Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

O Poema Infinito (76): o regresso a casa

 

Por mais que procures não descobrirás a fluência dos ventres maternos nem a poesia dos versos límpidos. Encontrarás, sim, as palavras escritas na angústia das pedras e na vertigem das portas. Por isso as minhas lágrimas possuem o sal estranho do desespero. Por isso os meus ouvidos entendem o som das aves frias que se arrepiam junto às sombras das casas que se alongam pelas pedras da eira. O sol é agora uma lentidão silenciosa. As palavras caem ao chão de forma muda enquanto as minhas mãos gesticulam como chamas. Numa esquina porosa o vento acende o verde das ervas e os insetos brilham como pérolas mortas. Talvez os meus olhos, sem o saber, repousem no espaço das folhas liquidadas que alimentam a terra, talvez o esplendor da morte se imponha no vazio das páginas que caminham nas linhas de sombra. Talvez. Talvez por isso os animais dancem na sua quase imobilidade mesmo à beira do turbilhão das árvores. Sinto como minha esta aparente liberdade do caos. A arca do pão guarda agora um vazio enorme de vocábulos. Antigamente guardou o desejo de tudo enquanto lá fora o conjunto impossível da felicidade e do desespero principiava a arder, enquanto a terra, o sol e a água se uniam no hábito de tentar a vida por qualquer meio. O ato de ser tendia a transformar-se num murmúrio proferido por lábios que se alimentavam da caligrafia da terra, quando os arados escreviam o pão-nosso de cada dia. Nesse tempo a vida era um lugar neutro repleto de apelos e as casas eram lugares nus e a pobreza era um princípio de vida e tudo se fazia e dizia através de sinais. Por isso aqui estou eu à beira da origem onde nada começa nem acaba, onde tudo é sede e desejo e angústia. Enquanto a planície se incendeia de aspetos sinto a plenitude de um delírio branco, sinto a dissidência originária onde a minha boca se move entre sequências vivas de palavras de terra e fogo. Os sinais passam rápidos demais para que eu os entenda. Desço a rua deserta por entre indícios de tempo e as casas inclinam-se entre os cones de luz onde perpassam sombras nulas. As palavras então ditas transformaram-se em pó e as páginas em branco dos cadernos converteram-se em caminhos que já não vão dar a lado nenhum. Tudo o que por aqui existe tem cada vez mais um nome breve, tem a forma de uma língua espessa e pesada pela carga dos silêncios e desvalida pelo ardor das feridas negras. Todos os homens e mulheres deste povo morreram discretamente apagados pelas luzes da cidade. Diluíram-se num tempo escuro e invisível. Em nome do seu sofrimento, das suas vidas sacrificadas, dos seus sonhos desesperados, das suas colheitas desfeitas, dos seus nomes de criança, da sua paz ruidosamente silenciosa, rezo-lhes pela alma para que a sua viagem através das nebulosas seja o seu regresso a casa. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 29 de Novembro de 2011

Porco preso


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

O fim da História: uma narrativa de idiotas

 

Esta rapaziada que está no governo é toda bem-falante, são bons fazedores de discursos. São, especialmente, especuladores de maus sentimentos e ases no assédio verbal. O primeiro-ministro parece um adolescente fascinado por coca-cola que, com a lata na mão, a agita para depois ver a espuma toda a sair. Parece o maestro de uma orquestra que nos vai matando com os sons dos violinos, dos clarinetes e com o ribombar dos tambores e dos pratos.

 

Este executivo, cada vez mais se assemelha a uma patrulha de cobradores de impostos dos tempos da Idade Média: espoliam o povo dos seus parcos rendimentos, avisando-o de que tem o direito democrático de pagar e calar. Aos funcionários públicos só falta mesmo castigá-los com um chicote e expô-los atados de pés e mãos no pelourinho.

 

Temos de reconhecer que toda a confiança e ilusão depositada neste governo de direita neo-neo-liberal se transformou, rapidamente, numa tremenda desilusão e que as suas boas intenções passaram de espetáculo risível a tragédia, que se não é grega anda lá muito perto.

 

Disseram, esses prestidigitadores neo-neo-liberais, que iam ser a energia cinética do país, fazendo com que Portugal entrasse definitivamente em movimento e assim se mantivesse, para bem de todos. Mas ao que assistimos é a um país que estagnou e começa a andar para trás a uma velocidade preocupante. O desemprego não para de aumentar, a inflação continua a subir, os impostos não cessam de crescer, o PIB vai baixar ainda mais e os vencimentos descem na mesma proporção. Ou seja, todos os indicadores económicos e financeiros se agravaram. Todos sem exceção. Todos. Todos. Todos. E a recessão não cessa de aumentar.

 

“Diz-me como falas, dir-te-ei quem és”, diz a voz popular. Basta ver como discursa o triunvirato arrogante deste governo (ministros das Finanças, da Economia e PM), para sentirmos que esta gente não discursa, dá golpes verbais de uma arrogância e de um cinismo preocupantes.

 

O que este pessoal fez é pouco menos do que perverso do ponto de vista económico. Com a história do papão da dívida conseguiram que as pessoas tenham medo de gastar dinheiro. O presidente da Confederação do Comércio, João Vieira Lopes, afirmou que “a seguir ao Natal muitas empresas de retalho vão encerrar porque o Natal não compensará a perda de faturação ocorrida durante o ano”.

 

É bom lembrar aos mais esquecidos que o senhor PM está a fazer precisamente aquilo que disse que não faria e está a ir ainda mais longe do que a troika lhe pede. E a sua luta é sempre contra os mesmos, que são os bodes expiatórios de todos os males de Portugal: os funcionários públicos e os pensionistas.

 

Foi este PM, na altura ainda Pedro Passos Coelho, que afirmou ser um enorme disparate a ideia de cortar o subsídio de Natal em 2012. O povo entendeu que o homem queria dizer que o seu caminho não era esse. Mas todos entendemos mal a mensagem: o líder do PSD queria dizer era que a sua ideia ia bastante mais longe, ele pretendia cortar não só o subsídio de Natal, como o subsídio de Férias, e não apenas em 2012, mas também em 2013, e, quem sabe, em 2014, 2015 ou mesmo definitivamente.

 

Exigia-se a um PM responsável, honesto, solidário e sensível, que entre defender os direitos legítimos do seu povo e os direitos questionáveis dos credores, que nos querem sugar até à última gota de sangue, se pusesse ao lado dos seus concidadãos. O nosso PM devia batalhar ferozmente nas instâncias internacionais no sentido de minimizar os sacrifícios que todos vamos ter de suportar.

 

Mas não senhor, a criatura apenas consegue ser forte com os fracos e fraco com os fortes. Este governo não tem a menor noção de que com estas medidas está a destruir, com carácter permanente, a frágil teia de relações que sustentam a nossa coesão política e social. O PM português diz que a culpa é da troika. A troika diz que daí lava as suas mãos, como Pilatos. Mas se o Pilatos da troika é leviano, como lhe compete, o nosso é um atrevido intrujão.

 

Já o principal líder da oposição escolheu o papel de bombo da festa, abstendo-se na votação do orçamento em troca de uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Além disso, o ministro do logro, das meias palavras e de língua viperina, Miguel Relvas, quando ainda se discutia o decisão do PS, e sabendo que havia muita boa gente na comissão política nacional que defendia o voto contra, levou António José Seguro ao engano garantindo publicamente a possibilidade de uma discussão e de um entendimento sobre a posposta do corte de apenas um mês de subsídio aos funcionários públicos e aos pensionistas.

 

Mas o bombo da festa, em troca dos elogios bacocos e venenosos por parte do PSD e do CDS, que o apelidam de homem com sentido de Estado, enquanto se riem à socapa, vestiu o seu melhor fatinho e, numa pose de poeta de romance russo, comprometeu-se com um documento iníquo, estúpido, discriminador e patético.  

 

O guião desta série de suspense ainda tem outros traços de mau gosto e péssimo desempenho verbal. Pedro Passos Coelho afirmou que “só vamos sair desta crise empobrecendo”. Está claro que, com esta sua política de destruição do tecido social e económico da nação, tal afirmação é verdadeira, mas o PM, enquanto tal, devia ter cuidado com aquilo que diz. Não há memória de um líder político conseguir mobilizar os seus cidadãos contra a adversidade afirmando que com os seus penosos sacrifícios ainda vão ficar pior do que o que estão. Este homem pode saber o que diz, mas, definitivamente, não sabe aquilo que faz.

 

O executivo do PSD/CDS recuperou a ideia de Fukuyama: 2012 e 2013 serão os anos do fim da História. Acabaram as ideologias, os direitos políticos e sociais e o desenvolvimento. Agora só nos resta empobrecer.

 

PS – O PSD e o CDS apregoavam à boca cheia que para sair da crise bastava eliminar as gorduras do Estado. Por isso aconselhava uma cura de emagrecimento. Quando chegou a hora da verdade, e depois de uma procura intensa, a putativa ideia resumiu-se a eliminar os dois subsídios anuais a funcionários públicos e pensionistas. Convenhamos que é de génio.

 

 Estamos em crer que, mesmo assim, o Estado ainda fica com imensa gordura: o mês de férias que pagam ao pessoal, as férias propriamente ditas, os feriados e os fins-de-semana também pagos, o subsídio de refeição, a ADSE e os abonos de família. Isto para não falar no gás e na eletricidade que esses calaceiros gastam nos locais de trabalho, no papel, nas esferográficas, nas cadeiras, mesas, computadores, que podem trocar por máquinas de escrever, nas máquinas de calcular, que podem trocar por ábacos, nas lâmpadas, que podem trocar por velas ou candeias, e mesmo nos carros de serviço que podem trocar por carroças ou mesmo por burros, pois os cavalos são gado caro. E também pôr os polícias e a GNR a fazer as suas patrulhas a penates como no tempo do meu saudoso pai.

 

Esta rapaziada do Regisconta, que sabe trajar de fato azul, gravata bordeaux, camisa branca e sapato de couro castanho bem engraxado, e que se diz pronta a reformar o país de cabo a rabo, já abriu a caixa de Pandora. Um secretário de Estado, do desporto, creio, aconselhou mesmo os portugueses mais jovens e qualificados a emigrarem.

 

Até era bem feito que o bom povo português levasse o desafio à letra. Dessa forma ficavam eles, os cobradores de impostos e perseguidores de funcionários públicos e pensionistas, por cá a governarem as vacas, os burros, os porcos e as galinhas, que é para o que têm jeito.

 

Está visto, este governo não pretende apenas acabar com as gorduras do Estado, deseja acabar com o próprio Estado. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 27 de Novembro de 2011

Amigos num banco


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 26 de Novembro de 2011

Um mão cheia de nada


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

O Homem Sem Memória - 90

 

90 – Quem foi e não voltou foi o José, que se viu expulso do seminário sem apelo nem agravo.


A sua mãe nem queria acreditar. Quando o viu entrar pela porta dentro escanzelado como um cão gritou “abrenúncio” e desmaiou. Os seus irmãos começaram a chorar, o cão a ladrar, os porcos a cuincar na corte e os vizinhos encheram a pequena casa na tentativa de acudirem ao desconchavo da situação. Borrifaram o rosto da Dona Rosa com água fresca, chegaram-lhe às narinas um frasquinho de sais revigorantes e até lhe deram pequenas estaladas na cara, mas ela nada de despertar. Parecia morta. Mesmo o José, que sabia da pose teatral da sua mãe neste tipo de situações, começou a ficar preocupado. Desta vez o chilique parecia sério.


E era a sério. Demorou algum tempo e muito trabalho a despertar a Dona Rosa. Mesmo os vizinhos, e até o cão, tiveram dificuldade em reconhecer o José. “Pareces um pedinte”, disseram-lhe os vizinhos, no que foram secundados pelo latir do cachorro e pelo choro compulsivo do seu irmão Joãozinho que aparentava ter visto o diabo em figura de gente.


Em vez de ser a Dona Rosa a tomar conta do seu escanzelado filho, foi o José quem teve de apaparicar a sua apavorada mãe, que se fartou de chorar e lamentar a sua triste sina. Até este filho, que julgava predestinado ao sucesso eclesiástico, pois tinha falado na sua barriga, teimava em infernizar-lhe a vida.


Tudo eram contrariedades: o pai longe e os filhos a crescerem e a precisarem cada vez mais de comida e roupa e livros para irem para a escola… e o pai longe e os coelhos que lhe morriam com o chamorro e as galinhas que punham cada vez menos ovos apesar de comerem o dobro do farelo e do milho… e o pai longe e os porcos que não medravam e as terras a necessitarem de serem estrumadas e lavradas… e o pai longe consumindo muito do dinheiro em tabaco e vinho.


“Só me apetece fugir para o meio do monte e gritar, gritar, gritar. E morrer. Mas depois quem é que tomava conta dos meus filhinhos. O teu pai de certeza que vos deixava morrer à fome”, lamentava-se a Dona Rosa inconsolada.


Nessa mesma noite foi morta e cozida uma das galinhas que teimava em engordar e em fazer greve de zelo à nobre função de poedeira. A vizinha do lado encarregou-se de tudo. Mesmo o José, que há já muito tempo que fazia voto de jejum, alambazou-se com o pitéu. Mas vomitou-o pouco tempo depois. De manhã acordou febril e deprimido.


Já a Dona Rosa superou o choque, refez-se do susto, recuperou as forças e começou a sua magistratura de influência, pensando que dessa forma podia fazer com que o filho voltasse para o seminário. Mas o que Deus separou jamais os homens poderão unir.


Pensava ela, e bem, com o seu apurado sentido materno, que o primeiro passo a dar seria no sentido de empreender o enchimento do exíguo espaço que se encontrava entre a pele e o esqueleto do filho.

 

Durante várias semanas, o José esteve sob rigorosa vigilância maternal. Ao mesmo tempo que a Dona Rosa alimentava, com rigor e denodo, as galinhas, os coelhos e os chinos, e cevava os dois recos na corte, administrava igual trato ao seu primogénito. E tão bem o fez que os recos e o José começaram a medrar a olhos vistos. O povo, lá na sua imensa sabedoria, bem diz, para quem o quer ouvir e atentar nas suas palavras, que “não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”.


Quando no final do mês o guarda Ferreira veio de visita a casa ver os seus e entregar parte substancial do ordenado à Dona Rosa, o José já estava com a figura melhorada. Apesar de a mãe dizer aos filhos que tinham de sentir saudades do pai, pois a boa educação assim o exige, os petizes recebiam-no cada vez mais como a um estranho.


De facto, o guarda Ferreira era para os seus descendentes a modos como um desconhecido, pois lá diz o povo, na sua imensa sabedoria, já que para isso é povo, que longe da vista longe do coração. Mesmo o cão, que é animal que reconhece sempre o seu dono, começou a dar indícios do contrário. Até os dois porcos, que foram mercados enquanto o guarda Ferreira esteve em casa de licença, o começaram a estranhar. Isto apesar de por eles ser reconhecido sempre que vinha a casa pois tinha por feitio alimentá-los com o dobro da comida com que a Dona Rosa os esfomeava todos os dias. O mês da engorda tinha significado para as duas cevas o paraíso: comida à farta e cozida no caldeirão. Daí a confusão.


“Tu também necessitas de ser engordado, estás pele e osso”, disse com um tom de relativa bonomia a Dona Rosa ao guarda Ferreira. Ele riu-se, com o seu sorriso triste e enigmático, virou mais um copo e foi para a rua esganar mais um cigarro.


Sentiu-se um homem solitário, um estranho no meio da própria família. A mulher tolerava-o porque lhe trazia o dinheiro com que alimentava, vestia e calçava os filhos. Os filhos mais novos toleravam-no porque assim eram ensinados. Aos animais era indiferente, até ao Texas, a quem tinha criado desde pequeno e só depois trazido para Névoa para guardar a casa e o quintal.


Apenas o José lhe dedicava algum carinho. Pressagiava nele a mesma sina, a mesma incapacidade para lidar com o mundo, o mesmo desajuste social, a mesma obstinação pela verdade, a mesma indiferença pela benemérita hipocrisia dos ricos. Daí o ter sido castigado por não ter aceitado ser um boneco nas mãos de uns reles contrabandistas e do ventas de larego do sargento da GNR. Daí o seu filho ter abandonado o seminário por não tolerar que, em nome de Deus, da verdade e da salvação dos justos, os padres apenas magicassem na sua vida terrena e em conviverem, sem remorso ou arrependimento, com os pecadores e os vendilhões do templo.


A mãe tinha ficado desiludida. Muito desiludida. E ainda assim continuava. Confidenciou-lhe que tinha a firme certeza de que ia ser capaz de convencer o filho a regressar aos propósitos de Deus, aos caminhos da salvação. Ele não acreditava que isso fosse possível. O José, tal como ele, nunca voltava atrás nas suas decisões. Eram orgulhosos de mais. Reagiam mal, mesmo fisicamente, ao recuo. Para eles não existia caminho de retorno.


O José veio ter com o seu progenitor e pediu-lhe um cigarro. O pai olhou-o a direito nos olhos e perguntou: “Já fumas? Olha que a tua mãe não vai gostar. Ainda vai dizer que fui eu que te meti o vício.” “Deixe-a dizer. Comecei a fumar no seminário. Lá o tempo nunca chega para a verdade, mas sobra sempre para os maus hábitos.” “Voltas para lá? A tua mãe pensa que sim. Acredita que te vai convencer a regressares.” “A mãe acredita em tudo. Até em Deus.” “E tu não acreditas?” “Deixei de acreditar depois de ler os livros sagrados onde se fala de Deus como uma entidade supremamente reaccionária, amarga, hierárquica. Quando a Igreja escolheu Deus, escolheu-o obscuro e sombrio. Eu, pelo contrário, acho que Deus deve ser alegre, igualitário, luminoso. Toda a história da humanidade fala de crianças e mulheres violadas, dá conta do ser humano a praticar a desumanidade inata sobre os outros seres humanos. Relata-nos a injustiça que há em tudo. Percebi que não pode existir um juiz bom e justo a organizar isto. É impossível. O que existe, pai, são apenas as regras da Babel, de uma humanidade cruel e egoísta.” “És capaz de ter razão, José. Tu é que sabes da tua vida.”


Olhando um apara o outro com os seus rostos muito idênticos e uns olhos simétricos, deram uma passa enorme no cigarro para encher os pulmões de fumo e expiraram o que restou para o ar fresco do entardecer.


“Venham jantar, a comida está pronta”, chamou-os a Dona Rosa da porta rodeada por todos os filhos, o Texas e um frango garnizé que era agora a mascote da família, devido ao seu comportamento atrevido com as enormes galinhas da mãe. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011

Mestre sapateiro


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

O Poema Infinito (75): confissão

  

Há mais marés que marinheiros expostos. De novo o mar se torna azul. O mar. O mar azul na sua solidão de exílio, na sua teimosia feliz. É pela minha consciência que se alarga o sítio onde as marés se enchem. Depois de uma análise paciente, o teu brilho torna-se de novo explícito. Os teus olhos são uma evidência tão antiga como o amor e a morte. Depois confesso-me e segredo-te ao ouvido tudo o que venero: o aspecto fino do cume das montanhas, o brilho minúsculo dos insetos, a substância invisível da penumbra, a nitidez do esplendor da alegria, a luz que guia o rosto dos amantes, a forma dos frutos, a lúcida sabedoria da terra, a policromia dos dias enigmáticos, os frutos que despontam nas árvores do bem e do mal, a transparência do canto dos pássaros de inverno, a tua paciência iluminada, a transfiguração dos atos solenes, a indulgência dos sábios, o perfeito sentido do lume, o ponto íntimo do desejo, o árido ritmo do prazer, o fulgor específico da paciência, todas as epifanias sagradas, a solidão dos sólidos geométricos, a imagem desfocada da eternidade, a fugaz medida de todas as tardes da nossa vida, o tempo sagrado de cada imagem revelada, o tempo infinito do tempo, os retratos que perduram na bruma, a invisível altura do primeiro beijo, a gravitação dos sentimentos, a dúvida invisível do amor, a negrura insistente das noites de inverno, a ascensão persistente do júbilo, a despicienda penitência dos caminhos velhos, a rigorosa luz eterna dos domingos, as frases que são indícios de outras frases, a feliz fragilidade do teu sorriso, a desorganização iluminada da paixão, a imagem expandida da paixão, a cor da paixão, o eco dos vestígios do sofrimento, o fogo concreto da raiva, os vestígios nus do ciúme, a eficaz ausência da glória, a fé que nos afeta a fé, os contrastes da verdade, a prefiguração da verdade, a ténue melodia da verdade, os diversos conceitos sobre o acolhimento das almas, a infância, o espanto, o espaço, o espírito, o sofrimento, a procura de sentido, a limpidez pacífica do orvalho, a tua entrega, a minha entrega, a subtileza doce de um orgasmo, a língua perentória que ameiga os sexos, a subtileza de um coito prolongado, a obediência, a humildade dos sonhos prévios, a sábia surpresa do amanhecer, a paciência eficaz, o júbilo das águas correntes, a sua diáfana transparência, a harmonia, o rigor, o ato eterno do vagar, o claro sossego da nostalgia, a extensão íntima das palavras, o seu claro uso, todos os sinais de vida, a radical presença do calor do teu corpo no meu corpo, a leitura do teu olhar, a escrita dos teus gestos, a singular pureza de um beijo, a sua leitura, a lucidez dos ventos. Parado junto ao ribeiro concentro-me no mutismo acústico das águas. Um dilúvio de brilhos evidencia o espanto dos bichos. Noé só não consegue encontrar a pomba que deve emparelhar com o espírito santo.  Por isso o caminho para o paraíso é tão demorado: por isso a nossa vida é tão breve. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

Baile em Couto de Dornelas


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

A culpa e os verdadeiros culpados

 

A vida tem muitas surpresas. Por exemplo, o Príncipe Carlos de Inglaterra admitiu descender de Vlad, o Empalador, figura romena que inspirou o Conde Drácula. Por seu lado, Thomas Beautie, o transexual que ficou conhecido como o primeiro homem a ficar grávido, após gerar três filhos, afirmou que fechou a fábrica. Com a consciência pesada, Madonna, a cantora pop norte-americana, que é muito conhecida por adotar crianças, desmentiu a sua ligeireza afirmando: “Eu não sou superficial – gosto de flores, cavalos, natureza…”

 

Depois de discutir com os meus amigos, entre a chalaça e o desespero, temas tão pertinentes como os acima referidos, fui para casa aclarar as ideias. Todas as coisas, tanto faz que sejam boas ou más, nunca permanecerão o tempo suficiente para serem verdadeiramente importantes. Isso é o que nos diz qualquer rio ou montanha. Podemos sujá-los, cortar árvores, que a natureza e o tempo continuarão a curar-se e a sobreviver-nos. Por vezes esquecemo-nos disso e começamos a levar a sério a fealdade humana. Mas mesmo a barbárie foi temporária, à semelhança de tudo o resto.

 

Depois pensei no pecado, em Deus e no Demónio. Quando era rapaz gostava de me lembrar de Jesus e do seu exemplo. Agora penso ser essa a menor das minhas preocupações. É que se houver céu, estará quase deserto. E se existir inferno estará a abarrotar. Por isso muitos dos “chamados” vão ter de esperar vaga de pé. Os hipócritas estarão na fila da frente e, com toda a certeza, haverá uma fila especial para papas e boa parte do clero. E ainda uma segunda, simétrica, e terrivelmente competitiva, constituída por políticos e economistas.

 

Já José Rodrigues dos Santos, que é jornalista, apresentador de televisão e escritor de romances de sucesso, é vinho de outro cálice, ou hóstia doutro prato, pois evocou Jesus e logo pensou nele para tema do seu último livro “O Último Segredo”. Mas a originalidade não ficou por aí. Numa entrevista respondeu desta forma magnífica à pergunta sobre a sua originalidade: “Eh pá, e se Jesus voltasse à Terra? Era capaz de dar uma boa história para um romance.”

 

O problema, por vezes, está quando se conduz. Pedro Santana Lopes escreveu no “Sol” que “falar, escrever ou ler em andamento é perigosíssimo e coloca em risco a vida de outros”.

 

A presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, ainda sem tempo para ouvir os avisos do seu colega de partido, viu-se envolvida num choque de viação em cadeia que resultou no atropelamento de uma idosa numa passadeira, em Faro. A notícia foi avançada no “Correio da Manhã”,  que citou fonte da PSP. O jornal informou que a titular do segundo mais alto cargo da nação não conseguiu travar a tempo o carro onde seguia sozinha "e embateu numa viatura, que tinha travado para uma idosa atravessar a passadeira". O automóvel embateu no carro à sua frente "e este atingiu a mulher, que ficou ferida com gravidade e foi transportada para o Hospital de Faro", escreve o “Correio da Manhã”.

 

Nem Assunção Esteves, para nosso descanso e para o descanso da nossa república democrática, nem qualquer um dos outros condutores sofreram qualquer ferimento, adiantou o jornal diário. O que o diário sensacionalista não avançou foi se Assunção Esteves vinha a falar, a escrever ou a ler em andamento. Se calhar vinha a pensar alto sobre a sua recente reforma. Pois, esta personagem importante do partido que deu origem ao governo angélico e procrastinador que nos quer resgatar do inferno e enviar-nos a modinho para o céu, reformou-se aos 42 anos, com 2.445€/mês, após 10 anos de trabalho.

 

Em entrevista à “Caras”, pois quem vê caras não vê corações, a elegante e loira presidente do parlamento lembrou-se dos bons velhos tempos: “Tive um fato Giorgio Armani, que comprei em Bolonha e que usei até rasgar as bainhas”. Estamos em crer que agora, reformada e no ativo, já não vai recorrer à costureira para lhe subir as bainhas do seu GA. A almofada económica da sua pequena reforma serve à justa para se vestir na sua loja preferida.

 

Mas enquanto a loira senhora presidente do parlamento, esse templo da democracia, vai amealhando para a roupinha, os portugueses, vítimas da enorme recessão, gastam mais com cães do que com bebés. Pudera, o que por aí há mais são cães, agora bebés não, custam muito a parir, a alimentar, a vestir e a educar. Os cães saem mais em conta e dão muito menos trabalho.

 

Já o presidente do PSD, e nosso primeiro-ministro, funileiro a tempo inteiro, depois de depenar os funcionários públicos e os pensionistas, avança de tesoura em riste e propõe mais cortes na saúde, na educação e na segurança social. Um jornalista manhoso do “Expresso”, provavelmente um socialista pago pelo engenheiro Sócrates e, talvez, casado com uma funcionária pública, perguntou-lhe se, perante as mentiras por si proclamadas durante a campanha eleitoral de que não ia mexer nos salários, nem aumentar os impostos, não devia pedir perdão a alguém. O nosso PM foi peremtório: “Não sinto que tenha de pedir desculpa aos portugueses.”

 

Na nossa modesta opinião, penso que o senhor PM sente que quem tem de pedir desculpa são os portugueses ao PM por existirem. Fontes bem informadas garantiram ao “Expresso” que algum ministro terá lembrado, e bem, estamos em crer, que “a função pública não é a base eleitoral deste governo”. Portanto, os crápulas que paguem a crise.

 

Ele há coisas do diabo: todos os indicadores económicos da conjuntura não fizeram senão agravar-se depois da tomada de posse do novo governo da nação – todos sem excepção. E sabem quem é o culpado? José Sócrates. Daí este executivo não fazer mais nada a não ser cortar nos ordenados e aumentar impostos diretos, indiretos e diferidos.

 

O senhor PM, também conhecido por PPC, diz que, além de não ter de pedir desculpa aos portugueses, pretende atingir em 2012 um défice de 4,5%. No entanto, a Irlanda, que está a regressar ao crescimento, vai ter, no mesmo período de tempo, um défice de 8,6%. 

 

É bom lembrar que o líder do PSD chumbou o PEC 4 porque, afirmava, a austeridade aí proposta era excessiva. Agora, por obra e graça desse doutor do embuste político, passámos para uma austeridade necessária, que os funcionários públicos e os pensionistas vão pagar com língua de palmo. Para quem chamava mentiroso a José Sócrates, é irónico, senão trágico. E quanto à verdade por si propalada, estamos falados.

 

Até apostámos que daqui a um ano a economia e as finanças estarão de rastos e que os verdadeiros culpados serão o engenheiro Sócrates, a crise internacional… e os funcionários públicos e os pensionistas. Que daqui a dois anos as finanças e a economia estarão de rastos, e que os verdadeiros culpados serão novamente o engenheiro Sócrates, a crise internacional… e os funcionários públicos e os pensionistas. Que daqui a três anos a economia e as finanças estarão de rastos e os verdadeiros culpados continuarão a ser o engenheiro Sócrates, a crise internacional… e os funcionários públicos e os pensionistas. Que daqui a quatro anos as finanças e a economia continuarão de rastos e que os verdadeiros culpados serão o engenheiro Sócrates, a crise internacional… e os funcionários públicos e os pensionistas.

 

Enquanto o PSD estiver no governo a culpa será sempre do engenheiro Sócrates, da crise internacional… e dos funcionários públicos e dos pensionistas. E também de todo o povo português, claro está (e da crise internacional e dos funcionários públicos e dos pensionistas), a quem o PM não sente, nem nunca sentirá, necessidade de pedir desculpa.

 

A quem o PM sente necessidade de pedir desculpa é à crise internacional, que apenas atacou a nossa economia no primeiro dia em que este governo de anjos, santos e ministros franciscanos tomou posse.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 20 de Novembro de 2011

Pastora barrosã


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 19 de Novembro de 2011

Resistência


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

O Homem Sem Memória

 

89 – Se quando o José principiou as férias ainda guardava dentro de si alguma réstia de fé, durante as férias de Verão perdeu o que dela restava. Entendamo-nos, não foi bem ele que perdeu a fé, foi mais a fé que o perdeu a ele. A fé já não é o que era, diluiu-se na imensidão dos livros, na vastidão da música, na necessidade instintivamente animal de possuir fêmea.

Sempre lhe tinha custado regressar ao seminário, mas desta vez o esforço foi imenso.

Já não era só uma questão de fé, era sobretudo o ambiente, a rotina, as palavras vazias de sentido, Deus vazio de sentimento, os evangelhos vazios de racionalidade, a liturgia estéril e vazia de objetivo. E, como se ainda fosse pouco, existia a monotonia dos espaços, das vozes, das relações.

José definhava a cada dia que passava. Passou a enfrentar tudo e todos. Começou a dar nas vistas pelos piores motivos: o desleixo e a provocação.

Principiou por contestar a infalibilidade de Deus e da sua Igreja, a comentar a mentira dos Evangelhos, a depreciar a propagandeada pobreza cristã, a criticar o celibato dos padres e todos os dogmas da fé católica: a virgindade da Virgem, a imortalidade do seu Filho, a vida eterna, a omnisciência e a omnipotência do Pai, que ele, qual profeta inconformado, definia como omninconsciência e omnimpotência. Defendia que a religião não devia pregar a obediência mas antes o contrário. Para ele, Cristo foi um revolucionário consequente, que combateu o Império Romano, que lutou pela igualdade e pela tolerância e vergastou os usurários e os vendilhões do templo e os falsos líderes do seu próprio povo.

Dizia, e escrevia, que a Igreja que Pedro fundou serviu apenas para instituir na terra o poder de uns quantos fanáticos religiosos que se limitaram a ser como todos os outros déspotas: criminosos de guerra, ladrões, sodomitas e difusores de mentiras piedosas. Toda a história da Igreja se baseia na falsidade, na opressão, na perseguição, no terror, na mentira. Dizia, com voz de visionário, que a Igreja era a instituição, não de Cristo, como apregoava, mas do Anti-Cristo, como o provam as chacinas praticadas pelos seus membros em nome de um Deus infalível e cruel.

Disfarçado de franciscano, com umas sandálias de pano e couro cru, enfiado num saco de serapilheira, utilizado para armazenar batatas barrosãs, em forma de túnica, de barba e cabelo comprido e esquelético como um cão, ostentando um bordão encimado por uma cruz de pau talhada à navalha, fazia retiros espirituais nas celas frias, alimentava-se de frutos silvestres, migalhas e água da chuva. Rezava como um fanático e escrevia como um herege, autênticas blasfémias impiedosas.

Em noites de maior delírio, visitava os seus colegas nas camaratas e enchia-os de filhos do demónio, mentirosos compulsivos, netos de belzebu, bisnetos do mafarrico, sodomitas, papa-hóstias e devassos. Muitos deles desculpavam-no porque viam nele um homem possuído pela necessidade de uma verdade perfeita. Outros prometiam entre dentes esmagá-lo aos pés, mas ninguém tinha a coragem necessária para bater num monte de ossos atormentado pela fome, pela sede e pela verdade absoluta. Ninguém bate num espírito. Mesmo que ele seja um provocador nefando.

De longe veio um padre exorcista para lhe arrancar o demónio do corpo. Por mor das dúvidas, ninguém lhe disse nada. Apresentaram-lho como um padre versado em teologia, um crânio ao serviço de Deus e da Madre Igreja a quem o José devia expor todas as suas dúvidas e incertezas. As certezas que as guardasse para o Mafarrico. Ele assim fez.

O exorcista, que também era um homem versado em psicologia, filosofia e história, depois de ouvir o José concluiu que tanta dúvida em Deus e tanta certeza nas heresias anunciadas pelo Tinhoso, só podiam ser obra do Arcanjo do Mal. E foi-se a ele com as suas vestes de exorcista.

Antes da terapia de choque eclesiástico, tentaram alimentá-lo convenientemente, mas o José vomitou tudo; tentaram vesti-lo condignamente, mas ele rasgou a roupa com as unhas e com os dentes; tentaram barbeá-lo e cortar-lhe o cabelo, mas ele mordeu-os como se fosse um cão raivoso. Deram-lhe banhos de água fria seguidos de banhos de água quente para o tornarem razoável. Celebraram missas em seu nome, tornaram a baptizá-lo, e ele sempre a teimar na sua litania.

Levaram-no a um médico especialista em doenças do foro psicológico e o seu prognóstico foi de que o José estava razoavelmente bem da sua saúde mental. Quanto ao resto, ele não se metia em discussões teológicas. À ciência o que é da ciência, a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. No entanto sugeriu que lhe levassem fêmea. O reitor do Seminário negou-se a autorizar tal ato. Disse que todos eles, tanto quanto sabia, sofriam da mesma privação e não insultavam Deus, a sua Igreja nem se transformavam em cães raivosos. Cada um tem de aguentar a sua cruz. Tem de se saber privar dos prazeres terrenos para ganhar o céu. O médico ainda argumentou que deviam entender a sua sugestão como uma prescrição médica. Deus e a sua Igreja, tanto quanto ele sabia, não proibiam os seus fiéis de se tratarem, de acederem aos tratamentos médicos para melhorarem a sua saúde. O senhor reitor contra-argumentou que a terapia do sexo não é propriamente um medicamento. Além disso, se permitisse desta vez a exceção, é bem possível que o seu seminário se transformasse num antro de possuídos. Por isso não podia abrir essa caixa de Pandora. Além disso, à Madre Igreja, tal como à mulher de César, não lhe basta ser séria, tem de parecê-lo.

Mas as estruturas têm sempre as suas boas almas de serviço. E foram elas quem, à socapa, introduziram na cela do José uma prostituta e vários cobertores para a pobre mulher não morrer de frio. O José, que podia estar um pouco desequilibrado pela busca da razão teológica, mas não tinha bebido o juízo, fez o que tinha a fazer com um desempenho muito para além do expectável em tais condições.

Mas a toleima não o largou. Foi então quando avançou o exorcista como a derradeira arma de combate a Belzebu. E somos testemunhas de que o sacerdote se preparou convenientemente para a sua função de expulsar os demónios por meio de orações instituídas pela Igreja. O esconjurador vestiu a sua sobrepeliz e a estola roxa e iniciou a série de orações, declarações e apelos O padre pediu encarecidamente a Deus para livrar o José do demónio através da "fórmula da súplica": "Deus, cuja natureza é sempre de misericórdia e perdão, aceita esta nossa oração para que este vosso criado, amarrado pelos grilhões do pecado, possa ser perdoado por vossa amorosa benevolência". Depois esperou um bocado. O José apenas se ria. Por isso, o padre tentou agora a "fórmula imperativa": “Em nome de Deus, exijo-te, demónio, que abandones o corpo do paciente. Sai ímpio, sai, amaldiçoado sejas, sai, ordeno-te, com todos os teus enganos, pois Deus sempre quis que o homem fosse o Seu templo".

Enquanto ia recitando, o padre borrifou de água benta todos os cantos da cela, colocou as suas mãos no paciente, fez o sinal da cruz tanto em si como no José, e tocou-o com uma relíquia católica, um objeto associado ao santo Agostinho.

Mas a verdade é que o José não sofria nem de desordens psicológicas, nomeadamente da síndrome de Tourette, que causa movimentos involuntários e explosões vocais; não era epilético, por isso não entrou em convulsões; nem era esquizofrénico e por isso não teve alucinações auditivas e visuais, nem paranóia, ou sequer ilusões.

Como mais tarde averiguámos, questões psicológicas como auto-estima e narcisismo podem fazer com que uma pessoa aja como uma "pessoa possuída" para chamar atenção. E foi esse o caso.

Já no final, vendo que o exorcista crescia para ele, depois de o ver constantemente a rir, pegou no seu bordão e espetou-lhe umas bordadas em nome da verdade e sentenciou: “Tu é que és o verdadeiro demónio. Vai e não voltes.”


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 17 de Novembro de 2011

Duelo ao Sol


publicado por João Madureira às 00:59
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

O Poema Infinito (74): as disseminações e o jovem poeta jovem

 

disseminada pelos livros está a nossa vida e o ato de escrever enquanto a casa zumbe na noite à procura de mais um jovem poeta jovem que não se canse de decorar o traço fino das frases certas que choram muito depressa como se fossem igrejas sitiadas pelo acaso da vida enquanto tu dormes deitada sobre o livro do riso e do esquecimento coberta por lençóis gráficos que se incendeiam e gritam com saudades dos corpos delirantes como se o silêncio fervesse na ausência das crianças e na presença dos seus pais e enlouquecesse pensando de novo no jovem poeta jovem que foge dorido pela idade que há de ter e depois a minha memória levita infestada por brinquedos escondidos no choro diáfano do jovem poeta jovem que relê os ombros de pedra dos anjos que antes do pecado original arderam de sexo e luxúria como se fossem chuva divina antes de existir céu e inferno enquanto a bruma do tempo ergue a esquizofrenia das abelhas obreiras e das formigas rabigas e então as paredes dos templos estalam e os homens e as mulheres e os outros dormem sobre o vidro velho das esfinges e gravitam em redor dos corpos e da jovem loucura do jovem poeta jovem que agora sente saudades das saudades que há de sentir e os seus lábios secam devido aos sons produzidos pelo cornetim que apregoa a alvorada e então o jovem poeta jovem pronuncia frases trémulas que fazem arder o meu sonho que é uma saudade livre de saudade e então dizes que tenho de pôr as minhas mãos trémulas na noite e puxar pela noite e exteriorizar a noite sonhada pelo jovem poeta jovem que come a minha noite intranquila e se abriga nas casas solitárias das ruas decompostas pelo progresso e ainda mal acordado o jovem poeta jovem escreve um poema onde fala do comércio das almas praticado por deus e pelo demónio e no valor do seu peso específico na bolsa de valores de wall street enquanto os santos e os seus congéneres do mal empacotam as almas mais refinadas em papel de embrulho com estampas do vaticano e com cordéis de prata fina e depois o jovem poeta jovem desaparece do meu sonho dilatado pela ilusão mínima e pela angústia máxima e pela insistência abruta dos biólogos das almas que professam todas as religiões monoteístas que veneram os deuses e as suas alcunhas e os seus conceitos uniformes e entretanto o jovem poeta jovem revisitado descobre que as almas embrulhadas não toleram música espessa nem pianos elétricos nem peixes ofendidos pelos sermões de santo antónio nem as intrincadas partituras da bíblia  e da tora e do alcorão nem do manifesto comunista e agora a alma de chet baker toca no trompete de miles davis the touch of your lips para o jovem poeta jovem num solo semilouco provocando uma súbita transfusão de almas na esquisita alma de uma testemunha de jeová que constrói nuvens de outras almas empenhadas em construir a eterna fluidez das flores murchas que se debruçam sobre o crepúsculo do meu corpo que sonha com o jovem poeta jovem que sou eu debruçado sobre a varanda da fábrica dos construtores de almas silenciosas vendo e ouvindo peixes perplexos por viverem na imensidão do mar sem disso se darem conta e o jovem poeta jovem nada no meio deles enquanto ativa certas palavras que se metamorfoseiam em girinos que mais tarde darão origem a anjos e demónios embrulhadores de almas alegoricamente perpétuas como perpétuas são as lágrimas do velho e o mar e do seu autor que também foi amigo do jovem poeta jovem quando ele não era jovem nem poeta nem tinha saudades das almas que agora transportam os astros e os homens e as mulheres e os outros que chupam palavras que chupam sílabas que chupam letras e que as mastigam e com elas fazem bolas como se fossem pastilhas elásticas que perfumam o mau hálito e dão sossego aos néscios que gostam de se sentar na sintaxe e decorar as mesas com lindos paninhos de renda rendados pelas suas mães que choram o triste tricotar das palavras do jovem poeta jovem que delas sente toda a saudade do mundo


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Terça-feira, 15 de Novembro de 2011

Provavelmente


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011

Arturo Pérez-Reverte, os cestos da rua de Santo António e a Agenda (Axenda) Cultural

 

A minha amiga G. bem teima para que eu leia alguns dos novos romances de Arturo Pérez-Reverte. Ela teima. E eu resisto. Não gosto de romances de aventuras. Embirro com eles. Prefiro de longe o irónico e deslumbrante “Tambor de Lata” de Günter Grass ou o encantador “O Retorno” da Dulce Maria Cardoso, dois magníficos livros que recomendo como quem se confessa. No entanto, algumas das entrevistas do romancista espanhol são relativamente interessantes. Não tivesse sido Arturo um repórter de guerra. Por exemplo, diz que a coisa mais importante que aprendeu com a guerra foi que não há fronteiras claras entre o bem e o mal. Pensa que vivemos actualmente numa sociedade estúpida, na qual tudo é considerado bom ou mau. Kadhafi era mau e os ecologistas e os amigos dos animais são bons. A vida é muito mais complicada do que isso. Na sua perspetiva todos estamos a saltar de um lado para o outro da linha.

 

Perguntaram-lhe se acredita que as lições de História podem melhorar a condição humana. Ele disse que sim, mas… “num lugar normal, de gente culta, de gente razoável. Na Península Ibérica nunca aprendemos e nunca aprenderemos a lição. Nunca. Somos muito maus alunos da nossa própria História”.

 

Questionado sobre se considera isso uma fatalidade, o escritor espanhol respondeu que “as fatalidades criam-nas os povos, com o seu caráter. É sobretudo uma questão de cultura.” (Sobre cultura aconselhamos a leitura do PS desta crónica.) “Tenho uma teoria. (…) Creio que o mundo ibérico – e o mundo latino, em geral – escolheu o Deus errado no Concílio de Trento, quando começou o protestantismo, a Igreja Católica teve de eleger entre um Deus protestante – comerciante, burguês, progressista – e um Deus católico – reacionário, triste, hierárquico. E a Igreja escolheu o Deus obscuro e sombrio. Perdemos aí a nossa oportunidade. Esse Deus católico marcou-nos desde então, colocou-nos nas mãos dos padres e reis e bispos e aristocratas durante muitos séculos. Foi assim que ficámos para trás. É uma questão de cultura (Sobre cultura, insistimos na proposta de leitura do PS desta crónica). Faltou-nos a cultura (Sobre cultura voltamos a aconselhar a leitura do PS desta crónica) burguesa.”

 

O homem afirma-se não crente. O que postos perante as atrocidades que se praticaram, e ainda hoje se praticam, em nome da religião, é uma bênção divina que eu também defendo.

 

Arturo Pérez-Reverte teve fé, quando jovem, mas perdeu-a quando observou aquilo que se passa na guerra, “quando vi as crianças, as violações, o ser humano a exercer a sua crueldade inata sobre os outros seres humanos. Vi a injustiça que há em tudo e percebi que não podia haver um árbitro a organizar isto. Era impossível. Percebi que só existem as regras do caos, de um mundo cruel.”

 

De tudo isto ia dando conta ao meu amigo R., quando, ao virar na esquina do Lopes, como quem vem da Eira, nos deparámos com um espetáculo de um gosto mais que duvidoso. Estou a referir-me aos cestos de pedras, intervalados por bancos de 2500 euros a unidade, que servem para os transeuntes ficarem sentados virados para as paredes e portas dos estabelecimentos da rua de Santo António, que foram instalados nos passeios para dividirem aquilo que estava dividido e que, com a intervenção recente de levantamento do piso, deixou de o estar.

 

O R., posto perante esta intervenção de mau gosto, questionou-me sobre se eu sabia de quem era a responsabilidade por esta “ingerência”, que, além do mau gosto evidente, custa milhares de euros à autarquia. Disse-lhe que desconheço de quem é a autoria, mas lembrei-lhe que me parece uma obra dispensável desde o início, além de, como já referi, custar muito dinheiro aos bolsos de todos os contribuintes, que, nestas como noutras coisas, nunca são tidos nem achados. É evidente que os empreiteiros têm muita força eleitoral. Especialmente nos contributos generosos que dão aos partidos políticos por esse país fora. Daí a nossa modernidade. Daí o nosso progresso.

 

A verdade é que o vice-presidente da nossa autarquia anda já em pré-campanha eleitoral, perseguindo furiosamente as obras, os eventos e as efemérides. Afinal, onde pára o senhor presidente? Será que pretendem que ele delineie a mesma encenação que o seu antecessor, quando deixou, dois anos antes do término do seu mandato, o seu delfim na presidência?

 

Pusemo-nos a olhar para aqueles cestos de plástico com aparas de coco à superfície, a reparar nos caros arbustos que plantaram lá dentro e veio-nos à cabeça uma ideia: a obra de arte só podia ser, na minha opinião, de um engenheiro agrícola que nunca trabalhou na área, ou, na opinião do R., de um arquiteto paisagista conservador e ligeiramente estrábico.

 

Vindo de baixo, ainda a rir-se por causa dos cestos, o F. convidou-nos para uma visita à exposição dos Lumbudus. Depois de comprar três garrafas de vinho tinto da Quinta de Arcossó, com rótulos de fotografias de vários membros da associação, fomos até à casa do R. comer umas fatias de presunto e queijo da serra, mas pagos do nosso próprio bolso, pois, ao que soubemos, alguns gabirús, com a desculpa de representação oficial, comem polvo à borla nas tendas da especialidade.

 

Depois tive outra epifania, como se uma voz viesse do além: “Está provado que a Câmara de Chaves não sabe o que o povo quer e o povo também já desistiu de tentar saber o que é que a Câmara verdadeiramente pretende.”

 

PS – O prometido é devido. Por isso, novamente regressamos à já célebre Agenda (Axenda) Cultural da Eurocidade Chaves-Verín, seja lá isso o que for, e sirva lá isso para o que servir (para alguns tachos, estamos em crer).

 

A cada mês que passa, a Agenda (Axenda), perde em música e espetáculos, para ganhar naquilo que a Eurocidade, através das Termas de Chaves – SPA do Imperador, se vai especializando e promovendo como a alma da proposta cultural de qualidade da nossa cidade: As palestras sobre pedologia e afins.

 

Durante o mês de outubro realizaram-se, nada mais nada menos, do que onze. A saber: Calos e calosidades: causas e tratamentos; A importância da roda dos alimentos; Osteoporose – fatores preventivos; Dor dos seus pés: causas e tratamentos; A menopausa e a alimentação; Dieta mediterrânea: um padrão de vida; Mitos sobre os pés; Os mitos da alimentação; A alimentação dos nossos filhos e netos; Doença das unhas: causas e tratamentos; Como nutrir o seu coração – doenças cardiovasculares; Um workshop: Pão e cereais, (inscrição a 7 euros). E uma caminhada: Dar aos anos mais vida, dar mais anos à vida, (Inscrições a 5 euros). É obra.

 

Cá para nós, que ninguém nos ouve, alguém na Câmara anda a tentar ganhar algum prémio internacional que distinga a originalidade e o pioneirismo em animação cultural em cidades de província. Se assim é, tem desde já o nosso mais caloroso apoio. Nós não só apoiamos a original ideia entusiasticamente como a subscrevemos por inteiro. Por muito que isso custe aos críticos do costume. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 13 de Novembro de 2011

Hora do almoço


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 12 de Novembro de 2011

O homem da camisa branca


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

O Homem Sem Memória

 

88 – O LP de Gilbert Bécaud chegou ao fim e, momentos antes de se levantar da cadeira para ir substituí-lo pelo Johnny Hallyday, de seu verdadeiro nome Jean-Philippe Smet, também conhecido como o Elvis Presley francês, disse na sua voz suave: “Xeque-mate”. O José ficou fulo, mas disfarçou muito bem. O José se fosse a ficar fulo e a admiti-lo por perder com o Fernando, tinha de ser seu inimigo, pois era vencido por ele em tudo. Iniciaram outra partida de xadrez. O anfitrião tornou à conversa.

O seu irmão do meio, vendo que o mais velho, por imposição partidária, andava metido em várias guerras sem conseguir definir bem o inimigo, resolveu questioná-lo diretamente, numa ocasião em que veio à metrópole em serviço oficial. O que é que o aconselhava a fazer, pois, como antifascista que era, estava igualmente contra a guerra. Mas também não se via enfiado numa farda a coçar os tomates enquanto os seus camaradas de armas matavam e morriam numa guerra sem razão e sem justificação.

O militar, triste como as manhãs de inverno chuvoso, disse-lhe que só existiam dois caminhos: ou desertava ou entrava em contacto com o Partido para as suas estruturas dirigentes estabelecerem as respetivas ligações com as distintas células que existiam espalhadas pelo país e pelas colónias. Depois era seguir o guião normal: sujeitar-se às orientações, deixar-se dirigir, acatar com espírito de militância as diretivas do coletivo partidário. Mas o irmão do meio insistiu com o mais velho que não conseguia fazer o papel de traidor passivo. Parecia-lhe uma iniquidade.

O irmão do meio em discurso direto ao interlocutor: “Isso é bom para ti que és obediente e disciplinado. Aceitas tudo o que o Partido te diz sem discutires uma vírgula que seja. Eu não consigo ser assim. Ou estou dentro ou estou fora.” O irmão mais velho: “Mas…” O irmão do meio: “Comigo não há mas nem meio mas. Comigo é sim ou sopas”. O irmão mais velho: “Tu é que sabes. A vida é tua. Mas se optares pela deserção tens de te preparar para não vires a Portugal durante muito tempo. Vais deixar de poder ver a família. Vais ter de abandonar o curso. Vais ter de viver como um qualquer emigrante, com a agravante de que se te apanham por cá em visita à família prendem-te e despacham-te, sem dó nem piedade, para a pior frente de combate, onde se morre todos os dias vítima das minas antipessoais ou anticarro. Mas tu é que sabes. A vida é tua. E desengana-te se pensas que podes contar lá fora com o apoio do Partido. O Partido não liga a desertores.” O irmão do meio: “O teu partido é muito solidário. Dá-lhe os meus melhores cumprimentos.”

O irmão do meio do Fernando ainda fez a recruta, tendo em vista conseguir não ser mobilizado para o ultramar, mas quando viu o seu nome na lista dos convocados para a Guiné, nessa mesma noite meteu num saco o mínimo de roupa possível, que era toda a que tinha, e pôs-se a caminho de França sem passar por casa dos pais.

Em Paris, começou a labutar como operário numa fábrica de automóveis. Mas lá trabalhava-se a valer. Por isso, e devido aos estudos que tinha e à sua visão antifascista e de esquerda, tentou ir para um qualquer país de Leste trabalhar nalguma rádio ou coisa do género. Experimentou falar com o Partido. E o Partido veio até ele na figura de um homenzinho pequeno e roliço que escutava muito bem mas não dizia palavra. No final sempre explicava: “Vou contatar a direcção e logo lhe digo alguma coisa, camarada.” Cinco vezes o desertor à guerra colonial, tanto na perspetiva do regime como na perspetiva do Partido, falou com o homenzinho e cinco vezes o homenzinho lhe repetiu a resposta: “Vou contactar a direcção e logo lhe digo alguma coisa, camarada.” Um dia soube, por linhas travessas, que nem sequer o admitiam como simpatizante, quanto mais como militante. O Partido, tal como Roma, não pagava a traidores.

Por isso, o irmão do meio do Fernando começou a escrever para a família desde França sob pseudónimo, trabalhava como operário especializado na fábrica de carros, enchia-se de namorar com francesas, portuguesas, espanholas e italianas. Comprou um carro, alugou um apartamento condigno, comprou boa música, muitas revistas de BD que, depois de utilizadas quanto baste, enviava ao Fernando sempre com os olhos rasos de água.

Com os olhos rasos de água ficou ainda o Fernando e o José também fungou o nariz uma ou duas vezes. Quando olharam um para o outro, e ainda antes de beberem mais um copinho de vinho fino, o Fernando disse para o José: “Xeque-mate”. De novo o José ficou fulo, mas tornou a disfarçar muito bem. O José, como já dissemos, se fosse a ficar fulo e a admiti-lo por perder com o Fernando, tinha de ser seu inimigo, pois era vencido por ele em tudo.

Preparavam-se para iniciar mais uma partida de xadrez, quando o senhor Carvalho tossiu nas escadas.

Desta vez, o pai do Fernando não cantou o fado nem regeu a sua orquestra imaginária. Desta vez falou de livros. Ou melhor, falou de dois livros. O senhor Carvalho quando falava de livros falava sempre de dois livros: “Os homens e os outros” de Elio Vittorini e “Os Miseráveis”, de Vitor Hugo.

No primeiro fascinava-o o ponto de vista sentimental, onde o personagem é dilacerado pelo amor impossível em relação a Bertha, mulher casada que não pode decidir abandonar o marido. Depois falava da luta entre fascistas e antifascistas, numa relação de ódio e morte. E tão desumana que vários resistentes antifascistas, depois de vários atentados mortais, são feitos prisioneiros e lançados vivos aos cães que os devoram com requintes de malvadez, perante o olhar indiferente dos maus, que são os fascistas. “Todos eles são maus, todos, todos, todos”, dizia o senhor Carvalho incendiado e contaminado pelo romance do escritor italiano.

“Os homens e os outros” foi escrito no meio da luta partidária. Por isso, o romance é uma celebração da força. E o Fernando, dentro do seu rigor, lembrava sempre ao senhor Carvalho: “Então a cena dos cães não acontece porque um vendedor, em auto-defesa, matou a cadela preferida do general Clemm e, por isso, foi lançado aos cães do militar para pôr eles ser dilacerado, sob o olhar regalado do líder fascista?”

“Vai tudo dar ao mesmo, Fernando. Todos os fascistas são maus, todos sem exceção”. E, entusiasmado, cuspindo alguma saliva, mexendo a papada e agitando as suas gordas mãos, contava sempre a cena onde o En 2, o personagem principal, e Bertha, a sua indefinida amante, assistem à cena monstruosa onde alguns cadáveres de civis mortos são lançados na calçada em retaliação pelos alemães abatidos numa emboscada.  Entre eles estavam uma menina, um velho e dois rapazes de quinze anos.

Cansado, pelo agitar do corpo e pelo vibrar da mente, pedia um copo de tinto à esposa e punha-se seguidamente a falar de Jean Valjean, a figura que se destaca em toda a história de “Os Miseráveis”, preso por ter roubado um pão para alimentar a família e que, em consequência da sua tentativa de evasão, vê a sua pena permutada para trabalhos forçados nas galés. Um dia Jean Valjean é libertado. O bispo recolheu-o. Durante a estadia, Jean Valjean repara no móvel do quarto do bispo, pois nele são guardados os castiçais e um faqueiro de prata. À noite, enquanto todos dormem, Jean Valjean levanta-se, pega no faqueiro de prata e vai-se embora com ele. Mas não vai longe.

No dia seguinte, três polícias levam-no a casa do bispo para entregar o faqueiro e certificar-se de que a história do Jean Valjean corresponde à verdade. Depois aparece na história uma menina e Javert, um inspector de polícia, que não mais deixa de o perseguir.

“A história é a puxar para o dramático, mas o que no livro é interessante, e inesquecível, até mais do que Jean Valjean, é a sanha perseguidora do polícia, como se fosse um cão de caça. Sempre com os olhos postos na presa.” Depois parava de falar e fazia que adormecia. Ou adormecia mesmo. Quando assim acontecia, a dona da casa dava a noite por terminada.

Quando saiu de casa, o José, ficou com pele de galinha e com os cabelos em pé. Primeiro pensou que por ali andava um lobo e a respectiva família. Quando olhou para trás viu um vulto aproximar-se: era o Virtudes. “Donde vens?”, perguntou-lhe. Ele disse que não lhe podia dizer. “Coisas de bruxos, caro José.” Mas como o cemitério não ficava longe e a igreja também não, pensou que talvez o seu amigo estivesse a falar verdade. E a prudência dizia-lhe que se fizesse desentendido. Acompanhou-o até uma encruzilhada onde um macho taludo o esperava inquieto espanando moscas notívagas com a cauda. Viu-o montar, olhou para os seus olhos carregados de escuridão e foi para casa.

Na segunda-feira, aconteceram três casos paradigmáticos que confrangeram a vizinhança e a cidade. Uns mais do que outros, claro. Mas todos eles com um elo de ligação: o de serem vizinhos da família Carvalho. O bufo da Pide queimou as mãos num incêndio ficando praticamente paralisado. O filho do seu vizinho do lado, dono de uma sapataria, foi abalroado e esmagado dentro da carrinha que conduzia, pelo comboio quando tentava atravessar a passagem de nível. E outro vizinho, que vivia paredes meias com a linha do comboio, foi preso por estuprar a sua filha mais nova, depois de já ter estuprado tudo o que era rapariga da família.

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

Mulher com regador


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 9 de Novembro de 2011

O Poema Infinito (73): a distância mortal da luz

 

Tu foste sempre tudo dentro do dia a arder. Um medo impetuoso provocado pela tua beleza flagrante desfaz-me a memória do dia. Todas as vozes se abrem, impercetíveis, para a dimensão da água. Os teus ímpetos de fêmea são como novelos de fogo em noite de geada. És o meu doce inverno. Essa é a justa fundamentação das estações. O silêncio agrava-se agora no coração da noite. A tua presença habita o meu corpo. Tu és a minha alma. Tu és a minha fonte luminosa. As palavras sentem remorsos da tua poesia. A felicidade tem também a sua face trágica: o momento em que a aceitamos. Todos os dias que passam aumentam mais a lenta distância da verdade. Os astros projetam a noite no céu. Estrelas vertiginosas são os novos rumores fáticos da ânsia. Os teus olhos voltam a iluminar a noite. Tudo fica mais próximo. As tuas mãos modelam o desejo. As flores do quadro explodem ferozmente dentro da cor das suas pétalas fixas. Evito, por momentos, a luz lenta das tuas mãos. A distância das casas é-nos familiar. Tem sido difícil a redescoberta dos caminhos da infância. Uma brisa ténue traz até nós o outro lado da noite. Oiço as veredas por dentro das florestas. Escuto as mágoas dos móveis, a angústia das portas, as exclamações das janelas. Oiço a confusão dos livros, a perplexidade fixa das fotografias, o esboço frio dos brinquedos dos nossos filhos guardados na despensa, a imensa melancolia das máquinas fotográficas antigas. O teu corpo move-se por entre a preguiça suave do amanhecer. Observo o teu olhar de encontro ao meu. Palavras iluminadas voltam a perseguir-me dentro do sono. Tudo se volta a agitar sob o signo da solidão. Injetas-me novamente uma renovada promessa de luz. Dizes: o teu amor tem ainda a lenta loucura da verdade. Dizes: as tuas lágrimas ficam doces depois de um orgasmo. É quase manhã. As árvores de outono seguram ainda as suas folhas mais queridas. Tenho-te envolvida entre os meus braços e as minhas pernas. Do lado de fora, a luz encosta-se ao muro e a sombra interior estende-se na direção certa da casa. O teu rosto, de sorriso açucarado, é o meu novo dia. Amanheces dentro dos meus olhos. De novo. Amanheces dentro das minhas mãos. De novo. Amanheces com a pele repleta de pequeninas pérolas de orvalho. Novamente. Os pássaros nas árvores sacodem a noite das penas e preparam-nas para a luminosidade dourada do sol. Tudo ganha vida, até a ideia da morte. O sol acende as curvas da vereda que serpenteiam a floresta. A felicidade é esta quase manhã que mais logo desaguará na noite. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 8 de Novembro de 2011

Lavar as alfaces


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 7 de Novembro de 2011

Abandonos

 

Pus-me a pensar nas probabilidades de eu existir e fiquei perturbado com os cálculos: uma em dez biliões. Uma para o número de Avogrado: 6022 vezes 10 elevado a 23. E pensar que há ainda pessoas que desperdiçam este autêntico milagre. E porque raio é que eu tinha de nascer em Portugal e, como se ainda fosse pouco, porque razão nasci no concelho de Chaves? Ele há coisas do arco-da-velha. Quando pensei em tudo isto estava junto ao rio, que corria manso e cansado, enquanto lá no alto as estrelas da noite brilhavam como se me quisessem dizer alguma coisa. Elas lá no cimo, tão distantes. Porra! A estrela mais próxima está a quarenta biliões de quilómetros. A arder inteirinha ainda antes de os dinossauros andarem por aí ao deus dará. E vai continuar a arder, inteirinha, mesmo quando já não restar nenhum ser humano na terra. Milhentas galáxias, biliões de estelas. Por mais pequeno que me sinta, nunca estarei perto da verdade. Afinal sou um ponto, um átomo, um grão de areia. Porra!

 

Assim pequenino, fui, eu mais os meus amigos, dar uma volta pela cidade. Quando chegámos perto do quiosque do Zeca, o R., visivelmente irritado, e enquanto esticava o indicador na direcção do D., vociferou como a seguir transcrevo, no entanto com algumas omissões para não afrontar os leitores mais sugestionáveis: “Ao que isto chegou. Em tempos de crise, a Câmara gasta uma pipa de massa em obras para fazer subir o pavimento da rua de Santo António cerca de dez centímetros, no sentido de eliminar o desnível existente entre a faixa central e as faixas laterais. A verdade é que não se percebe a importância da obra, pois vai continuar a estar aberta ao trânsito, que, na minha perspetiva, devia fechar. Se a via estivesse em mau estado de conservação, ou se o momento fosse de vacas gordas, ainda vá que não vá. Agora, em tempo de torinas escanzeladas, transforma-se numa afronta, num exercício de gestão muito mal calculado, num desperdício de verbas que podiam ser aproveitadas em obras muito mais importantes. Assim, é chover no molhado.”

 

Abatido, o D. encolheu os ombros e pôs-se a assobiar o hino do PSD.

 

O F., muito sério, deitou mais achas para a fogueira: “A nossa Câmara…” “Nossa, salvo seja”, retificou o R., enquanto o D. se ria de mansinho e lembrava: “A vossa, se a memória não me falha”. “Prontos”, relativizou o F., “a autarquia flaviense, depois de adquirir o Solar dos Montalvões, abandonou-o com requintes de malvadez. E ali está ao abandono, lembrando-nos que esta câmara, que teima em nos desgovernar, não tem norte…”, “Nem sul, continuou o L.”, “Nem este”, adiantou o R., “Nem oeste”, disse eu para não ficar fora da jogada. “Age conforme os ventos e as marés. Não tem uma matriz orientadora. Veleja aos ziguezagues. Gere mal o património, que, sendo da autarquia, é de todos nós.” Com cara de caso, o F. lançou a seguinte questão: “Que mal é que nós fizemos à autarquia para ela desbaratar os dinheiros públicos?” E rematou: “Tamanho atentado ao património é mais do que incúria, é desleixo e constitui uma afronta ao bem senso dos flavienses e ao bom nome da instituição.”

 

Aparentemente indiferente, o D. encolheu os ombros e continuou a assobiar o hino do PSD. “Que te faça bom proveito”, invetivou-o o R., no que foi secundado pelo F.

 

Em frente ao assador das castanhas assadas, o R., depois de comer uma bem quentinha, voltou à carga, como é seu mester: “Faz impressão saber que o espaço construído propositadamente para receber a Feira dos Santos, foi abandonado, sem qualquer tipo de explicação plausível. Desta vez, a Câmara despachou os divertimentos para a Madalena.”

 

Como as castanhas estavam boas, cada um comeu várias. O R., sempre atento aos pormenores, levou-nos à Lapa, abriu uma garrafa de tinto da Quinta de Arcossó, com rótulo da Associação de Fotografia  Lumbudus, que trazia no carro, distribuiu um copo de plástico a cada um e meou-os de vinho. Depois das castanhas, soube-nos pela vida. “Boa pinga!”, exclamou o F. Todos concordámos. Até o D., que, consolado, meteu, durante algum tempo, o assobio ao bolso.

 

O R., que tinha enchido o seu copo, seguindo o dito popular, quem parte e reparte, etc., encorajado pelo corpo e pelo paladar do excelente vinho da nossa região, voltou à conversa: “Mete dó ver a malfadada Plataforma Logística e o espaço industrial construído perto de Outeiro Seco, que custou vários milhares, ao abandono. Faz lembrar os antigos espaços evacuados depois da crise industrial do século passado. Apenas com a agravante de que na nossa terra isto acontece em plena era pós-industrial. A visão destes senhores não bate certo nem com o tempo nem com o modo. Resumindo, esta autarquia é a Câmara do abandono: abandonou o Solar dos Montalvões, abandonou o espaço da Feira dos Santos, abandonou a Plataforma Logística, o Parque Industrial e…”

 

“Abandonou as ideias, a confiança, as pessoas e a vontade de mudança a que se propôs quando foi escolhida pelo Partido e eleita pelos flavienses”, rematou o D., talvez já um pouco entusiasmado pelo tinto de Arcossó.

 

Eu, também já um pouco animado pela pinga, concluí, para espanto de todos: “Está provado que a Câmara de Chaves não sabe o que o povo quer e o povo também já desistiu de tentar saber o que é que a Câmara verdadeiramente pretende.”

 

“Boa malha”, disseram os meus amigos, enquanto o D. assobiava, trocista, o hino do seu partido. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 6 de Novembro de 2011

Dança


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 5 de Novembro de 2011

Pose de mestre


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011

O Homem Sem Memória

 

87 - Era certo e sabido que se o Fernando começasse a dedilhar o fado da Samaritana, o pai, no seu curioso sotaque minhoto, começava a cantar. E cantava tão bem, ou tão mal, como o João Braga, e isso pela singela razão de que ambos e dois não eram cantores do fado de Coimbra, que sendo também denominado fado, obedece a outros critérios de qualidade e gosto em tudo distintos do fado de Lisboa, que nem canção de Lisboa é, e muito menos portuguesa, mas de um seu bairro, conhecido, sobretudo, pela boémia e pela má vida.

Amanhecia quando a tertúlia desmobilizou, ou para as suas camas, ou para as respectivas casas.

À noite, por causa do bom tempo, da graciosa afeição do casal e devido ao ambiente acolhedor, a tertúlia da noite anterior voltou àquela casa com toda a ilusão do mundo. O primeiro a chegar foi o José.

Enquanto ouviam o A Saucerful of Secrets dos Pink Floyd no aparelhómetro discográfico e enquanto folheavam, com cara de caso, um Pilote repleto de BD de grande qualidade (Lone Sloane de Philippe Druillet, Tenente Blueberry de Charlie e Giraud, Astérix de Uderzo e Goscinny, Philémon de Fred, entre outros), o José, olhando de lado para o seu amigo, perguntou de chofre: “Qual a razão porque o teu irmão emigrou para França?” O Fernando limitou-se a ficar calado. Depois olhou para o José e fez-lhe reparar na qualidade dos cenários das aventuras desenhadas por Druillet, onde o seu herói de ficção científica se insere em cenários de estruturas gigantescas inspiradas na Art Nouveau, nos templos indianos e nas catedrais góticas, daí o apelidarem de “arquiteto de espaços”.

“Fantástico!”, exclamou o Fernando. “Fantástico!”, concordou o José. “O que fazia o teu irmão antes de emigrar?”, insistiu o José. “Estudava engenharia,” respondeu o Fernando sem olhar para ele. “Então porque emigrou?”, insistiu o José. O Fernando limitou-se a ficar calado. Depois olhou para o José e fez-lhe reparar na imensa qualidade  dos desenhos de Giraud, onde o Oeste selvagem, que se estende desde as pradarias dos Estados Unidos até ao Novo México, aparece admiravelmente recriado em todo o seu ambiente e paisagem.

“Fantástico! Fantástico”, exclamou o Fernando. “Fantástico! Fantástico!”, concordou o José. “Mas se o teu irmão andava a estudar porque raio é que resolveu emigrar. Os emigrantes que eu conheço são todos iletrados ou pouco mais do que isso. De certeza que não foi por motivos económicos que ele se pirou para França. Deve existir outra razão. E forte. Mas qual?”, insistiu o José.

Mais uma vez o Fernando se limitou a ficar calado. Novamente olhou para o José e fez-lhe reparar no grande talento gráfico das pranchas de Uderzo e nos excelentes textos do mestre Goscinny, repletos de humor, tendo por base os trocadilhos, onde os portugueses (os lusitanos) são baixinhos e educados (Uderzo disse que todos os portugueses que ele conhecera eram assim).

“Fantástico! Fantástico! Fantástico!”, exclamou o Fernando. “Fantástico! Fantástico! Fantástico!”, concordou o José. Entretanto o lado A do LP dos Pink Floyd acabou e o Fernando levantou-se para pôr a tocar o lado B. Sentou-se novamente e pôs-se a olhar para as páginas coloridas do Pilote, impressas em bom papel branco brilhante e acetinado, muito diferente do utilizado para a impressão do Tintim português, que era baço e rudimentar, muito parecido com o utilizado para imprimir os poucos e maus jornais diários. 

“Queres um copinho de vinho fino?”, perguntou o anfitrião. “Pode ser. Vai mesmo bem com esta música do A Saucerful of Secrets”, respondeu sorrindo a visita.  O Fernando, vindo da cozinha com dois cálices de Porto, lembrou: “Comprei este disco porque li que A Saucerful of Secrets é a melhor demonstração de como do caos sonoro pode surgir a música mais celestial e melódica, apenas porque os seus autores assim o desejaram. De facto assim é.” Depois olhou para o José e levantou o copo. O José fez o mesmo. Brindaram. E no fim do cerimonial beberam o copinho de vinho fino de um só trago.

O José, obsessivo na sua teimosia, voltou à carga: “Estou em crer que também não existe por aí nenhum negócio de saias. Penso que ele não era rapaz para se pôr a andar depois de ter engravidado a filha de alguém importante. Nem o teu pai consentiria tal dislate. Sois uma família de bem. Comportamentos desse tipo são típicos dos filhos da mãe. Então porque é que ele foi a salto para França?” O Fernando mais uma vez ficou em silêncio. Tornou a olhar para o José e fez-lhe reparar no ambiente onírico da BD do Fred, no tom geral da série, no seu realismo fantástico retratando as andanças do jovem Philémon, em aventuras surreais com criaturas estranhas em lugares estranhos, daí o ter sido considerada uma dos mais poéticas e originais BD  de todos os tempos.

“Fantástico! Fantástico! Fantástico! Fantástico!”, exclamou o Fernando. “Fantástico! Fantástico! Fantástico! Fantástico!”, concordou o José. A revista chegou ao fim. E o LP também. O Fernando tornou a encher de novo os dois cálices de vinho fino. Novamente brindaram e novamente emborcaram o vinho de uma só golada. À falta de música e de BD, o Fernando foi buscar o tabuleiro de xadrez e puseram as tropas nos seus devidos lugares. Rei branco em casa preta, rei preto em casa branca e por aí fora. Com uma inesperada saída de cavalo, o Fernando resolveu satisfazer a curiosidade do amigo.

De certeza que já tinha ouvido falar da guerra colonial. Em sua casa eram todos contra ela, como era fácil de deduzir. Entretanto lembrou-se que no andar inferior o bufo podia pôr-se à escuta e resolveu colocar um disco no aparelhómetro musical. Gilbert Bécaud serviu muito bem. Depois voltou ao xadrez e à conversa.

O seu irmão mais velho, que já era engenheiro civil quando foi para a tropa, que também era militante do PCP, e por isso mesmo era contra a guerra colonial, viu-se na estranha situação de, sendo contra a famigerada guerra, ter de participar nela por imposição partidária. Ele tinha intenção de fugir, mas o partido impôs-lhe a atitude correta e a orientação geral: um comunista não desertava, ia para a guerra combatê-la por dentro. Um comunista lutava ao lado do seu povo, esclarecendo os soldados, pois ele era um oficial miliciano, e também as populações da iniquidade da guerra. Devia abster-se de matar o “inimigo”, devia evitar o confronto, devia estabelecer contacto com os camaradas guerrilheiros dos movimentos de libertação e ajudá-los naquilo que fosse preciso. Isto em teoria até podia funcionar, mas na prática andava muito perto da traição à pátria e aos camaradas de armas. O seu irmão mais velho obedeceu e tentou comportar-se dentro dos limites do razoável para a situação. O Partido apenas autorizava uma deserção: quando ela era feita directamente para os movimentos de libertação, levando o desertor consigo tudo o que pudesse: armas, dinheiro, alimentos, homens e informação. Só que isso, o seu irmão mais velho não conseguiu fazer, por imperativo de honra. Ainda tinha algum sentido do dever, algum fervor patriótico, alguma consciência de Estado. Por isso ficou entalado entre a tradição e a traição. Ficou dividido entre o dever e a militância. Entre o seu mundo e um mundo que era totalmente o inverso. Com um exército destes qualquer país perdia qualquer guerra. Limitou-se, por isso mesmo, a escapar aos combates. A esperar, sentado, o lento decorrer do tempo. A aguardar a passagem dos dias. Mas essa era a orientação do Partido. Era preciso perder a guerra para o país ganhar a liberdade. Contradição terrível. Mas as ideologias totalitárias são assim mesmo, absurdas dentro da sua coerência paradoxal. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011

Concentração


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011

O Poema Infinito (72): a densidade do eterno abandono

 

Diante de mim a terra abre-se à subtileza das geadas. Regresso sempre à casa abandonada que na minha memória tem sempre pessoas dentro a sorrir. Agora o seu interior é húmido. Nela flutuam aromas e a presença ténue de corpos que são apenas sombras. O fogo da lareira origina um novo princípio. Olho o círculo das chamas como se deles pudesse nascer a luz dos dias que estão para vir. Os animais esperam pela noite e entre si segredam a forma secreta da geometria das constelações. As aves soltam-se. O rio adormece. Escuto o silêncio sibilante dos astros. Os insetos refugiam-se na voz mágica das árvores. Sinto de novo o fresco amanhecer das galáxias. A minha aldeia vive debaixo da minha pele de cobra. Já não há utensílios agrícolas para talhar a sua geometria de sons. Os bosques foram comidos pelo fogo uma e outra vez. E ainda outra, como uma maldição. As lentas chaminés deixaram de ter rostos de fumo. As pedras das paredes morreram definitivamente. Lembro-me de recolher a neve com as conchas das mãos. Agora a rua está repleta de buracos inúteis. A solidão é como uma bebedeira permanente. Por isso, todas as manhãs morrem dentro da minha boca. A saudade é cada vez mais uma demorada insónia. Os montes cospem flores selvagens. O esquecimento provoca-me sono. Sou agora escrito dentro de uma outra idade. A terra sobe por mim como um murmúrio. Uma estrela ilumina a tua cara de anjo bom. Vozes de urze sobem-me à garganta. O escuro lamento das águas varre o passo rápido das crianças que desapareceram para sempre. Os ventos varrem os montes e as ruas desertas. As cobras dormem nos seus buracos. As aves morrem enfurecidas pelo desassossego. Os láparos gelam de medo. Quase tudo em mim secou. A solidão tem destes dias cruéis. Saio para a rua. As pedras iluminam-me o caminho. As portas invadem as casas. Árvores inclinadas tocam-me com o seu silêncio. Toda a aldeia é um lugar de cinza. A noite atravessa-me com o seu corpo de flor de plástico em pânico. Escrevo para imitar a paisagem. Os animais adormecidos lembram sóis oblíquos. A memória escorre pela madrugada como um cão abandonado. Noto a ausência do teu corpo como se fosse um ferimento. Fico de vigília aos gestos da madrugada. Oiço ao longe um grito duro. Uma lágrima grossa desce pela minha face enrugada. O teu corpo define o meu tempo. Ainda não sei se vou conseguir fugir definitivamente desta casa. Ainda não sei. Apenas sei que diante de mim a terra se abre de novo à subtileza das geadas.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

Barraca de tiro


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9



29
30
31


.posts recentes

. São Sebastião - Vilarinho...

. São Sebastião - Couto Dor...

. Couto de Dornelas (III)

. Poema Infinito (356): O a...

. São Sebastião - Couto Dor...

. S. Sebastião - Couto de D...

. 343 - Pérolas e diamantes...

. A gaivota (III)

. A gaivota (II)

. A gaivota

. Poema Infinito (355): O n...

. Maresias (II)

. Maresias

. 342 - Pérolas e diamantes...

. HAZUL - Porto

. The Augustus no Porto

. A ponte é uma miragem...

. Poema Infinito (354): Um ...

. Interações

. Diversões...

. 341 - Pérolas e diamantes...

. Assando sardinhas - S. Jo...

. Ribeira - Porto - S. João...

. Porto - Ribeira - São Joã...

. Poema Infinito (353): O e...

. Ribeira - Porto - S. João...

. Estação de S. Bento - Por...

. 340 - Pérolas e diamantes...

. Cabo da Roca

. Cabo da Roca

. Cabo da Roca

. Poema Infinito (352): Out...

. Na exposição

. Cavalos no Barroso

. 339 - Pérolas e diamantes...

. Janela

. Eira

. Garrafeira

. Poema Infinito (351): A c...

. À porta

. Reflexos

. 338 - Pérolas e diamantes...

. A vendedora de fumeiro

. O sapateiro

. O barrosão

. Poema Infinito (350): Inv...

. O camarada

. O artesão

. 337 - Pérolas e diamantes...

. Alturas do Barroso com ne...

.arquivos

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.tags

. todas as tags

.Visitas

.A Li(n)gar