Sábado, 30 de Junho de 2012

Menino ao colo do pai


publicado por João Madureira às 07:00
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Sexta-feira, 29 de Junho de 2012

O Homem Sem Memória - 121

 

121 – “E de novo tentei. Tentei e tornei a tentar. Agarrei-me ao «Manifesto» como um náufrago a uma tábua. Mas, pelos vistos, a tábua era de ferro. E fui ao fundo. Fui ao fundo e voltei. Ou melhor, ia ao fundo e voltava à tona de vez em quando.


Tentei ler o prefácio à segunda edição russa de 1882. Começava assim: “A primeira edição russa do MPC, na tradução de Bakúnine, foi publicada no princípio dos anos sessenta na tipografia Kolokol (1).”

 

 

Pois, lá estavam de novo as notas. E esta dizia: “(1) Em Genebra, em 1869. A tradução de Bakúnine distorcia certos passos; esses erros foram corrigidos na 2ª edição russa, agora da responsabilidade de Plekhánov.” Mas eu não sabia quem era Plekhánov, nem tinha nada ali à mão que me pudesse deslindar o mistério. Mas, mesmo assim, porfiei na leitura: “O Ocidente nessa altura podia ver nela” (na edição russa do “Manifesto”) “uma curiosidade literária (VIII).”


E lá estava inteirinha mais outra nota. Esta, em numeração romana, a avisar-me que era das que se encontravam no fim do livro. E para lá me dirigi com o entusiasmo de, qual Jean Valjean, um condenado às galés. E li com os olhos já pisqueiros: “Também Lenine, durante os anos passados em Samara (1889-1893), escreveu uma tradução russa do «Manifesto» para o círculo marxista local. Passava de mão em mão num caderno manus…”


Fui-me abaixo. Foi de novo tiro e queda. Que tranquilidade. Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… Que satisfação. Sono, ressonadelas, mais ressonadelas, mais sono, mais algumas ressonadelas… E lá acordei sarapantado com o choro do meu irmão mais novo que estava com uma amigdalite formidável. Ele a chamar pela mãe e eu a evocar a santa paciência.


Como estava frio no quarto, liguei o aquecedor elétrico de barras, coloquei-o em cima da cama, virado na direção das mãos e do rosto, e lá voltei a tentar mais uma vez ler o “Manifesto”. Passei então ao prefácio da edição alemã de 1883.


Mal comecei a ler fiquei imediatamente desconsolado. É que o preâmbulo, da autoria de Engels, que eu tinha abandonado ainda há pouco foi o último escrito e assinado por Marx. Eu transcrevo: “O prefácio à presente edição tem de vir, infelizmente, assinado só por mim. Marx, o homem a quem a classe operária da Europa e da América na sua totalidade deve mais do que qualquer outro – Marx repousa no cemitério de Highgate, e sobre o seu túmulo já cresce a primeira relva. Desde a sua morte (1)”, [nova nota, mas esta era pequenina], e dizia: “Em Março de 1883 deixou de ser possível pensar sequer em refundir ou completar o «Manifesto». Pelo que se torna tanto mais necessário afirmar aqui, expressamente, de novo o seguinte: O pensamento basilar que percorre o «Manifesto» (X)”… E lá estava outra nota.


De novo fui até ao fim do livro e pus-me a ler: “(X) É graças à interpretação materialista da história que”… Pus-me a contar as linhas: 25.


Voltei ao prefácio. Página 37, linha 11… a saber: “que a produção económi”… Olhei para as linhas que restavam até ao fim da página e vi que cinco linhas abaixo estava à minha espera a nota (XI) e quatro linhas depois estava quietinha a nota (XII). Por causa das coisas, fui novamente ao sítio das notas, página 120, e reparei, para mal dos meus pecados, que a nota (XI) preenchia duas páginas de denso texto, e começava assim: “Luta de classes: não pode ser ignorado o facto que nem Marx nem Engels nunca se atribuírem o mérito de haverem sido os”…


Fui à procura da nota (XII). Por norma devia estar depois da (XI). Mas não se encontrava lá. Em seu lugar estava a nota (XIII) que não se achava neste prefácio. Intrigado fui até ao prefácio seguinte, ver se lá se encontrava a nota (XIII). Mas dela nem vestígios. No prefácio seguinte as notas começavam na nota (XIV). Afinal os comunistas também se enganam, sejam eles editores, “prefacistas”, escritores, “notistas”, etc. O problema é que poucos, ou nenhuns, leitores se apercebem destes lapsos. Nem os autores. Ora adivinhem lá por que razão? Ai não adivinham? Então voltemos às notas.


Página 37, linha 11… a saber: “que a produção económi… tem sido… sem ao mesmo tempo… da opressão… e das lutas de… pensamento basilar… a Marx (*).”


E outra nota. Esta de asterisco. “(*) (Nota à edição alemã de 1890) «Já… na minha opinião… a provocar na história o que a teoria de Darwin provocou na biologia. Até que ponto eu tinha progredido por mim próprio em direção a ela… já ele tinha formulado e… quase… a expus.”


E fui-me novamente abaixo. Desabei em cima da almofada. Que tranquilidade. Soninho, ressonadelas, ressonadelas, mais soninho, mais ressonadelas… Que satisfação. Soninho, ressonadelas, mais ressonadelas, mais soninho, mais algumas ressonadelas, mais algum soninho… E lá acordei outra vez sarapantado com o som inquietante do aquecedor que tinha caído ao chão. A minha mãe entrou no quarto inquieta e voltou a sair depois de ver que eu já estava de novo desperto. Disse-me: “Dorme.” Eu respondi-lhe que não podia. Que tinha de ler o livro. Ela respondeu-me que o livro ainda me ia levar à perdição.


Nunca me tinha visto nesta consumição de adormecer sucessivamente ao ler um livro. Eu disse-lhe que este não era um livro qualquer. Ela disse: “Esse é um livro do Demónio. Com esses dois barbudos vermelhos na capa só pode ser comunista. Não sei como te deu para te colares a esses defensores da foice e do martelo. Que coisa feia. Além disso tu sempre detestaste trabalhar. Nunca te vi agarrar numa ferramenta.” “Ó mãe”, disse eu quase a dar-lhe razão, “o trabalho não se resume à prática das tarefas braçais. Ler e escrever também é trabalho. E talvez bem mais importante do que cavar uma terra ou fazer um banco. Ela respondeu-me: “Lérias. Já algum dia viste alguém comer um livro? Ou vestir uma folha de um jornal?” “Ó mãe!”, disse eu. “Ó filho”, disse ela! “Vai-te deitar”, aconselhei-a. “Ó mãe”, chamou no outro quarto o meu irmão mais novo. E lá foi ela. Coloquei de novo o aquecedor na posição inicial e voltei ao «Manifesto». A minha mãe avisou: “Cuidado com o aquecedor.” “Sim, mãe.”


“Prefácio à edição inglesa de 1888. O «Manifesto» foi publicado como plataforma da Liga dos Comu… num congresso… prático e teórico completo do partido (XIV). Nota (XIV), página 123: Diferentemente da informação equivocada de Engels no seu esquisso histórico da Liga dos Comu… Tão pouco é tida por literalmente exata, segundo Engels lia-se no artigo I dos Estatutos… da velha sociedade burguesa assente nos antagonismos de classe… a liga propõe-se libertar… estes e muitos outros materiais… foram editados pelo investigador Bert Andréas: Grundungsdokumente des Kommunisten… Mas ver: Der Bund Kommunisten. Documente und Materialen”… Bum, catrapum. E lá foi o aquecedor de novo para o chão. “José”, chamou a minha mãe. “Sim”, respondi. “Dorme”, ordenou ela. “Senão dás em maluco.” “Só quero terminar este prefácio.” “O quê?” “O prefácio, mãe.” “Dorme.”


Olhei para o livro e lá estava mais uma nota. A (XV). E depois a frase: “Tinham também sido publicadas uma edição dinamarquesa e uma polaca.” E no fim da linha outra nota, a (1), relativa a este prefácio que dizia textualmente: “(1) Ver notas (6) e (8) referentes aos prefácios.” Página 106. “Nota (6): Foi iniciada… Nota (7): A primeira edição russa do «Manifesto» apareceu em Genebra em 1869, numa brochura sem página de rosto (sem indicação dos autores, do tradutor, do lugar e data de publicação).” Voltar à página 39. “A derrota da insurreição parisiense de”… Fui-me abaixo. A queda foi ainda maior. Que tranquilidade. Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… Que satisfação. Sono, ressonadelas, mais ressonadelas, mais sono, mais algumas ressonadelas…


Desta vez acordei envolto em fumo, a tossir como o meu pai quando tinha um ataque de catarro de fumador. O aquecedor tinha caído sobre os cobertores e incendiado a cama. Valeu a minha mãe que foi buscar um balde de água e começou a apagar o fogo.


Estava visto, as minhas leituras do «Manifesto» ainda iam acabar mal. Por isso, no dia seguinte dei-lhe uma vista geral e tirei mais uns quantos apontamentos de que vos darei conta a seguir. 


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Quinta-feira, 28 de Junho de 2012

Na exposição de Dinis Ponteira


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 27 de Junho de 2012

Olhares


publicado por João Madureira às 14:50
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O Poema Infinito (106): o eco

 

 

As habitações cintilam, as raízes traçam misteriosos desenhos na terra e as plantas incendeiam-se por dentro no sentido dos seus filamentos. Sinto a luz pousar nas pedras e na água cristalina enquanto sustenho a respiração. O velho mobiliário continua a evocar a infância antes do tempo ter destino. A solidão escorre pelas paredes. Conheço milímetro a milímetro o silêncio que tomou conta de mim. É o mesmo de sempre, apesar de ser outro. Guardo o sofrimento dentro dos meus olhos molhados. As noites continuam tristes. O perfume das flores torna-se enjoativo. Os cães ladram ao longe. Os sorrisos cada vez mais tardam a regressar ao meu rosto. Vivo agora uma alegria cansada. Parece que tudo é inútil: a escrita, a memória, a recomposição. O vazio toma forma. O vazio torna-se esmagador. Quando falo apenas oiço o eco das palavras, não as palavras, apenas o seu eco. O seu ecoooooo. Oiço também o ruído quase impercetível do voo dos pássaros. A tarde quente agarra-se às paredes da casa e geme. Está na hora de arrumar os objetos e partir. O vento roça as paredes de mansinho. Gostava de ter vontade de ficar. Gostava de querer vaguear pelas ruas, de imaginar cavaleiros fantásticos conquistando a imaginação dos simples. Aproxima-se uma velhice silenciosa e melancólica. Por isso parto na noite incendiada. Ainda de manhã senti a luz estilhaçando-se em feixes e entrando pelas frinchas da janela do quarto. Nada se movia. Nenhum gesto era necessário. Só olhar. Olhar a luz a renascer lutando contra a insónia, contra o silêncio imemorial da noite. E o vazio espalhava-se ordenadamente sobre os objetos que se afastavam cada vez mais da sua utilização antiga. E os sons da manhã atravessavam as paredes e desapareciam na penumbra do aposento. A manhã tremia dentro do meu quarto. E eu via estranhas paisagens e corpos de sombras movendo-se. E as minhas mãos assustadas pousavam no fundo do rio. E o eco das palavras voltava. O eco das palavras. Não as palavras, mas o seu ecoooo. Alguém murmurava ao meu ouvido um fingimento de palavras confusas dentro do seu eco. E também a memória da noite veio ter comigo jorrando silêncio e luz e estrelas e luar que vergava pinheiros. Houve tempo em que a terra era lavrada com toda a religiosidade do mundo. Cheguei a inventar paisagens para estar contigo. Cheguei a caminhar pela imensidão das águas à tua procura. E as imagens de rostos felizes vão-se esfumando como se fossem apagadas da memória por uma borracha elétrica. O tempo faz ainda mais desgaste no meu corpo. A aldeia foi exterminada pelo progresso. Aqui já ninguém regressa. A esta terra já a não definem as palavras, mas apenas o seu eco. O seu ecoooo. Queimei os últimos livros na lareira. E as suas promessas foram apagadas para sempre. Delas só resta o eco. O seu ecoooo. Saí pela porta das traseiras, escavando um túnel por onde a memória se foi escoando. As ruas lá estavam imobilizadas na sua desolação. As pedras sofrem agora a sua derradeira catástrofe de abandono. O esquecimento ficou encostado no escano aquecendo-se ao que resta de calor na lareira. Entrou definitivamente dentro da sua precária eternidade. Sair daqui só é possível com passos circulares. Já falta pouco para o que resta do meu tempo regressar a esta terra com a água das grandes catástrofes. Regressarei então com o fingimento do eco das palavras, porque as palavras estarão definitivamente encerradas dentro da mala onde a minha avó guardava o pão e a carne. 



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Segunda-feira, 25 de Junho de 2012

Júlio Montalvão Machado


publicado por João Madureira às 20:04
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Da expetativa ao imobilismo (XXI): O Monólito e/ou o Caminho de Santiago ou o Caminho de Fátima ou/e o Monólito…

 

A Eurocidade tem destas coisas, além de nos permitir (a quem tiver o cartão, claro está) ir para o Rebentão com desconto de alguns cêntimos, de nos possibilitar entrar nos museus cá da terra de graça, e assim poupar um euro de cada vez, além de facultar aos turistas que nos visitam o direito a passeios turísticos gratuitos, possui, desde há um mês a esta parte, um troço de 38,2 km do Caminho de Santiago.

 

Milagre, gritarão os estimados leitores mais crédulos. Mas, lamento desiludi-los, não se trata de um milagre. É, apenas, mais uma iniciativa da Câmara do bairro sul da Eurocidade (agora presidida por António Cabeleira, pois o senhor presidente eleito apenas vai a despacho), e antigamente conhecida como mui nobre e leal cidade de Chaves. 

 

Esse incrível empreendimento de terra, cascalho e poucas ervas verdes e muitas secas, foi inaugurado no passado 4 de maio. Cerimónia presidida pelo ainda então vice-presidente, agora já presidente em exercício, pois o chefe eleito apenas vai a despacho. E, dizem-nos, já não é nada mau, pois qualquer dia, se a pimenta lhe chega ao nariz, AC é muito bem capaz de dar por terminado definitivamente o mandato de JB e proclamar-se presidente, não vá alguém adiantar-se-lhe.

 

Mas, como ia dizendo, para perpetuar a efeméride, António Cabeleira descerrou um monólito e, não contente com isso, resolveu explicar aos presentes que, “além da importância da fé, foi relevante traçar um percurso turístico onde os peregrinos e/ou caminheiros (bem este “e/ou” é que constituiu a pedra de toque do seu douto e sentido discurso) possam desfrutar da natureza e de espaços culturais das localidades (um milagre e uma aparição ou uma alucinação?)

 

Entusiasmado com a chama do Santo, que ficou conhecido na história como o Matamouros, António, não o santo padroeiro de Lisboa, mas o nosso quase pio vice camarário, esclareceu os presentes que “no nosso município, levamos as pessoas a conhecer o nosso território e a passagem por um percurso mais urbano pode ser aproveitada para as pessoas visitarem espaços culturais e descansarem” (novo milagre e/ou outra aparição ou/e alucinação?).

 

Vítima, benigna, é necessário dizer, da trilogia alucinatória e/ou milagre ou/e aparição, quando não tudo junto, o senhor vice AC, encontrou ainda forças para explicar que o tal caminho do Santo Matamouros serve para “reforçar a nossa grande atratividade turística”.

 

Esta “grande atratividade turística” só pode ser vista, e exaltada, por quem enxerga muito para além da realidade. Só está ao alcance dos visionários. Mais um suave milagre do santo galego e/ou alucinação divina ou/e aparição celestial, de que foi vítima, benigna, é necessário voltar a afirmar, da trilogia delirante do vice camarário do bairro sul da Eurocidade, antigamente conhecida como terra dos flavienses. 

 

Além disso, o nosso delirante vereador e/ou vice camarário ou/e presidente em exercício de funções, António Cabeleira, vê neste troço de areão e ervas que percorre o território do bairro sul da Eurocidade, antigamente também conhecido como terras de Aquae Flaviae, além de “um caminho espiritual, um destino turístico”.

 

Para comprovar isso mesmo “ficou definida a dupla marcação do caminho permitindo o fluxo de peregrinos também para Fátima”. Ou seja, é um caminho “dois em um”, tanto permite que uns peregrinos e/ou caminhantes vão para Santiago rezando e/ou assobiando ou/e cantando, enquanto outros se podem dirigir a Fátima sem se enganarem no caminho cantando e/ou assobiando ou/e rezando. É este o terceiro e/ou segredo ou/e milagre (não de Fátima, mas de AC).

 

Para os estimados leitores aquilatarem da estratégia democrática e/ou abrangente do nosso rompedor de caminhos sagrados (ou/e inaugurador de monólitos) e/ou profanos ou/e turísticos, podemos referir que o caminho de ervas e cascalho atravessa 12 freguesias, que daqui a uns meses podem muito bem ser apenas oito e/ou sete ou/e seis, dependendo e/ou da bênção do governo (do cardeal Richelieu que dá pelo nome de Miguel Relvas) português ou/e do milagre da autarquia do bairro sul da Eurocidade, antigamente também conhecida como município flaviense.

 

Então ei-las, as 12 freguesias, que, por intervenção divina de AC e de MR, se verão reduzidas a metade. Sim, nós sabemos que os milagres, por tradição e uso, consistiam na multiplicação, fosse ela do pão, dos peixes ou do vinho. Mas isso era antigamente. Agora os milagres são feitos ao contrário: reduzindo, subtraindo, dividindo. Reduzem-se os salários, cortam-se o 13º e o 14º meses, surripiam-se as pensões de reforma e os abonos de família. E isto sem nenhuma contestação enérgica. Isso sim é milagre. É um grande e suave milagre. Toda a Europa está de boca aberta. Pudera. Somos caso único.

 

Mas as tais doze freguesias que, por milagre do nosso beato António, passarão a ser metade, são: Oura, Vidago, Selhariz, Vilas Boas, Vilela do Tâmega, São Pedro de Agostém, Samaiões, Madalena, Santa Maria Maior, Santa Cruz/Trindade, Outeiro Seco e Vilarelho da Raia.

 

A cada junta de freguesia o senhor vice do bairro sul da Eurocidade, antigamente conhecida como terra dos transmontanos de Chaves, solicitou apoio na “sensibilização da população local para a importância do caminho para a freguesia…” (que por milagre poderá passar a fazer parte de uma outra), “… colaboração na marcação do trajeto e apoio e vigilância e manutenção do mesmo”.

 

Ou seja, agora cada cidadão das terras do bairro sul da Eurocidade ou arredores (antigamente também conhecidos como flavienses), vai ter de estar atento e participar com o seu sacho e as suas mãos na monda das ervas que podem invadir a terra e o cascalho do Caminho de Santigo e/ou Caminho de Fátima ou do Caminho de Fátima ou/e Caminho de Santiago. E podem, e devem, também estar atentos, não vá algum sarraceno desviar o caminho ou então rodar as placas de orientação, levando a que os caminheiros e/ou peregrinos que se querem dirigir a Santiago vão para Fátima e os peregrinos ou/e caminheiros que pretendem dirigir-se a Fátima vão ter a Santiago. Ora isto seria o descalabro. Pois, mesmo sendo os dois caminhos veneráveis, os seus fiéis são distintos. E ninguém anda a pagar promessas a Nossa Senhora de Fátima para elas virem a ser entregues a Santiago e/ou vice-versa, ou/e vice-versa e/ou Fátima. Confesso que estou a ficar um pouco baralhado. Mas vou continuar.

 

Relativamente à rede de albergues no troço que atravessa o bairro sul da Eurocidade, antigamente também conhecido como Chaves cidade, os peregrinos e/ou caminheiros ou os caminheiros ou/e peregrinos, vão poder pernoitar e/ou dormir ou/e descansar nos Bombeiros Voluntários de Vidago e/ou nos Bombeiros Voluntários Flavienses ou/e no Centro Social e Cultural de Vilarelho da Raia. 

 

E por hoje é tudo e/ou quase. Confesso que continuo um pouco baralhado. Mas para a semana prometo já estar um pouco menos confundido e/ou quase ou/e talvez ou/e/ou. Ou será que e…


publicado por João Madureira às 07:00
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Domingo, 24 de Junho de 2012

Falando


publicado por João Madureira às 07:00
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Sábado, 23 de Junho de 2012

Lendo


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Sexta-feira, 22 de Junho de 2012

O Homem Sem Memória - 120

 

120 – Antes de prosseguirmos com o relato, temos de confessar que mesmo nós, entusiasmados pelas anotações do José relativas às suas leituras do “Manifesto do Partido Comunista”, pegámos na mesma edição e, depois de ler: “Não há exagero em dizer que as dificuldades que se deparam na tradução…”, tombámos igualmente para o lado como pedras. Só despertámos de manhazinha ao ouvir o cantar do galo eletrónico pousado na mesinha de cabeceira. Mas como é do José que esta narrativa fala, avancemos sem mais delongas. No entanto, pedimos desculpa, mas voltamos já. Logo após o cafezinho da manhã.


Levantei-me com uma grande dor de cabeça. Mas mesmo grande. Enorme. O “Manifesto” está a dar cabo de mim. Fui procurar o Graça ao Centro de Trabalho para ver se falava com ele para lhe transmitir as minhas angústias, os meus desesperos, as minhas dúvidas e as minhas limitações. Mas ele não estava, tinha ido comprar mais baldes, cola e pinceis, pois era o responsável pela célula da Agitação e Propaganda.


À saída, uns militantes de base tentaram aliciar-me para ir colar cartazes. Eu, muito educadamente, recusei tão grande distinção. Os meus futuros camaradas olharam para mim um pouco de lado. Eu justifiquei-me dizendo que ainda não estava preparado para tão elevada tarefa revolucionária. Eles voltaram a olhar para mim ainda mais de lado. Eu insisti que para se ser militante comunista é necessário ler, pelo menos, o “Manifesto” e o “Programa e os Estatutos do Partido”. Eles retorquiram-me que não é preciso ser-se militante do Partido para colar cartazes e pintar paredes. Basta ser-se simpatizante. Eu disse-lhes que só colaria cartazes depois de preencher a ficha e pagar as quotas. Antes, nada feito. Insisti: Ainda não estou preparado para tamanha tarefa revolucionária. Eles foram-se embora, não sem antes exprimirem o que lhes ia na sua alma de comunistas sinceros: Provocador.


Durante a tarde pus-me a ler “O Idiota”. Fiquei angustiado, delirante, nervoso, tenso. Li mais de cem páginas sem me deter. Só parei quando a minha mãe me chamou para jantar. Jantei muito e bem. E bebi o que a comida me pediu. À noite fui de novo procurar o Graça à sede do Partido, que foi onde a sua avó me disse que ele se encontrava agora a toda a hora e momento. Mas ele, importante como já era, não me pôde atender porque estava numa reunião da comissão concelhia. Os mesmos camaradas dos cartazes renovaram-me o convite, desta vez para ir com eles fazer umas pichagens ao centro da cidade. Eu, porque sou um coerente leitor de Marx e Engels, e disso lhes dei conta, declinei o convite pelas mesmas razões apontadas anteriormente. Eles responderam-me: Pequeno-burguês. Eu desculpei-me: Não, eu não sou nada disso. Eles insistiram: Esquerdista. Eu desculpei-me de novo: Não, eu não sou nada disso. Ao que acrescentei: E isso o que é? Eles tornaram a insistir: Provocador. Eu respondi: Não, eu não sou nada disso. Sou apenas filho de um GNR que abandonou o seminário e que agora quer encontrar o caminho da revolução. Sim, confesso que quis ser democrata-cristão. Mas isso já me passou. Até quis ser socialista, mas desisti. Também foi vento passageiro. Agora apenas quero ser aquilo que os meus amigos são. E como quase todos eles são comunistas também quero ser comunista marxista-leninista e punhalista. Ao que um deles, respondeu: Não blasfemes. Eu deixei passar em branco a provocação e continuei: Não me resta outro caminho senão ser comunista. Por isso é que quero falar com o Graça por causa de uma coisa a que não consigo dar resposta sozinho. Então eles tornaram a insistir: Para fazer pichagens não é necessário ser militante. Apenas é necessário ser simpatizante. Eu, disse um deles, sou apenas simpatizante e colo cartazes e pinto paredes tão bem como qualquer militante. Respondi-lhe: Eu não me refiro à capacidade, mas antes ao ardor, à fé em praticar um ato não só por estima, mas antes por profunda convicção. Eu sei que sou capaz de colar cartazes numa parede e de escrever letras num muro. Mas esses atos se não forem acompanhados de uma adesão à causa não prestam para nada. Todos os nossos atos têm de refletir fé. E essa fé só a militância é que nos a pode dar. Eu só posso ir colar cartazes, pintar paredes ou vender “A Verdade” depois de me tornar militante. Não sou capaz de brincar com os princípios. É feitio meu. E o marxismo-leninismo é uma ideologia inundada de princípios. E de fins, remedou-me outro dos meus futuros camaradas. E ainda outro: Não foi Marx que disse que não interessam os meios com que se atinge um fim, se esse fim for o comunismo? Eu tornei a tornar: Não me consta. Mas tenho de reconhecer que ainda li muito pouco Marx. E Engels também. E Lenine. Até era por causa disso que queria falar com o Graça. E um deles, dos meus futuros camaradas: Camarada Graça. Camarada dirigente. Eu anui: Sim. E outro deles: Sim, o quê. E eu: Sim, o camarada Graça. E o mesmo meu futuro camarada: Camarada dirigente. Eu tornei a anuir, como convinha: Sim. E o mesmo outro meu futuro camarada: Sim, o quê. Eu, já um pouco farto da conversa de tontos, disse: Sim, o Camarada dirigente. E um dos que parecia distraído: Qual deles? E eu: O Graça. O camarada Graça. O camarada dirigente. E o tal meu futuro camarada distraído: Pois o Graça. Levantei-me de supetão e preparava-me para ir embora quando o camarada simpatizante me agarrou no braço e novamente me convidou para ir com eles colar cartazes e pichar paredes. Eu tornei a insistir com a minha falta de preparação ideológica. Ele fez-me ver que não é preciso ser um competente leitor de Marx e Lenine para colar cartazes com a devida eficácia comunista. Eu concordei. Mas contrapus: Como é possível andarmos a lutar por uma causa se não a percebemos completamente? Todos juntos: Reacionário. Ia eu a dizer que não era nada disso quando, pensando melhor, lhes respondi à letra: Basistas. E dali me fui para casa ao encontro do meu “Manifesto”. Entendamo-nos, não do “meu” manifesto pois eu não sou daqueles que escrevem manifestos. Eu gosto pouco dessas coisas. Eu gosto mais de escrever poesia. Mas fui ao encontro de mais uma tentativa de leitura do “Manifesto do Partido Comunista”. 


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Quinta-feira, 21 de Junho de 2012

Olhando


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Quarta-feira, 20 de Junho de 2012

O Poema Infinito (105): a bicicleta semântica

 

Chegou a vez da grande memória, dos vestígios de dias prodigiosos manifestamente preenchidos por poetas que pedalam vertiginosamente as suas bicicletas dialéticas. É agora o tempo das flores legítimas de sol, das rimas das rosas, da violenta fantasia do verão que se aquece no amor confuso dos milagres. É esse o instante da graça do poeta que continua a pedalar no ritmo secreto do devaneio. E o poeta insiste na sua bicicleta. E no seu pedalar. Na direção do seu pedalar, pois sabe que a vida é curta, que o poema é infinito, mas que a morte é transfiguração. Num tempo sentado e em repouso, ouve cantar uma mulher no paraíso entre salsa, avencas e silêncio. Sobre as árvores desce agora uma doçura oblíqua. O jardim resplandece na sua clara atenção de uma infância que queima, que queima o espaço e a candura e a voltagem dos círios, que queima o tempo e as escuras varandas das casas abandonadas. E uma voz de criança quebra o espelho do lago e dos seus olhos irrompem frutos vagarosos numa velocidade de clareira. É o tempo dentro da sua velocidade. E as mães vêm devagar anunciar as suas palavras de criação. E o poeta fica louco anunciando canções de palavras sentadas. É o tempo dentro da sua pérfida inocência. O tempo que respira e anda dentro da sua imediata ausência. É o tempo de energia rápida. Um tempo que engole a magia, que devora os segredos, que respira as imagens que passam sempre e sempre. E para sempre. Tantos nomes têm o silêncio e o esquecimento. Tantos nomes rápidos. Tantos sonetos vorazes. Nas árvores sonolentas a seiva corre entre os interstícios de luz. E o ar veste-se de movimento. E o fulgor da matéria arqueja na madeira. E o tempo torna-se vegetal. E abre-se. E o dia fica a outra distância, absorvido pela própria velocidade dos átomos. E os rostos precipitam-se para dentro como uma estrela que a todo o momento se transforma noutra coisa qualquer. É a energia dos três pontos fixos. Toda a leveza se torna ameaçadora como se fosse feita de tecido doloroso. E a chuva afogueia a terra no seu regresso líquido. É a hora dos jardins se contorcerem entre a água e o estio. É a hora dos espaços surpreendidos transpirarem na sua atmosfera de melancolia. E o poeta que pedala a sua bicicleta dialética encontra o seu mapa astral e rejubila. E toca nos seus animais inventados com dedos que são semiluas e que são também folhas repletas de energia e tristeza. O poeta desenha com palavras enxutas um bordado sensível na margem do poema. E chora. Tem agora a idade dos suspiros. E por isso adormece. E brilha. E acende-se. E passeia pelos corredores do seu tempo. E chora. E estremece. E fala das suas mãos e das folhas impressas dos seus livros e fecha os olhos no seu silêncio de leitor. E espera devagar pelas palavras que lhe irrompem nos lábios. E dissolve-se nas palavras e na mulher que ama. E o poeta pensa: Tenho dentro de mim uma criança profunda que é todos os lugares a que já fui. E sorri. Fora do seu quarto as estrelas mudam de cor. E o poeta adormece pensando como é bonito imaginar que amanhã vai voltar a pedalar a sua bicicleta. A dialética da sua bicicleta. A semântica da sua bicicleta. Só então o poeta compreende que a sua bicicleta é a sua própria poesia. 


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Terça-feira, 19 de Junho de 2012

Pensando


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Segunda-feira, 18 de Junho de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XX): A Eurocidade, o cartão, o João, o Juan e o secretário técnico

 

E vai daí, João Batista, o senhor presidente do bairro sul, sorrindo para as objetivas na apresentação do primeiro número da revista Fórum, depois de olhar, momentos antes, para o senhor presidente do bairro norte, Juan Jiménez Morán, disse que Portugal e Espanha falam, agora, a “uma só voz”.

 

Não é nem Trás-os-Montes e Galiza, não é sequer o concelho de Chaves e o de Verin, mas antes Portugal e Espanha que agora falam a “uma só voz”, que, desta vez, até foram duas: a do autarca João e a do alcaide Juan. Ou vice-versa, por causa da equidade entre os bairros.

 

E a tal voz, una e indivisível, disse, ainda mais uma vez com o sotaque e o sorriso português do presidente do bairro sul da Eurocidade: “Queremos que as pessoas se sintam bem neste território e não sintam a diferença quando atravessam a fronteira.” E tornou a sorrir na direção do alcaide do bairro norte e, agora, na direção do público e proferiu: “Pretendemos ainda compatibilizar sistemas de cobrança de portagens, criar uma plataforma de correios ibéricos, eliminar o «roaming» na Península Ibérica e conceber uma comissão de proteção civil comum.“

 

Ou seja, os presidentes dos dois bairros da Eurocidade pretendem substituir-se aos respetivos Estados para criarem serviços ibéricos. E andamos nisto: tu dizes umas piadas, eu digo outras tantas e no fim rimo-nos pois alguém há de escrever alguma coisa nos jornais.

 

Mas, alto lá, será que estes dois senhores não têm sentido do ridículo? Querem fazer de nós parvos? Toda esta encenação já começa a enervar mesmo os flavienses mais crédulos e pacientes.

 

No dia da inauguração da sede da Eurocidade, situada em território galego, que juntou várias entidades políticas e administrativas dos dois países, foram proferidas palavras que são o exemplo perfeito de demagogia e de vacuidade inerentes ao projeto, pois tanto servem para esta celebração como para as mais diversas situações e comemorações onde os políticos enchem a boca com frases que ninguém entende mas que ficam bem a quem as profere. Foi assim que foram ensinados e é assim que sabem fazer política. É como muito bem diz o povo: Não entendemos nada do que o senhor presidente disse mas temos de reconhecer que fala muito bem.

 

Falaram de integração, conciliação e coesão social, de abertura ao mundo, de desenvolvimento, de ofertas turísticas, de afirmação de uma identidade, de cooperação, proximidade, recursos endógenos, liderança, requalificação, oficinas de turismo e ações que melhorem a qualidade de vida.

 

E então tudo isso deu em quê? Pois sim senhor, deu em pantomima. Até agora gastaram 200 mil euros para construírem uma sala insonorizada para lá tocarem bandas musicais, que nas horas vagas serve também de sede da Eurocidade, e emitiram um cartão de Eurocidadão. E essa pífia realidade serviu para os dois senhores presidentes dos bairros norte e sul da Eurocidade aparecerem em duas ou três edições dos jornais da região a sorrir e a exibirem um retângulo de plástico que pouca, ou nenhuma, serventia tem.

 

Está claro que se colocaram a tempo por detrás do apetrecho plastificado e apregoaram que “o cartão de Eurocidadão vai permitir facilitar a vida dos cidadãos e aceder a um conjunto de serviços públicos de carácter coletivo e social das duas localidades”. E disseram ainda mais: “Na Eurocidade tudo é um ponto de partida”. Eles é que são uns pontos. E fazemos votos que estejam de partida, para o seu próprio bem, ou, na melhor das hipóteses, para o bem das comunidades que afirmam representar e governar.

 

Mas ainda não é tudo. Na sua insistente manobra de propaganda, repisaram que o tal cartão é cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e pelo Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça Espanha-Portugal (POCTEP).

 

E insistiram: “O cartão do Eurocidadão destina-se a proporcionar os mesmos benefícios aos residentes dos dois municípios” (agora mais conhecidos por bairro norte e bairro sul), “nas mesmas condições de acesso e uso dos que já dispõem no seu município de residência, promovendo desta forma o intercâmbio entre populações e o aumento da oferta e da diversidade de serviços.”

 

Mas não contentes com todas as promessas feitas, asseguraram ainda mais algumas, não vá a demagogia ficar manca. O tal cartão terá ainda a capacidade de potencializar e promover uma “gestão equilibrada dos fundos comunitários, através do aproveitamento de economias de escala, na utilização e gestão partilhada de recursos já existentes ou, até, no planeamento conjunto de futuros equipamentos.”

 

Aqui chegados deixem que vos conte o que me fez lembrar esta publicidade enganosa: nada mais, e nada menos, do que os antigos vendedores da banha da cobra. Ou ainda os vendedores de mantas na Feira dos Santos que, na compra de um cobertor, oferecem uma dúzia de pares de meias, um ou dois guarda-chuvas, meia dúzia de lenços e ainda uma faca, uma tesoura e um pífaro de lata para os filhos ou os netinhos.

 

Ai pensam que exagero? Por muito esforço que faça apenas consigo ficar um pouco aquém da realidade. Eu bem tento, como muito bem sabem os estimados leitores, mas os autarcas dos dois bairros da Eurocidade conseguem suplantar-me sem para isso fazerem grande esforço.

 

Ora então fiquem os estimados leitores com as vantagens práticas do tão enaltecido cartão. E olhem que vou citar todas as que vieram nos jornais. Todas, todinhas sem exceção. Primeira: “Vantagens na Biblioteca Municipal de Chaves e nas Piscinas do Rebentão”. Falam de vantagens mas não especificam quais são, mas devem ser imensas. Segunda: “Benefícios nos Museus Municipais (Museu de Região Flaviense, Museu de Arte Sacra, Museu Ferroviário) e na Piscina Municipal.”

 

E terceira: “Previsivelmente” (e foi isto que veio escrito nos jornais), “a partir do mês de maio, existirá um programa de visitas guiadas gratuitas para associações e grupos, que inclui um amplo percurso por diferentes pontos de interesse turístico e patrimonial dos municípios de Chaves e Verin”. Isto é, “previsivelmente”, o choque turístico da dupla António Cabeleira e Agostinho Pizarro, o responsável do secretariado técnico da Eurocidade, vulgo o mentor ideológico do divertimento.

 

Ou seja, a Eurocidade vai oferecer gratuitamente passeios a turistas. E vai carregar tudo isso no cartão de crédito de todos os flavienses. É mais uma vantagem desse imenso privilégio de ser Eurocidadão com direito a cartão. E isto tudo está tão bem organizado que até vai depender, nas doutas palavras do responsável técnico Agostinho Pizarro, das “solicitações e da articulação com as agências de viagens”. Bravo Agostinho, também tu és um génio bem à imagem e dimensão do teu estimado amigo e, querido vereador, António Cabeleira. Bravo. Bravíssimo.

 

E para este efeito, o executivo camarário do bairro sul reuniu extraordinariamente e aprovou as alterações aos regulamentos municipais “no sentido de passarem a ser compatíveis com as normas previstas no Regulamento do Cartão do Eurocidadão, muito concretamente com as normas associadas aos benefícios decorrentes da titularidade de tal cartão”.

 

As citadas alterações permitem agora aos portadores do cartão do cidadão poderem “entrar gratuitamente na rede de museus e pagar 1 euro para usufruir da piscina (em vez de 2) e 0,40 cêntimos (em vez de 0,75) para pessoas com mais de 65 anos e até aos 16 anos”.

 

Ainda devem estar lembrados de os dois senhores presidentes encherem a boca de integração, conciliação e coesão social, de abertura ao mundo, de desenvolvimento, de ofertas turísticas, de afirmação de uma identidade, de cooperação, proximidade, recursos endógenos, liderança, requalificação, oficinas de turismo e ações que melhorem a qualidade de vida e… de o cartão permitir facilitar a vida dos cidadãos e permitir aceder a um conjunto de serviços públicos de caráter coletivo e social das duas localidades e… que na Eurocidade tudo é um ponto de partida e… que se destina a promover desta forma o intercâmbio entre populações e o aumento da oferta e da diversidade de serviços e, ainda, que… o tal cartão é cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e pelo Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça Espanha-Portugal (POCTEP) e… que, afinal, o tal cartão vai possibilitar a gestão equilibrada dos fundos comunitários, através do aproveitamento de economias de escala, na utilização e gestão partilhada de recursos já existentes ou, até, no planeamento conjunto de futuros equipamentos. Ufa, estava a ver que não conseguia acabar.

 

Agora, depois de tudo espremido, ficámos a saber que o famoso cartão permite aos seus portadores ir para o Rebentão e… para a piscina municipal e… entrar nos museus de graça.

 

E como eles são tão apelativos, já prevejo filas e filas de Eurocidadãos do bairro norte (antigamente conhecidos como galegos de Verin) e de Eurocidadãos do bairro sul (dantes apelidados de flavienses), impacientes para que os citados museus abram as suas portas para poderem aceder, a tempo e horas, às suas excelentes propostas culturais.

 

E isto semanas e… semanas e… semanas seguidas, pois eles são tão grandes e… o seu espólio é tão diversificado que é bem capaz de cada Eurocidadão gastar um mês inteirinho a admirar as peças expostas. Isto se conseguir ter vaga disponível. O que duvidamos. Mas para grandes projetos, grandes ideólogos. Bravo Agostinho, também tu és um génio.

 

E, num futuro próximo, bem mais próximo do que calculamos, enquanto os Eurocidadãos vão andar num corrupio cultural, turistas vão passear-se de graça pelas ruas do bairro sul gozando do privilégio de observarem um rio de águas estagnadas, de poderem enxergar, no centro histórico da cidade, as ruas cheias de garrafas partidas, copos de plástico e, de quando em vez, fezes pelos cantos e esquinas (resultantes do “botellón” flaviense), perguntando-se se os excrementos pertencerão a animais ou a seres humanos. O que para o caso tanto monta, mas sempre conferem um arzinho de ruralidade, que julgávamos perdido. E poderão ainda, os estimados turistas, se forem suficientemente curiosos, ficar a saber que o hospital que estão a vislumbrar lá ao longe possui apenas os serviços de um Centro de Saúde, que o edifício universitário é apenas uma construção elegante construída fora de portas, mas que já não tem cursos, ou possui apenas meia dúzia de turmas com guia de marcha para Vila Real, e que o Tribunal vai ser desmantelado para dar lugar a um espaço de ruínas romanas que fará as delícias dos maluquinhos das pedras antigas.

 

Esta pantomima fez-me lembrar o “Clube dos Fás”. Um grupo de crianças resolveu um dia criar uma coletividade que em troca de um cartão, e do prestígio de pertencer ao Clube, pagavam uma cota estipulada em reunião de direção. Como o dinheiro angariado não dava sequer para todos os sócios terem acesso a um gelado por mês, a direção do clube resolveu sortear semanalmente um Fá pelos sócios efetivos. O que muito alegrou os adeptos. Também em reunião da direção, para retribuir o trabalho efetuado e para recompensar o prestígio dos seus elementos, resolveu, a douta direção, incluir na oferta um Fá semanal para todos os membros efetivos do seu órgão máximo. Muitos deles andam agora espalhados pelas autarquias e outros já passaram por vários governos da nação.

 

PS – O que ainda não conseguimos apurar é se a Eurocidade já tem bandeira e hino oficial. Mas, com o caminho que isto leva, deve estar para breve. Até lá vamos aguardar pacientemente.

 

Ó senhor secretário técnico dê lá uma ajudinha! O bairro sul da cidade, que tão ajuizadamente ajudou a fundar, agradece-lhe do fundo do coração.

 

Para criarem Roma foram necessários dois rapazes, Rómulo e Remo. Para formarem a Eurocidade foram fundamentais dois autarcas, João e Juan, e um secretário técnico, Agostinho Pizarro. Sinais dos tempos. Mas a história continua a ter protagonistas que nos acodem sempre que deles temos precisão. Rejubilemos!


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Domingo, 17 de Junho de 2012

Músicos


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Sábado, 16 de Junho de 2012

É tudo um jogo de espelhos


publicado por João Madureira às 07:00
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Sexta-feira, 15 de Junho de 2012

O Homem Sem Memória - 119

 

119Mais algumas anotações de José, filho de outro José, filho de Luís, filho de Manuel, filho de Geraldo, filho de Venceslau, filho de João, filho de Fernando, filho de Dinis, filho de Carlos, filho de Afonso… filho Alexandre… filho de José, filho de Jacob, filho de Salomão, filho de David, filho de Jessé, filho de Esrom, filho de Farés, filho de Judas, filho de Jacob, filho de Isaac, filho de Abraão.


Anotações sobre o terceiro livro sagrado das religiões monoteístas: O Manifesto do Partido Comunista, na sua edição portuguesa. Ei-las como as encontramos encafuadas na mala da prisão do José.


Nestas coisas de Livros Sagrados, o “Manifesto Comunista” é muito mais parecido com o Alcorão do que com a Bíblia. Aqui também tudo é muito pão pão queijo queijo, zeca. E sobretudo é o segundo livro mais chato do mundo. Ai não acreditam? Mas vão passar a acreditar depois de lerem o (quase) diário que escrevi durante noites e noites de tortura, onde estive perto de morrer queimado, e que aqui vos deixo como testemunho. Ah!, antes que me esqueça, o primeiro livro mais chato do mundo é do mesmo autor e dá pelo nome de “O Capital”.


Começo logo da pior maneira possível, com uma confissão: É que adormeci logo de início ao ler a nota introdutória “Ao Leitor”. E não foi sequer preciso chegar à primeira frase de Vasco Magalhães-Vilhena: “Sabemos a responsabilidade que tomamos.” Não. Adormeci no excerto da carta de F. Engels a A. Sorge. Ou seja, logo depois de “é terrivelmente difícil traduzir o «Manifesto»”, os olhos cerraram-se-me como dois portões de quinta. Reconheço que dormi lindamente.


Tentei noites seguidas avançar, mas é o avanças. Por isso tenho de reconhecer que, até à data, este é o primeiro livro que me provoca uma imensa soneira. Mas nem tudo foi mau, pois eu, que tinha insónias por causa dos meus dias passados na prisão, passei a dormir como um santo. Palavra de honra que é a mais pura das verdades.


Na primeira noite avancei por meia página ímpar e mais um quarto de página par, mas adormeci profundamente após ler: “Não há exagero em dizer que as dificuldades que se deparam na tradução…”, e tombei para o lado como uma pedra. Só acordei na manhã seguinte ao ouvir o canto do meu galo madrugador.


Na noite seguinte avancei cerca de uma página, mas fui-me logo abaixo após passar, em voo de andorinha, os olhos por cima das palavras que preenchiam cerca de uma folha, onde se podia ler: “A tradução para a língua portuguesa que hoje se publi…” Nem sequer fui capaz de acabar a palavra. E zás, tombei para o lado como um ditoso bêbado na noite de Natal. Dormi toda a noite como um justo. Acordei apenas de manhazinha logo após o galo cantar três vezes. Premonições.


Na terceira noite demorei três horas a decifrar oito linhas. Demorei esse tempo todo não porque não soubesse ler o texto, mas tão só porque adormecia e acordava ao ritmo de dez palavras lidas intervaladas por trinta e tal minutos de boas e sonantes ressonadelas. Isto segundo o relatório circunstancial da minha mãe.


“Prefácio da edição alemã de 1872 (MEW, 18, pp. 95-96)…” Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… acordar assarapantado e…  “Prefácio da edição russa de 1882 (MEW, 19, pp. 295-296)…” Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… acordar assarapantado e  assim sucessivamente mais cinco vezes até… “e prefácio da edição italiana de 1893 (MEW, 22, pp. 365-366) (1)…” E o um era uma nota de rodapé com os seguintes dizeres: “Como é de uso corrente designamos aqui, para a abreviar, pela sigla MEW os Marx Werke editados pelo Doetz Verlag de Berlim (RDA).”


Nesse ponto desisti de continuar a ler o capítulo e passei à fase seguinte, pois cheguei à conclusão que esta parte não devia ser lá muito importante. Eu sei que nestas coisas nunca se sabe, mas que mais podia eu fazer senão deixar-me guiar pela minha intuição.


O texto que se seguia, da autoria do mesmo senhor, intitulava-se “Nota acerca da primeira tradução portuguesa do «Manifesto do Partido Comunista» ”, e iniciava-se da seguinte maneira: “A presente edição é, como atrás dissemos, a primeira, que saibamos, em língua portuguesa estabelecida sobre os textos originais…” e mais algumas palavras e mais uma nota. Passei em claro. Mas debaixo desta estava ainda uma outra em numeração romana que explicava: “Ver notas complementares no fim do volume, indicadas em algarismos romanos”. E foi para lá que me dirigi com toda a paciência do mundo. Essas notas ocupavam 79 páginas. Três delas sobre as notas da edição alemã referentes aos prefácios e outras duas alusivas às notas da edição alemã pertencentes ao texto do «Manifesto». As outras 72 páginas eram constituídas por notas complementares da edição portuguesa. E adivinhem lá quem é o autor. Frio, frio, frio. Não, não é o Lenine, Marx, Engels, Estaline ou Alberto Punhal. É o douto Vasco Magalhães-Vilhena.


Para os estimados leitores avaliarem da estatura intelectual do senhor, basta lembrar que o manifesto ocupa apenas 46 páginas. O que nos leva a concluir que as notas à edição portuguesa são muito possivelmente bem mais importantes que o próprio “Manifesto”. Pois no comunismo a dimensão define sempre a importância, a posição, o posto e o protocolo. E o controlo. Se há coisa de que os comunistas são zelosos é no controlo. E também no protocolo. Mas avancemos. Avante camarada…


Bem, posso dizer que mal dormi durante toda a noite e quando o consegui fazer, por escassos períodos de tempo, tive pesadelos. Comecei a pensar que se para se ser comunista era obrigatório ler o «Manifesto», eu, muito possivelmente, nunca poderia vir a sê-lo de corpo inteiro, pois o livro estava a transformar-se na história interminável. Pelo menos para mim. Mas, tendo como ponto de referência os níveis baixíssimos de escolarização, de alfabetização e de literacia em Portugal, já para não falar nos índices de leitura e, muito particularmente, de leitura especializada, estou em crer que em Portugal o «Manifesto» tinha para aí um leque de cem leitores disponíveis. E olhem que estou a ser otimista quanto baste. Além disso, eu tinha prometido a mim mesmo, e ao Graça, que só aderia ao Partido depois de ler, e compreender, o «Manifesto» e o «Programa e os Estatutos do PC».


Lá pela décima noite de flagelo, ainda ia no prefácio à edição alemã, da autoria de Karl Marx e Friedrich Engels. E para se aperceberem da leitura tortuosa a que estava obrigado, basta referir que depois de 19 linhas de um texto chato como a potassa, lá vinha mais uma advertência no rodapé com indicação de ver nota (V) no fim do volume, enquanto o texto nos remetia para mais três notas em numeração romana e duas em numeração árabe. Passando em claro as notas em numeração árabe referentes à edição alemã, que apenas ocupam 20 linhas, as do senhor Vasco, identificadas com a numeração romana de (I) a (V), valha-me Deus, estendem-se por 200 linhas, ao longo de seis densas páginas. Arrepiei-me e adormeci. Ou melhor tentei adormecer. Mas como não o conseguia, voltei ao princípio: “Quanto à tradução do Manifesto vê-se uma vez mais que…” mas agora não resultava. Passeia à outra parte: “Prefácio da edição alemã de 1872 (MEW, 18, pp. 95-96)…” Aqui foi de novo tiro e queda. Que descanso. Que felicidade. Sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… e… sono, ressonadelas, ressonadelas, mais sono, mais ressonadelas… Até que o galo voltou a cantar três vezes. Mais premonições. 


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Quinta-feira, 14 de Junho de 2012

Plateia


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 13 de Junho de 2012

O Poema Infinito (104): o tempo e o espaço

 

Escuto nas tuas palavras frutos de pomares que se dilatam em ondas silenciosas de doçura. E as crianças brincam na tarde que se prolonga. E o tempo acaricia-as e surpreende-lhes a respiração. Depois os teus olhos incendeiam-se e tudo recomeça a ficar transparente. O vento começa a afagar as árvores e o dia transforma-se numa fonte de água clara. E a terra respira na sua nudez de silêncio. Sinto de novo a ânsia da tua nudez inocente. Dizes: Todo o jardim tem o seu segredo. Vou tentar dominar a evidência serena do desejo do teu corpo. Agora quero possuir a tua alma. Por isso tento penetrar na tua porta feita de palavras evidentes. Cada vez sinto mais a distância que me separa da infância e da sua monótona perfeição. Apenas as palavras que a definem ainda murmuram o seu odor evidente de vertigem. Sou cada vez mais uma festa de silêncio. O tempo torna-se duro e embrulha os sonhos. A vida deixou de ser uma ficção proibida para se transformar num arrependimento invisível. O tempo é cada vez mais uma circunstância feroz. O tempo é uma palavra implacável. O tempo é um eco longo e incontrolado. Por isso fingimos destinos e enfiamos os sentimentos profundos dentro de uma mala portátil. E o tempo fica em silêncio sorrindo dentro da sua razão inexorável. Eu fico apenas com a raiva extravagante da razão. Toda a esperança enlouqueceu dentro dos abraços de despedida. As primaveras são agora relâmpagos que doem e por isso te abraço enquanto dormes tentando aliviar os meus pesadelos. Chego em silêncio aos teus lábios e neles pouso um lindo poema húmido de desejo. É breve a austeridade desta luz. Continuo a percorrer um caminho de palavras que deixo escritas no rosto da terra. E até invento os meus passos e o meu próprio caminho. As evidências comovem-me e por isso não as digo. Uma vaga breve de um tempo igualmente breve emerge no teu rosto que é agora um sorriso súbito de espanto. Pouso as mãos no teu corpo que é uma extensão de vento. E sorrio de forma oscilante. Dizes: Todo o amor é uma memória passada de um tempo presente. E da superfície do teu rosto emerge a cintilação branda da manhã. Tu dizes: Nós somos enquanto existimos daí ocuparmos espaço. Eu insisto no ar e na sua suspensão harmoniosa. Os meus olhos inventam agora uma nova realidade. O mundo é novo. A terra é clara. Tu voltas a ser o meu alimento. Mastigo-te. O sol da manhã acende-se em carne. Os teus seios de água doce tornam a nascer como uma fonte. Bebo-te. Na tua boca respiram agora as janelas do mundo por onde a luz entra concebendo a vertiginosa música da fecundação. Sinto outra vez o aparato silencioso das horas. Ao pé de ti todas as palavras ficam nuas. A minha mão principia a percorrer-te lá do alto e desenha-te o perfil. E depois flui liberta como o olhar. Abrimos de novo os lábios e bebemos longamente. E o meu sexo escreve mais um poema na página aberta do teu corpo. 


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Terça-feira, 12 de Junho de 2012

Ver passar o senhor abade


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Segunda-feira, 11 de Junho de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XIX): Eurocidade – com coisas sérias não se brinca

 

Hoje vou começar pelo fim. Mas não se amofinem porque não é para acabar a crónica antes de a começar. Tal facto tem tudo a ver com o método e nada com o conteúdo.

 

É que abriu recentemente a “Oficina de Informação Juvenil Transfronteiriça e Local de Ensaio da Eurocidade Chaves-Verín”. Pela extensão do nome somos levados a pensar que deve ser uma coisa fantástica, mas trata-se de um serviço mexeruco que foi instalado no edifício da antiga alfândega de Feces de Abajo. É apenas foguetório.

 

No entanto, a brincadeira custou a módica quantia de 200 mil euros. E sabem para que serve? Pois para local de ensaio de bandas musicais. Gasta-se uma pipa de massa para arranjar uma sala insonorizada destinada a ensaios de jovens músicos. Lá longe, no meio da terra de ninguém. Bem, na terra de ninguém é uma forma de dizer, pois o local onde a sede foi instalada é território espanhol.

 

Para a inauguração acorreram de Espanha uns finórios galegos e da parte portuguesa estiveram presentes o Diretor Regional do Instituto Português da Juventude e o vice camarário flaviense, que, ao que tudo indica, já tomou posse efetiva do posto de presidente em exercício do município de Chaves.

 

João Batista, a crer nas más línguas, já só vai a despacho. Podem dizer-me que a situação é legal e quem sou eu para o desmentir. No entanto considero que tal comportamento é democraticamente inaceitável. Em democracia, e numa república, mesmo que cada vez mais descaraterizada, não há sucessões dinásticas. Muito menos quando elas não foram ainda a votos.

 

Os mentores do projeto vieram para os jornais afirmar que ele tem por objetivo “servir de plataforma para favorecer e apoiar a mobilidade, a interação e colaboração entre a juventude da Eurocidade; contribuir para a integração e coesão sociocultural da Euroregião e fomentar um espaço para a juventude, que sirva como ponto de referência informativo em temas como empreendedorismo, educação, cultura, lazer, entre outros.” Ou seja, tretas. As tretas do costume.

 

Vejam como as coisas são, os nossos jovens debatem-se com problemas de acesso ao ensino superior, com situações complicadas a nível da educação formal e da aprendizagem de um ofício, com gravíssimos problemas de emprego e de saídas profissionais e os nossos autarcas, como se fossem de Marte, gastam 200 mil euros para insonorizar uma sala para ensaios de grupos musicais. Isto é a mais pura das insanidades.

 

Andam a desperdiçar verbas avantajadas em projetos que não interessam a ninguém, a não ser a empreiteiros e políticos. Esbanja-se o dinheiro que tanta falta nos faz em incentivos a políticas ativas de formação e emprego para jovens e ainda se vão gabar disto para os jornais. Mas esta gente pensa que somos todos otários, ou quê?

 

O alcaide de Verin vai mesmo ao ponto de declarar coisas que só ele é que está em condições objetivas de o fazer: “Ambos os locais (as duas salas do edifício) serão um ponto de referência em matéria de emprego, formação e intercâmbio de experiências musicais destinados a promover a cultura luso-galaica.”

 

Bem, se o ridículo matasse o senhor tinha saído da cerimónia de inauguração ferido de morte. Então uma sala insonorizada para lá ensaiarem bandas de garagem e outra com um balcão, umas cadeira e algumas mesas cheias de papéis de publicidade municipal, é que vão criar emprego e dar formação aos nossos jovens?

 

Tretas. Isto não passa de uma enorme mentira, de mais um tremendo embuste, de mais uma falácia pré-eleitoral.

 

Como a comédia está em andamento, o nosso vice camarário, e atualmente o efetivo presidente em exercício de funções da Câmara de Chaves, António Cabeleira, também entrou no jogo para ver qual dos dois autarcas contava a melhor piada do dia.

 

Para o senhor arquiteto “apostar na juventude é ter presente e garantir o futuro. A criação deste espaço é extremamente útil para impulsionar o fomento musical, constituindo-se como um espaço de ensaio dos grupos musicais dos dois bairros.”

 

Na opinião do senhor presidente em exercício de funções, António Cabeleira, uma sala insonorizada, situada em Espanha, onde os dois municípios enterraram 200 mil euros para lá ensaiarem bandas de garagem, é uma aposta para a nossa juventude, porque os nossos jovens do que necessitam é tocar umas músicas que a crise logo passa e o futuro está logo ali ao virar da esquina.

 

Esta é a prova provada de que os nossos políticos, em geral, e os nossos autarcas, em particular, não sabem o que dizem e muito menos sabem o que fazem. Palram como as aves canoras pensando que nos iludem.

 

O senhor vereador Cabeleira pode ter só um olho, mas todos sabemos que Chaves não é terra de cegos.

 

Vossas excelências podem desperdiçar o dinheiro que é de todos em projetos da treta, mas não têm o direito de fazer de nós parvos. E olhem que gastar 200 mil euros para insonorizar uma sala de ensaios é um atentado à sanidade mental dos flavienses.

 

Os nossos autarcas podem estar doidos varridos, mas estamos em crer que os flavienses ainda sabem bem o que fazem e conseguem perceber quando são burlados.

 

Para se inteirarem da patetice de algumas iniciativas, basta dar-vos conta de uma. Os dois municípios permitiram a cerca de 50 jovens beneficiar de cursos de língua portuguesa, voltados para a atividade profissional, para, dizem os iluminados, ampliar as possibilidades curriculares dos jovens, mediante a aquisição de competências linguísticas que lhes permitam trabalhar de um ou outro lado da fronteira.

 

Há qualquer coisa que nos ultrapassa. Então os portugueses aprendem português técnico para irem trabalhar para Espanha? Ou será que o curso é apenas destinado a galegos? E, sendo assim, não era exigível permitir também aos portugueses apender galego? E ainda mais uma questão: Então não é verdade que o galego e o português são línguas irmãs. Melhor seria se pusessem galegos e portugueses a falar, e a escrever, por exemplo, o inglês técnico, que é atualmente a língua que todo o mundo utiliza como ferramenta de trabalho a nível global.

 

Hilariante, verdadeiramente hilariante, é o facto de os iluminados autarcas de Chaves e Verin terem resolvido unir a Eurocidade transformando a cidade de Verin no seu Bairro Norte e Chaves no seu Bairro Sul. Foi isto o que veio escrito nos jornais.

 

Mas estes pândegos já anteriormente nos andaram a dar música. Numa tal Assembleia-geral da Rede Ibérica de Entidades Transfronteiriças, realizada em Chaves, tendo ainda como anfitrião João Batista, o presidente demissionário, um tal de Xoán Vázquez Mao, o Secretário-Geral da RIET, disse que “será necessária uma relação cada vez mais estreita entre as entidades transfronteiriças para criarem uma plataforma geral, assim como propostas fundamentadas e ajustadas à realidade”.

 

Peguem os estimados leitores nas palavras acima transcritas de que maneira pegarem, apenas chegarão à triste conclusão de que o que o senhor disse é nada. Um rotundo e categórico nada.

 

Mas ainda mais original foi a ideia, também nessa altura apresentada, da criação de uma plataforma de correios ibéricos. Então, quando cada vez menos pessoas utilizam os correios é que se lembram de criar uma rede ibérica? Só se for para dar emprego ao pessoal que elabora os projetos, mas não estamos em crer que algum serviço público ou privado passe a utilizar os correios em tempos da internet. A informação hoje é feita em décimas de segundo. É instantânea. Em que mundo é que esta gente vive? Ou pensarão que Chaves é alguma vila (bairro?) da América Latina?

 

Pois é, a Eurocidade fez de Chaves um bairro. O que os séculos, as guerras e as invasões não conseguiram, conseguiram-no os presidentes das duas cidades: metamorfosear estas duas localidades ancestrais em bairros de uma cidade com centro em Feces. Gabo-lhes a ousadia, mas eu não vou por aí. Perguntaram, por acaso, apenas por acaso, aos flavienses se estavam de acordo? Qual é o direito, de que se arrogam estes senhores, para nos terem transformado no Bairro Sul de uma Eurocidade inventada pelos tecnocratas de serviço?

 

Este enorme embuste que dá pelo nome de Eurocidade, além de nos ter transformado num bairro suburbano, cujo núcleo principal é Verin, com sede em Feces, tem sido usado na perfeição para malbaratar dinheiros públicos, para fazer campanha eleitoral nos dois lados da fronteira e tem ainda sido utilizado para dar emprego a gente que mais não faz do que promover os políticos que agora se perfilam para concorrerem às próximas eleições autárquicas. Ora este tipo de atitudes não são aceitáveis num país que se quer afirmar como desenvolvido e democrático. Isto é mais o tipo de técnica utilizada nos países subdesenvolvidos, onde o caciquismo é tolerado, quando não incentivado.

 

Está visto, esta equipa camarária anda a brincar com coisas sérias. Anda a construir nas costas dos flavienses um embuste que dá pelo nome de Eurocidade. Eu recuso-me determinantemente a ser um Bairro. Eu sou cidadão de uma das mais antigas e nobres cidades portuguesas. Uma coisa é a cooperação com as cidades galegas. Outra bem diferente é a nossa identidade, o nosso orgulho, a nossa história.

 

Eu recuso-me a entrar neste jogo de brincar às cidades. Era o que mais faltava. Eu sou flaviense, não sou um eurocidadão sem nome nem identidade. Eu sou flaviense, transmontano, nortenho e português. Eu não admito a estes senhores, que agora estão na câmara, que brinquem com os sentimentos mais nobres e mais arreigados da nossa identidade local, regional e nacional.

 

O dinheiro e a política não justificam tudo. O poder não legitima tudo. A ambição não pode servir para nos amesquinhar. Eu não fui tido nem achado nessa trapalhada da Eurocidade. Nem eu nem os 50 mil flavienses que aqui vivem e trabalham. Está na hora de serem exigidas responsabilidades a quem nos transformou em cidadãos de um bairro de uma cidade que nem nome tem. Com coisas sérias não se brinca. E Chaves é um assunto sério de mais para andarem a fazer com ela experiências saloias.

 

Chaves merece bem mais respeito de todos quantos têm por missão geri-la. Repito: com coisas sérias não se brinca. 


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Domingo, 10 de Junho de 2012

Varanda


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Sábado, 9 de Junho de 2012

Passeando


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Sexta-feira, 8 de Junho de 2012

O Homem Sem Memória - 118

 

118 – Transcrevemos mais algumas anotações do nosso herói, pensamos que respigadas um pouco ao deus dará, relativas ao Alcorão. Então, com vossa licença, elas aí vão.


No Alcorão não aparecem mulheres grávidas antes de tempo, nem pais adotivos, enganados e envergonhados, nem anjos linguarudos e desculpadores, nem deuses entretidos em criar filhos mártires para o redimirem. Aqui tudo é autoridade, pragmatismo e seriedade. Aqui tudo começa com a Al Fátiha (A Abertura).


1ª Surata, revelada em Makka; 7 versículos. 1. Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso. 2. Louvado seja Allah, Senhor do Universo. 3. O Clemente e o Misericordioso. 4. Soberano do Dia do Juízo. 5. Só a ti adoramos e só a Ti imploramos ajuda! 6. Guia-nos à senda reta. 7. À senda dos que agraciaste, não à dos abominados, nem à dos extraviados.


Estas palavras de Allah reveladas a Mohammad são quase impenetráveis. Dá a sensação que querem explicar tudo e não explicam nada. A não ser que Allah é clemente e misericordioso além de ser misericordioso e clemente. Além disso é um deus totalitário. Bem, todos os deuses são totalitários. Então os deuses únicos são-no totalmente. Só que existem uns que são mais totalitários do que outros. E Allah, estamos em crer, é o rei deles. Mas ao que me quero referir é que Allah é muito mais totalitário do que o Deus dos cristãos. Ele define-se como o maior e o melhor. Dele tudo depende, desde o juízo final até à lei mais simples, apostando, sobretudo, na explicação da forma como os homens se devem comportar, falar, orar, organizar, etc. Resumindo: é um manual de regras de conduta social, moral, política, religiosa e sexual.


Na 2º Surata, revelada em Medina, com 286 versículos, que invariavelmente se inicia “Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso”, como todas as 114 suratas que constituem o Alcorão, não vá alguém esquecer-se do primeiro versículo e da sua autenticidade, o segundo versículo diz: “Eis o Livro que é indubitavelmente a orientação dos tementes a Allah.” Que os humanos necessitam de orientação, disso não duvidamos, agora que um deus que tudo sabe e tudo pode aprecie e divulgue que o seu Livro é para os humanos o temerem, aí já fia mais fino.


Por que razão os homens das religiões monoteístas criaram deuses tão repressivos, tão intolerantes, tão totalitários?


No Alcorão é visível uma perseguição a todos aqueles que não levam a religião até às suas últimas consequências. Para esses está determinado o castigo. Os incrédulos são dados como um caso perdido. E os que dizem que creem mas que não creem são dados ao desprezo. A todos Allah lhes promete um mau fim. O versículo 10 diz textualmente: “Em seus corações há enfermidade, e Allah os aumentou em enfermidade, e sofrerão um castigo doloroso por suas mentiras.”


Está visto que Allah não brinca em serviço. Apesar dos incrédulos, e dos falsos crédulos, serem gente doente, mesmo assim Allah, em vez de fazer jus à sua fama de clemente e misericordioso, não se coíbe em lhes aumentar a enfermidade e de lhes ampliar o sofrimento e de, ainda por cima, lhes reservar um castigo doloroso, pois se não acreditam nele, ou dizem que acreditam mas se fazem de tolos, só lhes resta o caminho da desventura, da dor e da desgraça.


Com ele é ou sim ou sopas. Allah não acredita na conversão. Allah só ama quem nunca o pôs, ou põe, em dúvida. Allah não redime, não converte, não se explica. Existe e por isso mesmo ou acreditam nele logo desde início ou então estão definitivamente tramados. A esses, Allah, o misericordioso e o clemente, promete-lhes, ainda, a sua zombaria e o seu abandono.


Na 3ª Surata, revelada em Medina, versículo 91, diz textualmente: “Os incrédulos que morrerem na incredulidade jamais serão redimidos, ainda que ofereçam, em resgate, todo o ouro que possa caber na terra. Esses sofrerão um doloroso castigo e não terão socorredores.”


O Alcorão é um tratado de regras de maus comportamentos a evitar e de bons comportamentos a seguir. As diretrizes são precisas e claras.


Fala dos pecados, das evidências, das bênçãos, da virtude, do cumprimento da peregrinação, dá respostas às presumíveis perguntas dos infiéis, fala ainda dos casamentos, dos divórcios, da aleitação e até da menstruação das mulheres, afirmando que ela é uma impureza. E determina aos homens: “Abstende-vos, pois, das mulheres durante a menstruação e não vos acerqueis delas até que se purifiquem; quando estiverem purificadas, aproximai-vos então delas, como Allah vos tem disposto, porque Ele estima os que se arrependem e cuidam da purificação.”


O versículo 223 (2º Surata) é delicioso: “Vossas mulheres são vossas sementeiras. Desfrutai, pois, da vossa sementeira, como vos apraz; porém praticai boas obras antecipadamente, temei a Allah e sabei que compareceis perante Ele. E tu (ó Mensageiro), anuncia aos crentes (a bem-aventurança).”


Se os homens forem tementes a Allah podem desfrutar da “sua sementeira” como lhes aprouver. Não nos devemos esquecer que Allah é Clemente e Misericordioso. Além disso também é: Omniouvinte, Sapientíssimo, Tolerante, Indulgentíssimo, Misericordiosíssimo, Omnisciente, Opulentíssimo, Laudabilíssimo, Munificente e Omnipotente. Elogios, ou autoelogios a Allah, é o que mais existe no Seu Livro.


Na 4ª Surata, revelada em Medina, a da “Na Nissá” (As Mulheres), no seu versículo 171 avisa: “Ó adeptos do Livro, não exagereis na vossa religião e não digais de Allah senão a verdade. O Messias, Jesus, filho de Maria, foi tão-somente um mensageiro de Allah e o seu Verbo, com o qual Ele agraciou Maria por intermédio do Seu Espírito. Crede, pois em Allah e em Seus mensageiros e não digais: Trindade! Abstende-vos disso, que será melhor para vós; sabei que Allah é Uno. Glorificado seja! Longe está a hipótese de ter tido um filho. A Ele pertence tudo quanto há nos céus e na terra, e Allah é mais do que suficiente Guardião.”


Aqui se tira a limpo que Jesus, afinal, não era filho de Deus, mas tão-somente um mensageiro de Allah. E quem vos avisa vosso amigo é: Não digais Trindade. Pois isso é blasfemar. Deus é uma invenção dos seguidores do Livro. Uma mistificação do Messias. Deus só existe um: Allah. Que é Uno, não triplo. E Allah rejeita liminarmente a hipótese de ter engravidado Maria.


Pois, segundo nos afirma perentoriamente na 112ª Surata, versículo 3, de 4, Allah, o Absoluto: Allah “jamais gerou ou foi gerado.”


Termino com a 109ª Surata, revelada em Makka, constituída apenas por 6 versículos hilariantes e melódicos, que é aquela de que mais gosto.


“Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso. 1. Dizei: Ó incrédulos, 2. Não adoro o que adorais, 3. Nem vós adorais o que eu adoro. 4. Nem adorarei o que adorais, 5. Nem vós adorareis o que adoro. 6. Vós tendes a vossa religião e eu tenho a minha.”


Temos que reconhecer que é um trocadilho brilhante. O versículo 4 é o mesmo que o 2 e o versículo 5 é o mesmo que o 3. Mas Allah, que nestas coisas gosta de deixar tudo clarinho como a água, repete-os para que não fiquem dúvidas aos incrédulos que cada um tem a sua religião mas que alguém está enganado e que, com toda a certeza, Allah não é! Nem ele nem os seus seguidores. Nem pouco mais ou menos, pois Allah é Indulgentíssimo, Misericordiosíssimo, Omnisciente, Munificente, Opulentíssimo, Laudabilíssimo, Omnipotente, Omniouvinte, Sapientíssimo e Tolerante. E também é Remissório e Absoluto. 


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Quinta-feira, 7 de Junho de 2012

Rua Direita - Chaves


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Quarta-feira, 6 de Junho de 2012

O Poema Infinito (103): vestígios e metamorfoses

 

São os mesmos vestígios de atenção o que te brilha nos olhos. Os sons antigos, o tempo ido, a música imóvel, o brilho das construções, a transparência dos desígnios. A estabilidade. E também o tempo que se alarga na sua profundidade. Ficamos suspensos do dia e do que nele foi dito e dos lugares agora vazios e do silêncio da solidão e da redundância da vida. Escuto-te em espaço aberto onde palpita o tempo que trago dentro de mim e onde as brisas não chegam a lado nenhum. E o mar passeia dentro da minha nudez. Torno-me mais transparente com os anos tentando parar algum tempo dentro do meu espaço. Deixo-me enternecer pela velhice que cada vez abunda mais no meu corpo. E a luz guia-nos na direção perfeita do teu rosto. Transformo-me num fruto lúcido da terra. Deixo que a tua transparência me apure. Sossego nos meus anos e na sua névoa traiçoeira. Tenho a paciência iluminada e nela espera a eternidade. Este sossego lembra-me o exílio e o ato organizado do conflito e o exame da luz sobre o teu corpo. Ai esta subtil firmeza da solidão e o seu singular senso comum e a tensíssima volúpia sexualmente exposta. Meço a eternidade pela imagem suave dos teus dedos. Essa é a lei do tempo, a fugaz medida da memória. Começo a ficar repleto de evidências. A acreditar, prefiro fazê-lo no pão quotidiano enquanto vou perdendo o eco dos afetos. Por isso o infinito é cada vez mais o vestígio de uma ausência de sentido. O silêncio cresce por dentro das formas e por isso não se ouve. Por isso escutá-lo é ou uma alegria ou um grande sofrimento. O silêncio é o espanto. A memória da infância é um silêncio repleto de gritos. Ainda sinto a estrutura pacífica dos bichos que se estendiam ao sol enquanto brincávamos emaranhados no brilho dos campos. Sei agora que a humildade requer vigília. Esse é o luminoso caminho dos escolhidos. A luz repousa no sossego jubiloso das águas e no seu vagar eterno. Amar-te é uma reminiscência antiga. O tempo alarga-se. O tempo contrai-se. O paraíso é breve. Tento meter as mãos lá onde a claridade brota. Na superfície extensa da matéria a luz retém-se e eu sopro na chama do tempo. E o tempo torna-se tépido. E o tempo torna-se intemporal. A luz do tempo reduz a eternidade. A voz transforma-se em escrita e a escrita transforma-se em harmonia e a harmonia transforma-se em desejo e o desejo transforma-se em invisibilidade e a invisibilidade transforma-se em fulgor e o fulgor transforma-se em utopia e a utopia transforma-se em lucidez e a lucidez transforma-se em distância e a distância transforma-se em sacramento e o sacramento transforma-se em brilho e o brilho transforma-se em saudade e a saudade transforma-se em morte e a morte em vida e a vida em água e luz e sangue e sexo e desejo e em frutos e depois vem a ausência e a gratidão e outra vez o silêncio. E a sua luz calma. Agora o tempo para. O tempo fica nu. O tempo morre. O tempo desaparece definitivamente. Apenas fica o pó. Apenas o pó. O pó. Apenas. 


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Terça-feira, 5 de Junho de 2012

Passeando


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Segunda-feira, 4 de Junho de 2012

Da expetativa ao imobilismo (XVIII): empenhados até às orelhas seguido do dia mundial da bonecada

 

Desta vez vou aventurar-me a falar sobre as contas na Autarquia de Chaves. Mas em primeiro lugar quero felicitar o senhor presidente por continuar a aparecer nos jornais sempre com um sorriso espelhado na cara. Faça sol ou chuva, sejam as notícias boas, más ou péssimas, João Batista olha sempre para a objetiva do fotógrafo com cara de quem lhe saiu o euromilhões.

 

Antes assim fosse pois ficaríamos todos mais descansados. Mas como não é, só pode ser caso para preocupação. Ao que se sabe, é a falência o que está por perto.

 

Da autarquia flaviense, atualmente, nem sopra bom vento financeiro nem o casamento com Verin sai da cepa torta.

 

Para a semana falarei sobre isso, mas desta vez vamos às contas.

 

João Batista apresentou há algumas semanas o Relatório e Contas da Autarquia, relativamente ao ano 2011. E fê-lo a sorrir. E foi também a sorrir que disse “que do ponto de visita financeiro e económico foi muito positivo”, pois, na sua incomensurável bonomia, e na sua perspetiva cor-de-rosa “conseguimos continuar com uma política de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, continuámos a diminuir a dívida da autarquia e a aumentar o património”.

 

Se não fossemos de cá, se não vivêssemos aqui, se não soubéssemos ler os números e não entendêssemos um pouco do mundo que nos rodeia, até podíamos engolir a falácia, mas, porque as premissas são falsas, só nos resta discordar.

 

Discordar e contrapor que a tão propalada continuação de “uma política de desenvolvimento” em Chaves é pura demagogia. O nosso concelho nem sequer está numa situação de estagnação. Chaves está a regredir a olhos vistos, tanto na qualidade dos serviços e apoios sociais, como na prestação de serviços de saúde, como na oferta de ensino superior, como ao nível do comércio, do turismo, da educação básica, da cultura, do desporto, etc.

 

Relativamente à diminuição da dívida, todos sabemos que os números não batem certo com a realidade. A verdade é que a dívida da autarquia flaviense é gigantesca. João Batista, mesmo tentando fazer-nos pensar o contrário, reconhece que o saldo da ponta visível do iceberg da dívida é de 12 milhões de euros.

 

Na sua perspetiva, “o saldo negativo não é fruto do exercício económico e financeiro, mas decorre, sobretudo, do Princípio Contabilístico da Prudência”. Ou seja, o princípio é que está errado.

 

As leis porque se regem as instituições é que pecam por mal feitas. Fossem outras e o prejuízo transformava-se em lucro.

 

Pensam que estou a divagar? Que estou a inventar? Que estou a fantasiar? Pois então fiquem com as palavras do senhor Presidente: “Se os valores da cobrança duvidosa – cerca de 10 milhões e meio de euros – fossem contabilizados não como prejuízos mas como proveitos, o resultado seria bem diferente.”

 

O que João Batista quer dizer é que o dinheiro no bolso dos caloteiros deve contar como receita efetiva e não como prejuízo. Ou seja, talvez pretenda remunerar os funcionários e os credores de serviços com promissórias bancárias em títulos da dívida camarária.

 

Bonito serviço. Estamos em crer que esta foi alguma piada dita pelo senhor presidente e que o jornalista não se deu conta de que ele, o presidente, claro está, tentava fazer humor.

 

Mas há mais, ainda segundo João Batista o nível de despesa corrente situa-se nos 55% e os outros 45% são despesas de capital. Ou seja, quase metade do orçamento da Câmara é gasto a pagar juros da dívida e a própria dívida. É uma situação aflitiva, pois tende a aumentar, a cada ano que passa. Apesar de muitas vezes se afirmar o contrário.

 

O senhor presidente diz que está a governar para as pessoas, que está a aumentar o património, a apostar na educação, na cultura, na ação social, no desporto, no bem-estar, assim como em políticas de emprego. Lá continua João Batista a tentar fazer humor à custa dos flavienses. Nós é que não conseguimos rir com as piadas de gosto duvidoso.

 

O património que tem não o consegue vender, pois ninguém quer investir num concelho em franco retrocesso. E o que adquire fá-lo por razões que não conseguimos perceber. Isto é se atualmente tem dinheiro para adquirir seja aquilo que for.

 

Chaves, pelo caminho que isto leva, vai deixar de ter ensino superior.

 

O nosso concelho, pela política de encerramento de escolas, já deixou de conseguir fixar gente nas aldeias e, daqui a uns anos, por falta de emprego e de outras condições a ele ligadas, não vai conseguir sequer fixar no seu tecido urbano a quantidade de pessoas que lhe permita sobreviver enquanto autarquia.

 

A seguir por esta senda, não vem longe o tempo em que Chaves passará a ser a junta de freguesia de um território que terá como sede camarária Vila Real.

 

É a lei natural das coisas, pois se é lá que tudo se concentra, é para lá que as pessoas vão ter tendência a deslocar-se. Por muito que lhes custe. E aos flavienses isso vai custar imenso. Pois passará a ser a cidade aglutinadora onde vão conseguir arranjar emprego e será lá que os seus filhos poderão frequentar a universidade. É já lá que os grandes centros comerciais estão instalados e é também lá onde os principais serviços de saúde funcionam. É também em Vila Real onde existe vida académica e cultural com expressão e significado.

 

Com este tipo de política e desempenho autárquicos só nos resta definhar e desaparecer.

 

João Batista, cada vez mais dentro da sua perspetiva autista e fantasiosa, diz que para o futuro “continuaremos com o mesmo rumo, sempre com as contas controladas e a pensar no desenvolvimento do concelho”. E ainda que o PSD continuará a “governar para as pessoas e não para os números”. Nós todos bem sabemos ao que isto nos levou. António Guterres também disse o mesmo e depois deixou-nos no meio do pântano a afundar-nos. Agora trabalha para as Nações Unidas. O país que se governe.

 

Mas, apesar das palavras imitadas, estes últimos anos de gestão autárquica do PSD não tiveram em conta nem os números e, muito menos, as pessoas. As pessoas continuam a abandonar a nossa terra para rumarem a outras paragens, o comércio local entrou em colapso e a pouca indústria que por aqui existia volatizou-se.

 

A verdade é que a Câmara de Chaves, por causa do seu endividamento excessivo, e por causa da falta de liquidez nas suas contas, tem vindo a asfixiar os fornecedores e empresas locais.

 

E são esses fornecedores e essas empresas as que ainda empregam gente e dão vida à nossa economia. Sem eles, a nossa cidade passará de uma estância termal a uma aldeia com velhos sentados junto ao rio a verem crescer as ervas e a esperarem pela visita dos filhos e dos netos nos fins de semana.

 

E olhem que afirmamos isto com o coração nas mãos. A crise é tanta que a autarquia executou até ao momento apenas 46% do orçamento proposto para 2011. Ora isto é o mínimo dos mínimos. Ou seja, a situação financeira da Câmara de Chaves está perfeitamente descontrolada.

 

Mas para não nos acusarem de demagogos e alarmistas, vamos ater-nos aos números oficiais. Segundo a Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses de 2010, o município flaviense, num universo dos 308 municípios portugueses, é o 42º com maior passivo exigível (ou seja, o endividamento total), é o 32º em que mais aumentou a dívida, e é o 8º município de média dimensão que mais dívida tem a fornecedores. Dívidas já superiores a 50% das receitas totais.

 

Ou seja, a nossa autarquia, ao nível da sua dívida nem sequer acompanha Portugal, antes se assemelha cada vez à mais ao default da Grécia. Ora isso é o descrédito total.

 

Dentro em breve a nossa autarquia não vai poder pagar a ninguém porque não tem receita, não tem crédito e não tem palavra. E dizemos-vos isto como quem se confessa: não sabemos se esta situação ruinosa tem volta atrás. Fazemos votos para que sim. Mas as dúvidas são enormes.

 

PS – Prometi a mim próprio que não podia deixar passar em claro a festa que a Câmara de Chaves organizou para comemorar o Dia Mundial da Criança. E faço-o com alguma reserva, desde logo porque posso estar a por em causa o trabalho de alguém que prezo e de quem sou amigo. Mas o que tem de ser tem muita força.

 

O evento foi mau de mais para ser verdade. E foi mau em todos os aspetos e em todos os sentidos. Todos. Ao nível da organização, ao nível musical, ao nível das propostas artísticas e ao nível dos divertimentos, que pura e simplesmente não existiram.

 

Não ando longe da verdade se disser que a festa foi mais ou menos assim: transporte das crianças para o estádio municipal, sentar as crianças nas cadeiras da bancada central, ouvir um grupo musical de mais que duvidosa qualidade e, além disso, deslocado no tempo e no espaço, pois de positivo apenas se pode referir o nome da banda (João Ratão), e toca a ir de novo para os autocarros e para as escolas.

 

Ou seja, as crianças não brincaram, não assistiram a nada de cativante, não se divertiram, não participaram em nada. Mas mesmo em nada, nem em coisa nenhuma. Limitaram-se a estar sentadas à espera que algo acontecesse. Mas nada aconteceu. Nada.

 

Lá ao fundo, do outro lado do campo, por vezes viam-se uns bonecos a dançar. Depois ouviam-se algumas palavras dispersas gritadas ao microfone e, muito de vez em quando, algumas crianças dançavam. A seguir nada. Apenas calor. Muito calor. E as crianças sentadas à espera que algo acontecesse. Mas nada acontecia. Nada aconteceu. E as crianças a esperar e a desesperar.

 

Apenas os bonecos lá ao longe faziam que dançavam e os elementos do grupo musical, também eles disfarçados de bonecos, davam música de há trinta anos atrás às crianças. Então aborrecidas, muitas das crianças foram para o campo e rebolaram-se na relva e correram e tornaram a correr.

 

A festa do Dia Mundial da Criança organizada pela autarquia de Chaves foi um barrete. Um enorme barrete. Ou melhor, foi uma bonecada.

 

Para o confirmar lá estava a realidade. Os bonecos faziam de bonecos, os músicos faziam de bonecos, os professores faziam de bonecos e as próprias crianças seguiam na mesma dança.

 

Tudo aquilo foi mau de mais para ser verdade. Como professor assisti a dezenas de festas da Câmara de Chaves e até de outras autarquias. Algumas muito bem organizadas, outras nem por isso. Mas sempre existiu algo de diferente, alguma coisa que punha as crianças a brincar, a dançar, a correr e a cantar. Enfim, a divertir-se.

 

Desta vez foi o descalabro. Desta vez foi indescritível. Desta vez aquilo não foi mais do que uma aglomeração de crianças para admirarem um campo de futebol relvado com um palco lá muito ao fundo onde quase nada se passava.

 

Além disso gastou-se muito dinheiro na organização. Mas todo o dinheiro gasto nesta iniciativa foi dinheiro deitado à rua. E nestes momentos de crise, isso é inaceitável.

 

Uma última nota. O nosso sorridente presidente não apareceu. Ele que nunca, até este ano, perdeu festa onde estivessem crianças. Lá terá os seus motivos. Quem vimos por lá foi o vereador Cabeleira, mas foi sol de pouca dura. Entrou de mangas arregaçadas, ladeado por dois assessores para o desporto, olhou em frente, olhou para o lado esquerdo, olhou para o lado direito, teclou no telemóvel, olhou para o ecrã, encolheu os ombros, e como ninguém lhe ligou nenhuma, resolveu ir embora, talvez porque persentiu que o ambiente não lhe era nada, mas mesmo nada, favorável.

 

Ao que isto chegou!


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Domingo, 3 de Junho de 2012

O músico e o maestro


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Sábado, 2 de Junho de 2012

Trilogia


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