


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Quinta-feira, 28 de Julho de 2011

Menina com pão ao fundo II


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Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

O Poema Infinito (58): o rigoroso segredo da paixão

 

É preciso falar da terra transfigurada em Primavera, das palavras infatigáveis, das raízes circundantes da verdade. Cavalos silenciosos cavalgam por dentro de estrelas inclinadas. Homens dormem fundidos com os seus sonhos de aventura. Mulheres cantam verbos ampliados pela alegria. Nos caminhos velhos ressuscitam os sorrisos dos anciãos, as pedras tremem de silêncio, as águas eternas correm pela garganta da montanha. Uma alegria desesperada ilumina as colinas misteriosas. Olhares inocentes reaparecem inspirados pela humidade da carne lasciva. O amor cavalga a insatisfação. Erecções múltiplas alimentam as finas raízes do prazer. Tudo volta a ser como dantes. Tudo se desfaz e se refaz imperceptivelmente, como um corpo de sangue.  Os meus dedos escutam a pungência do teu sexo acendido. Mistura-se o prazer e a dor. Os olhos possuem vertigens lentas. As nossas bocas são agora fogueiras ingénuas. O desejo cumpre de novo a tarefa de aplicar a vida na sua oculta loucura. Os devaneios linguísticos transformam-se em pequenas imagens excitadas. Essa é a vida árdua do amante. Depois de mexer no teu corpo mexo também no meu arrefecimento. O desejo passa então de íntimo a eterno. Deito-me no calmo canto dos teus olhos e brilho. Essa é a pessoalíssima visão do amor. Vejo ervas e musgo e estrelas paradas no teu cabelo. E de novo as coisas acontecem. As coisas pessoalissimamente universais ressuscitam na sua envolvência parada. O movimento é o corpo. A inocência é o dom. Toda a inocência tem a idade da poesia. É esse o rigoroso segredo da paixão. 


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Terça-feira, 26 de Julho de 2011

Acender um cigarro


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Segunda-feira, 25 de Julho de 2011

Diálogos perspicazes com final pouco feliz

 

Um pouco por desfastio intelectual, passei cerca de três minutos a contar ao R. uma história que me tinham contado acerca da compreensão humana – aliada a um instinto quase animal do labor político –, de Salvador Allende. Situação que chegou a suscitar sentimentos contraditórios nada fáceis de resolver pelos seus correligionários e pelas forças da ordem. Sendo já presidente, um homem desfilou à sua frente numa manifestação levando um cartaz insólito: “Este é um Governo de merda, mas é o meu Governo.” Allende levantou-se, aplaudiu-o e desceu para lhe apertar a mão.

 

R., após uns longos minutos de mutismo reflexivo, virou-se para mim e pronunciou: “A minha avó sempre me disse para desconfiar dos homens que contam boas histórias.”

 

O L., claramente irónico, soletrou várias vezes a palavra maravilha e, por fim, suspirou: “Depois de te ouvir falar estou para aqui todo arrepiado. O que por aí vai de hipocrisia e ilusão. Valha-me Nossa Senhora”, rematou ele que é um ateu não praticante.

 

Ao que o F. aduziu: “Tenho saudades dos tempos em que não dizias nada para teres sempre razão.”

 

“O silêncio dos humanos não é a ausência de fala, é, antes, o dizermos tudo sem articularmos uma só palavra, por muito singela que seja”, retorqui o L.

 

“Porra”, disse eu, “deslumbraste-me. Poucas vezes te ouvi falar tão bem. Fiquei mesmo cheio de inveja da tua eloquência.”

 

O R., armado em bom, ripostou: “Eu tenho muito medo da inveja. Pois a inveja é a mãe de todos os vícios.”

 

“Tu por vezes assustas-me um pouco com a tua lógica”, disse eu. E continuei: “É a vida. E na vida ninguém está para ficar. Aqui só se está de passagem.”

 

“Na vida e no Governo”, lembrou muito bem o R. A seguir tentou armar-se em apoiante crítico do novo governo e soletrou a modinho: “Coitado do Pedro Passos Coelho, quando pensava que, com as medidas de austeridade, tinha ganho a manteiga para pôr no pão, faltou-lhe o pão… E o alho que agora está muito na moda.”

 

“O homem embandeirou em arco com o vitória nas eleições legislativas, mas agora anda caladinho que nem um rato, pois descobriu que a crise internacional era mesmo verdadeira”, lembrou lucidamente o F.

 

Então, de repente, saiu-me esta brilhante metáfora, que de certeza li em algum lado: “Não se sobe às árvores pelos ramos”. Bem, confesso, esta minha tirada deixou-os boquiabertos. 

 

Depois de mais uns momentos de silêncio expectante e reflexivo, o L. resolveu elogiar-me com a sua fina ironia: “Talvez seja a experiência da escrita quem te confere essa grande dimensão de visionário de província. E o facto de estares comprometido com o sistema que tanto criticas é que te permite uma ironia interessante.”

 

Eu que sou homem que não me deixo calar com duas tretas, mesmo que sejam verdadeiras, o que não era, manifestamente o caso, elevei o tom do discurso: “Ignatus, o célebre personagem do romance Uma Conspiração de Estúpidos escreveu, numa carta que pretendia servir como pagamento de uma viagem de táxi, o seguinte: «O universo, é claro, baseia-se no princípio do círculo dentro de outro círculo. De momento encontro-me num círculo interior. É evidente que também pode haver círculos mais pequenos no interior deste círculo.» Apesar da excelente visão do mundo, o motorista obrigou-o a pagar a viagem em dinheiro. Esta é a dura realidade da vida dos autênticos escritores e pensadores.

 

“Tu”, disse eu virando-me para o L. “és o típico homem justo numa sociedade injusta.” Ao que ele retorquiu: “Era a ti quem as irmãs adoravam porque costumavas ganhar todos os santinhos por saber o catecismo.”

 

Então resolvi ser mesmo maroto. “Pelo menos não me deixo transformar num idiota que só gosta de televisão, de carros novos e de comida congelada. Nem ando no psiquiatra. A psiquiatria é pior do que o comunismo, lava-nos o cérebro. E eu não quero ser um robô. Eu sou um homem simples.”

 

Reconheço que fui indelicado, porque o L. anda a ansiolíticos por causa de uma depressão. Mas estava mesmo a pedi-las. E, por vezes, o pensamento é bem mais rápido do que as conveniências. Além disso, o que está dito, dito está. Mas, mesmo assim, fiquei com pena do L., pois naquele momento era a imagem de um guerreiro vencido, sem guerra e sem tropas. Como escreveu Mia Couto acerca do barbeiro Arcanjo Mistura, naquele momento eu próprio fiz o papel de cegocêntrico. E por isso me penitencio.   


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Domingo, 24 de Julho de 2011

Ida para o lameiro


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Sábado, 23 de Julho de 2011

O senhor do chapéu


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Sexta-feira, 22 de Julho de 2011

O Homem Sem Memória

 

73 – O José continua vigilante. De cima do terraço observa as suas tropas que, também elas, mesmo não parecendo, continuam despertas. Nas terras em volta amadurecem os frutos, as ervas secam e os pássaros cantam alegres. Este continua ser o Verão do seu contentamento.

Sentado numa cadeira reza baixinho uma oração por si inventada onde exalta o Sol, a Terra, a Água e o Ar. O chapéu à Daniel Boone permanece bem erecto na sua cabeça. Enquanto observa o nascer do dia tem uma erecção e começa o chorar baixinho de verdadeiro júbilo. De seguida entoa, com a boca transformada em cornetim, o hino do amanhecer, para deleite das suas imaginárias tropas, dos galos dos vizinhos e dos cães das redondezas.

A sua mãe, também ela já desperta e a rezar as suas orações, emociona-se com a pequena loucura do filho mais velho. O seminário tem desenvolvido nele uma estranha, mas tocante, loucura fantasiosa. Os irmãos adoram-no.

O José tem feito deles, pequenos conselheiros, confidentes ou filhos adoptivos. Conta-lhes histórias, confidencia-lhes pequenos segredos, enche-os de mimos. Continua a ler imenso. Os livros são o seu verdadeiro mundo. São o território que administra com sabedoria, lealdade, verdade e justiça.

Hoje o cornetim toca também para lembrar à família que está na hora de acordar e preparar toda a logística necessária que permita passar um dia à beira rio.

O dia tem tudo para dar certo: amanheceu lindo de morrer, não há vento e está calor. Além disso, o guarda Ferreira está a gozar alguns dias de licença. Por insistência da dona Rosa, uns dias fuma menos… mas bebe mais. Noutros dias bebe menos… mas fuma mais. O guarda Ferreira continua, para nosso gáudio, o homem equilibrado que sempre foi e continuará ser, se Deus quiser.

Mal acordou fumou um cigarro, mas não bebeu nada. Tratou da sua higiene pessoal, foi buscar os garrafões do vinho tinto e arrumou-os junto à porta. Depois comeu um pedaço de pão com nozes e figos e bebeu um calicezinho de aguardente. Mas não fumou nenhum cigarro. Continua fiel à sua promessa de equilíbrio. De seguida ajudou a acomodar a comida feita de véspera nos cabazes e a dobrar os liteiros e os cobertores. Enquanto a dona Rosa vestiu e calçou os filhos, o guarda Ferreira e o José transportaram e acomodaram toda a tralha na carroça do vizinho Carriço.

Saíram de casa às sete, chegaram, por volta das oito, à margem direita do Tâmega e às nove sentaram-se a comer o pequeno-almoço. Durante o caminho o guarda Ferreira não fumou um único cigarro. Ainda fez uma ou duas tentativas para puxar o maço do bolso da camisa, mas o olhar certeiro da dona Rosa foi suficientemente persuasivo para o inibir da atitude. Pelo caminho juntaram-se a muitas outras famílias que seguiam na mesma direcção e com o mesmo propósito.

Mal dispuseram as mantas no chão, algumas crianças voltaram a adormecer. O José pediu autorização à mãe para as acordar. Ela disse-lhe que o melhor era deixá-las dormir até acordarem. Nessa altura terão fome e será mais fácil alimentá-las. A mãe sorriu para o José e o José sorriu para a mãe. É bem possível que já se queiram mais um pouco. Viver à distância torna-nos mais tolerantes, atenua-nos os defeitos, aumenta-nos as virtudes.

O mata-bicho soube-lhes pela vida. O bacalhau frito e o presunto, juntos com o pão centeio, combinaram bem com a fome e esta também combinou muito bem com a bola de carne, os rissóis, a linguiça e o salpicão. Depois o vinho caiu regaladamente em cima da comida e a comida agradeceu. O guarda Ferreira, em coerência com o equilíbrio prometido, e devido a não ter fumado um único cigarro – se descontarmos um fumaçado a medo quando foi mijar atrás de um casebre e ainda outro durante a penosa montagem do acampamento –, bebeu um litro de tinto bem medido. Seguidamente foi pendurar os garrafões a refrescar na água do rio.

As crianças, por fim, acordaram e puseram-se também elas a comer. As mães começaram a falar-lhes, a dar-lhes mimo e a sorrir, o que combinou muito bem com a boa disposição dos cavalheiros que começaram a falar de futebol e a organizar-se em pequenos grupos. Porque os garrafões de vinho estavam afogados em água corrente, o guarda Ferreira, mais uma vez fiel à sua promessa de equilíbrio, fumou vários cigarros com o ligeiro intervalo de tempo que levava a acendê-los uns nos outros.

Os homens, esses sortudos, como não discutiam política, por não saberem o que isso era, e porque eram todos, ou quase todos, do Benfica, o que não possibilitava o contraditório necessário à manutenção de uma discussão acesa sobre o desporto rei, puseram-se a jogar à sueca. E assim se mantiveram até à hora do almoço.

Na banca onde o guarda Ferreira se alapou para batê-las, ao contrário das outras mesas de sueca, o vinho não entrou. A Dona Rosa tinha dado ordens expressas: “Aqui só joga quem não beber.” Ao que alguém mais bem disposto do que a anfitriã perguntou: “Nem um copinho de água?” Ao que ela respondeu: “Vai à merda Manuel.” Para logo de seguida se ouvir a voz serena do José: “Por favor, mãe, não sejas tão escatológica.” Ao que a família Ferreira em uníssono respondeu, incluído o guarda Ferreira, imitando a voz estridente da dona Rosa: “O que eu sou é escanifobética. Ah, ah, ah!” Ao que o senhor Manuel ripostou atrapalhado: “Não percebo nada do que estais para aí a dizer.” Então a dona Rosa repetiu: “O que eu sou é escanifobética”. Foi a vez do João se começar a rir e dar um peido sonoro como sempre acontecia quando gargalhava com vontade. O que foi aproveitado pelos outros irmãos para se rirem também o que provocou novo peido do João e mais riso nos irmãos e na dona Rosa, a que só não se lhes juntou o Leão, porque já tinha morrido, e o Virtudes porque tinha ficado em Montalegre, sempre num crescendo de hilaridade que nos abstemos de dar conta mais pormenorizada porque, afinal, já foi descrita em dois momentos anteriores. 

O guarda Ferreira, como não bebeu… fumou. E bem, só não chupou os dedos porque necessitou deles para pegar e largar as cartas.

O almoço foi bom. Comeram bolos de bacalhau, azeitonas, presunto, arroz de ervilhas, frango assado e bifes e chicharro de cebolada. Como sobremesa filaram-se no melão. As crianças beberam Sumol, as mulheres mais envergonhadas água e as mais destemidas vinho branco. Os homens enfrascaram-se com tinto. No fim do almoço o guarda Ferreira ainda esboçou o gesto de puxar de um cigarro. Mas como antes olhou instintivamente na direcção da dona Rosa, meteu de imediato o cigarro no maço e serviu-se de mais dois copos de tinto de Arcossó.

Depois do repasto, enquanto o sol apertava, todas aquelas singelas criaturas de Deus, saciadas de comida e de paz, se puseram a dormir a sesta. Ressonaram como cavalos bêbados.

Lá mais para a tarde, sob o olhar vigilante das mães e dos irmãos mais velhos, as crianças atreveram-se a ir dar banho nas águas mansas do rio. Com a algazarra das crianças, os homens despertaram dos seus sonos embriagados e começaram a sorrir e a peidar-se com muita singeleza de espírito.

Esta ocasião hilariante permitiu que o guarda Ferreira fumasse mais um apetecido cigarro. Depois foi jogar as cartas e continuou a fumar ao mesmo ritmo com que perdia partida atrás de partida. A sorte do jogo não queria nada com ele. “Azar ao jogo, sorte no amor”, disse galhofando o par de adversários de mesa da sueca. Mas não levaram o riso até ao fim. Falar de amor na relação entre o guarda Ferreira e a dona Rosa é coisa que nem os pobres de espírito conseguem dizer sem sentirem remorsos. Com coisas sérias não se brinca.

No meio da erva seca os rapazes mais velhos jogaram futebol por entre gargalhadas e pó. Apenas o José se absteve devido a não ser capaz de andar descalço. Ainda propôs que lhe autorizassem a jogar com os sapatos que eram mimosinhos. Mas eles disseram que não, a jogar que o fizesse de meias. Ele assim procedeu, mas o raio das peúgas romperam-se logo de seguida.

Depois de mais uma maratona de cartas e de cigarros, o guarda Ferreira voltou a ser convidado para a merenda. Comeram-se os restos, que, mais do que restos, eram nova e suculenta refeição. Escorropicharam-se os garrafões de vinho e alguns homens mais bebidos, começaram cantar o fado. Por não haver mais vinho, o guarda Ferreira pode terminar o dia fumando os cigarros que lhes restavam olhando serena e calmamente para os filhos e para o pôr-do-sol. Quando a dona Rosa apareceu na sua frente, em contra luz, a lembrar-lhe que estava na hora de regressar a casa, o guarda Ferreira teve uma epifania: viu a sua mulher a morrer afogada no rio. Depois olhou para o filho e arrepiou-se. O José continuava a adivinhar o pensamento dos outros. 


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Quinta-feira, 21 de Julho de 2011

Ironia


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Quarta-feira, 20 de Julho de 2011

O Poema Infinito (57): sofreguidão

 

Sílabas de Verão amadurecem nos corpos expostos ao sol. Bendita terra que me traz o doce alvor das tuas mãos que são a fonte cósmica da luz. Com essa luz descubro o teu corpo cheio de ramos desenhados com a densidade do desejo. Por isso a minha boca vive nos teus lábios onde as cores ficam confusas com tanto fervor. Leio no teu rosto palavras que se dispersam e se difundem nos interstícios do prazer. A tua língua murmura espaços inesperados. O teu sexo brilha num ímpeto alucinado. Tudo é igual a tudo e os nomes envolvem o nosso espaço vital. Escrevo a vida com um lápis de bruma, por isso o desejo mantém-me desperto. Sou de novo movimento e claridade e ímpeto. Borboletas ligeiras surgem nos teus olhos espantados. O amor é um objecto perfurante. Depois deslumbro-me com o afago doloroso das coisas amadas e por amar. A nossa casa levanta-se na cidade que dorme um sono provocado. A noite perdura numa nova imagem de um sonho acabado. É o tempo concreto do cansaço, a alucinação nítida dos sonhos, a idade implacável da razão. Uma razão suspeita e silenciosa desconfia do universo, pois nele não cabe a milagrosa insignificância da vida. O teorema da razão navega pelo tempo perdido. Os homens vergam a lógica e descobrem a paciência. Os rios torcem-se entre as montanhas e as árvores gemem hesitações de luz e sombra. Eis agora a madrugada enxameada de anjos exactos. Deus faz sábios discursos às massas. Metade do mundo repousa enquanto os seus poetas escrevem poemas inúteis de exactidão. As palavras novas dormem nos ninhos. A consciência dos animais perde-se na cálida cor dos caminhos. A brisa dói na mulher que procura a razão do azul. Vagarosas melodias fixam-se no rosto profundo da terra. Súbitos pastores iluminam os fios luminosos das evidências. Alguém, desesperado com a sua mortalidade, tenta cortar as raízes ao tempo. Mas é sempre cedo ou tarde de mais. Agora sou o homem de ervas místicas e substanciais. Por isso me encosto a ti e sorvo metodicamente a cor do mar aberto. 


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Terça-feira, 19 de Julho de 2011

Rua Direita - Chaves


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Segunda-feira, 18 de Julho de 2011

Nós, os da ocidental praia lusitana

 

Dizem os entendidos que somos um povo que gosta de falar de si próprio, que temos paixão em falar de nós, daquilo que somos e não somos. O emigrante Eduardo Lourenço considera que sofremos de hiperidentidade, seja lá isso o que for. Outros acham que Portugal é, em si próprio, uma contradição, pois, apesar de sermos capazes de dizer mal de nós, apenas o fazemos entre nós, e ficamos ofendidos se alguém lá de fora se atreve a reproduzir a nossa crítica. Mas é verdade que cada português tem uma questão pessoal a resolver com o país.

 

O antropólogo José Gabriel Pereira concluiu, através de um estudo feito com milhares de portugueses, que cada portuga se considera um exemplo para os outros, por isso o melhor do grupo em que se insere. Todos fariam, se fossem mandantes, a coisa certa. Todos seriam os treinadores perfeitos para a sua equipa de futebol ou o melhor primeiro-ministro de sempre e para sempre. Concluiu ainda que por cá ninguém manda em ninguém. Todas as corporações se indignam quando as querem tutelar. Os juízes estrebucham, os professores berram, os militares contorcem-se, os médicos indignam-se e os políticos fazem discursos apologéticos. Daí o grito tipicamente luso: em mim ninguém manda, nem que se foda.

 

Basta olhar para o nosso entorno para verificarmos que tudo está a postos para os tempos que aí vêm, mas nada está em ordem. Ninguém tem um projecto consistente que nos permita encarar o futuro com optimismo. Não existe desígnio nacional. Avançamos por inércia. Caminhamos por caminhar. Todos querem ser dirigentes e ninguém aceita ser dirigido. A nossa identidade está em não termos identidade nenhuma. Por isso é que os vários estudiosos dos últimos dois séculos afirmam que Portugal é o país errado, sem viabilidade, povoado por gente pobre e inculta, onde nada dá certo. E as estatísticas evidenciam constantemente o mesmo: somos sempre o país do carro vassoura.

 

Fernando Pessoa escreveu que os portugueses são incapazes de assumir a culpa: é sempre a sexta pessoa de um grupo de cinco. José Gil tem razão quando afirma que o português se queixa sempre do país e nunca de si próprio. Mas, de todas as definições do ser português, se é que isso realmente existe, aprecio, com algum pesar confesso, a do historiador José Matoso, que identifica Portugal como um país dominado por uma minoria que sempre fez com que a maioria desenvolvesse os dotes do improviso, a tendência para viver o dia-a-dia ao sabor do vento, praticando a pequena fraude, investindo na economia paralela, na fuga aos impostos e apostando forte no clientelismo.

 

E, para que não pensem que me pus para aqui a escrever por minha conta e risco, chamo à colação várias e distintas declarações ao Expresso proferidas por gente que sabe daquilo que fala. Pelo menos, como bons portugueses, são os melhores comentadores do mundo e arredores.

 

O crítico político Daniel Oliveira diz que somos ciclotímicos, já que mudamos constantemente de humor. Tanto nos sentimos uns gajos extraordinários como, de repente, puxamos da guitarra e cantamos baixinho que somos o pior povo do mundo. Já o novo secretário de Estado da Cultura, José Viegas, diz que possuímos a característica da generosidade, embora, adverte, com a inteligência que todos lhe reconhecemos e que nunca nos cansaremos de elogiar, “mascaramos com ela a falta de disciplina, de exigência e de constância”. E sentencia: “ser generoso não basta”. Basta é pagar os impostos a tempo e horas.

 

A socióloga Maria Filomena Mónica define-nos como pobres. E concretiza: “sempre fomos um país de camponeses pobres: entretanto deixámos de ser camponeses, mas continuamos pobres”.

 

O escritor Vasco Graça Moura diz que somos baldas. E explica porque vivemos quarenta anos debaixo do manto negro do salazarismo: “o português só sai da balda para desenvolver outras qualidades quando submetido a um regime de autoridade, por muito desagradável que este seja”.

 

O historiador Rui Ramos declarou que somos faladores. E ele sabe daquilo que fala.  “Mais do que pensarem ou fazerem, os portugueses falam. Falam, sem nada para dizer e em vez de conversar, dissociando a fala de qualquer pretensão de comunicação.”

 

Mas nem tudo são comentários tão desanimadores, apesar de genuinamente culturais. Existe sempre alguém que resiste, existe sempre alguém que diz não. E não é nem um poeta alegre, nem um sociólogo deprimido, e, muito menos, um historiador encartado e desencantado. A nossa salvação, em termos de argumentário, vem do chefe de cozinha José Avillez. Para ele nós somos corajosos. “É o que, ao longo do nosso percurso, nos fez ultrapassar momentos difíceis de cabeça erguida. É o que, perante a adversidade, nos faz continuar a lutar.”

 

Mas, nos tempos que correm, a sugestão ajustada chega-nos a através de Eduardo Souto Moura, Prémio Pritzker de arquitectura: “A solução para a arquitectura portuguesa é emigrar.” Estou em crer que o nosso compatriota não nos levará a mal o estendermos a sua arrojada sugestão a todas as outras profissões. E o último a sair que apague as luzes do aeroporto. Por favor.

 

 

PS – E enquanto o êxodo não se inicia, pois estamos em plena época estival, aqui fica mais uma sugestão, desta vez a cargo do Hotel Ritz, com o firme propósito de os estimados leitores prepararem mais um apetitoso cocktail.

 

Prime Tentation – 4 cl de Pama (licor de romã); 1 cl de sumo de limão; 1 cl de xarope de açúcar; 1 cl de Cointreau (licor de laranja); 1 cl de clara de ovo. Técnica: Misturar tudo no shaker e coar bem. Decoração: Cacho de arando e ramo de hortelã. Tempo de preparação: 8 minutos. 


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Domingo, 17 de Julho de 2011

Cães e ovelhas


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Sábado, 16 de Julho de 2011

O sapateiro simpático


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Sexta-feira, 15 de Julho de 2011

O Homem Sem Memória

 

72 – Emboscada ao capitão escoteiro mirim do monóculo de plástico (continuação II).

Cena 9 (take 1). O Graça e o José, bem comidos e bem bebidos, palitam os dentes com um pauzinho de urze aguçado à navalha, arrotam alto, peidam-se e riem. Entretanto esperam pacientemente pelo inimigo que tarda em chegar.

Cena 10 (take 2). Ao longe o batalhão mirim serpenteia teimosamente pelo mesmo trilho percorrido anteriormente. Depois de algum movimento, estaca quase no mesmo sítio da primeira paragem efectuada durante a manhã, na qual o burro abandonou o seu comandante.

Cena 11 (take 5). Um soldado mirim: “Estou estafado. Comi muitos feijões e carne ao almoço. Dói-me a barriga. Vou ali arrear o calhau.” Vermelho de raiva, e com o brio pelas ruas da amargura, o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro, adverte alto e bom som: “Ai não vais não. Por este andar nunca mais chegamos ao campo de batalha. Não vos apoquenta o que pensa o inimigo da vossa coragem, ou da falta dela?” O soldado à rasca da barriga: “Ou vou ali cagar ou…” Os outros soldados aflitos: “Deixa-o ir se não borra as calças e depois é a debandada geral por causa do pivete.” O chefe mirim: “Vai, mas volta rápido, pois há ainda muito caminho para percorrer e um inimigo para atacar e vencer.”

Cena 12 (take 3). O Graça e o José continuam impacientemente à espera que o inimigo se resolva a atacar. O Graça: “Lá voltaram eles a parar. Se não nos atacam eles, atacamo-los nós.” O José: “Mas somos apenas dois e eles são para aí uns vinte.” O Graça: “Eu sei. Mas não aguento mais esta indecisão. Pelo que vejo temos de mudar de inimigo. Este nunca mais se decide a atacar. E uma guerra sem luta não presta. Eu nunca gostei das batalhas tácticas. Detesto estrategas. Eu aprecio uma luta cara a cara. Gosto de sentir o cheiro do medo do inimigo.” O José: “Olha, olha, a coluna pôs-se de novo em andamento. Está tudo a postos?” O Graça com cara de caso: “Está tudo a postos, mas nada em ordem. Mas deixa-os vir. Até os comemos!

Cena 13 (take 3). O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro: “Em frente marche. Um dois três, um dois três, um dois… Lá está o inimigo empoleirado em cima das árvores. Os primeiros a entrar em combate vão ser os cães pisteiros. Sobem às árvores e enxotam o inimigo cá para baixo, que depois nós caímos-lhes em cima. Um cão pisteiro: “Falar é fácil, mas uma coisa é ladrar como os cães e mijar como os cães, outra bem distinta é subir às árvores. Os cães não sobem às árvores. Quem sobe às árvores são os gatos. E nós não somos gatos. Somos cães. Por isso não posso subir às árvores. Além do mais tenho tonturas. Que suba o outro cão.” O outro cão pisteiro: “Essa é boa. Queres passar as responsabilidades para cima de mim, sem sequer me consultares. Eu também não subo às árvores. Sou tão cão como tu, com os mesmos direitos e com os mesmos deveres. Quando me alistei no batalhão mirim foi como cão pisteiro e os cães, como muito bem referiste, não sobem às árvores. Quem sobe às árvores são os gatos.” De novo o batalhão parou.

Cena 14 (take 1). O José: “Voltaram a parar. Há-de chegar a noite e nós sem guerra. Estou de acordo contigo, está na hora de escolher outro inimigo. Este não presta. Só falam, cagam e mijam.”

Cena 15 (take 7). O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro: “Começo a estar farto desta merda. Primeiro foi o burro, depois foi a sede, depois foi a fome, ainda há pouco tempo parámos para o Peidolas ir cagar e agora são os cães que descobrem que os cães não sobem às árvores. Começo a estar farto desta merda. Se os cães não subirem às árvores desisto da guerra e a vergonha desabará por cima de nós como um manto negro da cobardia.” “Não, isso não pode acontecer”, gritaram irritados os soldados mirins. “Dá-lhes com a vergasta de salgueiro no cu que eles logo arrebitam. Até sobem pelas paredes acima.”

O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro com um sorriso de escárnio nos lábios: “ O pelotão está comigo? Está mesmo? Acha o valoroso pelotão, que eu tenho a subida honra de comandar, que devo arrear com o meu pinguelim no rabo destes cães cobardes?” “Sim, sim, sim”, gritou o pelotão a uma só voz. “Então que assim seja. Agarrai-mos que eu logo lhes quebro a cobardia.” “A ver se te atreves”, desafiou o primeiro cão pisteiro. “A ver se te atreves”, desafiou o segundo cão pisteiro. “Ai atrevo, atrevo”, ameaçou vibrando o pinguelim o chefe mirim. Vendo que a razão da força pendia claramente para o lado do líder, os cães decidiram-se a subir às árvores.

Cena 16 (take 4). O pelotão mirim avança determinado na direcção do inimigo. Nota-se ainda uma ligeira hesitação nos cães, que guincham baixinho impropérios. O chefe chega-lhes a roupa ao pêlo.

Cena 17 (take 2). O Graça eufórico: “Agora é mesmo para valer” e lança um berro que põe os pássaros empoleirados nas árvores a voar sem direcção definida.

Cena 18 (take 2). Os cães pisteiros caem num fosso e começam a chorar. Cena 19 (take 10). Quatro troncos, vindos sabe-se lá bem de aonde, presos por fortes cordas de sisal, deitam por terra todos os soldados mirins e também todas as esperanças numa vitória.

Cena 20 (take 1). O José eufórico: “Agora é mesmo para valer. A vitória é nossa.” E lança três berros que arrepiam os soldados caídos e os põe em debandada geral.

Cena 21 (take 1). O capitão escoteiro, caído por terra, já sem chapéu colonial, sem monóculo e sem pinguelim de varinha de salgueiro, chora de raiva. O Graça abre-lhe a carcela das calças e sentencia com uma risada demoníaca: “Vamos fazer-lhe uma barrela para aprender.” O José: “Não o humilhes tanto.” O Graça: “Como chefe de brigada, condeno este imbecil a sofrer a suprema desonra de uma barrela. E, pondo-lhe a piroca à mostra, cospe-llhe. O mesmo faz o José. Depois deitam-lhe em cima várias mãos cheias de terra e esfregam até doer. E, desta forma humilhante para o capitão mirim, os heróis do momento dão por finalizada a guerra. 


publicado por João Madureira às 22:15
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Quinta-feira, 14 de Julho de 2011

À janela


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 13 de Julho de 2011

O Poema Infinito (56): o pastor de paciências

Finalmente a voz vai-se alargando. A voz inscrita na escrita parece imensa. Essa é a força do conhecimento: o mundo reduzido à sua eternidade. Ficam no vento as distâncias por percorrer, por ser ainda invisível a lúcida consciência da morte. Sinto sempre activa a extensa visão da dúvida como se essa fosse a minha única certeza. O peso da vida é um registo cada vez mais lúcido e verdadeiro. Por isso o teu sorriso tem em mim um feliz impacto. Outra é a luz que me guia durante a noite. Uma luz tão antiga que já não tem idade. Não há pior exílio do que o exílio interior. O mundo sofre do dispêndio do júbilo. O seu brilho é tão intenso que mata a justa noção de interioridade. Sou agora um pastor de paciências. Recolho o ritmo das ervas a crescer, escuto a música absoluta das pedras dos muros mais velhos, olho todos os indícios das cores que se expõem nas fotografias felizes. Depois sou seduzido pela abstracta luz da nudez. Um exército de paixões primárias estende-se pela subtil firmeza do meu pénis. A energia do desejo irrompe no meu corpo como um cavalo excessivo. Ó subtil perseverança da descendência e da decadência salva-me desta epifania. O coito desenvolve-se com o tensíssimo rigor da pungência. A eternidade é uma tarde fugaz em forma de lei inflexível. Tu és uma imagem. Eu sou uma imagem. Imagens vivas desconfiam da luz eterna da existência. O tempo teima em perder o seu tempo a matar-nos. As frases são agora indícios de redenção humana. O tempo é também uma imagem persistente. A noite sustenta o dia na sua feliz fragilidade. O espaço inclina-se para espanto de Deus. O milagre do pão reivindica o pecado da voracidade. A luxúria divina voa incandescente. Todos sofremos do dilacerante sacrifício do conhecimento. Adão passou, por causa de uma maçã, de nu a parvo. E esse acto de afecto afectou-nos a todos. Até o paraíso desapareceu no meio dos vestígios espirituais. Essa é a glória dos deuses tristes. O pecado aflige a fé dos crentes. O prazer, para infelicidade das divindades assexuadas, é uma cicatriz consecutiva. A plenitude de um coito remete-nos para a exímia plenitude da fragilidade. Por isso todos nos acolhemos na vagarosa ciência dos gestos. Daí os orgasmos serem tão rápidos e implicitamente espirituais. De novo a luz repousa nos nossos olhos fechados para não a deixar sair. 


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Terça-feira, 12 de Julho de 2011

Sorriso


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Segunda-feira, 11 de Julho de 2011

Um (S. K:), Dois (VPV) e Post-Scriptum

 

Um - Confesso-vos, gosto muito dos filmes de Stanley Kubrick. Na sua análise irónica e crua, faz sempre uma fascinante, e muitas vezes perturbadora, aproximação à realidade. Na sua obra a ordem e o caos convivem lado a lado sem sequer se atrapalharem. Docemente. Para Kubrick, os planos que cada um faz para a sua vida nunca podem ser levados muito a sério devido à imprevisibilidade da natureza humana.

 

O realizador tinha a perfeita consciência de que os caminhos que a humanidade teima em seguir vão dar a um abismo. Além disso defendia que o que aprendemos com a História, na verdade, não nos serve de muito, porque a verdade é que nunca aprendemos com ela. A História tende a repetir-se. Ciclicamente. Anedoticamente.

 

Os impulsos do homem e a sua inata violência serviram de alimento para o seu psicanalítico filme “Laranja Mecânica”. A excitação cinematográfica da guerra deu lugar ao “Nascido Para Matar”. Já “Barry Lyndon” fala-nos da fragilidade humana e da inconsequência conduzida por um homem que se deixa perder por uma paixão.

 

Kubrick defendia que os seres humanos são governados pelas emoções e não pela razão. As emoções falam sempre mais forte do que a inteligência e o conhecimento. Em “Dr. Estranho Amor” conta-nos uma evidência: apesar de as armas serem cada vez mais poderosas, os homens continuam fracos, pois os seus corações não mudaram.

 

Muitos disseram que o seu cinema passava um pouco ao lado da dimensão emocional porque se deixava encaixar dentro de um formalismo cerebral muito acentuado. Mas quem não se emocionou com o seu humor inteligente em “2001 Odisseia no Espaço” e com a célebre morte de uma máquina, o comovente HAL 9000.

 

Outra das coisas que o seduzia, e que de certa maneira influenciaram a minha maneira de ser e de pensar, era o fascínio pelas estruturas totalitárias e a violência do Estado. Quando jovem vi “Laranja Mecânica” no antigo Cine-Teatro de Chaves. E aquilo nunca mais me saiu da cabeça.

 

Kubrick vivia permanentemente em actualização informativa, por isso se interessava com a velocidade a que ela se transmitia. Para realizar as suas obras reunia sempre o máximo de informação de que era capaz. Foi nos seus filmes que descobri que a sociedade da informação, baseada na tecnologia, tornou extremamente fácil as pessoas magoarem-se.

 

Dois - E agora algo completamente diferente. Magoado anda Vasco Pulido Valente. E com razão. Afinal tudo o que escreveu tem, aos olhos do mundo, a dimensão de uma putativa História de Alicante. A realidade é mesmo essa. Apesar de a sua inteligência ser brilhante, lúcida, clara e cáustica, o país pregou-lhe uma partida. É, como bem dizia Manuela Ferreira Leite, piqueno. Não tem dimensão. Nem os nossos problemas históricos interessam ao mundo.

 

Na perspectiva de Vasco Pulido Valente, chegou o cobrador vestido de FMI que nos vai levar as pratas. Além de nunca ter deixado de fumar nem de beber, e ter chegado aos setenta, VPV está assarapantado com um problema que diz ser grave, o de saber se existe algum líder nacional que “politicamente seja capaz de persuadir os portugueses a passarem dez ou quinze anos a viver daquilo que produzem”. 

 

E como não há homens intocáveis, passo a citar: “Toda a gente geriu mal. Mesmo o doutor Cavaco, que até ser reeleito não abriu a boca. E ele sabia da crise.” Pois ele lê o “The Economist” e os relatórios do Banco de Portugal. Lá diz o povo: Tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta.

 

De José Sócrates disse o que nem Maomé se atreveu a dizer do toucinho e, ainda, que foi o controleiro do PS. Sobre Pedro Passos Coelho afirma que “nem o seu Governo nem o próprio primeiro-ministro interessam muito. Interessa, é saber se as pessoas estão com medo para obedecer”. Parece que sem medo e sem obediência não há futuro. VPV sabe do que fala.

 

Sobre o putativo neoliberalismo de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, defende que “isto não é liberalismo. Isto é vender as pratas”. E finaliza com nova praga bíblica: “Todos esses rapazes, como o Barroso e o Guterres, que a gente já se esqueceu do que fizeram, hão-de aparecer aí outra vez”.

 

E profetiza: “A Europa morreu”.

 

 

PS – Enquanto a notícia não se confirma, aconselhamos, como sugestão da “Ás de Copos”, os estimados leitores a prepararem mais um apetitoso cocktail, pois vai muito bem com o Verão e com a crise. E se tiverem uma piscina ao lado ainda melhor.

 

Vodka Collins Pimento – 1 fatia de pimento; 2 cl de xarope de açúcar branco ou amarelo; 3 cl de sumo de limão natural, que podem ser substituídos por 3 cl de sumo de laranja, a dar-se o caso de ser militante ou simpatizante do PSD; 6 cl de vodka, que podem ser ampliados até aos 10 cl se for militante ou simpatizante do PCP. Técnica: Agitar tudo no shaker, coar bem e juntar água com gás até ao cimo, de preferência “Águas das Pedras”, porque é a melhor. Decoração: Rodela de pimento. Tempo de preparação: 5 minutos. 


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Domingo, 10 de Julho de 2011

Passeio em família


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Sábado, 9 de Julho de 2011

Pop corn


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Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

O Homem Sem Memória

 

71 – Emboscada ao capitão escoteiro mirim do monóculo de plástico (continuação I).

Cena 5 (take 3). “Então quem se oferece para vir a ter o privilégio de ser o meu novo burro?”, perguntou, enfunado de brio, o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro. Ao que o Francisco respondeu: “O teu burro já vai lá longe e não me parece que volte.” E o capitão mirim: “Então, meu caro Francisco, não te ofereces como voluntário para o cargo que ainda permanece vago? Tu que sempre me foste fiel. Se bem me lembro, estavas permanentemente disponível para substituir o Joaquim como guarda-redes e agora…” E o Francisco: “Uma coisa é substituir, ou trocar de lugar com o guarda-redes, outra, bem distinta, é substituir um burro.” O capitão mirim: “São uma e a mesma coisa. É tudo em prol da sagrada união do nosso grupo. Tudo em defesa da exaltação do espírito de corpo. Tu tens o dom de substituir seja quem for. És pau para toda a colher.” O Francisco paciente: “Reconheço que tenho algum jeito para defender uma baliza, mas não tenho feitio nenhum para ser burro.” De novo o capitão mirim: “Ai isso é que tens.” O Francisco: “Se teimares no mesmo caminho vais ter nova deserção.” O capitão mirim cauteloso: “Pronto, não te amofines…” O Francisco aliviado: “Assim está bem. Mostras que és um chefe sensato. E é disso que nós precisamos.” Novamente o chefe mirim: “Quem se oferece para ser o meu burro, o lugar continua vago e à espera de ser preenchido?” Ao que o Francisco respondeu: “Acho que te deves habituar à ideia de seres um comandante sem montada. Essa teimosia pode fazer com que te vejas na triste situação de vires a ser um capitão sem tropas.” “Nomeio-te meu conselheiro vitalício”, propôs rápido o chefe mirim, “e não admito uma recusa”. Iriam ser golpes semelhantes que o elevariam, mais tarde, à categoria de secretário de Estado.

Cena 6 (take 3). Ainda empoleirados nas suas árvores, o Graça e o José continuam a observar o avanço das tropas inimigas. Diz o Graça para o José: “Continuam a falar. Nunca mais se decidem a avançar. Eu quando espero, desespero. Ferve-me o sangue e turvasse-me a vista.” Foi esta impaciência o que o levou a emigrar para Espanha e a transformar-se num mecânico de automóveis. Responde o José: “Deixa-os lá. Discutem as chefias, tentam defender as suas ideais, lutam pelos seus direitos, fazem valer os seus pontos de vista. Organizam-se democraticamente. Partilham as decisões. Reivindicam o direito de cidadania.” Foram palavras como estas que pregaram com os costados do José na cadeia e fizeram dele um dos mais notáveis presos políticos do Portugal do socialismo real. O Graça: “Ó José, por vezes não te compreendo. Não sei se brincas e entretanto falas sério. Ou se falas a brincar e eu te levo a sério. Ou se levas tudo tão a sério que parece que estás sempre a brincar, mesmo quando não brincas e não falas a sério.”

Cena 7 (take 10). E de novo as tropas do capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro se puseram a caminho. Os cães pisteiros à frente, o exército em fila indiana e o chefe, agora apeado, marchando sobre o seu lado direito. “Tenho sede”, disse um dos cães. “Eu também”, disse o outro cachorro. “Os cães não falam, mesmo quando têm sede”, lembrou o capitão mirim. “Nós também temos sede”, gritaram em uníssono os soldados escoteiros. “Assim nunca mais chegámos à guerra. Nunca mais enfrentamos o inimigo. Nunca mais conquistamos o seu território. Nunca mais nos enchemos de honra e glória”, avisou o chefe. E os soldados: “Mas nós temos muita sede e um exército cheio de sede não combate bem”, lembraram os escoteiros. “Tendes sede porque só falais. Os soldados não falam, não reivindicam, combatem…” “Mesmo quando têm sede?” “Sim, mesmo quando têm sede.” “Mesmo quando têm fome?” “Sim, mesmo quanto têm fome.” “Mesmo quando têm calor?” “Sim, mesmo quando têm calor.” “Mesmo quando têm dúvidas?” “Sim, mesmo quando têm dúvidas.” “Mesmo quando têm medo?” “Sim, mesmo quando têm medo. Mas os meus bravos escoteiros não têm medo. Ou têm?” “Nós temos é sede.” “Os meus bravos escoteiros não são cobardes, pois não?” “Nós temos é sede.” “Os meus bravos escoteiros não têm medo da luta, pois não? Os bravos guerreiros do meu pelotão não são cobardes, ora não?” “Eu não sei o que é ser cobarde?”, confessou o Felisberto. “Ser cobarde é ter medo de combater…” “Só?” “Sim. Ser cobarde é ter medo de combater.” “Só?” “Sim…” “Não. Para ser cobarde é necessário também fugir. Porque ter medo todos temos. Pelo menos isso é o que diz o meu pai. E ele ficou sem uma mão a combater os turras”, disse o Mário Maneta, assim apelidado, não por ser maneta mas por ser filho do João Maneta. “Pelo caminho que isto leva, nem a puta da discussão acaba, nem o combate começa. Em frente marche”, ordenou o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro. “Eu desisto se não beber um golo de água”, disse o Carlos Ranheta disfarçado de primeiro cão pisteiro. “Eu também desisto da guerra se não beber água”, disse o Manuel Merrinhau deitando-se num tufo de ervas meias secas. “Nós também desertamos se não bebermos água” disseram a uma voz todos os sedentos bravos do pelotão. “Mas aqui não há água”, avisou o chefe mirim já visivelmente desorientado. “Existe uma nascente além ao pé dos carvalhos”, esclareceu o Pinto Manco, assim conhecido por ter um pé boto. “Mas para irmos lá vamo-nos desviar muito do nosso trajecto. O território do nosso inimigo fica quase na direcção oposta”, lembrou o capitão mirim. “Isso desvia-nos muito do nosso alvo. Temos de seguir em frente”, concluiu. De seguida ordenou: “Em frente marche!” “Em frente marche o caralho”, avisou o Carlos Ranheta camuflado de primeiro cão pisteiro. E todos se deitaram no chão ao lado do Manuel Merrinhau. “Eu proponho que se vote se devemos ir para a batalha mortinhos de sede, se devemos ir além à nascente dos carvalhos beber água ou se devemos ir para casa porque tenho muita fome”, propôs o primeiro cão pisteiro Carlos Ranheta, também conhecido pelo Esfomeado. “Nem é necessário recorrer a nenhuma votação, eu mesmo ordeno que recuemos até nossas casas para almoçar. Um soldado cheio de sede e de fome não consegue lutar”, ordenou o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro. Mais uma vez lembramos que foram tiradas como esta que o elevaram ao cargo de secretário de estado do Estado.

Cena 8 (take 3). Ainda mais empoleirados nas duas árvores, o Graça e o José observam intrigados o recuo das tropas inimigas. Diz o Graça para o José: “Não entendo nada desta guerra. É muito táctica para o meu feitio. Primeiro avançam, depois param, logo discutem, depois deitam-se no chão e, finalmente, recuam. Assim não sei brincar.” O José, apontando para um vulto que se aproximava deles empunhando umas cuecas brancas na ponta de um pau, exclama: “Um mensageiro.” Após uma pausa, disse o Graça para o vulto: “Diz lá o que tens a dizer e rápido, antes que te esganemos.” O mensageiro aflito, pois sabia dos maus fígados do filho do sargento, balbucia: “Na guerra não se esganam os mensageiros.” “Mas isto não é uma guerra a sério. Quando se brinca tudo é permitido, até estrangular mensageiros que empunham cuecas brancas todas sujas. Ciscaste nas cuecas, cagão,” ironizou o Graça gargalhando. “As cuecas não são minhas, são do Manuel Merrinhau. O nosso chefe manda dizer que vamos para casa almoçar e que logo vimos. E que a vitória será nossa.” “Vai-te foder cagão, e diz lá ao teu chefe que cá o esperamos.”


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Quinta-feira, 7 de Julho de 2011

The show must go on


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Quarta-feira, 6 de Julho de 2011

O Poema Infinito (55): a verdadeira poesia e o verdadeiro poeta

 

A verdadeira poesia começa no mito da verdadeira poesia que se confunde com um filme mudo visto nos dias de hoje como se fosse um filme sonoro a quem se lhe tirou o som. Na verdadeira poesia o que conta é o corpo que pergunta à vida se o amor vale mesmo a pena. Esta é a ocasião para o verdadeiro poeta começar a desconfiar se a sua poesia é indiferentemente verdadeira. Aos poucos, a verdadeira poesia e o verdadeiro poeta começam a cair no realismo e a revelar uma tendência absurda para apalparem os seios das mulheres ricas e falarem na beleza auxiliar das camisas dos pobres. E em auxiliar os pobres. E em emocionarem-se com os pobres. E os pobres, é claro, começam a desconfiar tanto da verdadeira poesia como do verdadeiro poeta e dos restantes poetas que os acompanham. O rico esconde o trabalho do pobre e o pobre emociona-se com a riqueza do rico e, entretanto, o poeta verdadeiro continua a apalpar os seios das mulheres ricas e a escrever poesia verdadeira onde enaltece as calças coçadas do operário, as mãos calejadas dos agricultores, a lírica disformia das mulheres do povo, dos seus cabelos confundidos, dos seus bigodes controlados. E em caligrafia fina e estudada, o verdadeiro poeta desenha o D de Democracia, para gáudio da verdadeira poesia que outra coisa não esperava do seu criador e amante. O verdadeiro poeta segue em frente e ultrapassa a fronteira natural do bom gosto. E o bom gosto agradece e retribui e ultrapassa, também ele, a fronteira natural do verdadeiro poeta, que é, como todos sabemos, a verdadeira poesia. E a verdadeira poesia agradece mais este sinal de bom gosto e qualidade. O verdadeiro poeta, entretanto, monta no corpo ardente das fêmeas ricas desculpando-se mais uma vez de novo golpe baixo da dialéctica da escrita. Todos os leitores apreciadores da verdadeira poesia o desculpam, pois todos nós sabemos que o verdadeiro poeta não é um anjo e muito menos um homem sem defeitos. Um homem sem defeitos pode ser tudo menos um poeta verdadeiro que escreve verdadeira poesia. Este é um dos mais louváveis axiomas do verdadeiro poeta: a virtude dos seus defeitos. E lá vêm as ninfas e lá saltam as vaginas vulcânicas e lá se abrem as bocas famintas de amor e lá brilham os olhos dos amantes e lá dançam os verdadeiros poetas de roda das suas liras de prata e lá irradia a essência dos versos como coisinhas fofas no meio de uma boda carismática e lá namoram as substâncias proibidas sem as quais a verdadeira poesia e o verdadeiro poeta dificilmente existiriam. E o verdadeiro poeta impacienta-se e bate forte e feio na verdadeira poesia. E a verdadeira poesia chora e geme e suplica tréguas. Então o verdadeiro poeta enche o peito de ar e escreve o poema definitivo que começa assim: Nesta leal confusão onde irá Zenão. Será que você sabe ou não?


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Terça-feira, 5 de Julho de 2011

Olhar de frente


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Segunda-feira, 4 de Julho de 2011

O fim de uma ilusão

 

Devolvido Sócrates ao anonimato mediático, eis que os triunfadores da “causa pública” se atarefam na imensa, e inglória, tarefa de crucificar quem se lhe segue. E é bem feito, sim senhor. A política é isso mesmo: retirar uns do poleiro e pôr lá outros para seguirem o mesmo caminho. E, para isso, são fundamentais as televisões e os jornais. É aí onde se alojam os milhares de génios que diagnosticam as origens da crise e é lá, nesse oráculo da revelação, que propõem a cura. Ali em directo, como deuses da verdade, no seu Olimpo de certezas. E falam e falam e continuam a falar porque apenas eles nos podem salvar. E se não for possível a salvação ser servida ainda durante a noite das tertúlias, ou dos directos televisivos, ela virá logo pela manhã, fresquinha como o “biju” onde, para nosso deleite, a manteiga ainda derrete.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não… )

 

Abençoados sejam os engenheiros, os economistas, os políticos, os gestores, os médicos, os funcionários superiores, os filósofos, os professores universitários, os diplomatas, os advogados, os juízes e as mil e uma castas de palradores empertigados na sua importância e nas suas certezas passageiras, que raiam a esquizofrenia.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês…)

 

Quem, como eu, os ouve, fica irremediavelmente com a impressão de que a nossa jovem democracia esteve entregue aos incompetentes, aos mentirosos, aos ladrões. Daí a actual situação de emergência nacional. E a pergunta impõe-se: será unicamente por culpa de Sócrates, Durão Barroso, Guterres, Cavaco Silva, Mário Soares, Ramalho Eanes, Sá Carneiro e Freitas do Amaral e Vasco Gonçalves? E o povo pá? Pois, os camaradas da luta têm razão, o povo quer, é um carro novo mas, com o PSD no Governo, para já, saiu-lhes um subsídio de Natal com o bónus de menos 50%. Portugal à direita é mesmo assim. É o Continente a céu aberto. Mas mentirosos eram os outros: os do Sócrates. 

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia…)

 

Na minha humilde perspectiva, a realidade remete-nos necessariamente para uma outra visão dos factos. Todos nos lembramos, e os que não se podem lembrar devem consultar os livros de História Contemporânea, do Portugal salazarista pobre, antiquado, arcaico, medieval, e, em muitas localidades, mesmo primitivo. Todos nos lembramos também da primavera marcelista que deu alguma esperança de desenvolvimento a muita gente e que acabou torpedeada pelo pronunciamento militar do 25 de Abril, bem ao jeito das ditas revoluções que tiveram lugar nos séculos XIX e XX.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio…)

 

Após Abril de 1974, por mérito da esquerda, e pelo desnorte da direita, instalou-se o mito nocivo de que Portugal poderia, em meia dúzia de anos, tornar-se, por obra e graça do Espírito Santo, um país com os níveis de desenvolvimento da Europa Ocidental. E, vai daí, começou-se a reivindicar tudo e mais alguma coisa. Todos à uma fomos para a rua exigir o Estado Social, salários adequados, habitação, educação e saúde gratuitas, universidades de excelência, empregos para toda a vida, subsídio de férias e décimo terceiro mês, férias no estrangeiro, carro novo, hospitais e centros de saúde com qualidade, estádios de futebol, auto-estradas espalhadas pelo país e quase todas à borla, subsídios de desemprego generosos e alargados no tempo, rendimento mínimo garantido e muito mais mordomias que seria cansativo aqui referir ao pormenor.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio Pedro Abrunhosa…)

 

Entretanto a produção nacional não aumentou, extinguiu-se o ensino técnico, o nível cultural não se elevou, o ensino perdeu qualidade. Só que, com a entrada dos fundos comunitários nos cofres do Estado, e nos bolsos de agricultores, pescadores, formadores, banqueiros, etc., o bom senso desapareceu e todos entrámos em euforia. Com uma manifestação conseguia-se um aumento, com uma greve outro aumento, e com a tomada de posse dos sucessivos governos foi-se espargindo, como estrume, dinheiro sobre os problemas.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio Pedro Abrunhosa a ribombar-me na cabeça: “É que isto é mesmo assim…)

 

Subsidiou-se o arranque e o plantio de vinhas, oliveiras, os poços de rega, o abate de barcos de pesca, os burros, as ovelhas, as vacas leiteiras, os cursos de formação onde professores chegaram a aprender a nobre arte dos tapetes de Arraiolos ou o ponto em cruz, onde se aprendeu a costurar, a jardinar, a cantar e, até, a respirar.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio Pedro Abrunhosa a ribombar-me na cabeça: “É que isto é mesmo assim / Sou só uma ilusão…

 

Isto era o que se fazia lá fora, na Europa desenvolvida. E este argumento falacioso foi o bastante para calar muitos dos protestos dos que apelavam ao realismo e à razão. E os patriotas e os comentaristas de agora todos ajudaram à festa. Foi um fartar vilanagem. Claro que o dinheiro não bastava para a instalada megalomania dos direitos. Os subsídios foram-se extinguindo, mas os direitos continuaram e a riqueza nacional não crescia. Resultado, Portugal tratou o problema como de costume, pediu dinheiro emprestado. A ilusão do euro tornou essa experiência fácil, pelo menos aparentemente. E tinha a virtude de ser indolor nos primeiros anos.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio Pedro Abrunhosa a ribombar-me na cabeça: “É que isto é mesmo assim / Sou só uma ilusão / Não tenho mão em mim…)

 

Mas os alicerces deste estado social têm, por força da falta de produção de riqueza nacional, a mesma consistência dos da baixa lisboeta. Também eles estão assentes em estacas de madeira numa zona de aluvião. E o terramoto aproxima-se.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio Pedro Abrunhosa a ribombar-me na cabeça: “É que isto é mesmo assim / Sou só uma ilusão / Não tenho mão em mim / É uma maldição…)

 

Agora já sabemos que a economia é a modos que um conto dos Irmãos Grimm. E todos pressentimos que viver de dívidas não é sustentável.

 

(E a promessa de Pedro Passos Coelho, no dia das mentiras, de que não ia mexer no 13º mês a provocar-me azia e a música do Bandemónio Pedro Abrunhosa a ribombar-me na cabeça: “É que isto é mesmo assim / Sou só uma ilusão / Não tenho mão em mim / É uma maldição.” E o segundo e o quarto versos a rimar com aldrabão… E o PPC a cantar: Sou só um ilusão.)

 

PS – Mas enquanto o Titanic se afunda, permitam-me que deixe aqui uma sugestão aos homens… de boa vontade, para soçobramos com elegância.  

 

Ponham a tocar a “Sinfonia do Novo Mundo”, de Dvorák [para os especialistas Sinfonia Nº 9 em Mi menor (Op. 95)].

 

Roupa: Calções Cargo, relógio Diesel, saco Louis Vuitton (este pequeno pormenor anda pelos 2200 euros), cardigan em algodão, óculos de sol Persol, cinto em pele, sandálias também em pele, chapéu em palha Lacoste.

 

Bebida: Red Emotion, por sugestão do Hotel Ritz. 1 morango, 2 amoras, 1 framboesa, 3 gomos de lima, 4 cl de Bacardi. Técnica: Macerar os frutos, agitar tudo no shaker, coar bem, adicionar gelo picado e juntar Água das Pedras (por sugestão nossa), em vez de Água Castelo, até ao cimo. Decoração: Rodela de lima, amora e framboesa. Tempo de preparação: 8 minutos.

E bom naufrágio. 


publicado por João Madureira às 07:00
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Domingo, 3 de Julho de 2011

Pose


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Sábado, 2 de Julho de 2011

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