Sábado, 31 de Março de 2012

No banco


publicado por João Madureira às 07:00
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Sexta-feira, 30 de Março de 2012

O Homem Sem Memória - 108

 

108 – Arreliado, muito arreliado, desiludido, muito desiludido, e ofendido, muito ofendido, o José foi desaguar a casa do Fernando onde reinava a mais terna e mais alegre das anarquias.


O Fernando, quando o viu entrar, admirou-se, pois já há largas semanas que não passava lá por casa.  “Então herói antifascista, o que te traz por cá?”, disse para meter algum humor na conversa. Mas o José não lhe deu troco. No entanto, para se armar, propôs: “Desafio-te para jogarmos uma partida de xadrez.” “Xadrez a esta hora do dia, com a revolução na rua e a liberdade a passar por aqui, estás mas é doido. Doido varrido!”, contrapôs o Fernando que não gostava mesmo nada de jogar xadrez durante o dia e detestava ainda mais ter como adversário um amigo que não dava luta nenhuma.


O José insistiu: “Vá lá, só uma partida para eu pôr as minhas ideias em ordem.” O Fernando em pose de conselheiro: “Esse é o teu grande problema: quando jogas xadrez pensas noutras coisas e quando pensas noutras coisas limitas-te a jogar xadrez mental. Olha que as pessoas não são peças de xadrez. Não se jogam, não se movem num tabuleiro por nosso capricho. E se o caprichoso não souber movimentá-las convenientemente ainda é pior. Além disso, convém separar as águas: uma coisa é jogar um jogo, outra bem diferente é jogar com a vida, com as oportunidades, com as expectativas das pessoas, com os seus sentimentos, com os seus valores. A vida não é um jogo…”


“Nisso é que te enganas. A vida é um jogo. E a cada um toca jogar de acordo com a vontade do Mestre. Quando tu mexes uma pedra no tabuleiro não foste tu que a mudaste, foi alguém por ti, tu limitaste-te a movimentar a peça, mas quem pensou a jogada foi o Mestre”, retorquiu o José armado em filósofo do xadrez.


Mas o Fernando não se deixou levar pelo paleio: “Se quando tu jogas é o tal Mestre que te informa, então tens que mudar de Mestre pois o teu pode saber tudo mas, com toda a certeza, jogar xadrez é que não.”


E o José armado em democrata-cristão, ou mesmo em cristão puro e duro, coisa de que o Fernando desconfiou logo e nós, que o conhecemos um pouco melhor, também torcemos o nariz: “Tu sabes lá se o meu Mestre não é igualmente o teu Mestre, só que, como não pode ganhar dos dois lados do tabuleiro, por ser humanamente incompreensível, e empatar não serve a ninguém, opta por deixar-te ganhar para não acreditares nele, para eu poder acreditar.”


“Mas o que tu acabas de dizer é uma rematada idiotice. E tu não és idiota. Podes fazer-te de idiota, podes falar como um idiota, podes até comportar-te como um idiota, mas tu, mesmo que queiras, não és um idiota. Aí nem o teu Mestre te pode enganar. E se existir o tal Mestre, é bem provável que não seja idiota. Ou o seja apenas quando te comanda a mão quando jogas xadrez comigo”, disse desassombradamente o Fernando.


Mas o José tornou à teima, pois podia ser mau jogador de xadrez mas não era rapaz para se deixar vencer numa disputa dialética. As aulas de Retórica no seminário para alguma coisa tinham servido. E, como todos os que somos crentes sabemos, tudo o que não mata, salva. Por isso teimou forte e logo com um lugar-comum, que não tem compreensão humana nem resposta racional: “São insondáveis os caminhos do Senhor.”


“Tu andaste a meter-te na pinga?”, questionou-o o Fernando já a ficar um pouco admirado com tanta embirração filosófica e metafisica. “Não. Ando a tentar meter-me na política”, desabafou o José. E o Fernando: “Então não escolheste já o teu trilho? A prisão não te iluminou o caminho? A repressão não te abriu os olhos?”


Ao que o José respondeu: “Na prisão jogava xadrez contra mim próprio e nem mesmo assim conseguia ganhar.” E o Fernando, um bocadinho para o irónico: “Lembra-te que era o teu Mestre que estava do outro lado do tabuleiro. Quando veste a tua pele vê-se na obrigação de mexer as pedras para perderes. Quando se põe do outro lado só sabe ganhar. Por isso é que perdes sempre. Ele faz-te perder ao xadrez para te ganhar a alma. O xadrez é apenas o seu caminho. Tu disseste ainda há pouco que são insondáveis os caminhos do Senhor. Depois de pensar um pouco no assunto, acho que começo a entender-te a ti, ao teu Mestre, ou Senhor, e até os seus caminhos. Fazer-te perder ao xadrez comigo, e até contigo mesmo, é um caminho de redenção tão subtil, mas tão subtil, que só o teu Mestre é que é capaz de tal façanha sem que o comum dos mortais se possa aperceber do absurdo da situação.”


“Quanto mais te ouço mais me convenço de que o meu argumento é verdadeiro. Tu estás a esclarecer-me várias coisas para as quais não tinha arranjado justificação. Tu és um ungido”, disse o José meio a sério meio a brincar. “Mas eu nem sequer sou batizado”, respondeu o Fernando. “Mas ainda vais muito a tempo”, avisou-o o José.


“Ó José, estou em crer que não vieste cá a casa para jogares xadrez comigo ou, sequer, para me falares do teu Mestre. Sabes bem que eu nessas merdas não alinho. Eu não me meto com o teu Deus, mas também peço que não vos metais comigo”, disse o Fernando já a ficar muito para o sério.


“Da maneira como falas, tens de admitir que te referes a Ele como uma realidade, ou, pelo menos, como uma forte possibilidade”, afirmou o José.


O Fernando tentando não perder os papéis: “Olha José, vamos esticar o teu argumento um pouco mais. Quando jogo xadrez com o meu pai, umas vezes perco eu, outras perde ele. Quando assim acontece, de que lado é que o teu Mestre se senta?”


E o José num raciocínio que deve tudo à coragem, à sapiência, à capacidade de especulação, numa palavra sagrada, à genialidade: “O meu Mestre não se mete em jogos de xadrez de ateus. Nessas ocasiões tanto lhe faz que ganhe um como outro. De ateus não passam. Nem Ele os quer para outra coisa que não seja para o negarem. Foi para isso que se deu ao trabalho de vos criar. E um ateu dos bons custa mais a conceber do que para aí uns cem crentes. Dá um trabalho do catano. De facto Ele só pode provar que existe se alguém o negar. A não ser assim ninguém lhe ligava importância. Tu existes para o negar, que é o mesmo que afirmar que foste por Ele criado para fazeres o papel que fazes, o de ateu que o nega para o preservar, para o lembrar, para lhe dar sentido. Se tu não o negasses, Ele não tinha necessidade de provar que existe e por isso não existia mesmo.”


Cansados com a pertinência da discussão, aceitaram de bom grado umas sandes que a mãe do Fernando lhes arranjou, regaram-nas com dois copos de tinto cada um e puseram-se a ouvir Zeca Afonso no gira-discos.


“Faz-se noite. Terna é a noite. Esta noite do riso e do esquecimento. Não queres jogar uma partida de xadrez comigo?”


“Ah, ah, ah”, riu-se o Fernando.  “Ah, ah, ah”, riu-se o José.  “Ah, ah, ah”, riu-se a mãe do Fernando por os ver gargalhar com tanta vontade.  “Ah, ah, ah”, riu-se o seu irmão Abel que se ria por tudo e por nada. “Ah, ah, ah”, riu-se nas escadas o senhor Carvalho que gostava de ver as outras pessoas rir e por isso ria com elas, fosse por que motivo fosse.  


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Quinta-feira, 29 de Março de 2012

O jogador de fito


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 28 de Março de 2012

O Poema Infinito (93): a infinita história

 

A antiga luz das histórias doces torna-se amarga e os homens beijam as mulheres com toda a cegueira do desejo e o desejo fica preso nos lábios e nas mãos e nos sexos dos amantes e os amantes ficam presos nas estrelas inscritas no céu dos seus olhos e os seus olhos transformam-se em sóis amadurecidos abalados pelo vento que já separou as águas do Nilo que nesse dia se tornaram vermelhas de morte para os afogados. E o céu retirou-se para dentro do meu livro de poemas momentos antes de eu adormecer. O vento move-se do seu lugar espreitando o limbo das águas e da neve e da geada que ilustram mais uma fábula de moral altruísta. Agora amadurecem os sons das guerras antigas que faziam cair os homens e chorar as mulheres e ainda sufocar as crianças por não conseguirem fechar a boca por causa do espanto da morte e da maldade e da estupidez. E os homens e as mulheres caíam cegos por causa do amor e do ódio que se misturavam com o suor e com o sangue das batalhas. Homens iguais uns aos outros matavam-se por que se julgavam diferentes. E havia homens brancos e homens pretos mortos lado a lado ilustrados com a cor ultravioleta da dissolução e que eram chorados pelas suas mulheres e incompreendidos pelas crianças que abriam ainda mais a boca com o espanto da guerra, da maldade e da estupidez. E os anjos da discórdia beijavam as lanças e as espadas e as flechas e os elmos e as cruzes de cristo e os crescentes árabes inscritos em tatuagens horrorosamente belas. E o firmamento enchia-se de uma água de lembrança apocalíptica e o deus de todos e de cada um abria as páginas do esquecimento e punha-se a escrever no livro que lhe ficava preso na boca de fogo e luz e era com ele que incitava os seus crentes à glória da morte triunfal. E o livro enrolava-se na língua dos guerreiros e na língua das mulheres e na língua das crianças e crescia como se fosse uma doença divina. E depois os anjos da guerra, cheios de sangue e vingança, subiam aos céus para de seguida tombarem na terra em forma de tempestade violentamente branca. Deus não se mexia do seu lugar e continuava a escrever no seu livro que despertava amor, morte e vingança e os homens que ressuscitava tornavam a matar e a morrer como se nada tivessem aprendido com a sua morte anterior. E deus continuava a escrever e os anjos a inchar de sangue e a subirem aos céus e descerem em forma de relâmpagos de vingança. E os homens continuavam a lutar e a matar e a morrer e as mulheres continuavam a chorar e a amar e a parir e as crianças continuavam a abrir ainda mais a boca e a sufocar de incredulidade como se todo o firmamento fosse uma vingança feroz de um deus que escreve um livro que lhe fica preso na boca e com ele manda matar e morrer em seu nome e em nome dos seus. E fez-se noite e os mortos amadureceram. E fez-se dia e os vivos, saindo das trevas da noite, olharam para o seu deus de livro na boca e continuaram a lutar, a lutar ferozmente, como se fosse esta a primeira vez, e as mulheres continuaram a chorar e as crianças continuaram a abrir ainda mais a boca por não conseguirem compreender a mesma história que lhe continuaram a contar. E até deus se deslumbrou com esta história que é sempre a mesma e que ninguém consegue entender. Nem ele que é sábio e por isso a escreve eternamente e de igual maneira. 


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Terça-feira, 27 de Março de 2012

Passeando

Passeando


publicado por João Madureira às 07:00
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Segunda-feira, 26 de Março de 2012

Da expetativa ao imobilismo (VIII): a propaganda e as ideias – parabéns António, és um génio!

 

E ali estava o título da notícia ocupando metade da primeira página do meu semanário regional de referência: “Várias dezenas de pessoas manifestaram o seu apoio à candidatura do arq.º António Cabeleira à Câmara Municipal de Chaves.”

 

O título, convenhamos, é já a própria notícia, ou mesmo um pouco mais do que ela. Encostado ao canto esquerdo encontrava-se o retrato de perfil da face, um pouco pardacenta, do senhor vice. E por baixo dela, ele, na sua imodéstia tão modesta, estava citado: “Se for vontade do PSD, estou disponível para assumir a responsabilidade de ser candidato à Câmara Municipal de Chaves.”Parabéns pela tua humildade. Bravo, António. És um génio!

 

Por baixo do extenso título podíamos ver a cara de caso dos militantes e simpatizantes do PSD, talvez escutando as palavras do seu putativo candidato a candidato à Câmara flaviense. Digamos que a encenação obedeceu a alguns critérios de propaganda. Mas daí também não vem grande mal ao mundo. Parabéns pela tua encenação. Bravo, António. És um génio!

 

A notícia de uma candidatura anunciada já tinha sido dada na edição anterior, tentando constituir um facto político mesmo antes de o ser, tal como a pescada. Só que esta é a técnica da pescadinha de rabo na boca. Não sabemos onde começa a verdade e onde termina a encenação. Mas tudo bem. Parabéns pela tua discrição. Bravo, António. És um génio!

 

Ora na citada edição anterior aparecia o senhor vice camarário, devidamente engravatado, com a tentativa de um sorriso no rosto, ilustrando o título “Autárquicas 2013: Almoço de apoio à candidatura do arq.º António Cabeleira”. Quem diria. Ó surpresa das surpresas! Parabéns pela tua sobriedade. Bravo, António. És um génio!

 

E lá fomos nós à procura da citada notícia. E ali estava ela na página dois. A notícia era pequena, pois coube em apenas treze linhas. Já o que se lhe seguia era muito mais extenso: identificação, formação académica, percurso político, experiência profissional e outras atividades. Para tal, foram necessárias cerca de cento e sessenta linhas. E lá nos pusemos a ler. Parabéns pela tua relevância tão irrelevante. Bravo, António. És um génio!

 

Quando chegámos ao fim concluímos que o que se aproveitava como relevante do currículo do senhor vice camarário, e putativo candidato à Câmara de Chaves, “se for vontade do PSD”, era muito pouco, talvez coubesse em menos das treze linhas da notícia, onde se referia que três presidentes de junta tinham tomado a iniciativa de realizarem um almoço de incentivo ao senhor arq.º António “para que seja o próximo candidato à CMC”. Parabéns pela tua irrelevância tão relevante. Bravo, António. És um génio!

 

E o seu currículo é tão interessante, e tão exaustivo, que até tem, além do nome e da data de nascimento, a nacionalidade, a naturalidade, o número do BI, o arquivo de identificação, a data de emissão e o número fiscal, talvez para não ficarem dúvidas de que é um cidadão português, e outras coisas tão relevantes na carreira de um político da sua estirpe e verticalidade. Parabéns pelo teu brilho. Bravo, António. És um génio!

 

 Não resistimos a sugerir que para a próxima vez inclua, na sua identificação, a altura, a cor dos olhos, o peso, o número dos sapatos que calça, o grupo sanguíneo, o boletim de vacinas e a ficha dentária. Nem tudo lembra, bem sabemos, mas para isso estamos cá nós que para alguma coisa devemos servir. Mas não é isso que nos vai impedir de repetir: Parabéns pelo teu brilho. Bravo, António. És um génio!

 

Para não restarem dúvidas sobre a sua formação, cita-a duas vezes, uma na identificação e outra na formação académica, bem assim como uma pós graduação feita na UTAD com a utilidade que todos lhe reconhecemos. Depois refere o seu percurso político, revelando, desde logo, a sua tendência para ser vogal das comissões políticas distritais, e vice-presidente, além de destacar que foi “eleito inúmeras vezes membro da Assembleia Distrital de Vila Real”, também com o relevo e a projeção que todos sabemos. Parabéns pelo teu brilhante currículo. Bravo, António. És um génio!

 

Acompanhou, ainda, no papel, muita coisa: foi membro de diversas comissões irrelevantes e etc. e tal. Além disso, é autor de um interessantíssimo, e badalado, livro intitulado “Critérios para a Classificação de Municípios de Montanha Portugueses”, elaborado para a Associação Nacional de Municípios, com a utilidade que todos pressentimos. Parabéns pela tua obra literária e científica. Bravo, António. És um génio!

 

Podemos afirmar, sem exagerar, que o currículo possui a dimensão do senhor vice camarário. As partes relevantes chegam e sobram para ocuparem três linhas. O que já não é pouco. Mas também para que raio serve um currículo? Apesar disso, voltamos a repetir: Parabéns pelo teu comedimento. Bravo, António. És um génio!

 

Mas passemos às palavras, pois nestas coisas da política são elas que definem o percurso e a motivação. Fomos informados que estiveram perto de cem pessoas, entre membros das juntas de freguesia e assembleias de freguesia, comissão política do PSD e da JSD e executivo municipal. Ou seja, estiveram os convertidos, que, ao que sabemos, são poucos e têm tendência a diminuir. Parabéns pela tua teimosia. Bravo, António. És um génio!

 

Basta olhar para as fotos para vermos que o entusiasmo foi parco. Mas nada que nos surpreenda. Pois é certo e sabido que para aí metade dos que lá estavam, e outra metade dos que lá não puseram os pés, vão pôr-se tesos quando o senhor vice camarário lhes tiver de informar que as suas juntas, e respetivas assembleias de freguesia, vão ser extintas pelo governo central que é do PSD. Parabéns pela tua frontalidade. Bravo, António. És um génio!

 

Ou seja, o “grande apoio” do arq.º António vai ficar atrapalhadíssimo quando tiver, em plena campanha eleitoral autárquica, que defender a política do seu partido em extinguir metade das freguesias de Chaves, ou seja vinte e cinco. Quero ver como vão ser capazes de explicar às populações, que dizem defender e representar, o motivo por que o PSD resolveu extinguir a freguesia A em favor da B, a C em detrimento da D e como resolveram fundir as freguesias E, F e G para darem lugar à freguesia I, que fica perto da J, que, por seu lado, foi preservada e que vai acolher as freguesias K, L e M. Parabéns por estares de parabéns. Bravo, António. És um génio!

 

Adivinho, com as singularidades das nossas aldeias e com a idiossincrasia do nosso povo, uma guerra feroz em torno do seu território, da sua identidade e da sua memória. Extinguir freguesias e concelhos é abrir uma caixa de Pandora que ninguém sabe o que poderá significar em termos de identidade local, regional e nacional. Isto é brincar com o fogo. E então neste período de crise severa, a ousadia pode incendiar o país e torná-lo ingovernável. Mas o PSD lá sabe as linhas com que se cose. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

Mas voltemos à notícia que aqui nos trouxe. Parece que o presidente da Junta de Santa Maria Maior agradeceu a presença dos convivas por terem aderido à iniciativa no sentido de “motivar” o arq.º António para que seja o candidato do PSD à CMC. Pelos vistos, a tal vaga de fundo não existe porque muita gente do PSD não se revê na candidatura do vice camarário de João Batista. A disputa dos lugares já começou a fazer as primeiras baixas. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

João Neves anda a tentar segurar o seu lugar de candidato à freguesia de Santa Maria Maior, que, com toda a certeza, verá a seu território aumentado e as suas competências alargadas, lugar que já foi prometido a muitos outros e que aguarda o desenvolvimento dos distintos movimentos e dos diversos grupos e tendências dentro do PSD local. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

O João, presidente da Junta, dentro do seu estilo inconfundível, prometeu apoio ao António, porque a caminhada que se avizinha é “difícil”, lembrando o percurso fiel do António ao PSD e o estatuto de braço direito do “nosso querido amigo” João, o presidente da Câmara. E, para terminar, resolveu dar uma nota de internacionalismo partidário e linguístico, mandando o nacionalismo às malvas e a história dar uma volta, afirmando em Espanhol: “Tu si que valles.” Profundo. Tocante. Elucidativo. Relativamente às ideais para a cidade e para o concelho, nem uma se lhe ouviu. E isso também a quem interessa? Quando ganharmos logo se vê! Propaganda 1, ideias 0. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

De seguida falou o presidente da JSD que nada disse de substancial, a não ser prometer apoio ao António, o tal apoio das bandeirinhas, das esferográficas, dos autocolantes e das camisolas. Ideias nem uma. Portanto: propaganda 2, ideias 0. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

E ainda antes do putativo candidato do PSD à CMC, falou o outro João, o Batista, que prometeu apoio ao António, o Cabeleira, e se referiu à “proximidade” das Juntas de Freguesia em relação às pessoas, estando assim em melhor posição para encontrar as soluções mais adequadas. Apontando os presidentes de Junta como sendo as mais importantes referências das populações. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

Mas esqueceu-se de explicar aos presentes, e também aos leitores do jornal, que, a ser assim, por que carga de água é que ele e o seu partido, que também é o do João Neves e dos outros presidentes de junta presentes, apoiam, e vão implementar, a extinção de vinte e cinco freguesias do concelho de Chaves, pretendem acabar, em metade das nossas aldeias, com o apoio de proximidade, muitas das vezes o único, mandando os atuais presidentes para casa aquecer-se à lareira, sujeitos a verem morrer sem o devido apoio o que resta da população idosa das suas localidades. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

Depois continuou a pronunciar palavras de circunstância na tentativa de não responder a nada nem a ninguém. Também a quem é que isso interessa? Ideias para a cidade e para o concelho nem uma. O que também não é para admirar, pois tem sido essa a matriz da sua gestão autárquica. Portanto: propaganda 3, ideias 0. Bravo, António. És um génio! Parabéns.

 

A finalizar falou o putativo candidato António, o Cabeleira, que de uma forma comovida, isto segundo o jornal, disse banalidades atrás de banalidades. É bem possível que tenha sido por causa da emoção. Mas deve ser bonito de observar o senhor vice camarário comovido. Deve ser mesmo um papelinho. Além de estar emocionado, o putativo candidato António, disse-o: “Agradeço com muita emoção, respeito e subida honra, esta manifestação de apoio.” Brilhante. Tocante. Relevante. Original. Sincero. Parabéns. Bravo, António. És um génio!

 

E prosseguiu: “Hoje os novos tempos exigem políticas de verdade.” Só que nada disse sobre a extinção de 25 freguesias por parte do seu partido e ainda quais e porquê? Falar de políticas de verdade é uma coisa, agir em concordância com aquilo que se afirma, isso é outra coisa bem mais séria e difícil. Portanto isso de falar verdade é uma enorme falácia. Parabéns pela tua ousadia, bravura e coerência. Bravo, António. És um génio!

 

Falou ainda do desenvolvimento e outra vez de verdade. Mas nada disse sobre as 25 juntas de freguesia que o PSD se prepara para extinguir. Nem uma única palavrinha. Portanto a sua “verdade” é uma enorme artimanha. Falou ainda de esperança e de que ela exige responsabilidade. Fez parágrafo e continuou: “Estou convicto que o nosso partido tem condições de continuar a vencer eleições e a participar de uma forma decisiva no desenvolvimento sustentável do concelho de Chaves.” Ora dizer isto e não dizer nada é a mesma coisa. E lá se vai a verdade pelo cano abaixo. Parabéns pela tua ousadia, fé, esperança, caridade, bravura, coerência e tudo o resto. Bravo, António. És um génio!

 

Seguidamente voltou a falar mas a nada dizer, a não ser reafirmar o compromisso com a verdade. Mas nada disse aos presentes sobre a extinção de 25 freguesias do nosso concelho que vai ser ele, ou alguém por ele, a desenhar e implementar. Essa é a sua verdade, nada dizer de concreto sobre o maior atentado de que há memória contra as populações rurais, contra o interior, contra o poder local, contra a democracia. O que foi mais recorrente no seu discurso foi falar em eleições e em ganhá-las. Nem uma ideia referiu, nem um projeto adiantou. Limitou-se a fazer demagogia e a esconder a verdade por detrás da palavra verdade. Essa é a sua verdade. E isso é um enorme embuste. Portanto: propaganda 4, ideias 0. Parabéns. Parabéns. Parabéns. Bravo, António. És um génio!

 

Com políticos desta dimensão só nos resta fazer votos para que não cheguem de novo ao poder, senão estamos tramados. Parabéns por nos abrires os olhos e por nos despertares da letargia. Nós cá vamos estar para o que der e vier. Parabéns. Parabéns. Parabéns. Bravo, António. És um génio!


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Domingo, 25 de Março de 2012

A Luzia e a Sara


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Sábado, 24 de Março de 2012

Bruxas em Montalegre II


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Sexta-feira, 23 de Março de 2012

O Homem Sem Memória - 107

 

107 – O José bem procurou por toda a cidade democratas-cristãos, mas não encontrou nenhum. Nem sequer o primeiro para amostra. Era o que dava, por muito incrível que isso possa parecer aos estimados leitores, estar um pouco à frente do seu tempo. Porque, bem vistas as coisas, todos somos essencialmente democratas-cristãos


Os comunistas são democratas-cristãos e os socialistas também são democratas-cristãos. Até os democratas-cristãos são democratas-cristãos, por incrível que isso possa de novo parecer aos estimados leitores, pois alguém conseguir ser aquilo que diz ser é muito difícil. Apesar de há primeira vista parecer o contrário.


Lembremo-nos ainda que a doutrina social da Igreja tem muito de comunista e algo de socialista. Dizem por aí que Cristo foi mesmo o primeiro comunista. E o mais original. O mais divino. O mais simples. E quem somos nós para desmentir tal afirmação? Mas também quem somos nós para a confirmar?


Por isso é que o Papa João XXIII tentou unir aquilo que Deus desuniu. Não o alcançou, temos de convir. Para isso necessitava de ser Deus e não apenas o seu máximo representante na Terra. É que uma coisa é ser Deus e outra bem distinta é ser um seu representante, por muito Papa que se seja. Mas ainda deu um arzinho da sua graça. A cristandade tem destes paradoxos e destas peculiaridades, mas para isso mesmo é que é cristandade. Senão era outra coisa qualquer e perdia toda a graça e até o sentido de ser. Pois, como muito bem escreveu Shakespeare (o símbolo máximo do cânone ocidental, segundo o canónico Harold Bloom, esse D. Quixote da crítica literária. Ou será antes Sancho Pança?): “Ser ou não ser, eis a questão.” Ou ainda melhor e vertido em inglês de lei: Be or not to be, is the question.


O José, porém, não desistiu logo à primeira tentativa de encontrar um democrata-cristão, mesmo que dos fraquinhos. Mas perseverou.


Encontrou democratas que não eram cristãos. Ou pelos menos cristãos praticantes. Encontrou cristãos que não eram democratas. Pelo menos democratas praticantes. Descobriu democratas que, bem vistas as coisas, não eram democratas nem cristãos, que, também bem vistas as coisas, não eram cristãos verdadeiros nem democratas tout court.


Deparou-se igualmente com pessoas que se afirmavam socialistas e cristãs, já que, na sua ideia, o ser democrata se encontrava implícito na denominação de “socialista”. Encontrou comunistas que se diziam democratas, apesar de o não serem, e que, um pouco envergonhados até, se confessavam cristãos, apesar de aí existir uma terrível contradição entre o materialismo científico do catecismo marxista e a religião, que era o ópio do povo, como muito bem tinha afirmado Marx, o Papa de todos os comunistas e de alguns socialistas mais ardentes.


Mas democrata-cristão a tempo inteiro não encontrou nenhum. Nem um para amostra. Névoa também nisso seguia a moda nacional: A democracia de novo tipo que se estava a construir para levar o país rumo ao socialismo não se podia dar ao luxo de criar democratas-cristãos e liberais só porque eles não existiam em Portugal. Uma democracia não cria partidos. Os partidos é que são os responsáveis pela criação da democracia. Pelo menos é isso o que dizem os entendidos na matéria.


Verdade seja dita, o José também não encontrou nenhum fascista. Muitos dos que assim eram identificados pelos militantes da esquerda juravam a pés juntos que sempre tinham sido democratas e que só não o afirmaram publicamente porque Salazar, Caetano e os agentes da PIDE eram homens para os enfiarem na cadeia e dar-lhes porrada de criar bicho. Lá no fundo até podiam ser democratas, mas não eram idiotas ao ponto de o dizerem abertamente. Mas lá no fundo eram democratas. Sim. Eram democratas. Não tinham é a coragem suicida de o afirmarem publicamente. Mas eram democratas. Lá no fundo. Sim.


Apesar de ninguém o ler e nem sequer servir para fazer as palavras cruzadas, pois não as tinha, nem para ser utilizado como instrumento de auxílio à higiene pessoal, por causa do papel demasiado acetinado e da tinta que custava a secar, o periódico mais vendido na cidade passou a ser A Verdade, a voz da classe operária, o jornal dos comunistas. E quando algum dos que se intitulavam democratas, ou cristãos, se negavam a comprar o órgão da classe operária, eram insultados aos berros de “fascistas, reacionários e agentes da CIA”.


Triste e desiludido, o filho do guarda Ferreira e da Dona Rosa desaguou numa casa de pasto e, com os olhos no subtítulo Da Verdade “De pé ó vítimas da fome”, pôs-se a comer um rancho bem temperado e a beber uma garrafa de tinto da região. Estava ele na segunda pratada, no terceiro copo, e ainda na primeira frase do editorial de A Verdade, quando viu entrar na taberna o Graça que se colocou a seu lado e lhe contou o que a seguir vos vamos contar. É que a história da revolução democrática e nacional também se fez com tamanhos gestos de luta e solidariedade.


Disse-lhe que os seus amigos, no dia a seguir ao 25 de Abril, tinham decidido ir exigir a sua libertação dos calabouços da GNR. Para o efeito organizaram uma manifestação que contou com doze intrépidos antifascistas munidos de duas bandeiras e um cartaz e meio, onde se exigia aos antigos protetores da ditadura que libertassem imediatamente o camarada preso político que dava pelo nome de José não sei quantos Ferreira. De lá de dentro veio um guarda que os informou que naquele momento na cela do posto apenas se encontrava o Saraiva, bêbado como um carro apesar de ter sido preso às cinco da manhã e de àquela hora já passar das três da tarde.


Mas os intrépidos antifascistas não estavam na disposição de se deixarem enganar e ameaçaram que se não lhes fosse entregue o camarada José não sei quantos Ferreira ainda antes do anoitecer, se viam na obrigação democrática e revolucionária de invadir as instalações da GNR e de o restituir à liberdade, mesmo que para o efeito tivessem que recorrer à força. 


O agente que nessa altura se encontrava de plantão no posto, avisou-os de que tinha sido informado, via telefone, pela esposa do tenente Sampaio, pois o comandante de posto estava de cama em casa com uma crise de hemorroides, espondilose, urticária, ácido úrico e lombalgia, que ou dispersava voluntariamente a manifestação ou os agentes da autoridade tinham de tomar as devidas providências para desimpedir a praça e restabelecer a ordem pública.


Durante mais de uma hora, o pobre do GNR não se cansou de informar os intrépidos antifascistas de que o preso político, conhecido como José qualquer coisa Ferreira, tinha sido libertado ainda antes do golpe militar que pôs o Spínola no poder e o Marcelo Caetano na rua, sem contrapartidas.


Vendo que o GNR não saía da sua teimosia, os intrépidos antifascistas puseram-se a berrar ainda mais alto que o povo unido jamais será vencido e que o povo está com o MFA e que por isso exigiam a libertação do camarada José qualquer coisa Ferreira, sem condições ou qualquer tipo de contrapartida.


Lá pelas quatro e meia da tarde, a manifestação viu-se rodeada por uma multidão de pessoas que ali paravam para assistir ao desenrolar dos acontecimentos. Não se manifestavam, apenas observavam a dúzia de intrépidos antifascistas a berrar e o guarda de plantão ao posto da GNR a tentar demovê-los de assaltarem o quartel, pois isso não era permitido por lei, e muito menos pelo senso comum, e seria uma ação inglória, pois o preso político tinha sido libertado ainda antes do golpe de estado do Otelo.


Mais para o fim da tarde, as donas de casa, as empregadas de servir e as meninas donzelas, abriram as janelas das suas casas e puseram-se a observar as pessoas da praça que rodeavam os intrépidos manifestantes antifascistas que montavam a vigília ao posto da GNR de Névoa com a firme determinação de conseguirem libertar o preso político seu camarada.


Dentro do posto, os poucos guardas que lá se encontravam começaram a sentir-se nervosos e a especularem sobre a melhor forma de pôr cobro a tal situação. Se carregassem sobre os manifestantes, era bem possível que os dispersassem, pois eles eram poucos e quase todos ganapos que não podiam com um gato pelo rabo. Mas a sua preocupação residia na populaça que se encontrava ao redor da manifestação, pois se carregassem ou disparassem sobre a dúzia de manifestantes, o povo podia enfurecer-se e matá-los apenas com a impetuosidade dos seus pés e a raiva das suas mãos.


Foi então quando o sargento da GNR, num gesto altruísta e desassombrado, resolveu pegar no Saraiva ao colo, subir as escadas, chegar à portão e mostrar ao povo o bêbado, avisando-o que aquele era o único individuo que estava preso.


Quando a dúzia de intrépidos militantes antifascistas viram o sargento com um corpo desfalecido ao colo, começaram a gritar “é ele, é ele” e a comentar que a GNR tinha morto o preso político. Depois gritaram “assassinos, assassinos” e tentaram romper caras ao sargento. Nesse momento o militar graduado deixou cair o corpo e, como por milagre divino, de repente o putativo féretro ganhou vida. O Saraiva começou a correr espavorido em direção à praça como se levasse fogo no rabo.


Desiludidos, os doze arrojados antifascistas, desmobilizaram por entre os risos do povo e a arrelia do Saraiva que se viu de repente no meio da multidão que começou a saudá-lo como um herói e a cantar a canção em voga na altura: Saraiva amigo o povo está contigo e o Saraiva está com o MFA. Ao que o Saraiva retorquiu: “Se sois o povo e o povo está comigo, pagai-me mas é um copo que estou cheio de sede.”


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Quinta-feira, 22 de Março de 2012

Bruxas em Montalegre


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Quarta-feira, 21 de Março de 2012

O Poema Infinito (92): o declive das palavras

 

Definitivamente voamos entre espaços, declives e sombras, seguindo o movimento das montanhas e o vazio da terra e o texto do ar e a raiz dos caminhos, em círculos lúcidos desenhados com compassos de frases que são lábios. À altura do sol, a aridez da água detém-se no eco. E as palavras atravessam as tuas pálpebras enquanto as mãos prolongam a distância. As coisas simples definem o seu sentido na sua promessa de sentido, na cintilação silenciosa do crepúsculo. Adormeço pensando na luz vazia que refletem os meus pais. Agora os seus rostos irradiam uma harmonia que nunca tiveram. Agora são rostos que falam dentro do seu silêncio, no silêncio da sua beleza definitivamente parada, na plenitude inacessível da morte. Agora são uma infinita contemplação estática. Agora estão perante a noite mais profunda. Um pássaro de desespero fica pousado sobre os meus dedos segredando-me a sua densidade incompreensível. Hoje não encontro a fluência das aves, antes saboreio o sal das minhas lágrimas. Por isso as palavras caminham na minha sombra e no vazio das páginas desabitadas. Toda a nudez se transforma numa fúria sedenta. Todos os corpos de desfazem no seu instante de luz. E as palavras frias levantam os braços em sinal de desespero. A tua boca é um abismo onde o desejo se escreve. As palavras voltam a ser círculos abertos dentro da sua densidade variável. Voltam a ser objetos incontornáveis que fazem o impossível do possível. Estamos entre dois espaços e o ar prolonga-se na sua ausência. Somos cada vez mais resíduos de paisagens, sorrisos inacessíveis, incessantes vibrações que gritam. Observo a tenacidade da ruína humana com a impotência dos sábios. Incendeiam-se as páginas dos livros procurando os murmúrios da água fresca. As palavras tentam salvar-se saindo de dentro das suas passagens vertiginosas. Palavras agora carregadas de sombra e dúvida. Torna-se percetível a paciência e sentimos a terra deslizando dentro de nós. A folhagem dos cabelos das árvores desperta e entrega-se à dança do fulgor. Um silêncio central apaga os caminhos e suspende o sentido das coisas que dormem dentro da sua nudez. A luz é novamente uma evidência de fábulas. 


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Terça-feira, 20 de Março de 2012

O Grande Bruxo de Montalegre


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Segunda-feira, 19 de Março de 2012

Da expetativa ao imobilismo (VII): entre a insignificância e a mesquinhês

 

Por vezes fico espantado com coisas que, de importância tão insignificante e tão fáceis de remediar, podem ter a força de confundir e suspender o engenho tão amadurecido das pessoas que são tão propensas a afirmarem-se capazes de passar triunfalmente por cima das maiores dificuldades. Sei que isso não se fica a dever à falta de habilidade, mas sim ao sobejo da preguiça mental, do comodismo institucional e da penúria da reflexão.

 

Na nossa autarquia foi o que se passou durante dez anos. Parece que andaram a escrever uma história com abastança de palavras bem colocadas, sonoras e festivas, mas que agora sabemos resumirem-se a um conto fastidioso e burlesco. Tudo foi feito com a intenção disponível de alegrar os munícipes melancólicos, de que os mais simples não se enfadassem, de que os mais exigentes não desprezassem o poder e os prudentes não deixassem de gabar a obra feita e por fazer.

 

Na Câmara há vereadores que nos querem convencer de que a solução de futuro passa por eles. Mas esse é que é o grande problema, tal gente pensar que é solução para alguma coisa, designadamente o senhor vice camarário.

 

Com a estratégia social-democrata de chocar um ovo da ninhada que ainda lá se encontra, o sistema democrático está a ser subvertido, não na forma, mas no conteúdo. Por isso o crédito e o prestígio da autarquia flaviense vão ter de ser restaurados. Temos de fazer cair os responsáveis pelo descalabro e deixar trabalhar os que se empenharam, e empenham, em reconstruir a importância perdida da nossa urbe e da nossa região.

 

Eu peço desculpa, mas tenho muito amor à minha cidade e receio por ela, pelo seu destino. É que durante dez anos os nossos munícipes foram seduzidos a abandonar os seus sonhos de futuro adaptado para aderirem às ocorrências de um teatro mal encenado.

 

A gestão autárquica do PSD fez-nos sentir órfãos de representação. A partir de determinado momento, ninguém quis saber dos munícipes. Agora que as eleições se avizinham, e os protagonistas têm obrigatoriamente de mudar de lugar, uma insensatez desavergonhada tomou conta dos líderes tentando fazer dos flavienses parvos.

 

Em apenas uma semana, os jornais da nossa região brindaram-nos com as promessas camarárias de novas obras, nomeadamente a adjudicação da obra da “Pousada da Juventude na Madalena”, da obra do “Centro de Incubação de Indústrias Criativas” e o início da atividade da “Comissão de Proteção de Idosos”.

 

Digo desde já que estas obras são apenas fachada, pois a intenção é montar o estaleiro e deixar correr o marfim. É bom não esquecer que a nossa autarquia está na penúria e por isso não tem “guita” nem para mandar cantar um cego. Mas, mesmo assim, persiste na encenação. Por isso anda a tentar vender património para realizar algum dinheiro que lhe permita, pelo menos, exibir areia, pedras e cimento. É que as eleições estão à porta e alguém lhes disse lá no partido que as pessoas votam nos que se empenham em fazer, que fazem, obras, mesmo que a maioria sejam apenas de fachada.

 

O que salta logo à vista é que tais adjudicações são feitas para tentar iludir os pacóvios, pois as eleições estão aí ao virar da esquina e o vice camarário quer mostrar obra. Mas o que mais nos espanta é que durante tanto tempo, uma década mais precisamente, se fossem protelando os projetos, se fossem retardando soluções, se fosse adiando o futuro.

 

Mas deixem que vos fale um pouco do “Centro de Incubação de Indústrias Criativas”. A acreditar no tom pomposo da designação, somos levados a crer que ali vai surgir algo de revolucionário, inovador, arrojado. Mas desenganemo-nos, ali não vai surgir nada. Ali não vai surgir nada porque a Câmara de Chaves não faz a mais pequena ideia do que pretende. Eu sei que arranjaram o nome para “botar” figura. Mas o projeto é apenas isso: um nome, pomposo convenhamos, mas apenas um nome. É mais um embuste. Passados dez anos à frente dos destinos do município, a equipa que lá está vem agora dizer-nos que aposta na inovação e na criatividade? Esta gente não tem juízo nenhum, nem pudor, ou sentido do ridículo. E muito menos vergonha.

 

Este centro apenas vai ser mais um edifício restaurado, onde vão abundar as salas, os escritórios, as cadeiras e os computadores, mas as ideias e os projetos, como sempre, serão nulos ou então para inglês ver.

 

A informação que a Câmara prestou apenas fala das obras, mas nada diz sobre o conteúdo. E nós sabemos muito bem porquê, pois porque não faz a mais pequena ideia do que ali pretende instalar. E um nome é muito pouco para realizar um projeto tão arrojado. De concreto apenas referiu que “até”, vai ter um restaurante. Veem a inovação? O Centro “até” vai ter um restaurante. Imaginem: um restaurante. O “Centro de Incubação de Indústrias Criativas” “até” vai ter um restaurante. Um restaurante, repito. De pessoas nada diz, de supervisores nada fala, de formadores nada adianta. Apenas nos remete para o tijolo, para o cimento, para o alumínio. E para um nome. E para um restaurante. A partir de um nome e, “até”, de um restaurante, pretendem construir um “Centro de Incubação de Indústrias Criativas”. Acharão estes prestidigitadores que somos tolos ou quê?

 

Depois concluíram, na sua douta demagogia, que era pouco. E vai daí António Cabeleira lembrou-se dos idosos. Apareceu de fato e gravata e disse que os idosos estão sós e abandonados e que vai pôr cobro a tal situação. Durante dez anos nada fez para lhes minorar a solidão, nada fez para os proteger, nada fez para os apoiar, nada fez para os cuidar. De repente lembrou-se que os nossos idosos estão sós e abandonados. Após dez anos de poder, sentou-se à secretária, pegou em papel e lápis e, qual agente formativo do futuro “Centro de Incubação de Indústrias Criativas”, prontamente teve a criativa ideia de proteger os idosos. E para o efeito formou uma comissão, constituída por um psicólogo e um técnico superior. Duas pessoas para milhares de idosos. Boa malha.

 

Não satisfeito com tamanho investimento de ideias e pessoal, definiu no papel que a dita comissão tem que estar articulada com instituições locais. Brilhantemente criativo, apaixonadamente solidário, politicamente inovador. Bravo, António! És um génio.

 

Agora adivinhem quais são as instituições locais? Pois, está-se mesmo a ver: as IPSS, a segurança social e as forças de segurança. Magnífico, inovador, empreendedor. Bravo, António! És um génio. Em duas palavras: bem incubado. Pois todos sabemos que, antes do senhor vice camarário se lembrar de incubar tal ideia criativa, as IPSS não queriam saber dos idosos, a segurança social abandonava-os à sua sorte e a polícia assobiava para o lado.

 

E para que serve a tal comissão: pois para “sinalizar os idosos em risco, estudar as situações e definir estratégias para resolver os problemas”. E ainda para dar resposta às pessoas mais idosas do concelho que vivem sozinhas, desprotegidas e requerem necessidades especiais. E quando assim acontece, o psicólogo vai lá a casa, o técnico superior trata da papelada, a IPSS dá o caldo, a segurança social fornece as fraldas e o senhor vice fala aos jornais, enfarpelado de fato e gravata, de que a sua iniciativa está a ter um êxito acima do esperado. Ou seja, mesmo antes de ter começado a trabalhar, já é um êxito. Bravo, António! És um génio.

 

 A tal comissão técnica (o psicólogo e o técnico superior) poderá, com o aval das instituições, encaminhar os idosos para um lar da terceira idade ou facultar-lhes apoio domiciliário. E aos preços que estão as entradas nos lares, a dita comissão vai ter muito que trabalhar.

 

Relativamente ao tipo de apoio a prestar pela equipa técnica, o senhor vice camarário, por muita pena nossa, não adiantou nada de específico, mas é bem possível que o psicólogo forneça aos idosos desprotegidos bons conselhos e o técnico superior os ajude a preencher a declaração de IRS. 

 

Na sua douta sapiência de senhor vice, incubador de ideias e de projetos criativos e inovadores, não deixou de sugerir que, além disso (penso que é a forma que arranjou para se referir a outro tipo de pessoal), os técnicos da Câmara vão ajudar os idosos em risco nas pequenas tarefas diárias, como “a substituição de uma lâmpada ou a reparação de uma torneira, entre outros”. Bravo, António! És um génio.

 

Não referiu concretamente quais “outros”, mas poderá muito bem ser enfiar uma agulha, passajar umas meias, lavar um tacho, passar uma camisa ou uma blusa, ligar a TV, abrir uma janela e fechar uma porta, colocar o papel higiénico, tirar uma gota do telhado, ler a informação técnica de um medicamento, arranjar o jogo das damas, colar com fita-adesiva as cartas rasgadas do baralho, ir pagar a água e a luz, ler o jornal Ave-Maria em voz alta, levar os casacos à lavandaria, engraxar os sapatos, matar a galinha ou o coelho, apanhar as couves da horta, vacinar o cão. E, nas crises de coluna, alimentar o porco, dar a couve com farelo às pitas, ir colher ao monte as leitugas para alimentar os coelhos, etc.

 

Ou seja, quando os idosos desprotegidos forem sinalizados, o psicólogo vai lá a casa dar conselhos, o técnico vai tratar da papelada, as senhoras da IPSS disponibilizam-se a levar a malguinha do caldo, os funcionários da segurança social vão amavelmente entregar o cheque destinado aos medicamentos e às fraldas, o técnico eletricista da câmara desloca-se às habitações para montar no seu escadote e substituir a lâmpada, o picheleiro vai mudar a torneira, o polícia disponibiliza-se para dar bons conselhos de segurança, para o senhor vice camarário aparecer no fim com os jornalistas atrás para lhes mostrar que o concelho de Chaves é uma região onde os nossos idosos vivem em paz e sossego contando sempre com a proteção da senhor arquiteto paisagista. Qual provedor dos pobres e dos desprotegidos. Bravo, António! És um génio.

 

E para os estimados leitores se inteirarem do firme propósito do senhor vice e do entusiasmo da citada comissão, foi-nos revelado que esta última vai reunir quatro vezes por ano. Não vai reunir uma, nem duas, ou mesmo três vezes por ano. Não. Isso seria muito pouco. Esta comissão vai reunir quatro. Quatro vezes por ano. Uma por trimestre. Desta maneira ninguém ficará abandonado, nenhum projeto será esquecido, nenhum casquilho ficará sem lâmpada e nenhum lavatório ficará sem torneira. Bravo, António! És um génio.

 

Parabéns pois ao senhor vice camarário e a todos os que o assessoram. A trilhar essa senda de inovação, de altruísmo e de solidariedade, estamos em crer que receberá, ainda antes das eleições, uma comenda que definitivamente o catapultará para a tribuna dos eleitos. E nós cá ficaremos a aguardar por tão alta distinção para sermos os primeiros a parabenizá-lo e dizer de viva voz: Bravo, António! És um génio.

 

PS – Senhor autonomeado vereador dos idosos desprotegidos, agora, como bem diz o nosso povo, “deixemo-nos de merdas”, e vamos lá à verdade. Todas as pessoas de bem sabem que a autêntica grandeza humana está na prática da generosidade, mas sem condições. Na capacidade de dar aos que nada têm, não o que nos sobra, mas uma parte do pouco que temos. Dar até que doa. Mas não fazer política nem exigir prerrogativas com essa ação. E muito menos praticar a enganosa filosofia de obrigar os outros a aceitar os nossos conceitos do bem e da verdade.

 

Cenas de falsa amizade pelos idosos ficam muito mal a todos, mas combinam ainda pior com os políticos que sempre os esqueceram e apenas deles se lembram nos períodos pré-eleitorais. Temos de ter memória. Temos de acreditar no futuro. Temos de ter futuro. E o futuro não passa por si, senhor vice-presidente. Não pode passar, pois, a ser assim, não será futuro nenhum, mas antes um enorme retrocesso. E como se diz na minha aldeia, e penso que também na sua: para trás mija a burra. 


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Domingo, 18 de Março de 2012

Olhares


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Sábado, 17 de Março de 2012

A mulher do alguidar


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Sexta-feira, 16 de Março de 2012

O Homem Sem Memória - 106

 

106 - Começou a interessar-se pela política e a frequentar diferentes grupos de amigos que, por estranho que possa parecer, se reuniam única e exclusivamente por orientação partidária.


O filho do guarda Ferreira esforçou-se por ser amigo de todos para com todos aprender. Mas a democracia, potencializando a criação dos partidos, parecia avessa a que a amizade se pudesse manter por cima das fronteiras dos distintos grupos ideológicos.


O José tentou percorrer o caminho da coerência e da identidade. Ouvia-os a todos, e, talvez por isso mesmo, não conseguia decidir-se nem por uns nem por outros. Ao mesmo tempo concordava com todos e, também ao mesmo tempo, discordava de todos. Mas os argumentos de exclusão usados por todos os partidos eram muito fortes. Por isso ficou, metaforicamente, tolo a meio da ponte romana.


Não se conseguia decidir nem pela margem direita nem pela margem esquerda do rio da “liberdade”, que, na voz esquisita de um cantor muito em voga na época, estava a passar por ali. E como não nos podemos banhar duas vezes na mesma água do rio, segundo nos ensinaram os filósofos, nem montar o cavalo do poder depois de o deixar passar à porta do quartel, segundo avisaram os capitães de Abril, o José começou a andar carregadinho de uma angústia tão chata e tão persistente como a chuva molha tolos. Mas não desistiu, logo à primeira, de fazer o seu caminho, porque, segundo dizem os poetas mais sábios, o caminho faz-se caminhando.


Como ouvia falar muito em democratas pensou em ser um deles. Afinal o seu percurso antifascista, mesmo que devido ao acaso, aí estava para o legitimar.


Foi essa, pois, a sua primeira definição. À hora do almoço, enquanto na televisão se podiam observar manifestações para todos os gostos e feitios, resolveu surpreender os pais: “Pronto, está decidido. Sou Democrata”. O guarda Ferreira e a Dona Rosa limitaram-se a dizer-lhe para terminar de comer o almoço e ir lavar os dentes.


Desiludido, e com os dentes por lavar, pois não gostava mesmo nada de ser mandado, foi ter com os amigos e declarou-lhes: “Pronto, está decidido. Sou Democrata”. Mas eles explicaram-lhe que democratas eram todos. E ai de quem o não fosse! Por isso tinha que ser democrata e mais qualquer coisa. Porque era a “coisa” o que definia o democrata. E não o democrata que definia a “coisa”. Ser só democrata era muito pouco. Ou quase nada. Por isso tinha de ser algo mais.


Então afirmou resoluto: “Como sou Democrata e também penso ser Cristão, só posso ser democrata-cristão. Sim, eu sou é democrata-cristão. Cristão porque sim e democrata porque também.”


“O que tu és é parvo”, disseram-lhe os amigos. “Aqui não há democratas-cristãos. Isso só existe na Itália. Em Portugal ou és socialista ou comunista. Decide-te. E quanto antes melhor senão deixamos de ser teus amigos.” Posto entre a espada e a amizade, o José disse-lhes que ia pensar, só que não pensou em nada. Limitou-se a fazer, e a dizer, que pensava. Que é, bem vistas as coisas, aquilo que cada um de nós faz a maioria das vezes.


Argumentou que, como filho de um GNR, não era correto afirmar-se socialista. E muito menos comunista. Para vergonha do pai já lhe bastava andar com as calças à boca-de-sino, ouvir música de drogados e usar o cabelo comprido. Além disso, a sua mãe também o informava, por bem, de que a informavam pessoas de virtude, que os comunistas roubavam as terras aos agricultores, matavam os velhos e prendiam os guardas-republicanos. Além de que incendiavam e destruíam as igrejas, matavam os padres e as freiras, queimavam os crucifixos e roubavam os filhos aos pais, destruíam as famílias e falavam mal do Papa e de Deus e de Cristo e de Nossa Senhora e dos Santos e dos Anjos e dos Bispos e dos padres, dos sacristãos e dos acólitos. Quando o filho a contestava dizendo-lhe que talvez isso não fosse bem assim, pois as pessoas são muito mentirosas, ela levava-se dos diabos e dizia-lhe aos berros que na Rússia chegaram a enfiar os crucifixos nas partes traseiras dos padres e dos homens católicos e nas partes traseiras e dianteiras das freiras e das católicas mais católicas das católicas, pois para se ter a coragem de se afirmar católico na Rússia só mesmo Santos do tamanho do Cristo Rei de Lisboa.


“Credo, mãe, não exageres”, replicou um dia o José incrédulo. Então a Dona Rosa foi buscar um livro sobre os massacres dos negros da União dos Povos de Angola e mostrou-lhe fotografias de mulheres brancas com paus espetados nas vaginas.


“Vês, vês, aqui tens a prova”, disse-lhe a mãe toda arrepiada. “Mas, mãe, isso são fotografias de Angola”, argumentou o José. “Podem ser de Angola, mas quem mandou os pretos meter os crucifixos nas… nas… nessas partes foram os comunistas”, concluiu a mãe do José. E justificou de seguida: “Os pretos não têm maldade para tanto. Os pretos só conseguem fazer as coisas mandados pelos brancos. E os russos são brancos. Até são mais brancos do que nós. E os pretos quando veem um branco muito branco pensam logo que é um deus.”


Como via que em casa não conseguia aprender nada, foi ter com os amigos. Mas os amigos não lhe retribuíam a amizade e muito menos o saber. Olhavam para ele desconfiados. Parece que não havia nada a fazer.


Os amigos não o aceitavam assim indeterminado. Ou se decidia ou não podia andar com eles. Do mal o menos.


Um dia chegou ao pé dos seus amigos socialistas. E disse-lhes que afinal era socialista, porque comunista, bem vistas as coisas, não podia ser porque a sua mãe rezava todos os dias o terço pela conversão da Rússia, porque na Rússia os danados dos comunistas tinham roubado as terras aos agricultores, tinham feito das igrejas bordéis, tinham prendido, ou mandado para a Sibéria, ou as duas coisas por junto, os padres, as freiras e os cristãos mais fervorosos, tinham proibido as pessoas de usar crucifixos ao peito, matavam os velhos com uma injeção atrás da orelha e, com a fome que por lá grassava, até se atreviam a comer os bebés mais gordinhos e a roubar as crianças à família e a criá-las como ovelhas.


Os seus pretensos amigos socialistas concordaram com a adesão, mas disseram-lhe que não podia dizer assim tão mal dos comunistas, pois os comunistas podiam mesmo ser maus mas não eram tão maus como ele os pintava. Além disso eram compagnons de route, como muito bem explicaram os camaradas franceses ao camarada Mário Soares.


Apanhado assim de surpresa, o José lembrou-lhes que os poucos comunistas seus conhecidos falavam muito mal dos socialistas, apelidando-os de traidores e aliados da burguesia.


“Não te ponhas com essas merdas divisionistas. Se o Mário Soares diz que os comunistas são democratas, eles são democratas, mesmo que o não sejam. Fazem falta à democracia.” Ao que o José replicou: “Fazem tanta falta à democracia como os cães na missa.”


Então os socialistas olharam para ele e disseram-lhe: “Põe-te mas é a andar daqui para fora. És um reacionário muito filho-da-puta. Podemos não ser comunistas, mas também não somos anticomunistas. Somos democratas.” “Democrata sou eu”, lembrou-lhes o José, mas eles nem sequer o ouviram. “Tu és é parvo. Um verdadeiro democrata não é anticomunista.” Ao que o José retorquiu: “Para se ser um verdadeiro democrata tem de se ser necessariamente anticomunista. Essa é que é a verdade.” “Tu és um democrata muito merdoso”, acusaram-no os socialistas. Ao que ele respondeu: “E vós sois uns socialistas muito medrosos.” “Tu és um agente provocador. Por isso não te queremos entre nós. Vai-te e não voltes”, avisaram-no os socialistas. O José limitou-se a olhar para eles com um ar deveras preocupado e desiludido. (Podemos avisar os estimados leitores que foi a partir deste momento que o José iniciou a sua via crucis política).


E eles, os outros, imbuídos da sua fé democrática e da sua identidade socialista, olharam para ele com cara de caso: “Já não és meu amigo”, disse-lhe o Judas. “Já não és meu amigo”, disseram-lhe logo a seguir o Simão I, o Simão II, o André, o João, o Tiago I, o Filipe, o Bartolomeu, o Tomé, o Mateus, o Paulo, o Tiago II e a Maria Madalena ainda sem idade para se arrepender.


“Vós não sois socialistas, sois é parvos e ignorantes”, disse-lhes o José cerrando os dentes. Ao que eles responderam, como bons socialistas que eram, com os punhos em riste: “Some-te daqui fascista.”


“Fascista era a puta da tua…”, e o resto da frase do José foi abafada pelo apitar do comboio que naquele momento atravessava a estrada na passagem de nível perto do asilo dos velhinhos. 


publicado por João Madureira às 07:00
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Quinta-feira, 15 de Março de 2012

Até ao lavar dos potes é matança


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 14 de Março de 2012

O Poema Infinito (91): a luz interminável da memória

 

Por vezes sofro com a presença da tua ausência sentado no meu lugar de escrita, aberto ao fulgor dos verbos, vergado ao brilho dos nomes, empolgado pela cor histriónica dos adjetivos. Mas todos os dias o fenómeno do brilho dos teus olhos vence a inércia paciente do tempo. Nos postigos limpos e nos atalhos onde crescem agora as ervas tremeluz presentemente a paz. Todos os sítios se me alargam pela consciência dura dos limites. A grande flor do mundo traz-nos a substância invisível da evidência. A tua luz guia a abundância da noite e os frutos lúcidos que caem das árvores dispensam a sabedoria do amadurecimento. A memória recupera um pouco mais de terra antiga enquanto o teu rosto torna a evidenciar o enigma da sua claridade. Por isso os frutos polícromos transfiguram a aparência da velhice. Por isso, este exílio interior dispensa júbilo. Escuto a tua paciência repleta de ritmos específicos. O tempo finca o seu pé de ferro na imagem difusa da eternidade. Toda a evidência explode dentro dos signos e dentro da alegria dos caminhos. A imagem do tempo cai dentro da ambígua perpetuidade dos pássaros felizes. Todos somos pássaros felizes ajustados à incandescência estrita da luz. A luz que inclina o espanto. O espanto passivo do tempo. Aí é celebrada a narrativa. Aí é acesa a glória e o seu tempo. Aí é erigido o afeto. Aí é prometida a indulgência. Por isso nos afeta a fé. Por isso a distância ainda fica mais distante. Por isso nos acolhemos naquilo que mais nos falta. E escutamos o silêncio ensurdecedor da infância e o rigor submisso da pobreza e a subtileza espiritual dos demagogos e a língua perentória dos académicos sábios. Acendemos de novo os sentidos e esquecemo-nos propositadamente da linguagem diáfana da água e do brilho aprisionado da língua e do seu halo imperioso e do rigor abstrato da poesia. Todo o meu júbilo está preso na reminiscência aflita do passado. Os cadáveres dos meus progenitores não se acomodam na minha memória. O meu mundo está como suspenso por um raio de luar. Volta a luz no seu vagar de estudo. Volta a palavra rasurada há pouco. Estou novamente dentro do meu eclipse, dentro da sua palpitante e infeliz radiação. Um azul objetivo prolonga o vento que parte. O horizonte torna-se um lugar aberto. Sinto agora o brilho dos teus olhos nos meus olhos. Sinto a sua iluminação radiante. Estou agora perante a evidência do acolhimento. A paciência glorifica a obra e ordena o tempo. E nós tão perto de nós. Tão prolongadamente juntos, tão fortes na nossa fragilidade, tão súbitos no nosso desejo, tão imensamente ténues, tão eternamente breves. Quando tocamos os nossos lábios tudo fica mais iluminado. Somos a interminável memória aberta que se reencontra em todos os dias do mundo. 


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Terça-feira, 13 de Março de 2012

Na matança


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Segunda-feira, 12 de Março de 2012

Da expetativa ao imobilismo (VI): Os saberes e os (dis)sabores

 

Caro senhor presidente da Câmara Municipal de Chaves, estimado vice-presidente e restantes vereadores da maioria, confesso que não sei se os hei de levar a sério ou a brincar. Seja de que forma for, tenho de admitir que tal desígnio não é tarefa fácil. É que quando querem parecer sérios são ridículos. E quando se armam em brincalhões, deixam os flavienses preocupados.

 

A gestão de dez anos de “batistismo” (sei que o substantivo é quase pícaro, mas o referente também o é, por isso bate a letra com a careta) foi uma peça de ópera bufa e os últimos meses de propaganda política é, em tudo o que a rodeia, uma piada de mau gosto e de pior desempenho.

 

E também é verdade que os senhores autarcas andaram, e continuam a andar, a maior parte do tempo a brincar com coisas sérias, como por exemplo o são a nossa memória coletiva e o nosso putativo desenvolvimento, que, neste caso, melhor será designar de subdesenvolvimento, atraso e subalternidade, nomeadamente em relação a Vila Real. E olhem que não é coisa pouca.

 

Mas desta vez o que me traz à liça é a feira (mostra?) dos Saberes e (dis)Sabores, pois estou em crer que a autarquia flaviense olha para o evento com a desconfiança dos maus imitadores. Sobretudo porque não a leva a sério. E com coisas desta importância não se brinca.

 

Já me questionei se o sentido de humor dos autarcas da minha terra chega ao ponto de organizarem uma feira do fumeiro travestida de uma saloia salada russa à transmontana. Misturando um pouco de tudo com outro tanto de nada. Se assim é, o facto só pode provocar a nossa estupefação. E por fim, porque nada mais nos resta, o riso.

 

Ora rir é uma coisa sofisticada. E exige motivo. Por mor das dúvidas, vou, antes de entrar na matéria de facto, pedir a ajuda de dois mestres do humor: o professor catedrático Abel Barros Baptista e o responsável editorial por uma coleção de literatura de humor, Ricardo Araújo Pereira.

 

Estes dois senhores afirmaram à revista LER que o que os faz rir é o costume: velhinhas a cair, pois dizem (talvez na brincadeira) que têm um gosto, ou uma capacidade mais sofisticada para rir do que as pessoas normais. Parece que as velhinhas a cair é o padrão. Dado que o cómico da situação tem mais graça imediata do que o cómico da linguagem, pois a linguagem requer sempre alguma sensibilidade especial.

 

Segundo os citados especialistas, aqui há um problema, pois uma coisa é o que faz rir uma pessoa e outra é aquilo que ela acha cómico. E é aqui que eu me situo. Por exemplo, a feira dos Saberes e dos (dis)Sabores faz-me rir mas não encontro no evento nada de cómico. Bem antes pelo contrário. Se calhar, e como o senhor presidente é um homem de letras, aconselhava-o a ler um livro de Milan Kundera, que define logo no título, com a precisão de um raio laser, a sua década de progresso: “O Livro do Riso e do Esquecimento”. Até me atrevo a mais, e perdoe-me, se puder, a impertinência, de lhe aconselhar a ler, e a meditar, sobre outro romance do escritor checo, que só o título diz tudo: “A Insustentável Leveza do Ser”, que, no seu caso, podemos transformar em “A Insustentável Leveza da Gestão Autárquica de João Batista”. 

 

O senhor presidente, na apresentação da sétima edição da mostra Saberes e (dis)Sabores, referiu aos jornais que “é um certame que visa promover o concelho, a cidade e a região com o que ela tem de melhor”. Mas não contente com a piada, foi ainda mais longe e referiu “tratar-se de uma iniciativa que surge no âmbito do combate à desertificação rural iniciado em 2004”. Bem, só estes dois argumentos dão para elaborar um tratado sobre o sentido de humor dos atuais autarcas flavienses.

 

Então se já lá vão sete anos de Saberes e (dis)Sabores, e se o certame foi pensado para combater a desertificação, porque raio é que as nossas aldeias se esvaziaram de uma forma irreversível? Porquê, senhor presidente? Olhe que a resposta é fácil e evidente: pois porque uma coisa é “botar” umas palavras de circunstância (a retórica sempre lhe vai servindo de alguma coisa, para encher páginas de jornal) e outra bem distinta é agir em conformidade com aquilo que se diz.

 

Se as suas afirmações têm a intenção de fazer humor, peço-lhe desde já desculpa, mas eu com coisas sérias não brinco. Amo demais a minha terra para me rir com a sua destruição, com o seu abandono, com o seu empobrecimento, com a sua morte irrevogável. E ainda me custa mais porque sou de uma aldeia que se esfuma no ar mais um pouco a cada dia que passa. Sei que quando vou à Torre de Ervededo é porque faleceu mais alguém. E desde há muito tempo que não nasce lá uma única criança. De facto, o cemitério é o único lugar possível de reunião entre familiares, amigos e conhecidos. É lá onde estão já quase todos os filhos da Torre. E os que ainda por aqui penamos, não tarda muito a irmos fazer-lhes companhia. Os velhos morrem, os filhos emigram e os netos… não existem.

 

Mas, mudando de assunto, Abel Barros Baptista acha que pode existir certo tipo de situações próprias da comédia e que não nos fazem rir. Pois há uma diferença entre achar cómico e rir. Muitas das vezes rimo-nos de coisas que não achamos cómicas. Por exemplo, o senhor presidente afirmou que “com menos visitantes, Saberes e (dis)Sabores mostrou esforço para resistir à crise”.

 

Claro que a sua afirmação não tem graça nenhuma, mas dá vontade de rir. Mas arranjar a desculpa esfarrapada de que “a crise e a vaga de frio polar contribuíram para uma queda de 25 a 30% no volume de negócio, mas as vendas correspondem às expetativas dos expositores”, é uma desculpa tão esfarrapada que só pode ser entendida como uma anedota. E as anedotas, essas sim, são sempre contadas para fazer rir.

 

Todos sabemos que há anedotas boas, médias e más, mas a que o senhor presidente resolveu contar aos jornais é desastrosa. Por isso não me consegui rir nem um bocadinho. E segundo os especialistas “precisamos do riso para legitimar a natureza da coisa”.

 

Ora a natureza das suas intervenções é cada vez mais ridícula, porque vazia de sentido, e porque manipuladora da verdade. Há muitas pessoas que se riem imenso a ler. Eu por vezes também o faço, mas os textos têm de ser de qualidade. O que não é manifestamente o caso das anedotas que quase todas as semanas conta aos jornais.

 

O senhor presidente podia falar verdade relativamente à quebra de receitas e de visitantes na “sua” feira do fumeiro. É que, por exemplo, as feiras de fumeiro de Montalegre e Vinhais metem a “sua” num bolso. Saberes e (dis)Sabores é um arremedo de feira do fumeiro, é uma imitação barata, é uma miscelânea de coisas, é uma iniciativa envergonhada. É um equívoco.

 

Por causa das coisas, eu e os meus amigos fomos ver para crer. Fomos à feira do fumeiro de Montalegre e viemos de lá encantados. A organização é exemplar, o espaço é magnífico e os anfitriões são dinâmicos e competentes. Tudo por lá respira determinação, orgulho e tradição. Fomos à feira do fumeiro de Vinhais e viemos de lá encantados. A organização é perfeita, o espaço é esplêndido e os anfitriões são diligentes e idóneos. Os organizadores revelam determinação, vaidade e tradição.

 

Também fomos aos Saberes e (dis)Sabores. Mas viemos de lá tristes e desiludidos. Apesar de o nosso fumeiro ser potencialmente melhor do que o de Montalegre e o de Vinhais, o volume de negócios é ridículo, a organização sofre de um amadorismo retrógrado e o espaço é medíocre. Eventos desta dimensão não se compadecem com amadorismos irritantes. 

 

O espelho daquilo que afirmamos está implícito nas suas palavras, senhor presidente: “A diferenciação deste certame, que além dos produtos locais também apresenta artesanato, assume-se como uma verdadeira vitrina para quem pretende apresentar e comercializar os seus produtos”. Aqui sim, aqui está um naco de prosa capaz de fazer rir até os especialistas nestas coisas do humor. Uma “vitrina” para o fumeiro, para as pedras e para as cestas, é bem achado sim senhor. Não é montra, não é balcão, não é sequer um expositor, ou um escaparate, ou prateleira, é uma “vitrina”, pois é muito mais fino.

 

Infelizmente não são os substantivos pomposos os que definem a qualidade da feira, não é o amadorismo dos organizadores o que arrasta pessoas até à nossa terra, não é o improviso dos gestores autárquicos o que potencializa os negócios, não é a indefinição o que cria identidade, não é a confusão o que promove a qualidade dos produtos, não é o equívoco o que cria identidade. Basta ir a Montalegre e a Vinhais para vermos como os turistas fazem autênticas peregrinações às suas feiras do fumeiro. A de Chaves não atrai mais gente do que um dia feira normal. 

 

Como flaviense cai-me mal que a minha terra seja alvo de chacota quando organiza eventos deste género. E cai-me ainda pior porque sei que os principais culpados pela nossa inépcia estão disfarçados de autarcas e encafuados entre as quatro paredes da Câmara Municipal a dizer que… dizem e a fazer que… fazem.

 

O senhor presidente afirmou que o papel do poder local é fundamental para dinamizar a economia local. E tem razão. Tem toda a razão do mundo. Mas mesmo tendo essa consciência, a sua prática, incluindo sobretudo os homens de que se rodeou, é um arremedo das boas práticas dos autarcas de Vinhais e Montalegre. E tudo porque a sua gestão é de uma pasmaceira enervante, é de um conformismo alarmante, é de uma vacuidade irritante, é de um cinzentismo angustiante. E é de um amadorismo saloio.

 

Atrevo-me mesmo a citar o exemplo das tasquinhas como o paradigma da organização, do sucesso e da qualidade da feira dos Saberes e (dis)Sabores. “Nesta 7º edição, a autarquia abriu cinco vagas para a restauração, mas apenas concorreram três estabelecimentos, que serviram pratos típicos regionais…” Por aqui se vê a dinâmica da sua organização e a expetativa dos comerciantes. Além disso, os pratos de típico tinham muito pouco. Eu, para experimentar, ainda comi “calhos”, que é um prato típico… galego. E o meu amigo Fernando degustou umas costelinhas que são um prato típico… nacional. Mas também havia lá polvo, talvez pescado… no Tâmega, e servido… à galega. E o vinho, esse sim era típico, típico sobretudo na sua baixa qualidade.

 

Para terminar, deixe, senhor presidente, que me socorra da literatura e do humor para tentar dar o remate final nesta crónica que já vai longa. Lembra-se, com toda a certeza, de eu ter um pouco atrás relatado o facto de existirem pessoas que se riem imenso a ler. Por acaso isso aconteceu-me quando li “O Labirinto das Azeitonas” de Eduardo Mendonza, no qual o personagem principal, um detetive, andava nu por baixo da gabardina que envergava. Pois a sua gestão autárquica trouxe-me à memória essa situação hilariante. De facto, a sua gestão à frente da Câmara aparece nos jornais vestida de gabardina, mas o que na verdade ela está é nua. O senhor presidente pode ir de gabardina, mas a sua gestão vai nua, um pouco como a história do rei autista, vaidoso e gabarolas.

 

Por isso é cada vez mais urgente mudar de vida e de paradigma. Então até para a semana, se Deus quiser e o tempo deixar. 


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Domingo, 11 de Março de 2012

O homem da concertina


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Sábado, 10 de Março de 2012

Teatro na rua


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Sexta-feira, 9 de Março de 2012

O Homem Sem Memória - 105

 

105 - Ao fim de quinze dias o Guarda Ferreira estava de armas e bagagens em Névoa e o Capitão Martins demorou apenas mais duas semanas para rumar à estimada cidade da Guarda. Mesmo pondo de lado o posicionamento social, as receções foram muito distintas. Ao capitão todos lhe dedicaram ternos sorrisos e efusivos abraços. Já ao guarda Ferreira nem o cão revelou qualquer espécie de entusiasmo.


A Dona Rosa, mal o viu entrar portas adentro, começou logo a arengar: “Ai que susto. O que fazes aqui? Já te deram folga? Cansaste-te da revolução?” Ao que ele respondeu: “Vim de vez.” E ela, entre a estupefação e a incredulidade: “Como de vez?” E ele surpreendido por tanta frieza e tanta dúvida: “De vez. Vim de vez. Já não torno. Vim transferido para o posto de Névoa.” A Dona Rosa ainda com uma réstia de esperança difusa na voz: “Promoveram-te?” O guarda Ferreira surpreendido: “Não, não me promoveram. Transferiram-me para aqui. Para junto da minha família. Não era o que tu querias?” E ela agressiva como uma cadela: “O que queria era que te pusessem umas divisas em cima dos ombros.” E ele acabrunhado: “Era uma coisa ou outra. Escolhi esta. A outra era uma incerteza. Além disso podiam matar-me. É que os tempos não estão para brincadeiras.” Depois fez-se silêncio. O guarda Ferreira limitou-se a olhar para a mulher talvez com a esperança de um pequeno carinho. Mas a Dona Rosa limitou-se a continuar concentrada a engomar a roupa enquanto o cão dormia junto a uma perna da tábua de passar.


“Então, já que estás aqui, pega no caldeiro e vai dar de comer aos recos. Que é para o que serves”, disse a Dona Rosa com a delicadeza que todos lhe reconhecemos. Não contente com o dichote, pregou um pontapé no cão e mandou-o dar uma volta. Ambos e dois obedeceram sem manifestar a mais pequena discordância.


“Os porcos já estão acomodados. O que queres que faça a seguir?”, perguntou nervoso o guarda Ferreira. “Olha, acorda o teu filho mais velho que agora só sabe dormir”, disse colérica a Dona Rosa. Depois ficou de novo em silêncio. Após algum tempo de espera, resmungou sem tirar os olhos da roupa que passava: “O mundo às avessas e os meus homens enfiados dentro de casa como mulheres. Não sei que raio de sangue vos corre nas veias. Do meu não é com toda a certeza.”


O José, assomando à porta do quarto, rabujou: “Já não se pode dormir descansado nesta casa. É preferível estar preso, pelo menos lá não nos incomodam com discussões familiares. A família, essa infernal instituição burguesa, é para o que serve, para dar arrelias, preocupações e para nos manietar de pés e mãos às convenções, ao conservadorismo e à hipocrisia.”


“Cala a boca e vai lavar a cara e pentear-te. Pareces um cigano”, ordenou-lhe o pai. E o José tentando ganhar espaço e tempo: “Então o pai está por cá de novo? Foi rápida a estadia no Porto. Os revolucionários depressa desmobilizaram. O que fez de tão importante para o promoverem num ápice?”


Mas em vez de ser o guarda Ferreira a responder, quem o fez foi a sua querida e estimada esposa: “Não foi promovido. Foi transferido de posto. O teu pai não possui a mais pequena réstia de ambição. Contenta-se em ser o borra-botas que sempre foi e há de continuar a ser. Desde que tenha dinheiro para o cigarro e para o copo, já se dá por contente. E eu que me amanhe.”


Enquanto o José fazia que lavava a cara e se penteava, o pai tentou pôr-se teso e contestar os argumentos da mãe: “Todo o dinheiro que entra nesta casa sou eu que o ganho…” “Todo não”, contrapôs a Dona Rosa. “Eu também ganho algum com as camisolas que faço e com os panos de renda e bordados. Se vivêssemos apenas com a miséria que trazes para casa morríamos à fome. E quem é que cria os porcos, as galinhas e os coelhos? Quem? E quem é que vai à lenha? E quem é que sacha as batatas e rega a horta? Quem? E quem é que…”


“Cala-te mulher. És uma ingrata. Quem te ouvir até pode pensar que é verdade aquilo que dizes. Se não fosse o meu ordenado é que morríamos à fome. És uma ingrata. Para ti nunca nada está bem. Aos teus olhos sou para aqui um verbo-de-encher”, indignou-se o guarda Ferreira.


“Lá verbo podes ser, agora de encher é que não. Para encher estou cá eu”, disse a Dona Rosa. E o guarda Ferreira: “Não te faças de engraçada comigo.” E o José: “A mãe, quando quer, até é engraçada. Mas gosta, sobretudo, de fazer o papel de desgraçada. Está-lhe no sangue. Se abraçasse o teatro dava, com toda a certeza, uma excelente atora dramática.”


A Dona Rosa levada do diabo: “Cala lá o focinho, mas é. Quem é que te julgas para fazeres de engraçadinho comigo. Pensas que estás a falar com alguma tua amiga galdéria? Tu sais ao teu pai. És também para aí um bardamerdas. Podias vir a ser alguém, um grande homem da Igreja, um bispo bem arreado e bem cevado, e respeitado, mas não passas de um putanheiro sem eira nem beira. Um pobre como tu não se pode dar ao luxo da boémia. Isso é para os filhos dos ricos. Os filhos dos pobres, para singrarem na vida, ou estudam ou fodem-se.


“Mãe!”, exclamou o José. “Mulher!”, exclamou o guarda Ferreira. “Ão, aõ, ão! exclamou o cão que se tinha vindo colocar junto aos pés da dona.


E a Dona Rosa começando a chorar baba e ranho: “Deixai-me em paz. Sou para aqui uma desgraçada. Ninguém me compreende, ninguém me ajuda. Ninguém segue os meus conselhos. Só me apetece ir para o monte e gritar, gritar até não poder mais. Gritar até rebentar. Se não fosse por causa dos mais pequenos matava-me com o veneno dos escaravelhos.”


“Mulher!”, exclamou de novo o guarda Ferreira. “Mãe!”, exclamou segunda vez o José. “Ão, aõ, ão!” exclamou abanando a cauda o cão. Como não podia fazer mais nada que não pudesse acabar em tragédia, novamente deu um pontapé no cão e enxotou-o para a rua.


Passado apenas o curto tempo de o guarda Ferreira fumar um dos seus cigarros sem filtro, deram entrada na casa os Ferreiras mais pequenos vindos da escola, seguidos pelo cão que não se cansava de ladrar e abanar o rabo. “Olha, é o pai”, disse um deles como se tivesse visto um fantasma. E o pai: “Então meus queridos filhos, estais bons?” E os filhos: “Estamos cheios de fome. Queremos comer.” E a mãe, fazendo-se chocada: “Então não dais um beijo ao vosso pai?” E o José, fazendo-se surpreendido: “Então não dais um beijo ao pai?” E os filhos indiferentes: “Dê-lhos a mãe. Temos fome. Queremos comer.” E a mãe pondo a mesa: “O vosso pai vem para cá de vez.” “Ó que chatice!”, disse o mais velho dos pequenos. “Ó que chatice!”, disse o do meio. “Ó que chatice!”, disse o mais novo, que também era o mais atrevido. E desabafou: “Ele é tão chato. E cheira mal da boca.” E o que ainda não tinha dito nada disse alguma coisa: “Com ele cá a casa ainda vai ficar mais pequena. Quando ele se deita com a mãe, o João e o Luís vão dormir no nosso quarto e ficamos todos tão apertados que até suamos.” Pausa: “Ó mãe, o pai não pode ir embora outra vez?”


Ao guarda Ferreira nem a comida se lhe engoliu. Tamanha receção deixou-o prostrado. Ele sabia que os anos passados longe de casa tinham cavado um fosso enorme entre si e os filhos, especialmente em relação aos mais novos, que não o viam como um pai, mas sim como um intruso, que por vezes ficava lá em casa dois ou três dias mas que se ia embora antes de começar a aborrecer. Mas não podia imaginar que o apontassem como um empecilho, como um estorvo, como um estranho que não fazia parte das suas vidas.


Não se sentido querido perseverou ainda mais no vinho e no cigarro. Só ia para casa já noite dentro, levantava-se com as galinhas e ia para o posto. Nos dias de folga, com o pretexto de ir amanhar as terras que tinha na Torre, rumava para a aldeia fazer que fazia.


Também o José principiou a sentir-se mal com a situação. A vadiagem não podia ser eterna.

 


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Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Atores na varanda


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Quarta-feira, 7 de Março de 2012

O Poema Infinito (90): a civilização dos colecionadores de rolhas de plástico

 

Os homens teimam em impor aos outros homens a abundância fria da caridade mostrando-lhes as prateleiras e as bancas calandradas dos supermercados repletas de peixe de aquacultura e de limões duplos de acidez querendo dessa forma fazer dos poemas frigoríficos de palavras leves e acéticas onde o duplo silêncio da economia e do mercado capitalista enche os catálogos com a elegância gelada da miséria em repouso dos novos pobres e as donas de casa atrevem-se a conservar os nervos no mais íntimo das suas bocas retraídas de gritos mudos e secos enquanto os anúncios dos produtos íntimos femininos vomitados pelas televisões generalistas chegam e sobram para fazer agonizar o prazer e o desejo dos corpos lisos e brancos de leite e tudo isto se passa enquanto os gordos se sentam à mesa colados ao seu apetite e à sua emoção feita de carne e de estômagos barrocos enquanto pensam no pranto em que se funda a glorificação ocidental da verdura vegetal da solidão enquanto os magros levitam no seu riso frio e enquanto as crianças correm empanturradas de açúcar e brinquedos que são quase sempre máquinas estúpidas de violência e sordidez e as avós rezam orações baças que mais não são que frases fofas e melancólicas e assim se sentem os livros pesados nas prateleiras da sua virgindade e da sua função de preencher espaços nas estantes e de dar um ar culto ao escritório dos néscios que não os leem e nem para eles olham e as suas camadas de inutilidade enchem este mundo de ignorância e espanto deixando todo o espaço vital aos frívolos que temem o mundo da cultura e por isso a glorificam com palavras doiradas de falsidade e o tempo da desgraça distribui vingança e nervos por isso todos funcionamos a antidepressivos que já se tomam em forma de pastilha elástica que nos metamorfoseiam em corpos mastigados pela fadiga sofrida dos sorrisos de circunstância e a todos nos dói a cabeça por causa dos perfumes que todos usamos para cheirarmos o silêncio da nossa vacuidade e da nossa indecifrável vontade de indiferenciação e entretemo-nos a olhar para pinturas parvas e a anoitecer manhãs e a disfarçar os corpos obesos e enrugados dentro de roupas apertadas e falsamente aprazíveis e bendizemos a hipocrisia e glorificamos a inutilidade e enaltecemos a mediocridade e exaltamos os deuses que são catatuas falantes e dizemos que gostamos de ler aquilo que não lemos e de amar aquilo que não amamos e de respeitar aquilo que não respeitamos e de defender aquilo em que não acreditamos e embarcamos sempre no mesmo fado da saudade e lá vamos cantando e rindo levados sempre levados e levados sim pelos outros que nos repartem como animais domésticos pelos retábulos patéticos desta sociedade que nos dizem civilizada por isso procuramos sentar-nos à mesa como crianças que são crianças porque têm lábios de crianças ao mesmo tempo obesas e famintas que anseiam sentar-se à mesa para comer rapidamente enquanto engolem com os olhos a publicidade à guerra entre civilizações como se tudo não passasse de um videojogo oferecido pelo papá e pela mamã e pela vovó e pelo vovô enquanto o nosso querido líder nos diz que ganhámos mais um troféu por termos conseguido vencer o concurso de rolhas de garrafas de plástico…


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Terça-feira, 6 de Março de 2012

Ao balcão


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Segunda-feira, 5 de Março de 2012

Da expetativa ao imobilismo (V): O munícipe como verbo de encher

 

Cinco palavras revelam definitivamente a “década de progresso” de João Batista, António Cabeleira e do PSD à frente da câmara de Chaves, e por esta ordem: expetativa, ilusão, desilusão, imobilismo e abandono.

 

Chegado aqui paro para meditar um pouco. É que a política autárquica aflige-me na sua quase vacuidade e conformismo, mas a situação no país começa a meter-me medo. E como sei que ambas as lideranças estão pintadas da mesma cor partidária, tal facto deixa-me extremamente apreensivo.

 

A verdade é que o atual primeiro-ministro – e perdoe-se-me a minha expressão – parece a galinha antes de pôr o ovo: faz força, força, força, mas o ovo sai-lhe sem casca. E isso, dizem os antigos, é muito mau presságio.

 

Independentemente de Pedro Passos Coelho sorrir quando é apupado, o seu perplexo esgar tem a mesma intrepidez ideológica da senhora Merkel e o mesmo ar afetado do cavalheiro Sarkozy quando são cumprimentados pelo seu servo bajulador luso com o sorriso de cópia de uma outra cópia de ainda uma outra fotografia que andamos todos a tentar descortinar onde se nos tornou familiar.

 

Mas, Deus meu, o que é que nos está a acontecer? O que é que nós fizemos de mal para nos calhar tamanha desgraça?

 

O poeta Manuel António Pina confessou a um jornal: “A vontade que eu tenho era pôr um cinturão de bombas e rebentar com essa malta toda”. Digamos que é um desabafo quase terrorista. Mas para vilão, vilão e meio. A ser assim, das suas palavras prefiro ficar com a citação dos versos do poeta brasileiro João Cabral Neto, na “Morte e Vida de Severina”: “Muita diferença faz entre lutar com as mãos e abandoná-las para a frente.”

 

Depois dou uma vista de olhos à capa da “Tabu” e arrepio-me com o sorriso sibilino do primeiro-ministro e com a sua afirmação de que o poder nunca lhe subiu à cabeça. No entanto teima em fazer empobrecer o povo português, o que provocou do lado de Bagão Félix (CDS) uma entrevista onde afirma textualmente que o Governo “Está a proletarizar a classe média”. Mas, por outro lado, “não há retração ao nível da classe rica”.

 

Finalmente a capa da “Revista” do Expresso começa a fazer sentido. O lava-loiças (leia-se governo de direita neo-neo-liberal) tem mais bactérias do que uma sanita depois de puxar o autoclismo. Esse é o facto político (científico?) mais surpreendente dos últimos meses.

 

E daqui fui transportado a uma citação de António Capucho (PSD): “Alguns deputados são uns verbos de encher.” Ele sabe do que fala. E nós também sabemos muito bem daquilo que ele fala. E nós por cá (salvo um ou dois honrados exemplos) já fornecemos ao país muitos desses degradantes exemplos. Mas como não aprendemos com as más experiências, teimamos em teimar e em enviar para Lisboa uns verbos de encher que envergonham a alma e a dignidade transmontanas.

 

Por falar em capas de jornais, andava eu a tentar dar umas voltas na Eira Joanina (antigo Jardim das Freiras), que nestes dias de inverno mais rigoroso tem estado em salmoura, quando reparei que nos escaparates do quiosque o meu semanário regional de referência destacava a “novidade” de que o executivo camarário tinha realizado a iniciativa “Dar Voz ao Munícipe”.

 

Depois de ler a notícia confirmo que o evento mais não foi do que outra encenação para conferir visibilidade a uma ficção abandonada à cerca de cinco anos. Parece que o vice camarário de João Batista, à falta de melhor, resolveu tirar mais um dos velhos brinquedos do baú que estava no sótão, para dizer que tem ideias e que possui iniciativa. Mas estas coisas só servem para provar à exaustão que o senhor vice é o grau zero da criatividade e um embrulho absolutamente desprovido de ideias.

 

João Batista, a muito custo, lá se vai deixando levar para encenações que só lhe ficam mal. Mas pôr o ovo chamado António Cabeleira só o pode levar para estas cenas caricaturais. Todos sabemos que a dificuldade é grande, mas, ó senhor presidente, olhe que ele não lhe vale o esforço.

 

O senhor presidente lembra que nos tempos que correm “é importante que as pessoas participem, de forma a transmitirem as suas opiniões, para que todos tenhamos uma vida melhor”.

 

O que nos intrigou foi porque interrompeu esta tão “inédita iniciativa” durante cinco anos e a ressuscitou precisamente agora quando, à semelhança de uma galinha, faz força para colocar cá fora um ovo de classe B que se põe às bicadas nas pessoas para sair de dentro da casca.

 

Essas, e outras iniciativas, pertencem ao seu tempo da ilusão. Os cinco anos de interregno, estão já na zona da desilusão e no início da estagnação. Atualmente – e perdoe-me que lho diga desassombradamente – o senhor presidente já está na fase do abandono.

 

Mas olhe que o esforço que anda a fazer é inglório. O frango não lhe vale o empenho. Pode até vir tentar iludir-nos com cantatas intelectuais de última hora, que o não consegue. Citar Tony Judt fica-lhe bem, mas já vem tarde. Essa do que “temos de aprender com quem discorda, rejeita, reage e com quem diverge, por muito irritante que possa ser para quem está no poder”, é como recordar a um casal separado a marcha nupcial.

 

O senhor declarou para uma plateia de trinta pessoas que, segundo nos afirmaram, era quase apenas constituída por gente da câmara, ou do seu partido, quando não ambas as coisas, que “o desenvolvimento constrói-se em bases sólidas tendo como pilares fundamentais as pessoas, o território, a criação de condições para o desenvolvimento de atividades económicas e a cooperação”. Convenhamos que quando o senhor presidente não quer dizer nada não diz mesmo nada. A retórica aprendida sempre lhe vai servindo para alguma coisa.

Afirmar o que atrás afirmou é o mesmo que assegurar que o tempo para a semana vai estar soalheiro…  se não chover. Ou, como diz o povo, é paleio furado. São apenas palavras que nada querem dizer. É o vazio. É o abandono.

 

E o tal ovo lá continua, impacientemente à espera, que o senhor presidente lhe dê a bicada para quebrar a casca que lhe permita colocar a cabecita de fora.

 

Mas, voltamos a avisá-lo, olhe que o franganito não lhe vale o esforço. E o senhor sabe-o muito bem. Sabe-o até melhor do que nós. Na sua frente pode ser muto sorriso e abraços, mas nos bastidores a conversa é outra. E isto aconteceu durante muito tempo. Basta que o senhor presidente se informe.

 

Mais à frente lemos que o “atual executivo mantém o mesmo rumo desde que assumiu o poder, pois sabemos o que queremos e para onde vamos de forma a caminhar para um desenvolvimento sustentável e sustentado”.

 

Temos que convir que nas suas palavras existe algum fundo de verdade. O seu executivo mantém o mesmo rumo, o de não ter rumo nenhum, pois andou sempre a navegar à vista, apesar de não ter ventos contrários (leia-se oposição consistente, categórica e combativa), nunca se afirmou, nunca liderou, nunca se empenhou num único projeto de valia que possa reconhecer como uma bandeira sua. Foi tudo muito comezinho, muito caldo sem sal. Por isso é que não temos futuro à vista. Por isso é que o nosso “desenvolvimento sustentável” é, a cada dia que passa, mais insustentável.

 

O meu semanário regional de referência também conta que as tais trinta pessoas estiveram cerca de duas horas e meia a ouvi-lo – e perdoe-me de novo a analogia – a cacarejar. Diz que as pessoas puderam colocar as questões que entenderam. Mas nenhuma delas foi digna de registo. Nem elas nem as suas respostas. O que nos chegou foi apenas o eco do seu solilóquio. Ou seja, dali não saiu nada. Foi apenas uma conversa em família. A retórica assimilada sempre lhe vai servindo para alguma coisa.

 

O êxito foi tanto que a próxima iniciativa, se é que vai ser realizada, ficou agendada para o mês de abril. Ou seja, a primeira correu tão mal que a segunda talvez não se efetue. Convenhamos que daí não vem mal à cidade. O senhor habituou-nos a esperar sentados pelo futuro. Não sei se por acreditar que os cidadãos podem muito bem votar e depois ficar em casa à espera que Lázaro volte a ressuscitar. Essa foi sempre a estratégia do PSD enquanto poder.

 

Sabe, senhor presidente, porque é que a sua iniciativa foi um malogro? Pois porque o povo sabe que falar com o seu executivo camarário é pura perda de tempo. O senhor lá ouvir ouve, mas nada decide. E senhor lá prometer promete, mas não cumpre. Ou nunca cumpre a tempo e horas. E olhe que apesar do seu sorriso, as coisas não se resolvem apenas com simpatia e afabilidade. Eu digo isto porque estive em alguns processos. O senhor sabe muito bem daquilo que falo.

 

Lembro-me de, logo no início do seu primeiro mandato, ter sido convocado para uma reunião na câmara por causa da alteração do projeto da avenida D. João I, aprovado no tempo de Altamiro Claro. A reunião destinava-se a ouvir os residentes que utilizavam a rodovia para saber da sua opinião. Tudo muito democrático. Deram voz aos munícipes. E os munícipes manifestaram-na alto e bom som. A esmagadora maioria pronunciou-se contra o novo projeto e a favor do que já existia. Pois, apesar disso, a câmara foi para a frente com a afronta dos políticos e com a teimosia de alguns técnicos. E os munícipes, pobres iludidos, só disso souberam quando as obras já estavam no terreno.

 

Este, por muito que lhe custe, senhor presidente, é o exemplo acabado da importância que o seu executivo atribui à “voz” dos munícipes. Os flavienses estão cansados de encenações. Das suas encenações. Os munícipes estão fartos de serem utilizados como verbos de encher.

 

Por isso, como já o tiveram como galinha durante três mandatos, agora recusam o frango depenado que lhes quer deixar, depois de lhes ter prometido um galarispo com penas. Pois, como muito bem diz o nosso povo, que lhe faça bom proveito à barriguinha e ao peito.

 

Então, até para a semana. 


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Domingo, 4 de Março de 2012

Sorriso


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Sábado, 3 de Março de 2012

Olhares


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Sexta-feira, 2 de Março de 2012

O Homem Sem Memória - 104

 

104 – Pressionado pela mulher, e indiferenciado pelo seu filho primogénito, que teimava em não tomar partido por qualquer das partes em conflito, o guarda Ferreira abalou para a capital do Norte na carreira das cinco com o entusiasmo de um condenado às galés.


Esteve durante quinze dias a ver onde paravam as modas. Dentro do posto reinava uma paz inquieta e nas ruas o povo manifestava-se todos os dias e a todas as horas pelas mais variadas razões. Tudo servia de pretexto para fazer uma manifestação, anunciar uma greve, sanear os fascistas, apedrejar as sedes de partidos rivais e apupar quem naquele dia não tinha saído à rua em defesa das mais amplas liberdades.


E nesta brincadeira entre revolucionários revisionistas, social-fascistas, trotsquistas, leninistas, estalinistas, maoístas e indiferenciados e destes com os contrarrevolucionários socialistas (que encobriam no seu seio, qual serpente venenosa, os social-democratas, os democratas-cristãos e alguns, poucos, liberais), a cada dia que passava a cidade ia ficando mais e mais explosiva. Então à noite só se podia sair em grupo e devidamente armado. Tumultos e confrontos havia-os em cada canto e esquina, entre os mais diversos protagonistas e pelas mais variadas razões. E até sem razão nenhuma.


A intervenção da GNR era solicitada nos mais variados locais por gente à rasca, por vezes mesmo à rasquinha, que era vítima de furtos ou via o seu direito ao descanso ser ameaçado por bandos de rufias que faziam mais vasqueiro do que uma vara de porcos famintos. Mas as novas regras ditavam que a ação da força policial, que agora estava sob rigorosa vigilância revolucionária, unicamente podia ser feita por voluntários e apenas quando estavam em causa ofensas graves à coesão social e à independência nacional, o que não era manifestamente o caso.


A esquerda considerava a GNR o último baluarte do Estado Fascista. E o povo não necessitava de que aqueles homens fardados, que sempre defenderam a ditadura e oprimiram o povo, viessem meter o bedelho onde não eram chamados. Apenas as forças armadas, especialmente as tropas do MFA, eram bem-vindas, pois era certo e sabido que em vez de atuarem se punham a confraternizar com os agitadores, pois a revolução, era certo e sabido, seguia dentro de momentos.


Postas as coisas nestes termos, o guarda Ferreira, que era o impedido do Capitão Martins, só pôs os pés de fora do quartel no momento de se vir embora definitivamente. O seu superior, que lhe devia muito jantarinho a desoras, muita inconfidência protegida e muito pecado venial encoberto, disse-lhe que era homem para propor uma promoção do guarda Ferreira a primeiro-cabo se ele se atrevesse a fazer algumas rondas pelas sedes dos vários, e distintos, partidos comunistas, partidos fascistas e partidos democratas, na tentativa de impedir que fossem invadidas por crápulas que não se cansavam de brincar com coisas sérias: a política, a segurança das pessoas e dos bens e o respeitinho que a todos era devido.


A princípio ponderou a oferta, pois sabia que era agora ou nunca que podia satisfazer a ânsia de prestígio da Dona Rosa. Como primeiro-cabo podia mesmo vir a ser chefe de posto em alguma terreola próxima de Névoa. E depois logo se veria como correria a ascensão ao ambicionado cargo de sargento, que era a categoria mais alta a que podia aspirar dentro da corporação. Ofereceu-se como voluntário, escolheu o roteiro das patrulhas e definiu prioridades. Tudo muito certinho e direitinho.


Só que na noite em que estava para sair em serviço, assistiu, estupefacto, à chegada de uma patrulha, salva por outras duas ou três das mais prestigiadas e das mais calejadas no ofício de dar cacetada, que viu o jipe em que seguia ser incendiado por jovens encapuzados, que assistiu incrédula ao roubo das suas armas de fogo e que se viu obrigada a aguentar uma carga de porrada, muito ao jeito popular, o que deixou os garbosos e destemidos agentes da autoridade à beira da morte.


Nestas circunstâncias, o guarda Ferreira pensou que uma coisa era querer ser promovido para agradar à mulher e, quem sabe, ao Capitão Martins. Outra, bem diferente, era armar-se em herói e ganhar, com a brincadeira, um baú de pau, mesmo que gratuito a heróis efémeros, uma medalha de coragem e bons serviços prestados à pátria e à democracia, fosse lá isso o que fosse, e uma pensão de miséria vitalícia para a sua mulher e para os seus filhos.


Mal entrou no gabinete do seu superior, o guarda Ferreira deu-lhe conta do que tinha visto há poucos momentos e pediu-lhe encarecidamente que o tirasse da patrulha que estava para sair dentro de minutos. O Capitão Martins, com um sorriso nos lábios, perguntou-lhe se não queria progredir na carreira, pois ou era agora que o tinha ali como amigo que as coisas se compunham, ou então bem podia tirar o cavalinho da chuva que nunca mais teria uma oportunidade como aquela. Situações revolucionárias vivem-se uma vez na vida. Ou nem isso.


O guarda Ferreira desabafou: “Foda-se, com sua licença meu capitão, mas ainda não estou pronto para morrer. Suspeito que o Jorge, aquele grandalhão de Freixo, vai desta para melhor. Ele que era homem para pegar num porco dos taludos e sozinho pô-lo no banco, está para ali a miar como um gato, sangrando das fuças como um coelho a quem lhe deram a cutilada final. E eu não estou para heroísmos destes. Eu quero andar por cá durante ainda mais algum tempo para ver crescer os meus filhos. Eu não tenho vocação para herói.”


O capitão Martins, ainda com o sorriso irónico nos lábios, olhou para o seu impedido e disse: “Tu juraste defender a ordem. E, deixa que to lembre, o nosso lema é: Pela lei e pela grei.” E o guarda Ferreira: “Isso foi noutros tempos. Agora o povo está demente. Não trabalha, berra a toda a hora, faz greve por tudo e por nada. E as pessoas dos partidos comportam-se como garotos. Colam os seus cartazes, rasgam os cartazes dos adversários, pintam paredes com os seus símbolos e com as suas palavras de ordem e apagam os símbolos e as palavras dos outros. Cada um diz que é mais revolucionário do que o outro ou que é mais democrata do que o outro. Mas, bem vistas as coisas, são todos iguais. Cada um quer que o seu partido chegue ao poder para mandar no povo e arranjar uns tachos para si e para os que melhor o serviram e servem. São todos fanáticos. Apenas se querem matar uns aos outros. E, à falta de outro inimigo mais à mão, agora juntam-se para bombar nos guardas.”


“Então desistes?”, perguntou o capitão. Ao que o guarda respondeu: “Desisto, mas desisto mesmo.” “Pronto, está desistido. Pretendes mais alguma coisa de mim?” “Sim, meu capitão, pretendo.” “Isso é que é falar. E o que pretendes tu?” “Ir-me embora. Aqui já não faço nada. Hoje perdi as esperanças em ser promovido. Por isso quero ir para a minha terrinha, que é bem mais calma do que este ninho de cucos. Lá os comunistas são meia dúzia de gatos-pingados que não fazem mal a uma mosca. Posso não ser promovido, mas também não corro o risco de ser morto à porrada ou à facada ao virar da esquina por um bando de energúmenos.” “Ao que sei por lá também são meio malucos.” “Diz bem meu capitão, são meio malucos. Mas aqui são malucos por inteiro.” “Então vejo que queres pôr-me a comer na messe dos oficiais.” “Ó meu capitão, sei que também já fez o pedido para ir chefiar o posto da sua terra. E para lhe cozinhar os pitéus peça à sua criada, pois fá-los tão bons ou melhores do que os meus. A rapariga é muito prendada.” “Ai Ferreira, Ferreira, desconfio que andaste lá por casa a sarandar nos dias em que eu e a minha esposa andávamos por fora.” E riram-se ambos e dois a bom rir. No final da conversa cumprimentaram-se como dois velhos amigos e cada um foi à sua vida. 


publicado por João Madureira às 07:00
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