Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011

O Poema Infinito (63): está tudo iluminado

 

Todo o espaço avança em direcção ao nosso olhar e a extensa montanha fica invisível. Embora claro, o tempo espraia-se mais um minuto na lúcida transparência do fulgor. Vamos vencendo o ímpeto das distâncias para ver onde acaba o amor. A fecundidade dos tempos felizes ajuda a aproximar de nós o brilho silencioso do desejo. Esse é o nosso sacramento que paira ainda sobre a lucidez do tempo que nos sobra. Tudo está agora iluminado: a perfeição da estrutura, o rigor da inteligência, o brilho do vagar, o ritmo da condição humana, o espírito que se adensa, a sabedoria lúcida da terra, a mesa repleta de frutos do desejo, o esplendor monótono dos provectos caminhos, a transparência antiga da paciência, a infinita indulgência da monotonia, as promessas de amor, todo o exílio interior, a tua face oculta, todos os verbos santos, todo o ímpeto do prazer, toda a carne nua, todos os sexos externos, o eco dos ritmos africanos, a paciência dos predestinados, o fulgor explícito dos indícios, nós os dois passeando pela brisa da tarde, a brisa da tarde passeando por nós os dois, a ausência pacífica de senso comum, a nudez básica de qualquer cópula, a verdade, a mentira, os alicerces azuis do céu, todas as epifanias de Lenine sobre um piano, a subtil firmeza dos ofícios divinos, os anjos eléctricos, todos os santos e santas de todos os altares do mundo, a solidão dos loucos, a esperança de ter esperança, toda a energia sexual dos eunucos, a memória submissa dos meus mortos, a eternidade fugaz das imagens a preto e branco, a forma eterna de uma mulher nua, o infinito prazer de penetrar uma vagina húmida, todas as leis que permitem infringir as regras estúpidas, a abstracção da vida, a certeza da morte, todas as dúvidas metódicas e não metódicas, os faunos de Aquilino Ribeiro, Pedro Páramo, Juan Rulfo, Corto Maltese, Hugo Pratt, o júbilo de Frank Zappa, todos os indícios de amor, todas as previsões de ódio, as faces pálidas dos meus defuntos pais, as cinzas inertes de todos os meus antepassados, as minhas penitências de menino, a luz eterna dos domingos da minha infância, o espanto inicial da vida, o prodígio do pão e da água, a estrita incandescência da mulher que eu amo, os meus filhos, os vestígios infinitos do pensamento livre, a ausência mutiladora da glória eterna, a fé activa dos ateus, a fé monótona dos crentes do Deus único, toda a verdade antiga, a veemente ascensão da inteligência, os gemidos precoces de um orgasmo, a extensão vagarosa do tempo, o recrudescer da razão, o prodígio dos espaços em branco, o vazio atómico que cria a matéria, a estrutura pacífica dos bichos e das plantas, o sofrimento das crianças e dos velhos abandonados, a linguagem dos poetas loucos, as palavras gastas que procuram novas semânticas, a força de uma erecção, a delicadeza sonora e sofrida de uma penetração, a indigência da beleza provocada, a sábia surpresa da minha língua mãe, o repouso, o apetite, os símbolos, a intimidade, o júbilo, o lugar comum da amizade, a oralidade, a leitura, a escrita. A escrita, a escrita, a escrita… 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

Brincadeiras


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

Quarta crónica estival: o fim da quinzena esplendorosa

 

As férias na praia acabaram, mas o seu esplendor ainda me anda aos baldões pela cabeça. Quinze dias à beira-mar é tudo o que um ser humano mais deseja na vida. E é tão bom relembrá-lo: o calor, o mar, a areia, as besuntadelas, os passeios para molhar os pés, o transportar do saco das toalhas, a água fria para retemperar os ossos e tonificar os músculos, os emigrantes, os imigrantes, os migrantes, os turistas e os autóctones a jogarem as raquetas, o futebol, os putos a lançarem-se para a água como loucos, as conversas, os cães, os carros, os africanos, os políticos em calções, os hipermercados à pinha, os cafés repletos, os restaurantes a rebentar pelas costuras, o subir e o descer ladeiras, as prendas que se compram para a família, os telefonemas que se fazem para a família ou que a família faz para nós, os conhecidos que nos evitam, ou que evitamos, na terrinha, e que aqui nos falam como se fossemos os melhores dos amigos, as feiras regionais, as feiras locais, as festas, a animação estival a cargo das autarquias no seu máximo esplendor de qualidade e diversidade, os ciganos a venderem pólos de marca, os polícias de bicicleta, os ladrões de motorizada, os traficantes de droga de Mercedes último modelo, mulheres chilreantes escurecendo-se na praia para serem fotografadas e logo à noite colocarem no facebook as suas fotos eróticas a ilustrarem os seus poemas de amor cheios de mar, azul, areia, sol e… estrelas, os vendedores de bolas de berlim e de gelados, os leitores da bola a tirarem burriés do nariz, os nórdicos rosados como camarões a tomarem compulsivos e obstinados banhos de sol, mulheres bonitas, feias e assim-assim, homens assim e assado, crianças incómodas, jovens impertinentes e ainda mais areia a escaldar e mais água fria para gelar os meus ossos e mais protector solar e toalhas e jornais e chinelas e camisolas e óculos de sol riscados e amigos de ocasião chatos como o caraças e bóias e baldes e pás e buracos na areia e castelos na areia e… a auto-estrada de caminho de casa que tão cara é de percorrer. Depois sonhar com o almoço no Rui dos Leitões e… o Rui dos Leitões à pinha, as mesas todas ocupadas, a fila maior do que a que se forma para marcar consulta externa nos hospitais do SNS, a longa espera, a família cheia de fome e por isso já indisposta… finalmente o leitão, o vinho espumante, o apetite, a voracidade e o barulho ensurdecedor dos clientes do Rui dos Leitões, e os empregados nervosos sem mãos a medir, as crianças que berram o seu nervosismo primário, o seu pânico por permanecerem ali fechadas e com um barulho atroador que junta vozes humanas, sorrisos alarves, tilintar de garfos, garrafas de espumante a abrir… e ainda mais um pouco de leitão porque a fome é muita e ainda um pouco mais de espumante porque a sede é muita e o barulho ensurdecedor a dilatar-se um pouco mais, como se fosse possível, enquanto o dono do restaurante sorrindo se entretém na teima de ir assentando nas mesas que vão vagando os clientes que continuam a aguardar pacientemente por uma mesa e um ou dois pedaços de leitão à Bairrada pagos a peso de ouro… e chegam as sobremesas doces e finalmente os cafés. Depois de pagar uma fortuna por três travessas de leitão, saímos do restaurante um pouco mais pesados de corpo mas muito mais leves na carteira. É a crise, como muito bem diz o meu sogro. Cá fora o sol queima e quando entramos no carro o ar arde e os assentos são brasas que nos fazem suar em bica. Conduz quem não bebeu ou bebeu pouco. A ânsia de chegar a casa é enorme. Tenho saudades da minha cidade. Só quando estamos fora é que lhe damos o devido valor. Não penso em política pois de certeza que ficava com azia e lá tinha de desfazer o bolo alimentar à base de digestivos medicinais e o leitão foi tão caro e estava tão saboroso que é um desperdício chatear-me com tão fracas reses. Então o Pedro Passos Coelho é que me saiu cá um artista de revista, se sofresse da síndrome do Pinóquio nesta altura tinha um nariz que já não lhe cabia em São Bento. E então que dizer o António José Seguro? Para já basta pensar nele como o fantasma que para se ver nas vinhetas de BD tinha de se enrolar em gaze. Penso isto, e só isto, porque comi salada de alface e tomate no início da refeição. Se levasse mais longe o raciocínio lá se me azedava o leitão no estômago. Credo! Mas, como vos ia dizendo, não há nada como chegar à nossa terrinha. E a cidade de Trajano é tão carinhosa e está tão bem regulada que dá gosto pensar nela pelo simples prazer de pensar… nela. Então até para a semana. E fica desde já prometida uma crónica estival sobre os esplendorosos dias de férias que passei na nossa terrinha a ir de um lado para o outro com muito amor e carinho. E da qualidade e diversidade da animação estival a que tive o prazer de assistir. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 28 de Agosto de 2011

Olhares IV


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 27 de Agosto de 2011

Olhares III


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 26 de Agosto de 2011

O Homem Sem Memória

 

78 – Naquela época, as verbenas do Jardim Público em Névoa eram célebres e, talvez por isso mesmo, muito concorridas. Naquele tempo também o dinheiro escasseava no bolso de quase todos os portugueses, especialmente no dos jovens. Mas a escassez aguça o engenho.

Era frequente ver grupos de adolescentes organizarem-se por vizinhança ou outras afinidades electivas. Contavam os escudos, dividiam tarefas e actuavam segundo um plano previamente delineado. Parte deles adquiria os bilhetes no guichet junto à entrada do recinto, enquanto a outra parte se dirigia a um caminho estreito entre a margem do Tâmega e o muro de pedra que sustentava o gradeamento de ferro ao fundo do jardim. Esse era o lado mais vigiado, pois era por ali que os penetras sem bilhete tentavam a sua sorte. Uma das tácticas utilizadas pelos rapazes que tinham entrado pelo portão principal consistia em juntar-se no fundo do recinto e simular uma luta corpo a corpo pretextando desavença grave. Enquanto a luta se ia desenvolvendo com a lentidão necessária, e os polícias tentavam acalmar os ânimos entre os contendores, parte do grupo dirigia-se ao muro e içava os colegas que aí estavam à espera.

Depois de os rapazes serem içados e o sinal combinado ser dado, a rixa acabava e o grupo lá ia à sua vida, bem assim como a patrulha da polícia. Tudo estava bem porque acabava em bem. Tudo era como soía.

O dinheiro poupado nos bilhetes estava destinado a, lá mais para a noitinha, servir para adquirir sardinhas assadas, pão, caldo verde e vinho tinto.

Dentro do recinto, a rotina era a usual: uns dançavam, outros viam e os restantes passeavam para cima e para baixo aproveitando o fresco da noite.

O José, como todos sabemos, era da facção mais dada ao baile. Apreciava uma boa dança, gingava à maneira e aproveitava-se, quanto baste, das possibilidades eróticas, ou outras, do seu par. Masturbações no Jardim Público eram proibidas, por falta de espaço.

Nestas ocasiões, o José costumava emparelhar com o Pereira, um rapaz alto e magro como um lareiro. Também ele gostava de se enroscar nas raparigas com uma certa persistência e denodo. Algumas davam-lhe tampa logo após a primeira dança, mas outras continuavam a bailar ao seu ritmo, quase sem mexer os pés. O Pereira, para a dança, era um pé de chumbo, mas tinha conseguido transformar essa fraqueza na força do seu dançar. Era a prova provada de que se pode metamorfosear um defeito numa virtude. Por vezes desperdiçava o par porque se recusava a dançar ao som da música da banda filarmónica. Para ele só a música moderna é que contava. Já o José era pau para toda a colher.

Naquela ocasião, por circunstâncias várias, o José resolveu, antes de começar a sua noite dançante, passear um pouco na companhia do Andorinha, um seu colega assaz curioso. Vinha às verbenas mas nunca dançava. Passeava com quem o quisesse ouvir e, quando a fome apertava, ia comer com o grupo o que o grupo previamente decidia.

Nessa noite o Andorinha começou a falar de um livro que o tinha marcado profundamente. Já ia na segunda leitura e afirmava que, de tão interessante, era obra para ser lida mais algumas vezes sem enjoar. O José perguntou-lhe qual era o livro, mas o Andorinha só prestava atenção ao seu pensamento. E continuou a falar do livro durante a noite toda. Do quanto o tinha marcado o personagem principal, rapaz muito religioso, que perdeu subitamente a fé porque encomendou a cura do seu pé boto a Deus e Ele nada fez, deixando-o manco e ateu.

O Andorinha era um rapaz predestinado, um génio de província, que arranjava tudo o que era eléctrico utilizando a sua intuição e um ferro de soldar. Adorava, especialmente, consertar rádios. E fazia-o de graça. Era rapaz para se enfiar em casa semanas seguidas, movendo-se da cama para o sofá e do sofá para a cama, lendo “A Servidão Humana”, vendo televisão, ouvindo rádio, consertando os aparelhos que lhe levavam a casa, comendo, bebendo e fumando muito. Era um fã dos Beatles e dos programas televisivos de António Vitorino de Almeida. Do músico português apreciava a verve fácil e corrosiva anti-regime, e escangalhava-se a rir quando recontava os discursos do mestre enquanto abraçava ao colo um chimpanzé que, dizia ele, e com alguma razão, convenhamos, por muito que nos custe, que era muito mais inteligente do que a maioria dos portugueses, incluídos os governantes.

Gostava ainda o Andorinha de, nas noites mais frias e nevoentas, dar várias voltas às pontes, num trajecto de dezenas de quilómetros, pelo simples prazer de conversar e de falar do pé boto do seu herói ateu. Outras vezes relatava histórias hilariantes de homens da aldeia onde nasceu. Contava repetidamente a de um indivíduo que, de todas as vezes que ia defecar ao monte, pois não possuía casa de banho, encontrava invariavelmente um lobo que mais não fazia do que ficar quieto enquanto o homem, de cabelos em pé, fazia o que tinha a fazer. Contava também, com a cara mais séria do mundo, a triste história de um primo seu que tinha a cara torta de tantas bofetadas levar do seu defunto pai, que lhas dava todas as noites e sem prévio aviso.

O maior amigo do Andorinha era um gato que o arrebunhava todos os dias com todo o carinho do mundo. Ele, em troca, lançava-o da varanda lá de casa para a rua com o firme intuito de observar como invariavelmente o bichano caía sempre com as quatro patas servindo de amortecedores.

Essa noite de verbena foi a primeira soirée de uma proveitosa amizade, pois só ela é capaz de pôr um viciado na dança a escutar um companheiro durante quatro horas seguidas com muito prazer e subido interesse. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 25 de Agosto de 2011

Olhares II

Olhares II


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 24 de Agosto de 2011

O Poema Infinito (62): fogos súbitos e livros sinfónicos

 

Iluminam-se mil olhos nos teus olhos e mil bocas saboreiam o ar doce da noite. Uma canção antiga soa dentro de uma casa com janelas abertas. As palavras pensadas desenham ciclos de memória. Um corpo absorto pelo cio adormece bocejando ternura e desencanto. Lembro-me de barcos e de tormentas e dos calendários brumosos da navegação. A solidão transforma-se numa palavra emigrante. Noutras ocasiões desenhei camponeses risonhos como searas acariciando animais e plantas. Neles encontrava sempre a terra que me há-de consumir. Terra e mar, um destino de paciência e euforia. Tu és a minha guerra e a minha paz. Ainda. E isso faz crescer água nos meus olhos que creio inocentes. A noite limpou o dia de movimentos caóticos. Agarrado à tua cintura sorrio e peço-te para irmos para a cama. Digo-te ao ouvido um doce lugar-comum: a noite fez-se para o amor. Outro: terna é a noite. Adormecemos quando o rocio começa a pousar límpido sobre a banal cor das flores do jardim. A felicidade é isso. Sonho com fogos súbitos, com livros sinfónicos, com éguas preenchidas de curvas elásticas, com antigos cavaleiros andantes sentados em selins de cabedal adejando o cabelo ao vento, com catedrais voadoras, com deuses loucos de amor humano. Sonho que sou um cavaleiro da távola redonda em busca do cálice do sexo. Uma linguagem diminuta toma conta da manhã. Pessoas matinalmente certas povoam de novo a cidade e abrem o seu corpo à tristeza do dia-a-dia. Alguém prega o seu olhar numa ambulância madrugadora. A vida começa a flutuar nas ruas. Homens industriosos passam rente à boca fechada dos livros e perfuram o seu silêncio subversivo. Cada vez mais iniciam o seu dia fatigados pela desilusão. Tento descer devagar da minha alucinação. O tempo encaixa na sua lógica neutra. É essa a sua insistência científica. Insisto em exercitar a boca com a palavra esperança, mas as pessoas teimam em evaporar-se. Começa a chover sobre o quintal da casa. O céu fica metafísico. As mãos começam a iluminar-se de novo quando toco nos teus olhos. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 23 de Agosto de 2011

Olhares I


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

Terceira crónica estival: um, dois, três e… zzzzzzzzzzzzz

 

As noites são quentes, os dias são quentes, o sol é estonteante e o mar é frio como o caraças. Mas de resto, tudo bem. Continuo a ir para a praia, continuo a besuntar-me com muito rigor, continuo a ir tomar banho no mar aos solavancos, hesitando, hesitando, hesitando sempre. De noite suo muito por causa do calor. De manhã acordo alagado em água. Agora a pele começou a dar mensagens de que, por não estar habituada a tanto sol, também existe e não gosta mesmo nada de ser maltratada. O contacto com os tecidos tornou-se problemático. Fora isso, férias na praia são encantadoras, sobretudo antes de fazermos centenas de quilómetros para ir ao seu encontro e depois de já estarmos a trabalhar, quando a recordamos, em amena cavaqueira, na doce e calma companhia dos amigos.

 

Ler os jornais na praia é uma trabalheira. O vento sempre a soprar faz as páginas adejar em todos os sentidos e, quando o vento acalma, as mãos gordurosas do protector solar, em aliança espúria com a tinta das letras impressas, mancham tudo. Fora isso, tudo bem. A areia escalda, os vizinhos da barraca ao lado gracejam à base de impropérios (bendito seja o povo mais o seu sagrado linguajar), os filhos de vários casais amigos jogam futebol, ou batem ritmadamente com duas raquetes numa bola muito parecida à do ténis mas que produz um som estranho, levantam areia, chutam a bola contra quem passa, gritam imenso a sua alegria, pedem muita desculpa pelo incómodo de virem de cinco em cinco minutos procurar as bolas tresmalhadas nas toalhas das pessoas que para aqui estão de papo ao ar, com os olhos fechados a fazerem que descansam, enquanto se vão remordendo de raiva e angústia por causa de, à semelhança da interdição aos cães, a praia não ser igualmente vedada às crianças e aos africanos que persistem em vender relógios, óculos de sol e girafas de madeira de vários tamanhos e preços.

 

Passear na praia é aquilo que me dá mais prazer. Desde logo porque consigo aguentar bem o contacto da água fria com os meus delicados pés. Mas também tem os seus inconvenientes: a inclinação do areal que prejudica a frágil estabilidade da minha coluna vertebral, as pedras que incomodam o meu andar, a elevada quantidade de pessoas que se põem a passear junto ao mar ao mesmo tempo mas em direcções opostas, os jogadores de futebol e raquetes que ocupam a maior parte do espaço vital da praia, os jovens mergulhadores que correm como loucos e aos gritos, para saltarem para as ondas, assustando as pessoas mais idosas e aspergindo água fria sobre as crianças que descansadamente fazem buracos na areia. 

 

Por vezes dá-me vontade de ir urinar por força da muita água que bebo devido ao facto de tomar uns comprimidos que são diuréticos e por isso amenizam a minha tensão arterial. Mas como nessa altura já o sol aperta muito, e as casas de banho são distantes, o exercício torna-se penoso. Amigos meus mais dados à zombaria, aconselham-me a que me enfie no Atlântico e verta águas dentro do seu aconchego, pois ninguém dá por nada, além disso, dizem eles com acerto, e com vossa licença, o mijo é salgadinho como a água do mar. Reconheço que o apelo é forte, mas a minha educação espartana proíbe-me determinantemente de dar tréguas ao facilitismo e à promiscuidade.

 

Quando chega a hora do almoço, o sol aperta de tal maneira que me só me apetece fugir dali. Mas o caminho até casa é tão íngreme e penoso que apenas me consigo arrastar pela torreira, incomodado com o sal seco na pele das minhas costas e a areia nos interstícios das minhas chinelas de plástico robusto. Os sacos com as toalhas molhadas pesam. O sol continua a atacar, os outros veraneantes empurram-me, as crianças berram, os jovens pedalam nas suas bicicletas pelo meio das pessoas como se fossem pilotos de motas de grande cilindrada, os africanos insistem de novo na oferta a bom preço, dos óculos, dos relógios e das girafas. Entretanto é necessário passar pelo supermercado para comprar bebidas. Lá dentro a fila é enorme, os estrangeiros são muitos e as funcionárias das caixas não têm mãos a medir. Depois de aviado, entro de novo na torreira e subo a ladeira até casa com o mesmo esforço que Cristo pôs quando carregou a cruz até ao calvário.

 

O almoço foi frugal, bem regado, talvez até regado bem demais. Termino-o com uma sopa que me põe a suar em bica. Depois da sobremesa, que é sempre composta por fruta fresca e boa, refresco a cara e o tronco com água corrente e ponho-me a ver a televisão. É a volta a Portugal. Adormeço logo de seguida. Acordo, todo suado, quando a Luzia me diz que está na hora de ir para a praia. Vou de novo à casa de banho para me refrescar. E refresco-me. Pego no saco das toalhas e lá vou eu. Agora é a descer, mas a descida é tão íngreme que tenho de travar senão despenho-me.

 

Chegado à praia, com os pés a arder, coloco as toalhas, besunto-me, vou até a beira-mar e refresco-me. O sol continua bravo e o calor é muito. Por isso vou passear. Mas como o areal tem um desnível, os jovens jogam, correm e mergulham, as pessoas atropelam-se e o mar continua frio, resolvo deitar-me na toalha e adormecer. Mas…

 

De olhos fechados, mas acordado, começo a pensar nesta crónica e por isso vou alinhavando alguns lembretes mentais: descrição do prazer que é passar as férias na praia, abordar rotinas, falar do esplendor do convívio com os veraneantes, colocar um pouquinho de sal e pimenta no final com uma leve menção a Pedro Passos Coelho e António José Seguro, rrrr…  Então não é que o PPC… shshsh… Já para não falar do AJS que… zzzz… Resumindo e concluindo, estamos bem trama… zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz~

 

 

PS (primeira parte) – Conversa (escrita) entre um ex-ministro da educação e um professor no grupo do Facebook “Um Sorriso por Portugal”. JDJ: Quanto o acto de SORRIR é um acto de esperança no futuro. Por vezes não imaginamos a força que pode ter um sorriso. JM: Há qualquer coisa que me ultrapassa em tão vãs palavras. Se os lugares comuns pagassem imposto… E saber que o meu amigo foi ministro da educação. JDJ: Meu caro amigo João Madureira, se assim fosse não queria estar na sua pele, depois de ler o seu último texto. JM: O seu acto de sorrir é tocante. Sorria caro Justino, sorria… O meu amigo está nos apanhados.

Um pouco mais à frente, o JM foi expulso do grupo que se auto-intitula “Um Sorriso por Portugal”.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 21 de Agosto de 2011

Mulheres e crianças


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 20 de Agosto de 2011

O acordeonista e o cantador


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011

O Homem Sem Memória

 

77 – Mas uma coisa é falar e outra bem diferente é fazer. Passado uma semana lá andava o José no arraial da festa de Boticas tão fresco e prazenteiro como se não tivesse memória.

Foi para lá no carro do Asdrúbal, ou melhor, do pai do Asdrúbal, que lho emprestou para ir de Santo Amaro ao Sport, que são para aí uns mil metros bem medidos, e voltar. No regresso a casa, com o carro apinhado de onze gandulos, o Asdrúbal resolveu fazer um desvio por Boticas, que eram à vontade uns sessenta quilómetros entre o ir e o voltar.

Demoraram cerca de uma hora bem contada, pois as curvas eram muitas e boas, a noite estava escura e os faróis do carro pouco mais alumiavam que uma lanterna a pilhas. A juntar a todas estas contrariedades, o Asdrúbal viu-se e desejou-se para meter a segunda e a quarta velocidades, pois o José seguia escarrapachado entre os dois bancos da frente a um palmo da manete das mudanças.

Chegaram à festa já o arraial tinha começado há um bom pedaço. Primeiro rondaram as tascas ambulantes, pois, como todos sabemos, uma das características da juventude é ter um apetite insaciável e uma sede persistente. Sentados num banco corrido em frente de uma tábua suspensa em dois suportes de madeira mal talhada e pobremente assentada, mandaram vir um ovo cozido para cada um, que descascaram e polvilharam com sal e pimenta. Depois do ovo mastigado, botaram um copo de tinto, deram um murro no peito e, em duo, foram buscar parelha para dançar.

Antes de dispersarem, o Asdrúbal avisou que às quatro em ponto todos deviam estar junto à porta principal da Igreja Matriz para rumarem caras a Névoa. Quem não fosse pontual ficava em terra.

Escusado será dizer que o José fez parelha com o Carlos Trolaró. Deram uma volta pelo recinto, visitaram a igreja que estava toda iluminada por dentro e por fora, apreciaram o andor da Nossa Senhora da Livração, que era uma santa em tudo semelhante a todas as santas espalhadas por esse Portugal fora, visitaram a enorme imagem de São Cristóvão no meio do ribeiro do Fontão, com o Menino Jesus ao ombro, admiraram o foguetório estrelejante de início de noite e foram, mais uma vez, comer e beber. Mas só o fizeram porque o Carlos Trolaró convidou e pagou, pois o José estava teso como um carapau seco ao sol. O seu pecúlio deu à justa para pagar a quota-parte da gasolina ao Asdrúbal, para o ovo cozido e para um copo meado de vinho tinto.

Desta vez comeram sardinhas e fêveras assadas, desbastaram um rico melão de Almeirim e beberam três canecas de vinho do real. Por cima botaram uma cigarrada bem absorvida e percorreram todo o recinto à cata de um duo de raparigas que aparentassem uma certa liberdade de movimentos e uma positiva independência em relação à família e aos vizinhos. A última experiência do José tinha servido para os colocar numa orientação onde predominava a precaução e, sobretudo, a imprescindível destreza da fuga.

O José com um copo a mais ficava eufórico e, sobretudo, atrevido. O Carlos, por seu lado, aguentava melhor a pressão e o vinho. Depois de várias experiências, nem sempre bem sucedidas, encostaram-se a um par de moçoilas emigrantes em França que revelavam uma acidental independência de espírito e uma positiva liberdade de expressão e movimentos. Estavam na festa sós e com a firme intenção de se divertirem o mais que pudessem. “Esta vida são dois dias. N'est-ce pas?”, disseram elas. Ao que eles responderam: “Mais oui, bien sur.” E durante muito tempo dançaram toda a espécie de ritmos: passodobles, tangos, valsas, chachachas, rock e música popular portuguesa. Além de se cansarem, como era óbvio, estabeleceram uma certa intimidade da qual resultaram ternos beijos florais, alguma cumplicidade erótica e uma subida de adrenalina que apenas podia resultar num acto sexual redentor. Por alturas da apoteose do fogo-de-artifício, combinaram ir vê-lo para um lugar recatado. O que melhor encontraram foi uma pequena leira de ervas depois de um giestal. O Carlos, numa momice de generosa loucura, regressou à Vila para comprar uma garrafa de champanhe fresco e mercar um bolo, por muito pindérico que fosse. Quando se iniciou a girândola do fogo preso, o Carlos Trolaró abriu a garrafa de vinho espumante e dela beberam entre sorrisos, beijos e borbulhas refrescantes. No chapéu do José confeccionaram umas sopas de amante cansado.

Por fim aconteceu o inevitável, cada par procurou o seu terreno de cópula e copularam aquilo que quiseram e da forma que melhor se lhes adequou. Nestas coisas do amor físico, o corpo é que manda.

O fogo-de-artifício durou cerca de meia hora, que foi o tempo necessário a cada par ter o seu desempenho sexual de forma mais ou menos satisfatória. Por vezes o céu enchia-se de luz, o que permitia a cada um visualizar as partes pudentes do seu parceiro como se fossem espaços sagrados. Orgasmos, se é que os houve, e nós estamos em crer que sim, foram conseguidos de forma tão natural quanto possível. Dizem que o amor meteórico também é uma forma de amor. Pelo menos essa foi a sensação com que os quatro ficaram depois de se despedirem.

Às quatro em ponto chegaram à porta da Igreja Matriz onde o Asdrúbal já os esperava impaciente. A noite, nas suas palavras, tinha-lhe corrido mal. Só lhe calharam em sorte donzelas virgueiras que apenas permitiam a dança com os respectivos corpos a meio metro de distância. O condutor do carro ainda perguntou aos demais rapazes como tinha sido a noite. Todos foram unânimes no relatório: o arraial tinha sido uma autêntica desilusão. Mas, como bem sabemos, nem todos estavam a dizer a verdade. E a verdade, naquele amena situação, aproveitava a quem? Comer e calar é atributo dos sábios. 

Dos onze jovens, apenas dez compareceram a tempo. Como estava com os azeites, o Asdrúbal proferiu: “Eu avisei, quem não está a horas fica em terra.”

Todos os presentes, visivelmente cansados, desiludidos, bêbados e frustrados, enfiaram-se no carro como puderam. Mesmo com menos um parecia que iam lá dentro mais três ou quatro. Fins de festa provocam ressaca e irritação. Curva aqui, curva ali, curva acolá, lá se sujeitaram à corajosa subida até Névoa.

Numa curva mais apertada, uma porta mal fechada abriu-se e fechou-se logo num de repente. Alguém mais sóbrio pensou ouvir um grito estranho. Mas foi apenas uma conjuntura fugaz. Pelo menos foi aquilo que pareceu,

Tarde e a más horas a carga foi deixada onde o permitiu a fúria juvenil do Asdrúbal. Por isso, o seu generoso pai o pôs a desfolhar videiras na encosta da quinta familiar de Arcossó durante um dia completo.

Souberam mais tarde que o Manuel Chupeta foi internado no hospital de Névoa com uma perna partida e um traumatismo craniano devido ao insólito facto de ter sido projectado, na curva do Leite, sem que alguém se tivesse apercebido do arremesso. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 18 de Agosto de 2011

Só mais esta


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 17 de Agosto de 2011

O Poema Infinito (61): reacção em cadeia

 

Desencadeia-se rapidamente uma fulguração de espaços nos teus lábios e as paisagens estilhaçam-se no deslumbramento do sangue incendiado como se Deus fosse proibir qualquer coisa que tem necessariamente a ver com a protuberância dos abismos iluminados pela memória por isso outro Deus investe rios de dúvidas metódicas no esquecimento do amor até doer como se essa fosse uma coisa mesquinha e daí nascesse uma nuvem fluorescente de fogo que queima por dentro a ponte interrompida da compreensão humana como se essa fosse a solução para o vagar das pedras que constroem os castelos intactos de inutilidade sugerindo depois uma fosforescência definidora quando as tuas mãos hesitantes se crispam no meu falo como quem agarra um punhal vingador daí todos os gestos serem de amor e raiva e desilusão e ventura e regresso e o desejo torna a ser vingativo e doloroso como se não fosse possível nenhum contacto com a melodia da vida que corre como por instinto capitulando nos trechos desanimados dos pássaros vulcânicos e por aí acima vem o vento triste da inocência e da dor e do princípio de cada corpo e de cada alma morta e de cada olhar desajustado pelo desejo intenso dos doidos e agora caem-me nas mãos os livros inúteis e as palavras inúteis e os suspiros inúteis e toda a vertiginosa inutilidade da vida e da morte e do amor e toda a fulgurante incoerência da geometria das ideias feitas e do amor ultrajado e do fulgor esquecido e do hábito inglório de passear pelos rostos lívidos das crianças estupefactas como se isso fosse o rigoroso segredo da luz e da verdade e da lógica e do sentido da vida por isso dizes que a verdade só pode existir no impossível caminho da loucura e isso ainda é mais louco do que a translúcida loucura da revelação e do esquecimento e da coragem cega da respiração e da inverosímil aventura de caminhar pelas veredas da infância como se isso fosse a cabeça deslumbrada do desejo por isso sempre acreditei na intolerável beleza do teu sorriso e nas imagens de inverno que me ardem na memória e nas lágrimas felizes por ver como o amor é possível dentro da impossibilidade de um espaço definido e como as vozes ganham a sua razão no silêncio e como a memória é um poço onde caem as palavras irrepreensíveis do desespero onde naufraga sempre o barco da esperança e onde a brancura da neve cai ininterruptamente dentro da minha memória de pássaro ferido por isso a minha ânsia deambula pelo vagabundo início dos vestígios perdidos da felicidade como se a catástrofe da vida fosse o possível caos da existência daí continuar a construir ninhos de ideias onde as palavras regressam para serem alimentadas e acarinhadas pelos vestígios doces de uma ave carinhosa e daí não saber se o que digo e escrevo delimita o gesto simples de uma abelha a procurar uma flor pelo seu cheiro intenso daí a fé sobrar porque não temos mais nada a que nos agarrar e a dor vem e os sonhos morrem e a infância desaparece no meio de uma canção de embalar e nos doces caminhos da luz e da esperança os anjos envelhecem sentados no banco do paraíso e os teus olhos tornam a lançar uma pequena chama de alento por isso ainda conseguimos tentar não perder o mundo ou o que dele resta.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 16 de Agosto de 2011

Músicos na Feira dos Santos


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 15 de Agosto de 2011

Segunda crónica estival: um, dois, três, já nos aldrabaram outra vez

 

Acordaram-me cedo para ir para a praia, mas eu teimei que em tempo de férias um cidadão tem o direito a levantar-se tarde e continuei a dormir, ou a fazer que dormia, até serem nove horas. Depois levantei-me, tomei um duche, lavei os dentes, papei o pequeno-almoço, fardei-me a rigor, agarrei no saco que me estava destinado e fui para a praia. Na praia, apesar de ainda não ser tarde, mas também não ser cedo, o areal estava tomado. Tivemos de caminhar um bom pedaço para darmos com uma nesga de areal onde pudemos, finalmente, estender, à rasquinha, duas toalhas. A areia estava quente, o mar lá ao fundo estava azul e o Sol brilhava como quase sempre o faz de Verão.

 

Depois cumprimos com a tradição: besuntámo-nos bem besuntados com um bom protector solar. De seguida fui comprar os jornais ao quiosque. Boa caminhada para lá, boa caminhada para cá, e lá me pus a ler as grandes, que as pequenas, com este sol, não são muito convidativas. Li primeiro os títulos das notícias do jornal desportivo, de futebol, entenda-se. Confirmei o que já sabia: que o Benfica comprou um merouço de novos jogadores, que o Sporting comprou outro merouço de novos jogadores e que o Porto comprou apenas uma mão cheia deles.

 

Na outra toalha a Luzia lia o seu diário de referência com olhos de ler, apesar de os ter escondidos atrás das lentes escuras dos óculos. A meio da leitura exclamou: “O Governo de Pedro Passos Coelho subiu os transportes cerca de vinte por cento, aumentou os impostos sobre o trabalho mas não sobre o capital –  ele, o figurão, que jurou não criar mais impostos e a primeira coisa que fez ao chegar ao poleiro foi criar um imposto extraordinário e vários aumentos de taxas e impostos indirectos –, facilitou os despedimentos, e, como se fosse pouco, faz agora olhos cegos sobre as trafulhices fiscais das empresas, entrega ao desbarato o BPN à filha do presidente de Angola e ao Américo Amorim, ou seja, aliena a nossa soberania e entrega de bandeja o país aos capitalistas. E o povo, onde está? Agora não buzina, não berra, não protesta? Não vem para a rua indignar-se? Não corta estradas, não faz marchas lentas? Não chama aldrabão ao Pedro Passos Coelho? Não espera em cada esquina o virgem PM para o insultar? ”

 

Eu, tentando pôr um pouco de água na fervura, ou melhor, tentado colocar um pouco de fresco na sua indignação, convidei-a a ir até à beira-mar refrescar o corpo nas claras águas do Atlântico. E ainda tive coragem para lembrar: “O povo está de férias. Quando regressar a casa, vai ser o bom e o bonito. Tu vais ver Luzia, o bom povo português vai mostrar o que vale, vai exibir a sua raça e entupir as estradas e marchar sobre São Bento para libertar Portugal desta cambada de mentirosos, ó desculpa, desta corja de aldrabões.”

 

Ela, olhando-me bem nos olhos, apesar de ter os seus disfarçados por detrás das tais lentes escuras, avisou-me: “Não brinques comigo, João.” “Credo”, disse eu. E até me atrevi a mais: “Este Governo está por um fio. Deixa o povo tomar consciência da crise e do embuste em que caiu e vais poder assistir à sua mais que justa indignação. Pois todos temos direito a indignarmo-nos.” E ela: “Crise?”, perguntou, olhando desconfiada para a multidão que enxameava a praia, e provavelmente lembrando-se das estradas congestionadas, dos restaurantes a abarrotar, dos supermercados e dos centros comerciais à pinha, dos bares repletos, das piscinas preenchidas como latas de sardinhas.

 

Momentos antes de colocar o pé na água lembrou: “Se fosse o José Sócrates…” (“Já cá faltava esse”, disse eu pondo o pé na água, arrependendo-me e arrepiando-me de imediato.) “… e o Teixeira dos Santos a fazer metade das crueldades que o governo do Pedro Passos Coelho já fez em apenas dois meses, e promete continuar a fazer nos meses que se seguem, teríamos o Terreiro do Paço apinhado de tendas de campismo e de portugueses indignados a gritar para o Primeiro-Ministro ir embora porque é aldrabão, mentiroso, falaz, impostor, incompetente, inapto e… chiça (a Luzia não consegue dizer porra) a água está fria…”, “como a porra”, completei eu. Depois olhou para o azul do mar, observou as pessoas ao redor e, finalmente, dirigiu o olhar na minha direcção, como só ela sabe fazer. Sorrindo um pouco, naquele seu jeito irónico disse: “E a imprensa já teria escrito barbaridades incongruentes e obscenidades apalermadas.”

 

Logo após, virou-me as costas e meteu-se na água fria do mar como se ela estivesse quente. Eu ainda tentei correr atrás dela, mas a água fria inibe-me a frontalidade e a coragem. Ela é como o Sócrates, decidida e corajosa, eu sou mais como o povo português, indeciso e frouxo. Mas cada um é para o que nasce, lá diz o povo na sua ancestral sabedoria. 

 

Eu, com o corpo enfiado na água até à cintura em pose de guarda-republicano, pus-me a olhar para a minha mulher enquanto ela nadava para lá e para cá numa atitude de desafio. Nadou o que quis e, por fim, pôs-se de pé perto de onde eu estava na tal pose descrita atrás, e saiu do mar como uma sereia envolta numa fina textura de água salgada. Eu fui no seu encalço.

 

Conciliador, pronunciei, sem muita convicção, tentando dar-me ares de homem culto e bem informado e, por isso mesmo, de cidadão português empenhado na oposição ao executivo do PSD/CDS: “Sabes que os motoristas do secretário de Estado da Cultura são, de longe, os mais bem pagos do governo, apesar de um deles ter apenas vinte e um anos e ser, por isso mesmo, um condutor recente?” A Luzia continuou a marchar pelo meio das toalhas com toda a decisão do mundo, apesar de a areia escaldar. Eu limitei-me a ir aos pulinhos.

 

Por isso intentei de novo: “No entanto, o nosso (quase) conterrâneo Francisco José Viegas paga uns magros 475 euros a um «colaborador-especialista».” Entrementes chegámos às nossas toalhas. Ela secou-se numa e deitou-se noutra. Eu sentei-me a seu lado e fiquei a olhar para ela como se fosse a primeira vez. Sorri feliz. Ela continua linda. Finalmente olhou para mim e disse: “O que te vale é que gosto de ti.”

 

Rimo-nos os dois. Ela para mim. Eu para ela. Depois disse-lhe um segredo ao ouvido. Ela sorriu de novo e fechou os olhos. Deixei-a a secar o fato de banho e fui passear à beira mar. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Domingo, 14 de Agosto de 2011

O jogador de fito


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 13 de Agosto de 2011

Sentados na rua


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 12 de Agosto de 2011

O Homem Sem Memória

 

76 – Depois da fuga de Stéphanie para a Póvoa, o José decidiu não se apaixonar mais durante aquele Verão. As mulheres não lhe mereciam tão grandiosa disponibilidade sentimental. Uma paixão é como uma doença, por vezes até tira o apetite e a boa disposição.

Como vingança resolveu fazer o percurso das festividades da região. Para as festas perto de Névoa, normalmente utilizava a boleia na mota do Carlos Trolaró que fazia tal barulho que presumivelmente amedrontava os lobos e punha em respeito as almas penadas. Para as festas mais distantes, juntava-se a alguns parceiros tão determinados como ele a saltar de arraial em arraial, como se andasse a despedir-se para ir para a guerra, e alugavam um táxi ou iam de boleia nalgum carro de rapazes sabidos que os transportavam em troca de dinheiro para meter gasolina à justa para a deslocação. E foram ao S. Caetano a pé. Não para realizar promessa, mas para cumprir com a tradição.

Logo após a verbena no Jardim Público, meteram pés ao caminho enfiados num rancho de rapaziada nova. Palmilharam mais de uma dezena de quilómetros num ritmo de caminhada certo, apenas mais acelerado quando foram surpreendidos por uma trovoada das boas. Quando as pingas começaram a cair grossas como bagos de uva, ainda pensaram enfiar-se debaixo das árvores, mas como os relâmpagos chispavam do céu como faúlhas de Natal, optaram por apanhar chuva, pois mais valia ficarem molhados que feitos em churrasco. O trajecto deu para galhofar, contar brejeirices e cantar.

Amanhecia quando chegaram ao recinto. Extenuados, aninharam-se nos tufos de erva maninha e dormiram o sono dos justos. Acordaram por volta do meio-dia, foram procurar familiares e amigos e com eles manjaram do farnel, que, nestas ocasiões, era sempre diversificado e farto. Comeram e beberam em franca camaradagem. Depois de visitarem a capela, de apreciarem os andores e de cobiçarem as notas que lá estavam penduradas como sinal de devoção e ajuda espiritual prestada, compraram, nas barracas da especialidade, dois chapéus mexicanos, óculos de sol de plástico genuíno e resolveram enfiar-se na carreira e regressar a Chaves, pois na festa de São Caetano não havia arraial e dançar com as raparigas só por dançar não lhes estava no feitio. Se não fosse possível o remanso do encosto, bailar era apenas exercício físico, e disso estavam eles bem abonados. Durante a viagem fartaram-se de rir e de imitar o linguajar obtuso de Mario Moreno, o Cantinflas.

O José e o Carlos tornaram-se especialistas em dança de encosto e em palavras dengosas. Como eram razoavelmente bem-parecidos, era difícil levarem tampa. As raparigas, salvo raras excepções, também gostavam de se sentir apertadas e, por vezes, no escurinho dos bailaricos, deixavam-se entusiasmar e, em ocasiões afortunadas, consentiam deslocar-se até um canto mais recatado e masturbavam os companheiros como quem esforça salpicões em tempo de confeccionar o fumeiro. Pô-las de rabo ao léu era tarefa bem mais complicada. Mas o José e o Carlos também não simpatizavam com o abuso. Usar sim, abusar só em circunstâncias muito específicas. E nas aldeias trasmontanas, os bisnaus pinantes eram tratados a estadulho ou com vara de marmeleiro, pois tanto pais, como irmãos, como namorados, cegos pela honra, pela afronta, ou pelo ciúme, enchiam-se de razões, levavam-se dos diabos e malhavam nos insolentes como em centeio maduro.

Houve ocasiões em que o par de bailarinos foi descoberto pelas mães mais avisadas em poses e serviços fora das mais elementares regras do decoro e da arte da dança. Quando assim calhava, tanto o José como o Carlos Trolaró, davam às de vila diogo, deixando para trás a atrapalhada cachopa que se limitava a levar uns tabefes sem se queixar ou, sequer, esquivar-se. Apenas uma vez a aventura da dança, seguida de masturbação e fuga, esteve para correr muito mal ao José.

No momento da evasão estratégica, daquela vez, a mãe não apareceu sozinha, mas antes escoltada pelo marido, pelo namorado e pelos filhos, que eram muitos e brutos. Como lobos, rodearam-no bem rodeado, e o namorado, de navalha de ponta e mola bem aberta reflectindo a ameaçadora luz da lua, ordenou: “Tirai as calças ao punheteiro que eu vou capá-lo com se fosse um porco.” E daquela vez o aviso soou tão sério que o José pensou que ia ficar como o Virtudes.

Começou a rezar como nunca o tinha feito na vida, mas quem veio em seu auxílio não foi Deus, ou qualquer um dos seus súbditos, mas sim o Carlos Trolaró montado na sua diabólica moto barulhenta.

Quando se viu entre os fortes braços dos homens e o frio fio da navalha do capador, o José berrou tão alto por socorro que o Carlos, entretido com uma das suas danças de encosto, o ouviu com a suficiente nitidez para se aperceber da situação desesperada porque passava o seu amigo. Um pouco contra o sentido da dança, o Carlos abandonou de imediato os braços da rapariga, que ficou imóvel de surpresa, e partiu a correr na direcção da sua mota, que se portou com todo o sentido do dever, pegando de imediato. Como um cavaleiro louco, o Carlos lançou-se na direcção do escuro caminho por onde tinha visto o amigo escapulir-se, e manobrou tão bem o seu veículo motorizado, que pôs a alcateia em alvoroço, derrubou o capador e, num golpe de génio, parou quando tinha de parar para o José montar na motoreta a jeito e dali se irem com o coração apertado como um punho fechado, mas com as partes pudentes salvas e em bom estado.

O Carlos, que mesmo em situações extremas nunca perdia o bom humor, quando parou para meter gasolina num posto ainda aberto, virou-se para o amigo e disse: “Um padre capado é o padre perfeito. Pensando melhor, talvez fosse preferível ter deixado os campónios finalizar a tarefa. Deus escreve direito por linhas tortas. A luxúria há-de ser a tua perdição. Viciaste-te em masturbação e agora não consegues fechar um arraial a dançar.” O José, ainda aflito e perplexo, virando-se para o seu salvador, apenas murmurou: “Tenho de rever a minha conduta. Isto está a tornar-se aflitivo. A carne é fraca, mas eu tenho a obrigação de me controlar. Afinal, o apelo da fé tem de fazer algum sentido.”


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 11 de Agosto de 2011

Concentração


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 10 de Agosto de 2011

O Poema Infinito (60): ímpetos procriadores

 

Eu sei que falo por ímpetos procriadores. Depois do amor escutamos a música da chuva que nos alimenta a embriaguez do rigor após o coito. Para sempre ficará na minha respiração a tua respiração. Essa é a natureza da matéria: a pormenorizada indiferença do indivíduo. Depois um olhar perfeito principia a ondular como se fosse um fio de seda. O odor das folhas verdes beija a sombra dos pássaros. Ramos dóceis balouçam de prazer. Cavalos altivos correm invisíveis pelo meio dos mistérios. Essa é a inadequada perfeição. Creio em ti mulher e na intencional lembrança dos nossos filhos e na sua hieroglífica intencionalidade. De novo as pedras impassíveis dos caminhos devoram os ecos do tempo e do espaço e das formas. Os teus olhos inclinam-se agora perante a nítida respiração dos desígnios. A tua límpida simplicidade envergonha a hipocrisia. É a velha lei das fêmeas. Os homens, esses, adormecem nos buracos por si escavados. Agora a filosofia é diferente: é fundamental aprender com os mais simples para ensinar os mais sábios. O mundo da linguagem é um infinito desdobrar de palavras antigas. Sei que em nós vivem as vozes emudecidas dos ofendidos. Essa expansão pálida dos gritos proféticos dos cépticos. Sussurros de aves de arribação redimem a fragilidade dos doentes. As projectadas paisagens masculinas sufocam. Quanto amor útil se perde nas noites pálidas de Outono. São agora os nossos olhares pomares de estrelas. Por isso dorme descansada, eu velarei toda a noite os nossos sonhos suspensos. A nossa viagem interior é eterna. Sei que mais ninguém poderá percorrer este caminho. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 9 de Agosto de 2011

Acender um cigarro


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011

Crónica estival: um, dois, três, vamo-nos lixar outra vez

 

Gosto de ler, gosto de ir de férias e gosto do Dr. Mário Soares. Gosto de ler e leio com critério, pois esse é o segredo dos que apreciam a leitura. Gosto de ir de férias, pois vou com gosto até sítios onde sonho ir e aprecio, sobretudo, o momento de regressar ao sítio onde vivo. E gosto do Dr. Mário Soares porque é quem é. E olhem que é bonito uma pessoa ser quem é.

 

Ando a ler um livro muito interessante, criteriosamente escolhido e degustado com muito amor, carinho e preceito.  Mas desta vez quero falar-vos das férias. Das minhas. Quase sempre começam pela saudade. Pela saudade de ir de férias e ver o mar. E eu gosto do azul até doer. E o mar é azul, essencialmente. Daí partir de casa sempre ansioso por ver o mar.

 

Por isso meto os pneus a caminho e lá vou conduzindo e rindo, quando não berro com o trânsito, com os condutores de fim-de-semana ou com as estradas. Ou com as portagens. Mas o mar, a imagem do mar, o seu azul, a sua memória, o seu chamamento, são lenitivos apaziguadores.

 

Entretanto revejo mentalmente a entrevista do Dr. Mário Soares ao Expresso. E, concluo com prazer, que de novo me deixei embalar pelo enlevo das suas palavras. Pois o senhor provou, mais uma vez, como se fosse preciso, que sabe daquilo que fala.

 

Entrementes os carros apitam, o calor aperta, e o locutor da rádio fala daquilo que tem de falar. Que o novo governo vai, na sua senha reformista, encerrar várias urgências hospitalares para reduzir drasticamente as despesas. Lembro-me que o ex-ministro Correia de Campos, esse facínora socialista, pretendeu fazer o mesmo e não o deixaram, especialmente os partidos da oposição, que nessa altura eram o PCP, o BE, o CDS e, sobretudo, o PSD.

 

Mas enquanto o condutor que segue atrás de mim buzina por qualquer razão que eu não consigo descortinar, lembro-me, de novo, do mar, do inebriante odor a maresia, do sol e das ondas. E das promessas eleitorais de PPC. Por isso desligo-me sorrateiramente da minha pronta capacidade de reacção e sigo sem frente.

 

Lembro-me de novo das frases perfeitas do livro que ando a ler e sorrio para a minha mulher, que se ri a meu lado, e com todo o sentido de Estado, da promessa do novo sistema de avaliação de professores que veio plasmada nos jornais de referência. Ele é tão igual ao que já existe, mas ao mesmo tempo é tão diferente, que tem tudo para dar certo.

 

Nuno Crato provou que é um ministro com ideias, que é um homem prevenido e que, além disso, sabe ser original. Não só ele como todo o governo de Pedro Passos Coelho, que já provou que entre o líder do PSD e José Sócrates, não só os separam os partidos a que pertencem, como, essencialmente, as suas propostas políticas, pois são totalmente divergentes. Opostas, mesmo. Apesar de parecerem terrivelmente idênticas. Mas as aparências iludem. Sobretudo quando se chega ao Governo.

 

Além disso é mentira que o governo PSD/CDS vá cortar para metade o décimo terceiro mês dos portugueses, pois o senhor PM é um homem de palavra, e ele prometeu, duas vezes, para que não restassem dúvidas, a uma menina, e à sua desconfiada e mal intencionada mãe, por certo socialista, que essa aleivosia argumentativa, em plena campanha eleitoral, era pura propaganda política muito ao jeito dos socialistas. Mentiroso era, e é, claramente, José Sócrates. PPC não mente, apesar de não dizer a verdade.

 

Chego ao destino, pouso as malas e vou de imediato até ao restaurante comer e beber. Isto faz parte das férias; comer mal e pagar muito. É como ser português. Depois vou ver o mar, inspiro o cheiro a maresia e vou para casa a correr com o intuito urgente de tornar para a praia. Depois de uma escala estratégica, fardo-me a rigor e regresso à praia. Meto o pé na areia e ela queima, por isso corro aos saltinhos, como quando era criança.

 

Depois de incomodar, sem querer, quem apanha sol com muita determinação, chego ao pé do mar e banho os pés. A água está fria, o que é bom, para os pés, claro. Mas quando tento entrar no mar, até a cintura, arrepio-me muito e recuo. Tento de novo. E de novo. Mas torno a recuar. Reconheço que não sou corajoso em tempo de férias. O frio da água do mar incomoda-me e o calor da praia abafa-me.

 

A minha mulher, com a sua paciência de mulher, chama-me com gestos expressivos indicando que, antes de tudo, na praia, é necessário pôr protector solar. Bem educado como sou, vou até ao nosso lugar, devidamente delimitado pelas toalhas e pelos sacos, e besunto-me a rigor. Depois da pele correctamente oleada vou dar um passeio mesmo juntinho ao mar. Molho os pés, caminho, observo e torno a caminhar deixando que o mar me faça cócegas nos meus sensíveis pés.

 

Entretanto penso na entrevista do Dr. Mário Soares ao Expresso. O homem continua lúcido e afirmativo. É um regalo ler as suas sábias palavras cheias de intencionalidade. E personalidade. O ex-Presidente sabe daquilo que fala. E também gosta da praia e dos bons prazeres da vida. Mário Soares não tem papas na língua, nem colesterol. E diz coisas muito interessantes.

 

 Entretanto o mar continua a refrescar-me os pés. Lá mais ao fundo, a Luzia sorri na minha direcção. Vou até à sua beira e tento sentar-me, mas apenas o consigo à força de muito porfiar. A minha coluna está cada vez mais débil. Depois de olhar para o livro que ando a ler, e que recomendo vivamente, tento levantar-me, mas só o consigo porque a minha mulher me dá uma ajuda. De novo tento enfiar o corpo na água, mas ele pula e recua, o maroto. No entanto, uma onda amiga, mas fria como o caraças, submerge-me e dou por terminada a minha angústia antes da emersão. Dou umas braçadas para aqui e outras para acolá e finalmente faço como os patos mergulhões. Depois retiro-me com a pele arrepiada, mas com o dever cumprido.

 

Agora já posso ir para casa tomar um duche e besuntar o corpo com um creme hidratante. Já devidamente vestidos e calçados, vamos jantar, eu e a minha Luzia, a um restaurante repleto de pessoas. Entre o sentar e o comer decorrem alguns bons e refrescantes minutos. Entretanto bebemos um vinho branco fresco, ingurgitamos as entradas e, já com pouco apetite, tentamos comer o prato principal. Saio do restaurante um pouco alegrete. Mas nada por aí além.

 

Pela avenida as pessoas passeiam como peixes num aquário, andam às voltas como se fosse promessa. Parecem-me todas cada vez mais iguais. Talvez seja do escuro. De facto, a noite torna tudo mais pardo. Igualiza. Por vezes dou com um ou outro político que por aqui também passeia na sua bonita vulgaridade estival. Se houve classe que ganhou igualdade foi a dos políticos. Cada vez estão mais iguais uns aos outros. Daí o povo dizer, na sua infinita sabedoria, que os políticos são todos iguais, mesmo não parecendo. Mas eu atrevo-me, talvez auxiliado pelo vinho branco, a dizer que todos eles são iguais, mas que existem alguns que são mais iguais que outros. A democracia nalguma coisa tinha de dar certo.

 

Mas como ainda não vos falei daquilo que vos queria falar, e porque esta croniqueta já vai longa, fica para a semana. Até lá. Um forte abraço.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 7 de Agosto de 2011

O burro e o muro


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 6 de Agosto de 2011

Perspectivas


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 5 de Agosto de 2011

O Homem Sem Memória

 

75 – José voltou de novo a Outeiro Raso para a festa. Nessa altura já os pais do Carlos Trolaró tinham vindo de França passar as férias de Verão à terrinha. Mal chegou, deparou-se com duas donzelas mais ou menos da sua idade. Uma era a irmã do Carlos: a Rosa. A outra era uma francesa genuína, amiga da família, de seu nome Stéphanie.

Ambas eram jeitosas, bonitas e muito prendadas. Podemos dizer, sem faltar à verdade, que a irmã do Carlos era mesmo mais bonita e bem-feita do que a francesa. Ambas falavam francês correctamente, mas tão correctamente, que ninguém conseguia distingui-las pelo falar. Além disso eram ambas loiras e de olhos azuis.

Mal as viu, o José enrabichou-se logo pela francesa. Apesar de a Rosa o apaparicar e o olhar com os seus olhos luzidios e penetrantes, o José apenas tinha olhos para a francesa. E o José era muito dicotómico: se lhe dava para optar por uma das partes, esquecia a outra com uma facilidade muito próxima do desprezo.

As festas nas nossas aldeias são sempre constituídas por missa, procissão, foguetório, comezaina, música e bailarico. E foi o que houve na festa de Outeiro Raso, em doses duplas. Ou triplas. O foguetório foi de loucos. Começou logo de manhãzinha por acordar os paroquianos, manteve-se durante a procissão, continuou durante toda a tarde, a intervalos regulares, e teve a sua apoteose, para orgulho de todos os outeirenses, por volta das duas da manhã, numa orgia de som e luz muito próxima do apocalipse.

O José, na sua obsessão, rezou toda a santa missa ao lado da francesa, calcorreou em procissão as ruas da aldeia na companhia da francesa, almoçou ao lado da francesa, merendou ao lado da francesa, bailaricou toda a tarde com a francesa, jantou ao lado da francesa e passou todo o arraial junto da francesa, na tentativa de com ela dançar quando ela lho permitia, pois a francesa começou a evidenciar nítidos sinais de principiar a estar farta do José, ora pretextando cansaço, ora fingindo fixação na banda de música ou dizendo que necessitava de tempo para observar a festa e, sobretudo, o foguetório, a grande atracção da noite.

Por vezes, o José conseguia fazer muito bem de cão perdigueiro. Não abandonava a sua peça de caça por nada deste mundo. Ora isso começou a irritar a família do Carlos, a Rosa, o próprio Carlos e, o que era mais grave, a convidada da família do Carlos. Mas o José nada de se dar por vencido. Por vezes dançava com a Rosa, isto quando a francesa era desafiada para dançar ou com o Carlos ou com o pai do Carlos. Mas depressa tudo voltava ao princípio, a Rosa embeiçada a um lado, o Carlos enfastiado a outro, os pais do Carlos embezerrados ainda a outro, a francesa automatizada nos braços do José e o José de olhos fechados agarrado à francesa como uma lapa.

Quando a banda parava de tocar por causa do fogo-de-artifício, o José, muito lampeiro, lá puxava do seu francês macarrónico e dizia ao ouvido da francesa: “C’est jolie, le feu.” Ao que o seu enfastiado par respondia maquinalmente: “Oui, c’est jolie.” E o José: “Tu est jolie, Stéphanie.” E a francesa: “Oh! Oh! Oh!” E de novo o José: “Je t’aime, Stéphanie”. E a francesa: “Oh! Oh! Oh!” E o José: “C’est vrai”. E a francesa: “Le feu c’est jolie.” E o José: “Je táime, Stépfanie. Comme tu est jolie.”

De seguida sentavam-se nas pedras do muro onde previamente o José colocava um lenço aberto para a sua amada não sujar o traseiro do seu vestido de festa.

O José tentava abraçá-la e ela deixava-se estar para aí uns vinte segundos nos seus braços para depois se afastar argumentando que estava calor: “Il fait chaud.” Ao que o José autisticamente respondia: “O meu coração é que está a arder de amor por ti.” “Quoi?” “Mon couer est qui brûle d’amour pour toi.” “Oh! Oh! Oh!”

E esta pequena história de amor persistiu ainda durante mais uma hora ou duas, para terminar quando os foguetes se acabaram e a banda arrumou os instrumentos e todos rumaram a suas casas.

O José, de apaixonado que estava, passou o que restou da noite, com a ajuda de vinho fino e biscoitos, a escrever longos e penosos poemas de amor, acabando por adormecer já o sol ia alto no céu. Acordou perto da hora do lanche. Mas deu com a casa vazia. Apenas, na varanda, o Carlos ensaiava, acompanhado pelo latido dos vários cães da vizinhança, inconstantes canções de amor para protagonizar mais uma serenata dedicada à sua amada.

Depois de terminado o ensaio, o José atreveu-se a perguntar ao Carlos onde estava a família e a sua amada Stépfanie. O amigo limitou-se a informá-lo que tinham ido embora para a Póvoa de Varzim, onde os aguardava a família da francesa e o respectivo namorado. “Então ela tem namorado? Podias ter-me informado. Eu não gosto de ser impertinente e muito menos de roubar as namoradas aos outros.”

Ao que o Carlos respondeu: “Todos te dissemos que ela estava comprometida, mas tu não ouvias ninguém. Podias ao menos ser mais elegante e teres ligado à minha irmã que tinha um fraquinho por ti. Mas agora acabou-se. Depois da triste cena de ontem só te resta ires embora com as mãos a abanar. És um Dom Juan de pacotilha.”

“E o que faço aos poemas?”, perguntou o José ao Carlos Trolaró. Ao que o amigo respondeu: “Se são de amor, como penso, dá-mos cá que eu mesmo os musico.” E o José, para não ferir a sensibilidade do amigo, disse: “Deixa lá, não valem nada. Eu mesmo os rasgo.” E rasgou-os com uma afectividade muito próxima da perfeição.

 


publicado por João Madureira às 10:46
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 4 de Agosto de 2011

Ó da casa


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 3 de Agosto de 2011

O Poema Infinito (59): o amor verdadeiro

 

Observo a nítida geometria das borboletas que voam em câmara lenta como se fossem peixes preguiçosos dentro do aquário que são os teus olhos. Sinto-as respirar. Experimento depois a sua textura no meu olhar. Todo o acto de amor é um texto em construção. Quando os nossos corpos se encontraram pela primeira vez comportaram-se como dois potros assustados. Cada qual queria fugir para dentro da sua identidade. Desejo de novo o teu corpo para acasalar. Explosões de carícias soltam-se queimando as polpas dos nossos sexos. Respiramos a densidade húmida do prazer. Sentimo-nos como dois animais incríveis no meio de florestas luminosas. Águas claras gotejam pelos membros entumecidos. O amor verdadeiro é um discurso de silêncio. Os nossos corpos são de novo a moldura densa do prazer. Uma ave de gritos invade-nos a memória íntima. Ninguém dorme no nosso sonho comum. O caos vibra dentro do êxtase. Por isso procuramos a memória dentro da memória. Penduramos docemente as carícias entre as pernas. Uma luminosidade de desejo abre de novo o teu corpo. Um fio de luz viva recorta a redonda caligrafia do teu sexo. O teu corpo agita-se como um oceano misterioso. Repetimos movimentos. O amor verdadeiro é um corpo delirante. Lembro-me: o teu olhar foi o primeiro gesto a tocar o meu corpo. Seguidamente escondi meu sexo no teu. Depois, ainda, bebi a tua língua com o desejo explosivo dos sequiosos. Adivinhei no teu corpo toda a dilatação do meu sexo. Coincidimos. Estremecemos. Gememos. Suspirámos. Disseste: os sexos são como pinturas abstractas de prazer. Cada um tira e põe o que sabe e pode. Logo de seguida libaste o ácido sabor do desejo. O amor verdadeiro é um cântico denso. O amor verdadeiro pode ser também uma suave mentira de palavras bêbadas. O amor verdadeiro é um tempo de queda. Lá fora começam a chover nenúfares. Está na hora de apagar a memória. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 2 de Agosto de 2011

Alto lá


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 11 seguidores

.pesquisar

 

.Novembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9


22
23
24
25

26
27
28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. No Porto

. 368 - Pérolas e diamantes...

. No Porto

. No Porto

. No Porto

. Poema Infinito (380): O p...

. No Porto

. No Porto

. 367 - Pérolas e diamantes...

. Em Montalegre

. Em Montalegre

. ...

. Poema Infinito (379): Pro...

. Em Montalegre

. Em Montalegre

. 366 - Pérolas e diamantes...

. Na Feira dos Santos

. Na Feira dos Santos

. Na Feira dos Santos

. Poema Infinito (378): As ...

. Na Feira dos Santos

. Na Feira dos Santos

. 365 - Pérolas e diamantes...

. Na feira do gado - Santos...

. Na feira do gado - Santos...

. Na feira do gado - Santos...

. Poema Infinito (377): Sím...

. Na feira do gado - Santos...

. Na feira do gado - Santos...

. 364 - Pérolas e diamantes...

. No Louvre

. No Louvre

. ...

. Poema Infinito (376): O d...

. No Louvre

. No Louvre

. 363 - Pérolas e diamantes...

. Louvre - Interiores

. Louvre

. Louvre

. Poema Infinito (375): O g...

. Louvre

. Em Paris

. 362 - Pérolas e diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (374): Lab...

. Na aldeia

. Na aldeia

.arquivos

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.Visitas

.A Li(n)gar