Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XIII): os tagarelas e a eutrofização laranja

 

O ano vai seco. Mesmo muito seco. Não tem chovido coisa que se veja. Possivelmente a culpa é do engenheiro Sócrates. Bem vistas as coisas, a culpa só pode ser dele. Este governo (ai como as palavras estão gastas) não o diz, mas insinua-o.

 

De facto tem de haver um culpado. Até para a culpa não morrer solteira, pois com este executivo (ai como as palavras dizem coisas que não querem dizer) todos nós somos culpados pela grave situação social, económica e financeira do país.

 

Lá chover não chove, mas o país mete água por todos os lados. E não só mete água. Mete pena. Mete muita pena. Mete dó.

 

E não é só o país que mete dó. Chaves segue-lhe o exemplo. Até o Tâmega mete pena. E já mete pena há muito tempo.

 

A verdade é que para tentar remediar o estado lastimável do rio, a anterior autarquia mandou fazer o célebre espelho de água entre pontes. Ou seja, alindou centenas de metros mas esqueceu-se, ou não teve tempo, de arranjar vários quilómetros a montante e a jusante que entristecem os flavienses mais atentos e amarguram quem nos visita.

 

A atual autarquia flaviense não tem feito outra coisa que não seja varrer o lixo para debaixo do tapete, como se o espelho de água resolvesse os problemas estruturais das margens e do leito do rio. É este espírito de novo-riquismo que nos continua a fazer empobrecer a cada dia que passa.

 

Enquanto olhamos entretidos para o espelho de água, o rio continua a definhar, a agonizar, a poluir-se e a morrer mais um pouco todos os anos.

 

Por vezes, as autoridades regionais ou nacionais fazem que se condoem com este estado de coisas e vêm até a “província” dizer que dizem e fazer que fazem. Vêm tagarelar.

 

Para isso é são que pagas, desculpa-se alguém por nós.

 

Há meia dúzia de semanas vieram até Chaves uns pândegos participar num fórum regional com a intenção de “potenciar a sustentabilidade dos recursos hídricos”, no âmbito do Plano de Gestão das Regiões Hidrográficas do Norte, por obrigação legislativa europeia.

 

Vieram até cá e disseram coisas tão relevantes como “a Veiga é uma massa de água que está a ser monitorizada, está em bom estado, mas é preciso prevenir, controlando as descargas de resíduos e a poluição difusa”.

 

Isto já nós o sabemos, vai para mais de vinte anos. Mas eles, os tagarelas iluminados que dirigem estes fóruns, descem à província e tratam logo de nos encher os ouvidos com lugares comuns e verdades “lapalissianas” como se fossemos parvos.

 

Disseram, para quem os quis ouvir, que vinham até nós para auscultar as opiniões, críticas e sugestões das entidades da região com responsabilidades no setor das águas, como as autarquias, o Ministério da Agricultura, a GNR, a EDP, as empresas gestoras dos sistemas de abastecimento e saneamento, bem como os empresários e os académicos. Ou seja, os suspeitos do costume.

 

É caso para dizer que eles ouvem, ouvem, ouvem e nada fazem. Ouvem, ouvem, escrevem, escrevem, falam, falam, mas, esses tagarelas de pacotilha, não fazem nada.

 

O rio a definhar há décadas, a morrer ali mesmo aos nossos pés e os tagarelas das instituições vêm até nós para “enriquecer o plano com a participação das instituições para sermos mais eficazes, uma vez que os recursos financeiros são escassos”. Isto porque temos de “cumprir as obrigações ambientais da União Europeia.”

 

Eles, os tagarelas, fazem os projetos, realizam fóruns, andam de um lado para o outro nos seus carros, elaboram estudos, gráficos e relatórios. E o Tâmega para ali a morrer há décadas. E eles, os tagarelas, a fazer que fazem, a dizer que dizem…

 

E o nosso rio a definhar como um peixe ferido de morte.

 

E reconhecem, os tagarelas, na sua sapiente erudição, que “embora o plano atribua uma classificação deficitária à qualidade da água do Tâmega”, como se isso fosse um novidade, “devido à eutrofização provocada pela falta de velocidade da água”, que mais não é do que uma crítica velada ao Espelho de Água, “a Veiga é uma massa que está monitorizada”, etc.

 

E fazem-se estes senhores tagarelas pagar muito bem para dizerem aquilo que todos já sabemos há tanto tempo.

 

E o Tâmega ali a nossos pés a definhar e a morrer mais um pouco todos os anos.

 

E estes senhores tagarelas a explicarem o óbvio, sem mexerem uma palha, a não ser dizer que dizem, e que “monitorizam”, e blá, blá, blá e mais blá blá, blá e “eutrofização” para aqui e “sustentabilidade” para ali e “massa de água” para acolá.

 

E ainda mais blá, blá, blá.

 

Depois, os tagarelas resolveram ir passear pelas margens do rio, lá para o lado das lagoas existentes no meio da Veiga. E constataram o óbvio. O lixo que por ali se acumula vai para mais de vinte anos.

 

O lixo. Toneladas e toneladas de lixo. Lixo e mais lixo. Lixo por todo o lado. Camadas de entulho e margens degradadas. As feridas evidentes da extração ilegal de inertes. Esse foi o cenário terceiro-mundista que encontraram: áreas enormes de depósito de lixo de toda a espécie.

 

A verdade é que durante a “década de progresso” de João Batista, e dos seus acompanhantes, a nossa autarquia fez que nada viu, fechou os olhos a uma realidade que até cegava, de tão evidente.

 

Um fechar de olhos irresponsável por parte da nossa Câmara, devidamente misturado com muitos interesses económicos.

 

Quase um cenário de guerra: Montanhas de entulho com mais de dez metros de altura, máquinas abandonadas, as lagoas a secarem, os peixes a morrerem, ali aos nossos pés, perante a indiferença de quem manda, de quem pode, e deve, alterar este rumo de coisas, de quem afirma que nos governa.

 

Mas, convenhamos, foi um técnico da Câmara que serviu de cicerone à visita ao depósito de lixo que é atualmente o Tâmega.

 

Nós nisso somos exímios: não temos pudor algum em mostrar as nossas chagas, em revelar aos outros o nosso subdesenvolvimento, como se fôssemos masoquistas e indolentes.

 

Nada do que ali se encontra se deve ao desleixo dos flavienses, mas antes à incúria de uns tantos que usam e abusam do que é de todos como se fosse seu, perante a indiferença da autarquia e o fechar de olhos das autoridades competentes.

 

Os senhores entendidos, e tagarelas, discutiram a vastidão e a complexidade das leis, as dificuldades da aplicação das diretivas, a ausência de cartografia e fiscalização das massas de água subterrâneas e a sobreposição de competências entre entidades.

 

Ou seja, discutiram entre si aquilo que são, tagarelaram numa postura autista, empurrando as culpas para o lado. Pois são eles, os tagarelas, que fazem as leis, são eles que fazem os projetos, os estudos, os fóruns, os passeios, etc.

 

Eles, os tagarelas, que são pagos para atuarem, queixam-se e monitorizam. Falam. Não agem, falam.

 

E o Tâmega a definhar, a morrer, perante a indiferença das autoridades, dos parlantes, dos suspeitos do costume. Dos tagarelas.

 

O lixo a acumular-se, o rio a definhar, os peixes a morrer, e eles, os tagarelas, a falar, a dizer que dizem, a falar que falam.

 

E o Tâmega a morrer.

 

O lixo a amontoar-se nas barbas das autoridades civis e militares, e os pândegos tagarelas lá de baixo a dizer que dizem, a falar que falam…

 

E o Tâmega a morrer, a desaparecer ali a nosso pés, num choro fino e manso que arrepia todos quantos nele tomaram banho, todos quantos o amaram e acarinharam.

 

O Tâmega a morrer, o lixo a asfixiá-lo, e os tagarelas das palavras e dos projetos, a dizer que dizem, a falar que falam. Ali numa cumplicidade enervante. Num fazer que faz provocador. Numa encenação impertinente.

 

E por falar em água, em poluição e desleixo, deixem que vos diga umas palavrinhas acerca das “comemorações” do 25 de Abril levadas a efeito pela nossa autarquia.

 

A cada ano que passa, cada vez mais as tratam como lixo.

 

Bem podem tentar meter o 25 de Abril no contentor do lixo dizendo que pretendem mandá-lo para a reciclagem, mas a tentativa só os menoriza.

 

As comemorações da nossa autarquia não tiveram rigorosamente nada de relevante. Foram apenas meia dúzia de iniciativas ridículas, sensaboronas, medíocres, irrisórias e irrelevantes. Tiveram até uma aula de hidroginástica na Piscina Municipal.

 

Por amor de Deus, tirem-nos deste filme.

 

A autarquia pode não gostar da data, está no seu direito democrático – e olhem que eu já vi militantes do PSD botar gravata preta, em sinal de luto, neste dia –, mas não podem, e não devem, ridicularizar e esvaziar de sentido esta data memorável. Olhem que o ridículo pode matar.

 

Se não gostam do 25 de Abril não o comemorem. Mais vale ser conservador coerente do que democrata fingidor.

 

A cada dia que passa, torna-se mais evidente que a democracia morre asfixiada pelas mãos ríspidas deste rancho de democratas inertes.

 

Oxalá não morram também eles asfixiados por causa da eutrofização que provocam nas águas quase paradas da nossa cidade e do nosso concelho, cada vez mais rarefeitas de liberdade, de esperança e de futuro. 


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Domingo, 29 de Abril de 2012

Partilha


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Sábado, 28 de Abril de 2012

Passeantes


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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

25 de Abril em Chaves


publicado por João Madureira às 22:22
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O Homem Sem Memória - 112

 

112 – Depois de malhar nos socialistas, de desancar a democracia, de execrar os parlamentos burgueses, de pregar a morte à reação, de defender a extinção da exploração do homem pelo homem, de exaltar a sublime ideia do socialismo científico, dos seus fundadores teóricos Marx e Engels, e dos seus obreiros superiores Lenine e Estaline, e do seu máximo defensor, impulsionador e divulgador em Portugal, o incansável camarada Punhal, passou à fase pragmática. E deu como único, derradeiro e exclusivo exemplo, a União Soviética. A querida e revolucionária União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, berço e alfobre dos líderes eternos do comunismo: Lenine e Estaline. E do prestigiado Brejnev.


E não poupou nas palavras, nem no entusiasmo, nem no engodo. A União Soviética, a dileta pátria de Lenine e Estaline, a querida e revolucionária União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, era o Farol do Socialismo, o Sol que iluminava o Mundo.


O camarada Punhal bem o afirmava. E afirmava-o de tal maneira que não havia forma de o contradizer. Porque a verdade não se contradiz, aceita-se tal como é: pura. Por isso é que é verdade, senão é outra coisa qualquer menos verdade. E, como muito bem ensinou Lenine, e afirma o camarada Alberto Punhal, só a verdade é revolucionária. Por isso é que o Partido é a verdade, porque só ela é revolucionária. E como o Partido é revolucionário só pode interpretar, difundir e defender a verdade. Toda a verdade. Nada mais do que a verdade.


E não se coibiu de vender a banha da cobra e insistir na característica visionária do venerável camarada Punhal.


A ele, ao camarada Punhal, ninguém o conseguia contradizer. Ninguém era capaz de tamanha ousadia, de tal atrevimento. Porque não se consegue contradizer a verdade. E o camarada Punhal – tal como o Partido, tal como Marx, tal como Engels e tal e qual como Lenine e Estaline –, só profere a verdade porque não sabe falar de outro modo.


“Ele, o camarada Punhal, conhecido na intimidade como o comunista de Cristal, apenas diz verdades, verdades tão verdadeiras como punhos, bem como punhos não porque esse é o símbolo dos socialistas traidores de Mário Soares. Punhal diz verdades como foices, como martelos, como estrelas, sim como estrelas refulgentes. Ele é, era e será, ó se será!, a estrela polar do Partido e do Movimento Comunista Internacional. É a modos como a lâmpada do farol do internacionalismo proletário, que no meio da tempestade marítima do capitalismo ilumina a humanidade.”


O seu, dele, do camarada Punhal, claro está, prestígio e a sua inteligência ímpares permitiram-lhe assistir mesmo às reuniões do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética, mais conhecido pela sua sigla de PCUS. O querido partido de Lenine e Estaline.


Com o seu entusiasmo de papagaio comunista continuou a dar largas à liturgia marxista-leninista.


“E viva o socialismo. Ou melhor: E viva o comunismo. O socialismo é uma fase de transição entre a sociedade burguesa, capitalista, decadente, e uma sociedade de novo tipo. Já o comunismo é o fim da decadente e maléfica sociedade capitalista e o início do paraíso na Terra. É uma outra sociedade. Uma sociedade novinha em folha. Como uma fábrica de frigoríficos… Não de frigoríficos não, senão lá vão de novo associar os comunistas à Sibéria e a essas falsidades reacionárias de que os revolucionários são frios e calculistas. E isso é uma tremenda, uma medonha, uma ignóbil mentira.


O comunismo é uma sociedade sobretudo parecida com uma fábrica de tratores, que podem andar devagar mas fazem-no com firmeza. Mas qualquer dia a URSS transforma-se numa fábrica de produzir aviões a jato rumo ao comunismo.


Por muito que custe à reação, os comunistas também são seres humanos, mesmo que por vezes o não pareçam. Também comem, bebem e amam. Sim, também amam, comem e bebem. Só que para eles a revolução está antes de tudo e depois de tudo. E, o que é ainda mais importante, no meio de tudo.


Um verdadeiro comunista só pensa em fazer a revolução que nos leve ao comunismo. Só come para fazer a revolução. Apenas bebe para fazer a revolução. Unicamente ama para fazer a revolução. Simplesmente trabalha para fazer a revolução. Somente estuda para fazer a revolução. Só se diverte para fazer a revolução. Porque uma revolução que não nos encaminhe na direção do comunismo não é revolução não é nada.


Os comunistas não querem apenas construir uma sociedade melhor do que esta. Os comunistas lutam por uma sociedade perfeita: o comunismo. Os comunistas não são gente de meias tintas. Por isso são superiores moralmente. A quem duvide recomendo a leitura do livro do camarada Punhal: “A Moral Superior dos Comunistas”.


Sim, os comunistas não são gente de meias tintas. Por isso são moralmente superiores a todos os outros. O nosso símbolo é a foice e o martelo, o símbolo sagrado da aliança operária e camponesa. A nossa bandeira é vermelha e nela está inscrita uma estrela amarela como símbolo do internacionalismo proletário. E está tudo dito.


Nós não nos escondemos atrás de um punho e também não nos encobrimos atrás de setas, ou chaminés, que apontam o céu. O céu dos pardais ou dos parvos. Ah, ah, ah! Nós não estamos aqui para enganar ninguém. Nós representamos o povo, nós somos os filhos diletos do povo.


Ao contrário dos católicos, que prometem o Éden numa outra vida, os verdadeiros comunistas planeiam construir o Paraíso na Terra.


Entendamo-nos, para que não fiquem dúvidas, o comunismo é melhor do que o Paraíso, pois o Paraíso é apenas uma ficção bíblica enquanto o comunismo é uma realidade científica provada por Marx, Engels, Lenine e Estaline.


Apesar do mundo estar uma confusão, ainda bem que existe a União Soviética. Se não fosse a URSS, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a corajosa pátria dos sovietes, dos operários e camponeses, o mundo não tinha farol, não tinha norte, não tinha rumo, não tinha futuro, não tinha nada além de escravatura, exploração, ignorância e doença. O mundo seria o reino das trevas.


Os camaradas que lá viveram são as melhores testemunhas do extraordinário milagre que se operou na URSS. E este milagre não se ficou a dever à intervenção divina, mas antes ao trabalho e à luta dos homens. Dos homens e das mulheres que deram a sua vida para que ali nascesse a verdadeira sociedade socialista a caminho do comunismo. Que venceram a burguesia, que derrotaram o Czar, que abateram o nazismo e Hitler.


A organização bolchevique derrotou os príncipes, os descendentes dos boiardos, a nobreza, os seus lacaios e os kulaks. E de uma sociedade praticamente feudal construiu uma das sociedades mais avançadas do mundo. Senão mesmo a mais avançada. Pelo menos em termos sociais e humanos.


Ali não existem classes, não subsistem exploradores, não existem explorados. Na URSS são todos iguais. Todos têm os mesmos direitos. Todos trabalham e ninguém faz greve. Fazer greve para quê? Na pátria dos sovietes ninguém explora ninguém. A exploração está proibida por lei. Lá todos são obrigados a ser felizes, a defenderem a igualdade, a serem cultos e saudáveis.


Na URSS, os seres humanos nascem iguais em direitos e deveres. Ali não se brinca ao socialismo. Ali constrói-se o comunismo como quem tempera o aço. Na URSS quem manda são os operários. Ou melhor, quem manda é o Partido dos operários, que é a vanguarda do seu povo, que é a nata do proletariado russo. E quem dirige o Partido é o Comité Central, que é o órgão mais importante que lá existe.


O Partido Comunista da URSS é um partido de novo tipo. Não é como os partidos que estamos habitados a ver. Lá o Partido manda em tudo. Mas em tudo mesmo. Lá não se brinca, nem com a economia, nem com as finanças, nem com a educação, nem com a saúde, nem com a felicidade das pessoas. Lá todos têm acesso aos bens de consumo e quase tudo é grátis. Então de cultura nem se fala. Lá a felicidade não é apenas um direito. É, sobretudo, um dever. Bem assim como a cultura, a saúde, a educação, etc. Podemos afirmar que a felicidade na URSS não é uma ilusão, é a nova ordem bolchevique.”


De seguida mandou distribuir umas revistas da URSS pelos assistentes e deu-lhe uma aula prática de felicidade. Na capa, como todos puderam reparar, um casal de operários soviéticos saía de uma fábrica a rir-se. Mas a rir-se mesmo, com todo o contentamento estampado no rosto. De mão dada e a rir empanturrados de felicidade comunista.


Lá o trabalho não era castigo, não era obrigação, não era dever. Era mesmo uma dádiva, um prazer. Na URSS todos trabalhavam para o bem comum. Todos eram felizes porque faziam a felicidade dos seus camaradas. Na URSS todos eram irmãos, todos eram iguais, todos eram camaradas, mas camaradas mesmo.


Seguidamente evidenciou algumas páginas interiores para comprovar a foto da capa. De facto, os operários não só saíam da fábrica bem vestidos, bem lavados e engomados, e os casais a sorrir e de mão dada, como entravam logo de manhãzinha a sorrir, a cantar ou a assobiar o Kalinka (aqui vos deixamos a primeira quadra em cirílico para desfrutarem: Калинка, калинка, калинка моя! / В саду ягода малинка, малинка моя! / Калинка, калинка, калинка моя! / В саду ягода малинка, малинка моя!), ou algo do género, trabalhavam dentro das fábricas com um sorriso rasgado na face, fossem eles camaradas operários trabalhadores operários ou camaradas operários trabalhadores dirigentes ou camaradas operários trabalhadores vigilantes ou camaradas operários engenheiros trabalhadores ou ainda camaradas operários trabalhadores do Partido que ali estavam, não para vigiar ou controlar, mas para dar ânimo, para incentivar, para glorificar o comunismo, o trabalho e a organização de todos os camaradas que sorriam enquanto trabalhavam devidamente organizados, esclarecidos e orientados.


Mas os risos e os sorrisos não acabavam aí. Ou melhor, todos os camaradas que apareciam na revista sorriam, estivessem eles nas fábricas, em suas casas, nas escolas, nos museus, na rua, nas filas de abastecimento para o papel higiénico ou para o sabão. Sorriam com toda a satisfação do mundo. O papel higiénico e o sabão podiam escassear, mas, como muito bem dizia o camarada esclarecedor, a URSS ainda não era a sociedade perfeita. O papel servia para coisas mais nobres do que produzir papel higiénico. Servia para imprimir livros, revistas e jornais, como por exemplo o Pravda.


Aqui o camarada fez uma pausa para beber água e teorizou: “Poderão os camaradas e amigos pensar que se resolve o problema utilizando as folhas do Pravda para a higiene pessoal. Mas quem é que se atreve a limpar o rabo ao jornal que é o órgão da classe operária e do Estado Proletário Russo? É como pensar utilizar A Verdade como papel higiénico. Alguém é capaz?


O José, na sua ingenuidade democrática, preparava-se para responder afirmativamente quando o Graça lhe deu um forte encontrão que o pôs confuso.


Prossigamos. Como o camarada esclarecedor ia dizendo, a URSS ainda não era uma sociedade comunista. O papel higiénico assim o demonstrava, mas caminhava nessa direção. Ainda não estava lá, mas caminhava nesse sentido. Ai caminhava sim senhor. Mas o caminho não era fácil.


Podiam ter problemas em arranjar sabão para tomar banho e em limpar o rabo com alguma comodidade, mas possuíam foguetões proletários, possuíam tanques operários, aviões e bombas atómicas comunistas tão perfeitas que defendiam a pátria do socialismo, das guerras e das pérfidas bombas atómicas capitalistas.


Já um pouco cansado, o camarada esclarecedor deu por terminada a primeira parte da sessão, pôs-se de pé e começou a gritar a sigla do Partido e a cantar a Internacional e o Prá Frente Camaradas, no que foi acompanhado pelos presentes com muito carinho, respeito e sofrível afinação.


De seguida foram distribuídas algumas fichas de adesão que muitos dos presentes preencheram como quem compra um bilhete de lotaria que os podia fazer ganhar o Paraíso na Terra. O José deixou essa felicidade para mais tarde. 


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Quinta-feira, 26 de Abril de 2012

Trilogia masculina


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Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

O Poema Infinito (97): o espanto de Noé

 

A tua língua tem o brilho doce dos frutos. Pausa. A tua língua sabe a mar e o teu sexo sabe a sol. Outra pausa. Sigo diretamente para o teu corpo envolto na paz dos campos. O mundo é agora uma enorme flor imprevista. Tens a mesma alegria azul do dia e o verde da vida e o largo espectro laranja do verão. Espero-te dentro da radiação expansiva da exaltação. Quanto mais te alcanço mais apuro a minha luz interior. O meu corpo no teu corpo tem a mesma incandescência do magma. É essa a sua invisível virtude. É essa a sua evidente expansão. Quando cai a noite os nossos corpos ajustam-se à sua transparente solidão. E nela se prolongam. E nela se expõem. E nela desenham a subtilíssima linha do amor. E o amor é outra vez um imenso e faustoso vagar. É devagar que te cavalgo pensando em corpos de palavras imensas. O espaço é uma ausência submissa. Recuperamos a terra antiga e o fausto iluminado da paciência. O sábio silêncio da dádiva volta a ser escrito e reescrito. Todo o orgasmo é o lume perfeito. Sinto reinar em mim o ponto íntimo do desejo. A audição atenta do teu ritmo cardíaco coloca paciência nos nossos gemidos. E os gemidos expõem-se com o seu fulgor específico. Agora sou outra vez o pastor de sentimentos. O verdadeiro pastor de epifanias. O alicerce tensíssimo do rigor da minha respiração entrecortada. E as imagens explicitamente sexuais transformam-se em borboletas de eternidade. Subsiste sempre uma passagem submissa. É essa a eternidade fugaz do dia que nos entra pelos olhos com a sua radiação atómica. O tempo sobe pelas imagens e define-lhe o infinito. Passamos do refulgente crepúsculo atual ao limbo da bruma do passado. As imagens vivas voltam a ser abstratas. Todas as frases sussurradas voltam a ser intensamente ambíguas e os corpos voltam a ser frágeis. E os olhares voltam a entrar na sua luz de espanto. Ambos nos aquecemos no nosso fogo místico. O teu sexo abre-se até ao génesis. Novamente a entrega volta a ser uma dádiva eficaz. Aí celebramos a sua narração. O prazer aceso é novamente um sinal de glória. Acolhemo-nos naquilo que nos falta. Escutamos o silêncio que cresce dentro de nós. A sua unidade profunda. O seu sofrimento espantado. Repouso no evidente prodígio transparente do orvalho. Essa é agora a tua pele. É aí onde sacio a minha sede. Na sedução empolgante do teu sexo subtil. Na sua humidade de língua doce. Pausa. No seu brilho de fruto. Na sua surpresa imensa. Na sua abertura santificada. Quando fecho os olhos tudo se ilumina por dentro. O amor é esse vagar eterno. Essa extensão de glória. Esse júbilo da existência. Esse ato de persistência que se lê como quem sonha. Voltamos em maré alta. Os verbos corporais desassossegam-se indefinidamente. O teu corpo. O meu corpo. Ainda há tempo. A tua língua tem o brilho doce dos frutos. Pausa. A tua língua sabe a mar e o teu sexo sabe a sol. Outra pausa. Noé que se espante de novo. Pausa (a)final.


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Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Promoções


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Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XII): António e os passarinhos

 

Desta vez tinha o firme propósito de escrever sobre os passarinhos, a primavera, as flores, a melopeia dos riachos e a música sinfónica ou coisa pelo estilo. Juro que sim. Olhando à minha volta, subiu por mim acima essa vontade de ser agradável aos estimados eleitores e de ser sincero com a mãe natureza. Juro que queria. Juro mesmo. Eu queria porque estava necessitado de fazer uma pausa em relação aos problemas da nossa cidade. Mas os tempos que vivemos não estão para distrações.

 

Mal me pus a escutar o meu entorno, em vez de ouvir os pássaros, chegaram-me aos ouvidos os gritos de protesto e indignação dos funcionários da Misericórdia de Chaves que já não recebem os seus salários há seis meses. Ensaiei concentrar-me nos pássaros e nos riachos mais a sua melopeia, mas as palavras dos manifestantes bateram-me mais forte. Sobrepuseram-se. Mas eu tentei de novo concentrar-me nos chilreios das aves: chriu, chriu, chriu…

 

Mas as palavras gritadas pelos manifestantes impunham-se: “Assim não pode ser, trabalhar sem receber.” E eu de novo a pensar na melopeia dos riachos e nos chilreios dos pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as palavras singelas dos trabalhadores da Misericórdia a baterem-me na cabeça como badalos aflitos: “Vivo numa situação muito complicada, já desliguei o frigorífico porque está vazio. O meu filho vai para a escola sem um cêntimo no bolso porque não tenho dinheiro para lhe dar.”

 

E eu a tentar concentrar-me na musiquinha suave dos riachos e das fontes e a tentar assobiar: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… na companhia das aves. E a realidade da vida dos meus conterrâneos a dar-me bofetadas geladas: “Passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso.” E os passarinhos lá nas árvores: chriu, chriu, chriu… e as águas dos riachos a sussurrarem limpidez e tranquilidade. E eu a tentar concentrar-me na primavera, no sol, a tentar desviar o pensamento. Mas a ingrata realidade a dar-me murros no estômago, a dar-me a provar o fel do desespero: “As pessoas começaram a ouvir falar de crise agora, nós já estamos a vivê-la há muito tempo…”

 

E os pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E a realidade: “Somos nós que estamos a segurar a Santa Casa, nunca abandonámos o serviço.” E eu a tentar assobiar como os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E os passarinhos a assobiar como os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas tranquilas dos riachos a correrem para o Tâmega. E a realidade pura e dura a dar-me bofetadas: “Há pessoas que não têm dinheiro para vir trabalhar, nem para comer e sobrevivem graças à ajuda familiar.”

 

E os pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E o senhor Provedor, militante ativo do PSD local e com responsabilidades políticas evidentes na maioria que governa a nossa autarquia, a assobiar para o lado, afirmando que compreende a indignação dos funcionários. E o Governo a dizer que disponibiliza as verbas mas a não transferir o dinheiro. E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E eu: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas tranquilas dos riachos a correrem encosta abaixo pelo meio das ervas e das fragas.

 

E o senhor Provedor, que apenas por mero acaso é um militante destacado do PSD flaviense, a mostrar-se impotente para resolver a situação e a visitar as bruxas de Montalegre em noite de forte chuvada. E Deus a desconfiar da santidade da Santa Casa. E eu: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o senhor presidente da Câmara a sorrir já não sabendo bem para quê, nem porquê. E o seu vice, que veio para os jornais afirmar-se como o provedor dos velhinhos, das mulheres desprotegidas e das crianças desvalidas, em parte incerta.

 

E João Batista a receber do sindicato dos trabalhadores a moção de protesto e a debater-se com a sua impotência operacional, com a insensibilidade dos “seus” governantes, com este pingue-pongue absurdo entre as culpas e a irresponsabilidade de uns e a inoperância de outros. E o João Batista a atrair a si os dossiês difíceis para libertar o seu vice para a campanha. E o António a dar de “frosques” enquanto os nossos munícipes passam as passas do Algarve.

 

E de repente os passarinhos levantam voo e vão chilrear para outras bandas. E eu sento-me num banco de um velho jardim destruído e tento lembrar-me da parte de uma peça qualquer de Bach. Eu gosto muito de Bach. Mas tenho dificuldade em apanhar assim de repente o seu cravo bem temperado. Ao longe observo os manifestantes a rumarem cabisbaixos a suas casas para provarem o sabor de amêndoa amarga das promessas de atenção dos nossos autarcas na sua infeliz Páscoa.

 

Entretanto abro um jornal da terra e dou de caras com o vice de João Batista. Afinal quem se quer bem sempre se encontra. Eu pelo menos encontro-o desde há uns meses a esta parte sempre nas páginas dos jornais tentando pôr-se em bicos de pés para dar nas vistas. Sempre em bicos de pés.

 

Numa página par do jornal, a subalterna em termos de importância de informação e publicidade, vem a notícia de que “a indefinição da posição da autarquia quanto ao GD Chaves levou a Comissão Administrativa do Desportivo a entender que não tinha condições para apresentar a candidatura que a levasse a assumir um mandato como Direção”. Concluo que a tal Comissão se fartou das belas palavras de João Batista, do seu sorriso militante e das inúmeras promessas por cumprir por parte da Câmara relativas a subsídios de atividades desportivas e a infraestruturas prometidas e nunca realizadas.

 

Leio depois que a Câmara de Chaves emitiu um comunicado reagindo às críticas da citada Comissão. Independentemente da letra do documento, que é uma afirmação de serôdios princípios, não vem assinado por ninguém. Ou seja, a posição é de toda a Câmara. Desta vez nem João Batista se mostrou disponível para arcar com toda a responsabilidade para cima das suas costas. E, estou em crer, o seu vice também fugiu dela com muita subtileza. Uma coisa é dizer-se que se faz. Outra é fazer. E o António é muito bom na primeira premissa, mas é péssimo na segunda.

 

No final, a tal CMC, não sabemos bem em nome de quem, diz que “não cede a pressões.” Deixem-me rir. Ai não que não cede. Não tem feito outra coisa desde que tomou posse. Sempre cedeu no interesse dos poderosos e no dos seus apaniguados. Só nunca cedeu numa coisa: na insignificância que permanentemente atribuiu aos verdadeiros interesses das nossas populações, nomeadamente na qualidade da educação, na defesa dos cuidados de saúde de todos os flavienses, na defesa da nossa agricultura e na defesa da cultura enquanto motor impulsionador de desenvolvimento. Relativamente à cultura sempre a tratou como um bem descartável, subsidiário, como um reclame luminoso que se põe numa montra para enganar pacóvios.

 

Na tal página ímpar, a guardada para as notícias mais importantes, aparece António Cabeleira e João Neves em distintas fotografias a distribuir medalhas a crianças que participaram num torneio de escassa importância, com o pomposo nome de “Torneio Pavão”. A notícia são meia dúzia de linhas. No entanto fotos são nove. E em duas delas aparece, e passo a citar: “António Cabeleira, vereador da CMC…” Desta vez o nosso estimado vice aparece a sorrir. Timidamente é certo, mas a sorrir. Para o semanário regional o António deixou cair o posto de vice para assumir o de simples vereador. Mas lá sobrevém sempre em bicos de pés, para se fazer notar.

 

Talvez porque lhe pese a consciência saber da situação dos flavienses que trabalham há meio ano sem receber um tostão e de nada ter feito para desbloquear a situação. Então a política apenas serve para entregar medalhas às crianças e dizer que vai fazer isto e aquilo para apoiar os idosos, as mulheres violentadas e as crianças desvalidas? E lá está o António a dançar o malhão em pontas para dar nas vistas.

 

Por cima de mim voavam novamente os pássaros a chilrear chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correr tranquilamente para o vale. E eu a arrepiar-me. E as palavras a baterem-me forte: “Assim não pode ser, trabalhar sem receber.” E eu a tentar de novo pensar na melopeia dos riachos, nos chilreios dos pássaros: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as palavras singelas dos trabalhadores da Misericórdia a reverberarem na minha cabeça: “Vivo numa situação muito complicada, já desliguei o frigorífico porque está vazio. O meu filho vai para a escola sem um cêntimo no bolso porque não tenho dinheiro para lhe dar.” E os pássaros a chilrear chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me forte: “Passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso.” E os passarinhos lá nas árvores: chriu, chriu, chriu… E as águas dos riachos a sussurrarem limpidez e tranquilidade. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me ainda mais forte: Há pessoas que não têm dinheiro para vir trabalhar, nem para comer e sobrevivem graças à ajuda familiar.” E eu: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me ainda forte: “As pessoas começaram a ouvir falar de crise agora, nós já estamos a vivê-la há muito tempo…” E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correrem tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira e o João Neves a distribuir medalhas às crianças para aparecerem na fotografia e a realidade a bater-me ainda mais forte: trabalhar sem receber… chriu, chriu, chriu… frigorífico vazio… chriu, chriu, chriu… sem um cêntimo no bolso… chriu, chriu, chriu… passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso… chriu, chriu, chriu… sem dinheiro para vir trabalhar, nem para comer… chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu…

 

E na página 24 e 25 do jornal uma enorme entrevista de António Cabeleira com o título de uma sua resposta: “Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenha a sua atividade…” E a puta da realidade a bater cada vez mais forte: “As pessoas começaram a ouvir falar de crise agora, nós já estamos a vivê-la há muito tempo…” E os passarinhos: chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E as águas dos ribeiros a correr tranquilamente para o vale. E o António Cabeleira: “Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenham a sua atividade…”  E a realidade dos trabalhadores a malhar forte: trabalhar sem receber… chriu, chriu, chriu… frigorífico vazio… chriu, chriu, chriu… sem um cêntimo no bolso… chriu, chriu, chriu… passei a Páscoa com 50 cêntimos no bolso… chriu, chriu, chriu… sem dinheiro para vir trabalhar, nem para comer… chriu, chriu, chriu… chriu, chriu, chriu… E o António Cabeleira: “Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenha a sua atividade…”  


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Domingo, 22 de Abril de 2012

Mulheres


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Sábado, 21 de Abril de 2012

Mulheres


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Sexta-feira, 20 de Abril de 2012

O Homem Sem Memória - 111

 

111- “Atenção. Camaradas atenção. Atenção camaradas e amigos. Camaradas, atenção, sentem-se porque vamos dar início à sessão de esclarecimento. Camaradas, nas cadeiras estão uns livrinhos que o Partido faz questão em vos oferecer. São o programa e os estatutos do Partido. Camaradas levem-nos e leiam-nos com muita atenção. Neles, camaradas e amigos, está resumido tudo aquilo que somos e tudo aquilo porque lutamos.”


A foice, o martelo e a estrela amarelas lá estavam cosidas no pano como uma bem-aventurança. O vermelho das bandeiras até doía. Tal e qual a capa dos livrinhos distribuídos. A primeira coisa que o José pensou foi que não gostava do amarelo e abominava o vermelho. E a palavra “camaradas” soava-lhe estranha. Tanta intimidade entre desconhecidos cheirava-lhe a promiscuidade. Mas tentou disfarçar. Só que aquilo que começa mal, tarde ou nunca endireita. Apenas mais tarde – tarde de mais, como veremos – é que se deu conta que nunca se pode estimar aquilo de que não gostamos. O cérebro é uma máquina infernal e o coração uma caixinha de enganos.


O camarada esclarecedor, um funcionário do Partido da era clandestina, ladeado por uns camaradas nevoenses mais ou menos conhecidos (ou mais ou menos desconhecidos, que é uma forma de dizer o mesmo mas por outras palavras), na cidade e nos arredores, esclareceu aquilo que pôde e soube, que era pouco e extraordinariamente monótono, mas em terra de calados quem decora os textos, e faz que acredita neles, chega sempre a chefe, ou a algo pelo estilo.


Os camaradas “ladeadores” do camarada esclarecedor postaram no rosto o ar mais sério deste mundo e assim compuseram um arranjo de mesa convincente. Bastava uma expressão circunspecta para fornecer aos camaradas elementos decoradores da mesa um ar suficientemente apelativo e ligeiramente revolucionário. Os camaleões, como todos sabemos, são animais de ambiência.


Dessa forma, todos os militantes camaradas que se esforçaram por corresponder à iconografia comunista, que foram exercitados a venerar no sombrio das suas casas, e no sigilo das reuniões exíguas e “conspiradoramente” clandestinas, compunham um ar beato e conformista com o revolucionário propósito de conferir algum conforto espiritual, e sentido social, a quem vivia rodeado de miséria e ignorância.


Mas estes últimos, como é fácil de deduzir, estavam nas tabernas a beber vinho até ficarem parvos, ou nos barracos a dormir a sesta ou entretidos a “caralhar”, foder e “filhadaputar” todas as frases que articulavam e a jogar ao chincalhão ou à sueca.


O povo é mesmo estúpido. Enquanto vivia a sua vida de alienação, outros, os tais camaradas, esforçavam-se, labutando sentados nas cadeiras dos Pintassilgos, por lhe traçar o destino, para lhe dar uma vida melhor, agitando as sentenças, gritando palavras de ordem, cantando hinos apologéticos, entusiasmando pequeno-burgueses que se sentiam divididos entre o proletariado e a burguesia.


Para ali estavam eles, pobres coitados, como o tolo no meio da ponte sem conseguirem definir o lado a escolher. Tanto os operários, como os burgueses, desconfiavam dos desgraçados pequeno-burgueses. E os camponeses mantinham-se na sua letargia de lagartos na toca.


Por cima de isto tudo encontrava-se o camarada esclarecedor que iniciou, como já sabemos, a sessão cumprimentando os camaradas e amigos que por ali estavam, todos eles com cara de caso e com o coração a modos que apertadinho.


Mesmo em liberdade, os camaradas comunistas continuavam desconfiados e os seus amigos que buscavam esclarecimento sentiam que ali não se respirava um ar de festa, mas antes se vivia um ambiente de serena ambiguidade. Uns sem saber bem o que dizer e outros sem atinar bem com o que pensar. Mas nada que assustasse um bolchevique português, nada que intimidasse seriamente a vontade e a determinação proletárias.


“Camaradas e amigos”, disse o camarada funcionário esclarecedor, e continuou a palrar daquilo que desconhecia, mas pensava conhecer e saber, porque lho contaram com redondas palavras de apreço e admiração os camaradas mais responsáveis, os camaradas mais esclarecidos, os camaradas mais viajados, os camaradas mais sofredores, os camaradas mais lutadores, os camaradas mais brilhantes. Enfim: os camaradas mais camaradas dos camaradas, que, por incrível que possa parecer, acamaradavam pouco com os outros camaradas.


O camarada esclarecedor esclareceu – para isso é que ali estava –, que o mundo se encontrava dividido entre exploradores e explorados, entre ricos e pobres… entre bons e maus. Entre os camaradas verdadeiramente camaradas e os outros. Porque camaradas havia muitos, até os socialistas do Mário Soares assim se tratavam. Mas camaradas camaradas só existiam uns, os comunistas e mais nenhuns. Mas, cuidado, nem todos os comunistas são verdadeiros, nem todos os camaradas são autênticos. Apenas os do “nosso” Partido o são.


Os grupelhos autointitulados de comunistas, que apenas constituem um disfarce da burguesia, não o são, nunca o foram e nunca o serão. Esses fedelhos são apenas pequeno-burgueses de fachada socialista, arregimentados pela burguesia para iludir o povo.


Por isso todos os que ali estavam tinham de fazer uma opção clara. Porque ou se estava com a revolução ou com a reação. Ou se estava com as forças do progresso e do futuro ou com as forças do imobilismo e do passado. Ou se estava a favor da História ou contra ela.


O caminho do futuro ou era o socialismo ou não existia. Mas, atenção, o socialismo que os camaradas comunistas defendiam não era esse socialismo da treta, esse socialismo burguês, esse socialismo subserviente que os socialistas de Mário Soares diziam defender. Nem o socialismo radical, palavroso e esquerdista apregoado pelos grupelhos autointitulados de comunistas, que apenas são um disfarce da burguesia e agentes da CIA. Não, esse socialismo não era socialismo nenhum. Era um embuste. Era uma traição. Era um engano. Era a cara e a coroa da mesma falsa moeda.


O verdadeiro socialismo era o socialismo de transição, um socialismo científico defendido pelos verdadeiros socialistas, os comunistas do Partido Comunista, e apenas por eles, pois um socialismo que se ficava apenas pelo socialismo e pela utilização da palavra socialismo, não era socialismo. Não era nada.


O verdadeiro socialismo era o que possibilitava, e apontava, claramente, a última etapa: o comunismo. Mas o comunismo verdadeiro, não o apregoado pelos esquerdistas, esses grupelhos provocadores autointitulados de comunistas, que apenas são um disfarce da burguesia. Esses fedelhos da CIA.


O socialismo que se limita a sê-lo, e se esgota nas palavras e na forma, é apenas uma mistificação burguesa, organizada com a única e exclusiva determinação de trair os proletários e a verdadeira revolução mundial.


Por isso existia o Partido, para organizar as massas populares e com elas lutar tendo em vista implementar em Portugal o verdadeiro socialismo, o socialismo científico, o socialismo a caminho do comunismo. Não o socialismo do punho. Mas sim o socialismo da foice e do martelo. O socialismo da estrela amarela. Não o socialismo radical, palavroso e esquerdista apregoado pelos grupelhos autointitulados de comunistas, que apenas são um disfarce da burguesia. Cuidado com eles. Muito cuidado, pois esses fedelhos, mesmo não parecendo, são agentes da CIA.


O socialismo do punho existia para travar a revolução, para desmobilizar os camaradas proletários, os camaradas operários, os camaradas soldados, os camaradas camponeses, as camaradas mulheres e os camaradas jovens estudantes. O socialismo apregoado pelos seguidores de Mário Soares era uma traição ao verdadeiro socialismo. O mesmo se podia afirmar acerca do socialismo radical, palavroso e esquerdista apregoado pelos grupelhos autointitulados de comunistas, que apenas eram um disfarce da burguesia. Esses ganapos, com toda a certeza, eram agentes da CIA.


Não, esse socialismo não era socialismo nenhum. Era um embuste. Era uma traição. Era um engano. O socialismo defendido pelos comunistas preconizava a abolição da sociedade dividida em classes, defendia a extinção da burguesia, do estado burguês, do capitalismo e da exploração do homem pelo homem.


“Amigos e camaradas”, continuou a monologar o camarada esclarecedor, “nós não defendemos uma democracia burguesa de tipo parlamentar.” E, perante o silêncio absoluto dos camaradas e amigos que estavam na sala, continuou a malhar nos falsos camaradas socialistas como em centeio verde.


Para ele, e para os seus, o parlamento servia apenas para iludir os portugueses. Esse tipo de democracia formal não tinha espaço para ser desenvolvida em Portugal.


A democracia a implementar em Portugal tinha de ser de tipo popular, uma democracia ditatorial. Uma ditadura democrática, apelidada pelos comunistas de ditadura do proletariado, que era a forma democrática mais avançada do planeta. Porque a democracia formal era uma ditadura da burguesia, enquanto a ditadura do proletariado era uma democracia de operários e camponeses tão avançada que não havia igual e por isso não admitia contestação e, aparentemente, apenas aparentemente, até contradizia e confundia as palavras e os conceitos. A revolução tem destas coisas: subverte tudo. Revoluciona tudo. Põe tudo de pernas para o ar. Por isso é que é revolução.


O José ainda pensou em interromper o solilóquio para questionar o camarada esclarecedor sobre a aparente incoerência das suas palavras que levava a uma contradição dos conceitos e que poderia conduzir a uma interpretação errónea da quantidade e qualidade revolucionária do socialismo científico. Mas o Graça, já há algum tempo militante do Partido, e portanto camarada do camarada, e apenas amigo do José, disse-lhe ao ouvido que era melhor estar calado, pois questões desse tipo podiam ferir a sensibilidade do camarada esclarecedor e comprometer a sua futura adesão ao comunismo.


“Os princípios básicos do comunismo não se discutem. Aceitam-se porque são científicos”, afirmou o camarada Graça para o amigo José, sem admitir contraditório. “Ainda agora aqui chegaste e já estas a contestar, já estás a questionar, já estás a criticar. Deixa-te de merdas e escuta a voz da razão.”


Nesse momento pensou que afinal o comunismo era também uma espécie de religião com os seus tabus, os seus dogmas e com os seus camaradas sacerdotes, camaradas bispos, camaradas cardeais e camaradas papas. E, o que era ainda mais preocupante, com os seus assassinatos em série. Na Igreja não se discutiam os dogmas, no Partido não se discutiam os princípios, nem os meios. Apenas os fins interessavam. Na religião o homem serve a Deus, no comunismo o homem serve o Partido. Agora, por favor, caros leitores procurem as diferenças objetivas.


O camarada Graça, tornou a olhar para o ainda amigo José, observando-lhe o rosto de perplexidade, e voltou a dizer-lhe que na revolução ou se está com o povo ou se está com a burguesia. Na revolução ou se está ao lado dos camaradas explorados ou ao lado dos infames exploradores. E quem se mete ao meio apanha com o fogo cruzado da artilharia revolucionária.


“Mas…”, tentou argumentar o José rezando baixinho algumas queixas e outras tantas perplexidades. Ao que o camarada Graça respondeu com a sua recente autoridade de comunista camarada marxista-leninista, estalinista e punhalista rigoroso: “No processo revolucionário em curso não há mas nem meio mas. Ou estás connosco ou estás contra nós. E desde já te aviso que quem está contra nós fode-se.”


E o José: “Se pões a questão nesses termos, deixa lá o camarada esclarecedor dizer o que diz que eu sou todo ouvidos. Já aqui não está quem falou. No comunismo é tudo muito direto ao objetivo. Eu agora já sou dos teus, vê se te acalmas camarada. Posso ainda não estar convencido, mas sinto que fui vencido. Avante camarada.” E baixinho: “Aiô Silver, avante!... camarada avante, junta a…” E todos na sala continuaram a cantar o hino do Partido como se estivessem no mês de Maria. 


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Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

Mulheres


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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

O Poema Infinito (96): flores mortas de desejo

 

Numa terra plantada de poemas eu abro os olhos na direção impercetível dos amantes que se amam com frases intensas de desejo e com olhares quentes e com sílabas enormes de volúpia. Assim cultivam a vida enquanto os homens sérios debatem as sombras e pisam o chão exíguo da sua verdade surda ao crepitar das lágrimas intensas dos desprotegidos. Mais ao longe o fogo da dúvida ergue o verão em pleno inverno. E os homens cruzam os braços e as mulheres plantam os pés na água pura da ribeira. A memória é uma alfaia permanente que lavra as manhãs frias. Agora os homens discutem com as mãos os versos de pranto que apertam as coisas firmes e que percorrem as sílabas ausentes do amor. As mulheres dançam com passos inconsistentes como se fossem feitas de vento e sussurros. Esta é a hora exata dos deuses se transformarem em seres mortais crescendo dentro do seu coração alienado. Uma música violenta percorre o ondular dos amantes que falam pelo meio de gemidos sustenidos. Eles são os instrumentos que se movem em rede bordando sexos periféricos com os músculos tensos de retórica animal. Por vezes sentem-se sós. Outras vezes ligam os seus motores eróticos e dançam até cair. E os seus lábios pegam-se e despegam-se como se não quisessem transitar para dentro dos espaços proibidos pela razão. Os seus olhos são os sinais límpidos que se tornam solenes na angústia e na liturgia do medo. Os corpos em movimento pronunciam sucintas flores com pétalas de vocábulos luxuriantes. Nas suas bocas transitórias uma confusão meiga mastiga mais um naco de desejo. Sobe por eles uma solidão doméstica libertando-os da matéria dos seus membros. Sentem-se ilhas no meio de um mar altivo que nasce todas as manhãs. Anjos com asas castigadas acordam resplandecentes de beijos neutros. Os homens sérios e indispostos caminham para trás cumprindo com a sua lei da inércia temporal. As mulheres pisam os séculos e os sexos dos violadores e dos conquistadores de corpos. Um sol inscrito na paisagem persegue os animais em cativeiro. E a guerra do silêncio suspende a sua fúria e tenta adormecer no seu leito de sangue. Os crentes enrolam-se na sua poeira do tempo e alimentam os seus profetas como se fossem galinhas poedeiras. Toda a lírica da razão da vida morre de encontro aos deuses gramaticais. A lógica fenece, o amor endoidece, as palavras escrevem-se abrindo o seu sexo divino. As palavras transformam-se em cristais e adormecem mortalmente dentro da sua luminosidade artificial. Tu dizes: a poesia é um momento. E eu acaricio a ondulação alquímica do teu corpo. Essa é a minha certeza. Esse é o meu mistério lavrado no chão da vida. 


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Terça-feira, 17 de Abril de 2012

Mulheres


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Segunda-feira, 16 de Abril de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XI): A Invenção Política - Chaves dos Pequeninos

 

Leio nos jornais nacionais a notícia de um advogado que inventava tribunais. Leio nos jornais regionais a notícia de que o Conselho Local de Ação Social aprovou o Plano de Desenvolvimento Social para os dois próximos anos. E leio ainda nos jornais regionais que a secção de Chaves do PSD apresentou uma posposta temática no último congresso.

 

Ou seja, tanto a segunda como a terceira notícias são variações sobre o tema da primeira: a invenção. A invenção política enquanto propaganda. A invenção política enquanto fantasia.

 

A “Casa de Abrigo” é a continuação da propaganda de António Cabeleira enquanto putativo candidato a candidato do PSD de Chaves à presidência da Câmara. É uma variação sobre o tema da caridadezinha servida em forma de apoio social de quem nunca fez nada em tempo útil para que os idosos, as mulheres e as crianças não sofressem com a pobreza, a desinserção social, o abandono e a violência doméstica.

 

Este tipo de iniciativas servidas nos jornais a conta-gotas são bem o espelho da demagogia, da falta de ideias e da carência de projetos do vice camarário, que já não sabe o que mais inventar para aparecer na sua postura de faz de conta. Verdade, verdadinha, o homem é mesmo um enorme vazio de ideias, um tremendo equívoco político.

 

Enquanto o António teimar eu também teimo. Um na cadeira do poder e o outro ao lado da cidadania. Por isso volto a insistir na indignação, volto a afirmar sem papas na língua: Cenas de falsa amizade pelos idosos, mulheres violentadas e crianças indefesas ficam muito mal a todos, mas combinam ainda pior com os políticos que sempre os esqueceram e apenas deles se lembram nos períodos pré-eleitorais.

 

Todas as pessoas de bem sabem que a autêntica grandeza humana está na prática da generosidade, mas sem condições. Na capacidade de dar aos que nada têm, não o que nos sobra, mas uma parte do pouco que temos. Dar até que doa. Mas não fazer política nem exigir prerrogativas com essa ação. E muito menos praticar a enganosa filosofia de obrigar os outros a aceitar os nossos conceitos do bem e da verdade.

 

A “Casa de Abrigo”, bem como o mesmo tipo de iniciativas já divulgadas anteriormente, são pura e simplesmente formas de tentar enganar os flavienses. São manobras de diversão patéticas, carregadas de demagogia insultuosa.

 

Nas palavras de quem o anunciou, “o Plano prevê 17 ações, cujo objetivo principal é promover o desenvolvimento social concelhio, bem como a inclusão social de grupos considerados vulneráveis”. Convenhamos que declarar isto e não dizer nada é a mesma coisa. São palavras ocas, revestidas de adjetivos enganadores e carregadas de inutilidade prática. Nada a que já não estejamos habituados por parte deste executivo camarário.

 

Verdade, verdadinha, se João Batista encobria, e ainda encobre, a sua falta de ideias por detrás do seu sorriso natural, o seu vice camarário limita-se a fazer política da forma mais primária, encostando-se à propaganda conservadora e miserabilista, ao vazio de projetos consistentes, à demagogia mais retrograda e provinciana, nada de acordo nem com a nossa tradição, nem com a nossa cultura de tolerância, honestidade e audácia.

 

António Cabeleira dá-se ares de capataz de província, um feitor azedo e rancoroso, capaz de dizer que pretende fazer aquilo que não foi capaz, sequer, de iniciar na última década que esteve no poder. Pusessem no seu lugar um mestre-de-obras e o resultado seria o mesmo. Só que dessa forma poupávamos tempo e dinheiro.

 

Este esbracejar para dizer que existe, este tentar aparecer nas fotografias dos jornais em pose de autarca, em vez de o auxiliar, prejudicam-no. Mas daí não viria mal ao mundo se isso não nos prejudicasse também a todos nós. E é aí que bate o ponto.

 

Mas também serve para mostrar a quem tinha dúvidas que o chefe político do PSD de Chaves faz lembrar o cromo televisivo que não se cala e não se cansa de gritar a sua frustração, afirmando que os políticos falam, falam, falam, mas não fazem nada.

 

Depois de meia página de lugares comuns, de demagogia barata e de um vazio de ideias completamente esmagador, o representante da autarquia flaviense anuncia que “o município está a equacionar o local para acolher estas vítimas, estando em aberto várias possibilidades”.

 

Então vem-se para os jornais assegurar que se tem um projeto e uma ideia para apoiar os idosos, as mulheres e as crianças e ainda não existe um lugar escolhido? Ou seja, quando toca a concretizar as ideias, lá saltam as dúvidas e as imprecisões, lá brota o vazio, lá resplandece a inutilidade, lá brilha a mais comezinha das demagogias onde as palavras – coitadas delas que não têm culpa de quem tão mal as usas e delas abusa –, assentam num vazio enorme e preocupante.

 

Mas não é tudo. Isso é que era bom. Alguém referiu aos jornais que aí vem de novo a sopa dos pobres. A triste e salazarenta sopa dos pobres. A que se seguirá, estamos em crer, o famigerado bodo aos mesmos. Aí estão os sinais do nosso retrocesso civilizacional. Aí estão eles de novo – esses democratas de pacotilha – no seu esplendor classista.

 

Com esta rapaziada da Câmara, todo o cuidado é pouco. Por isso é necessário estar com um olho no burro e outro no cigano.

 

Estamos em crer que António Cabeleira se apresta para fazer da nossa antiga e nobre cidade, a Chaves dos Pequeninos. A ser verdade, o nosso futuro, enquanto cidade e com o putativo candidato do PSD à Câmara, não existe. Só nos resta a caricatura: conformarmo-nos em ser cada vez mais a Chaves dos Pequeninos. E olhem que isto não é apenas reinação, é antes a realidade vinda desse homem que o PSD teima em impor como candidato. 

 

Agora vamos lá à auto propalada proposta do PSD de Chaves em congresso. E lá estão os três delegados de Chaves: João Batista, António Cabeleira e Nelson Montalvão. E lá estão eles de fato e gravata. E lá estão eles a mexer nos papéis no momento da fotografia, a dar-se ares de quem lê a proposta “Coesão Territorial e Justiça Social”. Convenhamos que o título até é pomposo. Mas o título não é tudo numa proposta. Pode até ser um redondo nada. Ou quase. E ela é isso mesmo: uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. É um faz-de-conta. Um ritual para marcar presença nos jornais da terra, claro está, porque no congresso coisas deste tipo passam sem que ninguém delas se aperceba.

 

E lá continuam eles, na sua inútil fixidez fotográfica, com cara de caso, a fazer que fazem, a dizer que dizem, a parecer que mexem nos papéis. Mas cá para nós que ninguém nos ouve, eles já os perderam.

 

Diz o lead da notícia que a tal proposta temática do trio flaviense assentava na isenção de portagens e nos benefícios fiscais como principais exigências. Pois se tinham essa intenção deram com os burrinhos na água. Em primeiro lugar porque andam atrás das propostas da oposição. E em segundo lugar porque o texto é críptico, exíguo e envergonhado. Como quem pede uma esmola. E se há coisa de que os transmontanos se orgulham é de não baixarem nunca a cerviz porque todos sabemos que quanto mais nos baixamos mais o rabo se nos vê. Como é este o caso.

 

Ora vejam lá os considerandos: “A melhoria da coesão territorial passa pela melhoria da coordenação entre políticas sectoriais e territoriais e por uma maior coerência das intervenções territoriais”, por isso é necessária “uma promoção do desenvolvimento económico e social das regiões mais fragilizadas”.

 

Ou seja, isto é nada vezes nada. É o primeiro nada do nada que se lhe segue. O outro nada é ainda outra vaguíssima referência às SCUT’s, referindo a coesão nacional, a localização e as alternativas. Ou seja, perante a necessidade de falar forte e inteligível para que os ouçam, optaram pelo gemido, pelo sussurro, pela mitigação dos problemas em nome de uma pretensa unidade partidária. E isso é um segundo exercício de vazio. Outro enorme e redondo nada. Mas não contentes com esta investida, passaram a referir a política fiscal, a gemer o argumento do desenvolvimento (talvez da falta dele), da competitividade das empresas, da inovação, exportação, criação de emprego qualificado e da utilização de tecnologias amigas do ambiente e da redução do valor do IRC. Mas afinal em que país, e em que região, é que estes senhores vivem?

 

Uma proposta deste tipo tem logo um tremendo problema: o equívoco. E esbarra num segundo: a realidade. E confronta-se com um terceiro: a responsabilidade. O que nos leva a um quarto: o comprometimento. Porque, bem vistas as coisas, quem é que governou o nosso concelho durante a última década? Quem é que se fartou de fazer-se de autista perante os problemas e assobiar para o lado? A culpa não pode morrer solteira e os flavienses já sabem quem são os verdadeiros culpados pelo nosso atraso endémico, pela inoperância da gestão autárquica, pela falta de visão, pelo equívoco das políticas sociais, económicas e culturais. E pelo desastre financeiro. Pelo enorme buraco que é a dívida da nossa autarquia.

 

Mas há ainda uma última coisa que define a inoperância, o equívoco e a timidez desta proposta: a ausência de qualquer tipo de referência aos problemas mais prementes da nossa vida enquanto comunidade regional: a Saúde e a Divisão Territorial. Ou seja, o encerramento dos serviços no Hospital de Chaves e a extinção da grande parte das nossas freguesias. E sobre isso, o trio de transmontanos e flavienses do PSD nada escreveram, nada disseram, nada propuseram. Calaram-se. E quem cala consente. E isso é que é preocupante.

 

Esse silêncio tem todo o peso da desistência, da abdicação, da subserviência perante o poder central e perante as estruturas nacionais e centralizadoras do PSD. Ora Chaves tem de estar acima dos interesses partidários, tenham eles a denominação que tiverem. Primeiro somos flavienses, depois transmontanos, em terceiro somos gente do Norte e só em quarto lugar é que somos portugueses. A não ser assim vão atirar-nos para o cesto do lixo. Por muito que nos digam que não.

 

Pelos vistos o PSD de Chaves já desistiu do Hospital e deu de barato a extinção das freguesias. Mas se o fez, fez mal. E estamos em crer que os flavienses, todos os flavienses, independentemente da sua cor partidária, jamais perdoarão esses gestos insensatos de abdicação.

 

Deixem que lhes cite uma frase paradigmática do escritor norte-americano Oliver Wendell Holmes: “Quando o cérebro humano se distende para abrigar uma ideia, nunca mais volta à dimensão anterior.”


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Domingo, 15 de Abril de 2012

Chaves - Arrabalde


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Sábado, 14 de Abril de 2012

Poldras de Chaves


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Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

O Homem Sem Memória - 110

 

110 – E dali se foi José até aos Pintassilgos, um velho teatro desativado na parte antiga da cidade, na companhia do Graça para começar a ouvir o que os defensores da classe operária tinham para lhe dizer. Não podia adivinhar que seria ali mesmo que se iniciaria a sua Via Crucis. O Matrix comunista esperava-o em silêncio.


Quando chegaram ao salão ainda ninguém se tinha sentado. Nem entrado sequer. Estavam todos a arranjar coragem. Olhavam uns para os outros como se fossem estranhos. Lá estranhos eram, apesar de viverem na mesma cidade. Proletários nem vê-los, camponeses nem um. Mas por ali estavam muitos dos seus representantes. Dos que orgulhosamente, sós ou mal acompanhados, se afirmavam seus mandatários ou seus companheiros de luta.


O mal dos proletários esteve sempre na transferência perpétua das suas justas aspirações para as mãos dos autoafirmados seus procuradores, companheiros de luta ou afins. Só que os seus máximos representantes, camaradas de luta e afins, não eram proletários. Nunca o foram. Nem nunca imaginaram sê-lo. Ou sequer parecê-lo. Vestiram-se com essa pele de cordeiro, mas por baixo eram raposas. Raposas famintas de poder e de protagonismo. As raposas podem mudar de pelo mas não conseguem mudar de hábitos.


Gostavam dos livros que se escreviam em nome dos espoliados, onde esses mártires sociais eram as vítimas inocentes dos vilões capitalistas, dos burgueses pançudos e incultos e dos capatazes façanhudos. Estimavam os programas políticos que se elaboravam em sua defesa. Simpatizavam com a iconografia, com a solidária ideia da defesa intransigente dos pobres e dos oprimidos. Apreciavam a qualificação sacrificial, mas a condição objetiva era boa na inspiração paradigmática própria para pintar quadros, compor canções, escrever poemas ou romances comovedores, esses dramalhões socialistas que envergonham quem os escreve e quem neles participa, mesmo que sob a forma de personagens redentoras. Além disso, essas coisas não eram para viver. Eram para ver, para ler, para cantar ou declamar. Para eles a pobreza era apenas uma forma de arte.


Os que por ali cochichavam, compraziam-se em sentir-se heróis de romances neorrealistas. Aspiravam escrever livros a favor dos explorados. Sonhavam redigir brochuras a denunciar as atrocidades dos exploradores. Mas não eram nem uma coisa nem outra. Eram as cigarras da revolução. E, como todos agora sabemos, as formigas justificam indefinidamente as cigarras. São elas que dão moral e sentido à história, mas são sempre elas as pacientes sofredoras. Nem as formigas podem alguma vez vir a ser cigarras, nem as cigarras podem transformar-se definitivamente em formigas. O mundo animal é mesmo assim. Cada qual na sua condição. É essa a lei da Natureza.


Os dirigentes dos autoafirmados partidos proletários constantemente se afirmaram formigas, mas sempre cumpriram com a função de cigarras. Continuamente representaram o seu papel de trágicos comediantes avulsos.


Uma coisa é passar fome, não saber ler, ser inculto, viver dependente de toda a gente, cheirar a merda e conviver com o excesso de intimidade das famílias numerosas em espaços exíguos e mal ventilados. Sofrer com a pobreza, sentir-lhe o cheiro. Sofrer com inveja a falta das coisas boas. Outra situação bem distinta é comer e fazer atos de contrição solidários com os famintos. É ler e fazer que não se lê. É ter autonomia literária e ler para os outros aquilo que pensamos que eles querem escutar, que eles desejam entender, que eles necessitam ouvir.


Uma coisa é ser o juiz imparcialmente parcial, ou ser o advogado defensor de causas de terceiros. Outra bem diferente é ser réu. É ser vítima. Os seus defensores paramentam-se para participar na liturgia do engano. As vítimas rezam para que os tirem dos livros e dos filmes em que os colocaram. Rezam para que deixem de os envergonhar. Ninguém sente qualquer tipo de orgulho em ser um bardamerdas que trabalha muito e é explorado. Ninguém aprecia a exposição pública da sua menoridade, da exposição das chagas de pobreza, do abandono e da incultura.


Uma coisa é parecer querer sofrer. Outra, bem distinta, é sofrer sem tencionar parecer, sem fazer disso teimosia ou emblema. Sofrer mesmo.


Quem enche as prisões são sempre as vítimas da fome, da desigualdade, da discriminação, não os que cantam hinos em seu nome, que afirmam compreendê-los, que fazem alarde em afirmar que os desculpam. Uma coisa é ser o hipócrita que tem pena do ser humano que sofre. Outra bem distinta é ser a pobre criatura que sofre envergonhada a sua condição e ainda por cima é a vítima inocente da hipocrisia dos putativos defensores da classe operária e dos camponeses, mesmo que esse estatuto esteja envolvido na toga de um juiz, de um advogado ou de um dirigente político, sindical, ou até de um escritor que se esforça ao máximo por parecer aquilo que não é. O chefe político safa-se sempre. O escritor disfarça sempre. O proletário fode-se sempre. E por isso preenche o seu destino histórico, o de justificar a sociedade injusta em que vive.


As sociedades construídas, e justificadas, em seu nome foram historicamente as que mais os discriminaram, as que mais os exploraram, as que mais os reduziram à sua insignificância. Os explorados e famintos morreram às mãos dos seus defensores com o argumento de que os estavam a salvar. A morte por um ideal que os justificava foi a maior aberração do século XX. A Torre de Babel comunista, qual bomba de Hiroxima, matou o mais bonito sonho da humanidade, sem sequer parar para pensar.


O tal Partido Comunista Mundial matou mais gente que centenas de bombas de Hiroxima juntas. Mas o genocídio, como muito bem o definiu o camarada Estaline, passou à História como uma estatística. Convenhamos que essa estatística tem a dimensão dos Gulagues proletários e camponeses da Rússia Soviética e da China.

 

Uma sociedade construída sob o paradigma dos insolventes, dos descamisados, dos famintos e dos incultos, nunca poderia ter futuro. Ninguém consegue construir uma ponte apenas com o suor dos proletários, por mais que eles suem, ninguém consegue escrever um livro a pensar que os incultos o vão ler. Além disso, um proletário nunca conseguirá escrever um livro. Quando o escreve ou o lê com olhos de ler já não é um proletário. É uma outra coisa.


Os proletários só são explorados porque são proletários. E, entendamo-nos de uma vez por todas, qualquer proletário aspira a deixar de o ser. Não há nenhum proletário que deseje para os seus filhos a condição de proletário. Uma sociedade de proletários é uma aberração, é um absurdo, é o fim da História.


E não há nenhum registo histórico consistente onde se relate que o filho de um não proletário tenha aspirado e triunfado socialmente tornando-se proletário. Ora uma sociedade orgulhosamente proletária que sabe que só consegue triunfar e ter futuro se os proletários deixarem de o ser, é uma mentira medonha. É um anátema. É um engano ainda maior do que afirmar, e defender, que a sociedade capitalista é o futuro inteiro e louvável da Humanidade.


A condição de proletário é inseparável da condição de explorador. Por isso, e fazemos votos que nos contradigam, quando os proletários deixam de o ser, os capitalistas também acabam porque já não existe mão-de-obra barata para ninguém. Quando se extingue a exploração deixam de existir os protagonistas que lhe outorgavam a razão de ser. E sem razão de ser, a contradição extingue-se. E quando a contradição se extingue a justificação tomba por si. O ideal de uma sociedade proletária caiu quando, como muito bem a definiu Orwell, os animais, que eram todos iguais, passaram a ser uns mais iguais do que outros. E, caros leitores, quem não quer ser o animal mais igual de todos não lhe veste a pele.


Desculpem-me o atrevimento: Há por aí alguém que aspire a ser proletário? Qual de vós é que pretende ir para as fábricas trabalhar? Qual de vós deseja escrever um livro para redimir a classe operária?


Cada leitor deve tentar responder honestamente a cada uma das perguntas. Depois podemos falar em revolução.


Tudo isto, ou quase, o José pensou, ou poderia ter pensado, ainda antes de ter entrado no redil do comunismo. Ou imaginou que pensou antes de cair na armadilha da revolução. Esse passou a ser o seu Matrix. Mas ele, definitivamente, e para que não restem dúvidas sobre o caminho desta história, não era Neo. Ninguém se mete conscientemente na ratoeira. O melhor mesmo é pensar que esteve sempre consciente quando o levaram ao cadafalso. Lá chegado, não o enforcaram, não lhe cortaram a cabeça, apenas lhe amputaram uma das mãos, a direita, aquela com que escrevia.


Mas a história do que há-de vir ainda está por compor. Por agora vamo-nos concentrar na sessão de esclarecimento do Partido. A grande História faz-se destes pequenos equívocos, destas pequenas mentiras, destes sonhos enganadores. 


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Quinta-feira, 12 de Abril de 2012

Montanhas


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Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

O Poema Infinito (95): para sempre

 

Para sempre ficarás na minha boca e eu ficarei louco por ter entrado em contacto contigo e por ter fumado a tua respiração e ouvido os teus murmúrios e escutado os teus sussurros e inspirado as tuas ondulações e expirado o teu prazer. Volta o odor a folhas verdes, o céu e o seu azul, o cheiro a feno, o som das palavras que a tua voz atira para os remoinhos do vento. E os beijos crescem nas nossas bocas como pássaros loucos e abraço-me à volta do teu corpo. As árvores jogam o jogo da luz e das sombras e os seus flexíveis ramos balançam transmitindo a sensação de efervescência às colinas. O sexo sempre. Sempre o sexo. E o seu ímpeto procriador e o seu pormenorizado mistério e a sua firme eletricidade afetuosa e a sua invisível adequação. Creio em ti com a cabeça inclinada de rimas e com toda a música solta pelas células e abraço-te novamente sabendo que todo o excesso é um conflito e que toda a vontade é uma promessa insatisfeita. Mergulho a minha língua na tua língua e espero. Mergulho o meu sexo no teu sexo. E espero. E desespero. E espero. As ervas crescem dentro do seu verde totalitário. Eu sou de novo o filho de uma vontade inocente. Creio em ti, na tua alma humana. Finos e perfumados tecidos de desejo transpiram no regaço das mães. Das nossas bocas nascem agora raízes prematuras em busca do tempo que nos dizem perdido. E o que aconteceu à memória? E o que dela nasceu? Todo o mundo é o complemento do sorriso e da dor. Toda a vida é uma semente atómica. Agora creio nos desígnios alados dos bosques, na louca corrida da luz, na densa exaltação da simplicidade. Creio no desígnio dos lugares, nas velhas leis da modernidade, na vulgaridade da cultura erudita, na larga, na larguíssima recompensa da escrita, na redenção da leitura. E desejo o desejo das mãos que embalam rios e desejo que tudo seja de novo batizado e convertido à fé imensa da liberdade. Sei que dormes em mim e que me fazes arder de desejo como um archote sábio. Em mim dorme o tempo e o efeito da matéria e toda a música do vento e todo o júbilo dos vencidos e toda a sensatez dos loucos e todo o espírito triunfador dos falhados e toda a vontade dos desistentes e toda a heroicidade dos cobardes e todo o enigma da verdade. Esta é a hora das minhas inconfidências, por isso sofro o desalento das chuvas, por isso venero a indiferença da matéria e o desígnio dos deuses apócrifos. Abraço-te mais uma vez com o crescente desespero da noite que se afunda na luz das estrelas. Tento entrar no silêncio dos teus olhos que brilham por dentro. Fundo-me contigo enquanto um deus desesperado pensa na bondade da lei de uma imortalidade fatal. Agora sou eu quem recusa o vício da descoberta. No infinito, a palavra fé aceita a realidade da vida e da morte. Para sempre ficarás na minha boca e eu ficarei louco por ter entrado em ti. Dizes: cada migalha de amor é um milagre. Depois contemplamos o amanhecer. 


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Terça-feira, 10 de Abril de 2012

Amanhecer em Couto de Dornelas


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Segunda-feira, 9 de Abril de 2012

Da expetativa ao imobilismo (X): o sorriso da impotência

 

E lá aparece de novo João Batista nas capas dos jornais da região com a sua imagem de marca: o seu sorriso, que à força de tanto o usar já não sabemos se aquilo é a sério ou a brincar. Pelos vistos, e pelo abuso, é muito provável que seja sobretudo para fingir. Ou então, o que é muito mais grave, significa o sorriso da impotência política perante os factos. No entanto fica registado que JB apareceu a dar a notícia do encerramento de mais serviços na nossa cidade com um sorriso tão rasgado que até pensámos que era uma notícia favorável para a região. Mas não.

 

Isto agora de más notícias é sempre a seguir. Umas a seguir às outras. E o que ainda virá por aí de encerramentos e extinções. E o homem da propaganda do governo, que dá pelo nome de Relvas, lá está para o confirmar com outro riso nos lábios. Parece que pegou moda. Agora as más notícias dão-se com um sorriso no rosto. Antigamente chamavam-lhe a isso impudência, cinismo, desvergonha, hipocrisia, sadismo. Nos tempos que correm é a imagem de marca do PSD nacional, autonómico e regional. O país que se cuide, as hienas andam à solta.

 

João Batista, com a sua teimosia simpática e com a sua simpatia teimosa, lá nos vem explicar o inexplicável. Vem-nos dizer que a morte, nas urgências, de uma senhora de 79 anos põe em causa o atual modelo de prestação de cuidados de saúde. Com estas palavras, os flavienses ficam a saber que o seu presidente da Câmara, perante a adversidade e a desgraça, senta-se numa cadeira, convoca os meios de comunicação social e lá começa o seu rosário de queixas, queixumes e queixetas. Dá-nos música, de protesto, é certo, mas música. E lembra-nos que já havia dito isso anteriormente. E de que lhe valeu? De nada. Um enorme e rotundo nada.

 

Os encerramentos continuam a suceder-se no nosso concelho e a um ritmo preocupante. É o tribunal, é o hospital, é a fusão das escolas e dos agrupamentos, é a extinção das freguesias. A este ritmo, qualquer dia levam-nos as Caldas e o senhor presidente lá resolve convocar mais uma conferência de imprensa para, com o seu sorriso impotente, nos comunicar que os seus companheiros de partido lá da capital do país e os seus homólogos da capital do distrito nos surripiaram a nossa galinha dos ovos de ouro.

 

Está visto que um presidente deste tipo nos torna fracos. É a tal história do rei fraco que torna fraca a forte gente.

 

João Batista considera que o esvaziamento de serviços do nosso hospital prejudica duplamente os cidadãos de Chaves. Sim. E depois? Depois queixa-se que os de Lisboa são muito maus e que os de Vila Real lhe seguem as pisadas. Queixa-se e sorri. Sorri e queixa-se. E diz, que tal como havia dito, afinal isto ia dar para o torto. E lamenta-se. E sorri. E queixa-se: “Lamentavelmente veio a acontecer” uma desgraça. Uma senhora morreu. Ele já tinha avisado. Já se tinha queixado. Já tinha sorrido e dito que isto ia acontecer. Já tinha posto nas capas dos jornais os seus queixumes e plasmado seu sorriso impotente.

 

Mas, desculpe que lhe diga senhor presidente, não foi para isso que os flavienses votaram em si. Os munícipes votaram em si para agir, não para falar, não para reagir com palavrinhas mansas. Elegeram-no para os representar, elegeram-no para os governar, para os liderar, para os defender. E não se defendem pessoas com queixinhas. A queixa é a arma dos impotentes, dos que desistiram de acreditar e de lutar pelos seus direitos inalienáveis, como o direito à Saúde. 

 

O senhor presidente da Câmara de Chaves faz lembrar aqueles rapazes sem jeitinho nenhum para jogar à bola e que ninguém escolhe para a sua equipa, que quando se sente rejeitado, corre a casa a queixar-se à mãe que, também aflita, corre à loja de brinquedos e lhe compra uma bola nova das mais caras. Ele, pensando que tem o problema resolvido, corre até ao campo e pede para jogar em troca do empréstimo da bola nova e brilhante como a que se vê a rolar nos relvados dos estádios nacionais. Só que como não é a propriedade da bola a que define a qualidade do jogador, a sua equipa perde e lá vai ele para casa triste e abandonado. No dia seguinte a história repete-se: ninguém o quer na sua equipa.

 

E lá volta a história do costume. Ele oferece a bola em troca de ser escolhido para uma equipa. Mas ninguém o quer, nem com bola, nem sem bola. Quem joga a bola gosta de ganhar, mesmo que seja num jogo amigável. E todos sabem que com aquele jogador o esforço da vitória custa o dobro ou o triplo. Por isso ninguém o quer e abandonam-no, mais à sua bola, e vão para outro campo jogar com a bola velha e rota. Preferem uma má bola a um jogador mau.

 

Ora isto é na brincadeira, imaginem agora o que é ter à frente dos destinos da nossa cidade um presidente que não consegue inverter o sentido do caminho desesperante dos encerramentos sucessivos de serviços que acontecem em Chaves. Queixar-se aos munícipes não é solução, não resolve nada, não altera coisa nenhuma. Confissões públicas soam a impotência. Ele diz que a responsabilidade do falecimento da nossa conterrânea tem de ser apurada. Que vai haver inquéritos.

 

Pois é, inquéritos. Todos nós sabemos para o que servem os inquéritos no nosso país. Servem para serem deitados ao lixo. E a morte é uma situação irremediável. No entanto o nosso presidente queixa-se aos jornais e sorri. Fala de igualdade de direitos, de repensar e ponderar a reabertura dos serviços e sorri. Fala e nada diz. Sorri. Não age. Reage, queixa-se e sorri.

 

Mas o que já todos sabemos é que mais serviços vão encerrar, mais valências vão ser desativadas, mais dinheiro vai ser poupado nos serviços de saúde, justiça e educação para ser injetado nos bancos e para pagar os juros astronómicos à troika. É para o que serve o nosso Governo e, pelos vistos, a nossa Câmara, pois para pagar e calar. Para engordar as contas chorudas dos especuladores financeiros. O povo que se lixe. O povo que morra nas urgências, enquanto os políticos tentam definir onde uma pessoa com um ataque cardíaco deve ir morrer, se em Chaves a andar de ambulância ou em Vila Real às portas do hospital.

 

O senhor ministro da Saúde, colocado perante os graves acontecimentos, diz que vai apurar responsabilidades. Por seu lado, o nosso presidente da Câmara convoca os jornais e diz que vai fazer diligências. Diz que vai sentar-se em frente de algum funcionário menor de um ministério qualquer e queixar-se, lamentar-se e pedir desculpa por ser chato, mas tem de se queixar, pois é o que sabe fazer e o partido não o autoriza a mais. Reivindicar fica para mais tarde. A reivindicação não está posta de lado, diz ele, mas há que esperar. Esperar por quê e para quê? Pois para nada. O Governo manda, o partido assume e a Câmara aguarda. E aguarda sentada, que é ao que nos habituou.

 

O tribunal fecha, o senhor presidente sorri e queixa-se aos jornais, para lembrar que existe e que se queixa.

 

O Gabinete de Medicina Legal de Chaves encerra, e o senhor presidente convoca os órgãos de comunicação, sorri e queixa-se aos jornais, para lembrar que existe e que se queixa. Sim, está provado, os flavienses têm à frente do município um homem que se queixa, sorri, lamenta-se, sorri e torna a queixar-se.

 

As escolas fecham e os agrupamentos de escolas também, o senhor presidente sorri e queixa-se aos jornais, para lembrar que existe e que se queixa. Sim, está provado, os flavienses têm à frente do município um homem que se queixa, sorri, lamenta-se, sorri e torna a queixar-se. Fala e nada diz. Sorri.

 

Vinte e cinco juntas de freguesia vão ser extintas, o senhor presidente sorri e queixa-se aos jornais, para lembrar que existe e que se queixa. Sim, está provado, os flavienses têm à frente do município um homem que se queixa, sorri, lamenta-se, sorri e torna a queixar-se. Fala e nada diz. Sorri. Não age.

 

Pagamos no troço de autoestrada que nos serve as mais caras portagens a nível nacional, o senhor presidente sorri e queixa-se aos jornais, para lembrar que existe e que se queixa. Sim, está provado, os flavienses têm à frente do município um homem que se queixa, sorri, lamenta-se, sorri e torna a queixar-se. Fala e nada diz. Sorri. Não age. Reage, queixa-se e sorri.

 

E António Cabeleira, por onde anda o vice camarário de JB e putativo candidato do PSD à autarquia flaviense. Pois anda escondido. Quando as coisas aquecem o homem some-se. Ele apenas fala dos projetos, das obras, do faz de conta. O desistente João Batista tem agora o ónus das más notícias. Dando como certo que os flavienses ligarão as más notícias ao mensageiro que as dá. Mas talvez se enganem.

 

O Presidente e o seu vice agem como o polícia bom e o polícia mau nos interrogatórios. Ao João Batista toca-lhe vir para os jornais queixar-se, lamentar-se e desistir. E o António calado que nem um rato fica encafuado na cadeira do seu gabinete. A ver se ninguém dá por ele, se ninguém o questiona, se ninguém lhe pede uma palavra, uma tomada de posição. Afinal ele é que é o presidente do PSD em Chaves. E o António, calado que nem um rato, escondido atrás dos ofícios, das canetas, dos lápis e do candeeiro da secretária, pede a Deus que a borrasca passe. Só que a borrasca teima em não passar. A borrasca ainda está no início. Só que ele não a quer ver, não a quer ouvir. E ele lá continua escondido no seu gabinete, com o ouvido atento às queixas do seu presidente.

 

E lá me volta à ideia a frase antiga e cheia de simbolismo: um rei fraco faz fraca a forte gente. Raios partam a sorte. Esta impotência tem de acabar. Os flavienses não podem desistir. O senhor presidente da Câmara pode desistir, o seu vice pode desistir, os vereadores podem também desistir de lutar, de trabalhar, de reivindicar, de defender o bem-estar da nossa população. O PSD pode desistir, ou meter a cabeça na areia como a avestruz. Todos eles podem desistir da razão que nos assiste. Mas quem não pode desistir são os flavienses.

 

Todos sabemos, as nossas gentes não desistem quando são colocados perante as adversidades.

 

Perante a adversidade ganhamos coragem, ganhamos ânimo, força e razão. Contra a razão da força do Governo central, temos de contrapor a força da razão. E dos cobardes não reza a História. 


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Domingo, 8 de Abril de 2012

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Sábado, 7 de Abril de 2012

Cantar e beber


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Sexta-feira, 6 de Abril de 2012

O Homem Sem Memória - 109

 

109 – O pai do Fernando, já bem feitinho, mal chegou à porta de entrada e deu de caras com o José, perguntou-lhe: “O que te traz cá por casa, José? Já te zangaste com os teus amigos democratas-cristãos.”


“Olhe senhor Carvalho, não encontrei nenhum. E fartei-me de procurar”, admitiu o José. “Por isso vim jogar xadrez com o Fernando.” “Jogar xadrez com revolução na rua e a liberdade a passar por aqui? Deves estar é louco!”, disse o senhor Carvalho enquanto se ria ainda com mais prazer. Entretanto começou a assobiar a Internacional.


“Que música é essa, senhor Carvalho?”, perguntou o José a fazer-se de curioso. Ao que o senhor Carvalho respondeu com dois sorrisos, um nos lábios e outro nos olhos: “É o hino dos socialistas.” “Dos socialistas?”, surpreendeu-se o José. “Sim, dos socialistas. E até dos comunistas e dos anarquistas. É o hino de todos os revolucionários”, respondeu entusiasmado o pai do Fernando. “Então o hino dos comunistas não é A Verdade?”, perguntou de novo o José. Ao que o senhor Carvalho respondeu: “Sim e não. É verdade que A Verdade é o hino dos comunistas, mas unicamente dos portugueses. Já a Internacional é o hino de todos os revolucionários do mundo. Durante muito tempo foi até o hino da União Soviética. Por isso é que os comunistas se dizem seus proprietários, mas quem escreveu os versos que lhe dão corpo foi o anarquista francês Eugène Pottier, que havia sido um dos membros da Comuna de Paris. Em 1888, Pierre De Geyter transformou o poema em música. Contudo, na versão do PS, Mário Soares alterou alguns versos, e assim a letra é diferente entre as versões de A Internacional dos comunistas e a do PS. Mas mesmo sendo eu socialista, aprecio mais os versos da versão comunista. Ó Fernando pega aí na viola e toca a Internacional. Ó mulher vem aqui para ao pé de nós cantar A Internacional. Ó Abel, junta-te a nós e vem cantar A Internacional. Ó Angelina, vem daí cantar A Internacional connosco. Ó Celestino, chega-te para cá e vem cantar A Internacional…”


Mas o filho emigrante do senhor Carvalho perguntou antes de se juntar ao coro: “Qual versão, pai?” “Ora a versão original, a de Eugène Pottier”, informou o pai. Ao que o filho respondeu, meio a sério, meio a brincar: “A versão soviética não canto. Para mim a que vale é a de Mário Soares.” E começou a trautear: “Nem capital nem ditaduras, nem monopólios nem torturas, a vitória é de uma vontade, socialismo em liberdade…”


Então do outro lado da mesa, o coro começou a entoar A Internacional com tanto esmero que a todos, menos ao Celestino, pôs pele de galinha: De pé, ó vítimas da fome / De pé, famélicos da terra / Da ideia a chama já consome / A crosta bruta que a soterra… etc. e Bem unidos façamos / Nesta luta final / Uma terra sem amos / A Internacional.


Quando terminaram de cantar a cantiga mais em voga nos comícios dos diversos partidos marxistas e afins, ouviram debaixo dos seus pés o forte matraquear do cabo da vassoura do ex-bufo que, no andar de baixo, se indignava com o hino do partido que aprendeu a odiar como se fosse o domicílio de uma matilha de assassinos e ladrões.


Mas os revolucionários do andar superior não se deixaram intimidar pelas pancadas, pois o fascismo tinha morrido a 25 de Abril, e entoaram novamente A Internacional como se estivessem a marchar na Praça Vermelha caras ao inimigo, caras ao Palácio de Inverno, preparando-se para enfrentar a neve gelada e as hostes reacionárias do czar e dos seus lacaios: Cortai o mal bem pelo fundo / De pé, de pé, não mais senhores / Se nada somos neste mundo / Sejamos tudo, ó produtores…


Pelo meio da investida canora, o Celestino tentou ainda apaziguar os ânimos: “Deixem lá o homem em paz e sossego. A democracia é tolerância. De que vos adianta provocar o engraxador? Não será ele também uma vítima da fome?”


Mas o coro revolucionário nem sequer escutou o aviso e entoou ainda mais alto o refrão: Bem unidos façamos / Nesta luta final / Uma terra sem amos / A Internacional.


Vendo que o ânimo do seu dono estava à beira da catástrofe, o cão do engraxador, a expensas próprias, resolveu subir as escadas com a nítida intenção de vir ladrar e, provavelmente, ferrar aquela horda de mafarricos que punham a alma do seu proprietário no inferno. Só que a meio do caminho foi intercetado pelo cão da família Carvalho que, apesar de mais calmo e um pouco mais pequeno, não era cachorro para se deixar intimidar pela pretensa valentia do cão do ex-bufo. Ainda A Internacional ia a meio e já o cão do engraxador tinha metido o rabo entre as pernas e descido as escadas a ganir tão alto que até a nós, que não somos muito sensíveis ao sofrimento animal, nos meteu pena.


Enquanto no andar de cima a luta continuava, o engraxador disse para a mulher: “Vou à missa das seis senão hoje ainda faço uma desgraça.” À saída, vendo o seu cão a sangrar, foi-se a ele e encheu-o de porrada. “Deixa o pobre do animal, que não tem culpa nenhuma. Afinal apenas tentou defender-te”, disse-lhe a mulher. Ao que ele respondeu com um ódio supostamente fascista estampado no rosto: “Este cão só tem corpo. Até aquele merdas lá de cima pode com ele. Mais valia tê-lo afogado quando a puta da cadela o pariu.


No primeiro andar a luta tinha acabado com o triunfo das forças progressistas. As forças da reação tinham mais uma vez sido esmagadas com todo o ímpeto, com todo o vigor, com toda a pujança, com todo o ardor. Enfim, com toda a determinação. A Internacional tem destas virtudes, quando é cantada com chama faz sempre triunfar quem a entoa.


Finda a cantilena, a brigada revolucionária teve direito a um repasto condigno: presunto, azeitonas, pão e vinho. Vinho tinto, pois os revolucionários não bebem vinho branco. Especialmente quando é chegada a sagrada hora de manjarem a sua merecida refeição depois da luta.


O Abel, o fiel pioneiro da família, já um dedicado amigo e defensor dos direitos dos animais, foi à varanda e trouxe para dentro o cão. Todos lhe fizeram uma festa. O senhor Carvalho, alegre pela cantilena, e sobretudo entusiasmado pelo tinto, pegou no cão e sentou-o à mesa. O Abel, para não se ficar atrás do pai na homenagem ao valoroso cachorro revolucionário, pegou no seu lenço de pioneiro do Partido, autografado pelo camarada Punhal, que lhe foi oferecido pelo seu irmão mais velho, e colocou-o no pescoço do Retintim vermelho.


No meio da conversa, ao José deu-lhe para desconversar, como era seu timbre e feitio: “Não consigo perceber porque os autores dos versos dos hinos teimam em escrever coisas tais como: A crosta bruta que a soterra; ou, no nosso hino nacional: Dos teus egrégios avós. Deve ser para arreliar. É que além de pouco ou nada quererem significar, ninguém consegue cantar tais versos sem se entaramelar todo.”


“Ó José, porque é que és sempre do contra. A ti nada te serve. Que mania. Questionas sempre tudo”, disse-lhe o Fernando meio a sério, meio a brincar. “Ando a aprender a ser revolucionário. Já que por cá não existem democratas-cristãos e os socialistas não me querem. Só me resta o caminho do comunismo”, respondeu o José.


“Não andes tão depressa senão ainda podes cair. De democrata-cristão a comunista vai uma grande distância. E tu ainda não tens pernas para a caminhada. Deixa-te ficar pelo socialismo. Vai com calma”, avisou-o o pai do Fernando.


“Pois sim, senhor Carvalho. Se faz questão, vou voltar a insistir com os socialistas a ver se me aceitam”, contemporizou o José. 


Enquanto comiam e bebiam, acompanhados à viola pelo Celestino e pelo Fernando, atreveram-se mesmo a cantar muitas e variadas cantigas de intervenção. A que mais caiu no goto do José foi uma do Zeca Afonso onde se dizia: “Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já / Do branco ou tinto, se o velho estica eu fico por cá / Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar / De espada à cinta, já crê que é rei d'aquém e além-mar.


Pelo meio tornou a desconversar: “Não percebo nada do que ele quer dizer, mas lá que tem graça tem.” Então quando começaram a cantar: Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, Tiiiiiiiiiiiiii paraburibaie… Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, só não mijou nas calças com o riso porque foi rápido à casa de banho.


Quando cá fora fumava um cigarro na companhia do Celestino, lá em baixo na rua passou o Graça que o convidou para acompanhá-lo a uma sessão de esclarecimento dos comunistas. Virando-se para o amigo de fumo, disse-lhe se também queria ir. Ele respondeu-lhe que quanto aos comunistas já estava esclarecido de todo. E concluiu: “Esses a mim já não me enganam.”


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Quinta-feira, 5 de Abril de 2012

Canto


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Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

O Poema Infinito (94): a memória das mulheres inclinadas

 

As mulheres inclinadas lavam a roupa na pedra polida do tanque com as mãos enrugadas enquanto os seus seios soltos abanam dentro das blusas pretas. E ensaboam a roupa e gritam para os filhos e choram quando falam e riem quando falam e torcem-se quando torcem a roupa e suspiram e lançam imensas gargalhadas quando lembram os tempos da sua meninice. Mais logo as mulheres porão a roupa a corar enquanto os homens que vêm dos campos atrás dos carros, dos arados e do gado, fumam vagarosos cigarros feitos com as suas mãos grossas cheias de calos da enxada e com os dedos amarelos pelo fumo do tabaco. Nas poças dos caminhos, os girinos de caudas minúsculas perseguem a forma seguinte e no riacho as rãs esverdeadas lançam-se à água perante os gritos da criançada. Mais ao longe, cabras e ovelhas levantam o pó denso dos caminhos e fazem tinir as suas campainhas lembrando que o Natal já passou há muito e que outro virá em breve. E o calor começa a apertar e os patos debicam a lama à procura de alimento. Depois do jantar as mulheres falam muito. É quando falam mais. E os homens acabam de beber o vinho acre com muita lentidão enquanto enrolam mais um cigarro. Os homens calam a sua atenção. Baixam os olhos e calam a sua má sorte. E perseguem as suas mulheres com olhares ternos e disfarçados. E envolvem-nas com a intenção do desejo. E elas riem mesmo de costas voltadas. E bebem uma lágrima de licor. E voltam a rir, agora para os filhos que adormeceram no escano encostados uns aos outros. E outras mulheres, sentadas à porta de suas casas, envelhecem mais um pouco dentro dos seus escuros vestidos e por baixo dos seus lenços atados atrás da cabeça. E olham para longe, para muito longe, para onde não está ninguém, para onde começam a cintilar as estrelas que lhe fazem companhia nas noites de insónia enquanto os seus maridos tossem e ressonam e curam mais uma bebedeira azeda e rancorosa. E nos seus rostos sulcados por regos de assombro, as lágrimas escondidas começam a rolar como chuva ácida. E adivinham medos. E monologam abrindo ligeiramente as bocas desdentadas e lamentam-se e suspiram. E lembram-se sempre dos crisântemos de novembro. Sempre dos crisântemos de novembro que lhes cheiram a dor e a morte. Nas cortes por vezes tilintam os guizos das cabras e das vacas. As aves imobilizam-se nas árvores. Os corpos cansados procuram outros corpos cansados para se amarem dentro das suas possibilidades animais. Dentro do seu cio suspenso pela oportunidade. E os dedos de pele dura encontram pele mais mole. E os lábios acendem-se de calor e os sexos desejam-se e lutam. Depois do cruzamento, os casais falam baixinho, como quem reza a oração mais bonita do mundo. Por fim, os filhos de uma divindade que os atemoriza adormecem para mais um dia de trabalho. A mulher sonha com borboletas filiformes que sobrevoam os frescos regatos da sua infância. Os homens sonham com os torrões frescos da terra lavrada pelo pai enquanto sorri para o ruço. Noite dentro, nas gretas das pedras dormem os lagartos fascinados pelo frio. A paisagem fragmenta-se em cintilações de luar. O silêncio adquire a espessura do mistério da vida. Mais ao longe o moinho continua a moer o centeio na sua velocidade de água. Depois ladra o último cão e a aldeia adormece definitivamente. Não, não tenho medo de morrer aqui. Tenho é medo da memória.  


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Terça-feira, 3 de Abril de 2012

Vinhas


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Segunda-feira, 2 de Abril de 2012

Da expetativa ao imobilismo (IX): insensibilidade e mau senso

 

Eu começo logo o dia da pior maneira possível: lendo as capas dos jornais na banca do SAPO. E não há dia em que o Correio da Manhã não ressuscite uma velha notícia onde o engenheiro Sócrates não apareça referenciado. De facto parece que o bombo da festa de Vilar de Maçada tem o condão de tudo explicar, tudo justificar e tudo desculpabilizar a este novo Governo e a esta nova maioria.

 

É o desporto do momento: o tiro ao alvo chamado Sócrates. Falam da enorme dívida. Mas manda a verdade que se diga que a oposição da altura nunca exigiu menos investimento na educação, na saúde, na economia, na cultura, nas reformas ou nas autarquias. A maioria das vezes até dizia que o dinheiro era pouco.

 

Atualmente o nome do ex-primeiro-ministro é o íman que atrai todos os males do país, toda a sujidade, toda a adversidade. Sócrates explica tudo. Depois da desgraça da manhã, aí por volta das treze horas, outra começa quando se assiste ao telejornal. Desgraça que se prolonga para a edição da noite nos vários canais generalistas, nomeadamente a RTP, que aqui cito porque é paga com o dinheiro dos nossos impostos e por isso tem a obrigação de prestar serviço público de qualidade. Mas é o prestas. Ali as notícias preferenciais são os homicídios, acidentes e assaltos. Então se incluir mortos o espetáculo está servido.

 

Isto acontece durante a semana. Ao sábado o desperdício é ainda maior, pois compro vários jornais e revistas que servem, sobretudo, para aumentar a minha angústia existencial, como se ela não fosse já enorme. Por isso tento sorrir por cima da desgraça.

 

No Expresso vem a notícia de que são preciosos três juízes para julgar um roubo de um euro e sessenta cêntimos. Ainda na capa do mesmo semanário, Álvaro Santos Pereira pergunta: “Se eu fosse um ministro fraco, incomodaria tanto?”. Ora isto nem sequer é patético. É, sobretudo, anedótico.

 

Fico ainda a saber que o inenarrável Santana Lopes, sentado ao piano, “rejeita Lisboa mas está à espreita de Belém”, por isso já anunciou que vai escrever um livro sobre as eleições presidenciais. Para que não haja surpresas de última hora, o homem que já foi tudo dentro do PSD, diz-se admirador de… Mário Soares. Mas passo a citar, por causa das dúvidas: “A minha inspiração é o dr. Mário Soares.” Tento sorrir, mas como não tenho espelho por perto, não sei como é que me sai a tentativa.

 

Parece que quando o correram do Governo, foi aprender piano. Dizem na minha terra que burro velho não aprende línguas, mas pelos vistos pode aprender a tocar piano. Tento sorrir de novo, mas não sei como me sai esta segunda tentativa, pela mesma razão apresentada anteriormente. Concluo que tenho de rir para não chorar.

 

Já cansado do esforço, viro-me para os jornais regionais, mas ó desgraça das desgraças, desta vez nem uma única notícia trazem sobre a câmara de Chaves. Parece que os seus principais líderes se esgotaram por dentro da propaganda manca e atabalhoada das últimas semanas. Mas não é por causa disso que os estimados leitores ficarão em branco acerca do município e da sua atividade frenética. Era o que mais faltava. Por isso peguei em dois ou três jornais das semanas anteriores e fui respigar mais algumas notícias, ou pseudonotícias, relacionados com o nosso querido e estimado município. E fez-se logo luz.

 

Leio que a câmara flaviense substituiu cerca de 70 candeeiros no Centro Histórico. Parece que tiveram o condão de não agradarem nem a gregos nem a troianos, mas também a quem é que isso interessa. À Câmara desde logo que não.

 

O presidente da Câmara, posto perante o problema, explicou que se “aproveitou para substituir os candeeiros na totalidade porque economicamente é extremamente favorável à Câmara”, por causa dos subsídios. Parece que o regabofe continua. Gasta-se dinheiro para substituir uns candeeiros em muito bom estado por uns novos apenas porque há subsídios. E quem dá os subsídios? É a história da pescadinha de rabo na boca.

 

O dinheiro para estes projetos, com ou sem subsídios, vem sempre de algum lado, alguém paga a fatura. Ora adivinhem lá quem é? Por isso é que nos cortaram nos ordenados, nos subsídios de férias e de Natal, nos aumentaram os impostos diretos e indiretos, o IVA, a água, a luz, o pão, a carne, o peixe, o leite, a fruta, a eletricidade, a gasolina, etc. No entanto as autarquias portuguesas decidem continuar a deitar dinheiro à rua, continuam a gastar como ricos, quando estamos na penúria.

 

É a mesma coisa que quando queremos substituir uma lâmpada de um candeeiro lá de casa, mesmo que das económicas, e em vez de comprar apenas a lâmpada, compramos também o candeeiro com a desculpa de que temos desconto em cartão se o adquirirmos porque está em promoção. Mas se apenas necessitamos de uma lâmpada por que razão compramos o candeeiro? É apenas uma questão de economia. São os pequenos gestos que definem as grandes decisões.

 

E querem ver como estas coisas estão sempre ligadas umas com as outras. Leio também nos jornais que a dívida total da Câmara Municipal de Chaves, em 2010, era de 45 milhões de euros. Uma pipa de massa. Ou seja, o nosso município está atolado em dívidas. E a gastar dinheiro desta forma, caminha a passos largos para a insolvência. Além disso tem-se mostrado incapaz de executar receita cobrada que a aproxime do previsto no orçamento.

 

Segundo João Batista, estes enormes e preocupantes valores da dívida resultam de um forte investimento em obras no concelho onde se “deu prioridade às obras comparticipadas no sentido de aproveitar os fundos que estavam disponíveis, o que exigiu da autarquia um avolumado investimento”.

 

Pois é, vai-se atrás das obras comparticipadas e acabamos todos ainda pior do que estávamos, mais endividados e com os espaços intervencionados com qualidade inferior ao que eram. Para isso o melhor era terem ficados quietos. Para que raio gastaram rios de dinheiro a destruir o Jardim das Freiras e o Jardim Público, se esses espaços públicos ficaram pior? Porque levantaram o empedrado a Rua de Santo António para ficar substancialmente na mesma? Porque compraram aquelas feiíssimas cestas de plástico que resolveram despejar em cima dos passeios da mesma rua? Pois porque não sabem o que fazem. Não sabem o que fazem nem sabem o que dizem.

 

Senão vejamos. O senhor presidente da autarquia flaviense diz na mesma notícia, com o seu sorriso característico, que a dívida em 2011 até desceu cerca de 5 milhões de euros. E diz ainda mais, “que a realidade atual é diferente”. Mas com a dívida a cair, paradoxalmente, a Câmara por si gerida, para encontrar disponibilidade financeira, vai vender os ativos que detém na empresa Empreendimentos Hidroelétricos do Alto Tâmega. Então agora que começa a baixar a dívida é que vai vender os anéis.

 

João Batista justifica-se com esta operação “por ser, do ponto de vista económico, a melhor opção”, pois permite não parar as obras em curso. Ora aí é que bate o ponto. Vende a joia da coroa, a HEATB, para preparar as eleições para o António Cabeleira. Ou seja, a propaganda eleitoral do vice camarário vai custar aos munícipes flavienses a alienação dos pouquíssimos ativos que davam dinheiro à autarquia. Com a desculpa das obras, das tais obras que não adiantam rigorosamente nada para o nosso futuro, vão gastar 7 milhões de euros para encher ainda mais a cidade de betão armado e alumínio.

 

O senhor presidente refere que a outra opção seria o recurso à banca. Só que com os níveis de endividamento da autarquia flaviense não existe nenhum banco no mercado que lhe empreste dinheiro a juros comportáveis.

 

A mim ninguém me tira da cabeça que as obras que a Câmara vai executar até às eleições autárquicas são única e exclusivamente de fachada. O problema é que a campanha autárquica de António Cabeleira não vale tanto dinheiro, tanto sacrifício, tanto equívoco.

 

Os flavienses têm que começar a indignar-se. Campanhas políticas pagas com o dinheiro de todos nós são um atentado à democracia, ao bom senso e à liberdade. A cidadania tem de dar uma resposta adequada aos protagonistas de mais esta monumental asneira.


publicado por João Madureira às 07:00
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