Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

O Poema Infinito (89): poema bucólico

 

As plantas deslocam-se à velocidade do verde. E o amor aumenta e a quietude que nos rodeia também. Repousamos na relva num desejo eterno que desperta por cima das flores selvagens. Este é o ciclo glorioso da primavera. Viajamos numa folha nervosa e descemos às raízes das árvores. As águas refazem-se do desejo dos minerais. As nossas bocas beijam rapidamente a memória labiríntica do fogo mágico. A terra incha à semelhança das sementes. Os jardins abandonam as aves e as aves mergulham nos olhos incandescentes das crianças e as crianças brincam com os animais e lambem breves nuvens de açúcar mascavado e suspiram e riem e choram. Este é o ciclo do regresso à terra dentro de uma história fascinada dentro da sua inverosimilhança. A paisagem prolonga-se por entre ruínas azuladas. Juntamo-nos com o olhar vago no ângulo recortado das árvores paralelas como se fôssemos dois atores que tremem e sorriem sem saber porquê. E o silêncio espreita e as raízes irrompem e tremem e sorriem sobre a quietude abandonada das pedras. Tu dizes: não tenhas medo, somos apenas um sonho numa folha paralela do tempo. Os teus lábios tremem e sorriem e a vida espreita-nos desconfiada. Um vento vertical adere aos nossos cabelos e os lagartos pressagiam calor e sombras e dedos afiados nas pedras e pedras cheias de musgo e plantas recolhidas na sua forma composta. E os insetos sossegam de repente aproximando-se lentamente dos malmequeres tranquilos no seu amarelo e branco superficial. E o vento torna a sossegar. E as colinas latejam nos seus sonhos imutáveis. Cresce-nos água na boca e os nossos corpos enchem-se de sinais que são rosas intactas. Não tarda e os nossos olhos vão entusiasmar-se a filmar o crepúsculo. Mais logo a memória poderá reconstruir toda a nossa vida a partir de imagens difusas. Por agora ainda nada é evidente. Só o azul. Todo o azul do mundo. Sabemos e sentimos que o instante se ergue como os carvalhos sussurrantes das serras frias do barroso. Lá ao longe tilintam os guizos das cabras na sua lucidez imitativa. O pastor sonha com a sua imobilidade impressa na paisagem. As borboletas acompanham a radiografia do céu. Os rios sacodem a língua turva dos montes e o isolamento vertiginoso das giestas e dos tojos e das urzes. Alguma chuva suspende-se nas encruzilhadas feridas pelos resíduos do pó. Os animais recolhem às suas tocas fixadas pela espera.  


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Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

Mulher na varanda


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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Da expetativa ao imobilismo (IV) – Presunção e água benta… (II)

 

Ora então, senhor presidente, vamos lá de novo a mais uma voltinha, mais uma viagem, pela sua “década de progresso”.

 

Na relação que tenho na minha frente, o senhor presidente, relativamente à requalificação urbana, enumera alguns planos de pormenor, pontes e intervenções em locais diversos. Realizações que, bem vistas as coisas, devem fazer parte da atividade normal de qualquer autarquia. O senhor dá-lhe destaque porque pretendeu fazer da sua gestão autárquica um número redondo. De facto, a sua liderança à frente do concelho andou quase sempre às voltas. Às voltas. Às voltas. Mais uma voltinha, mais uma viagem.

 

A sua liderança, titubeante e incerta, por muito que lhe custe admitir, andou à volta das palavras, à volta do improviso, à volta do imobilismo, à volta do não te rales. E a requalificação urbana, apesar do que enumera, ficou muito aquém do que foi prometido e do que era devido.

 

Grande parte dos imóveis do centro histórico ou estão abandonados e a ameaçar ruína, ou, então, para lá caminham. O centro histórico da nossa cidade é sinónimo de abandono, desqualificação, destruição e desinserção arquitetónica. É normal encontrarmos edifícios onde por cima de uma loja recuperada se encontra um ou mais andares desabitados e a ameaçar desabamento. Nada parece fazer sentido. Em suma, o tecido urbano do coração da nossa urbe definha perante a teimosa, ou a apática indiferença, dos senhorios ou inquilinos e o “não te rales” da autarquia. Uma parte substantiva dos edifícios mais antigos da zona medieval de Chaves é atualmente um viveiro de ratos e aranhas. Quando não de prostitutas e toxicodependentes mais atrevidos. À ruína imobiliária junta-se a miséria humana.

 

De seguida fala-nos da valorização ambiental, nomeadamente das margens do rio, e de mais algumas envolventes. Posso confessar que, no meu ponto de vista, o projeto Polis, que o senhor denomina, penso eu, como “envolvente das margens do rio”, para não lembrar o engenheiro de má fama que lhe deu nome e forma, é uma obra que deve orgulhar qualquer autarca digno desse nome. De facto, valorizou imenso o rio e todo o espaço circundante, sendo atualmente um lugar de lazer e de exercício físico que só pode orgulhar uma cidade. Eu utilizo-o todos os dias e sinto-me lá muito bem.

 

Pensei mesmo em dar-lhe publicamente os meus parabéns, mas alguém me avisou (talvez o grilo falante do Pinóquio), que o projeto já estava pronto e em fase de desenvolvimento quando o senhor presidente tomou conta dos destinos da nossa urbe. Ou seja, as obras foram executadas no seu mandato mas o projeto tem outro mentor e distinto impulsionador. E olhe que uma boa ideia e um bom projeto por vezes definem tudo. Ou quase tudo.

 

A dada altura inclui como valorização ambiental as obras executadas no Jardim Público. Ora porra, senhor presidente, o que foi feito no Jardim Público não tem nada de valorização ambiental. O que lá fizeram foi, primeiro, um atentado ambiental, segundo, um assassinato de memória, e, terceiro, um esbanjamento de dinheiros públicos. Sei que foram lá enterrados, pelo menos, 500 mil euros com o resultado que todos sabemos. Era preferível tê-los dado à Misericórdia, ou iniciado outro Centro Escolar. E o que lá foi feito é um atentado ao bom senso e à inteligência dos flavienses. Abateram-se árvores centenárias, arrasaram-se quase todos os canteiros e terraplanou-se o jardim com saibro. Transformam um jardim harmonioso e emblemático num descampado. E nisso gastaram 500 mil euros. Consumiram 500 mil euros a destruir um espaço público de qualidade. Mais lhe valia ter ficado quieto. E se assim fosse ainda possuíamos o Jardim Público que todos aprendemos a amar e a admirar e o erário público tinha ficado um pouco menos endividado. É por estas e por outras que estamos penhorados até à medula.

 

Essas medalhas já ninguém lhas pode tirar, senhor Presidente: o assassinato do Jardim das Ferreiras e a destruição do Jardim Público. Será que tem alguma coisa contra os jardins públicos da nossa cidade? E, infelizmente, é por tais atentados à nossa memória coletiva que irá ser lembrado quando terminar o seu mandato. 

 

Lembra-nos ainda do saneamento em Espaço Rural: cerca de trinta e sete obras. Eu até lhe podia dar os parabéns. E até tencionava. Olhe que tencionava mesmo, pois nasci numa aldeia. Mas não consigo entusiasmar-me a esse ponto. E sabe porquê? Pois, porque é triste que depois de ter fechado as escolas e, consequentemente, ter imposto que crianças e pais rumem à cidade, o que originou que nas nossas aldeias vivam meia dúzia de idosos, algumas galinhas, porcos e um ou outro burro, o senhor tenha feito o saneamento básico para os fantasmas. Agora que às nossas aldeias chegou a estrada alcatroada, a água canalizada, a luz e o saneamento básico, já lá não vive quase ninguém. É esta a nossa triste realidade. Isto não é um país, é mais o filme de um país, e de um concelho, onde tudo chega tarde e a más horas.

 

E também nos fala das acessibilidades. E nos bons acessos à Zona Empresarial de Outeiro Seco. Olhe, senhor presidente, outra grande asneira sua, pois gastaram-se ali milhões de euros para nada. O Parque está às moscas e nas estradas nem os animais passam, nem lá pastam, porque o alcatrão e o betão tomaram o lugar dos lameiros e das hortas. Ficou provado que a equipa que lidera tem mais olhos que barriga.  

 

Relativamente às atividades económicas deixe que lhe dê uma palavrinhas sobre os Santos, desde logo porque não atino com a razão de o senhor presidente citar a famosa feira como um projeto da sua autoria. Desde que me conheço, ela foi sempre realizada sem que eu algum dia me tenha lembrado de a ligar a um projeto da autarquia. E, muito especialmente, da que atualmente lidera. Mas, já que o lembra, deixe que lhe diga que a cada ano que passa a Feira dos Santos vai perdendo identidade, qualidade, interesse e valor económico e social. E sabe porquê? Pois porque a autarquia não tem feito nada por ela. Não lhe tem acrescentado nada. Tem deixado tudo ao deus dará. Ou quando se lembrou de executar algumas obras para a rentabilizar e requalificar, logo as abandonou porque viu que as pessoas não aderiram. Ora esse tipo de projetos devem ser primeiro testados e comprovados. E só depois executados. Mas a câmara que o senhor preside primeiro faz as obras só depois é que se preocupa com o facto de as pessoas considerarem se a infraestrutura que custou muito dinheiro serve ou não os objetivos para que foi construída.

 

 

Depois fala de serviços e cooperação, dos quais saliento a “Modernização Administrativa” e a “Eurocidade”. Relativamente à primeira apenas relembro aos estimados leitores mais distraídos, se é que ainda os há, que a tal “modernização” mais não é do que sanear quem não convém ao vice camarário e colocar no seu lugar os seus servis apaniguados.

 

No que se refere à segunda, desde logo afirmo que é um embuste. A “Eurocidade” é um embuste, uma falácia, uma ficção que não serve nada nem ninguém. Não serve os galegos nem serve os trasmontanos. É um ardil que foi montado para mais facilmente os dois concelhos (Chaves e Verin) poderem aceder aos fundos comunitários. Mas o que a princípio até parecia uma boa ideia, resultou apenas numa dita “agenda cultural” de teor quase ridículo, num mural do facebook para “criar” amigos, em algumas insípidas e enfadonhas visitas do inexpressivo presidente do concelho de Verin e da presença na feira dos saberes e (dis)sabores de uma barraca com fotografias dos caretos galegos, quando não de um trio de caretos enfadonhos e grosseiros que não se cansam de badalar os chocalhos, com que afastam as pessoas de bom gosto e atormentam as crianças mais sensíveis. 

 

Ou seja, a “modernização administrativa” resume-se a um ajuste de contas do vice camarário contra os funcionários competentes que não se vergaram, nem se vergam, aos seus ditames e à sua prepotência, e a “Eurocidade” é um conto infantil destinado a adultos, mas com um enredo muito mal elaborado, com uns protagonistas insossos e uma moral muito próxima do grau zero da honestidade.

 

Antes de terminar, por hoje, não posso deixar passar em branco o fundamento de que a câmara de Chaves, durante os últimos dez anos, investiu em 100 projetos/obras, 125 milhões de euros. Dito desta maneira até parece uma verdade insofismável, um facto indesmentível, um argumento irrebatível. 125 milhões de euros é uma pipa de massa. Pois é, sim senhor. Só que  gastar muito dinheiro não é sinónimo nem de muitas, ou sequer, de boas obras. Mas nem as obras são muitas, nem o dinheiro gasto pela gestão autárquica de João Batista foi bem gasto. Lá esbanjado foi. Mas o resultado é aquilo que todos sabemos: um tremendo endividamento.

 

Mas se fosse apenas isso, o senhor presidente podia argumentar em sua defesa que todos os outros municípios o fizeram e que até o governo da Nação cometeu o mesmo pecado. Mas não nos deixemos iludir pela falácia. A título de exemplo, paradigmático, podemos referir a eliminação ou descaracterização de espaços ancestrais (Freiras e Jardim Público), a teimosia nas obras redundantes (levantamento do pavimento da Rua de Santo António) e o entretém com minudências (as inenarráveis cestas de plástico da mesma rua).

 

Para tais dislates, melhor seria o senhor presidente ter ficado quieto. Mas todos sabemos que não podia. O que já não sei é se os flavienses estão pelos ajustes. E é nestes últimos onde a minha esperança no futuro se torna possível.

 

Urge mudar de política. Urge mudar de vida. Urge mudar de protagonistas. 


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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Sol e sombras


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Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Lá ao fundo


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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

O Homem Sem Memória - 103

 

103 – Durante a tarde, ele e o pai puseram-se a saltar entre os comunicados do MFA difundidos na rádio e os transmitidos na RTP. E, como eles aconselhavam, mantiveram-se calmos em casa. Nem a Dona Rosa, que era a mais arrojada da família, se atreveu a ir ao comércio da Dona Bárbara comprar o arroz de que necessitava para fazer o jantar. O povo, como muito bem dirá no futuro um patusco militar altamente graduado que chegou a primeiro-ministro, é sereno.


O guarda Ferreira fumava cigarro atrás de cigarro e bebia copo atrás de copo, enquanto escutava a rádio, via a televisão, ouvia as palavras um pouco imprecisas do seu filho mais velho e escutava os ralhetes da eterna maldisposta Dona Rosa. Mesmo o cão, as galinhas e os porcos, estranharam tanta gente em casa ao mesmo tempo e à mesma hora. Aquilo não era normal. Naquela família não. E, para piorar as coisas, as revoluções (ou melhor será dizer os golpes de Estado?) têm destas bizarrias, acontecem quando menos se espera.


Até a rapaziada mais nova teve dificuldade em atinar com as brincadeiras. Toda a gente metida em casa durante um dia inteiro colocou a família Ferreira à beira de um ataque de nervos. A televisão apenas transmitia música clássica, o que chegou a exasperar de maneira eloquente a Dona Rosa.


“Puta de música esta que me mexe cá com os nervos de uma maneira que não estou habituada. Também quem chama a isto música não pode estar bom da cabeça. Não terão por lá programas de folclore daquele senhor que fala e fuma devagar? Isso sim é que é música. A música do povo. Agora estes manjericos que se fartam de bufar em funis e arranhar as cordas daquelas violas pequerruchas, não tocam nada de jeito. Música daquela é boa para os funerais…”


Aqui o guarda Ferreira não se conteve, como era seu timbre e feitio, e retorquiu: “Então não vês que isto é mesmo um funeral. Está visto que o regime está morto. Pobre Marcelo Caetano. Ele que tanto fez pelo país vai ser destituído de forma vergonhosa e ainda por cima vão chamar-lhe todos os nomes e mais alguns. Só há uma forma do poder não cair na rua, é ser entregue ao Spínola. O distinto general é um militar prestigiado e sabe exercer a autoridade com… com…”, “Com muita autoridade” resolveu finalizar a Dona Rosa. Logo após puseram-se a olhar para os músicos tentando atinar com algo de mais substancial para dizer.


“E tu?”, perguntou a Dona Rosa ao guarda Ferreira. “E eu o quê?, tentou responder perguntando o guarda Ferreira à Dona Rosa. E ela: “Não achas que deves fazer alguma coisa?” E ele, entre o envergonhado e o surpreendido: “Fazer o quê? A GNR não se pode meter nisto. A política é para os políticos.” E ela: “Para os políticos, dizes tu. Para os políticos?, pergunto eu. Que políticos? Ao que oiço, são os militares que estão a tomar conta do poder. E tu, que eu saiba, és militar. E, como militar, também devias dar o teu contributo. O pior é ficar em casa de braços cruzados enquanto os outros se mexem e tratam da sua vida.” E ele, entre o surpreendido e o envergonhado: “Que contributo posso eu dar? Ir para a rua bater no povo que se manifesta? Ou ir ao encontro dos soldados revoltosos e disparar contra os seus tanques e os jipes? Espero que não estejas a insinuar que me devo colocar ao lado dos revoltosos. Eu sou todo do lado do Marcelo. Além disso estou a gozar os três dias de folga a que tenho direito. Eles que se amanhem. Nestes acontecimentos é sempre o povo quem deita os foguetes e apanha as canas, mas quem faz a festa e come os banquetes são os graúdos.” E ela já um pouco mais assanhada: “Continuas o bardamerdas de sempre. Só te interessa fumar e beber. És um medricas. Nestas alturas é que é preciso fazer alguma coisa. Podias tentar dar nas vistas para ver se te promoviam a cabo. E, depois, com um bocadinho de sorte e engenho, bem que podias chegar a sargento. O Vicente foi assim que conseguiu singrar na vida, meteu-se lá numas confusões e arranjou maneira de cair nas boas graças dos maiorais. Hoje é sargento e comanda o posto de Boticas. É para que vejas. Mas tu não. Tu és para aí um medricas, um pindérico que apenas se preocupa em beber e em fumar. Desenmerda-te homem. Desenmerda-te.”


“Olha, olha, lá vêm de novo as notícias!”, tentou apartar conversa o guarda Ferreira. Mas a Dona Rosa não estava para aí virada. “Não te ponhas com paleio de parvo para ver se me distrais. Eu se estivesse no teu lugar ia imediatamente para o Porto apresentar-me ao serviço e tentar fazer alguma coisa. Ficar em casa é uma cobardia. E dos cobardes não reza a história.”


“Por favor mulher, tem tento na língua. Olha os filhos!”, avisou-a o guarda Ferreira. Ao que ela retorquiu: “Muito dizes preocupar-te com os filhos, mas quem os cria sou eu. Aqui sozinha com o mirrado vencimento que me entregas todos os meses. Sou para aqui uma rodilha. Se te preocupasses realmente com o seu futuro tentavas ser alguém. Não te acomodavas com a tua miserável condição de guarda e tentavas progredir na carreira. Se tu não o fazes, outros o farão em teu lugar. Disso não tenhas a menor dúvida! Mexe-me com os nervos seres para aí um pamonha. Um homem sem ambição. E quem não tem ambição não presta para nada. Só é útil para servir os outros.”


“E que queres tu que eu faça, mulher do diabo?”, perguntou o guarda Ferreira. “Não sei. Além disso não sou eu que uso a farda”, respondeu a Dona Rosa. “Mas sempre te digo que não era pessoa para ficar em casa enquanto os meus colegas se movimentam de um lado para o outro à procura de uma maneira de saírem da confusão sem se prejudicarem.”


Mais uma vez o guarda Ferreira questionou a sua mulher: “ E se for para o Porto, que lado é que devo apoiar? O dos revoltosos ou o do Marcelo Caetano?”


“O teu”, respondeu-lhe a Dona Rosa com o sentido prático que se lhe conhece. “O teu.”


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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Mulheres ao sol


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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

O Poema Infinito (88): o voo, a canção e o grito

 

Andam canções estranhas no ar. Canções que começam pelo fim. Canções que são rostos de desilusão. Canções pungentes com gritos dentro. Canções com sons agudos de sexo. Canções de dedos e pensamentos de véspera. Canções de ausência e desânimo. Canções frias. Canções de fronteira. Ao fundo uma paisagem abre-se como um fruto maduro, uma paisagem veementemente incompleta empolgada pelo sonho extenuante dos criadores. No seu centro está o núcleo mágico do silêncio e dentro dele encontra-se o livro da vida e da fala. Todo o tempo foi destruído. Todo. E dentro da sua ausência Deus vive agora o tempo obscuro do esquecimento e da morte. No sítio por onde ele desapareceu chove continuamente uma chuva de palavras loucas. Nos teus olhos vê-se agora um fogo que anda. Grandes letras saem-nos da boca e enchem as folhas de poemas resplandecentes. E a memória avança. A memória das árvores e da neve e dos pássaros mortos pelo frio. Toda a natureza é uma máquina de força. Daí entrarmos nela a uma velocidade de silêncio e espanto. Corremos pela noite dentro como crianças feéricas. E lembramo-nos das estrelas e elas aparecem brevemente no céu. E as portas abrem-se como magnólias expostas ao tempo. E as ruas estão repletas de palavras que caçam nomes e os nomes dizem que os sonhos cantam linhas agudas e cidades inundadas de gritos e de viagens e de parêntesis de amor e de vírgulas desoladas pelo tamanho dos textos. A terra irada enche-se de silvas e deixa-se vencer pelo lirismo molhado da tristeza. E grita.  E grita de revolta por todas as naturezas mortas dos pintores. E grita pela destruição das aldeias quietas. E grita pela morte dos caminhos. E grita pelos poemas mudos dos poetas cegos. E grita pelo incêndio das searas obsessivas. E grita pelo enigma da eternidade. E grita pelo imprevisto silêncio dos cantores. E grita ainda pelo sol, pelos frutos, pelas crianças, pela água, pelo leite e pelo turbilhão dos dias. E a terra sente por fim que as palavras se elevam iluminadas por uma estranha tristeza divina. E só agora a minha boca pousa sobre a tua inspirada pelo voo melancólico dos melros. 


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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

O homem e o burro


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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

Da expetativa ao imobilismo (III) – Presunção e água benta… (I)

 

Então vamos lá às obras, senhor Presidente. Ou, como muito bem diz o meu amigo, aos “projetos, às obras executadas e a executar”. E, como todos bem sabemos, as obras são sempre a grande fantasia de qualquer autarca responsável e o sonho de qualquer empreiteiro que se preze. Por vezes, tais fantasias e sonhos transformam-se em realidade com o sucesso que todos sabemos. Pois não há político que não se pele por uma obra emblemática e não existe empreiteiro que não se sacrifique em tentar ganhar a obra do seu contentamento. Daí, quase sempre, nascem amizades muito profícuas e que servem ambas as partes. Mas deixemo-nos de efabulações e voltemos à realidade. Se a realidade nos permitir.

 

O meu jornal regional de referência diz que o senhor presidente, “aproveitando o número 10” referiu as 10 mais emblemáticas áreas da sua intervenção. A saber: educação, cultura, desporto, ação social, requalificação urbana, valorização ambiental, acessibilidades, atividades económicas, desenvolvimento rural e serviços e cooperação.

 

Ou seja, referiu 10 áreas que são todas. Mas também é toda a ficção que conseguiu arrebanhar para o seu auto elogio (pois nem uma deixou de fora), porque, bem vistas as coisas, e descontando as palavras (pois palavras leva-as o vento), o que resta de concreto e palpável é muito pouco.

 

Já o número de ações é um dado mais fiável: 100. E também é emblemático. Toda a instituição que se preze gosta de celebrar, ou lembrar, os 100 anos de existência, ou os primeiros 100 dias de desempenho de um mandato. Olhe, senhor presidente, até eu me orgulho que o meu blog (TerçOLHO) esteja muito próximo dos 100 mil visitantes e que a minha narrativa do “Homem Sem Memória” tenha atingido na semana passada os 100 capítulos. Vaidades.

 

Mas, se me permite, vamos lá às suas 100 ações. Pois estou em crer, que o blog é-lhe perfeitamente indiferente e a minha narrativa nem lhe aquece nem lhe arrefece. Por exemplo, na educação refere, logo de início, o projeto “Viver a Escola”. Pois lá nome pomposo tem, mas pergunte por aí aos nossos munícipes, alunos, pais e professores incluídos, se sabem o que isso é. Nomeia também a “sua” “Carta Educativa”, e bem, pois nisso, tenho de reconhecer, foi um enorme sucesso. O seu a seu dono.

 

Todos sabemos que mandou fechar todas as escolas das nossas aldeias, o que determinou que muitos dos nossos povoados tenham chegado ao fim da sua milenar existência. Fala do apoio nos transportes e nas refeições aos nossos estudantes como se isso fosse, sequer, um projeto. Isso é uma obrigação sua a que não pode fugir pois recebe o dinheiro do Estado Central destinado a esse fim.

 

Qualquer dia também nos vem dizer que cobrar a água é um projeto autárquico da “sua” equipa. Nós sabemos que para atingir o número 100 teve de inventar, e muito. Mas até a ficção tem os seus limites e as suas regras, senão não se pode designar de fição, mas sim delírio. E enquanto a primeira é um dos elementos essenciais à boa literatura e ao bom cinema, já a segunda é uma doença que necessita de ser vigiada e controlada para bem de quem dela sofre.

 

E por falar em água, deixe que lhe lembre a notícia de que a Câmara, que o senhor sabiamente preside, é uma das cinco autarquias (Loures, Albufeira, Évora, Lisboa e Chaves) que mais deve às Águas de Portugal, com dívidas acima dos 10 milhões de euros cada uma. E, que eu saiba, os munícipes flavienses não deixaram de pagar a água e demais impostos diretos e indiretos.

 

Está visto que não é apenas o Estado Central o mau pagador. Ao que parece, o deixar crescer a dívida não foi só atributo do Cavaco Silva, do Guterres, do Durão Barroso e do Sócrates. No país é prática comum acumular dívida como quem colecciona selos, pois as gerações futuras, que já estão super endividadas, lá terão de pagar os erros de má gestão dos seus avós e dos seus pais. Isto é se ainda existir país. O que cada vez duvido mais.

 

Relativamente à cultura fala-nos de vários projetos, como por exemplo a Biblioteca Municipal, mas deixe que lhe lembre que a Biblioteca Municipal não foi um projeto seu mas sim de equipas autárquicas que o precederam. O senhor limitou-se a assistir ao início das obras e acompanhamento de um projeto já existente. Já o “Museu de Arte Sacra” é obra de sua autoria. Mas deixe que lhe lembre que o espaço está quase sempre às moscas e que até serviu para lá desterrar, como forma de punição, um artista plástico da nossa terra que o senhor convidou para vir trabalhar consigo.

 

E também a “Chaves Viva” é um projeto com a sua chancela. Mas também sabemos para o que serviu, e para o que serve: para dar emprego à “rapaziada” do partido e, por ter um estatuto de autonomia, o fazer sem prestar contas a ninguém, a não ser a meia dúzia de associados e dirigentes que também trazem na carteira, quase todos eles, o cartão laranja.

 

E o “Douro Jazz” também é um projeto da sua Câmara? Deixe também que lhe diga que não. Uma coisa é aproveitar alguns grupos que se deslocam à nossa região e pagar-lhes para fazerem um desvio até Chaves para aqui tocarem umas coisitas. Outra, bem distinta, é organizar um festival de jazz. Se o citado evento fosse flaviense não teria, com toda a certeza, a palavra “Douro” escrita na sua denominação.

 

Já a famosa “Agenda Cultural” é um projeto genuíno da sua equipa. E que bom que ele é. E também é distinto, repleto de interesse, vanguardista, dinamizador e altruísta. E, deixe que lhe diga mesmo mais, é bem o retrato da atividade cultural na nossa cidade: pequenina, comezinha e ridícula. Resumindo: liliputiana.

 

Já o desporto é um enchente de riso, porque é um amontoado de lérias. Por exemplo, chega a falar das provas desportivas ao ar livre (BTT) e de um “Regulamento de Apoio à Formação”. À formação de quê e para quê? E, relativamente às provas desportivas, deixe que lhe lembre que até a Casa de Cultura de Outeiro Seco chegou a fazer bem mais e com bastante menos dinheiro e pessoal.

 

Segue-se a ação social. E logo a abrir fala-nos da Carta Social. Lá cartas tem o senhor. O meu amigo é prolixo em epístolas. E esta é mais uma. Talvez doutra índole, mas, mesmo assim, curiosa e repleta de surpresas. Lembra-nos do apoio aos extratos sociais desfavorecidos (Ó raio de expressão mais infeliz, então os mais desfavorecidos, para si e para a sua equipa, são um extrato? Contas é que podem ter extratos, as pessoas, mesmo as mais pobres, são gente, não são extratos de nada.) e de mais uma dezena de projetos de índole indefinida e de concretização duvidosa. Mas a que me chamou mais à atenção foi o combate à toxicodependência.

 

Olhe que não, senhor presidente, olhe que não. A sua autarquia não a combate. Diz que a combate. E uma coisa é dizer, outra, bem distinta, é fazer. Por isso deixe que o cite: “Na ação política, mais do que intenções contam os resultados”. E os resultados aí estão com toda a sua cruel evidência. Bastava-lhe sair um dia à noite e ir à zona dos bares, na parte velha da cidade, para se inteirar de que a realidade é muito diferente do que diz, ou do que lhe dizem. Olhe que ali o tráfico e o consumo de estupefacientes são muito elevados. Mas, pelo que vou vendo, o local nem sequer é devidamente policiado. A polícia só lá vai quando é chamada e, mesmo assim, com toda a animosidade do mundo. Mas também reconheço que, como a Câmara só está aberta durante o dia, o combate por si propalado deve resumir-se a um que outro sermão de circunstância para vir nos jornais (eu sei, eu sei, e o seu vice também o sabe, não há almoços grátis, estamos aqui, estamos lá, ei sei, eu sei) ou, à falta de interlocutor, no seu Boletim Municipal. Mas é durante a noite que a droga toma conta dos espaços e da cabeça dos consumidores. Só que a essa hora já todos dormimos a bom dormir. E até ressonamos dentro da nossa indiferença.

 

Peço-lhe desculpa, mas hoje vou ficar-me pela metade do cardápio do seu auto elogio. Para a próxima edição fica a análise ao que ainda falta da sua relação dos “projetos concretizados, obras executadas e a executar”.

 

Até lá. Um abraço. 


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Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

À espera


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Sábado, 18 de Fevereiro de 2012

Onde está o bebé?


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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

O Homem Sem Memória - 102

 

102 – O José hibernou durante uns tempos. Não saía de casa sob pretexto nenhum. Podemos ser levados a pensar que foi por medo, mas ele, como todos sabemos, era uma pessoa corajosa, ou imitava muito bem. Podemos ser levados a pensar que foi por precaução, mas o José, como todos também sabemos, era um rapaz instintivo. Podemos ainda ser levados a pensar que foi devido a qualquer motivo de força maior, mas nem essa hipótese é um argumento válido para justificar esta estranha atitude do nosso protagonista. Foi mesmo por fastio. O José estava farto de tudo.


Estava farto do seminário, estava farto das amizades, estava farto das tertúlias, estava farto dos pobres, estava farto dos ricos, estava farto das putas, estava farto dos poetas, estava farto dos bêbados, estava farto dos fascistas, estava farto dos antifascistas, estava farto de ler, estava farto de escrever, estava farto de comer. E quase estava farto de viver, o que era o indício mais preocupante.


Dormia muito, comia o indispensável para sobreviver, lia o suficiente para não embrutecer, via televisão por pura diletância e ouvia música para se manter vivo. No seu aparelho de rádio, e reprodutor de cassetes, que o pai lhe tinha oferecido para se entreter na prisão, ouviu vários LP’s de Cat Stevens até perder a paciência e o álbum “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band” dos Beatles até à exaustão. E leu “O Idiota” de Dostoevsky como quem se diverte a ver sangrar um porco. Teimas!


A mãe bem batalhou com ele para que saísse de casa, para que fosse ter com os amigos, para que fosse tomar ar, para que fosse à missa, para que fosse às aulas ao Liceu. Mas o José parece que tinha apreciado a prisão. A luz do sol incomodava-o e as pessoas aborreciam-no.


Deixou crescer o cabelo e a barba. Apenas tomava banho dia sim, dia não e mudava de pijama seguindo a mesma sequência. Nisso era extremamente exigente e metódico. Os pijamas eram de cetim às riscas azuis claras e escuras, sendo que as riscas claras eram mais largas do que as escuras, enquanto o robe era também de cetim às riscas azuis escuras e claras, sendo que as riscas escuras eram mais largas do que as claras. Os chinelos eram também de tecido em tons de azul.


Quando o pai chegou no fim do mês a casa e encarou com ele, disse-lhe, entre o triste e o estupefacto: “Pareces um parvo vestido de azul às riscas.” Ao que ele respondeu: “É o que sou, meu pai. E cada um é para o que nasce.” E o pai: “Não te iludas, tu não nasceste para parvo.” E o José: “Lamento desiludir-te, mas sou mesmo parvo. Só dou problemas.” E o pai: “De facto és um rapaz inquieto. E essa inquietação pode trazer-te muitos dissabores.” E o José: “Ainda mais? Por que será que não consigo ser como as outras pessoas? Eu gostava tanto de ser uma pessoa normal! Esforço-me tanto.” E o pai: “Olha, não te esforces tanto, talvez assim consigas ser um pouco mais aquilo que pretendes.”


No dia seguinte, o guarda Ferreira conseguiu que o José fosse até à taberna do Trinta comprar um garrafão de vinho para acompanhar o frango que a Dona Rosa assava no forno. No caminho encontrou o Graça que lhe fez uma grande festa e o convidou para ir até à cidade ver o que por lá se passava, pois a rádio informou que tinha havido um golpe de Estado. “E isso o que é?”, perguntou fazendo-se de assombrado. Ao que o amigo lhe respondeu: “É a modos que a mudança de regime. Parece que o governo do Marcelo Caetano caiu e os militares tomaram o poder.” “Parece?”, perguntou o José. “Não parece. É. Então, vens ou não vens?” Desafiou o Graça. “Agora não posso. Está cá o meu pai e vamos almoçar em família”, desculpou-se o José. “Talvez mais lá para a tarde.” “Acontecimentos destes dão-se uma vez na vida”, avisou o amigo. “Pois, eu sei, mas já não estou com o meu pai vai para uns meses e não lhe posso dizer que deixo de almoçar com ele para ir contigo ver as pessoas aos berros e aos pulos. Além disso, estou em crer que o povo vai andar aos berros e aos pulos durante muito tempo”, desculpou-se de novo o José. “Continuas na mesma, um misantropo incorrigível”, disse o Graça. “Não me dês desses elogios senão coro”, ironizou o José. E dali se foi com o garrafão numa mão e a incredulidade noutra.


“Então o tenente Sampaio disse mesmo a verdade”, pensou enquanto sorria e dava um pontapé num cão que veio colocar-se a seu lado.


Mal chegou a casa, ligou a televisão, mas o que nela viu não lhe deu nenhum sinal de que tinha acontecido alguma coisa de grave. Na caixinha marota von Karajan desenhava gestos enérgicos com a batuta enquanto o seu cabelo se movia de um lado para o outro com a cadência dos compassos da sinfonia de Mozart, ou seria de Beethoven? Ligou a rádio mas naquele momento só de lá saía música corriqueira e banal.


Intrigado, dirigiu-se à cozinha onde o pai estava de roda da fogueira a tentar brincar com os filhos mais novos e perguntou-lhe: “Pai, sabes de alguma coisa?” “Acerca de quê?”, interrogou-o o pai. “Encontrei lá fora o Graça que me disse que houve um golpe de Estado e que o Marcelo Caetano foi destituído”, informou-o o José. E o pai: “Ó caralho, então estamos fodidos.” E o filho: “Pai, olha os pequenos. Se calhar devias contactar o teu posto. Isto pode dar para o torto.” E o pai: “Para o torto parece que já deu. Mas como estou de folga, os que lá estão que se amanhem.”


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Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

Concentração


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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

O Poema Infinito (87): a consciência das palavras

 

As palavras caem das árvores como pedras. Palavras com consciência dentro. Palavras em contínua explosão. Palavras com a consciência brilhante do sol ou com a consciência infinitamente frágil do ar. Palavras com a consciência efémera da vida e da sua eminência fúnebre. A cabeça fica vazia enquanto a mão escreve a consciência das palavras. As palavras que são desejo, que são abandono, que são desencontro. As palavras que são sombras que respiram o vazio e o esplendor do nada. As palavras que são espaços finitamente infinitos. Tu, no entanto, falas da consciência e da vontade das palavras combaterem a força viva do desejo. Esse é o espaço aberto dos corpos ainda livres. Pedra sobre pedra, as palavras definem a exata e verdadeira dimensão das sombras na clareira, da sua consciência vegetal, da sua unidade íntima com os animais. Por isso há como que uma densidade inconsciente dentro da consciência dúctil das palavras, dentro do seu grau variável, dentro das linhas livres das tuas mãos que agora procuram a forma transparente da água e das margens lisas da neve e dos círculos abertos dos objetos que no campo inventam a lentidão e as pausas do esquecimento da terra. De novo as palavras recomeçam o seu limpo e intacto alcance do espaço, a nudez recomeçada da tua face, ou o rumor do teu olhar que percorre o murmúrio do desejo. A consciência volta de novo com as palavras que agora interrogam a respiração da infância. Palavras que nos interrogam sobre o desejo obscuro da respiração das imagens, que embranquecem as páginas de sombra da virgindade das árvores. Por isso, as palavras dentro da sua inconsciência consciente procuram o resultado da velocidade absoluta da raiva, da esquizofrenia ordenada das obsessões, da periferia da lucidez, da orla amargurada que habita em cada um de nós. Dizes que as palavras inconscientes incendeiam todas as imagens e as imagens das imagens. Essa é a referência absoluta dos textos: serem incendiados por imagens. 


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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

Meninas à sombra


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Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

Da expetativa ao imobilismo (II) – Saudades do futuro

 

E de novo volto à putativa “década de progresso” da gestão do PSD, e de João Batista (ou melhor será dizer, da sua fação partidária alargada aos neutros e aos que estão sempre com quem vence), com a vontade do costume. Viver numa cidade de província tem destas coisas, por mais voltas que possamos dar, voltamos sempre ao local da desavença.

 

Entendamo-nos, dizer meias verdades é ainda pior do que mentir, porque nos fundamentamos no parecer (não no ser), porque confiamos nas aparências, porque persistimos no embuste, tingindo-o com o manto diáfano das palavras que não correspondem aos factos. E na apresentação (encenação?) da sua “façanha” à frente do município, João Batista, apesar de não mentir, também não falou verdade. Ou não contou a verdade necessária.

 

Encheu as páginas dos jornais (eu sei, eu sei, e o seu vice também o sabe, não há almoços grátis, estamos aqui, estamos lá, eu sei, eu sei) com palavras bonitas, politicamente corretas, agradáveis de ouvir, fáceis de dizer, mas que falam de uma outra coisa, a ficção política. Podíamos aqui falar das tão propaladas cem obras realizadas e das quinze que afirma querer ver concluídas até ao final do seu mandato. Podíamos, mas fica para a semana que vem. Cada coisa a seu tempo.

 

Desta vez quero referir-me, sobretudo, à demagogia com que elaborou o seu discurso. A determinado momento afirmou: “O desenvolvimento constrói-se em bases sólidas tendo como pilares fundamentais as pessoas, o território, a criação de condições para o desenvolvimento de atividades económicas e a cooperação.” Lembrando que esse foi o seu “rumo claro” e a “sua matriz explícita” nos dez anos da sua gestão. São bonitas de ouvir, tais palavras, e ficam bem a quem as profere, mas, infelizmente, senhor presidente, não correspondem à verdade.

 

A verdade é que a população do nosso concelho diminuiu durante os últimos dez anos, o que retira de imediato toda a solidez ao seu argumento. Se as pessoas foram embora é porque aqui não lhes foram criadas as condições necessárias e suficientes para conseguirem viver com a dignidade indispensável. Por isso rumaram a outras terras, porque esta onde nasceram passou a ser-lhes madrasta. Não lhes proporciona emprego, não lhes fornece a educação superior necessária, não lhes dá espaço para criarem família, para se divertirem com qualidade, para se cultivarem com regularidade e para viverem com esperança no futuro. Por isso migram, abandonando pais e mães, amigos, terras e casas. Antigamente ainda iam e voltavam. Agora vão e não voltam mais. Só uns dias nas férias e um que outro nas quadras festivas.

 

Ou seja, o tal desenvolvimento de que se orgulha assim tanto não existiu, o território ficou mais desertificado e as atividades económicas são hoje um arremedo do que já foram. Por exemplo, apesar de ter construído o parque industrial de Outeiro Seco, que custou uma fortuna e se encontra literalmente às moscas, servindo quase exclusivamente para os mais novos irem praticar o arremesso livre com pedras, por lá não se instalaram novas indústrias, nem no nosso concelho emergiu qualquer atividade económica digna de registo. E sem atividade económica não há emprego e sem emprego não há salário e sem salário não há pão, nem casa, nem roupa, nem educação, nem família. E sem família não há crianças e sem crianças não existe futuro. É por isso que Chaves expira a cada ano que passa. É por isso que os campos estão abandonados, as casas desertas e os caminhos cheios de ervas. É por isso que nas aldeias só vemos pessoas idosas, galinhas e cães. É por isso que temos que mudar de rumo. É por isso que temos de mudar de vida.

 

Para lhe ser sincero, relativamente à cooperação não faço a mínima ideia ao que se quer referir. Só vislumbro uma única possibilidade: a Eurocidade, mas essa é uma outra ficção que será desmontada a seu tempo.

 

Pensei que o senhor presidente ia falar no comércio local, que diz defender mas que abandonou à sua sorte. Basta subir a rua Direita e descer rua de Santo António para nos inteirarmos do seu lento definhar. O comércio local, uma das principais riquezas da nossa textura urbana, está tão anémico que até dói. As lojas mudam de mãos, e de atividade, a um ritmo frenético, sugerindo falência atrás de falência. Isto apesar de muitos dos proprietários, ou arrendatários, gastarem aquilo que têm e não têm em obras de remodelação que se revelam uma aposta ruinosa. Falta-lhes apoio, falta-lhes incentivo, falta-lhes dinâmica. As pessoas preferem as grandes superfícies. E se calhar a Câmara também não vê grande mal nisso.

 

É relevante que, por se sentirem sós e abandonados, muitos dos mais dinâmicos comerciantes, proprietários e locatários do coração da nossa cidade, sentindo que a autarquia os abandonou, se tenham unido e criado uma associação para combaterem a desertificação e o abandono a que estão sujeitos. E fizeram-no porque amam Chaves. Porque foram aqui nados e criados, porque é aqui que vivem e é aqui que querem continuar a viver. E já que a autarquia, como bem dizem os flavienses, não lhes “bota uma mão”, são os próprios a pôr mãos à obra e a tentar dinamizar uma parte da cidade que, apesar de histórica, se vê abandonada. E as noites por ali são muito difíceis de passar.

 

Por ali trafica-se droga em quantidades assinaláveis e a prostituição é uma dura realidade. Uma realidade que envolve mulheres emigrantes que se prostituem à luz de velas em quartos abandonados, em casas de madeira, mesmo ali perto da Igreja Matriz e a uma ou duas centenas de metros da Câmara Municipal. Só que isso acontece durante a noite e, à noite, o centro da cidade transforma-se num bairro abandonado à sua sorte e à sua desgraça. Enquanto os mais jovens se tentam abstrair da dura realidade em que vivem consumindo álcool e outras substâncias bem mais tóxicas, as pobres mulheres latino-americanas, ou do Leste europeu, satisfazem as carências afetivas de adultos solitários.

 

Apesar da dura realidade, que causa incómodos e transtornos a quem continua teimosamente a fazer do centro da cidade o seu local de trabalho e residência, a autarquia faz olhos cegos perante a triste realidade e varre o lixo para debaixo do tapete. Sei de proprietários que estão na disponibilidade de cederem espaços habitacionais gratuitamente a associações recreativas e culturais para tentar criar um tipo de ambiente mais saudável que expulse dali os drogados, os traficantes e as prostitutas, para que a degradação não se torne endémica e atinja o ponto sem retorno.

 

João Batista, na cerimónia de propaganda servida aos jornalistas, refere que o balanço da sua “década de progresso” é positivo. E afirmou que “pretende ser lembrado pela obra feita e pelo que ela representa para o bem geral dos cidadãos”.

 

Mais uma vez lamentamos dizer-lho, mas o balanço da sua “década”, apesar das suas boas intenções, não é positivo. É, pelo contrário, negativo. E não sou eu que o afirmo, são as pessoas que foram obrigadas a ir-se embora do nosso concelho, muitas das vezes com o coração apertado e as lágrimas nos olhos, que o evidenciam e o confirmam. E, que eu saiba, ninguém abandona uma cidade em progresso. O contrário é que é verdadeiro. 

 

Depois, tentando confundir desejos com a realidade, diz que a “sua” equipa “funciona independentemente de quem está à frente”, porque estão “cheios de entusiasmo”. Para já, perdoe-me que lhe diga, mas não tem equipa, e, muito menos, entusiasmo. Se é que algum dia os teve. Todos sabemos que já passou o testemunho ao vice camarário, mas o senhor presidente também sabe que o seu segundo nunca fez verdadeiramente parte da sua equipa.

 

O António fez sempre parte da equipa do António. E o senhor tentou sempre fazer que não via a realidade. Mas todos sabemos que pior cego é aquele que não quer ver. E sempre lhe digo que com a cretinice feita em relação às chefias na Câmara, que penso que ainda preside, o senhor não se vai embora sem que a água lhe dê pela barba, desculpe, pelo bigode. Hoje o poder não se compadece com os Pilatos de trazer por casa. E o povo não lhes perdoa desde tempos imemoriais. E o senhor presidente sabe disso melhor do que eu.

 

Antes de terminar, por hoje, deixe que me refira a uma coisa que, depois de lida e pensada, me inquietou. Por me preocupar com a ideologia e por prestar atenção às definições, reconheço que fiquei de boca aberta quando, a determinada altura, destacou, relativamente aos seus dez anos de “progresso”, “uma matriz social-democrata inequívoca” (até aqui cheguei, mas quando fez o enunciado é que me fui abaixo do entendimento): “Realismo na ambição, pragmatismo e humanismo na gestão.” Então esta é que é a sua matriz social-democrata? Raios parta, mas esta matriz é a de qualquer um, seja ele social-democrata, democrata-cristão, socialista, comunista, fadista, taxista, bancário, jogador de golfe ou filósofo da treta.

 

Mas deixemo-nos de perifrásticas, como muito bem diz o povo que quer passar por erudito, e vamos tentar finalizar esta crónica da melhor maneira possível, pois tristezas não pagam dívidas, nem desfazem dúvidas.

 

Perdoe-me, mas razão tem Francisco Taveira, quando na sua análise da situação política, feita no mesmo local e à mesma hora, disse sem papas na língua: “Há vida para além dos problemas financeiros e económicos. Falharam os economistas, agora é preciso dar lugar aos psicólogos, aos filósofos e aos poetas, pois é preciso trazer novamente alegria para a política.”

 

Desde já afirmo que estou inteiramente de acordo com o seu antigo vereador. Realçando, talvez, a necessidade de dar lugar aos poetas. Mas, senhor presidente, o seu vice não encaixa na definição apresentada. Além disso, a política, a necessitar de alegria, com o seu vice vou ali e já venho. Sisudo como é, encaixa melhor no perfil marcial. E a política autárquica democrática entregue a um autocrata é uma aberração.

 

O poeta Manuel António Pina diz que há muitos bons poetas em Portugal, mas do que nós estamos precisados não é de bons poetas, é de boas pessoas. Pois o seu vice, não sendo poeta, podia até ser boa pessoa. Mas nem mesmo assim consegue, por muito que tente, encaixar no figurino, pois quem o conhece sabe do seu instinto persecutório, da sua arrogância institucional, do seu caráter belicoso, da sua ânsia de poder, da sua manifesta prepotência que o levou a destituir e despromover técnicos superiores da Câmara, com provas dadas desde há muitos anos, leais à sua independência, rigorosos nos seus princípios e competentes no seu serviço.

 

Mas, o que todos sabemos é que vice-presidentes já passaram pela Câmara uns quantos, enquanto os técnicos que o seu vice destituiu aí vão permanecer até ao fim das suas carreiras, dando o melhor de si com o firme propósito de servir o município e os seus munícipes. E, estou em crer, não se importarão muito quando virem o António sair, rodeado pelos seus compinchas a quem agora arranjou os tachos, pelo portão gradeado com o rabo entre as pernas para não mais entrar. 

 

Por isso é que eu, e muitos outros como eu, já estamos com saudades do futuro. Então, até lá. E que a sabedoria nos acuda e a paciência não nos abandone. 


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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Névoa na serra


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Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

Animais


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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

O Homem Sem Memória - 101

 

101 – E o equívoco foi desfeito em muito pouco tempo, pois, pelos vistos, havia interesse manifesto de ambas as partes.


O tenente disse ao José que estava livre desde aquele preciso momento. E que a sua prisão, podendo não ser bem entendida pelo próprio, tinha mesmo uma explicação plausível e bem diferente daquela que podia parecer à primeira vista.


A princípio foi preso, como toda a cidade sabia, por desacatos, ofensa à moral pública e embriaguez, mas a segunda prisão foi motivada por uma outra razão. Aparentemente ela ficou a dever-se à provocação feita às autoridades civis, militares e religiosas. Mas isso foi aparentemente. Por detrás dessa detenção existiu o firme propósito de não o deixar cair nas garras da polícia política, que já o vigiava bem de perto.


A princípio, o tenente Sampaio não foi muito sensível às petições feitas pelo sargento, a mando dos progenitores do José. Não estava para ali virado. Mais a mais, o rapazola era um provocador sem tino, sem norte, sem educação nem respeito pelas autoridades. Era um jovem dissoluto que não merecia qualquer tipo de apoio ou condescendência.


Mas a amizade e o espírito de corpo falou mais alto. A GNR é como uma família onde todos se apoiam, especialmente quando estão em causa os familiares mais próximos.


O filho de um elemento da GNR cair nas garras da PIDE/DGS, além de uma derrota, era um pretexto para os elementos da polícia política se poderem vingar de uma força policial que frequentemente amesquinhavam e da qual gostavam de troçar. Ora se apanhassem o filho de um agente da ordem detido por estar ao serviço da subversão e dos comunistas, espremiam-no como um limão até confessar que tinha sido ele quem sabotou a cadeira que vitimou Salazar.


Por isso tinha estado detido no posto da GNR, onde os sanguinários agentes da PIDE/DGS tinham dificuldade em se aproximar. Porque, além do mais, o tenente Sampaio também tinha os seus contactos e a sua influência. E nestas coisas da ordem e da lei, nem tudo o que parece é. Por debaixo da farda de um oficial da GNR também bate um coração sensível.


O José tudo isto ouviu com a maior calma do mundo. Tinha chegado à conclusão de que vida melhor do que aquela ia ser muito difícil de arranjar. Comer bem e a horas, ler sem horário e sem limitações e dormir sem contemplações, não estava ao alcance de qualquer um. Claro que estar encerrado dias a fio dentro de quatro paredes e ver o sol aos quadradinhos também tinha os seus inconvenientes. Por isso, limitou-se a ouvir o que o tenente Sampaio tinha para lhe contar e a acenar com a cabeça sempre que lhe era exigida uma resposta ou solicitado algum auxílio para ir mantendo a conversa.


No entanto uma pergunta pertinente foi feita ao senhor tenente por parte do José. Por que é que ia ser libertado, se nada do cenário traçado se tinha alterado? A PIDE/DGS podia prendê-lo mal soubesse da sua libertação e todo o esforço feito na sua proteção e encobrimento teria sido inútil.


O oficial da GNR concordou com a pertinência da questão, mas pouco mais adiantou. Disse-lhe que mantê-lo preso dali para a frente podia colocar em causa o seu emprego, a sua sobrevivência e a segurança e o bem estar da sua família. “E porquê?”, tornou a insistir o José.


“Não te posso adiantar muito mais, mas devo avisar-te de que algo vai acontecer no país que o porá de pantanas”, adiantou com alguma tristeza e outra tanta insatisfação, o tenente Sampaio.


“A ser assim, o que para si poderá ser uma má notícia, para mim, com toda a certeza, é uma ótima novidade”, rejubilou o José.


“Olha, José, o que aqui te disse deve ficar apenas entre nós. Na política, existem muitas realidades e distintas verdades. Todas elas passíveis de triunfar ou de serem derrotadas. Nada nesta vida é definitivo. De certo só temos a morte. O resto é ir vivendo cada dia como se fosse o último. E amanhã logo se verá. Hoje eu por ti, amanhã tu por mim. E o que vier será.


Quando ambos olharam através dos vidros da janela do gabinete do tenente Sampaio para o Jardim das Freiras, repararam que os varredores já tinham limpo meia praça e que não tardaria a amanhecer. O Brunheiro ainda era uma mancha escura no horizonte e os pássaros começavam a agitar as suas asas voando de árvore em árvore.


“Não sei se está a acabar a noite se está a nascer o dia?”, perguntou distraidamente o tenente Sampaio. “Para o caso tanto faz”, disse por dizer o José. “Tanto faz não”, teimou o GNR. E declarou: “Neste caso faz toda a diferença.” “Como assim?”, tornou a inquietar-se o José. Desta vez, o tenente Sampaio clarificou: “É que se for a noite que esteja a terminar, convido-te para beber um whisky irlandês e fumarmos uns charutos cubanos que tenho ali guardados no armário. Mas se já estiver a amanhecer, apenas te posso convidar a irmos à Pensão Império tomar o pequeno-almoço. Cabe-te a ti decidir. Hoje já estou por tudo.”


Naquele preciso momento, os primeiros raios de sol começaram a colorir o cocuruto da serra. Quase de imediato, o José levantou-se da cadeira, que até ali tinha sabiamente aquecido e, num gesto decidido, fechou as portadas das janelas. “A noite dura o tempo que um homem quiser”, disse olhando sorridente o rosto impassível do oficial da GNR. “O alvorecer chegará quando for o seu tempo.”


O tenente Sampaio dirigiu-se ao esconderijo e dele tirou a bebida e o tabaco. De seguida pegou em dois generosos copos de vidro e meou-os de aguardente irlandesa. Por estar alegre, o José lembrou-se de que o guarda Arménio também era homem para apreciar beber um pouco de whisky e predispôs-se a ir convidá-lo. Mas o tenente da GNR lembrou-lhe que, apesar do prometido alvorecer da liberdade, que, diziam, podia estar a caminho, a noite ainda estava por sua conta. E não havia tradição das elites, mesmo que provincianas, partilharem os seus momentos de reflexão e intimidade, com o povo, mesmo que fardado.


“Vai-te habituando. A situação de quem manda é sempre diferente daquela de quem é mandado. Sempre.”


E para ali ficaram a beberricar e a fumaçar os seus charutos com muita propriedade e estilo. Depois despediram-se como dois respeitáveis inimigos e cada um foi à sua vida. 


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Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

Linguagem gestual


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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012

O Poema Infinito (86): a mesa iluminada

 

A mesa está iluminada pelos elementos que alargam e concretizam o espaço e o tempo. Lá fora a terra respira a surpresa do vento. Cá dentro o afeto ajusta-se ao nosso tamanho. A mesa expõe a inteligência do pão e do vinho. É essa a insondável alegria dos limites. Cada vez mais é visível a invisibilidade e a insondável saudade da tua prolixa nudez. Regressa de novo a memória aberta, a presença das coisas esquecidas, o culto do trabalho, o rigor da preguiça, a compenetração, o estudo, o mundo aquático dos teus olhos recolhidos. E a idade retém o sossego e a sua sombra antiga. Todos os sítios se alargam na minha consciência e o brilho dos fenómenos mais comezinhos torna-se um imprevisto de júbilo e solidão. Interminavelmente a luz continua a guiar-nos para o abismo. O teu rosto é uma abundância de beleza. As tuas formas são como as formas humanas voadoras, os animais voláteis e os frutos lúcidos da terra pintados por Chagall. Esta é a hora em que toda a sabedoria se endominga à mesa e o dia se iliba do esplendor da noite e Deus se vinga da sua policromia. Fixo-me na tua paciência iluminada e no teu exercício de espera. Por isso invento o sítio perfeito onde os ecos são irrepetíveis. Deduzo a paciência da música. Se um poeta antigo se afirmava um pastor de rebanhos, eu nomeio-me um pastor de ritmos. E seja o que Deus quiser. Por isso continuo a ouvir a paciência atenta da luz que ilumina a mesa e a tua invisível visibilidade e a saudade aberta da tua nudez dilatada e o rigor da memória e o mundo imprevisto do nosso júbilo e a sabedoria lúcida do brilho dos teus olhos e daí deduzo o fulgor específico da firmeza, da subtil firmeza da solidão, da singular extensão das imagens fotográficas, da mentira limpa da eternidade, da passagem fugaz de todas as tardes já passadas, da espessura invisível dos limbos, da gravitação neutra da morte, da abstração da inteligência, da ascensão tensa dos santos, do júbilo dos hereges, da penitência de todas as mulheres que sempre foram e serão virgens e também de todas as mulheres violadas, de todas as frases feitas e desfeitas com todo o carinho por homens desistentes. De novo o tempo é uma deriva frágil. Alguém celebra uma nova narração. A ausência de glória é uma dádiva eficaz. Por isso nos afeta a fé que se baseia na prefiguração da verdade. Por isso nos acolhemos naquilo que nos falta. 


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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Olhar ou não olhar, eis a questão!


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Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

Da expetativa ao imobilismo (I) – a liquidação da memória


O prometido é devido. E eu cumpro sempre com a palavra dada. Mesmo que me custe, o que não é manifestamente o caso. Por isso hoje vou dedicar o parco tempo de que disponho a escrevinhar umas palavras de aplauso e reconhecimento ao presidente da Câmara de Chaves pela sua “década de progresso” frente aos destinos da nossa cidade e do nosso concelho.

 

Neste preciso momento levanto as mãos do teclado do computador e começo a aplaudir. A minha mulher olha para mim como que eu esteja à beira da loucura e o cão do vizinho começa a ladrar de forma compulsiva. À Luzia, porque ao cão não consigo, explico-lhe a razão do aparente desatino. Ela sorri e junta-se a mim nesta íntima, mas sincera, festa laranja de aniversário autárquico. Talvez peque um pouco por tardia, mas não deixa de ser feita com boa vontade e algum carinho.

 

Pois é, o barrosão João Batista está à frente dos destinos da nossa urbe há dez anos. Uma década é muito tempo. Talvez até tempo a mais. E se os quatro anos do primeiro mandato foram razoavelmente promissores, os do segundo revelaram-se desinteressantes e os últimos dois são pródigos em imobilismo, o que nos obriga a levar a avaliação da gestão de João Batista para uma espécie de classificação muito próxima da redundância. E, disso tenho quase a certeza absoluta, muito por culpa dos seus vereadores. Especialmente do seu vice que, como é explicado por quem segue a política autárquica com regularidade, é uma força de bloqueio. Muitas das vezes força de bloqueio até do bom senso e da razoabilidade.

 

Convenhamos, na competência e na gestão política dos dossiês, João Batista está uns furos acima do seu entorno, desde logo porque o atual presidente é um homem de trato fácil, culto, generoso e protagonizador de consensos. No que contrasta com todos os seus vereadores, com a honrosa exceção de um que aqui não refiro para não criar ainda mais problemas a uma equipa que se desmorona a olhos vistos. E tudo por culpa do vice camarário, que, na sua sofreguidão pelo poder, atropela tudo e todos, na tentativa de colocar nos lugares de chefia o seus apaniguados, mexendo nas estruturas do partido com mãos de pedreiro e na chefias da Câmara com ares de capataz que tudo quer refazer e tudo desfaz.

 

E é com um misto de incredulidade e espanto que observo a desistência e o lavar de mãos, como Pilatos, por parte do presidente em quem os flavienses votaram para levar o seu mandato até ao fim com honestidade, transparência e empenho. Sabendo ele, e nós, que até ao lavar dos cestos é vindima, esta postura não deixa de ser estranha e, quase me atrevo a dizer, profundamente desonesta.

 

Chegou-me aos ouvidos (e noutra altura voltarei ao assunto) que o vice camarário se comportou na reorganização das chefias de divisão da autarquia, com a falta de jeito que o carateriza, num misto de uma raposa no galinheiro com o desempenho de um elefante numa loja de porcelana, virando tudo de pernas para o ar, premiando os lambe botas e os amigalhaços, despromovendo os técnicos superiores, arredando os competentes, colocando na prateleira os independentes, importunando os insubmissos.

 

Na fotografia do jornal que ilustra a notícia que tenho na minha frente, apenas João Batista sorri. E penso que o sinal é indicativo de algo. Apenas ele sabe que está fora da luta fratricida que se instalou no PSD local, tendo em vista constituir uma equipa para concorrer às próximas eleições autárquicas. Todos os outros andam a ver quem salta fora, quem é abalroado ou quem vai ser forçado a desistir. Na dança das cadeiras, a música é de um filme de suspense, animosidade e aleivosia.

 

Olhando para a foto, e procurando na minha memória alguns factos significativos, reparo que entre os que aparentam cara de caso, há pelo menos um que foi utilizado como moeda de troca para encaixar um terceiro elemento num lugar da vereação. Ei-lo, agora, que regressa, atropelando alguém que já se queixa de forma veemente de que foi ultrapassado e, até, vilipendiado na sua dignidade e na sua dedicação à gestão de João Batista.

 

Na foto citada, todos, menos o presidente, contemplam o vazio. João Batista observa as mãos e sorri. E eu olho para uma jovem e interrogo-me sobre quem seja. Eu que sou da terra, que vivo na terra, que conheço muita gente cá da terra, a ela não conheço. Apesar disso, sei pela foto que a jovem também tem a sua cota parte de responsabilidade na gestão municipal do PSD.

 

Confirmo, embora isso me custe, que na política basta aparecer lá no partido, agitar umas bandeiras, colar uns cartazes, ser amigo do líder, para aparecer nas listas e até chegar a exercer o cargo de vereador. Isto apesar de se ser desconhecido da maior parte da população da cidade e do concelho, não possuir qualquer tipo de experiência política relevante nem se lhe conhecer, ou reconhecer, atributo intelectual, político ou social de valia.

 

Está claro que não é o ilustre desconhecido que tem a culpa. O verdadeiro culpado é quem faz uma equipa a pensar nos equilíbrios partidários em vez de pensar na capacidade política e cultural dos integrantes da lista para servir os cidadãos com competência e seriedade. Em política não pode valer tudo. E muito menos a vacuidade e a inoperância.

 

O senhor presidente afirma que “o espírito de equipa prevalece sempre, facilitando a transformação das ideias em projetos e os projetos em obras. Os resultados estão aí. Na ação política, mais do que as intenções, contam os resultados.”

 

Estou de acordo com as suas palavras, senhor presidente. E com a intenção do que afirma. Mas, para nosso pesar, todos sabemos que as desavenças, os conflitos, as pequenas invejas e as pequenas traições, começam a prejudicar, de forma irreversível, o trabalho da sua equipa. Se, neste momento, se pode falar de uma equipa, o que duvido. Pois, é certo e sabido, que o senhor cada vez mais desaparece de cena para dar visibilidade ao seu vice. E isso raia, deixe que lho repita, quase a fronteira da indecência e da desonestidade intelectual e política.

 

E, também por muito que me custe, reparando nas obras que resultaram da transformação das ideias da “sua” equipa, e do seu “espírito”, fácil é concluir que as ideias eram fracas, pois as obras são pífias e, muitas delas, redundantes ou incongruentes. E, se como muito bem diz, na política, mais do que as intenções, devem contar os resultados, a avaliação dos seus mandatos, especialmente dos últimos anos da sua gestão, são de um cinzentismo preocupante.

 

Daí o senhor presidente ter dificuldade em destacar a obra mais marcante. E, deixe que lhe diga, que as obras mais emblemáticas que resultam do seu mandato, são um ataque inqualificável à memória, à vida e à tradição de todos os flavienses que amam verdadeiramente a sua terra e as suas gentes.

 

Ao acabar de forma tão radical com os principais espaços de memória da nossa urbe, o senhor matou o coração da nossa cidade, deu um golpe fatal na nossa identidade, destruiu quase irremediavelmente os espaços do nosso contentamento. Por isso a nossa cidade é hoje uma terra descaracterizada, fria, abúlica, imóvel.

 

E por hoje, fico-me por aqui. Pois a conversa já vai longa. E as suas outras afirmações, que terei todo o prazer em comentar da próxima vez, exigem da minha parte novo fôlego e alguma paz de espírito que, confesso, perdi no momento em que me lembrei da destruição do Jardim das Freiras por parte da autarquia da minha terra.

 

Digo-lhe isto com toda a tristeza e, também, com toda a certeza, do mundo: se verdadeiramente amasse esta terra, era incapaz de pensar sequer na possibilidade de destruir o Jardim das Freiras. Acha capaz de alguém de Lisboa pensar em acabar com o Cais das Colunas ou o Jardim do Tabaco, ou alguém do Porto destruir as Fontainhas, ou alguém de Montalegre arrasar a Mijareta? No entanto o senhor foi capaz de destruir o Jardim das Freiras e de lá assentar um chão tão raso que mais parece uma campa (apesar daquele ser campo santo para mim e para toda a gente da minha geração, que também é a sua e a do seu vice, por isso a afronta ainda dói mais), sem que isso lhe tivesse tirado uma hora de sono.

 

O senhor afirmou, sobre o assunto, que “na política uma má decisão é sempre melhor que uma não decisão”. Antes de tomar uma decisão daquelas, o melhor era ter pensado em reconstruir, com qualidade, o Jardim das Freiras. Pois o culpado pelo genocídio da nossa reminiscência foi, a seu tempo, castigado por causa dos atentados perpetrados contra a nossa memória coletiva.

 

E o senhor tinha esse dever, tinha essa obrigação. Mas, infelizmente, o novo-riquismo e o mau gosto prevaleceram. E isso é culpa sua. Talvez tenha querido dar um sinal de diferença em relação à gestão anterior. Mas o que em política torto nasce tarde ou nunca endireita.

 

E por hoje é tudo, e olhe que já não é pouco. Um abraço. 


publicado por João Madureira às 07:00
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Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

O visitante desconfiado


publicado por João Madureira às 07:00
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Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

A tribuna olhando


publicado por João Madureira às 07:00
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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

O Homem Sem Memória - 100

 

100 – Então vamos lá avançar. O José passou ainda algumas semanas nos calabouços do posto da GNR de Névoa sem que a História registe nada de significativo. Nem a História, nem nós, temos que reconhecer. Mas também não é por isso que a narrativa não vai avançar. Está visto que existiu aqui um pequeno hiato. No entanto não é um hiato, por muito incomodativo que seja, que nos vai demover do firme propósito de chegar ao fim com esta história.


Queremos prevenir, desde já, os estimados leitores de que nós somos muito persistentes. Em persistência quase ninguém nos ganha. Avancemos de novo.


O José saiu da prisão pela calada da noite, apesar de já ser dia. Pode até parecer caricato, e mesmo paradoxal, mas até os acontecimentos mais caricatos e paradoxais têm sempre uma explicação científica. E quando dizemos científica queremos com isso afirmar que, apesar das aparências, foi verosímil, testada, e atestada, pelos factos e pela razão.


O tenente Sampaio, numa reunião onde apareceu impecavelmente Embuçado, e embeiçado, como era seu timbre e feitio, soube, por linhas travessas, da boca de um companheiro de borga, que algo estava para acontecer e que esse algo ia alterar profundamente a orientação política e social do país. Quando, ainda o desbocado não sabia, mas era ponto assente, entre as hostes do reviralho e os mini grupos dos iluminados agitadores clandestinos, que tal momento estava para breve.


Ora tamanha reviravolta ia provocar uma razia nas estruturas dirigentes do Estado Novo, especialmente nas forças da ordem, que, como todos sabiam, eram a espinha dorsal do regime e o seu principal sustentáculo.


Avisaram-no com bons modos, algum carinho e muita pedagogia, que era chegada a hora de eliminar todos os ficheiros comprometedores, desfazer-se de todos os livros apologéticos em favor de Salazar e Caetano, guardar em local acautelado os religiosos, e, sobretudo, libertar os prisioneiros, especialmente os de aparência antifascista, pois um homem desses podia enviar um agente da autoridade graduado para o mesmo sítio onde ele tinha penado os seus pecados e a maldita ação subversiva. 


Podemos afirmar, com o rigor que nos carateriza, e do qual são os estimados leitores testemunhas privilegiadas, que ao Embuçado nem o repasto se lhe engoliu nem o resto se lhe compôs de modo a não lançar suspeitas na sua amásia.


A amante, desconfiada, pôs logo a putaria em estado de alerta: algo estava para acontecer de muito grave na cidade e no país, pois os militares graduados do exército, da GNR, da Polícia e os vários agentes da PIDE/DGS tinham deixado comida no prato, vinho nas canecas e em incómodo descanso as suas companheiras de folguedo. Nem conseguiram, ó tragédia!, ó ignomínia!, acompanhar em coro, e com a devida nostalgia, a fadista de serviço nos curiosos, e originais, versos: Ai quem me dera… ter outra vez vinte anos…


Por causa de um desbocado antifascista dos fraquinhos (e dos fracos também esta história não reza), em vez de uma festa, a folia transformou-se em velório.


Podemos afirmar, com a independência que nos distingue, e da qual são os prezados leitores mais uma vez testemunhas únicas e irrepetíveis, que o primeiro grupo socioprofissional a saber do golpe militar do 25 de Abril em Névoa, e nos arredores, foi o das meretrizes. E tudo porque nem o Embuçado, nem os seus companheiros de profissão, conseguiram, como lhes era exigido pela tradição e pelo cargo, desempenhar, com sangue frio e o devido caráter, as habituais funções a que dedicavam a sua energia, a sua preparação e a sua pertinácia.


De facto, todos estes ilustres agentes da ordem tinham por senha a expressão: Viva a carreira de tiro, nós acertamos sempre no alvo. E os mais graduados dos graduados eram até especialmente autorizados a usarem uma bem mais elaborada: No tiro ao alvo, nós acertamos sempre na mouche.


Como a sorte protege sempre os audazes, e a lei da sorte não admite exceções, o tenente Sampaio, depois de sair apressado da residência das putas, nem sequer se atreveu a ir a casa dormir duas horas ao lado da sua querida esposa, e depois tomar o costumeiro banho, fazer a barba, aparar o bigode, polir as botas, escovar a farda, beijar as filhas, fazer festas ao gato, alimentar o cão e presidir à cerimónia do servir do pequeno-almoço, onde o distinto militar de GNR administrava a respetiva bênção, dando sempre graças a Deus pela comida que lhe punha na mesa, ao leite que as vacas, abençoadas pelo Criador, produziam e que as leiteiras de Outeiro Seco transportavam até à sua porta. Agraciava ainda, com as mãozinhas postas e os olhinhos fechados, o mester do anjo, que Deus quis que viesse a transformar-se na sua digníssima esposa, que tão saborosas compotas preparava, que tão bons bolinhos confecionava, que tão apetitosos scones amanhava. E, porque gostava muito de scones, particularmente dos feitos pela sua consorte, nunca se esquecia de, nas bênçãos, dizer uma oração muito própria e original.


E orava do seguinte modo e feitio: Deus, abençoa a tigela e as mãos que misturam a farinha, o sal, o fermento e o açúcar. E não Te esqueças de abençoar também o açúcar, o fermento, o sal e a farinha. E de abençoar a memória de quem nunca se esquece de derreter a margarina juntamente com o leite e de misturar a farinha, o sal, o fermento e o açúcar. E de abençoar a própria farinha e a saborosa margarina e os ovos e o leite e o sal. E de abençoar a dedicada galinha que põe os ovos. E de abençoar, com igual bondade, a inteligência de quem sabe fazer o buraco no meio da farinha e de nele deitar a margarina derretida com o leite e o ovo. E se não Te custar muito, podes ainda abençoar o trabalho da criada que mexe tudo até os ingredientes estarem ligados e que deles faz montinhos de massa, moldados com as mãos, ou com a ajuda de uma colher, e que os coloca no tabuleiro do forno polvilhado com farinha. Ámen. Pai Nosso, Ave-maria, etc.


Apesar de a sua ausência poder levantar suspeitas lá em casa, por não proceder da forma costumeira, mesmo dormindo pouco, como militar atarefado e preocupado, pois geralmente passava as noites em vigília permanente no quartel, que era o seu posto de vigia, o tenente Sampaio dirigiu-se de imediato ao seu gabinete, para espanto do plantão, e tratou logo de se pôr em contacto com alguns dos seus amigos mais chegados que pertenciam às forças vivas da cidade. Só que esses amigos, àquela hora, estavam a dormir. Pelos menos foi essa a resposta que obteve, ou das esposas madrugadoras ou das sonolentas criadas lá de casa que atendiam os telefones muito mal dispostas.


Quase entrou em pânico. Mas conteve-se a tempo. Depois de pensar um pouco, chamou o plantão e disse-lhe para ir acordar o prisioneiro e trazê-lo à sua presença.


O plantão perguntou ensonado: “O preso político, meu tenente?” “Não,” respondeu o tenente para espanto do seu subordinado. “Mas nós só cá temos um prisioneiro”, disse o soldado da GNR. “Sim, é esse”, respondeu o tenente. “Mas o meu tenente ainda agora disse que não”, retorquiu o plantão. E o GNR graduado: “Eu disse apenas que não era preso político. Nós não temos aqui detido nenhum político. O preso que aqui temos é culpado de desacatos, não de…” “Mas o meu tenente, ainda ontem se referiu a ele como preso político quando um advogado lhe perguntou porque mantinha enclausurado um rapaz sem culpa formada e sem julgamento”, argumentou o plantão. “Foda-se Arménio, agora deu-lhe para se armar em advogado de defesa do delinquente? Traga-me mas é o preso e deixe-se de perifrásticas.” “De quê, meu tenente?” “De lérias, Arménio, de lérias.” “Sim, meu tenente. É para já.”


Passados dez minutos, um José verdadeiramente alucinado deu entrada no gabinete do tenente Sampaio. “Aqui está o preso político, meu tenente, e devidamente algemado, como a lei manda”, disse o teimoso soldado da GNR. “Tire-lhe as algemas”, ordenou o tenente Sampaio. “Não posso, meu tenente. A lei não o autoriza”, lembrou o plantão do posto da GNR de Névoa. “Tire-lhas imediatamente, pois a lei aqui sou eu”, berrou congestionado o graduado do soldado da GNR. “Sim, meu tenente. É para já”, disponibilizou-se o plantão.


Agora mais calmo, o tenente da GNR de Névoa ordenou ao seu subordinado: “Arménio, pode sair.” “Como disse?”, disse o incrédulo Arménio. “Pode sair. E feche a porta,” ordenou o intrépido tenente Sampaio. “Mas…”, balbuciou o guarda. “Aqui não há mas nem meio mas. Saia de imediato, pois eu tenho de desfazer um equívoco aqui com este nosso amigo”, sentenciou o GNR graduado com os nervos à flor da pele.


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Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

No meio da praça


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

O Poema Infinito (85): insónia ativa

 

Recuamos no tempo e lá estão eles, os primos que são quase toda a minha infância. O Eugénio e os seus olhos azuis e o João e as suas orelhas de rato e a Rosa e as suas enormes tranças e o Vasco e a sua bola de trapos e a minha mãe e os seus ralhetes e a tia Conceição mexendo o leite e a avó Fonseca amassando os folares para a Páscoa e a casa com a chaminé fumegante da madrinha Augusta na “croa do pobo” e o Cristo pintado pregado numa cruz de granito no seu heterónimo de Senhor da Ajuda e os meninos saindo da escola a correr levantando o pó dos caminhos e as suas mães esperando-os com a sopa a ferver servida nos pratos de esmalte e o pão escuro e grosso migado para dentro da água fumegante misturada com unto e couves ripadas e o avô que bebia o vinho pela caneca de barro enquanto a avó comia os chícharros salteados com couves e molhados com azeite acompanhados com uma isca de bacalhau cru e salgado desfiado de tempos a tempos para servir de petisco e o sol a bater na água do ribeiro que se avistava da varanda e a tia Rosalina mirando-me com os seus olhos cinzentos e estrábicos e a prima Belmira meneando a sua femealidade galopante e o tio Artur e também tio Esgaça e a sua bebedeira permanente agarrado à arreata do seu cavalo preto que puxava uma carroça ou um arado em cima de um carrinho com rodas e que bebia a água limpa do poço do chafariz enquanto o tio Esgaça lhe assobiava uma canção tão líquida e tranquila e transparente como a água fresca que refletia um céu claro e azul e os pães entrando no forno quente no seu vestido branco e os pães saindo do forno já não tão quente crestados e apetitosos e as arcas de carvalho cheias de centeio onde se guardavam as notas de cem escudos metidas em sacos plásticos e se acautelava também o fumeiro para o alto e as tranças loiras da Julinha saltitando enquanto ela saltitava e cantava e sorria e jogava à macaca e mostrava as cuecas brancas quando se inclinava para apanhar a malha e os velhos sentados ao sol ao meio dia recuando na sua memória e a infância caída aos seus pés chorando de saudade e as vacas indo para o lameiro tocando as suas sinetas e ruminando o feno e o avô seguindo as moscas enquanto reverberava pensamentos e a minha solidão de nuvem seca e as sinuosas marcas do sol e o mastigar os legumes como quem agora mastiga chicletes e o desconforto dos colchões de palha e o peso dos liteiros e a baba permanente do louco da aldeia e a paciência do dia anterior e os homens jogando ao fim da tarde a sueca na taberna do Veras com cartas galegas batendo com os mãos na mesa quando cortavam de bisca uma jogada que lhes dava para ganhar a partida e os copos de tinto bebidos de um trago ou a modinho dependendo da sede e da mania de cada um e as moscas mordendo o focinho dos burros e os cães ladrando e os pássaros abanando as caudas irrequietas e as mulheres segando as couves e os potes fervendo ao lume e os recos roncando de fome na corte e a abundância de frio nas noites de geada e abastança de calor nas tardes de estio e a carne gorda grelhada num espeto de madeira ao lume e comida com a ajuda da navalha afiada do tio João Lorde e o tio João Lorde dizendo asneiras e a avó Fonseca admoestando o seu filho por ensinar porcarias aos sobrinhos e a gata ronronando aos meus pés e o meu pai acariciando-me com o seu olhar e eu acariciando o meu pai com o meu olhar e Deus sozinho a um lado esperando pela eternidade das almas daqueles corpos e os corpos mexendo-se na sua alegria passageira e as mãos da minha mãe acariciando-me o rosto e as lágrimas e os sorrisos e os gestos que se seguiram e as palavras que fui aprendendo e que neste momento me ajudam a dizer aquilo que é cada vez mais difícil de dizer e o diálogo com o cansaço da desilusão… É nestas pequenas coisas que a gramática dos deuses assenta. Foi nessa infantilidade dos dias antigos que me criei. Hoje são a minha insónia ativa. 


publicado por João Madureira às 07:00
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