Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

A toleima do D.

 

Ontem o D. chegou ao pé de mim possesso. Nem sequer pediu café, ou umas águas ou o que quer que fosse. Desde que o “seu” primeiro-ministro anunciou ao país que lhe ia cortar, desde já e dizem que para sempre, quatro meses de reforma em dois anos, anda mais amuado do que um peru. E se fosse só a ele, ainda vá que não vá, mas pensando que a sua esposa também é reformada e que os dois filhos são professores e estão casados com duas funcionários do Estado, dá para ver a razia que vai lá pela família.

 

O R. atirou-lhe de supetão: “É-te muito bem feito. Quem é que te mandou andar a agitar a bandeira do Pedrinho e a soprar no apito laranja. Mais te valia teres ficado em casa a tratar dos netos e a dares carinho à mulher. Vais ter de engolir o apito. Ai vais, vais. Devias era pedir explicações à senhora que ajudaste a eleger para o parlamento. Que pronta se colocou ela ao lado das propostas dos terríveis cortes aos funcionários públicos. Também não lhe restava alternativa. Para fazer papel de deputada sentada e deixar correr o marfim, mais valia termos elegido uma estátua, sempre ficava mais barata ao Estado. E com a crise que por aí grassa, todos os tostões poupados para cortar nas gorduras do Estado são bem-vindas. É cada vez mais consensual que dois terços dos deputados são apenas verbos de encher. Por isso, o número de parlamentares deve ser drasticamente reduzido.”

 

Mas o D., como se tivesse enlouquecido definitivamente, continuava a toleimar na sua ladainha. Tive pena dele, apesar de ser um laranjinha dos quatro costados. Mas, confesso, também não tive tempo para ter muita, porque para mim, e para a maioria dos meus, também os cortes são golpes duros de encaixar depois de uma vida inteira dedicada ao trabalho e à educação dos meus filhos e dos meus alunos. Por isso, apeteceu-me repetir-lhe as palavras do R., mas, quando olhei para ele e o vi a pressagiar a litania, calei-me. Para sofrimento já basta o que basta. Além disso, apesar de laranjinha, é meu amigo e os meus amigos são meus amigos e pronto.

 

Depois apareceu o F. que lhe disse o mesmo que o R. lhe tinha dito há pouco. Mas quando o viu a rezar baixinho, comoveu-se e meteu a viola no saco. Logo a seguir apareceram os restantes elementos da nossa tertúlia e o fado continuou.

 

“Mentirosos, impostores, aldrabões, intrujões…”, pisava e repisava lentamente o D. como se estivesse a rezar.

 

“Está visto”, disse o R. com o seu ar de menino traquina, apesar de ter as barbas mais brancas do que o Pai Natal, “que vou dedicar-me à agricultura. Talvez consiga produzir alimentos que me deem para comer e vigor para os vender no mercado negro. Poderei, dessa forma, adquirir alguns livros para a minha biblioteca e comprar leite achocolatado para a minha neta, pois são dos poucos produtos que ainda não são taxados com a percentagem máxima do IVA.”

 

E o D., na sua obsessão: “Intrujões, aldrabões, impostores, mentirosos…”

 

O R. tirou do bolso o “Borda d’água” e pôs-se a ler: “Está na altura de, no Minguante, estercar as covas para as árvores a transplantar na primavera, plantar as árvores de fruto e podar, com corte diagonal, as árvores resistentes ao frio. Amanhã de manhã vou preparar os canteiros para a sementeira de alface e cebola e vou, ainda, semear em local fixo agrião, cenoura e rabanete. Depois dos Santos vou plantar os morangueiros, os alhos e as cebolinhas e colocar em local definitivo as couves de primavera e a alface de inverno.”

 

E o D. com os seus olhos mortiços continuava na toleima: “Intrujões, aldrabões, mentirosos, impostores…”

 

Pensei, com tristeza, que já não podia contar com o D. para me ajudar no jardim. Ele que sempre foi muito bom a estrumar e a semear as flores, a plantar roseiras (por favor, não antevejam aqui nada de irónico), crisântemos, lírios, narcisos, tulipas, açucenas, jacintos, junquilhos e anémonas. Além de ser ainda exímio a colher dálias e rosas.

 

Juro que me deu pena vê-lo naquele seu estado catatónico. E ele possesso, desiludido e ultrajado, toleimava: “Impostores, aldrabões, mentirosos, intrujões…”

 

De novo o R., crítico leitor do “Borda d’água”, tentou animar o D.: “Deixa-te lá disso. Descansa que isso, mais do que obra dos homens, é obra dos deuses. Esta maroteira estava escrita nos astros desde há muito tempo. Célia Cadete, no “Juízo do Ano”, dá-nos conta da profecia: “O ano de 2011 entrou num sábado, que é dia consagrado a Saturno, um planeta de movimento lento que leva cerca de 30 anos para completar a sua órbita. Saturno traz destruição, fome, carestia, inquietação, miséria, angústia e tristeza; tem domínio sobre os velhos, os caducos e solitários, os tristes e melancólicos. O ano de 2011 será dominado pela carestia; mas tenhamos fé e lutemos com determinação para reverter a situação.”

 

Aqui, o desavergonhado do L. meteu a colherada: “Por isso é que o D. suou as estopinhas na campanha eleitoral da candidata do PSD, para, com a sua determinação, que propagou aos quatro ventos, ajudar a reverter a situação.”

 

“Qual determinação qual carapuça”, perseverou de novo o R., “deixem é falar a Célia Cadete: “O inverno será longo e frio e com pouca chuva. A primavera será ventosa. O verão irá ser bastante húmido e o outono prevê-se seco e fresco.”

 

“A mulher acertou em tudo. Célia Cadete para o Parlamento, já!”, gritou entusiasmado o L. “Pelo menos sabe o que diz. E di-lo sem papas na língua. Para estátua de pensadora bem nos chega a outra.”

 

E o D. com os seus olhos desmaiados insistia na tarouquice: “Aldrabões, mentirosos, intrujões, embusteiros…”

 

“Ó minha Pátria bem-amada, que bons filhos pariste”, concluiu o R. Todos nos rimos com o sorriso mais amarelo que há no mercado europeu. 


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Domingo, 30 de Outubro de 2011

Orvalhada


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Sábado, 29 de Outubro de 2011

Abandono


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Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

O Homem Sem Memória

 

86 – Como dissemos anteriormente, nas quentes noites de estio, o filho do guarda Ferreira, se não tivesse algum bailarico a que ir, estacionava em casa do Fernando e só de lá saía de madrugada. Estimava muito o seu amigo Fernando, mas admirava ainda mais a verve culta do seu ilustrado pai. Então se tivesse já a sua dose de vinho e sandes de vitela, o senhor Carvalho tornava-se um mestre à moda antiga.

Se ouvia uma música dos Beatles, por muito medíocre que fosse, adivinhava-lhe a melodia e trauteava-a com poderes adivinhatórios. Ou seja, depois do primeiro ou segundo acordes, era capaz de alinhar a música como se ela ainda não tivesse sido escrita pelos quatro rapazes de Liverpool. Punha-a logo sobre uma pauta imaginária e solfejava-a como se ele fosse John Lennon ou Paul McCartney em plena composição.

De pé, fazendo tremer a voz e a papada, o senhor Carvalho conduzia a orquestra imaginária com a sua batuta mágica, agitando as grossas mãos, ora lentamente, ora em frenesim, acompanhando permanentemente o compasso da melodia. E chorava.

Quando combinava a pinga e a música, o senhor Carvalho permanecia sempre emocionado. Os seus olhos ficavam rasos de água. E gaguejava e interrompia os seus gestos para afirmar que a música tem o poder de amansar os homens, de ir ao mais profundo de cada indivíduo e o colocar em paz com o mundo e com o seu semelhante. “A música tem o poder divino. A crer em Deus, imagino-o maestro da humanidade, com uma batuta feita de um raio de sol, chefiando uma orquestra de músicos sábios acompanhada por um coro de anjos entoando uma cantata universal, onde as notas musicais são como estrelas candentes. Eu acredito no poder da música. A música inebria os sentidos, exalta o amor, celebra a paz, louva a beleza, proclama a liberdade, diviniza o ser humano, aclama o progresso e apregoa o socialismo.”

Os filhos admiravam-no. Era raro encontrar um homem mediano com a sensibilidade do senhor Carvalho. No entanto, quando estava com um grão na asa, emocionava-se e deixava-se ir das palavras.

Ao contrário da quase totalidade dos bebedores, que têm mau beber, o pai do Fernando tinha bom vinho. Com um copo a mais, transformava-se num poço de melifluidade e cultura. Mas tinha o inconveniente de não conseguir calar o que tinha de calar: a sua paixão política.

Era o senhor Carvalho um republicano laico e socialista, um terno seguidor de Antero e de António Sérgio, um defensor da autogestão e do cooperativismo. Um combatente pela democracia e pela liberdade.

Com um copo de vinho a mais, e uma que outra sandes de vitela assada, o senhor Carvalho ia-se da língua e trazia sempre à liça o socialismo, que era o “nosso futuro”, e o seu “amor à liberdade”, que era a “nossa batalha” mais próxima. Dava muitos vivas à democracia e outros tantos morras a Salazar e ao fascismo. O problema é que no rés-do-chão vivia um engraxador que tinha a fama, e o proveito, de ser bufo da Pide. E com a Pide não era bom brincar.

Mas o senhor Carvalho, mesmo avisado pelos filhos, e pela santa da sua mulher, deixava-se entusiasmar e lá se ia das palavras. Os filhos, para disfarçarem o discurso, aumentavam ao som do aparelhómetro musical e tentavam desviá-lo da obstinação.

Uma das estratégias era arredá-lo da música e puxá-lo para a literatura. O homem gostava de poesia e recitava-a com muito esmero e ilustração. Por mor da azáfama, às vezes chegava a salivar em demasia, aspergindo perdigotos, o que fazia com que os que assistiam à récita e fossem conhecedores do seu comportamento, se colocassem a uma distância estratégica.

O senhor Carvalho recitava Fernando Pessoa, José Régio, Camões, Miguel Torga e outros que tais, como se fosse o próprio João Villaret. E tremendo a papada e elevando a voz, para consolo de todos, dizia gemendo de paixão: “Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: "vem por aqui!” (…) Não, não vou por aí! Só vou por onde / Me levam meus próprios passos… (…) Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, / E vós amais o que é fácil! / Eu amo o Longe e a Miragem, / Amo os abismos, as torrentes, os desertos... (…) Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / Sei que não vou por aí! E a assistência, que era pouca, mas entusiástica, gritava e chorava de emoção.

Era frequente, a meio do recital, pedir à mulher que lhe trouxesse um copo de vinho. Ela, que amava e respeitava o seu marido, para quem os desejos eram ordens, trazia-lhe sempre um copo de tinto servido no mais pequeno dos copos que havia no mercado. E dizia-lhe com carinho: “Não o bebas todo de uma só vez que te podes engasgar.” Ele sorria e lá puxava de outro poema. Por vezes facilitava e pegava num ou noutro texto de Vitorino Nemésio e recitava-o. Evitava fazê-lo na voz anasalada, modorrenta e convencida do poeta açoriano. Dava-lhe ou um registo próprio ou, então, tentava encaixá-lo no estilo de João Villaret.

Mas a verdade tem que ser dita, por muito que gostemos de Vitorino Nemésio, o seu registo poético e declamatório foi sempre muito soturno, pouco entusiasmante. Quase tão incompleto como o seu toque de guitarra. O senhor Carvalho, porque era um homem culto e respeitador, prestava-lhe homenagem, mas a plateia não se conseguia entusiasmar. Ali todos eram fãs do ardente e telúrico declamar do João Villaret.

Os recitais de poesia tendiam a ser curtos, muito por obra e graça da sua estimada esposa, pois o senhor Carvalho, quando se entusiasmava, sobretudo aos fins de semana, tendia a beber um copo por cada poema declamado e, lá para o meio da récita, já as palavras tendiam a sair mais entarameladas. Era nesta altura que se socorria do tal Nemésio, que a todos provocava sono e arrelias. Mas o senhor Carvalho, porque era um homem culto, repetimos, tendia a recitá-lo como se o linguajar do poeta insular se adequasse mais ao registo notívago e vagabundo das tabernas.

Depois da música, e logo após o recital, de novo o senhor Carvalho teimava em dissertar sobre a música e daí a nada estava outra vez aos gritos de “viva a república, viva a liberdade, abaixo o fascismo”. O José quase que sentia no rés do chão o cão bufo a rosnar de raiva e a espumar de ódio.

De novo os filhos e a esposa do senhor Carvalho ficavam em pânico e, por isso mesmo, tentavam levá-lo à razão. O Fernando, que era o estratega da família, puxava então da guitarra e começava a tocar enquanto a mãe trazia mais um copo de vinho dos pequeninos, misturado com muita água. O senhor Carvalho, com o entusiasmo e com a pouca luz da sala, nem dava pela marosca. Ou se dava disfarçava muito bem, como é apanágio dos rapazes bons e dos homens sábios. 

 


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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

Ponte Romana


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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

O Poema Infinito (71): várias formas de enlouquecer

 

Dizes: és o interior da tua própria existência. Ninguém ama tão desalmadamente como o poeta. Talvez seja necessário mudar a estranha arquitetura da palavra amor e da palavra prazer. Acendo a minha boca na tua boca e aí está a poesia toda. Espalhamos fogo. Gosto da tua fantasia minuciosa, da tua oblíqua inovação, da solidão doce do teu amor. Tu és a minha árvore desenvolvida que se exprime com a brevidade da vida. Uma voz pura adjetiva a subtileza das formas. Alguém fabrica aves que voam por entre as labaredas de azul. O lado dos campos abre-se para as estrelas. O teu olhar levita preciosamente enquanto eu enlouqueço na doce selvajaria do teu corpo. Meto o teu nome na minha intimidade. Daí recomeça o enorme talento de existires. Recupero agora as colinas do mundo. O desejo acelera a velocidade das coisas. Colinas abanadas pelo silêncio mergulham no lado obscuro do dia. Procuro desesperadamente ser simples sem o ser. Os campos abandonados rodopiam em volta do ar puro. É preciso principiar. O amor acumula-se, as coisas respiram, o prazer torna-se inexplicável. Há várias formas de enlouquecer. Os campos são agora espelhos. Os espelhos são agora imagens esmigalhadas. Nuvens altas gritam aprisionadas no reflexo do rio. Sinos dementes explicam a morte. A água rega o amarelo das flores dos lameiros. É tarde. Toda a atenção da água canta a vontade de viver. Pego nas tuas mãos e falo-te da estranha imagem do universo, da dureza lenta da solidão, das palavras que amam devagar os amigos, do talento doloroso da eternidade, do silêncio profundo da paixão. Devagar, a cor da vida infiltra-se na densa angústia da ilusão. Um deus antigo esboça o hermético movimento do mundo. O tempo triunfante aproxima-se cada dia mais da minha idade. É essa a sua abstrata violência. É essa a minha solidão. Volto a ser o animal adormecido da minha infância. Sinto-me um homem solitário entre palavras. Na minha cabeça toda a aldeia canta um hino de pureza. Um hino de pureza quase louca. Tento despedir-me do esquecimento. Entretanto tocas-me com o teu livre delírio. As portas das casas ganharam raízes. As teias balançam na manhã roçando o hálito das pedras. As cinzas impõem o nosso inexorável desaparecimento. Respiro a tua ardente e delicada transformação. Há sempre no olhar dos amantes uma ilusão abismada, como um sono debaixo do fogo. A perenidade dos humanos ajuda ao exercício da sua beleza. Daí a velocidade da terra. Daí as janelas iluminadas. Crianças longas festejam a distância louca das estrelas. Vagarosas crianças iluminam a noite com giestas de fogo. Apagaram-se as luzes. As palavras atrapalham-se no meu braço que arde. No meio da fogueira há uma eternidade de mãos. As coisas mínimas ressuscitam indefinidamente. Tu és a minha poesia, o meu perdão, o meu esquecimento, a minha inocência premeditada. 


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Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

Vinhas novas


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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

O cansaço dos alfaites

 

Não dou por mal empregues todas as horas que caminho no parque Polis da cidade. O Tâmega tranquiliza-me, as poucas árvores fazem-me desejar que se plantem mais e o sol de fim de tarde sempre me fascinou. Os passeios são um bálsamo para os olhos, para os pulmões e para a corrente sanguínea.

 

Agora que a água está mais estagnada, costumo reparar nos alfaiates (e pensar que cheguei a acreditar que estes insectos de patas longas só deslizavam por cima de água límpida e corrente, quem me manda a mim ser tão crédulo) a correr de um lado para o outro e, por cima, reparo em vários enxames de mosquitos. Por vezes oiço um que outro estampido, que presumo serem peixes a saltar na água. Nas margens consigo avistar algumas rãs. Torrões de lama desprendem-se da margem e ouve-se um borbulhar por debaixo da água. Folhas secas, como memórias, movem-se lentamente à superfície. Quase sempre paro para ficar a olhar para elas. No espelho turvo do lençol de água, os ramos das árvores, e os pássaros que os ocupam, perdem a possibilidade de se refletirem.

 

Cada vez há mais pessoas que se deixam arrastar pela indiferença. Como se sofressem de um cansaço prolongado. Por isso tendemos a ver as coisas isoladamente. Fixamo-nos nos contornos, como se nada mais exista para além deles. Tudo vemos e ouvimos instantaneamente. Não há tempo para pensar. Ofendem-nos e nós, em troca, ofendemos. Todos os discursos são jogos de palavras. Tudo nos parece natural: a mentira e a verdade, a mentira como verdade, a manipulação como realidade. Deixamo-nos fascinar pelas minudências, pelos artefactos, pela hipocrisia dos indiferentes, pelo imobilismo. Estamos tão vazios como os quartos de uma casa abandonada.

 

Ouvimos falar em força. Na força das ideias, na força dos argumentos, na força da razão. Olhamos em volta e a força do argumento de quem nos dirige convenceu-nos que éramos especiais, e que eles, além de especiais, eram superiores. Eram os génios que iam fazer avançar o país, a autarquia, a sociedade. E se não fosse em marcha rápida, pelos menos iriam fazê-lo em andamento um pouco mais lento, mas, também por isso, mais seguro, rumo ao progresso. E isso era música para os nossos ouvidos. Mas eles estavam, e estão, longe da verdade. Apesar de plebeus, dão-se ares de uma certa nobreza que sempre foi alvo de algumas concessões. Lembram-me os aristocratas britânicos que até meados de século passado tinham autorização legal para mijar, se tivessem vontade, nas rodas traseiras das carruagens. Eles e os seus cães… de fila.

 

Noto que as pessoas nunca se observaram umas às outras com tanta hostilidade como nos dias de hoje. O povo gosta de opinar e de agitar bandeiras e de se manifestar. Mas quando se trata de defender os seus interesses é uma nulidade objetiva. Não exige, mendiga, deixa tudo nas mãos dos outros. Com o desempenho político do governo, e da autarquia, acho que descobri o que torna idêntica a expressão dos portugueses: é o equívoco. Sentimos que fomos iludidos. Fizeram demasiado ruído em volta das propostas concretas. Resta-lhes a insustentável leveza da vacuidade.

 

Eu sei, todos sabemos, que quando alguém se vê cercado por rostos calorosos nas campanhas eleitorais, muitas das nossas dúvidas e objeções tendem a desaparecer. Mas agora também sabemos que quase todas as mentiras e hipocrisias são assim. A verdade política é momentânea. Isso é notório no olhar dos atuais dirigentes, neles não há um pingo de razão. Sentimos que erramos. Só não sei se há tempo para voltarmos a errar.

 

Não consigo suportar a ganância, a inveja, a gorda satisfação da vanglória, os ódios e destruições, a falsidade, os rancores. A minha capacidade de tolerância está cada vez mais baixa. Por isso sinto que se torna necessário escolher para nos dirigir alguém com capacidade para olhar os nossos problemas com mais clareza, que não se rodeie de indefinições, arranjismos, que se liberte, e nos liberte, de oportunistas, medíocres, conspiradores e judas, sempre prontos a vender o líder por trinta dinheiros. Além disso, também devemos evitar deixar-nos comover por aqueles que derramam lágrimas como os pinheiros largam resina.

 

Dizem os historiadores que nos tempos da rainha Isabel, os barbeiros tinham alaúdes e guitarras na barbearia para que os cavalheiros que estivessem à espera pudessem cantar e tocar. É que demorava muito tempo a arranjar as barbas e os caracóis que se usavam na época. É tempo de ganhar tempo e conseguir que as instituições públicas despachem o serviço de forma célere e competente. É que o povo não sabe tocar guitarra, só bombo e ferrinhos.

 

Relativamente ao poder autárquico, penso que a maioria dos vereadores considera que ficar sentado é poder. Os reis ficavam de traseiro sentado no trono, enquanto os plebeus permaneciam de pé. Pascal disse que as pessoas se metem em sarilhos porque não conseguem ficar quietas no quarto delas. É bem possível que o vice-presidente da Câmara nos venha dizer que roguemos a Deus para nos ensinar a ficarmos quedos como penedos. E esperar para votar nele. Mas essa é uma aposta numa raspadinha que quase nunca sai e quando o bilhete vem premiado o valor pecuniário é anedótico.

 

Quanto ao actual presidente da autarquia, é possível que conheça bem aquele quadro de Henri Rousseau (A Cigana Adormecida) onde a viajante cigana árabe adormece ao lado do bandolim enquanto um leão olha para ela. Somos todos levados a pensar que o leão respeita o repouso da mulher, que a imobilidade da cigana controla o leão. Mas, a ser assim, isso é magia. E a magia é sempre um truque bem exercitado.

 

É muito provável que o atual poder autárquico tenha adormecido por cansaço. Mas isso não nos pode levar a pensar que basta acordá-lo para que faça aquilo que não foi capaz de fazer até ao momento. O seu tempo de validade foi já foi ultrapassado. Por isso temos de atuar como nos aconselham os bons hábitos. Aproxima-se a hora da sua substituição. É a lei natural da vida. Todos os ciclos têm o seu fim útil. E este não é exceção. Fazemos votos para que não o tornem inútil. Há que renovar a esperança. Há que mudar de vida. Há que encontrar novos protagonistas. Há que construir uma alternativa válida e coerente. E a tão árdua tarefa não admite exclusões. 


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Domingo, 23 de Outubro de 2011

Olhares


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Sábado, 22 de Outubro de 2011

Olhares


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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

O Homem Sem Memória

 

85 – Nas noites quentes de Verão, o José, se não tivesse algum bailarico a que ir, acampava em casa do Fernando e só de lá saía a altas horas da noite. Gostava muito do Fernando, mas apreciava ainda mais as conversas cultas do seu ilustrado pai. Então se tivesse já um grão na asa, o senhor Carvalho convertia-se num autêntico guru.

Convém referir que o pai do Fernando era o mesmo senhor que sugeriu e emprestou, ao José, vários livros da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian em Montalegre. A verdade é que o senhor Carvalho não se lembrava do José, mas o José lembrava-se muito bem do senhor Carvalho.

O bom do senhor Carvalho continuava o mesmo: bonacheirão, amável e culto. Sobretudo gostava de partilhar. Partilhava a sua intrínseca bondade, o sorriso amplo e ligeiramente atrapalhado, a cultura e a solidariedade. Podemos dizer, sem fugir muito à verdade, que o senhor Carvalho era também bom amigo do guarda Ferreira. No entanto, com o pai do José não partilhava a sua admiração por Elio Vittorini e Mozart. Com o GNR limitava-se a beber muitos e bons copos de tinto nas distintas tabernas da cidade e a falar da vida, das coisas boas da vida como a amizade, a comida, a bebida, a luz do sol, o chilrear dos pássaros, o sorriso das crianças, da mulher, dos filhos, da sua banda de música, da sua infância e do seu trabalho, que considerava um dos melhores do mundo, do privilégio que era trabalhar rodeado daquilo que mais amava, os livros. E bebia. E sorria. E sorria e bebia. O guarda Ferreira também sorria, mas por ver sorrir o amigo. Sorria por imitação. Sorria por entre uma nuvem azulada de fumo, com o seu sorriso paciente. Pensando-o feliz, o senhor Carvalho, bebia mais um copo, comia mais uma sandes de vitela assada e galhofava mais um pouco.

O pai do Fernando tinha tendência para acompanhar o copo de vinho com uma bucha, já o pai do José limitava-se apenas a acompanhar a pinga com os cigarros. O senhor Carvalho tendia a falar e a beber muito. O guarda Ferreira limitava-se a beber, a fumar e a ficar calado que nem um rato. Por isso, o senhor Carvalho apreciava a sua companhia, considerava-o um excelente ouvinte. E disse-lho muitas vezes: “Ouvintes como o meu caro amigo já há poucos. Por isso venha de lá mais um copo e uma sandes de vitela assada. Tem a certeza de que não quer comer mesmo nada? Fazia-lhe bem. Ao vinho devemos fazer cama no estômago.” Mas o guarda Ferreira limitava-se a sorrir com o seu sorriso afetado, a deitar abaixo mais um copo de tinto e a fumar outro cigarro.

Então o senhor Carvalho voltava a olhar para o sorriso triste do pai do José e, solidariamente, tornava a falar-lhe do privilegiado trabalho de emprestador de livros, da perfeição da natureza, da formosura de uma mulher, da infinita lindeza do sorriso de uma criança, da pulcritude do nascer e do pôr-do-sol.

Sempre que o senhor Carvalho empregava termos como “pulcritude”, o guarda Ferreira esboçava um esgar como se todo o vinho bebido lhe tivesse azedado no estômago e puxava uma grande passa do cigarro. O senhor Carvalho, fazendo que não via, ou não vendo mesmo, o ar contristado do amigo, tentava focar-se na sua imagem esbatida atrás da nuvem de fumo, e ali, no meio da semi-obscuridade da taberna, fazia renascer o piar dos passarinhos, o som transparente da chuva a cair na terra seca, a gargalhada profunda do seu filho Abel, o mais novo, a doce melodia de um solo de clarinete, o rufar de uma caixa, o som cavo e ligeiramente roufenho de um trompete, os passos profundos de uma tuba, o som de palha verde de um saxofone, o timbre budista dos ferrinhos ou o estridente estampido dos pratos.

O guarda Ferreira, que não era invejoso nem ciumento, olhando e ouvindo o seu amigo bibliotecário, sentia subir por si acima uma raiva surda, pois não era sequer capaz de se entusiasmar com o bonito sorriso dos seus filhos. Sabia que não podia falar como o senhor Carvalho, que não podia solfejar como o senhor Carvalho, que não podia aspirar a trabalhar num emprego calmo e tranquilo como o trabalho do senhor Carvalho, que deixava tempo para as coisas boas da vida, que não podia aspirar a mandar os seus filhos estudar para a universidade como o senhor Carvalho, pois o seus filhos não eram tão inteligentes como os do senhor Carvalho, nem ele ganhava um ordenado como o do senhor Carvalho, nem o Estado dava apoios como a Gulbenkian do senhor Carvalho, nem podia satisfazer-se com o sabor de uma sandes de vitela assada como o senhor Carvalho, pois não era homem para fazer cama ao vinho, ele emborcava o vinho, não por prazer, mas por vício, ele fumava, não por prazer, mas por vício, ele fornicava a mulher, não por prazer, mas por vício e por obrigação, ele não multava os transgressores por prazer, como a maioria dos colegas, mas por dever, pelo vício do dever, ele não era feliz como o senhor Carvalho porque não o sabia ser.

Para o guarda Ferreira a vida era um sofrimento. Pensava que estar vivo era uma enorme canseira e nada tinha de bonito ou agradável. Para ele, os pássaros serviam para comer, o sol para aquecer, a chuva para regar os campos, os livros para ajudar a subir na vida e para aprender a mandar nos outros, a mulher para procriar, os filhos para chatear, a música para bailar, o vinho para emborrachar, a comida para nos manter vivos, os cigarros para chupar e a lei para cumprir e fazer cumprir.

Mas vendo o prazer que o seu amigo Carvalho tirava apenas da lembrança da gargalhada de um filho, da simples imagem de um pôr-do-sol, da sonoridade de um instrumento musical, do sabor de uma sandes de vitela assada, do som da chuva ou do simples sabor de um copo de vinho, a raiva subia-lhe direitinha ao cérebro, pedia desculpa pelo incómodo e lembrava ao amigo que estava na hora de ir para casa ter com os seus, dos quais sentia saudades.

O guarda Ferreira dizia isto, mas pensava coisa distinta, pois, como bem sabemos, evitava ir para casa cedo para não dar de caras com as trombas da Dona Rosa. Dali, por certo, rumaria a outra taberna onde seguramente encontraria outros amigos da pinga que bebiam este mundo e o outro simplesmente por desfastio, por vício. A felicidade, e a bonomia, do senhor Carvalho ofendia-o, deixava-o triste. Uma pessoa infeliz convive mal com a felicidade dos outros.

Mal deu um passo caras à porta da taberna, o guarda Ferreira sentiu-se bambolear como uma árvore mole ao vento. Sentou-se de imediato e ficou amarelinho como um peido. O senhor Carvalho sentou-se a seu lado e começou a falar-lhe da saudade. “Gostei de o ouvir dizer que está com saudade dos seus. Isso é bom de ouvir. A mim basta-me passar um dia fora dos meus e sobe-me logo ao coração a saudade. Sinto muita saudade do meu filho mais velho que anda lá por África a combater naquela guerra desalmada. Sabe, a saudade é um sentimento genuinamente português,  só conhecida em galego e português. Descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor. A palavra vem do latim "solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar".

O guarda Ferreira, olhando com olhos de dizer para o senhor Carvalho, proferiu estas rudes palavras: “O senhor Carvalho que me desculpe, mas eu quero que a saudade se foda e o chilrear dos passarinhos e o nascer e o pôr-do-sol e a música do clarinete e do saxofone e do… e do trompete e… O senhor Carvalho que me desculpe, mas eu quero que se foda tudo, não sei se me compreende. E a saudade também. Sobretudo a saudade. Que se foda a saudade e o som da tuba e o cantar dos pintassilgos e a saudade, sobretudo a saudade. Eu quero lá saber da saudade para alguma coisa.”  


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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

Olhares


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Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011

O Poema Infinito (70): a densidade de um segundo de criação

 

Vejo da minha varanda hermética um cavalo varado pelo desejo aromático dos prados verdes. O cheiro dos crisântemos assombra a tarde que se forma sobre o ar vivo das cores do arco-íris. Numa das margens do rio um astro melancólico começa a ascender. O sol suave abre agora a noite inteira sobre o dorso do cavalo varado. O silêncio na curva do rio é imenso. Cai a noite. Nesta noite imprecisa mora a memória derradeira dos meus antepassados. Por isso o cavalo varado persiste em caminhar sobre as pedras do desfiladeiro provocando relâmpagos persistentes. A noite ensurdece enquanto eu caminho sobre as pedras dispersas da minha pobre casa. Os meus olhos são agora lagos. Os meus membros são agora sombras e silêncio. A minha cabeça é agora o caos da criação. Todo eu sou a sede vertebrada dos desertos. Todo eu sou a língua que já não cabe na boca. Os anjos fosforescentes dançam na erva e depois elevam-se como ondas por entre as coxas das mulheres em cio. Os seus corpos esperam. As suas inconsoladas bocas assopram o fogo-fátuo do amor. Este é o celeste inferno do desejo e da morte. Mulheres enleadas nas asas dos anjos gritam explosões de orgasmos. Choram e gemem. Amam e desesperam. Sussurram e morrem na fúria do amor. Olho a torção dos seus corpos possuídos pelo desejo divino. Deus é agora uma mulher aos gritos e engasgada com a perda da virgindade. Os anjos explodem em palavras bíblicas. O sémen na vulva divina tem a suavidade sedosa dos hermafroditas. Deus é agora a lâmpada íntima do prazer. Corpos suaves arrancam-se da fúria. Todo o desastre de amor é uma ruína interior. A minha mão conduz firme o cavalo varado pela mansidão da noite. As palavras sagradas cruzam-se dentro do meu delírio. Todas as casas engolem a vida, os sonhos e a memória. O tempo toma conta da narrativa. O tempo persegue as noites densas do álcool, separa os corpos da vida, embrulha a mágoa em mortalhas febris, proclama a eternidade do vício, grita a infâmia dos mortos, a coragem dos versos lapidados, o timbre curto de um raio de sol, o destino portátil dos limites. O tempo é o riso postiço de Deus e de todos os deuses e de toda a raiva divina e da revolta do sangue, por isso grita a razão da fantasia, a evidência dos teoremas, a vertigem das carícias, o deslize das duas estrelas que te alumiam os olhos. Sentimos a espera orbital dos planetas inseguros, negamos três vezes a verdade e a mentira, recompomos a natureza humana a partir da serpente e distribuímos segredos impessoais. As palavras mais pobres choram na sombra dos teus olhos. Subo de novo as escadas submersas da casa da minha aldeia. O rio enlouqueceu por entre as pedras da barragem. Amanhece. A sombra do arco-íris ainda é visível na minha pele. O relógio continua a marcar o tempo cada vez mais inútil. Acaricio novamente com as minhas mãos navegadoras a constelação tranquila do teu corpo. Grandes animais silenciosos tomam conta do vale. Um homem metamorfoseou-se em menino. O cavalo varado converteu-se em cavalo de bruma. E com ele chega o bom cheiro da madrugada. Tudo se torna por momentos mais claro. Rejubilemos


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Terça-feira, 18 de Outubro de 2011

Olhares


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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

A generosidade e o descalabro

 

É fácil ser-se generoso quando não interessa. A qualidade dos governos vê-se quando chega a hora de tomar as decisões difíceis. Este executivo, posto perante o dilema do doente diabético, cortou-lhe ambas as pernas antes mesmo de ser necessário.

 

Fazendo um inventário do país, olhando para ele como quem observa uma casa, veremos que tudo está cada vez mais errado: o telhado empenou, a pintura e o estuque do interior desbotou, os caixilhos das janelas começam a apodrecer e os tijolos necessitam novamente de argamassa.

 

Convenhamos que esta casa chamada Portugal nunca foi propriamente uma mansão, no entanto chegou a ser uma habitação robusta, ainda que rasteira. Mas ao estado a que isto chegou, já não sabemos se vale a pena arranjá-la ou se será aconselhável arrasá-la e construir outra nos caboucos da anterior.

 

Os novos profetas do desenvolvimento espalharam aos quatro ventos que andavam a fazer um Portugal melhor e com futuro, desprezando a voz daqueles que tiveram a coragem de avisar que gastar o dinheiro que não se tem é sempre um mau caminho a percorrer. Eles, lá do alto do seu poleiro, cacarejavam que o país devia desprezar a voz dos políticos razoáveis.

 

Agora descobrimos que a realidade do nosso buraco financeiro nem mesmo à luz da razão e dos sacrifícios pode escapar. Os culpados estão todos espalhados estrategicamente pelos quadros dirigentes dos (in)distintos partidos, uns porque pediram o possível e o impossível e outros porque ofereceram aquilo que não tinham, recorrendo sempre a empréstimos com que hipotecaram o futuro do país e das próximas gerações.

 

Logo após o 25 de Abril, a esquerda revolucionária desmantelou todo o nosso tecido produtivo, nacionalizando a eito, enquanto ia espalhando o patético slogan de que o povo só tem direitos. Por causa desses abusos, Mário Soares viu-se obrigado a meter socialismo na gaveta.

 

Entretanto, os trabalhadores, seguindo a ficcional e delirante narrativa sindical, transformaram o poder da rua em demagogia pura, dando lugar à tragédia atual. Pois, logo após cada jornada de luta, os trabalhadores, à medida que iam vendo subir os seus salários, tapavam as orelhas aos avisos de quem fazia as contas e anunciava que o endividamento do Estado e das empresas já tinha ultrapassado o limite da sustentabilidade. Perante o descalabro, os distintos governos foram-se comportando como verdadeiros autistas e suicidas.

 

Cavaco bem pode agora clamar pela agricultura e pelas pescas, que não se livra da legítima acusação de que foi ele quem as destruiu. Guterres bem pode ir carpir os seus pecados veniais para a ONU que também não se livra de ter espargido o dinheiro dos fundos europeus para cima dos problemas, como quem derrama água em cima de azeite a ferver. Durão Barroso, vendo a casa a cair aos bocados, aproveitou a boleia europeia e fugiu para a gaiola dourada de Bruxelas, onde nada se decide e tudo se atrapalha, protagonizando agora o deselegante papel de moço de recados de Merkel e Sarkozy.  

 

Santana, o menino guerreiro, demonstrou como se pode chegar ao poder com a competência de um presidente de junta de uma freguesia da área metropolitana de Lisboa. O seu partido envenenou-lhe o futuro político com a oferta do cargo de primeiro-ministro e o presidente Jorge Sampaio, em vez de lhe fornecer o antídoto, reforçou a dose com a desculpa do desajuste da representatividade parlamentar em relação à realidade política. Daí resultou, sem que, convenhamos, viesse mal ao mundo, um autêntico golpe de Estado constitucional.

 

Sucedeu-lhe Sócrates que começou a governar de forma incisiva e rápida. Se calhar rápida demais para a realidade portuguesa. As suas decididas reformas encheram as ruas de toda a espécie de manifestações. A esquerda insultou-o de tudo. A direita enxovalhou-o. Quando os sindicatos vieram para a rua exigir a cabeça dos ministros mais corajosos, Sócrates titubeou na estratégia, dando o flanco à esquerda e à direita, ficando cada vez mais apertado entre um país enraivecido pelas manifestações e pelas greves, apoiadas à altura, ó ironia das ironias, pelos partidos mais à direita que inventaram, à pressa, o direito do povo à indignação.

 

Agora temos um governo que, mais do que nos governar, se comporta como uma comissão liquidatária. Enganou-se no prognóstico, mentiu nas promessas, titubeou, e titubeia a cada dia que passa, na implementação das suas propostas eleitorais. Corta aqui, corta ali, corta acolá. Mente aqui, mente ali, mente acolá. Esconde a inoperância debaixo do manto diáfano da hipocrisia. Insulta os adversários políticos, lava as mãos como Pilatos quando se trata de assumir as responsabilidades económicas e políticas de longo prazo. Assusta as pessoas com a história do Lobo Mau chamado Sócrates e encobre Alberto João Jardim que é um intrujão compulsivo e um chantagista político. Mas o cartão laranja lava mais branco do que o Omo. E como se tudo isto fosse pouco, encarnou o papel do maior perseguidor de funcionários públicos de que há memória. E vinga-se neles como se fossem judeus, negros ou alienígenas.

 

Com toda esta tragédia grega, à portuguesa, Portugal apaga-se a olhos vistos. O seu corpo começa a descontrair-se com a expectativa da derrocada. Perdido por cem, perdido por mil. Actualmente já ninguém antecipa o prazer, mas antes o alívio da dor. E olhem que isto é que é o descalabro.  

 

Estamos mergulhados num dilema: precisamos de dinheiro para mudarmos de vida e de paradigma, mas também precisamos de mudar de paradigma e de vida para ganharmos dinheiro.

 

Entretanto roubaram o 13º e o 14º mês aos funcionários públicos, por entre o sorriso sardónico do ministro da economia e o sorriso cínico dos empresários e banqueiros. O primeiro-ministro faz que chora. Mas os portugueses sabem agora que deslizam num plano inclinado e vão bater violentamente na parede. A perspectiva economicista da política voltou a triunfar. O salazarismo continua ativo. O PSD apronta-se para matar o país da cura, não sabendo que, inevitavelmente, perecerá com ele. Este governo comporta-se como um verdadeiro serial killer do tecido económico e social do país. Para já, o PM entretém-se em destruir a classe média portuguesa concentrada no funcionalismo público. A seguir irá em busca da restante que se encontra espalhada pelos outros sectores laborais. Pedro Passos Coelho abriu a caixa de Pandora. Nisso, reconheço, tem a coragem dos incautos. O problema vai ser fechá-la. 


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Domingo, 16 de Outubro de 2011

Cá no alto


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Sábado, 15 de Outubro de 2011

Iluminações


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Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

O Homem Sem Memória

 

84 – Após o desaparecimento do António, a música romântica passou a ser vista pela rapaziada do bairro como agoirenta. “Música de fraca qualidade só pode dar azar”, diziam uns para os outros com cara séria. Os mais velhos contrapunham que a música nada teve a ver com a tragédia do António. Mas os jovens, como é normal nesta idade, não os escutavam. Para eles músicas foleiras tais como o “Calhambeque”, “A Namoradinha de um amigo meu”, “Ó tempo volta para trás”, etc., apenas podiam levar o ouvinte ou a ouvinte, à desgraça, à alienação e à submissão. 

Naquela altura, à falta de um ídolo popular de bairro, os jovens começaram a seguir vários programas de rádio, nomeadamente um que baseava a sua popularidade na ideia da formação e expansão de grupos de escutas pelo país fora e que emitia cartões de associados a quem os solicitava. O eclético programa musical ia para o ar todos os dias da semana, aos fins de tarde, e também aos sábados e domingos, de manhã. Radiodifundia a música que os mais distintos grupos de escutas lhe solicitavam e divulgava outra tanta como sugestão a ter em conta nas próximas listas de pedidos.

No bairro existiam dois clubes já organizados e com os respectivos cartões emitidos. Um era liderado pelo David e o outro era dirigido pelo Júlio. O grupo do David baseava as suas preferências musicais em Joe Cocker e Elvis Presley, muito por influência de um tio emigrante nos EUA que lhe enviava, de vez em quando, uns discos desses artistas. O grupo do Júlio era devoto dos Uriah Heep e dos Slade, que escutava em casa de amigos, especialmente de um que, por ser filho de um relojoeiro, tinha alguma facilidade em adquirir discos dessas bandas rock.

Estava visto que havia ainda espaço para a criação de outro clube para diversificar, e melhorar, a proposta musical do recente programa da rádio. Nesse sentido, o José reuniu um conjunto de amigos e fundou o terceiro grupo de escutas do bairro, com o criativo nome de Águias. Quando ouviram, pela primeira vez, sair do altifalante da telefonia os seus nomes, pularam de contentes.

Os Águias eram adeptos dos Beatles, Rolling Stones, Deep Purple, Jimmy Hendrix e Pink Floyd. Cotizavam-se para comprar alguns discos, organizar bailes e também para comprar revistas de música e banda desenhada que trocavam entre si.

Foi nessa altura que o José se fez amigo de um rapaz que se chamava Fernando e que era muito míope. O Fernando tocava viola e era um fanático do xadrez, dos matraquilhos e das histórias aos quadradinhos. Coleccionava tintins e lia boas revistas de BD franco-belga que um irmão emigrado em França lhe enviava pelo correio. Apesar de míope, o seu amigo jogava muito bem à bola e desembaraçava-se com muita destreza em todos os demais desportos.

Em casa do Fernando, a música era outra: Johnny Halliday, Michel Polnareff, Adamo e Gilbert Becaud, por influência do irmão emigrado. Também se ouvia Beethoven, Mozart e outros compositores clássicos, pois o seu pai era um admirador incondicional de música sinfónica, emocionando-se, quando a ouvia, até às lágrimas. Com ela e com um ou vários copos de tinto, de quem era também fã absoluto.

O seu amor pela música, pela literatura (pois era funcionário de uma biblioteca itinerante da Gulbenkian) e pelo vinho tinto fizeram dele um homem excepcional. Era mestre querido da banda filarmónica de Névoa, um bom professor de solfejo e interpretação musical nos diversos instrumentos, um pai extremoso e um marido dedicado. Gostava de comer, beber e de recomendar bons livros. Era admirador confesso de Victor Hugo e de Elio Vittorini.

Podemos dizer, sem menosprezo pela verdade, que o José tinha uma inveja sã das qualidades do Fernando. Mas o que mais admirava no amigo era a sua habilidade inata para o desenho. Reproduzia os desenhos que via nas revistas de BD com uma fidelidade assombrosa. Além disso era um barra em matemática.

Foi por tê-lo como exemplo que decidiu deixar crescer o cabelo. Tornaram-se inseparáveis. Entusiasmados, matraquilhavam numa caixa mais reduzida que as originais, oferecida pela Gulbenkian por altura do Natal e jogavam xadrez num tabuleiro também oferecido pela Gulbenkian em circunstância idêntica.

O José ouvia o amigo tocar lindos sambas de Vinicius de Moraes e ousadas baladas de José Afonso, naquela altura um músico proscrito, e uma que outra canção dos Beatles, por serem de mais fácil execução do que muitas outras de compositores que admiravam.

Chegava a passar em casa do amigo dias inteiros absorvendo toda a cultura de que era capaz. Iam para um campo próximo onde o Fernando, apesar da miopia e dos óculos com lentes muito graduadas que era obrigado a usar, conseguia ser sempre o melhor em campo, pois tanto jogava a avançado, como a médio, ou mesmo à defesa, chutava com os dois pés, fintava como o Pelé, o Eusébio e o Garrincha, fazia passes com uma precisão incrível, e equipa onde jogasse ganhava sempre os jogos, fossem amigáveis ou mesmo a doer. Decorava as letras das canções em inglês de lei e reproduzia-as com um rigor assinalável, sempre acompanhado pela viola, que dedilhava com muito esmero e elegância. 

Além de imbatível no futebol, nos matraquilhos e no xadrez, era exímio no pingue-pongue e no snooker. Tinha um sentido de humor muito apurado e gostava de partilhar tudo o que era seu com os amigos e conhecidos. Mas se era assim com os rapazes, na presença de raparigas ficava acanhado, fechando-se em copas, sugerindo mesmo uma inusitada rispidez. Elas, as marotas, por seu lado, retribuíam-lhe na mesma moeda, lembrando-lhe amiúde o seu aspecto bizarro devido às lentes dos óculos que lhe conferiam um certo ar de deficiente. Diziam-lhe que tinha ar de fuinha. Por isso, o Fernando não ia a festas ou a bailes, não saía com raparigas, passava dias e dias em casa lendo, ouvindo os seus discos, jogando com os amigos, desenhando e tocando a sua viola. E fazendo panquecas. Até na cozinha era um ás.


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Quinta-feira, 13 de Outubro de 2011

Curva à direita


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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

O Poema Infinito (69): o ponto incandescente

 

A perfeição do teu brilho é lenta. Todo o rigor da tua vagina é uma estrutura perfeita que aparece veemente sobre o sossego do meu olhar. O brilho do silêncio circunscreve a extensão do coito. Sobre o sacramento dos nossos corpos o tempo sobra. Recebo-te em vagares felizes. O prazer entra em nós como uma luz redentora. Trazes-me o espírito da fecundidade. Eu sei que a idade é uma tristeza. Mas a tristeza é um acaso. Respiramos o espaço do tempo. O vento e a chuva que se afasta da janela. A surpresa da terra. O afeto dos rios. A transparência dos dias. A limpidez da chuva. A diafanidade da janela. O sonho concreto de uma abstração. Respiramos a transparência do amor e da morte. Todo o tempo é uma saudade mortal. Todo o tempo é uma insustentável melancolia. Abre-se em nós o júbilo da incerteza. Somos como anjos ascéticos prontos a pecar pelo bem. Somos o lugar do esquecimento onde tudo se lembra. Somos o mundo alado dos pássaros de fogo. Somos o fogo sagrado de um deus ausente. Somos o terreno celeste do vazio e a espera e o esquecimento e o espaço invisível e a memória aberta das coisas esquecidas. Somos a água que tudo empurra para o rio. Somos o rio. Somos as suas margens. Somos a sombra antiga do sossego e a inóspita certeza do abandono. Somos a consciência infinita e a interminável fé das marés. Somos a expetativa apurada da indulgência e o sossego incendiado do desejo. Somos a incorruptível verdade das manhãs e o pasmo dos dias e do cansaço das noites e o ritmo acelerado da paciência e da ciência e da fé e da esperança. Somos o menor indício de Deus e o maior indício da complacência. Somos o fulgor específico da perseverança. Somos o exercício da invisibilidade do pensamento e a ausência pacífica da guerra. Somos a teimosia azul da solidão. A eternidade vive na fugaz memória do amor e na certeza da morte. O infinito é uma tarde de sol ardente. Por isso o tempo perde a sua imagem. Celebramos o lento júbilo das imagens, a penitência eterna dos domingos, a rigorosa face de todos os espíritos. Todas as imagens se expandem na direção da máquina fotográfica. Dizem que pensar em Deus nos afeta a fé. Por isso sofremos a antiga deflagração do Big Bang. Deus é a prefiguração da verdade do Big Bang. Deus é uma big band. Deus é Count Basie e a sua orquestra tocando The Complete Atomic Basie. O movimento recrudesce e tudo volta a crescer. Somos a alegria do sofrimento e o silêncio que nos escuta. Somos, apesar de dois, o júbilo santíssimo das trindades. E a língua empolga e o desejo transparece e os sentidos expandem-se num mar de sensações. Todo o ato de amor é uma surpresa expansiva. A luz volta a repousar nos teus olhos que são estrelas cadentes.  Sossegamos agora no jubiloso acorde de uma ejaculação íntima e de um orgasmo plácido. Somos. Somos apenas o ponto mínimo de um universo em expansão, mas irradiamos ainda a intensa cintilação da claridade da vida. 


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Terça-feira, 11 de Outubro de 2011

Brilho no olhar


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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011

Comentários e doações

 

Não é apenas de finanças que o país anda mal, é, também, de lideranças político-partidárias e governativas. Mesmo os socialistas mais empedernidos sentem que o seu secretário-geral é um erro de casting. Claro que o homem é sério, mas falta-lhe presença, chama e capacidade de chefia. Todos sabemos que não é líder quem quer, mas sim quem desenvolve genuinamente essa predisposição, quem “toca” nas pessoas com as suas palavras, quem emana poder, quem sugere empatia, quem fascina, quem convence e quem consegue ser seguido sem o impor.

 

Vasco Pulido Valente, o colunista mais opinativo e viperino dos media portugueses, arrasou por completo, nas páginas do Público, António José Seguro. Desde logo porque não morre de amores pelos socialistas. Convenhamos, no entanto, que o VPV também não morre de amores por ninguém. Mas, pelo menos, tem a coragem de escrever aquilo que pensa, sem tibiezas, disfarces, meias palavras ou exercícios de retórica. O meu amigo R. é um seu leitor fiel.

 

Uma bela manhã de sábado, entre o alegre e o excitado, o R. citou-me trechos de um artigo do Vasco. Eu, por descargo de consciência, transcrevo parte delas, para que nem ele nem os estimados leitores, me acusem de sectário. Ei-las: “Nunca, em quase 50 anos, conheci um político que se aproximasse tanto de não ser nada como o António José Seguro. Não tem um currículo académico de qualquer distinção. Não tem currículo profissional. Nunca esteve à frente de um grande ministério ou se distinguiu na administração do Estado. E o seu nome não está associado a qualquer grande causa. (…) Em 30 anos de PS raramente se deu por ele. E os socialistas votaram por ele, porque não podiam votar num herdeiro de Sócrates. Até Mário Soares, pela única vez na sua vida, se absteve. E assim ficámos com um chefe da oposição sem uma ideia na cabeça e com um ar irresistível de seminarista. (…) Sucede que (…) Seguro foi apanhado entre um passado impossível e um futuro a que obviamente não pertence.”

 

Reconheço que a última frase é arrasadora. É arrasadora porque encerra em si todo o rigor dramático de um líder que não é querido por quem nele votou e é desprezado pelos seus opositores.

 

O R. também me lembrou, e eu lembro aos estimados leitores, que há gestos e actos que definem uma personalidade. Por exemplo, António José Seguro, contra a tradição estabelecida, indicou o seu próprio nome para conselheiro de Estado. E a eleição pela Assembleia da República é apenas uma formalidade.

 

Nessa mesma manhã de sábado, o F., dividido entre o pastel de carne e a meia de leite, lembrou, e bem, que tanto o secretário-geral do PS, como Pedro Passos Coelho, são o produto de uma “cultura de partido” que tomou conta do nosso sistema político e aproximou a democracia portuguesa duma caricatura. “Actualmente”, disse o F. enquanto mexia o líquido da chávena, “tudo está partidarizado: o funcionalismo, as câmaras, a justiça, o sector público e, para espanto de todos nós, liberais confessos, a maior parte do sector privado.”

 

Eu lembrei que tanto PPC como AJS não possuem carreiras académicas, ou profissionais, relevantes. Ambos e dois cresceram na leira promíscua das juventudes partidárias, que chegaram a presidir. Foi aí, nessa antecâmara do poder partidário, onde viveram, e protagonizaram, rivalidades e intrigas. E é bom que tenhamos presente que AJS foi eleito líder do seu partido com cerca de 15 000 votos e o actual primeiro-ministro com apenas mais uns poucos milhares. E com essa diminuta representatividade, um já chegou a PM e o outro diz ambicionar poder ocupar a mesma cadeira em breve.

 

De repente apareceu o L. e sentou-se ao nosso lado. O bom do L. senta-se sempre com o seu ar de gentelman, honra lhe seja feita. Apercebendo-se do que estávamos a falar, trouxe ao debate a douta opinião de outra comentarista afamada e com reputação de ter mau feitio, que logo de início não acreditava que Passos Coelho tivesse o killer Instinct necessário para um líder, mas a frieza com que o tem visto tomar atitudes fá-la acreditar na nova onda política. Afinal, Maria Filomena Mónica é mesmo uma mulher de ondas.

 

“O seu argumento mais consistente sobre esta governação”, lembrou o L. com o seu semblante de Roger Moore envelhecido, foi o de que Passos Coelho é bonito e que gosta muito do corte de cabelo do ministro das Finanças. Sobre o corte de cabelo de PPC nem uma palavra e sobre a beleza do ministro das Finanças outro tanto. Entrementes, eu pus-me a rememorar e, pretendendo descobrir a opinião de um técnico avalizado, lembrei-me de uma entrevista publicada no jornal I e da resposta do barbeiro Joaquim Pinto, um diplomata da tesoura, que sobre a cabeleira de Passos Coelho afirmou: ‘Acho que poderia ter um corte mais adequado à fisionomia. Talvez ficasse melhor.’ E olhem que ele sabe do que fala, pois o senhor Joaquim cortou o cabelo a Magalhães Mota, Sá Carneiro, Sá Machado, Eurico de Melo e Mota Pinto.

 

Já o professor Marcelo, sobre os 100 dias de governo, expôs este taxativo argumento: “Até agora foi sóbrio, mas correspondendo às expectativas e revelando até agora uma boa forma física que em tempo de crise é notável.” Depois desta apreciação, resta-nos desejar que consiga, o Governo, claro está, os mínimos para poder participar nos Jogos Olímpicos do Brasil.

 

O R., que também gosta de dar um arzinho da sua graça, proferiu: “Na sua última entrevista, o professor Marcelo revelou um dado inquietante. Confirmou que agora está a dormir um pouco mais, entre quatro e quatro horas e meia. E que às vezes vai mesmo até às cinco. O que é sinal de envelhecimento, pois contraria a evolução normal, porque as pessoas costumam começar a dormir menos à medida que envelhecem. Sempre do contra este velho Marcelo!”

 

Estávamos todos nós a digerir a informação prestada pelo R., cogitando se havíamos de chalacear ou de chorar, quando o F. se começou a rir às gargalhadas. O L., de surpreendido, quase cuspiu a pedaço de torrada que estava a mastigar. A maioria dos clientes do café olhou na nossa direcção para se inteirarem do motivo de tal desaforo. E ele, o L., como se fosse autista: “Vem aqui no jornal que António Cabeleira doou, generosamente, 37 livros ao Município de Chaves, todos adquiridos no desempenho do seu cargo de deputado. Agora faz-se alarde de actos tão comezinhos como este.”

 

O R., lembrou, nem de propósito, que ainda há pouco tinha comentado que há gestos e actos que definem uma personalidade. Eu aproveitei a deixa para perguntar ao L. qual o real motivo de tão sonora e inquietante gargalhada. Ele respondeu-me que em política o ridículo mata. “Se ao menos fossem livros comprados pelo senhor ex-deputado”, comentou, “ainda vá que não vá. Agora doar livros que lhe ofereceram dando-se ares de benemérito, anda muito perto do caricato. E que tenha feito disso um facto público, é sinal evidente que a sofreguidão do poder é bem má conselheira. Se o ridículo pagasse imposto… Mas os actos ficam com quem os pratica. Topa-se ao longe que não aprendeu nada com João Batista. A discrição, a coragem e a tolerância, são atributo dos sábios. E a cultura não se compra numa farmácia. Demora anos e anos a adquirir.”


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Domingo, 9 de Outubro de 2011

A mulher de negro


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Sábado, 8 de Outubro de 2011

A mulher do lenço


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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011

O Homem Sem Memória

 

83 – E o António, depois de muito cabecear, desesperar e toleimar contra os códigos dos testes de código, conseguiu obter a tão almejada carta de condução. Um presunto, dois contos de reis e uma que outra palavrinha dada pelo Jeremias da Dona Augusta aos homens certos, foram argumentos suficientes para que os anjos bons descessem sobre a sala de exame e soprassem ao ouvido do António as respostas adequadas. Mas se no código teve auxílio, na condução safou-se sozinho. A não ser assim, lá tinha ido o pé-de-meia para o catano e o sonho de ter um carro para o maneta.

Agradecido, o Roberto Carlos do Bairro Operário cantou gratuitamente na festa da comunhão solene do filho primogénito da Dona Augusta. Diz quem assistiu que teve uma das melhores actuações da sua breve carreira, sensibilizando enormemente todos os convidados e influenciando decisivamente o nascimento do segundo rebento da Dona Augusta e do seu fervente esposo e efectivo, mas não único, galanteador.

Com a carta no bolso, e algum dinheiro no banco, o António deu luz verde ao pai para tentar apalavrar um carro em segunda mão, mas em bom estado. No entanto, com o dinheiro que ambos juntaram, somente conseguiram comprar um NSU branco, em terceira mão e em estado crítico. E se a chapa revelava sinais evidentes de acidente aparatoso seguido de um agressivo trabalho do bate-chapas, o motor gaguejava, soluçava e aquecia como uma panela de pressão. Apesar de velho e cansado, o calhambeque do António pai e do António filho conseguia prestar os serviços mínimos sem grandes sobressaltos.

Como ambos e dois trabalhavam na cidade, conduziam à vez o automóvel e, também à vez, metiam gasolina que pagavam dos respectivos bolsos. Durante o primeiro mês, tudo correu às mil maravilhas. Mas como as geadas de Janeiro em Névoa eram medonhas, pela manhã o carro recusava-se pegar a trabalhar porque as velas não davam chispa, a bateria descarregava-se com uma regularidade estranha e a água congelava no radiador. Ou seja, logo de manhã, à vez, toda a família, e alguns amigos, eram requeridos para empurrarem a viatura rua abaixo, até o motor arrancar. Algumas vezes, houve mesmo necessidade de empurrar o NSU do bairro até às portas da cidade. E quando ele finalmente pegava, o caminho a percorrer até ao trabalho era tão exíguo que quase sempre a rapaziada se perguntava para que raio é que servia o chaço. Está claro que o filho António, ou Toninho, no doce linguajar da sua mãe, mais o António pai ficavam fulos com os apartes, mas não produziam qualquer comentário. Desde logo porque podiam perder a amizade e pôr em perigo a disponibilidade dos familiares e amigos que gentilmente faziam o favor de empurrar o carro, mas também porque consideravam que um automóvel, mais do que um meio de transporte, constituía uma forma de afirmação social. Além disso, a inveja matou Caim.

Tanto o pai António como o António filho, ou Toninho, eram tão baixos que houve necessidade da mulher do primeiro, e mãe extremosa do segundo, confeccionar uma almofada para ambos e dois poderem chegar ao volante, meter as mudanças e carregar com os pés na embraiagem e no travão, sem perderem de vista a estrada.

Entretanto o Toninho continuou a sua carreira de cantor romântico à capela, animando bailes, baptizados, casamentos e outras festividades da mesma índole. A osmose entre o artista e o seu dedicado público continuou a desenvolver-se de forma entusiástica. E essa relação manteve-se durante algum tempo, o suficiente para o António pai vender o NSU e comprar um Taunus azul, que, mesmo tão maltratado de chapa como o anterior, tinha um motor bem mais fiável.

Além de servir para ambos irem para o emprego sem serem empurrados, o Taunus passou a servir para o António, ou Toninho, se deslocar para as casas, ou localidades, que contratavam os seus serviços de cantor.

Mas o pai António, também ele com uma quota no carro, mesmo que mais pequena do que a do Roberto Carlos do Bairro Operário, passou a exigir a disponibilidade do carro durante alguns dias. Ou seja, a utilização da viatura tinha de ser repartida entre os dois proprietários. No plano teórico a coisa até resultou, só que quando a prática se foi prolongando ao longo do tempo, os interesses individuais principiaram a colidir com o sentido de família. Do desentendimento passou-se mesmo ao confronto. Verbal, claro. E aquilo tornou-se tão sério que quando chegava a vez de um conduzir o carro, o outro ia a pé ou de bicicleta. Pai e filho deixaram mesmo de se falar. E isso afectou de forma particular a mãe do António que, por outro lado, também era esposa do António pai.

Por esta altura já o António filho, Toninho ou o Nelson Ned nevoense, vivia numa pequena casa, que era apenas um quarto com uma porta e uma janela, quatro paredes e um telhado, construída a uma distância de apenas três metros da casa dos pais, mas que lhe dava alguma independência. Foi aí que passou a ensaiar o seu repertório.

Invariavelmente, sempre que o senhor António saía com o carro, aparecia em casa tarde e a más horas, bêbado e confuso. Quando batia à porta era certo e sabido que ela se encontrava fechada e com a chave enfiada na fechadura do lado de dentro. Punha-se então a berrar como o Fred dos The Flintstones, só que a putativa Wilma fazia-se de mouca. Com a bebedeira, o Fred do Bairro Operário, depois de muito vociferar, cansava-se e adormecia. Apenas lá pela manhãzinha é que a extremosa mãe do Toninho, e incomodada esposa do pai António, se decidia a abrir a porta. Só então, o homem, estremunhado, entrava em casa para mata-bichar e abalar para o trabalho.

Mas toda a paciência tem limites. E a paciência de uma mulher despeitada e abandonada pelo marido, que a trocava pela bebida e pelo carro, atingiu o seu limite na noite de Santos.

Nessa noite, o pai do António levou o carro, porque era a sua vez. Mas não o conseguiu trazer para casa, pois mal se segurava de pé. Foi carregado para casa escorado por dois amigos que o encontraram a ressonar de bêbado junto a uma pista de carrinhos de choque. Deitaram-no nas escadas da sua casa, bateram à porta e puseram-se a chamar pela patroa. Ela, surpreendida pelas vozes estranhas, pôs-se à escuta e, quando se inteirou do sucedido, abriu a porta e agradeceu a generosidade dos amigos do seu incorrigível marido.

Mal eles desapareceram do círculo de luz do poste de electricidade da última casa, foi buscar um pedaço de mangueira, habitualmente usado para amansar os filhos, arrastou o seu António até ao cimo das escadas e deu-lhe um enxerto de porrada bem dado. O António pai, de borracho que estava, nem deu acordo.

Um pouco antes da hora da visita ao cemitério, em memória dos fiéis defuntos, quando a esposa do pai António, e extremosa mãe do putativo Roberto Carlos do Bairro Operário, foi avisar o marido que estava na hora de levantar, o homem, como se tivesse acordado de um pesadelo, comentou para a mulher: “Porra, Alice, dói-me o corpo todo. Parece que levei um enxerto de porrada.” A mulher nem chus nem mus.

Na hora do almoço, quando o António filho, Toninho, ou o Nelson Ned nevoense, lembrou que era a sua vez de levar o carro, o pai António assanhou-se todo e, gemendo de dor e desconsolo, avisou: “Hoje o carro volta a ser meu. Tenho de levar uns familiares à aldeia.” Ao que o filho retorquiu: “O pai está a abusar. A sua quota de utilização neste mês já foi ultrapassada. Agora toca-me a mim.” Mas o pai, argumentando que o era e que um filho deve obediência ao progenitor, praguejou, insinuou aptidões, maltratou, inclusive, o cão, a dona e amaldiçoou o filho, chamando-lhe paneleiro, rabeta, anão, pobretanas, judeu, cantor de meia tigela, cigano, preto, galego, pobre, pelintra, filho de um cão tinhoso e… nesse momento, o filho foi-se caras a ele e pregou-lhe tal murro nas ventas que o pôs KO. A mãe, chorando tanto como a mãe de Cristo quando pregaram o seu filho predilecto na cruz, pegou num pedregulho, foi-se caras ao carro e acertou-lhe em cheio doze vezes, tantas quantas as tribos de Israel, os filhos de Jacó e os apóstolos.

À noite, enquanto a família dormia, ou fazia que dormia, o António filho, regou a carcaça do Taunus com gasolina, chegou-lhe um fósforo e desapareceu na noite para nunca mais.  


publicado por João Madureira às 16:10
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Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011

O homem da enxada


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011

O Poema Infinito (68): a desilusão divina

 

Ó infelicíssimo modo de chorar dos amantes abandonados pelo seu criador! Toda a luz verdadeira tem o seu lastro de inocência. A pouco e pouco entramos pacientemente na planície em chamas e voamos perguntando pelos soberbos frutos do pecado. A resposta é uma confusão de palavras densas como precipícios. Enquanto o tempo se expande nós extinguimo-nos. Invade-nos uma lógica invisível, a mesma que provoca a dor industriosa. Fábricas de palavras sussurram leis que cortam como lâminas finíssimas. Os dias obscuros instalam-se na gramática do desespero. A parcimónia rápida da informática debita agora um cheiro acre a desespero. Muros de palavras fazem-nos sonhar com anjos lânguidos de pornografia. A filosofia das lágrimas é um desafio duro. Metáforas helicoidais atordoam Deus. A mensagem dos evangelhos confunde o rebanho do Senhor. Senhor, tu não és digno do sangue dos fracos, nem do sofrimento dos torturados, nem da lazeira dos famélicos, nem da dor dos enfermos, nem do sacrifício dos indigentes, nem da loucura dos néscios. Nem, tampouco, do encanto dos humanos. O peso da tua beleza é um rio tingido de vermelho e carregado de vingança. Os códices da tua verdade são como um gelo azul que corta a pele. Senhor, tu desenhaste-nos como ervas que nascem entre os interstícios da calçada que leva ao teu templo de luxúria. Envolveste-nos de palavras para nos desentendermos, cobriste-nos de pecados para nos atemorizares e prometeste-nos a salvação em troca de ladainhas e comunhões. Também foste tu, Senhor, quem nos assustou com o pecado original, o dilúvio universal e as chamas do inferno. Senhor, tu ensinaste-nos a ordem para obedecermos, a lei para cumprirmos e o amor para desprezarmos. Senhor, tu trabalhaste sempre a minúcia do medo, o discurso da abdicação, a promessa do pânico, o desperdício da vontade, a moléstia da coragem, a idolatria dos mitos e o medonho silêncio dos templos. Senhor, tu és a nossa alienação permanente, a porta sempre fechada, o derradeiro resíduo de uma paixão não correspondida, o cântico frio da prostração, a ideia transfigurada da esperança, a procissão petulante da náusea e do desalento e da indiferença e do abandono e dos sacrifícios inúteis e das orações vazias de sentido e das procissões lastimosas e dos patíbulos de vingança e dos autos de fé e da loucura das guerras. Senhor, nós somos os teus cães de guerra, os teus filhos pródigos, as tuas almas repletas de verdades mínimas e de mentiras máximas. Senhor, nós somos a tua solidão, a tua obsessão, a tua sede permanente e a tua sofreguidão imortal. Senhor, nós somos a tua eterna desilusão. Senhor, tu és o pecador original. Senhor, nós simplesmente nos limitamos a seguir-te. Senhor, aprende a respeitar a nossa humanidade. Apesar de tudo, somos bem capazes de te perdoar. Senhor. Senhor. Senhor. Ó Senhor!


publicado por João Madureira às 07:00
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Terça-feira, 4 de Outubro de 2011

Carregando batatas


publicado por João Madureira às 07:00
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Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

Mudar é preciso

 

Li na LER uma entrevista a Arturo Pérez-Revert – definido por Carlos Vaz de Carvalho como um escritor que nada deve à inspiração e tudo ao trabalho, daí o seu enorme sucesso, pois na sua “fórmula não cabem estados de alma nem tiques de artista” –, onde o “romancista à moda antiga” fala do seu gosto pelas regras como forma de fazer frente a um mundo cada vez mais desregrado e ameaçado pelo caos.

 

Confesso que se eu o conseguisse encaixar nas simpáticas palavras do Carlos tinha encontrado todas as razões para gostar dos seus livros. Mas digo, desde já, que não morro de amores pelos seus romances. Li um ou dois, dos mais badalados, e fiquei-me a dormir no meio de tanta intriga, algazarra, aventura, amor e luta. Com outro sabor quedei depois de ler a sua entrevista à LER.

 

Mas, como estou em época de confissão (é fartar vilanagem), reconheço, ainda, outro pecado semelhante, pois, apesar de também adormecer a ler os romances polifónicos do autor de A exortação aos crocodilos, deleito-me com a erudição das suas entrevistas, nomeadamente as publicadas no livro Uma longa viagem com António Lobo Antunes, de José Céu e Silva.

 

Então o que é que o romancista espanhol disse de tão importante?, perguntarão os estimados leitores. Algo do tamanho e da dimensão de: “A mulher é o único herói interessante que há no século XXI”. Ora quem diz coisa tamanha não sofre nem de cegueira, nem de surdez, e muito menos é mudo.

 

Mas avancemos com calma, pois o terreno está armadilhado: “Sobre o homem já temos três mil anos de literatura: Heitor, Aquiles, D. Quixote, o rei Artur, o conde de Monte Cristo, D’Artagnan, Huckleberry Finn. Vimos o homem em todas as situações possíveis. Mas agora há um herói novo. A mulher de hoje já não é a Madame Bovary, já não é sequer a mulher do século XX. É uma mulher que enfrenta um mundo novo, que, embora conserve os instintos naturais, faz frente a um mundo diferente, que luta num mundo de homens, com armas criadas pelos homens, mas que não deixou de ser mulher. Ainda é o que era e no entanto não é ainda o que será. Sobre essa mulher ainda não se escreveu o suficiente. Porque ela ainda não está completa, está a formar-se nesta altura.”

 

Pois é, tudo o que Pérez-Revert afirmou eu subscrevo. E vou um pouco mais longe. Ou, se quiserem, mais perto. Penso, sinto, intuo e defendo que também a nossa região necessita, como de pão para a boca, de um novo alento, de uma lufada de ar fresco, de novos protagonistas, de novas estratégias autárquicas, de novos horizontes. Temos, em tempo de crise, que não é exclusivamente económica e financeira, mas muito mais profunda, porque geracional e cultural, de criar pólos de atracção e desenvolvimento regional que apostem na inovação, na cultura, na emergência de novos valores socais e éticos, na projecção de um futuro necessariamente diferente, pois a fórmula conservadora já deu o que tinha a dar.

 

O poder de atracção da nossa região pelos nos nossos jovens é patética. Sei que não é apenas por estas bandas que o fenómeno se verifica. Mas também é aqui. E isso é que é duplamente preocupante, pelo menos para mim e para muitos transmontanos que não se conformam com a estagnação e o subdesenvolvimento.

 

Já não são suficientes as boas intenções, já não são satisfatórios o gestos de boa vontade, já não são impulsionadoras as dinâmicas de uma gestão autárquica de navegação à vista. O timoneiro está cansado, os subchefes enquistam-se nas suas cláusulas de rescisão amigável com quem lhes deu alma e corpo. E isso não é bonito de observar.

 

 A luta cega, surda e muda pelo poder “previsto” no partido que actualmente exerce o governo na nossa cidade é compreensível dentro da lógica dos ciclos políticos. Mas ela é tão mesquinha e cinzenta que a todos nos deve preocupar!

 

Mesmo que a facção melhor posicionada para colher de maduro o testemunho autárquico vista novo traje, unicamente pode vir a determinar uma gestão de tal forma espartilhada que, fatalmente, originará uma profunda estagnação. E estagnados estamos nós há muito.

 

E se houve tempo, e necessidade, de estabilizar estratégias, definir outros princípios de gestão, arejar cadeiras e estabelecer diferentes rumos à navegação, urge, de novo, cumprir com a lei fundamental em democracia: a alternância. Todos sentimos que está na altura certa para mudar. É preciso mudar. É necessário mudar. É a vida, como bem diz o meu filho João Vasco com o seu aprumo de aluno aplicado e de mestre científico.

 

Um poder que se rege pela evidência de se perpetuar é um poder árido. É um poder em fragmentação. Em Portugal, definitivamente, temos de começar a ser capazes de sair pelo próprio pé, quando o nosso período vital expirou. Aos empurrões é deselegante, isto afirmo para não usar outros termos menos próprios. Se cumprirmos com a lei da vida, a vida só nos pode sorrir. Mudar é preciso. E olhem que eu sei daquilo de que vos falo.


publicado por João Madureira às 07:00
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Domingo, 2 de Outubro de 2011

Alfaces no alguidar


publicado por João Madureira às 07:00
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