Sábado, 31 de Dezembro de 2011

Interiores III


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

O Homem Sem Memória - 95

 

95 – O José passou cerca de um mês no hospital a recuperar dos ferimentos e outro mês em casa a reconquistar o ego. Das contusões e dos ossos fraturados recobrou sem mazelas evidentes. Já a recuperação dos rasgos na pele fiou mais fino.


Os médicos coseram e trataram os cortes como souberam e puderam. E muitos que eles foram. Uma costureira não teria feito melhor. O filho do guarda Ferreira ficou para toda a vida com 25 suturas resultado de outras tantas facadas e coronhadas. Talvez tantas como Jesus se tivesse sobrevivido aos ferimentos, ao flagelo da Via Crucis e à posterior crucificação. O ponto alto do sacrifício do Cordeiro de Deus.


Ninguém sabe bem como depois de ressuscitado, Jesus, agora Cristo, apareceu aos seus apóstolos. Disso não há registo algum. Nem oral, nem escrito. E sobre o assunto a Bíblia também nada adianta. Mas estamos em crer que se o filho de Deus, e da Virgem Maria, tivesse sobrevivido era bem capaz de ter ficado como o José, com o corpo pejado de extensas cicatrizes e linhas de pele suturadas com agulha e guita apropriadas. Valha-nos ao menos isso.


À primeira vista, o José apenas patenteava uma cicatriz sobre a sobrancelha esquerda, o que lhe dava um ar verdadeiramente aproximado ao Django, um herói dos filmes de Western spaghetti muito apreciado na altura. Os amigos, quando o viam aproximar, assobiavam-lhe as melodias aprendidas nas matinés do Cine-Teatro e faziam que disparavam armas de fogo, soprando no dedo indicador como se ele fosse o cano de um revólver justiceiro.


Ele sorria e retribuía o assobio e um que outro disparo. Também não se esquecia de bufar na direção do seu indicador, imitando rigorosamente a postura, o charme e a coragem do herói cinematográfico.


Escusado será dizer que o José se tornou uma lenda na cidade. A sua coragem e a sua determinação passaram a ser admiradas pelas pessoas de bem. Muitas delas pediam-lhe para exibir as “medalhas”, o que ele fazia sempre que o local e a assistência permitiam a apresentação das suas reverenciadas cesuras.


A mãe aconselhou-o a matricular-se no Liceu para acabar o sétimo ano. Lá matricular matriculou-se, mas não ia às aulas. Começou a achar piada à boémia estudantil. Fundou um grupo de poetas e com eles começou a visitar diversas casas de boas famílias que diziam apreciar poesia e principiou a frequentar tertúlias vagamente culturais e saraus militantemente intelectuais. 


Inspirado na leitura de distintos poetas portugueses e estrangeiros passou a escrever poesia espiritual. Era capaz de demorar um dia a escrever uma quadra, desperdiçar outro a alterá-la de fio a pavio e ainda consumir um terceiro a riscar palavra a palavra até nada dela restar.


Incapaz de ajeitar versos que enaltecessem com talento Deus e toda a sua Corte Celeste, virou-se para a poesia trovadoresca, mas as loas saíam-lhe pífias e pleonásticas. Por vezes lia-as aos amigos nos dias das reuniões ordinárias do grupo e, apesar de muitos deles lhe elogiarem a rima e o acerto de algumas figuras de estilo, ele não se sentia confortável e rasgava-as ali mesmo, na presença de todos, para dessa forma radical serem testemunhas privilegiadas da sua busca da qualidade e da perfeição, argumentando que um bom poeta demora anos a fazer-se, além de ficar caro em papel deitado ao lixo e tinta gasta em escrever coisas inúteis e isentas de genialidade.


Muitos dos amigos argumentavam que o ótimo é inimigo do bom e que também os génios nunca se deram conta que o eram e por isso é bem possível que, também eles, tivessem atirado coisas geniais ao lixo pensando que eram apenas boas e guardado coisas apenas boas pensando que eram geniais, pois não existem bons juízes em causa própria. Além disso os génios são sempre tão modestos que, só depois de mortos e enterrados, é que se lhes reconhece o mérito. E nem sempre.


Lembravam-lhe que os génios só conseguem esse estatuto quando já são apenas memória, uma memória quieta e afável que põe qualidade numa obra que até ao momento da descoberta dos críticos era apenas um conjunto disperso de bons poemas.


A crise de inspiração fê-lo penar e meditar muito. Meteu-se em casa e começou a magicar nas causas das coisas, nomeadamente na sua falta de jeito para a versalhada. Depois de muito cogitar chegou à brilhante conclusão de que o que lhe estorvava o génio e o jeito eram as suas vivências. Até ali apenas tinha convivido com gente analfabeta e pobre. Dali nada podia surgir como verdadeira inspiração para uma poesia realmente poética.


Poesia a enaltecer a pobreza e as suas virtudes era coisa para burgueses, católicos pindéricos e padres. A verdadeira poesia, desde os primórdios, enaltecia o amor e as relações amorosas. Era aí onde residia o cerne da questão.


Mas para cantar o amor e as relações carnais eloquentes tinha de experimentar. A professora Marília bem explicava nas aulas de filosofia: Primum vivere, deinde philosophari. E ele tinha vivido tão pouco que a sua filosofia tendia a sair-lhe sem sentido e despida de ideias. E, bem vistas as coisas, a poesia é a forma superior da filosofia. A poesia, à semelhança da filosofia, tende a do nada completar tudo e vice-versa, que é a forma mais nobre de redimir a condição humana. Pois a vida dos homens resume-se a falar, comer, trabalhar e fornicar. Da comida e do trabalho tratam as ciências exatas e as que lhe estão próximas, do falar e do fornicar trata a poesia e a filosofia. 


Claro que o José podia, com a experiência que tinha, dedicar-se a escrever romances ou coisa que o valha. Mas ainda era jovem e os romances dão muito trabalho. Tem de se passar muito tempo com a caneta na mão, tem de se alinhavar muito enredo, tem de se organizar um esquema ou vários, tem de se inventar personagens, tem de se passar tempos infinitos a escrever e a corrigir, a corrigir e a escrever e, na maioria dos casos, depois de tanto porfiar, o calhamaço, que deu uma trabalheira imensa a escrevinhar, ou vai para a gaveta ou para o caixote do lixo.


O José, todos o sabemos, até era um rapaz corajoso e, convenhamos, moderadamente trabalhador, só que não se sentia naquela altura com coragem para enfrentar tamanha tarefa. Daí o ter optado pela poesia. Um poema escreve-se num dia, gasta-se uma folha de papel, ou duas se for revisto, e se não prestar, a desilusão não é muita. Nem o trabalho, concordemos, pois rasgar uma folha é fácil, já rasgar quinhentas folhas datilografadas é quase um enforcamento por empenho próprio.


Por isso escrever poesia dá algum estatuto, faz bem ao ego e não nos torna escritores obsessivos. Outra coisa bem distinta é passarmos anos a escrever um romance e depois, pelas razões já anteriormente apontadas, termos de sentir que todo aquele trabalhão foi um desperdício de ideias, tempo e energia.  


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

Interiores II


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

O Poema Infinito (80): literatura acidental

 

Levitas num sossego que me traz os astros de volta, por isso te falo nos modos próprios de escrever. Utilizo os cânones da literatura acidental. A última história tem meio ano de choro e outros seis meses de riso. A voz canta a adelgaçada estratégia dos corpos desastrados. Oiço palavras que germinam na gloriosa cultura das cobras e na harmoniosa levitação do gelo polar. Oiço palavras que caem do ar como penas de choro e lamento e reúno-as num cesto de verga. Deuses gregos e latinos fodem como loucos dentro dos armários da casa. Nós deitamo-nos solitários e deixamo-nos mastigar pela luxúria da carne em combustão. Fugimos da nossa idade de crianças atados a pombas de metal que já fizeram de Espírito Santo em poemas de Fernando Pessoa. Cada vez mais a paciência fornece o combustível da escrita. Um poema é como uma curva de um caminho onde uma macieira deixa cair os seus frutos. Já fui pastor de vacas doces e de ovelhas líricas e andava pelos montes com um cajado aristotélico e inscrevia montanhas nuas em cadernos de erva. Agora é o tempo em que trago a família para casa pelas escadas que se desfazem no tempo. A sua memória é cada vez mais uma alegria triste. É um poema desfeito repleto de palavras duras. As suas bocas de pó sobem pelas paredes e cantam nas suas vozes de madeira seca. Lá fora a chuva cai na sua paciência de água. Cá dentro protejo-me do desespero alimentando-me com o fogo da lareira. O rigor do velho escano estende a inexorável evidência do tempo e do seu poder de destruição absoluta. No meu colo, onde outrora descansava o gato cinzento, dorme hoje o livro do génesis aumentando as dúvidas e as certezas num processo de fissão nuclear. Ao longe os cães que restam latem no seu tom difuso de asma e violência. As rodas dos carros já não andam nem chiam e as mãos das mulheres já não acariciam nem dominam o fogo. As caçarolas redondas onde se fritava o presunto e as batatas enferrujam penduradas em pregos. Sou um ponto parado no branco absoluto de uma folha de papel. Na minha face insiste o trânsito ininterrupto das rugas. Ao fundo a roda de granito do antigo moinho permanece na sua solidão circular. Lembro-me de a minha avó, sentada no seu tosco banco de carvalho negral, reverberar pensamentos enquanto olhava fixamente para o bruxulear das labaredas da lareira. Na minha cabeça animaizinhos inocentes faziam gestos budistas e os bois repetiam as histórias que me contavam. Agora é o sino da igreja quem me badala a memória. De encontro à janela, a chuva continua a desdobrar-se com a pose de um cientista. A noite começa a construir a sua liturgia de sono enquanto eu metamorfoseio metáforas absolutas de saudade. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 27 de Dezembro de 2011

Interiores I


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011

O fado e o corridinho

 

Olho lá para baixo, onde o Tâmega corre sereno encostado às margens, fixo o olhar nos velhos arcos da ponte Romana e de seguida desvio os olhos mais para o lado direito, na direção do casario velho e abandonado, enquanto oiço o trio de jazz Carlos Bica & Azul e tento lembrar-me de uns versos de Ruy Cinatti: “Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades / denunciar a tinta gasta em discursos. / Salve-nos Deus / se não soubermos prever os alicerces / basta de balancé entre o que é, o que virá, o que não é. / Basta de poetas com as mãos cruzadas / e de operários a cair de sono. / Somos poucos mas vale a pena construir cidades / ou morrer de pé.

 

O dia está tristonho e é isso que me leva a ler uma entrevista de Lars Von Trier ao Expresso, realizador que acaba de ganhar um prémio com o seu filme “Melancolia”. Lembro-me da minha paixão pelo cinema, lembro-me da importância do cinema na minha vida, na vida dos meus amigos, na vida da cidade. Lembro-me do saudoso Cine-Teatro, encerrado há muitos anos, e atualmente propriedade da Câmara de Chaves, que nunca conseguiu construir naquele privilegiado espaço central algo de útil para a cidade. E lá continua ele a servir de casa aos ratos e às aranhas. Deus do céu, tanto desperdício, tanta má gestão, tanta frivolidade, tanto abandono, tanta ausência de sensibilidade perante os símbolos da nossa vida colectiva. Deus do céu, tantos projetos falhados, tanta demagogia barata, tanta promessa falsa… tanto abandono.

 

Lars Von Trier, realizador de dois filmes soberbos (Breaking the Waves e Dancer in the Dark), não conseguiu definir-se sobre a sua última película. “Mas este filme é sobre quê?”, perguntaram-lhe, ao que ele respondeu: “Eu não sei.” Foi a partir daqui que comecei a cinematografar o meu filme interior. Esta gestão autárquica do PSD está tão cansada que já não sabe onde está o norte. O presidente vai gerindo o dia-a-dia como pode e sabe, enquanto seu vice se desdobra em almoçaradas, lanches e jantaradas. O senhor presidente delegou a visibilidade no seu vice como quem dá uma trotineta a uma criança traquina e embirrenta, na esperança de que o liberte do pesado fardo da gestão e da dívida.

 

Em abono da verdade, é necessário que se diga que com a conjuntura atual todo o exercício de governação autárquica e nacional é um bico-de-obra. Mas o que verdadeiramente dói é a falta de seriedade. Ainda me lembro de o PSD local prometer uma gestão autárquica que iria fazer com que o concelho ganhasse projeção, contribuindo dessa forma para o aumento e fixação da população residente. Mas, ao contrário, o nosso concelho perdeu gente, valências, protagonismo e capacidade de atração turística.

 

Diga-se, em abono da verdade, que cumpriu com a promessa de construir o Mercado do Gado, o Mercado Abastecedor e a Plataforma Logística. Mas, o que à primeira vista podia ser uma mais-valia, revelou-se um enorme erro de casting. O Mercado Abastecedor, enquanto tal, nunca funcionou e a Plataforma parece um parque industrial abandonado sem utilidade alguma, onde crescem as giestas e os tojos, onde instalações por estrear estão como se por elas tivesse passado a fúria das manifestações dos indignados, com os vidros partidos, as portas batidas e as ruas cercadas de ervas daninhas.

 

Ainda me lembro de ver o senhor presidente da Câmara, rodeado por todo o seu elenco camarário, nas manifestações contra as portagens nas SCUT e contra o encerramento da urgência no Hospital de Chaves. E não se limitava a marcar presença, discursava com empenho, com denodo, com coragem, dava entrevistas contundentes em que prometia luta e mais luta e todo o seu empenho na defesa dos direitos inalienáveis das gentes do Interior Norte. E a defesa dos direitos do povo que o elegeu, e que nele se reconhecia, ficava-lhe bem. Estava de acordo com o seu argumentário político, com o seu ideário social-democrata.

 

Mas isso foi enquanto o Governo era socialista, agora que lá estão os seus, diz-se surpreendido com a extinção de valências e de serviços e com a desclassificação da urgência médico-cirúrgica no Hospital de Chaves. E relativamente ao pagamento de portagens na A24 não se lhe conhece uma única declaração. Sobre isso nem sim nem sopas. Mas ainda há mais, o pólo da UTAD de Chaves vai acabar, por imposição da administração de Vila Real e, sobre isso, nem sim nem sopas. Talvez tenha ciciado algumas palavras em conversa com alguns membros da direção, mas quanto a tomadas de posição incisivas e enérgicas prefere gerir o sossego. O Governo, através da truculenta ministra da Justiça, pretende desqualificar o Tribunal de Chaves e centralizar serviços em Vila Real. Mais uma vez a nossa autarquia deixa isso para uma próxima oportunidade.

 

Está visto que o PSD local ostenta a mesma cara enganosa do PSD nacional. Quando é oposição tudo promete e quando é poder tudo cala e consente.

 

E enquanto todo este filme acontece, o que é que dizem e escrevem os nossos estimados deputados eleitos pelo nosso distrito? Pois enquanto o poder central laranja destrói todas as nossas potencialidades, fecha serviços, encerra instituições e aumenta impostos de uma forma obsessiva e estúpida, pois, enquanto tudo isso acontece, os nossos estimados deputados do PSD congratulam-se com a escolha do fado para património da Humanidade. Rejubilemos!

 

O Hospital de Chaves perde qualidade e serviços, cantemos-lhe um fado. Vamos pagar nas SCUT, cantemos-lhe outro fado. A UTAD fecha o anémico pólo de Chaves, cantemos-lhe ainda idêntico fado. O Tribunal vai passar a ser uma sala para fazer alguns julgamentos, então tanjam as cordas para todos entoarmos o fado do Embuçado, ou da Samaritana.

 

Os senhores deputados deviam tentar explicar ao povo que os elegeu a razão porque, ao contrário do que foi afirmado insistentemente por Pedro Passos Coelho, afinal sempre há um excedente de 2 mil milhões que, apesar de não ser excedente nem uma folga, é uma receita suplementar que dava e sobrava para pagar aos funcionários públicos pelo menos um dos subsídios. Mas não, o senhor PM preferiu doar esse dinheiro à banca, coitada dela tão descapitalizada, tão benevolente, tão caridosa. E vai mais um fado.

 

Olho para a minha secretária e, enquanto bebo um copo de água para acalmar a minha indignação, leio na capa da revista LER uma frase de Mário Soares: “Tentei muita coisa, até poesia.” E penso no senhor vice-presidente da Câmara e nas suas tentativas de ser também alguma coisa. Até tentou ser deputado. Apesar de eleito, foi e veio sem ter feito nada por si e, sobretudo, por nós, pela nossa região. E como diz o povo, e lembra semanalmente Pacheco Pereira na revista Sábado, é bem verdade que quem nasceu para lagartixa nunca poderá chegar a jacaré.

 

No seu ar ligeiramente afetado, vendo o país a afoguear-se, e o nosso concelho a ser roubado dos seus direitos mais elementares, o senhor vice, falando em nome do seu partido, vem a lume propor a criação de Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega, que ninguém sabe bem para o que serve, a não ser para criar mais uns tachos para alguns apaniguados.

 

Posto perante os graves problemas com que nos defrontamos, o nosso vice camarário propõe uma coisa inócua, inodora e insípida que mais não pretende do que ser uma manobra de diversão com a nítida intenção de esconder o Hospital, as Portagens, o Tribunal e o Pólo da UTAD. Posto perante os gravíssimos problemas com que o nosso concelho se defronta, o vice camarário canta-nos o fado do engano. Estamos em crer que os flaviense não se vão deixar cair no embuste.

 

O vice camarário, mais o seu grupo de apoiantes, já não são parte da solução para o novo ciclo de poder autárquico, são a parte cada vez mais visível, e previsível, do problema que constituem para o seu próprio partido, para a cidade de Chaves e para o nosso concelho.

 

Cá para nós que ninguém nos ouve, o que esta gente está a precisar não é de um fado mas sim de um corridinho à transmontana.

 

Volto de novo ao Carlos Bica, ao Azul e ao Ruy Cinatti: “Somos tão poucos mas vale a pena construir cidades / denunciar a tinta gasta em discursos. / Salve-nos Deus / se não soubermos prever os alicerces…


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
|
Domingo, 25 de Dezembro de 2011

Rostos IV


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 24 de Dezembro de 2011

Rostos III


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

O Homem Sem Memória - 94

 

94 – Encontraram-no a curtir a borracheira, enquanto dormia numa cama abraçado a duas mulheres, que alguém identificou como mãe e filha. Quando o guarda Ferreira, entrando no tugúrio, deu com os olhos no seu filho vagamente iluminado por alguns raios de sol que teimavam em penetrar pelo telhado, emocionou-se como nunca o tinha feito na vida.


Ali estava aquela alma de Deus, carne da sua carne, sangue do seu sangue, novamente seco como as palhas, enfiado numa sotaina rota, que lhe deixava ver as vergonhas, de barba e cabelos desgrenhados, abraçado a duas mulheres dupla ou triplamente pecadoras, respirando profundamente como se fosse um anjo fornicador.


Quando lhe perguntaram se aquele era o seu filho limitou-se a responder: “Acho que sim.” O tenente, que, finalmente, tinha resolvido comparecer em território conquistado, virando-se para ele com toda a sua autoridade de juiz, questionou-o de novo: “O senhor agente aqui não acha nada. Ou sim ou sopas?” “Então sim, senhor tenente. No entanto sinto que se esse é o corpo do meu filho, penso que a sua alma já aí não habita.” “Isso da alma é lá com Deus. Eu, enquanto agente da autoridade, apenas estou autorizado a tratar de corpos e dos delitos que eles cometem.” 


Quando acordou, após ter sido regado com um balde de água fria, o José inquiriu furioso: “Quem foi o Judas? Eu também exijo que o Judas me dê o beijo da sua alta traição. Quem foi o Judas? Exijo que o Judas que me beije senão será amaldiçoado para todo o sempre.”


Mas à sua frente não apareceu o Judas, mas sim o nosso conhecido exorcista de cruz em riste, que não o beijou mas aspergiu sobre ele toda a água benta que transportava na caldeirinha. O José, possesso, não pelo demónio, como era espectável, mas por uma fúria cega, surda e muda, foi-se a ele com toda as forças que ainda possuía e tombou-o de um soco apenas. E olhem que o senhor abade afugentador de demónios pesava para aí cem quilos, ou até um pouco mais.


De imediato foi ele deitado ao chão por um grupo organizado de guardas. O seu pai ainda tentou deter a investida mas foi abalroado pelos colegas. Na guerra não se limpam armas, não se prezam amizades, nem se respeitam laços familiares.


O José continuou a debater-se enquanto levava murros, coronhadas e pontapés. Quando o viu devidamente manietado, e sangrando abundantemente do nariz e da boca, o exorcista, com a raiva do Demo e a impaciência de Deus, encaminhou-se na sua direção e cuspiu-o. De seguida, pediu uma garrafa de vinho e esbanjou-a, derramando todo o seu líquido, que uns dizem ser o sangue de Cristo, em cima do rosto atormentado do José.


“Embebeda-te mais um pouco, porco violento, que é para o que serves. Para Deus, e eu sou sua testemunha privilegiada, já não tens serventia nenhuma. Vai para as profundas dos infernos, tinhoso. Some-te daqui. Deixa esta gente em paz.” E ali se pôs a rezar bem alto para que Deus o ouvisse e lhe desse uma mãozinha em tão intricada missão. Para o exorcista, o José não estava possuído pelo demónio, ele era o próprio demónio.


No exato momento em que o cabo Pires ajudava a levantar o abalroado guarda Ferreira, justificando como podia a fúria cega dos seus subordinados imediatos, apareceu-lhe por detrás o seu superior direto que o felicitou pelo seu brilhante desempenho e pelo desempenho brilhante dos seus imediatos subordinados.


No momento exato em que o cabo Pires sorria para o sargento Elias, enquanto o guarda Ferreira sacudia o pó do seu capote azul e olhava triste para o seu inanimado filho que, esparramado no solo, continuava a sofrer as investidas coléricas do exorcista, apareceu-lhe por detrás o seu superior imediato que felicitou o desempenho do seu subordinado imediato e dos outros subordinados da cadeia hierárquica, felicitação que foi endereçada ao seu subordinado imediato, que logo a transmitiu a todos os soldados e praças da GNR, como era seu dever, incluído o guarda Ferreira, apesar de ter sido também ele vítima da fúria da razão, da ordem e da lei.


Com a moral em cima, os soldados da GNR sorriam de satisfeitos, enquanto as mulheres choravam e gritavam e os seus homens permaneciam quedos e mudos como penedos. Sem forças, prostrado no chão, o José piscou os olhos na direção do seu demónio de estimação. O exorcista arregalou os luzeiros e fez o mesmo.


Nestas coisas da religião é muito frequente cada um sentir-se como fazendo parte das tropas de Deus, atirando sempre para o outro o anátema de fazer parte dos exércitos de Belzebu. Cada um tem a sua teima.


Estavam todos neste equívoco de alma quando, vindo por detrás das largas costas do tenente Sampaio, deu entrada em cena a temível Dona Rosa que, na companhia do seu fiel cachorro, se dirigiu ao chefe da GNR, interpelando-o da seguinte forma: “Quem foi o filho da puta que bateu no meu filho? Quem foi?” Mal o graduado das forças da ordem de Névoa deu meia-volta, a mãe do José foi-se caras a ele com a sua faca de cortar carne para os salpicões e só não o golpeou com a fúria de uma cadela raivosa porque o guarda Ferreira, mesmo a tempo, lhe desviou a estocada com um habilidoso golpe de braço. O tenente Sampaio ficou branco como a cal com que se pintam as paredes das casas para receber o Compasso nos domingos de Páscoa.


Nesse preciso momento as mulheres deixaram de chorar e começaram a aplaudir a destemida progenitora do José. O José, fitando a sua mãe que agitava no ar a faca com que pretendia sangrar o porco do tenente, rodeada pelo marido, pelo sargento Elias e pelo cabo Pires, deu um pulo felino e, arrancando a cruz das mãos do exorcista, vergastou-o tanto e tão ferozmente como Cristo o fez aos vendilhões do templo.


Se não fossem os subordinados diretos do cabo Pires a agir prontamente, a pedido do imediato superior hierárquico e sob a ordem direta do tenente Sampaio, o exorcista podia ter sido chacinado, dependendo do ponto de vista, às mãos do seu demónio de estimação, ou de um dos servos mais diletos e mais utopista de Deus Todo Poderoso.


De novo o José foi deitado ao chão e espancado como um pobre de Cristo. De novo o guarda Ferreira foi derrubado quando tentou interpor-se entre os colegas e o seu primogénito. Só que agora estava a Dona Rosa em campo, que, em vez de desmaiar, como era sua mania, foi-se a eles como São Tiago aos mouros. Mas como em vez de espada comprida e refulgente apenas alçava a tal faca de cortar a carne para os salpicões, a sua investida foi prontamente abortada, pois o cabo Pires, para que a luta entre a família de um guarda contra a sua corporação não se transformasse num motivo de chacota para o povoléu miserável do bairro, passou-lhe uma rasteira que pregou com a mulher do guarda Ferreira no chão.


Vendo a família toda no chão, o mastim da Dona Rosa, guiado pelo seu instinto de cão, dirigiu-se ao tenente Sampaio e só não o ferrou nas jugulares porque o sargento Elias pegou na sua pistola de guerra e disparou um tiro certeiro mesmo no coração do animal.


Vendo a família Ferreira dominada, o bairro subjugado e o exorcista fora de perigo, apesar de muito maltratado, foi dada ordem aos funcionários camarários para virem recolher os corpos dos cães abatidos. As galinhas deixaram-nas para serventia dos indigentes. Afinal eram boas almas cristãs, chefiados por um comendador de Deus e da sua Madre Igreja. Foram ainda chamadas duas ambulâncias dos bombeiros, uma dos de baixo e outra dos de cima, para não ferir suscetibilidades, para recolherem os feridos civis, pois os soldados atacados pela fúria do lumpen foram socorridos pelas ambulâncias militares. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011

Rostos II


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

O Poema Infinito (79): o namoro dos gestos

 

Atravesso as pontes calçado com as minhas sandálias de infância enquanto o lento alvorecer transparece nas árvores altas das margens do rio que corre para longe em direção ao azul do mar. Prometo a mim mesmo que matarei a sede nas belas fontes da serra. Entretanto caminharei pelo meio da minha aldeia em ruínas e levantarei o pó que já os meus antepassados levantaram. E deter-me-ei na praça do pelourinho a contemplar o chafariz que já foi grandioso e agora é apenas grande. Oiço ainda as dignas conquistas dos exércitos que por aqui andaram a defender o território e onde deixaram o seu suor, o seu sangue e as suas lágrimas. E choro com eles a magnificência da sua gesta agora considerada inútil. Continuarei a percorrer os vales e a subir montanhas e a comer maçãs pálidas amadurecidas pelo sol e escutarei, ao longe, a voz da minha avó e do meu pai e da minha mãe, essas vozes que já não existem mas que me convocam insistentemente. Por isso avançarei em direção ao vento tentando perceber a vida. Voltarei a dormir na transparência do teu rosto, encostado ao teu corpo claro e quente enquanto adoço o meu no teu olhar. E sonho com um rio sumptuoso e lascivo onde nos banhamos de extremo a extremo com os sexos à superfície do desejo. E a tua voz tem agora a irresistível luz lunar onde a órbita incandescente do silêncio se entrega à mudança feroz das estações. Somos paisagens brancas que se debruçam sobre as margens do rio que prontamente nos atravessa. E o silêncio anterior revela ainda mais a dolorosa perfeição dos teus lábios e a singular simetria dos mapas da nossa loucura cada vez mais tranquila. Cresce um silêncio terrível por dentro das nossas gargantas. Uma miríade de estrelas cai dentro de um outro tempo como que a iluminar aquilo que já foi dor e miséria. Já nada é perfeito, nem as antigas fórmulas alquímicas quando havia duendes, fadas, bruxas, deuses e demónios. Atualmente o homem é um bicho metamorfoseado de palavras cinzentas. Por isso nos vemos encostados à superfície da nossa idade sustendo a respiração para tentar ainda ouvir cair, uma a uma, as pétalas da magnólia do jardim público enquanto tu olhavas para a flor e eu olhava para ti e para as tuas mãos aflitas. Os pássaros de púrpura e luz desmoronavam os seus voos de encontro às sombras tocados pela loucura do entardecer. Também o teu cabelo sobrevoava o nosso desejo e o nosso amor que começou por ser uma pluma de sonho e expectação. Nessa altura até a mais leve pétala de magnólia era o mundo todo a cair-nos das mãos diretamente para dentro do olhar. E os nossos corpos balouçavam como se fossem invencíveis corcéis na tempestade. Corria um fogo líquido dentro das nossas veias que se dilatavam à medida dos nossos beijos. De tanto pensar já não consigo catalogar o caos. Cada vez mais a vida é uma memória feroz. O jardim público foi meticulosamente assassinado. Hoje a nossa cidade é uma chuva oblíqua que nos envolve na sua sombra e onde os pássaros são cada vez mais débeis. Presentemente o jardim público é um suspiro de flores tardias onde os pássaros renunciam ao voo e se deixam morrer na sua debilidade premeditada. A chuva voltou em busca do deslumbramento antigo. Também ela sente que não consegue regar a perfeição luminosa das coisas. Hoje a perfeição é cada vez mais imperfeita apesar de nunca ter sido tão perfeita. Sim, hoje a chuva regressou à nossa cidade e chora as gotas mais redondas sobre as velhas telhas dos cantos sombrios onde agora nos recolhemos. Desço pela fé da infância, caminho pela extensão dos campos, os livros continuam nas suas lições de voo. É quase manhã. Com a solidão nas veias insisto de novo no dom poético da chuva. É quase manhã e continuo a atravessar pontes como quem namora gestos. Todos os teus gestos. Sempre e para sempre.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

Rostos I


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

O Hal 9000 e o Anjo Vingador

 

O senhor ministro das finanças de Portugal foi definido nos jornais como um homem que tem sentido de humor (quem diria!?), e que ele é tão peculiar como a sua maneira de falar ou as suas caraterísticas olheiras. Vítor Gaspar confessou: “Rio-me imensas vezes de mim próprio.” Esta situação até teria alguma graça se não fosse ele quem é: o efetivo PM de Portugal e intrépido representante da ortodoxia neo-neo-liberal do BCE no Governo Português.

 

Por isso não sabemos se se ri dele mesmo porque nos faz tão mal, porque nos vê chorar, porque não sabe bem o que faz, porque não faz bem o que diz, porque não diz tudo o que sabe, porque não sabe chorar, porque não sabe rir, porque não se leva a sério, porque não sabe que com coisas sérias não se brinca, ou porque para ele é indiferente que o seu povo sofra o que está a sofrer com os punhos cerrados e as lágrimas a caírem-lhe dos olhos como pedras de granizo, com toda a raiva do mundo, por ter acreditado nesta rapaziada que agora esta à frente dos destinos da Nação.

 

Há quem se ria de si próprio porque sim, ou porque tanto faz. E parece que o senhor ministro faz alarde disso. No entanto existem outros governantes, logicamente não pertencentes ao Governo Português, que quando se veem na situação dramática de terem de implementar medidas gravosas para o seu povo choram, como foi o caso da ministra do Trabalho da Itália. São estilos, dir-me-ão alguns. Não, meus amigos, não. Não sãos estilos, são sensibilidades, são sentimentos, são formas distintas de estar na vida.

 

Vítor Gaspar anunciou os brutais cortes dos subsídios aos funcionários públicos e pensionistas com o ar mais tranquilo do mundo, como se isso fosse uma coisa natural, como se daí não viesse mal ao mundo, como se não afetasse profundamente, e de forma irreversível, a qualidade de vida das pessoas. Como se fosse mesmo a coisa mais trivial. E disse-o no tom neutro das máquinas, ou no tom irritante dos burocratas.

 

A ministra italiana tem consciência daquilo que faz, conhece a realidade. Como sabe que o seu povo vai sofrer com os cortes dos salários e pensões, emociona-se e chora. O nosso ministro das finanças faz-me lembrar o HAL 9000 (ou mais especificamente o Algorítmico Heuristicamente Programado ), um  personagem ficcional do filme “2001: A Space Odyssey” de Stanley Kubrick.

 

Vítor Gaspar é quase tão frio como o Hal 9000, fala no mesmo registo monocórdico e frio, não altera a expressão do rosto. Diz-nos que sorri. É bem possível que sim. Nisso difere da máquina de Kubrick, o Hal lutava pela sua sobrevivência, o Vítor Gaspar luta pela sobrevivência dos mercados financeiros, dos bancos e dos especuladores bolsistas. É um pau mandado dos banqueiros, do BCE e da dupla Merkel/Sarkozy. Por isso se ri enquanto nós choramos.

 

E enquanto choramos de raiva, o Primeiro-Ministro, com a absoluta firmeza dos insensíveis, admite ter ainda de vir a aumentar o pacote da austeridade. Talvez seja disso (ou por isso) que o senhor ministro das Finanças sorri: da austeridade sem fim, da vingança sobre o seu povo, que ele julga rico e gastador, que ele considera preguiçoso e calaceiro.

 

Pedro Passos Coelho, porque criticou os tons cor-de-rosa com que o seu antecessor coloria a realidade, resolveu pintá-la de preto, como sinal da miséria que aí vem. O PM decidiu, qual anjo vingador, punir o seu povo pelos putativos excessos consumistas das duas últimas décadas.

 

A um político exige-se que saiba gerir as legítimas expetativas dos seus concidadãos, não que as defraude, não que as estigmatize, não que as destrua.

 

PPC exige mais horas de trabalho em troca de menos dinheiro e de menos direitos. Ele nem sequer é um pai severo, é, definitivamente, um padrasto irresponsável e castigador que pretende que o enteado trabalhe de graça e a seco em troca da bucha e da garrafa de tinto, enquanto leva umas ripeiradas no lombo, porque sim.

 

O ministro que sorri de si próprio é o verdadeiro ideólogo do Governo. E como o Governo não tem ideologia, a não ser a da ortodoxia financeira, aceitou de bom grado que só em comissões, Portugal vá pagar à troika 655 milhões de euros e que em juros o país desembolse mais de sete mil milhões de euros. Vê-se que Vítor Gaspar viveu muitos anos no estrangeiro.

 

Portugal, para ele, é uma realidade obscura. O que sabe de nós é pelos fracos indicadores económicos. Por isso, pegou na folha de cálculo excel e aí vai de fazer contas. Depois resolveu aplicar integralmente a receita que lhe impuseram no BCE. Como só pensa como uma máquina, cuida que a realidade vai ter de bater certo com os números. Por isso não se deixa impressionar com a realidade social do país, não se deixa comover com a pobreza emergente, nem se deixa influenciar pelos protestos públicos.

 

Todas as pastas essenciais do Governo foram entregues a independentes: Vítor Gaspar nas Finanças, Paulo Macedo na Saúde, Álvaro dos Santos na Economia e Nuno Crato na Educação). Todos os outros são verbos de encher. Até o PM.

 

Os elementos que constituem o “Bando dos Quatro” são todos fidelíssimos homens da Regisconta. Todos pensam exclusivamente em números. Para eles um país é um livro de contas onde apenas subsistem duas partes: o deve e o haver. Este “Bando”acredita piamente que do choque económico e social, que estão a implementar no país, ressurgirá em pleno, qual Fénix renascida das cinzas, um Portugal de economia moderna, competitiva e inovadora. Sonham que da abolição do Estado nascerá uma classe empresarial que criará riqueza e emprego.

 

E tudo isto porque o Primeiro-Ministro tem a convicção profunda que o Estado é a causa de todos os males. Para ele tudo o que é público funciona desgraçamente e dá prejuízo. Além disso, quase todos os funcionários do Estado são, salvo a honrosa exceção dos militantes e simpatizantes do PSD, uns ociosos e incompetentes que têm de ser despedidos. Por isso está determinado em extinguir serviços, direcções-gerais, reduzir e cortar a eito nos ordenados, nas regalias, nos postos de trabalho e nas despesas de funcionamento dos serviços.

 

Pacheco Pereira afirmou no programa “Quadratura do Círculo” que, com a última entrevista dada na televisão, o líder do seu partido se assemelha cada vez mais a “um gestor de uma empresa em falência”. Com este rumo, está visto que o PM de Portugal faz tanta falta à frente do Governo como um cão numa missa.

 

Não é de descartar a possibilidade do chefe do executivo português vir a ser dispensado, à italiana, da chefia do executivo. Pois se isto piorar, e é bem possível que tal situação ocorra, a senhora Merkel, de quem o nosso PM se diz fiel aliado, poderá impor a substituição de Pedro Passos Coelho pelo impassível Vítor Gaspar. O que, convenhamos, até que lhe era bem feito. É sempre preferível o original à cópia.

 

Numa coisa António José Seguro tem razão, Passos Coelho, em vez de dar soluções, só nos presenteia com pesadelos. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 18 de Dezembro de 2011

Cortar o pão


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 17 de Dezembro de 2011

Cadeiras à chuva


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

O Homem Sem Memória - 93

 

93 – O bairro onde o José estava cativo do vício foi invadido pelas tropas da GNR logo pela manhã. Um pouco depois das oito, porque foi nessa hora que o nevoeiro levantou. Por um triz que a operação não foi cancelada. O tenente, sentado no jipe ao lado do sargento, ainda tentou desmobilizar as tropas. Mas o sol, mesmo à justa, sorriu por entre o nevoeiro e as árvores despidas junto à margem do rio.


A investida das forças da ordem dava um filme. E dos bons. Enquanto as damas e os cavalheiros da parte alta da cidade se alindavam para a missa de domingo, os guardas, com o medo escondido nos bolsos e a adrenalina à flor da pele, penetraram decididamente nas terras amaldiçoadas da indigência e do pecado.


Enquanto os cavalheiros tomavam banho, desfaziam a barba, vestiam as suas camisolas interiores, as meias grossas e as ceroulas de atilhos, enquanto as damas submergiam os seus alvos e redondos corpos nas suas banheiras de água quente e perfumada com sais, enquanto os cavalheiros enroupavam o paletó e enfiavam os botins, enquanto as damas enfiavam a sua lingerie atrevida constituída por cuequinhas suficientemente curtas para despertarem a líbido, quem sabe se de um deus desconhecido, ou, na sua falta, a um marido sensaborão e enfadonho, e sutiãs rendados e encorpados para colocarem os seios em riste, e calçavam as suas meias de vidro que davam um tom suficientemente neutro e unitário à pele das suas coxas, enquanto os cavalheiros apertavam os botões dourados nos punhos das suas camisas de seda, faziam o nó das suas gravatas do mesmo tecido, punham o lenço no bolso do casaco, enfiavam o relógio no bolso ou no pulso, colocavam o chapéu na cabeça e chegavam fogo à sua cigarrilha domingueira, enquanto as damas velavam a sua roupa interior com vestidos, saias, blusas e casacos mais ou menos discretos, enquanto todos eles se dirigiam ao café para tomar o pequeno-almoço em paz e sossego no meio da sua sagrada família, enquanto tudo isso acontecia no mundo civilizado, calmo e pachorrento da urbe, na baixa nevoense os guardas entraram decididos no labirinto pestilento e lúgubre do bairro do rio.


O tenente e o sargento decidiram, como bons estrategas e líderes que se orgulhavam de ser, estacionar numa posição mais elevada a observarem a movimentação dos seus soldados. Eles avançavam devagar, com as armas em riste, suficientemente decididos a cumprirem com o seu dever.


Enquanto o nevoeiro se levantava por cima dos telhados de folha de zinco, cartão ou madeira, sobre os caminhos estreitos e lamacentos, assentou o pesado trotar das botas das dezenas de militares destacados para a operação de resgate do jovem José.


Ao tenente pôs-se-lhe a pele de galinha quando viu, através dos seus potentes binóculos, um cão a ser fulminado com o tiro certeiro do cabo que comandava as tropas no terreno.


Foram os cães, que principiavam a estender-se ao sol da manhã, os primeiros a dar sinal de que algo no bairro não corria bem. Quando começaram todos a ladrar ao mesmo tempo, algumas mulheres mais idosas vieram observar o que se passava, e só então se aperceberam que as galinhas corriam assustadas em todas as direções enquanto as botas dos militares ganhavam terreno.


O bairro demorou tempo a aperceber-se do que lhe estava a cair em cima. Quando as pessoas mais velhas começaram a gritar: “é a guarda, é a guarda”, já era tarde de mais para que os homens com préstimo fossem capazes de organizar uma defesa eficaz.


O sargento, numa posição mais recuada do que o tenente, sorria ao observar, através das eficazes lentes dos binóculos, não tão potentes como as do tenente, mas mesmo assim com bom alcance, a algazarra que se instalou no meio dos barracos dos indigentes.


Homens, mulheres, crianças e galinhas corriam como loucos, tropeçando uns nos outros, caindo e levantando-se, enquanto os cães continuavam a ladrar, a ferrar os invasores e a serem abatidos por eles com toda a ciência que estas situações exigem.


Alguns dos mais avisados e destemidos, ainda correram para os sítios onde tinham os trabucos escondidos. Muitos até intentaram disparar as armas para darem um ar da sua graça. Afinal a sua honra e o seu prestígio, enquanto lumpen, tinha de ser mantida. Mas as posições estratégicas estavam tomadas e as suas armas tinham trocado de mãos.


Os bufos, quais judas traidores, tinham sido eficazes. As caçadeiras e as carabinas foram todas confiscadas. Os poucos tiros disparados pelos sitiados foram feitos com revólveres, tendo ferido dois guardas, enquanto outros cinco foram golpeados com facas de matar e desfazer porcos. Um dos soldados da GNR teve mesmo de ser transportado para o Porto devido à delicadeza dos ferimentos.


Ladrões, proxenetas e contrabandistas que se deixam apanhar com as calças na mão pela tropa fandanga da GNR, que nem é tropa nem é nada, constituía, aos olhos das restantes irmandades do crime, um golpe duro no seu prestígio. Podia mesmo pôr em causa a sua sobrevivência. E, nesta como noutras coisas, o mal de uns é o bem de outros.


Mas se as armas foram fáceis de descobrir, já o mesmo não se pode afirmar acerca do paradeiro do José que, bem vistas as coisas, era o objetivo principal da operação.


Os informadores bem tinham avisado que encontrar as armas não constituía problema de maior, pois os homens são criaturas de hábitos enraizados. O problema residia mesmo no pouso do José. Nisso, o filho do guarda Ferreira tinha procedido da mesma forma e jeito que os seus ídolos revolucionários. Ele, ao contrário de Cristo, queria fugir dos homens para os redimir, enquanto o filho de Deus foi ao seu encontro para ser preso, julgado, torturado, vilipendiado, gozado e morto na cruz. Destinos.


José, ao jeito dos líderes revolucionários, nunca dormia na mesma cama, no mesmo barraco, nem com a mesma mulher dois dias seguidos. Muitas vezes variava de poiso e concubina duas ou mais vezes por dia. Além disso, se ao início era fácil seguir-lhe o rasto porque cheirava a limpo e trajava como um menino burguês, com o passar do tempo foi-se transformando num indigente, de barba e cabelo comprido, que andava constantemente bêbado, sujo e conseguia praguejar da mesma forma e feitio que o povo do bairro. Por isso se tornou o seu líder espiritual.


Com o bairro sitiado, os cães mortos, os homens válidos algemados, as mulheres jovens confinadas a um canto e as galinhas espezinhadas, houve então capacidade logística para ir ao encontro do José. Os militares da GNR buscaram-no com método: barraco a barraco e enxerga a enxerga. Desta forma não havia possibilidade de fuga.

 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

O deus Larouco


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

O Poema Infinito (78): canto de amor e medo

 

Solta-se do teu olhar o admirável esplendor dos animais vivos enquanto recordo as mãos gretadas da minha avó. Do teu corpo brota a espessa seiva das árvores procriadoras fecundadas por sois inclinados. Retenho de ti os mais privados desejos enquanto nos confundimos com a paisagem do amanhecer. E as mãos ficam disponíveis para o amor. Do teu silêncio faço o meu silêncio. Depois chega o embaraço da memória: os galos estáticos no seu canto, os cães abandonados e atrapalhados no seu ladrar, as vozes ausentes dos que já partiram, o isolamento da poeira do tempo, o sono que vem devagar tomar conta da exaltação das coisas mínimas, os gestos de vigília da minha mãe, as lágrimas das minhas irmãs, os gritos do louco da aldeia, o corpo magoado dos idosos, a terra da desesperança, os sorrisos abafados das ninfetas, o rio das insónias, o sabor amargo dos nomes dos inimigos, o envelhecimento das casas, a densa fúria do tempo que passa, o arrependimento subjetivo do fulgor da minha juventude. De braços esticados amparo o teu sono e o sono dos nossos filhos e a seiva do teu sorriso e a tua maravilhosa cara de boneca de porcelana viva e os teus olhos que são salgueiros altivos onde brilham estrelas abertas. O sonho. Os brinquedos. A areia. A água. Um rio brotando no fundo do meu sonho. O amanhecer da carne. O retrato líquido da família. E as dádivas do pranto. E os corações perfumados pelo pólen do estio. Agora o meu olhar saboreia o vinho morno do teu rosto envolvido pelos teus cabelos de urze florida, lá onde as árvores se reclinam para nos ampararem, lá onde a paisagem é uma boca aberta de espanto, lá onde as ervas são doces e verdes, lá onde as águias voam magníficas e lentas como a sabedoria. De repente o céu fica embriagado pelas aves que respiram luz e voam como as cores do arco-íris. As nossas vozes respiram versos em construção. De novo me fica o olhar preso nos ângulos escuros da velha casa, linhas misteriosas cruzam-se formando uma ilha imaginária em formato de templo. Amanhece dolorosamente dentro de mim. Tu corres à velocidade da minha angústia. Atravesso-te como um sismo preguiçoso. E as palavras alinham-se no texto e o texto revela-se noutro texto dentro de um labirinto infinito de palavras. O texto é cada vez mais a ausência do corpo, desse corpo que me é absolutamente necessário. Escapa-me sempre a compreensão do mundo quando oiço os segredos dos sábios. Por isso os seus livros me parecem de pedra. Volta o silêncio dentro das suas cores violentas. Volta o sono e o cansaço. Movemo-nos lentamente para fora dos nossos corpos. Os gestos das mãos são recordações imensas. A música húmida da tua vagina acende-se como um pêssego sumarento. Tem o amor a vocação leve do ilusionismo. Tem a morte o entendimento frio das máquinas. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

Carvalhos na neve


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

O Capuchinho Laranja e o Nanni Mota Soares

 

Francisco Vaz da Silva, um investigador do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, afirma que, na sua origem, os contos (de fadas) não eram, de maneira nenhuma, dedicados às crianças. Eram histórias passadas de geração em geração, nas tradições orais da Europa e do resto do mundo, quando a infância ainda não tinha sido inventada enquanto conceito, como o foi a partir do século XVIII. Ou seja, os contos tradicionais (ou contos mágicos ou maravilhosos) eram constituídos por temas simbólicos destinados aos adultos. A denominação de tradicional tem tudo a ver com o modo de transmissão e o dizer-se que são maravilhosos relaciona-se com o seu conteúdo.

 

Mas, por agora, avanço noutra direção, para mais tarde tornar à introdução se as voltas e reviravoltas do texto mo permitirem. É que a agitação e a conflitualidade não se refletem apenas na rua, elas andam também no meio dos textos. É o que se chama tensão textual, que pretende colmatar alguma falha na denominada tensão social existente na sociedade portuguesa e europeia. Isto enquanto os políticos nos mentem e se desmentem como se a política fosse um conto de traição e abandono.

 

Ora vamos lá então. Durante a última campanha eleitoral lembrei-me várias vezes de quando era menino e sentia todos os rumores e sussurros, como se fosse uma aranha que sente nos pés o estremecer de uma mosca que caiu na teia. Ainda hoje tenho um tipo de mente capaz de conter e considerar proposições contraditórias sem perder o equilíbrio e o rumo. Sinto a mentira a léguas. Por isso é que as campanhas eleitorais são para mim um suplício. Indigna-me que os candidatos aos cargos não lutem por ganhar o prémio da razão, limitando-se a esperar para verem se aproveitam algumas migalhas que sobram da mesa do poder dos grandes grupos económicos. Por isso é que hoje não há política, mas sim economia e finanças.

 

Por causa das coisas vou ainda tentar compor outra reflexão. Os políticos deste governo ainda não pararam para pensar no mal que estão a fazer ao país. Não querem ser o que não são, o que é legítimo, mas o drama é que não sabem ser o que dizem que eram ou queriam ser.

 

Provavelmente o PM é um intrujão compulsivo (pois foi ele que afirmou na campanha eleitoral que não ia cortar o 13º mês e o subsídio de férias) ou um cleptomaníaco (pois, ao contrário do que afirmou, cortou esses subsídios e prepara-se para cortar na Saúde, na Educação e na Segurança Social, além de já nos ter roubado toda a esperança no futuro), doenças que o podem ilibar da responsabilidade dos actos, mas a nós, pobres vítimas, não nos liberta das suas consequências dolorosas.

 

Entendamo-nos de uma vez, nós estamos a cometer um crime (especialmente esta rapaziada que nos governa), pois não conseguimos deixar sinais de esperança aos jovens. E sabem porquê? Pois porque o exemplo que colhem é mau. Se repararmos com atenção vemos que os melhores alunos das universidades fogem da política como o Diabo da cruz. E com toda a razão. Atualmete a política tornou-se o refúgio dos medíocres.

 

Eu já grafei esta evidência, que quase não admite exceções, em várias ocasiões. Mas, agora, para não me apelidarem de presumido e arrogante, informo os estimados leitores que a última frase que escrevi no parágrafo anterior desta vez não me pertence, é da autoria do mestre George Steiner.

 

Isto é para não dizerem que me repito, o que se repete é a mediocridade dos políticos, nomeadamente a dos que agora constituíram uma maioria parlamentar e governamental que teima em nos levar para o abismo.

 

Ou seja, as histórias realistas da mudança, dos dias que iam cantar, ou as do rumo certo, ou, ainda, as do futuro melhor, contadas pelos políticos, converteram-se em contos de crianças para adultos. Inverteram-se os papéis. Os políticos de agora parecem os alunos das Novas Oportunidades, isto sem ofensa para os últimos.

 

Mas vamos lá ao conto propriamente dito. O antigo deputado da lambreta, e agora Ministro da Solidariedade e da Segurança Social, Pedro Mora Soares, resolveu surpreender os seus amigos e, especialmente, os seus adversários. Até a mim me surpreendeu. Eu que admirava o seu ar de Nanni Moreti sem barba, por causa do seu motociclo e do capacete, que apreciava o seu estatuto de político alternativo que preferia andar de motoreta enquanto os seus colegas parlamentares se deslocavam em grandes carros. Vi-a nele um político redentor, e de direita (até isso batia certo), que dizia à esquerda como é ser-se de esquerda, como é ser-se ecologista, como é ser-se um verdadeiro democrata-cristão. Depois também o contemplei a chegar à sede do CDS, já ministro, enfiado no seu fato, sentado na sua vespa e com a gravata ao vento. E ainda o observei a discursar novamente em favor dos pobrezinhos e dos desvalidos e enxerguei-o até a rezar na missa e a bater com a mão no peito numa reportagem transmitida pela televisão e descobri-o também a sorrir em várias cerimónias oficiais onde insistia, mais uma vez, no discurso em favor dos desvalidos e dos pobrezinhos.

 

Apesar de alguns sinais que não aprecio, o de católico penitente, ou o discurso do elogio da pobreza e da carência, continuava a pensar que o homem até era capaz de ser honesto e de ser amigo dos pobrezinhos e dos desvalidos. Um homem que anda de mota para não poluir a cidade, que se desloca de motociclo para não entupir o trânsito, que se move de motoreta para não contribuir para o efeito de estufa, é um homem com coragem e com sentido de Estado. É um estadista à maneira antiga, cheio de ideais, que gosta de ser exemplo, e, mais do que pregar a modernidade, a solidariedade, a sustentabilidade e a poupança, age e vive de acordo com os princípios de que um político pode ser sério, modesto e poupado. Ou seja, apesar de eu ser, por natureza, desconfiado, olhava para o homem e sentia que muitos dos meus preconceitos se tinham desmoronado, para bem da política e para bem da direita. É que uma boa direita é meio caminho andado para termos uma esquerda competente.

 

Mas o conto de fadas não era um conto de adultos que se pode ler às crianças, era, antes, um conto de crianças impingido aos adultos. E, num dia aziago, dou de caras com a notícia de que o Pedro Mota Soares (reparo agora que até o nome tinha muita coerência) resolveu abandonar a sua militância em favor dos transportes alternativos e passar a deslocar-se num carro de luxo avaliado em 86 mil euros. Então e a ecologia, senhor ministro? Então e os pobrezinhos? Então e a austeridade? Então e o corte nas gorduras do Estado? Então e a democracia-cristã? Então e a solidariedade social? Então e o combate ao desperdício? Então e a frase profética dos evangelhos de que é mais difícil um rico penetrar no reino dos céus do que um camelo passar pelo orifício da agulha de coser peúgas?

 

Afinal o ministro chegou à conclusão de que o céu é kitsh, que Deus é uma palavra, e a alma, no máximo, é a carga da bateria do seu novo Audi novinho em folha.

 

Não sei porquê, mas de repente lembrei-me das palavras que D. José Policarpo proferiu em Fátima, avisando que a democracia está em risco devido aos jogos do capital. Por outro lado, o presidente da Associação Nacional de Sargentos avisou que “as revoluções não se anunciam”. E é bem verdade. A verdadeira revolução liberal aí está sem ter sido anunciada, pedida ou defendida por ninguém, nem mesmo pelos próprios liberais.

 

O rosado Lobo Mau, afinal, não era tão mau como o pintavam, e o Capuchinho Laranja revelou-se uma dama já um pouco madura e com capacidade de atraiçoar os ideais que dizia ter e defender. 

 

Pedro Passos Coelho finalmente conseguiu o que nunca nenhum líder do seu partido julgou ser possível alcançar neste país, com esta Constituição: o desmantelamento do Estado Social. Ele que lidera um partido que até há bem pouco tempo se orgulhava de ser social-democrata.

 

Este PM resolveu, qual anjo liberal vingador, qual bruxa de OZ, qual exterminador implacável de funcionários públicos e pensionistas, rasgar o contrato social que vigorava na sociedade portuguesa desde 1974. Este Maquiavel de pacotilha, rodeou-se de jovens turcos, sem qualquer experiência na administração pública, e, em vez de remodelar a casa, resolve deitá-la toda abaixo.

 

A sua sede de vingança sobre o país, e sobre os dirigentes do PSD que o antecederam, é tanta que não se conhece um convite feito a nenhum deles para qualquer tipo de debate político estratégico.

 

Já o escrevi, e torno a repeti-lo, Pedro passos Coelho não quer acabar com as gorduras do Estado. Ele quer acabar definitivamente com o Estado.

 

Pobre povo, pobre país, pobre Pedro Passos Coelho. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Domingo, 11 de Dezembro de 2011

O homem, o cavalo e o cão


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 10 de Dezembro de 2011

O homem, o arado e o burro


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

O Homem Sem Memória - 92

 

92 – Foi então que o guarda Ferreira, posto pela Dona Rosa entre a espada e a parede, resolveu resgatar o filho.


A busca tinha de parecer legal e foi-o. Mas antes houve necessidade de o pai do José fazer alguns contactos. E o que tinha mais à mão era a sua relação com a GNR de Névoa. Muitos dos agentes da autoridade eram seus amigos ou conhecidos e o sargento era mesmo gente lá da terra. Um camarada de armas dos tempos da Índia.


O sargento primeiro ouviu e calou. Foi sensível aos argumentos e à situação desesperada em que se encontrava o guarda Ferreira, isto para não falar do estado lastimável em que se achava a Dona Rosa, a filharada, a casa, a lavoura e a criação. Fácil era de concluir que o filho também não se encontrava nada bem.


Bem vistas as coisas, o filho de um agente da autoridade tem de ser um exemplo para a sociedade, não pode colocar-se ao lado dos prevaricadores e dos facínoras. Não pode ser visto como um modelo subversivo. Os filhos dos agentes da autoridade têm de ser os primeiros a respeitar a lei, a ordem, o país, os seus dirigentes e toda a hierarquia social, política e religiosa. Senão onde é que isto tudo pode ir parar?


O José tinha dado um passo enorme no caminho da perdição, por isso urgia resgatá-lo das mãos do demo e dos seus agentes mais inflexíveis.


O sargento do posto da GNR de Névoa, nesse mesmo fim de semana, descansou o seu ex-camarada de armas dizendo-lhe que dali a quinze dias seria feita uma rusga ao bairro dos indigentes. Que descansasse. Ia ele mesmo falar com o tenente para que fizesse um pedido de requisição dos serviços do guarda Ferreira para a operação.


Bem, o pai do José saiu do posto disposto não só a dar um presunto ao seu amigo sargento, mas antes a oferecer-lhe o reco inteiro e ainda os prestimosos serviços da Dona Rosa para confecionar todo o fumeiro, arte em que era exímia.


Ao sargento não lhe tinha saído a taluda, mas tinha-lhe tocado a aproximação. Não só fazia um grande favor a um conterrâneo seu subordinado, como ia limpar uma zona da cidade extremamente problemática, onde já há muito tempo as instituições do poder local pediam uma intervenção exemplar. O pretexto vinha mesmo a calhar. Era a gota de água que fazia transbordar o copo.


Estava ciente de que o tenente do posto fazia constantemente o seu veto de bolso relativamente a uma operação desta envergadura. Não porque fosse um homem de paz, um conciliador social, um estratega em busca da melhor oportunidade. Não.


O tenente da GNR de Névoa era um cobarde, tinha medo do lumpen porque sabia que aquela gente matava sem dó nem piedade. Para os indigentes não existiam nem barreiras da autoridade, nem impedimentos religiosos, nem complicações familiares. Para eles a vida era clara como água. De um lado estavam eles e do outro estavam… os outros. Todos os outros. Sem exceção. Quando punham o inimigo na mira da espingarda atiravam a matar.


Ele sabia-o bem porque a sua mãe era uma cigana resgatada aos seus pelo putativo progenitor que teve de fugir para parte incerta para se pôr a salvo do fio apurado das navalhas ou dos tiros certeiros das caçadeiras.


O tenente da GNR tinha as qualidades todas. Era, além de cobarde, um devasso, um trampolineiro e um jogador inveterado. Jogava muito, mas perdia muito pouco. Como tanta sorte não existe, nem mesmo ao jogo, está visto que ganhava nas cartas porque o deixavam ganhar. Todos sabiam, e os seus companheiros especialmente porque o tenente da GNR lho lembrava a miúdo, que, como principal agente da autoridade em Névoa podia encerrar a sociedade nevoense por causa do jogo, prender os batoteiros por causa de jogarem a dinheiro, aferrolhar os putanheiros por conduta imoral, perseguir contrabandistas e opositores ao regime porque eram bandidos aos olhos da lei e aos olhos de Deus.


Mas em vez de os prender, ou perseguir, convivia com eles, jogava com eles, contrabandeava com eles. Como eram tantos, e tão eficazes, o tenente da GNR de Névoa, em vez de os combater, juntava-se a eles. Por isso ganhava no póquer, tinha sempre a casa cheia de tudo e fornicava quem lhe apetecia lá nos bairros pobres, ou ainda nas famílias que por alguma razão se viam manietadas mas mãos do belzebu disfarçado de agente de autoridade.


Apesar disso, ou por isso mesmo, era muito apreciado pela sua generosidade e pela sua fé. Era mesmo dado como exemplo de caridade e virtude cristãs. O seu nome era sempre o primeiro de qualquer lista de angariação de fundos para as inúmeras obras sociais, o mais falado na missa por altura das festas religiosas devido às suas generosas oferendas em alimentos e roupas. Fazia mesmo questão em ter o seu próprio bodo aos pobres. Os seus pobres eram-lhe mais fiéis do que ao próprio Deus. Vestia-os, alimentava-os, batizava-lhes os filhos. Muitas delas, diziam as más-línguas, bem lhe podiam chamar de pai, que não erravam.


Para não fugir ao lugar-comum, era também dado à bebida. Em casa comportava-se como um carrasco, batia nos filhos com uma chibata e malhava na mulher como em centeio verde sempre com as suas luvas brancas de cerimónia. Na rua era só sorrisos e abraços. Confessava-se todas as semanas, ia à missa aos domingos e comungava com uma cara tão angelical que mesmo os anjos e santos, espalhados pelos diversos altares da igreja, coravam de vergonha. Era habitual vê-lo chorar lágrimas autênticas enquanto tentava engolir a hóstia sagrada sem lhe tocar com os dentes para não pecar.


No momento em que o sargento da GNR de Névoa entrou no seu gabinete e lhe propôs a rusga acordada com o pai do José, o tenente assustou-se e disse que tinha de pensar melhor no assunto.


O sargento, olhando-o bem nos olhos, informou-o de que esta diretiva tinha sido imposta, com data a definir, para o mês que estava a decorrer, pelo comando-geral após solicitação do presidente da Câmara a pedido de várias famílias influentes, da associação de comerciantes, de distintas associações de caridade e de defesa dos bons costumes e, sobretudo, da polícia política, do próprio bispado de Vila Real e do reitor do seminário de onde o José foi expulso.


“Então dá-me até amanhã, para fazer as minhas diligências, e logo definimos a data, os meios e a logística”, ordenou o senhor tenente. O sargento obedeceu, que remédio. Sabia que o tempo que o seu superior lhe pedia era para avisar os seus da investida. Mas o que podia fazer? O que interessava era resgatar o filho do seu colega, limpar os bairros da cidade daquela escumalha e, por último, se a operação fosse um sucesso, ganhar uma medalha e ser promovido.


O seu filho, liberto da guerra colonial por uma cunha certeira e bem untada, estava na altura certa para ingressar na universidade. Ele podia ser GNR, mas o seu filho ia ser doutor. Para isso era necessário dinheiro. O que na sua situação só podia significar uma de duas coisas: ou ser promovido ou ter de se submeter aos ditames do tenente. A corrupção era uma forte atrativo, tinha de reconhecer. No entanto, ele ainda não estava para aí virado. Mas o futuro a Deus pertence.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

Vaca e vitelo


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

O Poema Infinito (77): o canto das mulheres desassombradas

 

As mulheres desassombradas atravessam a carne enquanto sonham com as subtilezas da suavidade magnífica das suas vulvas. E cantam canções impuras e rutilantes que anunciam a desgraça da felicidade antiga e o orvalho inocente das roseiras e, inclinadas sobre os violinos, abrem os seus corpos que são pão, maçãs e vinho mosto. Sobre o meu corpo desce agora Deus com o seu tempo de silêncio e traz-me mulheres vazias. E essas mulheres cantam e mostram a boca e o ânus e uma mão vermelha pousada sobre o sexo. As flores do mal enlevam a minha melancolia e tornam-na doce como a inocência. As mulheres lentas e nuas pensam em folhas para se cobrirem. E choram numa velocidade molhada enquanto se inspiram na carne e na morte e se debruçam sobre a frescura veemente da ilusão. Essas mulheres pedem para que Deus lhes permita viver velozmente num fogo juvenil que se prende ao seu ventre. Sofro agora do amargo delírio de subir pelas mulheres em degraus. Essa é a expectativa fulminante, o movimento explicado aos geómetras que assaltam as cidades com gestos encerrados nos próprios gestos. As mulheres fazem que passam por mim segurando os seios como se fossem bolas de cristal. Os seus olhos são janelas em brasa e o seu mutismo contempla as flores e as folhas de sono. E de novo as mulheres alucinadas transportam Deus dobrado sobre a sua própria luz e as estátuas de anjos fixos nas suas asas e profetas girando sobre a sua própria loucura. E as mulheres atentamente suspeitas aos olhos de Deus enchem os seus corpos de orgasmos duros e embrulham o seu misterioso talento materno nos coitos interrompidos. Depois separam-se dos seus passos em volta e dizem-se apaixonadas pelas graves canções do desejo e do sacrifício e da penitência e da desgraça e choram fechadas nos seus labirintos de dor e ciúme. As pobres mulheres caminham pelo lado escuro da revelação e observam a vingança divina onde a sua beleza passa sem lhes tocar. E elas relembram o seu circuito ardente da velhice e da decomposição e o som curvo da paixão que morreu mesmo antes de nascer e a terrível purificação universal da infâmia e da morte e suspiram com as mãos transformadas em instrumentos de infelicidade. E a orquestra de mulheres exemplares levanta-se com os seus corpos de violoncelos e principia a tocar canções de amor impossível. Por isso as suas línguas começam a queimar-se como fósforos. Cada mulher é uma vingança. Cada mulher é um pecado explicado por Deus com um gesto infantil. Cada mulher é uma intempestiva e excitada iluminação da natureza. Cada mulher é um brilho interior. Cada mulher é um longo som de amor e morte. Deus tenta agora explicá-las como o fundo da sua existência, mas já é tarde. Por isso lhe voltam as costas e partem com a sua sinistra fantasia da absolvição. O eco dos seus passos funda uma nova existência e envolve a solidão extraordinária da paixão humana. E as mulheres aproximam agora os seus corpos de luz aos corpos dos homens desabitados e falam-lhes da lírica antropologia dos sexos eretos e, com as suas vozes brilhantes, encostam as línguas e principiam um coito tão grande como a eterna ilusão do amor. Daqui nasce o longo canto da vida. E Deus volta a morrer dentro da sua imortalidade no seu espasmo feroz de sangue feminino. A humanidade: a carne contra o tempo. A divindade: o tempo contra a carne. De repente acordo fecundado pela invenção iluminada deste poema e as mulheres desassombradas atravessam a carne enquanto sonham…


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

Homens e cavalos


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

A chantagem e os chantagistas

 

Entendamo-nos: a acreditar em algo, eu acredito na literatura, na música, na arte. Por isso não acredito na burrice e abomino lugares comuns. Sobretudo acredito nas coisas que possuem a capacidade de me comover. Reconheço que são poucas, mas, talvez até por isso, são fundamentais na minha vida.

 

Também aprecio o futebol, os bares modernos e os delírios dos políticos. Por vezes a verbosidade destes últimos é tocante, surrealista mesmo. Veem com olhos esbugalhados uma realidade que, de tão comezinha, chega a ser cómica. Penso que a realidade dos políticos é um jogo de espelhos. Não é a política, são eles mesmos. Não é a realidade que conta, mas eles mesmos. Espelho meu quem é mais político do que eu?

 

Entrementes, quando vão às festas, que é para o que servem, lançam os foguetes e apanham as canas. Descortinam numa tenda de venda de produtos regionais um alfobre de qualidades, um chuveiro de potencialidades, um aspersor de oportunidades. Gasta-se tanto dinheiro público na promoção destes certames que os feirantes que aí comerciam os seus produtos bem podiam fazê-lo a preço de saldo em vez de vendê-los, muitas das vezes, a preços exorbitantes. Até porque o consumidor já pagou aquilo tudo com a folha de impostos que lhe é imposta.

 

Depois relatam-nos acontecimentos públicos pífios e serôdios onde só têm olhos, e palavras, para doutores e engenheiros. Babam-se a pronunciar os títulos académicos como se eles valessem mais do que o carácter e a verdade. E deliram com as palavras ocas dos oportunistas de ocasião que vêm à província fazer de nós parvos. São os atores do costume, os astutos habituais que vão encher os bolsos para a capital e depois nos visitam unicamente nas épocas festivas e olham para nós como se fôssemos os verdadeiros índios em extinção que eles viram na sua juventude nos filmes americanos. Não sabendo que também eles, ou sobretudo eles, fazem parte desse jogo de espelhos.

 

Qualquer feira da cebola, qualquer mercado da jeropiga, qualquer iniciativa de venda de alhos, couve troncha, cebolas, nabos, pão e chouriças, qualquer evento de venda de pedras de granito ou de copos com nomes gravados, são pretextos para dizer tontarias, elogiar instituições e tecer elogios a personalidades que, num país culto e civilizado, não passariam de amanuenses, secretários ou coladores de selos. Muitos deles são presidentes disto e daquilo. Outros são executivos, governantes ou diretores de bancos e empresas do Estado ou coisas pelo estilo.

 

Li um artigo de alguém eleito pelo nosso distrito para o parlamento que apenas teve olhos para tecer panegíricos aos eventos concelhios onde os seus correligionários estão no poder. Aí até uma corrida de carrinhos de rolamentos lhe parece um grande prémio de fórmula um. Somos um país pequeno, de gente pequena, mas de políticos liliputianos, vesgos e autistas.

 

 

Os partidos são hoje uma família que todos tenderíamos a apoiar, e muitas vezes apoiamos, ou apoiávamos, com muita paixão, porque as famílias de onde vimos são boas. Mas essa tertúlia de prevaricadores quando ouve falar em família pensa logo na semântica italiana.

 

Tanto sectarismo provoca-me urticária, tanta saloiice mexe-me com os nervos, tanto primarismo põe-me à beira de um ataque de nervos, tanta mentira põe-me a rogar para que haja inferno. E pensar que tanta desta gente vai à missa, que se confessa e que comunga, deixa-me a rezar para que Deus exista e que seja o que eles dizem que é.

 

Considero que para alguém chegar ao parlamento, ou mesmo ao governo, deveria ser obrigatório passar numa espécie de exame onde fossem testados os seus conhecimentos, não só em política, como em história, direito, e também em cultura geral e, sobretudo, em literacia social e humana. Mas o que por aqui continua a contar é o cartão partidário e ser amigo de quem domina a estrutura partidária.

 

Além disso, são capazes de escrever nos jornais textos que mais parecem atas de qualquer associação recreativa e cultural. Nem sequer se dão ao luxo de disfarçar o seu estatuto de consignatários políticos, comportando-se na política como se estivessem num jogo de futebol a apoiar a sua equipa, sem notarem que para haver jogo tem de existir adversário. 

 

Não discutem ideias, não gostam de polémicas, evitam os concorrentes, manobram nos bastidores, conspiram na sombra. São tão maneirinhos que enjoam. Não se lhes conhece uma intervenção pública de jeito, uma ideia própria, uma obra consistente. Vivem do improviso, da lamechice, do desfile público, constantemente a sorrir como se fossem bonecos de porcelana, ajaezados nas suas vestes cómicas, como se não coubessem nelas, como se a libré lhes pesasse.

 

Se o ridículo matasse!

 

São também peritos em esfrangalhar a lógica, em aligeirar os processos, em fabricar cenários, em sorrir constantemente como se a vida, e esta miserável conjuntura que nos anunciaram como quase milagrosa, fossem motivo para a redenção. 

 

Claro que a política, para não morrer, e com ela a democracia, tem de se reabilitar, tem de promover gente capaz, pessoas cultas, com currículos significativos, com provas dadas em defesa da coisa pública.

 

Atualmente uma pessoa dá um pontapé numa pedra e aparece logo um candidato a presidente da Câmara, pontapeia um canhoto e descobre-se logo um candidato a deputado, abre-se uma porta do partido A ou B e damos logo de caras com um putativo secretário de Estado ou mesmo com um aspirante a ministro.

 

Passam da intriga e do manobrismo partidário para o Estado sem serem submetidos a qualquer tipo de audição ou escrutínio público.

 

Por exemplo, fala-se muito em competência e produtividade, mas nunca ouvi ninguém dos partidos políticos defender que os deputados ganhassem segundo o trabalho que produzem.

 

Ir para o parlamento para estar sentado a bater palmas às intervenções da “nossa” bancada e assobiar às dos opositores, para levantar o rabo para ir comer ou nos momentos da votação, é vexante, é um desperdício de dinheiro, de tempo e de palavreado. Penso que esse tipo de escassez de produtividade devia ser combatida como gordura do Estado ou como desadequação do eleito ao seu posto de trabalho.

 

A nobreza de um estadista não está em parecê-lo mas, efetivamente, em sê-lo. A política, e os políticos, têm também de ser chamados à tarefa da produção. 

 

Os políticos habituaram-se a resolver tudo no ano que vem. E quase nunca cumprem. Pelo menos até agora nunca cumpriram. A princípio ficávamos felizes com as suas promessas. Bastava-nos a ideia de que o futuro seria melhor.

 

Este executivo neo-neo-liberal, e esta maioria, vieram impor-nos a ideia de que o futuro será pior. Que o futuro reside no corte de salários, nos despedimentos, em maior desemprego, na recessão económica. E ameaçam que para o ano o cenário piorará. Do lado da bancada que sustenta o governo, os parlamentares não dizem nada, apenas se limitam à prédica de enviar as culpas para cima dos políticos que os precederam.

 

Quando olho para aquelas bancadas, reparo que a maior parte são funcionários públicos. Mete dó vê-los ali sentados a votarem um orçamento que é justificado, na sua essência, como um corretivo aos trabalhadores do Estado.

 

Por detrás desta atitude é visível o desprezo, a mentira, o embuste, a desqualificação, a perseguição, o escárnio e o mal-dizer. Esquecem esses senhores que ao serviço do Estado estão os portugueses mais qualificados e que sem eles Portugal, pura e simplesmente, nem sequer consegue existir como Estado moderno.

 

Lendo os sinais, podemos concluir que o governo do PSD/CDS se inclina para diminuir o número de trabalhadores do Estado. Mas temos que pensar que isso tem de passar por diminuir os serviços públicos de qualidade. Nos inícios do século XX os funcionários de Estado quase não existiam porque o Estado também não.

 

Por isso não havia água potável, saneamento básico, recolha do lixo, estradas, pontes e, sobretudo, saúde, educação e segurança social. Pois, caros leitores, quando Pedro Passos Coelho fala de cortar nas gorduras do Estado, e é aplaudido de pé pelos deputados do seu partido, especialmente pelos que são funcionários públicos, no que está a pensar é em desqualificar a educação, defenestrar a saúde e depauperar a segurança social. E isso é um retrocesso social e político sem paralelo na história do nosso país.

 

Até agora o país evoluía pouco, mas evoluía. Agora estes senhores descobriram a fórmula de andarmos para trás no tempo impingindo-nos a ideia de que ou aceitamos a inevitabilidade ou vem aí o dilúvio, o castigo, o fim do mundo.

 

O que mais me entristece, e indigna, é que o primeiro-ministro do meu país utilize a estratégia do medo e da chantagem para humilhar o povo português. Mas eu sei que o medo não é o que mais nos obriga a fazer seja o que for. A estratégia do medo vai falhar pela simples razão de que todos esses estratagemas falham quando aplicados a um povo que teima em ser cordato, paciente, mas livre. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Domingo, 4 de Dezembro de 2011

De volta do pote


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 3 de Dezembro de 2011

Porco decapitado


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

O Homem Sem Memória - 91

 

91 – O José começou a fumar e a beber. Passou diretamente do seminário para a taberna sem passar pela situação de empregado, que é o mal maior. Sem dinheiro e sem responsabilidade, a boémia torna-se ainda mais degradante.


A princípio, a mãe ainda lhe deu algum dinheiro para o dia-a-dia, ensaiando amimá-lo na tentativa, que nós sabemos vã, de o convencer a voltar ao seminário. Quando lhe passava a nota de cem escudos para a mão dizia-lhe sempre que não havia vida melhor do que a de padre, que o dinheiro não nasce nas árvores e que uma vida dedicada a Deus e à sua Igreja é uma vida venturosa.


Ele respondia-lhe sempre torto, que o seminário é uma tortura, que os padres são uns falsos e uns devassos que tanto defendem Deus como o Diabo, que são os profetas do nada, os homens das palavras ocas, e que a existir inferno é lá onde quase todos vão parar com viagem reservada em avião supersónico. E concluía: “Além disso não me querem lá. Eu tratei-os muito mal. Por isso me expulsaram. Nem eles me querem lá, nem eu quero ir para lá. Desiluda-se. Está decidido.”


Mas a Dona Rosa não o levava a sério: “Essa raiva passa-te. Tu falaste na minha barriga. Isso é um sinal divino. És um predestinado. Deus seleccionou-te ainda estavas cá dentro. O que tem de ser tem muita força. E tu tens de ser padre. E logo bispo.”


Mas o filho primogénito do guarda Ferreira, sentindo dinheiro no bolso, ia logo direitinho para a taberna conviver com o lumpen. Era como uma maldição. Nesse sentido, o José era um homem profundamente religioso, um visionário que acreditava piamente que conviver com os mais desfavorecidos, conversar com eles e redimi-los, era o caminho que devia percorrer para também ele se salvar.


Era nos pobres de espírito onde estava a salvação. E quanto mais pobres mais redentores. Entre bolo de bacalhau, copo de vinho e cigarro, José dirigia-se àquela gente carente de tudo (e também de consciência política, rapazes e homens desligados da produção social, muitos deles dedicados a actividades marginais, roubando o que podiam e até prostituindo filhas, mulheres e irmãs), e tentava organizar um discurso coerente que os levasse a ganhar consciência da sua condição enquanto seres humanos, de tentar incutir-lhes princípios sociais, morais, éticos e, à falta de melhor recurso, também religiosos.


Mas eles eram como macacos: ouviam-no tagarelar e riam-se muito. A maior parte das palavras não as entendiam e a outra tornava-se inaudível no meio da chalaça, dos impropérios e da pura agressão verbal. Mas o José não desistia, pegava noutro bolo de bacalhau, pedia renovada rodada de tinto, acendia novo cigarro e dizia-lhes que se deviam lavar, que deviam arranjar um emprego estável, que deviam mandar os filhos à escola, “e as filhas?”, perguntavam-lhes alguns a rir, “e as filhas também”, respondia ele, “para quê?”, perguntavam-lhe de novo e respondiam de imediato, “para conseguirem emprego nalguma casa de um burguês para servirem de concubinas dos patrões e de putas dos filhos e dos criados a troco da comida e da bebida? Se querem carne boa têm de pagá-la a bom preço. As nossas mulheres, apesar de pobres, têm a greta igual às mulheres deles, ou até melhor. Por isso há que aproveitar enquanto estão sadias e pô-las a render.” E riam-se muito. Afinal não lhes restava alternativa. A pobreza extrema transforma os homens em animais.


Muitos deles confessavam que eram os próprios a violar as filhas e só depois é que as punham a render. E exprimiam evidências: que os ricos da cidade, apregoando bons princípios católicos, eram os primeiros a arranjar mulher e amante, ou amantes, que davam trato de polé às esposas enquanto tratavam as concubinas como princesas, que alugavam as mulheres da má vida para fazerem coisas porcas, em grupo, que esses senhores, muitas vezes nem as mulheres queriam, mas sim homens viris e devassos, loucos, que a troco de bom dinheiro abonavam ricos burgueses que, fazendo-se passar por homens na sociedade, se comportavam como mulheres débeis e permissivas, como raparigas perversas, como autênticos pecadores.


“Depois de nos explorarem, espezinharem, perverterem e comprarem a nossa carne, aproveitam-se da nossa pobreza para nos roubarem a alma. Nutrem-se com os nossos corpos e em troca dão-nos uma esmola. São uns filhos da puta.”


“Tu, ó padreca, achas que pode existir assim um Deus tão cruel que vê tudo isto e cruza os braços?”


Depois os homens do lumpen riam-se como se chorassem e bebiam copo atrás de copo até caírem para o lado. Alguns deles pediam-lhe encarecidamente que os confessasse. Ele, a princípio, recusou mas depois entrou no jogo. Que mal vinha ao mundo se ouvisse os pecados desta pobre gente. Tanta maldade não tinha perdão, mesmo que existisse Deus e fosse tão tolerante como o pintam. No entanto, ouvia-os e arrepiava-se com a verdade.


Viver com o lumpen transformou-o num marginal. Era difícil conviver com eles, beber com eles e ser-lhes indiferente. Toda a amizade requer uma certa intimidade e, sobretudo, cumplicidade. Por isso foi roubar na sua companhia e, em muitos casos, chegou mesmo a ir dormir nos seus pobres barracos.


Ajudava-os no que podia, prestava alguma informação médica, dava-lhes algum conforto espiritual, contava-lhes histórias bíblicas, ajudava uns a tratarem da horta, outros a pescar no rio e ainda outros no contrabando. Comprometeu-se a dar conselhos de higiene corporal às mulheres que se prostituíam e aos rapazes que também seguiam esse caminho.


Vivendo com eles, tornou-se promíscuo como eles. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Chegou a dormir com várias mulheres dos seus novos amigos e com as suas filhas também. A princípio custou-lhe, mas depois foi-se habituando. E por fim já não destrinçava muito bem o que fazia. Andava constantemente bêbado. Bebia para não ressacar e para esquecer.


Várias vezes a sua mãe, em pranto, o foi procurar no meio dos barracos do bairro, mas nunca o chegou a encontrar. Se ele não queria ser encontrado, o seu povo adotivo fazia-lhe a vontade. Escondia-o. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9


23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (364): A b...

. No Barroso

. No Barroso

. 351 - Pérolas e diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (363): Med...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 350 - Pérolas e diamantes...

. O músico e o santo

. Músicos

. Olhares

. Poema Infinito (362): Flo...

. Onde está o Dinis?

. Dar de beber a quem tem s...

. 349 - Pérolas e diamantes...

. Carnaval de Verin

. Carnaval de Verin

. Carnaval de Verin

. Poema Infinito (361): O s...

. Carnaval de Verin

. Carnaval de Verin

. 348 - Pérolas e diamantes...

. Pormenor

. Barroso

. Bombeiros

. Poema Infinito (360): A f...

. Bombeiros

. Bombeiros

. 347 - Pérolas e diamantes...

. Feira dos Povos - Chaves

. Feira dos Povos - Chaves

. Feira dos Povos - Chaves

. Poema Infinito (359): Chu...

. Feira dos Povos - Chaves

. Feira dos Povos - Chaves

. 346 - Pérolas e diamantes...

. Dois amigos

. Sorriso

. Sorrisos

. Poema Infinito (358): O d...

. Vendendo pão

. O sapateiro de Chaves

. 345 - Pérolas e diamantes...

. Interiores bovinos

. Festa dos Povos - Chaves

.arquivos

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.tags

. todas as tags

.Visitas

.A Li(n)gar