Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

O Homem Sem Memória

 

82 – Num dia lindo de sol, António, o Roberto Carlos do Bairro Operário, principiou as suas aulas de condução na única escola que existia na cidade. E elas foram duras, pois os monitores e instrutores eram ríspidos, gozões e de palavra avinagrada.

O código, logo de início, teimou em entrar na cabeça do António aos repelões. Fez inúmeros testes continuamente a suar como se estivesse nas obras a acarretar massa. Aquelas perguntas, todas intensamente habilidosas e muito parecidas umas com as outras, deixavam-no confundido, indeciso e irritado. Quando as aulas de condução começaram, o António ficou mais aliviado. Mexer nos pedais, na manete das mudanças e do pisca, e virar o volante para a direita e para a esquerda estava dentro dos seus padrões de desempenho, já destrinçar palavras no meio de frases, todas elas semelhantes, para escolher a correcta, provocava-lhe tonturas.

Nesses dias perdia, literalmente, o pio. Não assobiava e, muito menos, cantava coisa que se ouvisse. Parecia um frade capucho com voto de silêncio. Mesmo as vendas, no estabelecimento comercial onde trabalhava, ressentiram-se do stress do António. O patrão avisou-o: “Vê lá se tiras a carta rapidamente ou desistes dela, senão vais para o olho da rua. O teu rendimento profissional tem decaído a olhos vistos. E isso sente-se na caixa ao fim do dia. Se não apuro nada, nada te posso pagar.”

E ele: “Sim, senhor Alberto. Eu vou-me aprumar. Na condução já me desenrasco, o código é que é uma chatice. Baralho-me deveras nas respostas, confundo alguns sinais e não destrinço lá muito bem o que pretendem que eu responda. E isso dá-me cabo dos nervos. Eu que até decoro todas as letras das canções, mesmo das mais difíceis, como é o caso de “O Calhambeque”, vejo-me e desejo-me para acertar uma resposta. Aquilo é meio por meio, acerto uma e erro outra logo de seguida. É um tormento. Olhe que ler é uma coisa, mas entender aquilo que se lê é outra bem distinta. Eu que o diga, que leio aquelas frases todas de enfiada, mas não entendo quase nada. Muita gente reprova no código porque não atina com o sentido das perguntas. Umas vezes pretendem uma resposta e noutras exigem outra diferente, sem que eu descortine o motivo da discrepância. A tarefa é de doidos. Mas vou perseverar naquilo até que me saia tudo direitinho. O senhor Alberto é testemunha de que não sou nada burro, eu decoro muito bem as letras das canções, como é o caso de “O Calhambeque”. Quer ver: “Mandei meu Cadillac / Pr'o mecânico outro dia…” E foi por ali adiante declamando, pois, como já vos contei, o António perdia a voz nas vésperas das aulas de código, no próprio dia e ainda no dia seguinte.

Ora isso originou uma interrupção prolongada na volátil carreira do cantor de bairro. Mas nada o arredava da teima. Queria tirar e carta. E a isso se dedicou de corpo e alma, pois artista sem carro é como um futebolista sem chuteiras, padre sem batina, guarda sem farda, ou…

Mas voltemos à aflição compulsiva do António, no preciso momento em que o interrompemos, estando ele a declamar para o patrão a letra de “O Calhambeque”: “Com muita paciência / O rapaz me ofereceu / Um carro todo velho / Que por lá apareceu…” À medida que prosseguia na sua declamação, os olhos iam-se esbugalhando, as veias do pescoço engrossando e os cantos dos lábios ficando brancos com o acumular de saliva. Mas ele nada de desistir: “Confesso que estava / Até um pouco envergonhado… O Calhambeque, bip-bip / Buzinei assim o Calhambeque / Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi…” E ainda: “E logo uma garota / Fez sinal para eu parar / E no meu Calhambeque / Fez questão de passear…” Entretanto começou a ficar escarlate, com os olhos totalmente esbugalhados, a tremer de nervoso, a inchar ainda mais as veias do pescoço, quase à beira do desfalecimento. Mas não desistiu, pois tinha de se convencer e convencer o patrão, que era bom de memória e que os testes do código é que eram fora do comum, uma coisa do outro mundo.

“E muitos outros brotos / Que encontrei pelo caminho / Falavam: Que estouro / Que beleza de carrinho…" E o António a inchar e a perseverar, a perseverar e a inchar, a declamar, a perseverar, a inchar, a avermelhar, a salivar e a declamar: “Mas o meu coração / Na hora exacta de trocar / Aha! Aha! Aha! Aha! Aha!...”

E o António a inchar como a rã que queria ser boi, a avermelhar, a perseverar, a salivar, e a declamar: “Meu coração ficou com / O Calhambeque / Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi…”

O senhor Alberto aflito, vendo que o António estava mesmo à beira de estoirar, tentou terminar com a loucura: “Pára rapaz ou ainda te dá alguma coisa. Pára.” Mas ao António já nada o fazia parar. Conduzindo o seu “Calhambeque”: “Bem! Vocês me desculpem / Mas agora eu vou-me embora… / Bye! Eh! Bye! Bye!” E desmaiou.

“Ai que o menino Toninho apagou-se”,  gritou a Dona Augusta que tinha vindo de propósito comprar umas cuequinhas de renda, uma combinação cheia de folhos, um curto saiote vermelho, umas meias de seda e umas ligas para prender tudo aquilo de forma a parecer uma actriz de cinema americano.

“Ai que o menino Toninho apagou-se”, exclamou novamente, agora gemendo e tremendo de susto, a Dona Augusta, uma das suas fãs mais devotas, pois o António, com as suas cantigas de amor e as suas sugestões de roupa interior, tinha dado alma e inspiração a um casamento que teimava em entrar no tédio e na modorrice.

Por entre os sorrisos nervosos dos colegas, a aflição da Dona Augusta e a estupefacção de alguns estudantes liceais que se juntaram por causa dos gritos que escutaram vindos do estabelecimento comercial, o senhor Alberto ainda teve o sangue suficientemente frio para ir diligenciar um copo de água com açúcar ao café do outro lado da rua e assim, doce e fresco, o serviu a um António exausto que ia explicando à Dona Augusta e novamente ao patrão: “Eu tenho boa memória, não sou tonto nenhum. Os testes do código é que me dão cabo dos nervos. Custa-me a atinar com a resposta correcta. É meio por meio. E assim reprovo. Na condução já me desembaraço, o código é que é uma maçada. É meio por meio. Confundo-me nas respostas, misturo vários sinais e não acerto com o que eles pretendem como resposta. E isso dá-me cabo dos nervos. Eu, que até decoro as letras das canções mais difíceis, como é o caso de “O Calhambeque”, desunho-me para acertar uma resposta à primeira. Aquilo é meio por meio. Se acerto uma, erro outra logo de seguida. É um tormento. Ainda há pouco disse, e agora repito, pois nunca me tinha dado conta, que uma coisa é ler, mas entender é outra bem distinta. Eu até leio aquelas frases dos testes todas de enfiada, mas depois aquilo baralhasse-me tudo na cabeça. Muita gente chumba no código porque não descobre o sentido das questões. Eu é meio por meio. Umas vezes exigem uma resposta e noutras pretendem outra diferente, sem que eu descortine o motivo da discrepância. Aquilo é de doidos. Mas vou perseverar naquilo até que me saia tudo direitinho. Vou. Vou e vou. Eu decorei “O Calhambeque” do Roberto Carlos sem ajuda de ninguém, nem dum papel. Foi só ouvi-la algumas vezes directamente da telefonia e zás, entrou direitinha na minha cabeça. A letra da canção do Roberto é constituída, fora a parte falada, por sete estrofes, tendo as três primeiras nove versos, a quarta dez, a quinta novamente nove, a sexta onze, a sétima e a oitava oito. Além disso as rimas são fracas. Ao todo são sessenta e cinco versos, fora a parte falada. E tudo isso decorei e canto sem esforço nenhum. Mas o código, o código…”

Foi então quando a Dona Augusta teve uma lembrança das boas: “Deixe estar Toninho, que eu vou falar com o meu marido, que é unha e carne com o Senhor Baptista, o dono da Escola de Condução, e logo se há-de ver o que se arranja. O menino sabe que eu sou grande amiga sua. O que fez por mim não tem preço. Só eu e o meu Jeremias é que sabemos o bem que foi para nós tê-lo conhecido, ter escutado o seu repertório e aceitar os seus conselhos para a minha lingerie. O Toninho é um anjo. Não se aflija mais que tudo se há-de arranjar a contento de todos. Agora descanse lá um bocadinho e cante-me “Eu te darei o céu”. Se faz favor.”

“Perdoe-me Dona Augusta, mas hoje não consigo. Tenho o fole cansado”, rematou o António.

“Não faz mal, fica para a próxima”, disse despedindo-se a Dona Augusta. 


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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

Músicos na Feira dos Santos


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Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011

O Poema Infinito (67): as memórias

 

No teu corpo de abrigo abro a minhas velas pandas e navego. Navego e cavalgo. Os ventos são perfeitos e a tempestade é um breve instante de eternidade. Afloram-me aos lábios as palavras dos instantes que se sucedem. Os nossos corpos combinam-se como ondas de desejo. Os nossos olhos reflectem o irresistível ensinamento das marés. Tu és a minha rota de vontade. Abrigo-me na tua sombra esperando as gaivotas que se juntam no convés. Temos ainda uma reserva clara de paixão. O mar calmo embala um sonho doce de pacificação. Um voo de ave mergulha no verde dos teus olhos enquanto bates as pálpebras em câmara lenta. Ficas Iluminada como um círio. Agora moldo o fogo que me abrasa nas formas do teu corpo acetinado em púrpura. Os gestos densos tornam-se demiúrgicos. Queimo-me no sonho íntimo da matéria. A memória é um vórtice. E o tempo é um cruel rito de desespero. Por isso os sorrisos incendeiam-se na dolorosa expectativa do prazer. Pego em ti como o lume envolve a carne que quer possuir. E o instinto submerge o desejo e o desejo submerge amor e o amor submerge a morte e a morte submerge tudo e tudo submerge o nada. A cada dia que passa recolho mais e mais destroços de sonhos antigos. As memórias queimam. As memórias reflectem os recantos da infância perdida. As memórias escorrem pelas paredes das casas abandonadas. As memórias são chagas abertas pelo pó indelével do passado. As memórias rebentam, enlaçam, perturbam os nervos que produzem o equilíbrio. As memórias fundem os nossos cânticos magoados. As memórias cortam. As memórias consomem vidas e gestos e lágrimas e palavras. As memórias são também ímpetos traiçoeiros. As memórias percorrem a fragilidade dos sorrisos inocentes. As memórias são pétalas murchas levadas pelo vento frágil do desalento. As memórias abrem a pele dos ímpios, incendeiam os lamentos dos moribundos e sustentam o pão-nosso de cada dia. As memórias são súplicas de esperança e de desilusão. As memórias são o pecado original. As memórias são carícias de cinza e poeira doirada e procura e desespero. Por vezes, as memórias são também lareiras acesas numa noite fria de Inverno. De bom grado te daria a saborear as minhas memórias mais doces, mas as memórias são intransmissíveis. São cruelmente individuais. São como guloseimas de plástico, como frutos de vidro, como jóias falsas, como ilhas longínquas. As memórias são tufões infinitos de obsessão. As memórias são o desejo impossível das origens. As memórias nascem no fundo do mar quando cada um está ainda dentro do ventre materno. As memórias têm a sedução fria dos corais e do sal e das noites sacudidas pela textura enganadora da quietação. As memórias são o lugar incerto de todos os orgasmos simples ou múltiplos. As memórias são pegadas na areia da praia, são os promontórios do desejo, são os sinais da saudade de ter saudade. As memórias são barcos iludidos pelo cantar das sereias, são pénis erectos pelo desejo impossível. As memórias, quando estão a chegar ao destino, queimam-se como filamentos de lâmpadas. As memórias são também um bocadinho da divindade e da sua perfídia e das escarpas escorregadias da sua redenção. As memórias são plantas solitárias e animais solitários e homens solitários e mulheres solitárias e livros solitários e fotografias solitárias e malas solitárias e casas solitárias e dias solitários e camas solitárias e sorrisos solitários e lágrimas solitárias e deuses solitários e amantes solitários e filhos solitários e mães solitárias e pais solitários e avós solitários e beijos solitários e masturbações solitárias e sonhos solitários e noites impiedosas e perseguições infinitas e esperanças feridas e penetrações esplendidamente sonhadas e poemas de vento e extensões de florestas queimadas. Por tudo isto e por ainda tudo o mais que fica por dizer, respiro agora na noite domesticada pelas carícias do amor. Tu ainda não és memória. Deus seja louvado.


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Terça-feira, 27 de Setembro de 2011

Conversas e guarda-chuvas


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Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

O golfe, a feira medieval e a agenda cultural

 

R. virou-se de repente para mim e disse: “Um estudo recente feito por especialistas revelou que a cultura do golfe tem um efeito extraordinário na consolidação e desenvolvimento da democracia, do mercado livre e no incentivo para uma sociedade mais aberta. Os países, com uma cultura do golfe raramente entram em guerra e, quando o fazem, nunca lutam entre si. Já os países onde essa cultura não está implementada possuem um perfil marcadamente mais belicoso.”

 

“É um facto”, concordou o F. com uma pontinha de sarcasmo. 

 

“Faz todo o sentido”, continuou o R., “pois o golfe é o desporto da burguesia por excelência. E o que pretende a burguesia? Paz, claro está. E também pretende ordem e segurança. E deseja, ainda, uma estrutura social que seja propícia ao negócio, para que possa fazer aquilo que sabe fazer melhor, ganhar muito dinheiro. É esse o efeito civilizador da classe média, e, sem ela, a democracia morre na praia.”

 

“O problema é que no nosso país ela está a desaparecer”, lembrou o M. “E quando a classe média não consegue jogar golfe aproxima-se a bancarrota…”, “Ou uma revolução”, augurou o L.

 

Eu tentei por uma pouco de água na fervura: “Como muito bem diz Anatole Kaletsky, no seu livro Capitalismo 4.0, o mundo é demasiado complexo e imprevisível para que qualquer mecanismo de tomada de decisões seja consistentemente correcto, quer se baseie em incentivos económicos, quer se baseie em incentivos políticos. A experimentação e o pragmatismo têm, portanto, de se tornar palavra de ordem…”

 

“Tu lês muito”, atirou-me à cara o R. “És um poço de sabedoria.”

 

Ao que eu retruquei: “Leio muitos livros, mas não os suficientes para me considerar um intelectual. Nunca o fui e nunca o serei. Posso afirmar que nem golfe sei jogar. E isso, como muito bem quis dizer o R., é um entrave à democracia e ao desenvolvimento social. Na verdade, nunca me especializei em coisa nenhuma, nem em mulheres, nem em vinhos, nem em futebol, nem em cinema, nem em política. Considerei que era muito classe média-média, pois gosto de estar no silêncio do meu escritório, na modorrice do meu quarto silencioso e no conforto da minha sala a ver televisão em alta definição. Pensava que dessa forma contribuía para o aprofundamento da democracia, para a consolidação do mercado, para o estímulo de uma sociedade mais livre e aberta. Para a paz. Mas, sei-o agora, como não sou capaz de acertar com um taco numa bola pequena e enfiá-la num buraco exíguo, estou a contribuir para a bancarrota, ou para o eclodir de uma guerra, ou duma revolução.

 

“Todas as guerras deviam ser à maneira antiga, decididas em duelos de espada, cada qual utilizando a sua inteligência, a sua força e a sua habilidade”, lembrou com um brilhozinho nos olhos o F.

 

O D., que esteve calado até esse momento, foi quase logo ao que lhe interessava. Primeiro demoliu o golfe, que, na sua opinião, é um jogo para meia dúzia de manientos. Ele, que se afirma um rural empedernido, diz que gosta da tradição. Mas a tradição já não é o que era. Mesmo assim lembrou-se de dar como exemplo de boas práticas a realização da Feira Medieval. Disse que sim senhor, que esteve bem. Que na Idade Média é que se vivia com todo o recato. Gente simples, que ia feirar com o que tinha, sem se preocupar com o futuro. “Nessa altura”, lembrou o D. “vivia-se o dia-a-dia com simplicidade e agrado. E assim é que devia ser. O progresso matou a tradição, assassinou o convívio, estraçalhou a honra, depenou o amor, aviltou a amizade e defenestrou as relações sociais.”

 

O F. lembrou-lhe que na Idade Média as pessoas morriam como coelhos, passavam fome de rato, matavam-se por dá cá aquela palha e trabalhavam como escravos. “Por isso te digo que esses arremedos de feiras medievais que por aí se realizam são sucedâneos dos filmes de aventuras e, por isso mesmo, puros exercícios de ficção para enganar papalvos e vender bugigangas. Além disso, o que tu viste em Chaves tem muito pouco de feira portuguesa, ou ocidental. O rigor histórico é ínfimo. A falcoaria era apanágio de ricos, os encantadores de serpentes eram islâmicos, como islâmicas eram as danças do ventre, os suk, os karavansai e as jaymas. Isto já para não falar nas lendas tuaregues e berberes, importadas, especialmente, do Magrebe.”

 

“A mim”, disse o L. com toda a ronha do mundo, “o que me fascinou foi o parque infantil medieval. Isso diz tudo acerca das patranhas que por aí se vão efectuando com o nome de Feiras Medievais.”

 

Eu tentei pôr um pouco de água na fervura: “Se calhar isso é o que menos interessa. De facto, o circo foi interessante. Aquilo é um espectáculo montado para atrair pessoas. Para as divertir. Para…”

 

Mas o F. adiantou-se: “Para enganar papalvos. Para ir fazendo campanha eleitoral mesmo com as eleições ainda longe. É por estas e por outras que o país está à beira da bancarrota. Gasta-se aquilo que não se tem com objectivos de propaganda. Desbarata-se dinheiro em inutilidades. E depois quem paga somos todos nós que não fomos tidos nem achados nas decisões. É o pão e o circo para entreter o povo. E tudo isto sucede enquanto o país não cria empregos para oferecer aos desempregados e aos jovens, enquanto se corta na saúde, na educação e na segurança social. Faz-me lembrar o Titanic, que enquanto a orquestra tocava o navio se afundava, inexoravelmente.”

 

Depois de o deixar desabafar, tornei a teimar: “O público até interagiu com os músicos e os actores. É festa, é festa…”

 

“A festa acontece sempre antes da tragédia…”, tornou a perseverar no seu pessimismo o F.

 

Mas eu tornei a teimar: “Venderam-se produtos da terra, roupa, petiscos…”

 

Mas o F. tornou a interromper: “Isso vende-se sempre. Seja Feira Medieval, Feira dos Stocks, Feira dos Chás, etc. Além disso, e para vergonha nossa, as alheiras e as linguiças vieram da Guarda.”

 

Mas eu tornei a teimar: “Reconheço que este pagode já o vi em muitos outros lugares. O espectáculo é montado por uma empresa especializada. No entanto, foi agradável de seguir. Os artesãos…”

 

“Artesãos? Os poucos artesãos que por lá vi eram todos de fora”, exagerou, como é seu costume, o F.

 

Com a toleima com que o F. argumentava, não deu para continuar a conversar sobre a feira. Ele, quando quer, é mesmo mau. Por isso, resolvi ir para casa ver o debate no parlamento. Lá também teimam muito uns com os outros, exaltam-se e berram, como se fossem todos surdos. Isto apesar de terem microfones com muito bom som. Manias. Mas consigo ouvi-los sem me chatear, pois não são meus amigos. Além disso, aquilo que eles dizem entra-me por um ouvido e sai-me logo pelo outro. Se um diz bem de uma coisa, de imediato outro vem explicar o contrário. Parecem garotos. Ninguém se leva muito a sério. É tudo retórica. Tudo encenação.

 

Já um pouco fora da Feira Medieval e do Parlamento, abri a agenda cultural para me inteirar, e para vos dar conta, do que de mais relevante se passou na cidade, isto na perspectiva dos senhores que a elaboram, identificados no documento como o putativo “Gabinete de Apoio Técnico à Eurocidade Chaves-Verin”, seja lá isso o que for.

 

Informo os estimados leitores que, desde logo, a apresentação me fascina. A sua dimensão em harmónio é um dos seus elementos mais sedutores, senão mesmo o primordial. E os seus títulos em escada são, também eles, um elemento gráfico muito atraente, além de prático, pois a busca é instantânea. A capa da edição de Setembro traz dois saxofones. E eu também gosto muito de saxofones. E o fundo é azul. E eu também gosto muito do azul. Bastava apenas isso para ter o meu apoio. Mas toda ela é sumarenta e repleta de surpresa, evidenciando, desde logo, o forte apoio às artes por parte da autarquia e a oferta cultural no nosso concelho, que é vigorosa, diversificada e de grande qualidade.

 

Senão vejamos: Com a identificação de “todo o mês”, temos três actividades de topo, pois são as iniciativas com mais destaque na agenda: o mundo dos livros, a hora do conto e o curso de teatro. No entanto, relativamente à primeira iniciativa ela não passa de uma proposta, que se pode realizar… ou não, dependendo de marcação prévia por parte de grupos organizados. E também não é durante todo o mês, como erroneamente se veicula, mas apenas às terças-feiras, ou seja apenas quatro dias em vinte e tal possíveis. A hora do conto sofre do mesmo problema, pois só se realiza às quintas-feiras. Relativamente ao curso de teatro, não são prestadas informações específicas, limitando-se a agenda a informar os interessados que estão abertas as inscrições.

 

Claro que nas páginas da agenda também existem algumas propostas de música e uma que outra exposição. Mas o prato forte da agenda cultural continua a ser as concorridíssimas palestras no SPA do Imperador, nada mais, nada menos, do que seis, um workshop e três caminhadas. A interessantíssima temática da podologia deu agora lugar à alimentação e outras temáticas convergentes. A primeira foi sobre o rastreio de nutrição, a segunda foi o primeiro remake da edição de Agosto (Osteoporose e os seus factores preventivos), a terceira evidenciou a menopausa e a alimentação, a quarta abordou os mitos da alimentação, a quinta foi outro remake da edição de Agosto (A alimentação dos nosso filhos e netos) e a sexta abordou a nutrição e as doenças cardiovasculares. O workshop (com a exigência de uma inscrição de sete euros) foi dedicado às ervas aromáticas e às especiarias. Mas as Termas de Chaves – SPA do Imperador, arranjou ainda forças, e capacidade logística, para organizar três caminhadas, com uma inscrição de cinco euros, mas com direito a assistir à actuação de um rancho folclórico.

 

Podemos dizer, sem nenhum exagero, que se não fossem a Biblioteca Municipal e as palestras do SPA do Imperador, a agenda corria o sério risco de ter edições com espaços em branco para as iniciativas de Chaves e todo o restante preenchido com a divulgação dos filmes clássicos que passam em Verin. Com este tipo de vida cultural no nosso concelho, estamos em crer que mudar é preciso. Para mais informações, esperem pela próxima semana. Até lá. E agora desculpem-me que vou ali vestir o fato de treino, calçar as sapatilhas ortopédicas, pegar no bordão e meter dez euros ao bolso, pois não posso perder a caminhada do SPA. 



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Domingo, 25 de Setembro de 2011

Vacas barrosãs


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Sábado, 24 de Setembro de 2011

Sorriso


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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011

O Homem Sem Memória

 

81 – Mas havia algo que teimava em perturbar grande parte do êxito artístico do António. Trajar de fato, camisa à francesa e, ao mesmo tempo, pedalar uma bicicleta, para o que tinha de amarrar a bainha das calças com uma mola de pendurar a roupa. Era uma situação vexante. Podia sonhar em ir a calcantes para o emprego, como o faziam os pequeno-burgueses que habitavam no centro da cidade. Mas ele, qual trabalhador suburbano, tinha de palmilhar os quilómetros da praxe para ir de sua casa ao trabalho, regressar para o almoço, ir de novo para o trabalho e regressar ao fim do dia a casa para comer a ceia, acomodar os canários e ensaiar o repertório. 

Os ensaios fazia-os sempre em frente ao espelho do guarda-fatos do quarto tendo por plateia os irmãos que se enchiam de rir e bater palmas. Quando ainda estava um pouco inseguro do seu desempenho numa nova canção, aí enxotava a garotada para fora da sala de ensaios e trabalhava com afinco as suas performances românticas tendo por base as fotografias das capas dos discos, fotografias recortadas de jornais e revistas ou das actuações dos verdadeiros artistas em programas de variedades televisivas.

Tentou ainda acrescentar ao seu repertório a “Canção do Rouxinol” e “Campanera”, de Joselito, mas desistiu porque não conseguia, por mais que tentasse, imitar os requebros e os vibratos do Pequeño Ruiseñor (em português, o Pequeno Rouxinol). Era pura e simplesmente incapaz de emitir os sons agudos prolongados, que eram o principal trunfo de Joselito.

Durante muitas das suas actuações, quer para grandes plateias, quer para plateias mais discretas, quando lhe pediam que cantasse canções do Joselito, ele, entre o embaraço e a cordialidade, desculpava-se com o tipo de voz do ruiseñor (rouxinol em português) espanhol, que, na sua perspectiva, era a de uma criança, e ele, o António, de criança, já não tinha nada. Ou quase nada, se lhe tirarmos o sonho, a inocência e o deslumbramento.

O público comum, na sua frontalidade, franqueza e entusiasmo, retorquia-lhe que ele era quase tão pequeno como o Joselito, ou o Joselito era quase tão alto como ele, que era a mesma forma de dizer que ambos e dois, como muito bem diz o povo no seu linguajar patusco, eram minorcas. Mas, apesar da provocação, que todos entendemos genuína e sincera, e por isso fruto da ingenuidade e do gosto popular, o António espargia-os com música à capela, como sói dizer-se hoje em dia. Então debitava as modinhas de Roberto Carlos, Nelson Ned, Teixeirinha, Los Diablos, Gianni Morandi, e dos Antónios: Calvário, Mafra, Matos e Mourão, que punham aos pulos o coração dos mais jovens, arrepiavam a pele e punham os pêlos em pé aos amantes, partiam o coração aos casais mais maduros e faziam chorar baba e ranho aos velhotes. Com um misto de carinho e provocação, muitos dos seus amigos, sabendo-lhe do dói, perguntavam-lhe: “E o rouxinol? Queremos o rouxinol. Rouxinol, rouxinol, rouxinol.” Ao que ele respondia com muita habilidade e sapiência: “O rouxinol ficou em casa na gaiola. Para todos vós, aqui vai, com muito carinho e afecto, especialmente dedicado às raparigas namoradeiras, e aos rapazes mais atrevidos e marotos, a “Namoradinha de um amigo meu”, de Roberto Carlos.”

Era frequente ouvir-se na plateia: “O rapaz pode não poder com o «Rouxinol» do Joselito, mas dá-lhe forte com as canções do Roberto. E assim, mesmo sem instrumentos nem microfones, apenas com a boca, é um regalo ouvi-lo cantar. A voz é um instrumento poderoso.”

Todos lá no bairro concordavam com o teor deste comentário. O senhor Manuel, o seu autor confesso, que possuía uma taberna, um mix, como sói dizer-se contemporaneamente, de loja comercial e casa de pasto, era um dos seus mais indefectíveis fãs. Noite em que o António actuasse no Bairro, era certo e sabido que o vinho, os petiscos, os rebuçados de tostão e os espanhóis, os sorvetes de groselha, as embalagens de bolacha Maria e a laranjada Flávia, se esgotavam, ainda antes de a noite terminar.

É provável que estejamos a exagerar um pouco, pois o vinho era muito difícil de se esgotar numa taberna de bairro no início dos anos setenta. O vinho – desde que o mundo é mundo, ou desde que Cristo ensinou o seu povo a baptizá-lo e a multiplicá-lo, técnica que também aplicou ao pão e ao peixe, mas sem tanto êxito –, além de existir como reserva estratégica numa taberna, tal e qual o ouro no Banco de Portugal, sem grandes técnicas pode ser acrescentado. Claro que perde algumas das suas qualidades organolépticas intrínsecas, como o sabor, o odor, a cor e o corpo, mas ganha outras, como por exemplo a de não emborrachar tanto.

O António, já um verdadeiro manipulador de plateias, misturava sabiamente as canções, sobretudo as brejeiras com as mais sentimentais, perseguindo claramente a intenção de produzir um efeito catártico, o que lhe conferia um estatuto de estrela de bairro, que não sendo uma forma de ganhar a vida era, nitidamente, uma forma de adquirir estatuto e criar amizades electivas e licenciosas. Pois essas coisas não são apenas apanágio dos ricos, famosos e notáveis. É que os pobres também têm sentimentos, sexo e cérebro. Além de verem, sentirem, emocionarem-se com o sol, o vento e um céu azul ou vermelho ou laranja, gostam de beijar, acariciar, oferecer flores, ouvir palavras doces, fazer carinhos, e até trajar com luxo e ouvir contar uma boa história, ou ver um lindo quadro, ou, até, fazer amor, mesmo que lhe chame outro nome. O povo pode, muitas das vezes, não acertar nas palavras, mas bate quase sempre certo nos sentimentos.

Mesmo sem dar nas vistas, o António, a par do êxito, começou a ganhar algum dinheiro extra. E, farto de pedalar com molas a prender as calças, como um vulgar trolha suburbano, imaginou comprar um carro. Por isso, um dia, ao chegar do trabalho, virou-se para o pai e anunciou: “Vou tirar a carta.” E o pai: “E para que queres tu gastar dinheiro a tirar a carta de condução? Pesa-te o dinheiro no bolso? Pensa mas é em comprar uma mota como a minha. Eu, iludido como tu, tirei a carta de condução. E para quê, se continuo a andar só de mota? Um carro não é luxo para pobres. Desengana-te meu filho. Uma mota é que é. Vais e vens do trabalho rapidinho e sem te cansares.” Ao que o António respondeu: “Posso ir e vir mais rápido de mota, mas de Inverno quem é que aguenta o frio e a chuva? Eu vou tirar a carta de condução.” E foi para o quarto ensaiar “ O Calhambeque” do Roberto C.: "Essa é umas das muitas histórias / Que acontecem comigo / Primeiro foi Suzy / Quando eu tinha lambreta / Depois comprei um carro… / Quero buzinar o Calhambeque / Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...


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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011

Botas e mulheres


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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

O Poema Infinito (66): a geometria da destruição

 

Permanece vazia a casa abandonada. De uma janela avista-se o rio. Cá dentro existe um cheiro intenso a humidade e a afastamento. Lá fora flutuam aromas intensos, cores fortes e olhares desamparados. A aldeia vive agora subjugada na sua geometria de destruição. As sombras e as silvas tomaram conta das paredes. Os insectos rumorejam misteriosos delírios. Toda a ilusão cai esfarelando-se no chão esburacado da sala. O medo é agora insinuante. Nem a imagem dos mortos se fixa nas fotografias amarelecidas. Aquela era a minha porta da infância. Hoje é um abismo de desilusão. Os ângulos da casa reflectem a meticulosa memória das cinzas. A casa atravessa agora o corpo esfíngico dos espectros. A saída secreta é actualmente um espelho de trevas. O silêncio espreita por cima do meu ombro a solidão da folha em branco. Não há escrita. Escrever dentro deste mausoléu é uma impossibilidade manifesta. O avô desfez-se numa alegoria. A avó é uma espiral dorida. O pai é uma tristeza branca. A mãe um reparo inclinado. As arestas das paredes progridem para dentro das palavras. A desolação perfura as memórias que se afundam no tempo do esquecimento. Tento acender o lume, mas os dedos encolhem-se como hélices. A solidão é tão grande que mete medo. A solidão das escadas, a solidão das portas fechadas, a solidão dos caminhos, a solidão da adolescência, a solidão das fechaduras inúteis, a solidão dos besouros abandonados, a solidão dos bancos, a solidão da herança e das árvores e dos sentidos, a solidão das fotografias e dos textos felizes, a solidão dos corpos e dos queixumes nocturnos. A casa abandonada permanece vazia. Mingou muito. A candeia está no mesmo sítio mas apenas serve para as aranhas comporem as suas teias. A varanda estilhaçou-se em mil resíduos de evocações. E o poço inverteu-se. A minha mente procura um rosto. Mas já não tenho certeza de quem. Foram-se as imagens e apenas ficaram os nomes definhados. Recrio a memória catastrófica da morte. Pouco mais há a dizer. A aldeia é uma perturbação da paisagem. A casa cada vez mais se inclina para o abandono. As horas deste lugar são um nada absoluto. Amanhece? Anoitece? Tanto faz.


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Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

Trabalhar depois da nevada


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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011

Filosofia, aves canoras e diversas apreciações ao Governo da Nação

Quando olhou para uma rapariga, desenhada pela mãe natureza a régua e compasso, que passou no nosso ângulo de visão, o rosto do meu amigo A. transformou-se num sorriso triste e nostálgico. E disse: “Pois, a beleza. A beleza! A beleza parece-me bem, mas apenas serve para o prazer. Na minha perspectiva, os homens deviam dedicar a sua vida a fazer coisas úteis, tais como…”

 

Eu, para abreviar a desconversa, interrompi-o energicamente: “Mas quem foi que te meteu na cabeça que a beleza e o prazer não podem ser úteis?” Ao que A. me respondeu, agitando nervosamente a caixinha das pílulas de viagra que transporta no bolso: “Foi a idade.” Eu, para despistar a nostalgia e a angústia do envelhecimento, que cada vez vai teimando mais em nos atazanar a vida, retorqui: “Não me confundas, nem te desculpes. Tu, que foste um revolucionário inflexível, não pregavas aos quatro ventos que o objectivo final de todas as revoluções eram a beleza e o prazer distribuídos por toda a gente?” Ao que o meu desenganado amigo respondeu rindo com dentes de escárnio e lábios de maldizer: “Pois! Talvez seja. Vou ter de pensar nisso.”

 

O F., que fazia que se entretinha a resolver um sudoku de nível médio, resolveu participar na conversa: “O A. fala na beleza mas penso que se está a referir ao desejo. Entretanto tu falas na revolução, mas queres dizer arrependimento.” “Cá para mim estás-te a armar. Agora de velho é que te deu para a filosofia? Quando novo detestava-la”, remoncou o A. Mas o F. não se deu por achado e atacou forte: “Posso-vos confessar que foi o desejo quem arruinou a primeira metade da minha vida e a outra metade foi estragada pelo seu oposto, o arrependimento. A não ser que tu” – e apontou o seu dedo acusador na minha direcção – “me consigas explicar como pões a funcionar o truque da serenidade.”

 

Com amigos destes, um homem tem de estar sempre atento, senão sai do jogo. Por isso tentei imitar um dos líderes mais querido e estimado de todos os tempos e disse: “Em verdade, em verdade vos digo, existem tão poucas coisas no mundo sobre as quais conseguimos ter certezas, que talvez seja essa indeterminação quem guia as nossas compulsividades mais fortes.” Depois desta tirada, todos ficámos em silêncio.

 

Mas foi sol de pouca dura. No nosso grupo, cada um à sua maneira, está sempre a delimitar o território. E já que não o pode fazer urinando, como o fazem, por exemplo, os lobos, utiliza o expediente das palavras. Por isso o D., que até ali tinha estado a ler uma revista científica, resolveu também dar um ar da sua graça: “Em algumas florestas da América do Sul, existem aves verdadeiramente extraordinárias. Por exemplo, o assobio harmonioso e divino do rapazinho do chaço só se pode escutar apenas um pouco antes do amanhecer. Todo o outro tempo está de bico calado. O chamamento da araponga ouve-se a quilómetros de distância. E o famoso pássaro do petróleo apenas voa durante a noite utilizando, para isso, um equipamento de radar que tem na cabeça…”

 

“Tu é que me saíste cá uma ave canora!”, chalaceou o A. “E tu um papagaio de gabarito”, retorquiu o D. Eu, para dar um arzinho da minha graça, resolvi introduzir nova alínea na conversa e, imitando os Monthy Python, cantarolei: “E agora algo completamente diferente…”

 

“Então vamos agora falar de política”, propus. E eles: “uuuuuuuuuuu”. Mas eu não liguei e continuei na minha, pois sei, de ciência certa, que os homens só gostam de falar de três coisas: sexo, futebol e política.

 

O primeiro pontapé foi meu: “Por falar em aves canoras, o bisnau do ministro das Finanças fez três conferências de imprensa e conseguiu surpreender em cada uma delas. Mas sempre pela negativa. Em todas anunciou subida de impostos. Primeiro foi a sobretaxa extraordinária sobre o subsídio de Natal, depois foi a antecipação da taxa normal do IVA na energia, que apenas estava prevista para 2012, e, finalmente, decidiu agravar a derrama estadual no IRC e introduzir uma sobretaxa no IRS do último escalão.”

 

“E então, qual é a surpresa?”, perguntou D. enquanto este vosso amigo esfregava os olhos. Eu, que sei antecipar as perguntas, engatilhei o argumento justificador do embuste eleitoral que nos pregou o primeiro-ministro: “Foi Vítor Gaspar quem andou, mês após mês, a explicar, em tudo quanto era órgão de informação, que havia muito por onde cortar despesa em Portugal. Mas, até ao momento, apenas se limitou, como qualquer aprendiz de contabilista, a subir os impostos. E isto é um embuste, uma falsidade e uma fraude política.”

 

O D., veio a jogo lembrando que o consumo das famílias, segundo o INE, registou, no segundo trimestre do ano, a maior queda de sempre. E declarou irónico: “Ora isso é ainda consequência das medidas de austeridade do governo de José Sócrates.”

 

O F. fez um reparo, lembrando, e bem, que as medidas de austeridade da era Sócrates, comparadas com as deste governo, são como equiparar um ligeira ventania a um tornado. 

 

O A., que não morre de amores por Pedro Passos Coelho, proferiu com voz de barítono: “A praxis política do governo do PSD/CDS lembra-me a velha história do burro a quem o dono resolveu desabituar de comer. O jerico ainda aguentou até ao décimo quarto dia, mas no décimo quinto morreu. Incrédulo, e desgostoso, o dono comentou: Logo agora que te estavas a habituar é que resolveste morrer. És mesmo burro. Quem te baptizou, acertou em cheio.”

 

Todos nos rimos a bom rir, menos o D., por isso resolveu provocar: “O PSD é visto, até pelos verdadeiros socialistas, como um partido responsável e, apesar do mar revolto em que nos encontramos, está a levar o país a bom porto. Daí a presença de Mário Soares na Universidade de Verão do PSD.”

 

“Olha que o problema não está na presença de Mário Soares na iniciativa do PSD, mas sim nos jovens social-democratas terem gritado que «Soares é fixe», depois de o ex-presidente da República ter criticado duramente a vassalagem do governo do PSD/CDS à troika, aumentando brutalmente os impostos e privatizando tudo o que é público, rentável e estratégico”, atalhei eu.

 

Dos quatro elementos do grupo, três estamos de acordo em que o PSD está a ter uma prática política totalmente contrária ao discurso que fez na oposição. Que foi enganador e demagógico o discurso dos partidos do Governo, pois unicamente teve por objectivo criar uma crise política, com o único objectivo de conquistar o poder. Com essa atitude introduziram no debate ideológico um défice moral que vai, necessariamente, afastar ainda mais as pessoas da política. Além disso, os membros mais importantes do Governo revelam um liberalismo dogmático excessivo, que os afasta da compreensão da coisa pública e da administração e gestão da vida de um país. Por detrás das estatísticas existem pessoas. E os outros ministros e secretários de Estado mostram um amadorismo serôdio e ridículo. E por último, o primeiro-ministro, no seu jeito inábil de dizer aquilo que quer camuflar debaixo de subterfúgios linguísticos, já anunciou uma espécie de guerra preventiva contra a conflitualidade social, denominando-a como “risco de tumultos de rua” e está a transpor a perigosíssima fronteira da destruição do Estado social, sem alternativas visíveis, credíveis e sérias.

 

“Já para não lembrar que a nossa dívida aumentou devido ao buraco financeiro encontrado na Madeira. Nada mais, nada menos, do que 1610 milhões de euros que o governo do arquipélago deve ao Estado central. Uma enormidade. E o palhaço ainda…”

 

D., não sabemos se no gozo ou a sério, interrompeu as doutas palavras do F. e trouxe à colação o discurso do inenarrável presidente do Governo da Madeira. “Razão tem o Alberto João. A culpa disto tudo é da Maçonaria e da Internacional Socialista que não cessam de perseguir o distinto madeirense e…”

 

O A., um pouco enfastiado com a arrogância do D., aconselhou-o, imitando o Rei de Espanha: “Por qué no te callas?”

 

A partir daqui a conversa azedou um pouco, por isso abstenho-me de a referir. A amizade a isso me obriga. A amizade e o decoro. O clima de crispação é já visível, mesmo entre amigos. E ainda nem sequer chegamos ao Natal. Então é que vão ser elas.

 

Assistir a estas discussões fez-me perceber que Marx, que se enganou em tantas coisas, tinha razão quando falava na capacidade implacável que o dinheiro patenteava em se imiscuir em todos os aspectos da vida humana.

 

PS – Tinha por intenção dar-vos conta das muitas e variadas iniciativas sugeridas na agenda (axenda) cultural de Setembro da putativa “Eurocidade Chaves-Verin”, no entanto, não sei porque motivo ela, a agenda, não me chegou via correio, depois de alguns anos de recebimentos atempados e, convenhamos, gratuitos. Estou em crer que tudo se ficou a dever a um mais que justificado ajustamento financeiro, vulgo poupança. No entanto, descansem os estimados leitores que não é por esse motivo que me dispensarei de dar-vos conta do que lá vem vertido. Pois se não vai Maomé à montanha, vai a montanha a Maomé. Pois assim é que é. Rima e é bem capaz de ser verdade. Então até para a semana. 


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Domingo, 18 de Setembro de 2011

Sobre o lado esquerdo


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Sábado, 17 de Setembro de 2011

Pipocas e chuva na Senhora das Brotas


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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011

O Homem Sem Memória

 

80 – Dava gosto observar o António pedalar a sua bicicleta enquanto assobiava lindas canções de amor. Ou o António a pedalar e a imitar um gracioso par de pintassilgos, ou de rouxinóis. Ou o António a pedalar e a imitar na perfeição uma ária tocada pela banda dos Pardais. Uma coisa é certa: o António pedalava com toda a virtude do mundo e assobiava com todo o esmero do show bussiness nacional e internacional, fosse lá isso o que fosse.

Um dia, enquanto penteava a sua farta e escura cabeleira frente ao espelho do guarda-fatos, tentou cantar. Tinha escutado na rádio várias canções de amor e, a jeitos de envergonhado, experimentou reproduzi-las a modinho. E saiu-se bem. Por assim dizer, o António possuía um bom ouvido e uma voz que, não sendo muito expressiva, era afinada. Além de cantar, acompanhava as modinhas com baixos nasais, ritmos de bateria produzidos à base de artísticas manobras de língua e solos de guitarra executados da mesma forma, mas de outro feitio.

Com o seu aparelho fonador reproduzia, com muito carinho e denodo, todas as modinhas que escutava e se lhe fixavam na cabeça. E sem fazer esforço nenhum. Pelo menos era o que aparentava. O rapazio apreciava-lhe o jeito e as cachopas dispunham-se a dançar com ele só para ouvir, bem juntinho ao ouvido, as principais canções da moda em estereofonia.

Especializou-se em Roberto Carlos (“O calhambeque”, “Quero que vá tudo para o inferno”, “Eu te darei o céu”, “Namoradinha de um amigo meu”, “Debaixo dos caracóis dos teus cabelos” e, sobretudo, “Eu te amo”); Nelson Ned (“Tudo passará” e “Domingo à tarde”); Teixeirinha (“Coração de luto”, que fazia chorar todas as mães, as suas filhas, as avós, alguns netos e ainda alguns dos cães mais sensíveis à arte e ao drama humanos); Los Diablos (“Un rayo de sol”); Gianni Morandi (“Non son degno di te”). Mas o seu tremendo êxito e a sua grande fama ficaram a dever-se à brilhante imitação do repertório dos Antónios: António Calvário (“Avé Maria” e “Oração”), [Conjunto] António Mafra (“Sete e Pico” e “Arrebita, Arrebita, Arrebita”); [António] Tony de Matos (“O destino marca a hora” e “Digo adeus à saudade”); e António Mourão (“Ó tempo volta para trás”).

Todavia, uma coisa é andar de bicicleta e assobiar e outra, bem distinta, é cantarolar lindas canções românticas, andar de bicicleta e trabalhar de ajudante de trolha. Para contrariar o destino, começou a pensar em arranjar um emprego consentâneo com a sua recente categoria de cantor. Deixou crescer o bigode e cortou o cabelo à imagem e semelhança dos seus ídolos mais próximos.

De fatinho às três pancadas, sapato de salto alto à Nelson Ned, camisa de enormes colarinhos à francesa, desmesuradamente aberta no peito, dirigiu-se corajosamente a uma casa comercial – sita na rua de Santo António e especializada em roupa exterior e interior de homem, senhora e criança (tais como fatos, vestidos, meias, cuequinhas de renda e soquetes e demais sortido), além de uma gama extensa de retrosaria e tecidos –, e solicitou emprego. O patrão do estabelecimento comercial, surpreendido pelo charme discreto, e untuoso, do António, mas, sobretudo, pela ousadia irreverente do sósia de Nelson Ned, sorriu e disse que o artista podia vir trabalhar à experiência por um mês. Depois logo se via. E, de facto, a experiência resultou em cheio.

O António, qual disco-jóquei ambulante, deslumbrou as clientes que, viciadas na rádio e nos seus ícones populares, se deleitavam a ouvi-lo assobiar, ou entoar, todas as canções que andavam de boca em boca como se fossem ladainhas, promessas, sonhos, ou tudo junto.

Se as clientes pediam, e pagavam na hora, um fio de linhas ou um fecho éclair, o António dava-lhes de bónus “Quero que vá tudo pro inferno”. Se lhe pediam chita a metro ou umas cuequinhas de renda, o António debitava a “Namoradinha de um amigo meu”, ao centímetro e o “Sete e Pico” quase ao milímetro. Então se a clientela se atrevia a comprar uma vestimenta de baptizado ou um fato de casamento por atacado, o António era imediatamente solicitado a desbobinar todo o cardápio de canções, menos o “Coração de luto”, do Teixeirinha, e, por precaução, “Ó tempo volta para trás” do António Mourão, pois se as mães dos nubentes ficavam de olhos lacrimejantes e com pele de galinha ao ouvi-la, os jovens noivos, depois de escutá-la, consideravam a sua mensagem inquietante ou extemporânea. 


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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011

Homens no túnel


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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011

O Poema Infinito (65): o ruído estrutural

 

Toda a inocência do mundo cabe dentro de um grão de areia, por isso os homens se esquecem da harmonia lenta da poesia. Daí o poemacto de herberto helder e a poesia toda. As cidades cantam incendiadas pela cegueira de Deus que se orgulha do epinício lácteo entoado pelos lábios virgens dos anjos. As tuas mãos procuram, por isso mesmo, o instrumento profundo da angústia. O amor estremece no coração duro dos homens, por isso o seu olhar é um dardo que atravessa a palidez dura do corpo dos amantes prontos a atingir o orgasmo. Todos os orgasmos deixam um rastro que sangra na solidão das noites obsessivas. Mulheres incendiadas pegam nos seus corpos e mergulham nas estrelas. Homens cantam hinos verídicos de onomatopeias habitadas por vozes rudes que homenageiam a honra dos adjectivos absurdos. Agora podemos imaginar a delicadeza e a subtileza de um coito interrompido. Somos tocados por vozes feridas onde o silêncio apreende o seu sexto sentido felino. A morte é um cântico cego. A minha memória cobre-se de nomes infinitos que passam de boca em boca imaginando fórmulas mágicas. Por vezes tudo se ilumina por dentro, por isso as pessoas perdoam o tempo e esquecem as lembranças dolorosas da infância. Quero desprezar todas as coisas para não esquecer coisa nenhuma. O tempo futuro é um profundo movimento devastador. Ardem os lugares na minha memória. Sorrio com um sentimento elevado de demência. Palavras cantam dentro das minhas varandas interiores. Entre elas procuro a linguagem exacta do amor e do desespero. Penso agora no ruído estrutural da criação vegetal, no movimento fabuloso das papoilas, na madrugada triste dos miosótis, na delicadeza impulsiva de uma seara de trigo, no enlouquecido corredor das giestas brancas, no espírito verde dos fetos, na demência sorridente dos nenúfares, na penumbra fulgurante dos míscaros, no pasmo inocente das gipsófilas, na menstruação iridescente dos amores-perfeitos, na lembrança desvairada dos cravos, no estremecimento adormecido das tulipas, na solidão obsidente das silvas e das urtigas e dos tojos, na loucura interior das videiras, no silêncio purificado dos medronheiros, na espantosa exuberância das macieiras em flor e na irremediável banalidade das rosas de todas as cores e feitios e tamanhos. Lembro-me ainda do admirável mutismo das fontes, do irreprimível entusiasmo das montanhas, da inexorável extinção do mundo, da torrente infindável de sofrimento e angústia humanos, da absorvente melancolia dos dias, da misteriosa suspensão da claridade, da arrefecida originalidade de Deus, do sorriso enigmático de uma mulher grávida, da inspiração comovida de um poeta, da impossível verdade de um político, da insustentável leveza de um sorriso de criança, da aprendizagem paciente da beleza, da esperança lenta do amor, do silencioso ruído dos espoliados, do imprevisto grito de igualdade, do erotismo fecundo de uma mulher estendida, do milagre melancólico da escrita, da solidão inventada dos génios, da magnificência dos lençóis de água, da pura substância criadora de um beijo, da substância pura de uma carícia, do despenhamento incendiado de um coito, da auréola intima do pudor, da promessa consagrada do amor e do ódio e do ciúme e da punição, da indecisa esperança no sobrenatural, da voz incendiada das avós, da alucinação longa do crepúsculo dos deuses, da superstição maravilhosa de uma noite de luar, do imponderável testemunho dos salvadores mortais, do testemunho desfalecido dos redentores imortais, e da entontecida fantasia em que me afogo quando escrevo. Entretanto deito-me em cima do meu poema e adormeço. 


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Terça-feira, 13 de Setembro de 2011

O homem e o menino


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Segunda-feira, 12 de Setembro de 2011

O sentimentalismo e a troika

 

Desde pequeno que tenho uma relação difícil com tudo o que remete para a esfera do sentimental. Ou melhor, quando me falam em algo sentimental fico logo com um pé atrás, e só não fico com os dois porque dessa forma caio.

 

Confesso que tenho uma relação complicada com os clichés e com os lugares comuns. Provocam-me urticária. Aprendi a ser persistente desde criança. Feitios. A esfera do sentimental lembra-me a nostalgia, a piedade, o pedantismo, a hipocrisia e os contos de fadas. A minha avó era muito anti-sentimental, apesar (ou por isso mesmo) da sua educação singela, da sua vida difícil e da sua viuvez precoce. Era autêntica. Por isso, eu tento sempre ser verdadeiro. Tento. Tento sempre. Mesmo que isso me prejudique. Feitios. Daí, provavelmente, apreciar Milan Kundera, pois escreve palavras severas contra o sentimentalismo e contra a mentira.

 

O escritor checoslovaco defende que o sentimentalismo é um disfarce, que colocamos em cima do mundo para não percebermos como vivemos. Quanto à mentira, as cinzas da utopia do comunismo (tarde, mas mais vale tarde do que nunca) aí estão para lhe dar razão. Toda a razão. Por isso tento, ainda, contrariar o sentimentalismo e opor-me a todo o tipo de totalitarismo, seja ele comunista ou fascista. Entre os dois venha o Diabo e escolha, se for capaz.

 

Sentimentalismo é, por exemplo, o presidente do Inatel, Vítor Ramalho, pagar cinco mil euros por uma entrevista, registada como trabalho de promoção, ao “País Positivo”, uma revista gratuita de carácter comercial e distribuída com o jornal Público. Na verdade, este tipo de trabalho de promoção dá muito jeito, não só ao putativo “País Positivo”, como ao Inatel e também a muitos autarcas em tempo de campanha eleitoral no sentido de promoverem, mais do que as potencialidades e as obras do concelho que dirigem, as respectivas campanhas eleitorais. E tudo à custa do erário público. Daí o país estar como está, cheio de dívidas e dirigido por políticos que, para comprarem as bandeirinhas, os cartazes, os espelhos, os chapéus, as esferográficas e os apitos, vendem a alma aos empreiteiros e aos seus sucedâneos, além de utilizarem o pretexto das entrevistas e artigos encomendados que custam pipas de dinheiro e são apenas, e só, eficazes manobras de propaganda eleitoral, tudo facturado em nome da autarquia e servido ao povo como trabalho jornalístico de primeira qualidade, quando toda a verborreia, vertida em papel de jornal, não passa de uma enorme efabulação publicada, repito e sublinho, em espaço comprado e pago a peso de ouro para propagandear, muitas das vezes, meias verdades, quando não mentiras descaradas. 

 

Vítor Ramalho disse que voltaria a fazer o mesmo. E estou em crer que os autarcas continuarão a comprar as entrevistas e os espaços comerciais em jornais de distribuição gratuita que servem para enganar os incautos e martirizar as consciências inquietas. Ou seja, a desonestidade compensa.

 

E o regabofe é tanto, e tão descarado, – e eu não sabia, como estou em crer que a grande maioria dos estimados leitores também não sabe, que os autarcas municipais podem acumular funções remuneratórias nas empresas municipais – que a troika impôs uma nova reforma administrativa a proibir os autarcas de poderem acumular esses cargos (tachos, chama-lhes o povo).

 

Mas reparem, não foram nem os nossos governantes, nem os nossos autarcas, os autores dessa proposta, foram uns senhores estrangeiros vestidos de homens da regisconta que, em apenas quinze dias, descobriram a ignomínia – além de elaborarem um programa que governará Portugal durante vários anos – e exigiram a sua extinção. Mas os homens da regisconta foram ainda mais longe ao proporem a redução de freguesias, que são constituídas unicamente pelos elementos da junta e pelos seus adversários derrotados, e de algumas câmaras que nem eleitores possuem para justificarem o estatuto de juntas de freguesia.

 

Miguel Relvas, um dos directores-gerais da troika em Portugal, dos 11 eufemísticamente denominados como ministros do Governo Português, garante que o objectivo é fazer uma redução do sector empresarial local. No entanto, os lóbis instalados ao nível do poder autárquico prometem forte oposição. Pudera! Mas Relvas garante mãozinhas de veludo: “O que se pretende é uma revolução tranquila, exigível, desejável e necessária”. Que a força esteja com ele e com a sua revolução sentimental. Valha-nos a Santa Hipocrisia, a mãe de todos os demagogos.

                                                                                                    

Da área do sentimentalismo é também a nomeação da directora-geral da troika, Assunção Cristas, para a área da Agricultura. A senhora até é simpática e rechonchudinha, muito na linha tradicional da mulher portuguesa, mas não é isso, com toda a certeza, o que lhe deu créditos para ser nomeada para o putativo governo da nação. Também estamos em crer que não foi a sua categoria de professora universitária de Direito Privado que convenceu o presidente da troika em Portugal, eufemísticamente denominado Primeiro-Ministro, a nomeá-la para a pasta da agricultura. Então o que foi? Simplesmente o pertencer a um partido (CDS) que faz parte da coligação da troika sediada em território luso. Ela mesmo reconhece: “Caí aqui de pára-quedas no sentido de que não tenho nenhuma anterior ligação à agricultura”. Eu repito, para não pensarem que é gafe: “Não tenho nenhuma anterior ligação à agricultura.” E adianta: “Mas, graças a Deus, os secretários de Estado [aqui deve ler-se secretários dos directores-gerais da troika] dominam bem todas as matérias.” Ou seja, a senhora é um simpático e redondo, verbo-de-encher. 

 

Mas atenção, nas suas propostas para ganhar a confiança dos agricultores e dinamizar o sector agrícola, que está à beira da liquidação total, propõe-se desbloquear verbas atrasadas do PRODER, reduzir o número de motoristas do seu putativo ministério, ir a Bruxelas sempre que possível, reduzir o número de gravatas para poupar no ar condicionado, mexer na mobilidade dos seus funcionários e mais meia dúzia de lugares comuns que qualquer estudante do secundário é capaz de expor depois de passar duas horas a estudar um qualquer texto da CAP sobre o assunto.

 

Da área do sentimentalismo são também os apelos de Pedro Passos Coelho para a boa vontade dos portugueses relativamente às medidas de austeridade impostas pela secção da troika que dirige. Mas, pelo que oiço, sinto e sei, o bom povo português começa a perder a boa vontade e a confiança que nele depositou nas últimas eleições legislativas.

 

De cada vez que fala de improviso mete medo aos empresários, incendeia as relações socais, atemoriza os pobres e aterroriza a classe média. E quando leva o discurso preparado, aquilo sai-lhe que nem um tiro de pólvora seca. Mas para não me acusarem de convencido, má-língua ou perigoso socialista, dou a voz ao Vasco Pulido Valente, que, ao que sei, foi companheiro de luta de Sá Carneiro, deputado do PSD e apoiante de Cavaco Silva. Ora então aí vai. E sem espinhas: “O discurso [do Pontal], que devia ser claro, acabou repetitivo, retórico e uma digressão desordenada por isto e por aquilo, insusceptível de orientar ou entusiasmar ninguém. Se o sr. primeiro-ministro não sabe escrever, arranje rapidamente quem escreva por ele.”

 

E como isto já vai um pouco extenso, sentimentalmente me despeço de todos vós com a promessa de que voltarei na próxima semana, se me deixarem. 


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Domingo, 11 de Setembro de 2011

Presunto e vinho


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Sábado, 10 de Setembro de 2011

Então nunca mais se almoça?


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Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

O Homem Sem Memória

 

80 – Dava gosto observar o António pedalar a sua bicicleta enquanto assobiava lindas canções de amor. Ou o António a pedalar e a imitar um gracioso par de pintassilgos, ou de rouxinóis. Ou o António a pedalar e a imitar na perfeição uma ária tocada pela banda dos Pardais. Uma coisa é certa: o António pedalava com toda a virtude do mundo e assobiava com todo o esmero do show bussiness nacional e internacional, fosse lá isso o que fosse.

Um dia, enquanto penteava a sua farta e escura cabeleira frente ao espelho do guarda-fatos, tentou cantar. Tinha escutado na rádio várias canções de amor e, a jeitos de envergonhado, experimentou reproduzi-las a modinho. E saiu-se bem. Por assim dizer, o António possuía um bom ouvido e uma voz que, não sendo muito expressiva, era afinada. Além de cantar, acompanhava as modinhas com baixos nasais, ritmos de bateria produzidos à base de artísticas manobras de língua e solos de guitarra executados da mesma forma, mas de outro feitio.

Com o seu aparelho fonador reproduzia, com muito carinho e denodo, todas as modinhas que escutava e se lhe fixavam na cabeça. E sem fazer esforço nenhum. Pelo menos era o que aparentava. O rapazio apreciava-lhe o jeito e as cachopas dispunham-se a dançar com ele só para ouvir, bem juntinho ao ouvido, as principais canções da moda em estereofonia.

Especializou-se em Roberto Carlos (“O calhambeque”, “Quero que vá tudo para o inferno”, “Eu te darei o céu”, “Namoradinha de um amigo meu”, “Debaixo dos caracóis dos teus cabelos” e, sobretudo, “Eu te amo”); Nelson Ned (“Tudo passará” e “Domingo à tarde”); Teixeirinha (“Coração de luto”, que fazia chorar todas as mães, as suas filhas, as avós, alguns netos e ainda alguns dos cães mais sensíveis à arte e ao drama humanos); Los Diablos (“Un rayo de sol”); Gianni Morandi (“Non son degno di te”). Mas o seu tremendo êxito e a sua grande fama ficaram a dever-se à brilhante imitação do repertório dos Antónios: António Calvário (“Avé Maria” e “Oração”), [Conjunto] António Mafra (“Sete e Pico” e “Arrebita, Arrebita, Arrebita”); [António] Tony de Matos (“O destino marca a hora” e “Digo adeus à saudade”); e António Mourão (“Ó tempo volta para trás”).

Todavia, uma coisa é andar de bicicleta e assobiar e outra, bem distinta, é cantarolar lindas canções românticas, andar de bicicleta e trabalhar de ajudante de trolha. Para contrariar o destino, começou a pensar em arranjar um emprego consentâneo com a sua recente categoria de cantor. Deixou crescer o bigode e cortou o cabelo à imagem e semelhança dos seus ídolos mais próximos.

De fatinho às três pancadas, sapato de salto alto à Nelson Ned, camisa de enormes colarinhos à francesa, desmesuradamente aberta no peito, dirigiu-se corajosamente a uma casa comercial – sita na rua de Santo António e especializada em roupa exterior e interior de homem, senhora e criança (tais como fatos, vestidos, meias, cuequinhas de renda e soquetes e demais sortido), além de uma gama extensa de retrosaria e tecidos –, e solicitou emprego. O patrão do estabelecimento comercial, surpreendido pelo charme discreto, e untuoso, do António, mas, sobretudo, pela ousadia irreverente do sósia de Nelson Ned, sorriu e disse que o artista podia vir trabalhar à experiência por um mês. Depois logo se via. E, de facto, a experiência resultou em cheio.

O António, qual disco-jóquei ambulante, deslumbrou as clientes que, viciadas na rádio e nos seus ícones populares, se deleitavam a ouvi-lo assobiar, ou entoar, todas as canções que andavam de boca em boca como se fossem ladainhas, promessas, sonhos, ou tudo junto.

Se as clientes pediam, e pagavam na hora, um fio de linhas ou um fecho éclair, o António dava-lhes de bónus “Quero que vá tudo para o inferno”. Se lhe pediam chita a metro ou umas cuequinhas de renda, o António debitava a “Namoradinha de um amigo meu”, ao centímetro e o “Sete e Pico” quase ao milímetro. Então se a clientela se atrevia a comprar uma vestimenta de baptizado ou um fato de casamento por atacado, o António era imediatamente solicitado a debitar todo o cardápio de canções, menos o “Coração de luto”, do Teixeirinha, e, por precaução, “Ó tempo volta para trás” do António Mourão, pois se as mães dos nubentes ficavam de olhos lacrimejantes e com pele de galinha ao ouvi-la, os jovens noivos, depois de escutá-la, consideravam a sua mensagem inquietante ou extemporânea.


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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011

O cão e o acordeonista


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2011

O Poema Infinito (64): uma definição de Deus

 

Tu és a minha alegria luminosa por isso me sinto ofegar dentro da tua tensão global como se Deus respirasse sílabas plenas de tranquilidade imediata. Deus é uma palavra. Por isso Deus introduz-se no nosso desespero. Deus é uma lâmina despojada de sentido porque teima em permanecer na sua tranquilidade extrema olhando para nós como se fossemos pequeníssimos pontos imersos no mar imenso do vazio. Os olhos de Deus são glaucos e estão desocupados da pulcritude crua das cores. O seu olhar é a preto e branco. Deus está coroado de figuras rasas de sentido por isso é invulnerável à humanidade. Deus proibiu-se de actuar na vida dos humanos. Essa é a sua omnimpotência. Dele se diz que é o fim inicial de tudo, que é a abertura central da destruição, a união principal do imponderável, a intocável serenidade da indiferença, a noite inteira, o frio do vazio pleno, o universo cravado nos olhos cegos da matéria. Deus é o último alento de cada homem que morre, a noite trocada nos sonhos das mãos, as casas engolidas pelo tempo, o coração confundido dos mártires, as cidades que arderam e ardem em seu nome, as palavras soterradas dos profetas, o tempo duro das pedras. Deus é a imensa prole constituída por milhões de esfomeados que entre si dividem a impotência da humanidade proclamada pelos poderosos, da ciência celebrada pelos poderosos, da solidariedade laureada pelos poderosos, da verdade declarada pelos demagogos. Deus transformou o tempo fecundo em tempo implacável. Deus transformou o tempo da razão em tempo de silêncio. As suas palavras martelam persistentemente no muro silencioso dos crentes. Deus é a insónia pronunciada do Diabo. Deus é o boi cego da impaciência, é o amor desabrigado do desespero, é o sonho sofrido da felicidade, o relógio inútil da vida, a fadiga inerte da eternidade. Deus é o grito escuro das nebulosas, a poalha cintilante dos céus, o eterno carinho do passado, a grávida linha do caos, o martírio das estrelas, a rigorosa exactidão do nada. Deus também é a breve titilação do corpo de uma mulher que dorme perfumada pelo sémen do homem que ama. Deus é todo o silêncio de vidro do mundo. Deus é um palácio de areia junto ao mar. Deus é a eterna tranquilidade das nossas cinzas. Deus é a grandeza do pó dos humanos. Deus é um caminho de palavras que vai dar a lado nenhum. Deus é um condutor de fórmula um omninconsciente. Deus é um pai omnimpotente. Deus é a sumptuosidade silenciosa do absurdo. Nós somos os seus olhos carregados de silêncio. 


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Terça-feira, 6 de Setembro de 2011

Alto lá!


publicado por João Madureira às 07:00
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Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011

Quinta crónica estival: Agenda Cultural, palestras e tsum, tsum, tsum…

 

“Estiveste na praia?”, perguntou-me de supetão o C. Eu disse que sim. E ele: “Pois não parece. Vens branquito.” E eu: “É que uso um protector solar com um filtro de número elevado. Com o sol não brinco. Além disso só estou na praia até ao meio-dia e depois das dezasseis horas. E uso t-shirt, óculos de sol e chapéu.” E ele: “Se pensasse e agisse como tu juro-te que não ia para a praia”, atirou-me de supetão o C., que apenas passou uma semana à beira-mar e ficou mais castanho do que o Eusébio. Mas é cor de pouca dura pois são já visíveis pedaços de pele a erguerem-se pelo meio dos pêlos do corpo. Parece uma cobra, o fanfarrão. Coitado. Depois de se ir embora fiquei a pensar se o C. é mesmo meu amigo ou apenas se faz. Ele jura que sim, mas quem muito jura muito mente.

 

Aqui que ninguém nos ouve, a nossa amada terrinha no Verão fica um pouco insuportável. Os emigrantes desequilibram-na, atrapalhando as ruas, enchendo os supermercados e os cafés. E o calor aperta forte. Por isso só saio de casa a meio da tarde e durante a noite. As noites são agradáveis, isto quando não venta. E é à noite que o burgo se anima. Mas para isso acontecer teve de existir um prévio trabalho de organização.

 

O Vasco (Pulido Valente) considera que há muito tempo que o Estado (leia-se Câmaras Municipais) tomou sobre si o extraordinário encargo de animar a populaça. O direito “a ser divertido” é hoje um direito intocável do cidadão. Diz ele, o Vasco Pulido (Valente) que as câmaras não hesitam em fechar ao trânsito partes da cidade, mesmo da cidade central, a benefício de um concurso de bandas (de género desconhecido ou ambíguo) ou de um acampamento de barraquinhas. Resumindo e concluindo, o Valente (Vasco Pulido) fica possesso pelo singelo facto de as autarquias gastarem o nosso dinheirinho em animação de bailes ou festas que nada adiantam e só incomodam. Mas isso é ele, que é homem muito mal disposto e sempre pronto a cascar forte e feio nos portugueses e em Portugal.

 

Eu, por exemplo, penso de maneira distinta. Eu apoio tudo o que ele desapoia e desapoio tudo o que ele apoia. Como os estimados leitores sabem, ou se não sabem ficam agora a saber, a primeira quinzena de Agosto passei-a fora, por isso foi com extrema mágoa que, depois de consultar a Agenda Cultural de Chaves que me esperava ansiosamente na caixa de correio, não pude assistir nas Termas de Chaves - SPA do Imperador (já gora uma salva de palmas a quem teve a brilhante ideia de qualificar as instalações das Termas flavienses com tão pomposa denominação: parabéns, parabéns, parabéns) às palestras sobre “A Podologia: A saúde dos seus pés” (primeira); “Estilos de vida saudáveis”; “Osteoporose – factores preventivos”, “Cuidados e higiene correcta dos pés”; “Alimentação sustentável e biológica”; “Dieta mediterrânica: um padrão de vida”; nem pude participar na caminhada “Dar mais vida aos anos, dar aos anos mais vida”, e por isso perdi ainda a actuação do Rancho Folclórico (que só ela, a actuação do rancho, bem entendido, valia os 5 euros de inscrição).

 

Mas, como isto está pensado ao pormenor, no dia quinze a palestra sobre “A Podologia: A saúde dos seus pés” foi repetida. Contudo, para mal dos meus pecados, nesse dia estava em viagem de regresso, por isso voltei a perdê-la. Mas no dia seguinte, logo após o almoço, ainda com alguma areia nos sapatos e na bainha das minhas calças de linho, fui assistir à palestra sobre “Estilos de vida saudáveis”.

 

Lembro os estimados leitores que estou a seguir as propostas relevantes da Agenda Cultural do Município de Chaves (e Verin), editada pelo Gabinete de Apoio Técnico à Eurocidade Chaves-Verin, seja lá isso o que for, referente a Agosto, pois é neste mês que Chaves se enche de turistas e emigrantes.

 

No dia 22 fui assistir à palestra “Pé plano e pé cavo: diferenças”; no dia seguinte assisti embasbacado à pertinente palestra sobre: “A alimentação dos nossos filhos e netos”; e ainda a uma outra, originalíssima, sobre “A importância da roda dos alimentos”; no dia 26 fui assistir, tal e qual um colegial, à palestra: “Pratos de Verão – Económicos e Saudáveis”. No dia 29 assisti a mais uma palestra sobre os pés: “Mitos sobre os pés”; e no dia 30, para finalizar em beleza, assisti à última palestra do mês: “Como nutrir o seu coração – Doenças cardiovasculares”.

 

Lembro de novo os estimados leitores, e repito para que conste, que estou a seguir as propostas relevantes da Agenda Cultural do Município de Chaves (e Verin), editada pelo Gabinete de Apoio Técnico à Eurocidade Chaves-Verin, seja lá isso o que for, referente a Agosto, pois é neste mês que Chaves se enche de turistas e emigrantes.

 

Com a barriguinha repleta de palestras das Termas de Chaves - SPA Imperador, ainda tive tempo para me divertir com muitas outras propostas estatais (leia-se camarárias) de animação cultural. Assisti às XXVIII Xornadas de Folclore 2011, com a participação da Bielorrússia, Togo, Bolívia e Coreia; com apresentação totalmente feita na nossa língua comum: o galego. Ouvi encantado o trinado da voz e das guitarras do fado de Coimbra e a actuação da Banda Filarmónica da minha terra. Com o coração aberto fui a Vidago dar um abraço e visitar a exposição de pintura da minha querida colega e amiga Priscila. Fui a Vidago, repito, porque em Chaves as propostas pictóricas eram tantas e tão variadas que os espaços estavam repletos e por isso resolveram expor os quadros da pintora na vila que dista de Chaves apenas 15 quilómetros.

 

Mas como as propostas públicas, leia-se estatais, leia-se camarárias, não preenchiam a noite toda, nem todas as noites, isso é que era bom, deixei-me levar pela onda privada, especialmente pelos bares de balcões, e coração, abertos. Refresquei-me, eu e os meus amigos, mais amigas que amigos confesso, porque os amigos só falam de futebol e as mulheres falam sobretudo de política, com sangria de champanhe bebida com palhinhas (ó eufemismo!) muito parecidas com mangueiras, finos e mojitos. E posso-vos dizer tsum, tsum, tsum… que tentei ver o Malenga Machel Mandela e a namorada, filho do presidente (sic), [que eu penso que já não é], Nelson Mandela da África do Sul, … tsum, tsum, tsum… special guest do Ámiça Bar, José Castelo Bra… tsum, tsum, tsum… e o Augus… tsum, tsum, tsum… e a Cristina Pai… tsum, tsum, tsum… e os residentes Pisco e Pu… tsum, tsum, tsum… e no Bb ainda tentei tsum, tsum, tsum… pôr-me na fila para ir ver o Lucen… tsum, tsum, tsum… mas ela era tão grande que… tsum, tsum, tsum… e ainda tentei dançar… tsum, tsum, tsum… ao som do melhor beatboxer portu… tsum, tsum, tsum… Fubu Bea… tsum, tsum, tsum… e do Papa London… tsum, tsum, tsum… mas afinal fiquei entretido a beber… tsum, tsum, tsum… caipi… tsum, tsum, tsum… sangria de… tsum, tsum, tsum… finos… tsum, tsum, tsum… e mojitos e viva Cuba Livre… de Fidel… tsum, tsum, tsum… e dos manos Castros… tsum, tsum, tsum… e mais…  tsum, tsum, tsum…


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Domingo, 4 de Setembro de 2011

O ciclista da máscara


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Sábado, 3 de Setembro de 2011

Escadas


publicado por João Madureira às 07:00
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Sexta-feira, 2 de Setembro de 2011

O Homem Sem Memória

 

79 – O bairro onde vivia a família do José por vezes proporcionava interessantes cenas familiares. Habitavam lá famílias grandes de prole, mas remediadas de rendimentos, o que equivale dizer que se não passavam fome andavam lá muito perto. A vida naquele tempo era a ilustração perfeita da moderníssima teoria da reciclagem, tudo se aproveitava: roupa usada que se remendava, cerzia ou compunha; calçado que se reparava e engraxava; comida que se preparava uma vez e cujas sobram eram aproveitadas para a ceia ou para o mata-bicho; latas, caricas, tecidos, milho, batatas, madeira, plásticos e carrinhos de linhas que eram transformados em brinquedos para gáudio da criançada. Aquele era o laboratório vivo onde se provava, como se fosse preciso, a teoria de que a necessidade aguça o engenho. E ali mesmo, naquele pedaço de terra onde foram erguidas algumas dezenas de casas simples, a teoria de Lavoisier passou do livro de Física do José à evidência da vida: na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. E seja o que Deus quiser, se é que existe e é amigo dos pobres.

Na primeira casa do bairro habitava a família mais numerosa. Como o pai não conseguia ganhar o suficiente para alimentar e vestir a sua descendência, o filho mais velho, mal concluiu a quarta classe, foi obrigado a ver-se na condição de guardador das vacas de um vizinho que possuía uma pequena herdade de lavoura. António, o infeliz moço, não recebia dinheiro em troca do seu trabalho. Naquela altura a lavoura não dava para tanto. Mas levava para casa, em doses muito moderadas, convenhamos, leite, batatas, centeio, fruta e ainda alguma produção da horta e do jericó.  

Nas lentas horas de labuta, o António tinha de fazer alguma coisa senão dava em doido. Tentou a leitura, mas os livros enfadavam-no de morte, quando não o faziam recordar as muitas reguadas que levou por ler de forma hesitante e pelos muitos erros que dava, nunca menos de trinta, mas também nunca mais de cinquenta. Para ele a língua portuguesa, além de difícil, era madrasta. Por causa dela, tanto o professor como o pai o castigaram severamente. Na tentativa de matar o tédio, tentou o truque da flauta, pois conhecia vagamente a história do flautista de Hamelin.

O desconsolado pastor queria atrair qualquer coisa, mas tocava tão mal que as vacas, em vez de pastarem em paz, tinham tendência a dispersar-se para bem longe de onde ele actuava. Algumas começaram mesmo a evidenciar sinais de uma irritabilidade inusitada e a sua produção de leite diminuiu a olhos vistos. O patrão não gostou do que viu e ameaçou despedi-lo. O António resolveu deixar a flauta em casa. Comprou em segunda mão um realejo já muito gasto mas que depois de soprado continuava a emitir notas musicais minimamente perceptíveis. Isso na boca do tocador que lha vendeu, pois, nos lábios do António, o instrumento musical nunca mais foi o mesmo. Todos lhe diziam que a gaita-de-beiços tinha de estar desarranjada, porque nunca ninguém tinha ouvido um realejo, mesmo gasto, emitir sons tamanhos de dissonância e incorrecção.

Como na feira dos Santos tinha observado um homem a tocar sanfona, realejo, flauta e caixa, enquanto um macaco dava cambalhotas, batia pratos e pedia dinheiro estendendo um púcaro de alumínio, decidiu mercar um tambor. A sua ideia era, com o rufar do tambor, camuflar a desafinação da flauta e da gaita-de-beiços. E conseguiu-o. Mas o som produzido, além de espantar a passarada, afugentar os coelhos e colocar os texugos em pânico, fez com que a Mimosa, a vaca mais produtiva e amada do seu patrão, se pusesse em fuga e, no seu desnorte, enfiasse a pata numa cova funda, fracturando-a. Foi assim o animal para abate e o António para o desemprego.

Nos seus doze anos, o ex-guardador de vacas e da quimera de vir a ser artista de variedades, conseguiu arranjar emprego de moço, que era a modos que o ajudante de trolha, o escalão mais baixo da carreira de operário da construção civil. E por ali se manteve vários anos. Com algum do dinheiro arrecadado, à custa de muito porfiar, convenceu o pai a comprar-lhe uma bicicleta. Todas as bicicletas médias lhe pareceram grandes. E as dos adultos pareceram-lhe enormes. No entanto, adquirir uma bicicleta para crianças estava fora de questão. Ele podia parecer um fedelho, devido à sua baixa estatura, mas já não o era. Além disso, comprar uma bicicleta pequena equivalia a mercar uns sapatos do tamanho certo, loucura que nenhum rapaz do bairro se atrevia a cometer, pois era certo e sabido que o pé aumentava mais rápido que o tempo necessário a ganhar dinheiro para comprar novo calçado. Naquela altura todo o calçado e toda a roupa se compravam sempre dois números acima do tamanho adequado. Essa era a lei fundamental da sustentabilidade das famílias pobres e remediadas.

Viu-se, dessa forma, o António, forçado a pedalar a sua máquina nova com as pernas metidas no triângulo entre rodas e sempre de rabo no ar, o que lhe dava um certo ar de garoto do circo. Pedalou dessa forma a sua bicicleta ainda durante três anos. Aos quinze, finalmente assentou o traseiro no selim e começou a pedalar a bicicleta como um homem.

Foi por essa altura que o pai, vendo que o filho se estava a fazer varão, o levou às, com vossa licença, putas. Mas não se sabe se pela inexperiência se por medo, o António não conseguiu uma única erecção. A mulher da vida, como se fosse uma mãe virtuosa, disse-lhe que assobiasse para ver se o que tinha de crescer crescia, pois essa era uma das tradicionais formas de pôr os pirralhos a fazer chichi. Ele assim fez. Dos efeitos da terapia nada sabemos, o que sim sabemos é que o António descobriu que era proprietário de um assobio de timbre agradável, conseguindo silvar cantigas com muito talento e respeitável harmonia. Chegaram mesmo a organizar-se bailes onde o artista convidado era o António mais o seu assobio. Foi por essa altura que também começou a imitar o trinado de toda a passarada conhecida. E assim foi feliz à sua maneira, que é a maneira mais feliz de se ser feliz, mesmo que não pareça. Dizem que a felicidade é um mito, mas ali estava o António, mais a sua bicicleta e o seu assobio, para provar o contrário. 


publicado por João Madureira às 07:00
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Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

Namorados


publicado por João Madureira às 07:00
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