Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

Conversa no jardim


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

O Poema Infinito (102): nunca mais

 

Transporto no meu peito a madre tradição, bem junto ao coração e nela caem cálidas lágrimas de paciência. Plantas frágeis nascem-me dos dedos enquanto as ideias mais fortes se moldam na forja das conotações. Musas enormes, como seios amamentadores, parem sonhos de linguagem e sonetos escritos com fios de fogo. A alma absorve a seiva da terra através dos poros e os deuses obscenos continuam a fazer contas de morte e salvação. Tenho saudades do sol dos piqueniques, da comida dos piqueniques, das conversas dos piqueniques e dos piqueniques e também dos sons deliciosos dos amantes que se afastavam dos piqueniques para fornicarem dentro da sua doce e carinhosa lascívia. E nós fazíamos de conta que nada se passava, que a arte da vida estava em chupar os ossos do frango e em lamber os dedos cheios da gordura. As mulheres trinchavam o cordeiro e afastavam as más memórias. E riam. E contornavam delicadamente a infância. E impregnavam o ar do seu cheiro a lugares macios. E apalpavam o pão para saber da sua evidência. E todos salivávamos quando víamos o polvo e o bacalhau fritos e sibilávamos banalidades doces e bebíamos copos de sumol ou de vinho tinto ou branco. Depois íamos chapinhar na água. E o tempo parava. E as coisas tornavam-se transparentes e os nossos sonhos colidiam no meio de palavras que pousavam suavemente nos nossos ouvidos. Depois invadia-nos um sono de aves e o vento dispersava os insetos e a erva e o pranto de nos sentirmos vivos e felizes como se isso fosse quase impossível em gente da nossa condição. E as lágrimas refaziam-se repletas de tempo. Lá mais para a tarde saboreávamos a fruta e colhíamos um a um os bagos dos cachos de uvas. E as nossas avós soluçavam memórias e faziam-nos festas antigas e riam sentadas em cima das suas esperanças já desfeitas. E perguntavam-nos coisas simples e dobravam os seus velhos fios de ouro com os dedos calejados. E mastigavam mais uma maçã ressuscitando temporariamente os seus mortos. Os nossos mortos. E piscavam os olhos lacrimejantes limpos pela tristeza do choro. E ficavam em paz dentro da sua melancolia densa. Nelas sentia-se romper mais uma raiz em busca de terra e água. E cada vez mais as suas lembranças subiam para os nossos ombros e entravam a medo no nosso coração. E os homens eram agora invadidos por uma solidão imensa e por isso bebiam o resto do vinho até só quase conseguirem dizer asneiras. E riam-se da sua própria estupidez. E a noite chegava e prendia-nos a todos à eterna saudade desse dia que nunca mais voltaria. Nunca mais. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Terça-feira, 29 de Maio de 2012

Homem inclinado


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XVII): António, o desistente

 

Quando alguém me comentou a forma como António Cabeleira agiu, e reagiu, na recente reestruturação dos serviços da nossa autarquia veio-me logo à ideia uma frase do brilhante livro de Caudio Magris, Às Cegas, que aqui deixo aos estimados leitores para reflexão: “Quem dá ordens ilude-se e pensa que comanda.”

 

É verdade que o vereador António quando dá ordens pensa que comanda, mas isso é apenas aparência. Tal e qual como quando fala aos jornais para nada dizer, ou então para confirmar que está num processo acelerado de abandono das principais promessas eleitorais que fez para estes últimos quatro anos de gestão autárquica laranja. João Batista faz de cego e mudo e o seu vice desempenha o papel de surdo. A peça encenada sugere muita, mas mesmo muita, confusão.

 

Pois é, António Cabeleira foi recentemente enxertado no pelouro do desporto da autarquia flaviense. E fê-lo porquê? Está claro que não foi por causa da sua competência técnica e política em relação ao desporto. Nem sequer pelo seu amor ou dedicação ao desporto. E muito menos porque se sinta inclinado a abraçar esta pasta numa putativa vitória (o diabo seja cego, surdo e mudo, pois para atraso de vida já nos chegam, e sobram, os dez anos em que ele e João Batista, ou o João Batista e ele, geriram de forma infeliz e irrefletida os destinos da nossa cidade e do nosso concelho) para presidente da Câmara de Chaves.

 

A razão não é técnica nem de mera gestão administrativa, como ele tenta fazer querer durante a entrevista que concedeu a um jornal local. Não, a lógica é estritamente partidária. Pois este era um dos pelouros atribuídos ao seu rival Carlos Penas.

 

Desde que venceu as eleições internas do PSD, António Cabeleira não tem feito outra coisa que não seja afastar os seus rivais dos lugares dirigentes no partido e dos locais de direção efetiva na Câmara. E o homem não descansou enquanto não arredou para os lugares cinzentos e destituídos de poder efetivo, o seu grande rival.

 

E aqui para nós que ninguém nos ouve, a verdade é que João Batista tinha dado como adquirida a candidatura de Carlos Penas quando viu que António Cabeleira se tinha decidido pelo lugar de deputado por Vila Real. Mas o seu vice não se deu bem com os ares de Lisboa, pois lá não mandava em nada nem em ninguém. Ninguém o ouvia, ninguém lhe prestava atenção, ninguém lhe ligava nenhuma. No seu grupo parlamentar era o último da cadeia hierárquica.

 

Vendo-se triste e desamparado, pegou nas malinhas e retornou ao seu lugar de origem. E, a partir daí, tudo fez para derrotar o seu rival Carlos Penas. Tudo fez, e convenhamos, conseguiu. Até porque João Batista, qual Pilatos, deixou cair o seu delfim e a seguir lavou as mãos, desinteressando-se definitivamente pela qualidade, ou falta dela, da sua sucessão.

 

António Cabeleira, quando confrontado com a questão acerca da sua investidura como responsável pelo desporto, argumentou de forma técnica, com palavras pouco adequadas, acabando por admitir o pior. E passamos a citar: “Não houve qualquer análise de valia na área do desporto, pelo antigo vereador Carlos Penas, antes pelo contrário, pois é uma pessoa bem mais informada do que eu e com grande mérito no trabalho realizado.”

 

Mas como é “uma pessoa bem mais informada” do que António Cabeleira e “com grande mérito no trabalho realizado”, dá-se-lhe um pontapé no traseiro e põe-se a andar porque o vice de João Batista, que é bem menos informado e sem méritos reconhecidos nesta área, resolveu abocanhá-la com ciúmes do crescente protagonismo do seu rival.

 

Mas o que mais nos incomodou na entrevista do senhor vice, além de uma grande carga de hipocrisia política, foi a sua confissão de desistência relativamente a todos os projetos estruturantes que a Câmara tinha agendado relativamente a estruturas desportivas.

 

O homem congelou tudo. Desistiu do Pavilhão Multiusos, abandonou da ideia de um parque desportivo e abdicou da ideia da implementação dos sintéticos.

 

Ou seja, por causa de terem gasto o dinheiro que ainda possuíam em obras de mais que duvidosa qualidade, oportunidade ou necessidade, como o sejam os dois jardins destruídos, o parque industrial novo e abandonado, as vias intervencionadas e cestas e bancos espalhados a esmo nas ruas da cidade para atrapalharem ainda mais a mobilidade dos flavienses e dessa forma recompensar gentilezas e fazer de nós parvos, agora vêm para os jornais comunicar que desistem de tudo, ou quase tudo, relativamente a infra-estruturas desportivas que tanta falta fazem a Chaves. Isto para não falar no buraco que substitui o prometido parque de estacionamento no quarteirão do Faustino e a eterna promessa, sempre adiada, de reabilitação do antigo Cine-Teatro no centro da cidade.

 

A verdade salta à vista, a Câmara de Chaves está como o país, em pré-falência.

 

Quando o jornalista lhe colocou a questão sobre os desafios que assume enquanto gestor da pasta, António Cabeleira, respondeu de uma forma inenarrável: Se não “diminuir a atividade já é bom”. Ou seja, vai diminuir a atividade desportiva e satisfaz-se com isso. Promete-nos um regresso ao passado e quer que todos concordemos com a sua desistência.

 

A verdade salta à vista, com o António Cabeleira à frente dos destinos da Câmara de Chaves espera-nos a estagnação, o abandono e a desistência.

 

Em tempo de vacas gordas gastaram dinheiro à tripa forra em obras sem vulto, deixando as estruturantes para o período pré-eleitoral. Mas a porca sai-lhes mal capada. Por isso agora só lhes resta desistir. Então e a esperança? Então e o futuro?

 

Se um putativo candidato a presidente (o diabo seja cego, surdo e mudo, pois para atraso de vida já nos chegam, e sobram, os dez anos em que ele e João Batista, ou o João Batista e ele, geriram de forma desastrosa e leviana os destinos da nossa cidade e do nosso concelho) da nossa autarquia diz ainda antes das eleições que só nos resta o caminho da abdicação e da desistência, o melhor que tem a fazer é ir para casa calçar o chinelos, pôr-se a ler o jornal, aquecer-se à lareira, pois já não serve para mais nada.

 

Se quer ser eleito para desistir depois, então o melhor que tem a fazer é desistir já e deixar o caminho livre a quem tem projetos para o futuro, a quem não desiste de lutar por um futuro melhor para os flavienses.

 

 A verdade salta à vista, António Cabeleira não aprecia a nossa terra nem defende as nossas gentes. Não ama a nossa cidade, por isso não consegue projetá-la para ter futuro. Quando as coisas se complicam, o homem desiste.

 

A pensar em alguma coisa, o vereador António apenas pensa no seu partido e na manutenção do poder para satisfazer clientelas e promover amigos.

 

Sobre os projetos, diz que deixou cair o Pavilhão Multiusos porque apenas dará prejuízo. Afirma que é um sorvedor de dinheiro. Mas desde quando é que uma estrutura desportiva pública é feita para dar lucro?

 

Por essa lógica, estamos em crer que o senhor vereador e os seus colegas, e restantes prosélitos, porque dão um grande prejuízo à autarquia, também devem ser dispensados de funções, antes que arruínem de vez a Câmara.

 

Sobre vários projectos de parques desportivos afirmou que comprou os terrenos mas que devido à conjuntura económica os planos ficaram adiados. Desistiu também de vários campos de ténis, desistiu das piscinas municipais, dos relvados sintéticos. Desistiu de tudo. Só ainda não desistiu de querer manter-se à frente da Câmara. Mas essa era a sua melhor saída. 

 

A construir, diz que apenas se vê a fazer campos pelados. É caso para dizer que, nesse caso, o melhor será ele e os seus irem para lá jogar para verem como elas doem.

 

“Neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenha a sua atividade.” Ó senhor vice, ser vereador para prometer desistência, abandono e conformismo, o melhor é agarrar na pasta e ir para casa e informar alguns dos seus apaniguados que rumem aos seus postos de trabalho originais e deixem a política para quem sabe, deixem a cidade para quem a ama e deixem o desporto aos desportistas.

 

Nunca se esqueça que a crise que estamos a viver se deve a políticos idênticos, que gastaram aquilo que tinham e que não tinham e agora quem vai pagar as favas são os portugueses, neste caso concreto os flavienses, que nesse processo não foram tidos nem achados.

 

Pois é, o senhor vice tem o direito de desistir, tem mesmo o direito de vir para os jornais afirmar que tomou conta dos destinos de uma pasta camarária para desistir. Só não tem é o direito de nos querer convencer que todos temos de desistir porque o nosso estimado amigo desiste. 

 

Desista se quiser, como o fez enquanto deputado traindo a confiança que os flavienses, que em si votaram, depuseram no momento da sua eleição. Desista, porque é isso que sabe fazer enquanto político. Desista, mas deixe que aos flavienses continuem a ter uma réstia de esperança e por isso acreditem que os políticos não são todos iguais e que o nosso caminho é rumo ao futuro.

 

Pois é senhor vereador António, a nossa diferença está em que o meu amigo tem saudades do passado e por isso desiste. Nós, pelo contrário, não desistimos porque somos homens e mulheres de fé. De fé no futuro. Nós, ao contrário de si, temos é cada vez mais saudades do futuro, de um futuro liberto de políticos desistentes, dos quais o senhor vereador é um dos mais paradigmáticos representantes.

 

PS 1 – Lembram-se de eu dizer aqui que o vereador António Cabeleira tinha usurpado o lugar a Carlos Penas por causa do protagonismo. Se calhar alguns dos estimados leitores pensaram que era exagero. Manias minhas. Pois a prova provada, como diz o nosso povo, veio estampada na primeira página dos jornais, designadamente na apresentação dos “Chaves Beach Games 2012”.

 

Na fotografia da capa aparece o senhor vice camarário de mãos entrelaçadas e a sorrir para o fotógrafo, rodeado por diversas pessoas, nomeadamente por um seu colega de partido, que é para estas coisas que eles existem e fazem política à boleia do desporto.

 

Na notícia que acompanha a foto não encontrámos nem uma única palavra do senhor vereador. O que nos leva a concluir que apenas lá foi para aparecer na fotografia e, em consequência, nas capas dos semanários regionais.

 

A ambição política tem destas coisas, transforma homens simples em personagens fotográficas. Isto independentemente da qualidade, da verticalidade, da coerência, da competência, da seriedade e das ideias. Raio de política que transfigura as figuras públicas em “emplastros”.

 

PS 2 – Não é por nada, mas não ficaria de bem com a minha consciência se não dissesse aos organizadores que talvez não fosse má ideia que o evento desportivo que organizam se chamasse pura e simplesmente “Torneio de Futebol de Praia de Chaves”. Depois queixamo-nos que cada vez mais a nossa língua é desprezada, esquecida e rejeitada. Se somos nós próprios a renegá-la o que pensarão os outros povos de nós. Lembrem-se de Fernando Pessoa: a minha Pátria é a língua portuguesa. Sejamos, pois, patriotas. Podem estar seguros de que o torneio não perde qualidade por isso.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Domingo, 27 de Maio de 2012

Sorriso


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 26 de Maio de 2012

A menina do gato


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

O Homem Sem Memória - 116

 

116 – E presumivelmente melancólico avançou para o Novo Testamento. Mas passemos, com a vossa permissão, a mais algumas anotações. Estas feitas em papel branco e escritas à máquina.


Logo a abrir, o Evangelho de S. Mateus fala da genealogia de Jesus Cristo. É o romance mais pequeno e mais impetuoso de sempre, cheio de personagens que se sucedem a um ritmo frenético.


E lá está Abraão que gerou Isaac que gerou Jacob que gerou Judas que gerou Farés que gerou Esrom e assim sucessivamente até a Jessé que gerou o rei David que gerou Salomão e por aí fora numa sucessão arrebatadora de sequências ininterruptas, sempre no masculino, como se fossem os homens que parissem, até chegarmos a Jacob que gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.


Na parte relativa ao nascimento de Jesus é contada a famosa e enigmática história de que Maria engravidou sem se ter antes ajuntado com José, o seu legítimo e carnal esposo.


Passo a citar: “ Então José, seu marido, como era justo e não queria infamar, intentou deixá-la secretamente. E projetando ele isto, eis que em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de David, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo. E dará à luz um filho, e chamarás o seu nome Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.


Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo Profeta, que diz: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, que traduzido é: Deus connosco. E José despertando do sonho, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu sua mulher; e não a conheceu até que deu à luz o seu filho, o primogénito; e pôs-lhe por nome Jesus.”


Bem, esta segunda parte da história é, no mínimo, rocambolesca. Maria já estava grávida no momento do casamento. E isto é uma maldade divina. Ou seja, o Espírito Santo, que é uma figura estranha, soturna e enigmática, gerou Jesus sem dizer nada a Maria nem a José. Não disse nada a ninguém. Escolheu, decidiu e fez. Posteriormente confrontou-os com o putativo pai com o facto consumado. Podia ter discutido com José e tentar convencê-lo, pois não estou a ver José com tomates suficientes para contrariar Deus, mesmo que o pensasse. Tarefa mais árdua seria persuadir um ateu.


José, porque descendia de reis tementes a Deus, porque era obediente, porque tinha postura de estadista e uma mulher grávida pelo seu Deus, aceitou a fatalidade e soube-a aguentar em silêncio. Não sabemos se era humilde ou simplesmente parvo.


Em nome do seu povo, e da salvação do mundo, José não devia de ter dúvidas. Além disso, José era um homem que acreditava nos sonhos e que sonhava com coisas esquisitas. Não se percebe muito bem por que é o anjo quem aparece nos sonhos de José e não o próprio Espírito Santo, que não sabemos se é mesmo Deus, um seu disfarce ou um heterónimo.


Do que não há dúvida nenhuma é que José era mesmo um cavalheiro, pois mesmo antes de fazer juízos de valor, já tinha decidido deixar Maria sem dizer nada a ninguém.


No entanto registo uma incongruência textual que é a passagem onde se afirma que José é filho de David, quando um pouco antes Mateus, ou alguém por ele, escreveu que o pai de José era Jacob. José era descendente de David, não seu filho. Outra evidência é que o nome profetizado para Jesus era Emanuel, que traduzido, não sabemos de que língua, nem por que razão, queria dizer que Deus estava connosco.


Desfeito o imbróglio, ou confessado o pecado original da gestação de Jesus, por parte de Deus, sob o disfarce de Espírito Santo, José despertou e recebeu Maria, mas não se atreveu a tocar-lhe até ela dar à luz o seu filho. Curioso é o facto de a partir de José, a sucessão passar dos homens para as mulheres, sem razão aparente. Qual terá sido a razão para a mudança radical de paradigma? São insondáveis as escrituras do Senhor. Ou seja, Jesus veio interromper a cadeia genealógica de Abraão para se dedicar a fazer milagres e a iludir a humanidade com a mais que duvidosa promessa de eternidade. Manias.


Está visto que Mateus, tal como José, era o rei dos crédulos, ou, então, um excelente contador de histórias para o lar e para as crianças. É que logo a seguir fala dos magos do oriente, da fuga para o Egito e da matança dos inocentes, da volta do Egito, de João Batista, do batismo de Jesus, da sua tentação pelo Diabo e outras histórias pelo estilo.


O Evangelho de Mateus assemelha-se muito com a tradição árabe do conto de histórias mágicas e terroríficas. De certa maneira Jesus é descrito por Mateus como um mágico e um curandeiro que pelo meio das suas andanças vai dando conselhos, filtrando moral, quase como um lunático cuja missão é curar pessoas e protagonizar feitos que mais parecem guiões de banda desenhada.


Mateus chega mesmo a pôr Jesus a caminhar por cima das águas do mar como um vulgar herói de uma história para jovens.


Vê-se que Mateus fez de Cristo um homem de parábolas, muitas delas interessantes, mas muitas outras disparatadas. Também se torna evidente que Jesus era perito em dar sermões por dá cá aquela palha. Quando alguém o arreliava lá vinha o ungido com mais uma prédica.


Estava escrito nas estrelas que um homem deste género só podia acabar crucificado e morto. Morto pelos homens que dizia defender e ressuscitado pelos escribas que andavam à procura de uma história redentora.


Já o Evangelho de Marcos passa por cima de quem gera quem, para se fixar no essencial. Marcos era um pragmático, ou um censor (é há tantos censores espalhados por esse mundo fora), o que vem a dar no mesmo. Por isso inicia o seu evangelho a dar lições de moral, passando logo para o batismo de Jesus por João Batista.


Da família nada diz e sobre o resto nada acrescenta, limitando-se a seguir o roteiro normal de milagres, parábolas e sermões. É possível que o Evangelho de Marcos seja uma edição revista do Evangelho de Mateus. Ou seja Marcos, porque lhe custou a engolir a história de José, do Espírito Santo e da gravidez de Maria, suprime o início e fica só com a vida adulta de Jesus.


O Evangelho de Lucas tem um prefácio e uma pequena história introdutória. Dá nome ao anjo que anuncia diretamente, e de viva voz, a Maria que vai conceber. Ela, pobre coitada, postada diante de tal imagem resplandecente e perplexa com tão insólita notícia, pergunta ao anjo Gabriel na sua inocência de mulher: “Como se fará isto, visto que não conheço varão?” O anjo, que destas coisas pouco sabia, pois por definição os anjos não têm sexo, respondeu-lhe: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra.”


Neste evangelho José aparece ao lado de Maria sem se saber bem de onde, nem como, ou porquê. Ou seja, também Lucas evitou a história de um José enganado e aturdido que se desculpa com um sonho para aceitar a gravidez da sua jovem esposa.


Lucas é mais enigmático, pois coloca o Espírito Santo a descer sobre Maria e a virtude do altíssimo a cobrir a eleita do Senhor para a seguir gerar e parir o seu filho. Estranha forma de conceção, convenhamos. E suficientemente enigmática para deixar a gesta em aberto e o enigma por desvendar.


Posteriormente tudo se desenvolve com curas milagrosas, sermões e mais sermões. E na morte e ressurreição de Jesus. Está visto que para os evangelistas o importante era a morte e a ressurreição. O nascimento de Jesus apenas veio atrapalhar. Por isso é que os criadores do Super-Homem trouxeram o bebé de Crípton. Sempre é mais credível.


O Evangelho de João é o do Verbo, onde ele descreve o início da criação do Antigo Testamento de forma lacónica. A novidade é que logo no início do aparecimento da luz resplandecente aparece um enviado de Deus que dá pelo nome de João. Digamos que João não era nada modesto.


E depois volta a aparecer outro João, o Batista, que testemunha e declara coisas de forma imperial, como hoje se diz, “com o rei na barriga”, o que naquele tempo talvez se pudesse exprimir “com Deus na barriga”. Também foge como o Diabo da cruz da história bizarra do engano de José relatada por Mateus.


Talvez seja o Evangelho de João o que melhor resume Deus e o seu filho Jesus: O Verbo se fez carne. O Jesus de João é um homem humilde, bom pastor. Depois também volta ao mesmo: milagres, sermões e histórias incríveis de voos, mortes e ressurreições. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

O cowboy transmontano


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

O Poema Infinito (101): investigação variável

 

Hoje deitei-me num tufo verde de letras sequiosas numa área delimitada por uma circunferência fixa mediante um sistema regular de campos literais onde se monologava como quem semeia cortesãs redondas em textos epistolares. Toda a erosão se expande enquanto o sol de inverno cobre os livros penteados pelo sono das prateleiras. Dentro dos livros crianças choram a sua maturação fixa de frases perpétuas como se fossem celas eternas. Os céus outrora límpidos tornaram-se opacos. Amantes cegos copulam dentro da sua dimensão escura do amor. Os dias tornam-se carnívoros. Os rios descem as encostas pelos desfiladeiros rasos de teologia. As figuras dos calendários murcham e sufocam na sua raiva fixa. As palavras frias tornam-se incandescentes quando saem dos teus lábios e as frases quebram-se com um antigo sentimento de cortesia. As linhas do poema deslizam agarradas às mãos que são sonhos pequenos que desdobram paisagens e que bendizem os berços dos bebés que brincam com a luminosidade das palavras das suas mães. E as planícies dissipam-se em busca das estações translúcidas que amamentam as árvores que falam. A fantasia é agora um deserto. Os homens atravessam as paredes e sofrem a sua ilusão mortal. Deus aparece-lhes vestido de camponês e divide-os em intervalos mecânicos de chuva. Um tórrido silêncio rodeia-os de suor e memória. Os seus corpos são agora mastros e lanças e punhais vagarosos como olhos frios de medo. Corcéis digerem o seu desalento. Árvores de luto e resignação adoecem padecendo da doença dos gritos. Os cereais coligem frases de fome. Os textos adormecem prolongando o sono dos feiticeiros alquimistas. As crianças bocejam vocábulos descalços. O tempo faz a sua sondagem variável no corpo das crianças. E as crianças voltam a bocejar os seus vocábulos exíguos. Dedos de luz mutilam a noite. Devagarinho chega o realismo apalpando as palavras lisas que falam de pobres, lírica, emoção, democracia e de trabalho e da caligrafia rude dos velhos alfabetizados. E o poeta para na fronteira dos textos apócrifos. Ao poeta fecha-se-lhe a boca. E as frases juntam-se-lhe na cabeça aos molhos. E a sua língua arde. E a sua cabeça arde. E as canções antigas vêm-lhe morrer aos pés. E a sua memória acende-se. E o seu corpo enche-se de borbulhas que são palavras doentes. E os verbos pesam-lhe e os adjetivos doem-lhe. A ternura invade-o de fragmentos agressivos. Qualquer diálogo é agora um novo cansaço. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Dois meninos e um cão


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XVI): António, “Tu si que no valles.”

 

Depois de ler a entrevista da escritora Hélia Correia à revista LER confesso que fiquei um pouco atrapalhado. Desde logo por causa da desilusão que ela me provocou, mas também porque me fez ativar no cérebro uma luzinha indicadora de que algo estava incompleto.

 

Na entrevista, Hélia Correia passa o tempo falar de gregos e de gatos. De gatos e de gregos. De gregos. De gatos. Deduzo que são as suas paixões. Eu cá por mim passo bem sem elas. No entanto, lá pelo meio da entrevista, foi deixando algumas frases interessantes. Eu retive duas. Primeira: “Estamos a viver um período de grande decadência.” E segunda: “Estive quase a ser normal, imagine”. E foi esta última afirmação que me trouxe de novo à realidade.

 

Foi a “quase normalidade” que fez o link. Pode parecer estranho, mas foram estas palavras que me trouxeram de novo à realidade flaviense. Sugerem que alguém deixou alguma coisa por fazer. Eu talvez não seja. Então quem será o culpado? Bem, talvez o António. Esse senhor vereador que também chegou quase a ser normal.

 

Imaginem. Chegou a ser vice-presidente da Câmara e conseguiu mesmo exercer o cargo de deputado por uns meses. Chegou ainda quase a ser o candidato natural do PSD à autarquia flaviense. Chegou quase, mas não conseguiu. Transformou-se num candidato fraturante. Chegou ainda quase até a ser respeitado no PSD, mas não conseguiu o que à partida parecia ser o mais fácil.

 

Varias fações do PSD têm-lhe uma aversão muito próxima da dissidência. Outras fazem que o apoiam. Outras, ainda, fingem que não reparam na sua pouca apetência para o cargo, devido à sua manifesta incapacidade para gerir pessoas, motivar expetativas, orientar equipas, definir chefias, ponderar lideranças, organizar estruturas, criar consensos, imprimir uma cultura de qualidade às instituições, produzir ideias, promover a democracia nos atos públicos e atuar de forma transparente na gestão dos dossiês.

 

Se não fosse o aparelho, o António Cabeleira não conseguia sequer fazer-se escolher para presidente de junta. A sua incapacidade para criar empatia, a sua inabilidade para falar em público, a sua incapacidade para se fazer respeitar de forma natural, tornam-no num problema para o PSD e, o que é ainda mais grave, para o concelho. O PSD sabe-o e anda preocupado. João Batista sabe-o e tenta disfarçar. O arquiteto Penas sabe-o e ri-se de mansinho. Fernando Campos também o sabe e rejubila.

 

António Cabeleira, por muito que estrebuche e que apareça nos jornais a espreitar para a lente da sua fotógrafa de serviço, jamais poderá ser uma solução credível e respeitada para o problema da sucessão de João Batista. O vereador Cabeleira é atualmente o maior problema para que a sucessão camarária se faça dentro da família laranja. Não é que isso me aflija. Seria hipócrita se o afirmasse. Mas o meu respeito pela verdade exige-me que o diga com todo o desassombro.

 

A democracia só tem a ganhar quando os diversos candidatos a um cargo revelam qualidade técnica e política, tolerância, capacidade de liderança e cultura. Dou um folar do João Padeiro a quem conseguir responder afirmativamente sobre as qualidades atrás elencadas quando ligadas ao citado senhor vereador laranja.

 

Mas vamos lá à tal luzinha vermelha que se me acendeu no cérebro. O que me ficou a bulir no subconsciente foi a entrevista de António Cabeleira a um jornal da terra. A tal onde ele afirmou, enquanto os funcionários da Misericórdia gritavam bem alto a sua indignação exigindo o pagamento dos seus ordenados em atraso que lhe permitissem comer, vestir e calçar, que “neste período de crise que estamos a viver pretendemos que o número de clubes mantenha a sua atividade.”

 

Basta apenas o título para definir a entrevista. Ela é do princípio ao fim uma autêntica declaração de desistência. É um abandono e uma iniquidade. É, ainda, uma perfeita inutilidade argumentativa. É o grau zero da gestão autárquica e da sua política desportiva. É uma vergonha.

 

Mas vamos lá por partes. A dado passo, o senhor vereador António, faz esta declaração surpreendente relativamente à putativa reestruturação orgânica das distintas divisões da autarquia: “Não houve qualquer análise de valia na área de desporto, pelo antigo vereador dessa função, o arquiteto Carlos Penas, antes pelo contrário, pois é uma pessoa bem mais informada do que eu e com grande mérito no trabalho realizado”. É caso para gritar como João Neves: António, “Tu si que valles.”

 

Ora então vamos lá ao âmago da questão. A reestruturação foi feita com o único objetivo de tirar ao arquiteto Penas os pelouros que dão visibilidade e, para os mais vesgos nestas coisas, mais votos. Ou seja, o António Cabeleira (e o grito de João Neves a fazer das suas: António, “Tu si que valles”) exige a João Batista, como prova do seu apoio, uma reestruturação que retire ao antigo delfim do presidente os pelouros cobiçados pelo vereador António (e o grito de João Neves a fazer das suas: António, “Tu si que valles”), que insistiu, quase até ao delírio conspirativo, em se mostrar disponível para presumivelmente perder a Câmara de Chaves. Além disso, como não podia fugir à verdade objetiva, afirmou que o seu colega de partido e de vereação “é uma pessoa bem mais informada do que eu e com grande mérito no trabalho realizado.” É caso para lembrar que a hipocrisia pode ferir de morte a credibilidade de uma pessoa e a sustentabilidade de uma instituição.

 

João Batista foi forçado a demitir um vereador das suas funções para lá colocar um bem mais fraco, ou mesmo incompetente, nestas coisas do desporto. Ora isto é uma iniquidade. Ninguém afasta um bom vereador, e competente ainda por cima, para colocar no seu lugar um que nada percebe do assunto invocando o estúpido argumento de uma mais que duvidosa restruturação camarária.

 

Além disso, nesta putativa restruturação não foi só o arquiteto Carlos Penas que foi para a prateleira política. Foi ele e muitos dos mais competentes técnicos e técnicos superiores que trabalham na Câmara. Despromoveram-nos para promoverem os apaniguados, todos da confiança de António Cabeleira, que teve mesmo a ousadia de ir buscar amigos a outras autarquias para os pôr a chefiar divisões que desconhecem, ou quase.

 

Claro que este tipo de atitudes é legal. Mas o que nós questionamos é a moralidade desses processos. A coberto da legalidade também se cometem injustiças do tamanho da torre de menagem do castelo de Chaves. À mulher de César não lhe basta ser séria, tem de parecê-lo.

 

A mim o que mais me surpreende é João Batista entrar neste tipo de jogadas argumentativas. Promover amigos, gente de confiança partidária, numa instituição pública, que gere dinheiros públicos, obras públicas e serviços públicos, onde todos são funcionários do Estado e obrigados às leis patentes de independência, lealdade e competência, é de uma inabilidade política e social preocupante. Mas os atos têm de ficar com quem os pratica.

 

Mas, insisto, sujeitar a estratégia partidária a este tipo de jogos de bastidores fica mal a quem sempre afirmou conduzir a sua vida partidária e autárquica pela lisura, a transparência e a independência.

 

Eu não sou dos que confundem as pessoas por serem do mesmo partido. Para mim não são todas iguais. Nunca o foram, nem nunca o serão. Não sou um sectário. Eu sei que os vereadores do PSD não são todos iguais, que os militantes do PSD não são todos iguais. Nem nunca pus no mesmo saco o presidente João Batista e o seu vice camarário António Cabeleira (e o grito de João Neves a fazer das suas, a fazer eco: António, “Tu si que valles”). Mas confesso que nestes últimos meses de mandato autárquico, a atuação do senhor presidente me tem desiludido particularmente. Tinha-o por um homem frontal, mas descubro-o agora muito próximo da mesquinhez política, sujeitando-se a ser um pau mandado nas mãos do aparelho partidário dominado pelo seu vice. E isso não é bonito de se ver. Nem o PSD merecia isso, nem a Câmara merecia isso, nem a cidade merecia isso, nem os amigos lhe mereciam isso.

 

Jogar xadrez com pessoas não é uma atitude muito séria, quer do ponto de vista moral quer do ponto de vista humano. E a política não permite tudo, não legitima tudo, não desculpa tudo. Não é por se vir embora de vez que João Batista deve abdicar dos seus princípios morais, éticos e políticos. E, convenhamos, a cada dia que passa se torna mais evidente que a escolha de António Cabeleira (e o grito de João Neves a reverberar nas paredes dos gabinetes: António, “Tu si que valles“) para lhe suceder é um tremendo equívoco.

 

Existem qualidades que ou se têm ou não. E o António pode ser tudo, menos um líder. Pode ser tudo menos tolerante e tolerado. Pode vir a ser tudo menos um bom presidente da Câmara. Além disso, os tiques autoritários amplificam-se com o aumento de poder.  E quem o conhece de perto sabe muito bem daquilo que falo. Além disso, a ambição cega-o.

 

E bem pode João Neves gritar: António, “tu si que valles” que não é por isso que ele passa a valer aquilo que não vale. Que passa a ser aquilo que não é. A raposa pode mudar de pelo, mas não muda de hábitos.

 

Neste período de crise profunda que estamos a viver é bom que evitemos fazer ainda mais mal a nós próprios. E a eleição de António Cabeleira (e o grito de João Neves a fazer das suas e a tornar-se verdadeiro: António, “Tu si que no valles”) para a Câmara de Chaves pode transformar-se num mal desnecessário. Pode ser que as suas palavras de desânimo e desistência venham a provocar a desistência e o desânimo no nosso tecido social e humano.

 

A nossa cidade e o nosso concelho necessitam, mais do que nunca, de ter à frente dos seus destinos gente que os ame de verdade. Não gente que se contente com a fatalidade, que se remedeie com a mediocridade, que se alimente de aparelhismo e desistência, do amiguismo e da subserviência.

 

PS 1De início tinha intenção de falar da tal entrevista de que vos falei, mas dado o adiantado do texto, peço desculpa mas fica para a próxima semana. E até lá façam o favor de não desistir. Para desistente já basta o que basta. Os verdadeiros flavienses não sabem conjugar esse verbo.

 

PS 2Durante o passado fim-de-semana, os meus textos foram alvo de censura num grupo do facebook. Por isso é que já aqui escrevi que a raposa pode mudar de pelo mas não consegue mudar de hábitos. Este é o truque milenar dos prepotentes que quando não lhes agrada a mensagem resolvem matar o mensageiro.

 

Se lá por Lisboa o ministro Relvas consegue fazer chantagem sobre o melhor e o mais prestigiado jornal diário, imaginem o que se pode estar a passar em todo o país. Por isso aqui fica o meu apelo para que a cidadania em geral permaneça atenta e vigilante e para que particularmente os flavienses permaneçam de sobreaviso. A liberdade de expressão é um bem inestimável.

 

Mas aqui também fica o meu recado aos prepotentes: a mim não me calam. Podem-me censurar, mas não me calam. Disso podem estar certos. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 20 de Maio de 2012

No tear


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Sábado, 19 de Maio de 2012

No café


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

O Homem Sem Memória - 115

 

115 – “O comunismo é tão vantajoso e tão superior ao capitalismo que não só manda homens e mulheres para o espaço em maravilhosos foguetões, como envia mulheres e até cães. Ou melhor, cadelas.”


Esta idiotice pretensamente ideológica não lhe saía da cabeça. O camarada esclarecedor era mesmo um idiota chapado, machista e sectário como a puta que o pariu. O que causava estranheza ao José era o facto de pessoas pretensamente cultas e esclarecidas acreditarem em semelhantes idiotices. Bem vistas as coisas, os camaradas eram para ali um bando de crianças parvas enfiadas em corpos de adultos.


O mundo rege-se por duas religiões absurdas: a do paraíso no céu e a do éden na terra, que são cara e coroa da mesma moeda ideológica. Pelo meio fica prensado o martírio de milhões de mártires, que para uns são apenas almas penadas e para outros não passam de simples algarismos de uma estatística de horror.


“Os fins justificam os meios”, este foi sempre o lema dos exterminadores leninistas. “Dos pobres é o reino dos céus”, continuam a rezar os sorumbáticos papistas romanos.


Mas já que os tinha deixado a discutir em circuito fechado, o José não estava agora para pensar mais em cretinices e nos respetivos cretinos. Em casa tinha à sua espera “O Idiota” de Fiodor Dostoievski, um livro que lhe estava a bater forte, quase tão forte como a bela e enlouquecedora Nastácia Filíppovna arreava com o seu chicote em quem a não amava apaixonadamente ou a afrontava indevidamente. Nele, Dostoiévski constrói um dos personagens mais impressionantes de toda literatura mundial, o humanista e epilético Príncipe Míchkin, uma hábil mistura de Cristo com Dom Quixote.


Mas antes disso tinha de ler o Programa e os Estatutos, pois não podia militar no Partido Comunista sem conhecer os direitos e os deveres dos militantes e os princípios orientadores da organização proletária. Além disso, já tinha teimado na leitura dos diferentes programas partidários. E tinha mesmo lido aos pulinhos distintas passagens do livrinho sagrado do PC, consideradas pelos camaradas responsáveis como as mais relevantes. Mas ele, pobre coitado, não atinava com a sua relevância.


As leituras realizadas, em vez de o esclarecer, ainda o baralharam mais. Depois de cada leitura, chegava ao fim, isto quando não adormecia antes, a concordar com tudo o que tinha lido. Ou seja, se fosse a orientar-se pelos diversos programas podia ser militante, sem nenhuma hesitação, de qualquer partido.


Todos diziam querer, e defender, o melhor para o país e para a população. Todos falavam em liberdade, em igualdade, em fraternidade, e, pasme-se, em socialismo, progresso, desenvolvimento, modernidade, cultura, educação, pão, paz, povo, liberdade. E o programa comunista perseverava mesmo na defesa das “mais amplas liberdades” para o nosso povo.


José foi literalmente consumido pela síndrome do jovem piloto de aviões Nately, um castiço personagem do romance de Joseph Heller, Catch-22, e um dos melhores amigos de Yossarian, que passa a vida a apaixonar-se por todas as raparigas com quem se cruza e com elas pretende casar, apesar de todas serem honradas, e experimentadas, prostitutas.


Para os estimados leitores se inteirarem da honestidade intelectual do nosso querido personagem principal, posso informar-vos que o José leu e anotou a maior parte dos livros fundadores da cultura mundial, especialmente da ocidental. Posso ainda informar os prezados leitores que os seus apontamentos tinham uma caligrafia impecável nas dez ou doze primeiras linhas, mas a partir daí eram uns hieroglíficos que nem ele se atrevia a ler sem se arreliar de morte, por vezes quase até ao desfalecimento ou à cegueira temporária.


Da Bíblia copiou honradamente a parte que se segue (em itálico escrevemos os respetivos comentários, e que Deus, os anjos e os santos nos perdoem, se forem capazes e tiverem competência para tanto).


“No princípio, criou Deus os céus e a terra.” (E quem criou Deus? E depois da primeira pergunta respondida, coisa que, convenhamos, não é mesmo nada fácil de se arranjar, quem criou o criador de Deus? E quem criou esse outro criador? E assim sucessivamente. Nesta dúvida metódica podemos escavar até ao infinito do princípio. O infinito também como princípio é uma boa hipótese de trabalho. Um princípio infinito é uma ideia poética quase tão profunda como Deus, se não for ainda mais. Mas não quero pensar muito nisso senão dói-me ainda mais a cabeça.)


“E a terra era sem forma e vazia…” (Com estas palavras fica provado que Deus podia ser um bom progenitor mas era um mau oleiro); “e havia trevas…” (E como é que Deus via no meio de tanta escuridão? Teria visão de Super-homem?) “sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus…” (Então Deus tinha um espírito ou era um Espírito? Seria um ser em dois, ou dois em um? E a ser assim para que precisava Deus de um Espírito. Ou esta expressão não passa de um eufemismo. Mas se a bíblia foi inspirada, escrita, por Deus, porque raio se deu a este tipo de ambiguidades?) “movia-se sobre a face das águas…” (Aqui está uma expressão de singular carga poética. Disto gosto, da veia poética de Deus.)


“E disse Deus: Haja luz. E houve luz.” (Esta imagem de Deus como um vulgar eletricista não me cativa. É demasiado humana para fazer parte da criação do mundo. É vulgar. E Deus, que é único, não pode ser por definição, e condição, vulgar. Deus só pode ser extraordinário. Para ordinários estamos cá nós.)


“E viu Deus que era boa a luz…” (Ora aqui está uma enorme contradição, ou, se quisermos, uma infeliz redundância. Deus, porque o é, só pode criar coisas boas. Ou seja, se foi ele que criou a luz, ela só podia ser boa. Ou seria que mesmo ele desconfiava dos seus poderes? E ainda mais: mesmo antes da criação, Deus já tinha definido o bem e o mal. Ou seja, já tinha decidido criar homens bons e homens maus, já nos queria por a lutar uns com os outros. Fica pois provado que Deus era preconceituoso. E não me venham com a treta de que ele ainda não tinha conhecimento desses conceitos. Não podemos esquecer que a princípio era o verbo, ou seja: a palavra. A carne é posterior. E não nos podemos esquecer que Deus é, por definição, omnisciente e omnipotente. Ele, já naquela altura, tudo sabia. Ora isso não abona muito a favor de um Deus que é por definição um ente supremo e bom. Ou ainda melhor do que bom: ótimo.); “e fez Deus separação entre a luz e as trevas…” (Lá está ele a separar coisas que são por definição antagónicas. Se existiam trevas, e Deus criou a luz, estas duas realidades já estavam à partida separadas e por isso não necessitavam de ser apartadas. Uma só existe em função da outra. Deus, logo de início, mostrou-se redundante.)


“E Deus chamou à luz Dia; e às trevas Noite…” (Lá está Deus com a mania de nomear tudo. De explicar tudo. Só ainda não se deu ao trabalho de explicar a origem do universo. A sua origem. O nosso destino. O sentido de isto tudo. Para ele deve ser simples. E se assim as denominou, fê-lo em que língua?)


“E foi a tarde e a manhã o dia primeiro.” (A tarde e a manhã? Ou será a manhã e a tarde. Ou será ainda que a ordem substantiva não interessa a Deus? Ou será ainda que Deus confundiu a sucessão da sua luz? Primeiro o Sol a nascente, depois o astro rei a poente.)


“E disse Deus; haja uma expansão…” (Haja uma expansão, não será que disse “haja uma explosão?” Sempre era mais interessante do ponto de vista narrativo. E dava um filme do caraças nas mãos de Cecil B. DeMille.)


A partir daqui, e até à página 58 do caderno, quase tudo é ilegível.


Aí abandonou o trabalho sobre o “Velho Testamento” e apenas ia na segunda página da Bíblia. A muito, mas mesmo muito custo, ainda conseguimos decifrar a seguinte frase: “Abandono aqui este registo cruel porque não entendo porque Deus, depois de criar Adão a partir do barro e de criar a Eva a partir de uma costela de Adão e de colocar uma serpente a servir de Diabo, ainda condena a mulher a parir com dor. Pensar que condenou a minha querida avó a este tormento dá-me vómitos. Já sobre a minha mãe não sei bem o que pensar e….” que Deus o perdoe, acrescentamos nós sem grande convicção, mas com um sentimento muito sofrido. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

Senhora das Brotas


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

O Poema Infinito (100): a habitação

 

Tenho a sensação aflitiva de que estou a ficar cego por olhar o mundo com olhos de ver. E que estou a ficar mudo por nomear as palavras e as coisas como se o que é belo definhasse por escrevê-las imobilizadas pela luz amarela do candeeiro. Por isso continuo a desejar aquilo que nunca verei e os corpos cintilantes das mulheres sereias que sorriem por dentro do seu suicídio feminino de água e nudez. Ponho as mãos em cima das pedras da casa velha e sinto que a minha memória humedece de medo. E a janela chama-me. Dela avisto o rio que corre como sempre correu, insensível à vida e à morte. Deito-me novamente e deposito-me nos sonhos. Dentro e fora da casa os mortos e as suas sombras de saudade e adeus esburacam a madeira e a terra perturbados pelo tempo infinito do adeus e da eternidade. Lá fora, as sombras das casas desabitadas enferrujam dentro do seu pó de aranhas e silvas. Aqui já nada me pertence. Nem o medo. Nem a morte. Nem a vida. Resta-me apenas o pouco tempo que aqui vivi e que me enche a memória de lágrimas e de medos e de arrependimentos e de desejos estúpidos. Ali naquela varanda secava-se a roupa, o milho e as passas das pavias. Também corria uma brisa fresca nas quentes tardes de verão. No inverno, enquanto na cozinha o lume aconchegava os potes durante todo o dia e a comida cozia e cozia e cozia, eu, sob o olhar atento da minha avó, dormia sonhando que brincava com a neve que se acumulava lá fora. Sem querer, a noite vinha e tornava-se densa, fria e silenciosa. O frio é silêncio nas casas e nas terras dos pobres. Quando acordada ficava em silêncio deixando que os fios dourados dos meus pensamentos penetrassem na misteriosa magia do crepitar da lenha. Apesar de pensar o contrário, as noites e os dias eram tristes. A minha avó era triste. Eu era triste. Eu ainda sou triste, de uma tristeza séria e descarada. Por vezes ladravam os cães. Também os cães eram tristes. Outras vezes não ladravam. Por vezes ouviam-se os passos dos homens. Também os homens eram tristes. Outras vezes ouviam-se os gemidos dos outros animais e escutava-se a melancolia fria e engelhada das mulheres que cresciam tão cedo como a aurora e envelheciam tão rápido como os dias de inverno. Também as mulheres e os outros animais eram tristes, até mais tristes que os homens e os cães. Agora as ruas estão desertas e apenas alguns cães vadios fazem que passeiam e ladram. Já nem os cães sabem ladrar como antigamente. Agora já não é possível o regresso. Já não são possíveis os sorrisos. Até a própria memória se está a transformar numa inutilidade escrita. E o silêncio lamina o dia e a noite e o amanhecer. A casa começa a quebrar-se por dentro projetando filamentos de eterno e irremediável abandono. E o abandono expande-se em ondas de tempo devassando tudo o que tinha vida e era útil. Doem-me agora os rostos dos meus familiares mortos. São como espelhos vazios. São como raízes de ervas. Alguns pássaros dançam no céu para provar a beleza efémera da vida. Libélulas esquisitas zumbem de encontro aos vidros. Os rostos transformam-se agora em alucinações. As alucinações transformam-se em corações vegetais. Que habitação é esta? 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Terça-feira, 15 de Maio de 2012

Exposição de Fotografia - João Madureira

 

 

 


publicado por João Madureira às 23:08
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

Ponte Romana de Chaves


publicado por João Madureira às 09:18
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 13 de Maio de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XV): as raposas não alteram hábitos, só mudam de pelo

 

António Cabeleira, o instável líder do clã laranja flaviense, que me desculpe mas desta vez pretendo ir um pouco mais alto. Não é por o António ser, como escrevia Bocage acerca de si próprio, “meão de altura”, tal evidência foi a madre natureza a ditar, por isso está desculpado, mas é antes por causa do país, que está mesmo em baixo, prestes a tocar no fundo.

 

Já todos percebemos, para mal dos nossos pecados, que a maneira como o executivo de Pedro Passos Coelho está a governar o país é precisamente através do medo, da chantagem e da coação. A contenção, a austeridade, a pressão inevitável, a ameaça é tão intensa que não há alternativa visível.

 

Ora se a nível nacional, o medo é a arma utilizada, já aqui por Chaves, a estratégia do PSD passa pela elaboração de peças ficcionais baseadas na mais pura das demagogias, ou da desistência. Ou, ainda, no exercício de uma pressão injustificável sobre o aparelho camarário que tem resultado no seu estrangulamento. Isto mesmo debaixo do nariz de João Batista que continua a sorrir como se fosse essa a sua máscara que tudo desculpa e tudo pretende explicar.

 

Pelo meio, António Cabeleira limita-se a jogar xadrez com o seu putativo adversário interno, tentando asfixiar o que ainda resta de alternativa democrática flaviense dentro do seu próprio partido. 

 

Cada vez mais ficamos com a impressão de que os atos eleitorais são meras formalidades. Os votos dos portugueses são utilizados como o papel higiénico, usam-se uma vez e deitam-se fora.

 

De facto, o governo de PPC vai passar à história, se por outra coisa não for, como o maior embuste fabricado pós 25 de Abril. O homem teve mesmo o desplante de considerar que, nesta altura, o desemprego pode ser uma oportunidade para mudar de vida. É caso para dizer que o primeiro-ministro devia ser o primeiro a colocar tal ideia em prática indo para casa regar as plantas e passear o cão. Era um favor que fazia a si próprio e, sobretudo, ao país.

 

O robot de fala lenta, que dá pelo nome de Vítor Gaspar, ministro das Finanças, pertence à escola doutrinária que está a mergulhar Portugal, e a Europa, na maior crise das últimas décadas.

 

A princípio surpreendeu o país com a forma como usava as palavras, por causa do tom com que falava, pelo ar de credibilidade e solidez argumentativa com que se dirigia aos portugueses.

 

Um ano depois já ninguém o suporta devido ao facto de se ter enredado nas suas falsas promessas, nomeadamente na trapalhada da reposição dos subsídios e nos números do desemprego, multiplicando-se em pedidos de desculpa e, muito especialmente, desvalorizando a palavra dada. O descrédito deste governo cresce a cada dia que passa. E isso é preocupante.

 

Por essa razão é que surgem por essa Europa fora ovos de serpente tais como Marie Le Pen e Georges Karatzaferis a pretender varrer do velho continente toda a emigração e mergulhá-lo na pobreza, na desigualdade, na xenofobia, na descriminação, no ódio e na intolerância. 

 

Entretanto Portugal vai, a pouco e pouco, regressando à pobreza, fazendo com que a democracia e a liberdade sejam não direitos adquiridos mas palavras ocas.

 

O governo do PSD/CDS está a aproveitar a crise para desmantelar o Estado Social e, o que ainda é pior, a fazer desaparecer a classe média que é o sustentáculo das sociedades modernas, livres e democráticas.

 

E a arrogância é tanta que o primeiro-ministro manda na presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, pois já é ele quem ordena aos deputados da oposição que se calem.

 

Também verdade seja dita, apenas manda calar os deputados da oposição dado que nas bancadas da maioria ninguém abre o bico, apenas meia dúzia de deputados da capital, os engraxadores de serviço, é que estão autorizados a “botar faladura”.

 

Aos outros, como é o caso paradigmático dos senhores deputados do PSD por Vila Real, não se lhes ouve um ai, não se lhes escuta uma frase, não se lhes conhece uma ideia.

 

E as desavenças na Assembleia da República começam a subir de tom. Por isso é que o principal líder da oposição, posto perante o facto consumado de PPC ter escolhido o caminho do abismo, da austeridade e da recessão, já desejou ao PM boa viagem, dizendo que “os socialistas não assinam de cruz nenhum documento sem ser discutido com o PS”.

 

É evidente que nada do que acontece na AR é um ato isolado. Cada gesto, cada palavra e cada atitude, melhoram ou pioram o clima de confiança, ou desconfiança, que se estabeleceu em relação à política europeia.

 

Um sinal evidente de que estamos a voltar ao antigamente, é a utilização do velho truque dos economistas, que consiste em fazer desaparecer a palavra “política” do léxico social. Em seu lugar pretendem apenas saracotear-se entre a economia e as finanças. Ou seja, pretendem sofregamente entregar Portugal aos interesses da banca e dos especuladores financeiros.

 

É caso para dizer que a emenda (leia-se Pedro Passos Coelho) saiu pior que o soneto (leia-se José Sócrates).

 

Deixem-me voltar (pois eu faço caso disso) ao robot de fala lenta Vítor Gaspar. As pessoas que têm razão, muitas vezes não sabem comportar-se, exclamam, berram, dizem grossarias, são em algumas ocasiões indelicadas e intolerantes, por isso são muitas vezes acusadas de todas as contrariedades no trabalho e a na família. Mas aqueles que não têm razão, os ofensores, os demagogos, os maneirinhos, sabem comportar-se, têm lógica, são calmos, delicados e, por isso mesmo, transmitem a ideia de que têm razão.

 

Eu acredito que a força dos líderes está nas suas fraquezas e que a fraqueza dos subordinados reside na sua força. Por isso é que me angustia a forma subserviente como o nosso governo tem negociado a sorte, e o futuro, de todos nós, com a troika e com a Europa.

 

Pedro Passos Coelho, quando se afirma um irredutível defensor de mais e mais austeridade, assemelha-se a uma personagem de Mark Twain que se gabou dos seus lucros ao fiscal das finanças.

 

Isto é como quem se confessa, cada vez que oiço falar o PM invade-me um sentimento estranho. É como se a nossa vida coletiva se tivesse transformado num baralho de cartas manuseado pelas mãos de uma vidente.

 

Estes liberais de pacotilha, aprendizes de feiticeiro das leis desreguladoras da libertinagem absoluta dos mercados financeiros, fazem-me lembrar aqueles revolucionários mais intrépidos, mais estúpidos e desonestos, que sacrificaram a vida de várias gerações em prol de uma futura felicidade inventada.

 

Mete-me uma tremenda confusão como, apesar da triste realidade do desemprego nos agredir todos os dias, o nosso PM e o seu robot de fala lenta, se enfiam dentro da sua bolha de indiferença, tentando conservar-se praticamente alheios a toda a miséria e desgraça que esse flagelo acarreta.

 

O chefe do governo não pensa, porque ou não sabe ou não o quer fazer, limita-se a obedecer à senhora Merkel e à sua retórica fascizante em defesa intransigente dos mercados especuladores e agiotas. PPC não age, apenas executa as ordens que lhe impõem de fora. É um pau mandado.

 

PPC não executa, não decide, apenas cumpre as ordens dos capitalistas internacionais. É um rústico provinciano armado em estadista.

 

Quando oiço falar o líder do governo, sinto como se vivêssemos num mês de setembro perpétuo. Como se estivesse a escutar um concerto quando está a ser executado o último movimento de uma sinfonia. Tenho a sensação de que o volume da música aumenta, que todos os instrumentos participam, que se atinge o clímax, mas sente-se nas notas tocadas pelos executantes um cansaço triste, a modos como um aviso de despedida inexorável.

 

Não consigo adaptar-me a estes tempos de iniquidade, de engano, de acossamento. Os meus pais educaram-me na convicção da verdade, de que se deve enfrentar permanentemente a verdade, de que só o trabalho faz crescer o homem e as sociedades, independentemente da conjuntura, pois o comportamento de uma pessoa tem de ser decente e obedecer sempre às mesmas características: não matarás, não roubarás, não trairás, etc.

 

Por isso é que continuo a defender que contra os valores da verdade, do trabalho e da decência nenhuma força do mundo pode vencer.

 

Os tempos de hoje metem-me muita confusão. Chego à conclusão que a gente que agora nos governa aprendeu desde o berço a prática da duplicidade e da dissimulação como forma de ascensão. Ou, pelo menos, como estratégia de sobrevivência.

 

E, aqui para nós que ninguém nos ouve, olhem que estes tiques não são exclusivo da rapaziada que nos governa desde lá da capital. Esses tiques, e esses truques, estão também muito bem enraizados na equipa que sonha continuar a liderar os destinos da nossa autarquia. Ora pensem lá um pouco nas personagens, e na sua atuação diária, e logo me dirão de vossa justiça.

 

Desta vez pretendi deixar o António de fora, mas, tal como o país, a autarquia flaviense está tão em baixo, mas mesmo tão em baixo, que se encontra prestes a tocar no fundo. Por isso me lembrei de uma passagem do livro de Leonardo Padura “O Homem que gostava de cães”, e que aqui vos deixo como forma de despedida, por hoje.

 

“De que outra coisa a não ser do mar podem falar os náufragos, Ramón Pávlovitch? Brindemos, brindemos! Pelos náufragos do mundo! Até ao fundo!, e bebeu a vodka.”

 

PS – O António Cabeleira que se cuide, pois enquanto ele anda entretido a tentar neutralizar o arquiteto Penas, Fernando Campos anda compulsivamente a tentar fazer-lhe o ninho atrás da orelha. Corre por aí uma sondagem (da empresa Desenvolvimento Organizacional de Marketing e Publicidade, sediada do Porto, isto a ter por genuína a informação que nos prestaram por telefone no momento da entrevista) com a nítida intenção de lembrar Fernando Campos e de o tentar impingir aos flavienses como putativo candidato à Câmara de Chaves.

 

Da lista fazem parte três nomes: Fernando Campos, António Cabeleira e Paula Barros. As perguntas são imensas e, na sua maioria, enormes parvoíces, baseadas em cenários hipotéticos perfeitamente anacrónicos e inverosímeis. Numa delas, imaginem só, chegam a colocar António Cabeleira como candidato do PS a enfrentar Fernando Campos. Ou seja, em quase todos os cenários, é Fernando Campos contra terceiros, dando como adquirido que será ele o putativo candidato do PSD à Câmara de Chaves.

 

E a ânsia de controlo e monitorização é tão grande que no fim da entrevista têm mesmo o atrevimento de perguntar o nome da pessoa que entrevistaram. Não sei mesmo se este procedimento é legal, mas que é de um atrevimento inusitado lá isso é. Diz-me os métodos que usas e dir-te-ei o político que serás. Ou o que foste. Convém não esquecer que pode a raposa mudar de pelo mas que nunca muda de hábitos.

 

Este clima pré-insurrecional que se vive dentro do PSD é bem o exemplo do desnorte, da atrapalhação e do apego ao poder por parte dos seus atuais autarcas. Muitos deles não se coíbem de atropelar, ou abalroar, os seus companheiros do partido para não abandonarem o poder. E dizem-se estes senhores democratas.

 

Espero que o bom senso acompanhe os flavienses no próximo ato eleitoral autárquico. E, por favor, não me obriguem a ter de vir a terreiro defender António Cabeleira na sua luta contra o atual autarca de Boticas.

 

Já chega de “estrangeiros” a comandar os destinos da nossa cidade e do nosso concelho. Por isso lembro de novo: a raposa pode mudar de pelo mas nunca muda de hábitos. Não sei se me entendem.  

 

E a pergunta final: quem terá encomendado esta sondagem e com que dinheiro? Os objetivos são óbvios. As intenções é que não sei. Não sei não. 


publicado por João Madureira às 23:20
link do post | comentar | favorito
|

Sorrisos


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 12 de Maio de 2012

Pequenos cantores


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

O Homem Sem Memória - 114

 

114 – O José saiu dos Pintassilgos com os olhos a brilhar. Era o que mais tarde denominou como o Efeito Alberto Punhal, que era do tipo Efeito Borboleta, pois aquele bater de asas demagógico e alucinatório iria provocar o tufão que pôs a sua vida num caos.


Entendamo-nos, o camarada de Cristal tinha fama de santo, coisa que não era; tinha fama de filho, mesmo que adotivo, da classe operária, coisa que não era; tinha fama de visionário, coisa que não era mas gostava de ter sido; tinha fama de democrata, coisa que definitivamente não era; tinha fama de tolerante, coisa que não era nem nunca seria; tinha fama de intelectual culto e liberal, coisa que não era mas gostaria de ter sido; tinha fama de comunista, coisa que efetivamente era até às últimas consequências. Mas, bem vistas as coisas, os ditadores atraem sempre as criaturas mais dinâmicas e as mais voluntariosas. E não as atraem por causa da verdade, que eles transformam em ficção, mas sim por causa da ficção, que eles metamorfoseiam em verdade.


Dizem por aí que os ditadores atraem as pessoas por causa do carisma, pelo poder de persuasão, pela chama. Pelo que agora sabemos, isso acontece por causa do sentido de posse, do domínio, da busca do poder. Todos os seres humanos aspiram a mandar uns nos outros, a subjugá-los, de uma forma ou de outra. Então quando se juntam em grupo são piores do que lobos esfomeados. São hienas sôfregas.


Hitler, Estaline, Mussolini, Mao, apenas para falar nos mais famosos, dominaram e subjugaram milhões de pessoas não unicamente devido à repressão. Os seus sonhos loucos de poder só triunfaram porque o povo aderiu em massa. E quantas mais pessoas aderiam mais vontade tinham outras de aderir. Foi assim que nasceram os paraísos socialistas (nacionais ou internacionalistas) no mundo e logo a seguir os gulagues comunistas e os campos de extermínio nazi.


Não pretendemos ser excessivamente provocadores, pois não está na nossa maneira de ser, como os estimados leitores sabem, mas estamos mesmo inclinados a afirmar que todos transportamos dentro de nós um ditadorzinho, ou um ditardozão, em potência. Depois é a ocasião que faz o ladrão. E tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta. E quem não quer ser ditador não lhe veste a cor, não lhe bebe as palavras, não lhes imita a fraseologia e a pose. Mas deixemo-nos de filosofias e vamos mas é ao que verdadeiramente interessa.


Fora do salão juntou-se um grupinho de camaradas, mais ou menos conhecidos uns dos outros, que resolveu aguardar pelo camarada esclarecedor para, à boa maneira transmontana, ir com ele confraternizar.


Lá dentro o camarada esclarecedor e mais dois elementos do secretariado regional do partido iam colocando as fichas de adesão dos novos militantes numa malinha especial, bem junto ao dinheiro angariado na cobrança das quotas aos militantes, da venda de autocolantes e pines, livros e distinto material de propaganda, como emblemas com a foice e o martelo abençoadas pelo camarada Brejnev e pelo camarada Punhal em plena Praça Vermelha no dia do desfile de mais um aniversário da Revolução de Outubro. A bandeira, qual santo sudário, foi dobrada com mil cuidados e enfiada numa caixinha de madeira preciosa, a modos como um sacrário ambulante, religiosamente manufaturada por um camarada marceneiro.


O José tentou meter conversa com os seus já quase camaradas, mas eles, os camaradas, limitaram-se a olhar para ele, o José, como se fosse invisível. Nem ao Graça ligaram muito. Ser camarada é uma coisa, acamaradar é outra bem distinta. Vendo o ambiente frio e separatista que por ali se vivia, o José disse ao Graça que se ia embora para casa. É que no reino dos camaradas há camaradas mais camaradas que os restantes camaradas. Mas o Graça pediu-lhe para ter paciência e aguentar os cavalos. O Graça disse-lhe que a camaradagem é como o óleo de fígado de bacalhau, sabe mal como o caralho mas cura o raquitismo.


Minutos mais tarde encontravam-se num dos carros que rumavam ao bar, situado fora de portas do burgo, propriedade de um outro velho camarada. O camarada esclarecedor foi recebido, por parte do camarada anfitrião, com um enorme e fraterno abraço. Avançaram de imediato para uma pequena sala onde os esperava uma mesa posta com vários detalhes revolucionários. O mais evidente eram os pratos artesanais com fundo vermelho onde era visível a foice e o martelo proletários e a respetiva estrela amarela internacionalista.


Enquanto esperavam pela comida encomendada discutiram vários e interessantes assuntos, pois os comunistas nem por um momento se distraíam da sua tarefa revolucionária. Até quando confraternizavam o faziam militantemente. O comunismo era a sua estrela polar. Aprenderam, os que não sabiam, que tudo na vida é política. Até comer, conviver, ler, estudar, vestir e mesmo ver televisão ou ouvir a rádio. Pretendíamos ser mesmo ainda mais rigorosos, mas não conseguimos, pois não tirámos a limpo se urinar e defecar também são tarefas políticas ou tarefas revolucionárias, ou ambas, ou até nenhuma. Talvez o sejam do ponto de vista que sem elas devidamente executadas, os revolucionários morrem. Mas isso são suposições nossas. Já fornicar, segundo apuramos, é uma tarefa eminentemente revolucionária, quando devidamente enquadrada.


O camarada esclarecedor lembrou aos presentes que, por exemplo, estava aí a chegar o campeonato mundial de futebol e a tarefa de todos os comunistas era aproveitá-lo para esclarecer o povo. “Como?”, Perguntou o Graça. “Porquê?”, perguntou o José. “É que Portugal nem sequer participa”, lembraram ambos ao mesmo tempo. “Nem sequer a União Soviética! Como foi isso possível?” perguntaram juntos, todos os atónitos camaradas militantes comunistas presentes. Como o camarada esclarecedor os mirou com o mesmo olhar com que Estaline examinou Leon Trotsky antes de o enviar para o exílio, os restantes camaradas observaram-se uns aos outros como se fossem desconhecidos.


Foi também dessa forma que o camarada esclarecedor os encarou. E durante breves instantes instalou-se um silêncio arreliador. Por fim, o camarada esclarecedor esclareceu: “Isso foi boicote do imperialismo e manobra da CIA. E mais não digo porque não posso e não devo.” Posto perante esta verdade, o José ainda perguntou com a sua habilidade usual: “Mas então por que razão o imperialismo permitiu a ida de outros países socialistas?”


Nesse momento, como se estivesse combinado, apareceu em cena o camarada dono do bar com as garrafas de vinho tinto a postos e pôs-se a abri-las com algum rigor, lembrando aos presentes que a pinga que iam beber era fruto de muito trabalho seu e de vários camaradas agricultores e que por isso devia ser respeitado e bebido com arte.


O camarada esclarecedor provou-o quase como se fosse um escanção, mas em vez de o deitar fora engoliu-o com prazer evidente. E aproveitou a deixa para contestar ao José: “Para nos dividir.” E de seguida aproveitou a ocasião para responder às restantes questões colocadas pelos dois verdes camaradas.


De facto iam estar presentes no campeonato do mundo várias equipas do campo socialista, nomeadamente a Alemanha Oriental. E também a Jugoslávia, a Polónia e a Bulgária. E como Portugal estava ausente, a nossa tarefa revolucionária era apoiar esses países e aproveitar o evento para enaltecer o desporto praticado nos países socialistas. Tudo devia ser aproveitado para esclarecer o nosso povo da superioridade da organização social e política dos países governados pelos partidos comunistas. “Então no desporto, bem, no desporto, no desporto, é bom nem falar da superioridade do campo socialista em relação ao campo capitalista”, esclareceu o camarada esclarecedor com toda a pertinência revolucionária. E concluiu: “Nós encontramo-nos a anos-luz.”


Novamente o José questionou o camarada esclarecedor: “Visto que Portugal não está presente, mas está o Brasil, que é um país irmão, não é mais sensato apoiar o Brasil? Além disso, o futebol é extraordinariamente aplaudido pelo povo brasileiro e, que eu saiba, também lá existe um partido comunista irmão, forte e combativo que, com toda a certeza, apoia a sua seleção. Além disso, os brasileiros praticam o melhor futebol do mundo. E é crime apoiar uns cepos que mal sabem dar um pontapé na bola sem a magoarem, apenas porque são cidadãos de um país que se afirma socialista. Além disso, os brasileiros falam a nossa língua. E como muito bem diz Fernando Pessoa, “a minha Pátria é a língua portuguesa”. Ora, seguindo esta linha de pensamento, devemos apoiar a seleção do Brasil, porque, bem vistas as coisas, somos povos irmãos. E…”


Bem, se não tivesse entrado o camarada dono do bar, a sua esposa e a sua filha transportando as vitualhadas, tinha-se dado ali algum incidente politico-ideológico que talvez tivesse determinado um outro final para esta história e para o destino do José. Mas são estes pequenos incidentes que da ordem fazem o caos.


Um camarada do secretariado local do Partido aproveitou a vinda da comida para inserir uma lasca de presunto na boca, uma azeitona verde, um pedaço de pão, um golo de vinho e de seguida introduzir na conversa o tema quente do parlamentarismo e, por conseguinte, das eleições.


“É mesmo certo que o Partido vai defender o adiamento das eleições legislativas?” Ao que o camarada esclarecedor respondeu afirmativamente argumentando que o povo ainda não estava preparado para esse ato. “Além disso, o Partido defende que as eleições não resolvem nada, antes pelo contrário, podem dar azo a uma ofensiva dos partidos da burguesia, que ao elegerem os seus deputados tagarelas vão fazer do parlamento português aquilo que sempre foi: um circo de vaidades e uma tribuna de palavras vãs. Os comunistas defendem o povo, defendem a revolução. E a revolução faz-se nas ruas, faz-se com greves, com manifestações, com ocupações de terras, fábricas e casas, faz-se com a nacionalização dos grandes monopólios e dos latifúndios. A revolução não se faz nas cadeiras do parlamento burguês discutindo e votando leis inócuas, que apenas servem para perpetuar o estado capitalista e a exploração do homem pelo homem. As eleições apenas servem para legitimar um regime socialista, não para o construir. Nós somos ainda uma sociedade burguesa. Quando a revolução socialista estiver feita, então sim deve haver eleições. Mas atenção, muita atenção, não eleições onde todos os partidos possam concorrer, mas eleições onde concorrem apenas os legítimos filhos do povo. Senão são apenas uma farsa burguesa. Ao parlamento popular devem apenas poder concorrer os revolucionários com provas dadas e os seus legítimos representantes…”


“Mas”, interrompeu-o o José, “se só os comunistas forem autorizados a concorrer às eleições, apenas eles podem ganhá-las e assim tornam-se desnecessárias, pois estão logo ganhas à partida. E isso é o contrário da democracia.”


“Da democracia burguesa, quer o camarada dizer”, disse com os olhos em forma de foice e martelo o camarada esclarecedor.


“Não, da democracia. Da verdadeira democracia. A democracia é a aceitação da diferença. É a possibilidade de alguém governar o seu povo através do sufrágio universal e direto. E isso só é possível se todos os partidos puderem concorrer às eleições. A democracia não admite tutelas nem exclusões. A democracia é a legitimidade absoluta do voto popular. O contrário é a ditadura.”


Bem, com esta provocação, mesmo que inocente, como todos sabemos, ao camarada esclarecedor até o bocado de moela que meteu à boca lhe entrou para a goela do vento e ficou quase tão vermelho como a bandeira do seu partido. Valeu-lhe o Graça que lhe deu um estaladão nas costas que o fez projetar o cibalho inteiro para o chão.


De novo entrou na sala o camarada dono do bar com mais duas garrafas de tinto e o José aproveitou a ocasião para ir à casa de banho. A partir dali não mais se falou de política nacional, mas apenas das qualidades do povo transmontano, do nosso vinho, da nossa carne e do nosso pão. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

Sorriso


publicado por João Madureira às 10:29
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

O Poema Infinito (99): as mulheres almificadas

 

Fora da casa vazia, os pátios de laje soerguem-se de abandono e choram desesperados com o esforço das ervas que agora cobrem o castelo, as escadas, os muros, as paredes das fontes de mergulho, a praça, a eira do fundo do povo e sobre tudo isso flutua um mar denso de nuvens carregadas de cinzento e chuva grossa. E eu começo a ficar sem ar e com as memórias tristes. E debaixo das lajes e da água dos montes gritam os mortos. Todas as pedras se abrem perante a fala da água nos buracos. Essas palavras são pronunciadas com medo e falam da história longínqua e seca de Pedro Páramo e ficam com medo de pousar nos livros e por isso entardecem como bailarinas dançando na ponta dos pés num palco abandonado. Cantam as almas das mulheres vestidas de negro uma canção lavrada pelo arado de cavalos que são agora estátuas aladas. E essas mulheres almificadas falam das suas primaveras extasiadas de espaços negros e espaços brancos e criam palavras terríveis que veem o seu significado alumiado com candeias de petróleo. E por isso olham para as suas mãos antigas de sangue e por isso tocam nas árvores da sua floresta interior e por isso morrem remexendo novamente no seu silêncio. As mulheres almificadas atravessam invernos e calam a sua dor eterna numa imagem enorme de um Deus sacrílego que as carregou de dor e de sofrimento e de desejos vegetativos. Depois põem-se a caminho da noite e remexem os túmulos e levantam as pedras que aguentam os vivos e crescem dentro da sua loucura de vento e desespero. São agora almas embrionadas de um tempo tão antigo como as pirâmides acrescentando pórticos aos pórticos e dor à dor e esquecimento ao esquecimento. Também elas ouvem os gritos dos seus mortos e farejam a angústia dos que ainda estão vivos. E choram. O seu tempo é criptogâmico e circular, de uma densidade imóvel que se limita a criar o espaço dentro de um outro espaço. Árvores aflitas deixam-se inundar de flores elétricas que gritam dentro da sua artificialidade. Tudo agora é confusão. O meu sonho. As fotografias pálidas abandonadas nas gavetas. A luz confusa do amanhecer. Os diálogos tristes da penumbra. As mulheres almificadas pousam suavemente sobre a luz simétrica dos candeeiros. O mundo denso da noite acaricia-me os olhos e eu torno a olhá-las como se fossem borboletas feitas de buracos negros. O silêncio que nos engole também é negro e denso. Dentro da minha memória devastada pela insónia alojam-se agora o deslumbramento, a lentidão, a resignação e a crueldade. Por isso a minha escuridão interior se tornou viva. E de novo a água volta a falar dentro dos seus buracos. E as lagartixas nascem belas e os escorpiões surgem sábios e as aranhas brotam fluídas dentro das suas teias. O mundo das pequenas coisas expande-se. E o mundo das grandes coisas engole-o sem ambos darem por isso. E as mulheres almificadas deixam-se impregnar desse resplendor de voragem, nessa paixão do tempo em passar, em passar. Em passar. E os mortos deixam os seus sonhos de Pedro Páramo e voltam à sua condição de pó. Continuo a escutar os seus gritos que arrancam da vida a sua profundidade sem sentido. Nos campos da aldeia surgem repentinamente, em vez de nossas senhoras, aparições de macieiras febris que devoram os seus próprios frutos e que consomem todos os sonhos sonhados pelas mulheres almificadas que gesticulam palavras de medo e morte e as suas sombras caminham por dentro da ternura que foi engolida pelos buracos negros que criaram borboletas negras. Acordo e pergunto pelas palavras e elas ali estão bem juntinhas mostrando-me todo o assombro, todo o esplendor e todo o êxtase de estar vivo. Tu dizes: é uma catástrofe essa tua fascinação pelo delírio. Eu digo: são apenas as minhas raízes. Ainda não me apetece enlouquecer. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XIV): a lógica do entretenimento

 

Vivemos tempos estranhos. Apesar de habitarmos no mesmo país, na mesma região e na mesma cidade, parece que cada vez conhecemos menos as pessoas.

 

A urgência do poder, da manutenção do poder, da autoafirmação do prestígio saloio, vão minando as amizades, as afinidades institucionais e as relações humanas entre amigos, conhecidos e vizinhos.

 

Já ninguém acredita em ninguém, nem em nada. Impôs-se a desconfiança como método, a indiferença como forma de vida e de relação social e a hipocrisia como alimento espiritual.

 

Vivemos tempos estranhos, mas, apesar disso, é neles que temos de arranjar força para acreditar em alguma coisa.

 

Até porque não somos todos iguais, não somos todos indiferentes, não somos todos irresponsáveis, não somos todos mentirosos, não somos todos arrogantes. Nem somos todos parvos.

 

A nossa terra tem de ter futuro, os nossos jovens têm de ter futuro, as nossas gentes têm de ter futuro. E o futuro constrói-se no presente com a vontade e com a coragem dos resistentes, dos lutadores, dos perseverantes.

 

Eu quando digo que acredito no futuro sei porque o digo. Porque conheço gente que não desiste, que se esforça por lutar, que se empenha em construir uma ideia de progresso, uma luz ao fundo do túnel. Uma alternativa.

 

Parece que tudo anda a encolher. Os sentimentos, a liberdade, os direitos e os deveres. E também o país. E ainda os lares da terceira idade e as nossas escolas, pois os senhores ministros, escudando-se na crise económica, resolveram pôr mais gente nos quartos dos lares e mais jovens nas salas de aula.

 

Entretanto o governo, por determinação europeia, resolveu aprovar legislação que determina que tem de aumentar o espaço a ocupar por cada galinha poedeira, bem assim como melhorar o arejamento das gaiolas.

 

Ou seja, os idosos, as nossas crianças e jovens podem enfiar-se nos quatros e nas salas como as sardinhas na lata, enquanto as galinhas ganham espaço e arejamento.

 

Por isso é que eu digo que vivemos tempos estranhos.

 

Posso mesmo adiantar que até na área da saúde a esquizofrenia tomou conta da lógica. Penso que estou em condições de explicar a razão deste governo se ter empenhado tanto no incremento do desemprego. Pois porque, segundo um estudo recente, trabalhar engorda. E a gordura faz tão mal às pessoas como o tabaco. Ou seja, as pessoas com problemas sérios de obesidade, à semelhança dos fumadores, vivem em média menos oito a dez anos que as de peso normal. Por isso o governo, para poupar na saúde, investe no desemprego.

 

Como estamos em crise, o governo, não podendo atalhar aos dois problemas, pelo menos minora um deles. O que pode não ser a solução perfeita mas, temos de admitir, é uma solução curiosa.

 

E por falar em saúde, não quero deixar passar em claro o facto de os deputados do PSD pelo distrito de Vila Real terem mostrado a coragem, e o arrojo, sejamos sinceros e verdadeiros, de questionaram o senhor ministro da Saúde. E não o fizeram de ânimo leve. Qual quê! “Questionaram-no formalmente”.

 

Sim, transcrevi corretamente, para que conste, “questionaram-no formalmente” sobre “os fundamentos invocados pelo Conselho de Administração do CHTMAD para proceder ao encerramento do serviço de urgência da especialidade de cardiologia da unidade hospitalar”.

 

Uma nossa conterrânea morre tragicamente entre a ineficácia e a inoperância dos serviços e a estupefação dos familiares e amigos, e os senhores deputados do PSD de Vila Real questionam formalmente o senhor ministro sobre se a “unidade hospitalar de Vila Real tem efetiva capacidade de resposta para todas as ocorrências do foro cardiológico do distrito”.

 

Repito: Uma senhora morre às portas de um hospital por indefinição dos serviços e por teimosia das leis e dos enquadramentos e de outras balelas do estilo, e os senhores deputados do PSD pelo distrito de Vila Real fazem perguntas formais ao senhor ministro.

 

E foi para isto que os transmontanos votaram nesta gente? Pelos vistos foi. Pois! Por isso é que o prestígio dos políticos anda pelas ruas da amargura.

 

Torno a repetir: Uma senhora morre tragicamente e os senhores deputados escrevem perguntas numa folha.

 

Bonito serviço. Até parece uma piada de mau gosto. Será para isto que servem os nossos políticos? Será para isto que serve a democracia? Será para isto que serve o parlamento? Será para isto que servem os deputados? Pois, pelos vistos, é sim senhor.

 

Num texto lamechas e torturado, uma senhora deputada, que faz parte do grupo, resolveu escrever o seu ato de contrição afirmando que sente a perda de valências do hospital de Chaves. Fala ainda de alarmismo, de insegurança, de indignação e de ocorrências trágicas. De seguida comenta pieguices, escreve banalidades, lugares comuns e incongruências.

 

Um pouco mais à frente afirma que há necessidade de agir, no sentido de reverter decisões, em diálogo com as populações, os autarcas e as estruturas vivas da comunidade.

 

Estruturas “vivas” da comunidade? Conhece outras? Ou estará a referir-se ao seu próprio partido que depois de ir para o governo engoliu os apitos laranjas e escondeu as vuvuzelas no sótão com que se manifestava ao lado dos comunistas, dos bloquistas e da CGTP?

 

Seguem-se-lhe ainda mais uns quantos lugares comuns e outras tretas do género e que lhe fica bem entender ser seu “dever denunciar os constrangimentos que se colocam aos cidadãos dos nossos concelhos.”

 

“Denunciar os constrangimentos?” Então uma senhora morre por falta de atendimento médico e a senhora deputada pretende denunciar os constrangimentos?

 

Denunciar os constrangimentos? Olhe que estamos a falar de soluções, e situações, que podem fazer a diferença entre a vida e da morte dos nossos concidadãos. Porra! Isto não é nenhum concurso epistolar.

 

E para denunciar os constrangimentos estou cá eu. A senhora tem por missão fazer mais e melhor, muito melhor, senão corre o sério risco de ser apenas um verbo-de-encher. Tem de lutar, tem de propor e votar leis sérias e realistas, tem de intervir na assembleia, tem que propor regras e soluções alternativas.

 

Em suma, tem de agir de acordo com o que se exige a um deputado da Nação: atuar, lutar, esgrimir argumentos, fazer política, incomodar, denunciar. Não vir para os jornais da terra dizer que fez uma pergunta formal ao senhor ministro.

 

Uma pergunta formal? Mas isso serve para quê? Quais os seus efeitos práticos? Estou em crer que a vossa pergunta vai ter o destino do caixote do lixo.

 

Na parte final diz que espera “as respostas a estas questões”. Olhe, eu dou-lhe um conselho de amigo: Espere sentada, como é seu timbre. Pois a resposta é bem capaz de não vir. E se vier, com toda a certeza que não será resposta nenhuma, pois a pergunta é uma espécie de atitude do tipo “agarrai-me senão eu bato-lhe”.

 

Atos deste tipo não servem nada nem ninguém. São uma pura perda de tempo. São uma incongruência política. Ou melhor, nem sequer isso são. Este tipo de procedimento é a política da subserviência. E por isso nada vale, nada adianta e de nada serve. Palavras leva-as o vento. E pensar que o país paga bons ordenados a quem tão pouco faz!

 

Alguns deputados fazem-me lembrar o capitão Flume, uma personagem do comicamente genial romance de Joseph Heller, Catch-22, que “dormia como um cepo todas as noites e limitava-se a sonhar que se conservava acordado. E os sonhos eram tão convincentes, que despertava deles todas as manhãs totalmente exausto e voltava em seguida a adormecer”.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 6 de Maio de 2012

Poetas


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Sábado, 5 de Maio de 2012

Na aldeia


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

O Homem Sem Memória - 113

 

113 – Depois do enquadramento teórico, e logo após o exemplo prático, o camarada esclarecedor decidiu, na segunda parte do seu douto esclarecimento, reportar-se ao Partido, à história do Partido, à luta do Partido, à organização do Partido, ao Comité Central do Partido, e, novamente, ao Secretário-Geral do Partido, o Camarada de Cristal Alberto Punhal, a quem o glorioso Partido glorioso devia a sua força telúrica, a sua organização exemplar e a sua pureza ideológica.


Durante o tempo que demorou a referir-se ao Camarada de Cristal, os luzeiros do camarada esclarecedor brilharam como duas estrelas cadentes, como as que indicaram a corte onde o menino Jesus, Maria, a sua mãe, e José, o seu putativo pai terreno, aguardaram durante algum tempo a visita dos Reis Magos.


 A boca do camarada era como a bandeira vermelha desfraldada a adejar e a adejar ao vento, sempre com a nítida intenção de apontar a revolução proletária e a vitória final do comunismo. A vitória final.


Alberto Punhal tinha esse efeito catártico e redentor nos comunistas, era como um profeta venerável e venerado. Era até mais do que um Profeta, era um vidente, um homem que redimia os outros homens, e, claro está, as mulheres e os jovens, pela sua coragem, pela sua razão e pelo seu exemplo. Ele prometia-lhes (e havia de cumprir, sim havia de cumprir, havia de cumprir com toda a certeza), o céu na terra, o esplendor do comunismo, os amanhãs que haviam de cantar como o galo mais atrevido da capoeira da Dona Rosa o fazia todas as manhãs para acordar a capoeira, os da casa e o resto do bairro. Não antes do galo cantar três vezes, como o outro fez a Cristo para cumprir com o plano divino. Não sei se ainda me estão a seguir.


Portanto, ele, o Camarada de Cristal, não se limitava a ser um Cristo redentor, era um Deus triunfador. Um Deus objetivável e objetivado. Um deus quase humano. Um ser humano quase divino.


Relativamente à história do Partido, o camarada esclarecedor tagarelou que se fartou. Todos ficaram com a nítida sensação de que a verdadeira História de Portugal apenas principiou quando o glorioso Partido foi fundado.


A partir daqui talvez seja aconselhável dar a palavra em direto ao camarada esclarecedor. Assim evito más, ou desviantes, interpretações, juízos de valor arreliadores e ainda outro tipo de complicações abstrusas.


Ei-lo, o discurso: “A História. Falam da História de Portugal como se fosse verdadeira. Tudo o que lá vem escrito não passa de uma patranha, de uma falsificação, de uma história muito mal contada, relatada pelos vencedores, narrada pelas classes altas, ou pelos seus lacaios, pois a maioria da realeza era de um analfabetismo atroz e a burguesia não se lhes ficava atrás. E, para mal dos nossos pecados, os traidores sempre existiram ao longo da história, sempre prontos a servir quem os escravizava, os explorava, os ridicularizava. Os lacaios sempre foram piores dos que os seus amos.


A História de Portugal junguiu a luminosidade frenética, e enganadora, da exaltação da realeza com o desengano e as trevas da pobreza, da ignorância e da escravidão. Uma pequena minoria rebentava de fartura enquanto a imensa maioria do nosso querido e estimado povo definhava na mais impúdica miséria. Os ricos apenas serviam para folgar e mandar, enquanto os pobres aprendiam a matar e a morrer em nome de uma pátria que não os amava, de uma realeza que os desprezava, de um clero que os amaldiçoava e os condenava a viver no inferno antes de para lá irem, de um monarca que os detestava e de uma burguesia que os explorava até ao tutano. E isto foi assim durante séculos e séculos, até aos nossos dias.


O obeso D. Carlos teve mesmo o atrevimento de chamar ao seu próprio país piolheira. Ele é que era um pilho loiro e gordo que se alimentava da pobreza da plebe. Por isso, um filho do povo o abateu com um tiro certeiro.


Depois veio esse filho das trevas provincianas que governou este país sem sair de casa, a comer o seu caldinho à braseira e a beber o seu copinho de vinho fino que a empregada doméstica lhe servia. Antes lhe tivesse servido cicuta e tínhamos poupado imenso em vidas humanas.


O povo podia andar cheio de piolhos, passar uma lazeira de meter dó, mas tinha dignidade. Amava, e ama como nenhum outro, o seu país, a sua terra, os seus valores, as suas tradições. Os reis podiam comer do bom e do melhor e viver em palácios esplendorosos que não passavam de uns ignorantes pançudos. Quanto mais ignorantes mais pançudos e quanto mais pançudos mais ignorantes. Era este o círculo vicioso da monarquia e mais tarde do fascismo.


Enquanto a grande maioria do povo português morria à fome, os homens e as mulheres da realeza rebentavam de fartura. Morriam, com vossa licença, a arrotar por cima e por baixo. (Ah, ah, ah!, riu a plateia com ar sério.) Isso acontecia porque o povo, o nosso querido e estimado povo, não tinha consciência de classe, não tinha a perceção da sua força, não dava valor à sua genuína importância. Não se unia, não se organizava, não tinha ainda um partido que o defendesse. Todos sabemos que um país não existe sem o povo. Sem o seu povo. Mas o povo pode muito bem passar sem os poderosos. O que não pode passar é sem o seu glorioso Partido. E é aí que bate o ponto.


Depois de séculos e séculos de trevas, de outros tantos de enganos, e de décadas de ilusões e desilusões, eis que surge uma organização de novo tipo, fruto da luta tenaz e da afirmação intrínseca dos explorados que, já fartos de tanta exploração, tanta miséria e tanta palavra gasta em seu favor, se organizaram e criaram o nosso glorioso Partido.


Um partido marxista-leninista, um partido que nasceu com a intenção suprema de conquistar o poder para o povo. Não em nome do povo, mas com o povo e para o povo. Ali de braço dado com ele, o povo, numa aliança sagrada entre os operários, os camponeses e os verdadeiros intelectuais, aqueles que se aliviaram da sua carga libertina, titubeante e questionadora para abraçarem a verdadeira luta de classes em defesa da sua pátria e do seu povo. Não em seu nome, mas com ele, o povo, o nosso querido e estimado povo, o heroico povo português, ali lado a lado com o glorioso Partido, como uma muralha de aço. Nessa vontade libertadora, nesse fervor revolucionário que inflama a Europa e o mundo, que põe de joelhos a burguesia e que atemoriza o grande capital e os interesses financeiros.


Antigamente os filósofos tentavam compreender o mundo, mas, como muito bem disse Marx, o que urge fazer é modificá-lo. Já basta de tanta compreensão, de tanto estudo, de tanta palavra, de tanta argumentação. É chegada a hora de fazermos a revolução. É chegado o momento de os escravos se libertarem das grilhetas da opressão, da exploração e da subjugação. Não em nome do povo, mas com o povo. Com o heroico povo português. Esse povo que deu novos mundos ao mundo.


Quando o glorioso Partido Comunista foi fundado, com ele nasceu um mundo distinto, um mundo com diferentes possibilidades. É como se Portugal tivesse sido criado de novo. De certa maneira foi isso que aconteceu, pois já nada será como dantes.


Por isso é que o Partido é um coletivo combativo, com uma ideia bem definida daquilo que pretende, do caminho que tem de trilhar, das armas que vai ter de utilizar, das alianças que vai ter de fazer e das lutas que vai ter de travar. Não em nome do povo, mas com o povo. Sempre, sempre ao lado do povo.


Para isso é preciso ganhar corpo, conquistar militantes, convencer cada vez mais e mais pessoas da nossa verdade, da nossa determinação, da nossa coragem, da nossa frontalidade, da razão que nos assiste e da nossa fé inabalável no futuro, no marxismo-leninismo, no comunismo.  


Mas uma revolução não se faz sem revolucionários. Sem verdadeiros revolucionários. E os verdadeiros revolucionários só podem surgir dentro do Partido. É certo e sabido que os verdadeiros revolucionários apenas podem ser comunistas. E vice-versa. Para isso necessitam de esclarecimento, informação, enquadramento, estudo. Enfim, carecem de trabalho revolucionário. Não em nome do povo, mas com o povo. Sempre, sempre ao lado do povo.


Não é apenas a leitura dos clássicos marxistas que faz um verdadeiro revolucionário. Se fosse apenas isso a revolução podia fazer-se já amanhã de manhã. Não. Um revolucionário é aquele que junta a teoria à prática, é aquele que não se limita a compreender e a explicar o mundo. É todo aquele que o quer modificar e que para isso não se coíbe de pegar em armas, se necessário for, para fazer triunfar a revolução. Não em nome do povo, mas com o povo.


Por isso é que o Partido faz estas sessões de esclarecimento, para trazer para o seu seio os melhores filhos do nosso povo. É com eles que o partido da classe operária vai chegar ao poder. Não em nome do povo, mas com o povo. Sempre, sempre ao lado do povo. Com o povo e com mais ninguém. Disso o Partido não abdica. Apenas a vitória da classe operária, em sagrada união com os camponeses, é que libertará Portugal do jugo do capitalismo e do imperialismo. Não existe outra forma. O marxismo-leninismo nisso é clarinho como água: para a classe operária triunfar é preciso derrotar a burguesia e os capitalistas. Eliminá-los definitivamente até deles nada restar, a não ser os seus restos expostos no museu da exploração. (Ah, ah, ah!, sorriu, como quem tosse, o camarada esclarecedor.)


Aderir ao Partido é um ato de coragem, um ato de fé revolucionária, um ato apenas ao alcance dos mais corajosos, dos mais altruístas, dos mais inteligentes. Aderir ao Partido é entrar no comboio da nova História, no comboio do futuro, no comboio do comunismo. O comunismo é o futuro da Humanidade. E quem disser o contrário mente. Os outros que se dizem socialistas, sociais-democratas, liberais, democratas-cristãos, ou maoístas, pois para o caso tanto dá, apenas são um carrossel que anda às voltas, às voltas, mas não sai do sítio.


O Partido só é grande porque foi forjado na luta contra o fascismo, na luta em defesa dos operários, dos camponeses e dos estudantes. O Partido só é grande e glorioso porque é filho de um grande e heroico povo: o português.”


No final, o camarada esclarecedor apelou mais uma vez à adesão ao Partido, e, na companhia da mesa e de toda a plateia, pôs-se a gritar repetidas vezes, como um possesso, de punho direito erguido, a sigla do Partido, (pois com a esquerda não podia ser, dado que era dessa forma que os socialistas de Mário Soares se manifestavam), cantou a Internacional e no final escutou as palmas da assistência com ar circunspecto, imitando na perfeição a pose de Alberto Punhal.


Apenas o José se inibiu, na hora de gritar a sigla partidária, de levantar o punho, pois era canhoto, e de cantar a Internacional. O Graça bem olhou para ele com cara de Estaline, mas o José nisso era intransigente, ninguém o conseguia pôr a cantar uma canção que não sabia e não compreendida, a gritar três letras que nada queriam significar e a dar murros no ar como se quisesse intimidar alguém. Além disso era canhoto.


O José era homem de outras guerras. As missas coletivas provocavam-lhe urticária. Tinha todas as razões e mais algumas para se afastar do Partido, mas parece que o destino marca a hora, ou pelo menos coloca o timbre no lugar-comum, e, em vez de se afastar, como lhe recomendava a razão, ou pelo menos o seu sexto sentido, aproximou-se. Se tivesse rasgado a ficha e queimado o livrinho teria sido bem melhor. Evitava dessa forma ser o mártir que mais à frente reconheceremos. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 3 de Maio de 2012

Jogadores de fito (II)


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

O Poema Infinito (98): recomeço

 

Hoje o silêncio das minhas palavras interiores preencheu-se de fábulas instantâneas. Depois desfiz-me desse assédio de ausência e da sua incessante procura circular. Cá fora as mesmas marcas coloridas do tédio e da afeição procuram defender-me do mundo. As pessoas passam inscritas nos passeios e nas janelas e nas portas das casas. E as estradas perseguem o céu oblíquo e os homens e as mulheres continuam a perseguir o seu destino que não é destino nenhum. Por isso eu escrevo nos jardins aproveitando a tinta da sua água, do seu verde e do fogo da luz do seu sol. E escrevo palavras de sossego inscritas nas suas folhas e nas sombras dos seus muros. E escrevo-te, e escrevo-me, com o sabor da surpresa. Escrevo por dentro das formas perfeitas e suaves dos frutos. Escrevo em arabescos de uma leveza mágica. Escrevo em sulcos que se inclinam para a embriaguez húmida da terra. Escrevo nas árvores que se incendeiam. Escrevo sussurrando primaveras e soprando invernos e moldando pequenos planetas de açúcar. E a tarde encanta-se agora com as nuvens que são calmas e que deslizam em silêncio sopradas pelo nosso desejo e pela nossa ilusão. Uma princesa ilimitada abre-se no espaço subtil de uma ideia e luta contra a violência espantada da infância. E ilumina e inunda os sonhos dos livros que pesam as suas sílabas de sombra. E os duendes descem pelos bosques à procura de meninas descalças e das formas da água do orvalho e dos pássaros suspensos e da sede da terra e das palavras que fazem histórias verticais. E a água move-se e os duendes tremem e a princesa ri-se como se fosse uma possibilidade de bruxa má. Agora as nuvens germinam nas suas esferas translúcidas e nos seus anéis de água. Num banco de jardim, duas bocas descobrem-se no seu veludo incandescente e saboreiam o perfeito sabor dos frutos lisos e do seu sumo fresco. E os dois corpos encerrados nas suas superfícies delicadas abrem-se como círios vermelhos e brilham por dentro do seu calor, da sua volúpia, do seu desejo. Os seus olhos embriagam-se e absorvem toda a luz do arco-íris onde agora dormem as nuvens. Uma brisa fresca expande-lhes o odor da sua orgia verde. São agora um corpo duplo e uno. E criam a origem do mundo e escutam as palavras em festa dentro do seu princípio de aprendizes de amantes. Eu decido parar tudo para escutar a sua festa de silêncio. Distintas coisas vacilam e concentram-se e dilatam-se por cima deste jardim de espuma. Mais ao longe uma criança brinca na relva acariciando o tempo que tão mal lhe há de fazer. O ar prolonga-se no entardecer. Nada se cria. O vazio concentra-se. Sinto a minha respiração aflita. Olho o par aninhado no banco de jardim. Algo me inunda. Reconheço-me. Reconheço-nos. Algo se incendeia. Tudo recomeça. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9


23

24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Músicos

. Poema Infinito (372): O t...

. Músicos

. Músicos

. 359 - Pérolas e diamantes...

. Pose

. No carnaval de Verim

. O senhor Ventura e o seu ...

. Poema Infinito (371): De ...

. Bombos e cabeçudos

. Músicos

. 358 - Pérolas e diamantes...

. Louvre - Vermeer

. No Louvre

. No Louvre

. Poema Infinito (370): A r...

. Louvre

. Louvre

. 357 - Pérolas e diamantes...

. Louvre - Quadros e Pessoa...

. Louvre - Interior - Pesso...

. Louvre - Interior - Escad...

. Poema Infinito (369): A m...

. Louvre - Entrada

. Paris - Sena - Noite

. 356 - Pérolas e diamantes...

. Na aldeia

. Na aldeia

. Na aldeia

. Poema Infinito (368): A e...

. Na aldeia

. Na aldeia

. 355 - Pérolas e diamantes...

. Pose e olhares

. Homens, chouriças e garra...

. Homem sentado com vara

. Poema Infinito (367): A t...

. Na conversa

. Pensando

. 354 - Pérolas e diamantes...

. Porto - Sardinhas - S. Jo...

. Porto - Ponte D. Luís

. Porto - Telhados, Barcos ...

. O poema infinito

. Porto - Casas

. Porto - Bicicleta

. Como se escreve um haiku

. Porto - Ponte D. Luís

. Porto - Ribeira - São Joã...

. Porto - Ribeira - São Joã...

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.tags

. todas as tags

.Visitas

.A Li(n)gar