Terça-feira, 31 de Julho de 2012

Montalegre - sexta-feira treze


publicado por João Madureira às 08:00
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Segunda-feira, 30 de Julho de 2012

Em defesa da amizade: Um, dois e três foi a conta que Deus fez etecetera e tal [rep]


Um - A cultura do meu amigo


Hoje apeteceu-me comer um gelado, enquanto conversava com um meu amigo que é muito dado às coisas da cultura. E falámos muito e falámos bem. De vários temas, todos interessantes. Digo-vos que é muito útil falar com esse meu amigo. Isto é, quando ele nos deixa falar. É que ele sabe muito de muita coisa, sobretudo de alta cultura. Fala muito e bem sobre os mais variados temas. Todos temas muito interessantes, muito abrangentes e muito atuais. Ele é até mais culto do que a maioria dos cultos do nosso país. E olhem que, mesmo sendo Portugal um pequeno país, possui, mesmo não parecendo, muitos e bons homens e mulheres de cultura. Mas, mesmo assim, este meu amigo supera-os quase a todos. Ele fala muito, bem e depressa e nunca, mas mesmo nunca, revela dúvidas enquanto discursa. Ou seja, nunca se engana, nunca se atrapalha, nunca gagueja. O discurso sai-lhe sempre límpido, sem hesitações, sem atrapalhações, sem flutuações ou outras indeterminações. Com ele é sempre a direito, mesmo quando o seu discurso revela uma configuração um pouco mais sinuosa. Tem este meu amigo a qualidade de tudo descobrir. De pôr tudo claro como água. A sua cultura é muito apreciada pela família, pelos amigos, vizinhos, colegas e até por alguns dos seus inimigos. Mesmo os seus inimigos reconhecem que ele é muito, mas mesmo muito, culto, de uma cultura superior, muito metódico no falar, muito comedido nos seus gestos, que também são cultos, até o seu andar é um andar que reproduz a sua brilhante cultura. O seu andar é mesmo muito erudito. De uma erudição convergente, tranquilizante e tranquilizadora. Mas não é só o seu andar ou o seu falar que espelham cultura, o seu olhar também a exprime. De uma cultura impecavelmente estudada. Se a cultura tem alguma utilidade, de certeza que é neste meu amigo onde encontra a sua plena realização. As suas conversas, mesmo quando parecem fúteis, não o são. O meu amigo dá-lhes sempre um toque culto. Até quando come consegue encher-nos de cultura. Com ele tudo se transfigura em cultura: os gestos, os talheres, os condimentos, as toalhas, os guardanapos, os tachos, os copos, o vinho, até mesmo os palitos dos dentes ganham uma auréola sublime, uma importância inaudita com espaço próprio na história universal. Depois é a sobremesa que se nos agiganta na sua intrínseca utilidade, no seu inseparável conceito culinário, na sua ancestralidade cultural, na sua significância metafísica, no seu indesmentível valor simbólico e prático, na sua génese voluptuosa, no seu redimensionamento monástico, na sua decifração metafísica, ou estrutural, ou alegórica. A tudo lhe encontra sentido, forma, objetivo, importância, sedução, uniformidade, relação e arte. Até na falta de cultura encontra cultura. E beleza. Para ele tudo é belo porque, na sua perspetiva, tudo se reduz à linguagem. No princípio era o Verbo, repete ele muitas vezes. É muito esclarecedor em tudo o que diz. Revela-nos a cultura que está por detrás da disposição das cadeiras, na colocação dos candelabros, no ritual de nos sentarmos ou nos levantarmos da mesa. Aponta-nos o conflito civilizacional e a evolução cultural que está por detrás do ato de não cruzarmos cumprimentos de mão. Elucida-nos com muita competência sobre o modernismo sistémico das floreiras numa sala de estar ou sobre o conflito epistemológico das reações químicas entre pessoas que se querem bem. Uma noite passada com este meu amigo vale por uma semana inteira a estudar a enciclopédia luso-brasileira de cultura. Podia estar aqui toda a noite a escrever que não era capaz de expressar convenientemente a sua cultura. Por isso aqui vos deixo este pequeno introito com a única intenção de prestar, a esse meu amigo, uma singela homenagem que, não sendo culturalmente relevante, é sincera e necessariamente inculta.

 

Dois - Amizade


Há cerca de uma semana, o meu amigo Matias foi passear o cão e ele fugiu-lhe. Era um cão de raça. Foi muito caro. Era um animal de estimação. Como se fosse da família. Dele, claro. Que eu cá não me perco com esses animais. Era um cão que rosnava mais do que ladrava. Costumes de parentela. Andava sempre muito lavado, perfumado e penteado. Estamos a falar do cão do Matias. Porque o Matias, propriamente dito, é bem mais desleixado. Não é que seja mau tipo, é apenas um pouco sovina para os amigos. Mas com o cão não olhava a despesas. Nós, os seus amigos, por vezes ficávamos um pouco zangados por tratar melhor o cão do que a nós. Mas o Matias é mesmo assim. É ele e o cão, depois a família mais chegada, depois outra vez o cão e só depois os amigos. Estou em crer que o Matias é mais cão do que o próprio cão. Agora anda desfeito. Ele sem o cão não é nada. Nem dorme, só dá voltas e mais voltas em redor da cidade em busca do animal. No último desfile etnográfico em C., o Matias desfilou vestido de romano com um outro cão ao lado. Mas um carro, mesmo no final do desfile, passou-lhe por cima. Foi nesse mesmo dia que o Matias comprou o cão que agora lhe desapareceu. Já lá vão sete dias e o cão não aparece. Ele anda doido. De noite até ladra, imitando o cão, para ver se ele responde ao seu apelo. Nós já lhe dissemos que não lhe fica nada bem andar a ladrar à noite pelas ruas da cidade. Mas ele não nos liga. O seu estado inspira-nos algum cuidado. Por isso fazemos votos para que o cão do Matias regresse ao lar são e salvo.

 

Três - Em defesa da amizade


O meu amigo Miguel é muito distraído. Muito inteligente, mas muito distraído. Muito boa pessoa, mas muito distraído. Distrai-se com muita facilidade. Ainda ontem, quando andávamos a passear, foi de encontro a um poste de iluminação pública. Fez um grande galo na testa, mas nem sequer se queixou. O Miguel fala muito, pensa muito, distrai-se muito. Por vezes também se ri com muito saber. Muitos dos meus amigos dizem que ele é maluco, mas eu garanto-vos que não é. De maluco não tem nada. Ele é muito esperto, muito inteligente, muito compreensivo, muito efusivo, muito estudioso. Só que é muito distraído. Numa noite entrou dentro de uma casa alheia pensando que era a sua. Deitou-se na cama e só quando os donos se puseram aos gritos é que ele se deu conta do equívoco. Aquilo ainda foi uma grande trapalhada, pois meteu polícia, bombeiros, insultos e até prisão e julgamento. Dizem que nessa noite na esquadra recitou o Anticristo de Friedrich Nietzsche inteiro, com prefácio, data de edição da obra, tradução, capítulos e respetivas páginas. Parece que o polícia de plantão o ameaçou com um processo por desrespeito à autoridade e por provocação religiosa pois não conseguiu descortinar que o texto era do filósofo alemão e não um insulto gratuito ou um gozo fininho. Os polícias de agora são muito sensíveis e muito senhores do seu nariz. Até já têm alguma cultura. Mas daí até conhecerem o Anticristo de Nietzsche vai ainda uma grande distância. Cultos, cultos, mas nem tanto. Muita cultura também embrutece, disse-me uma vez um. Não me lembro de um único dia em que eu e o Miguel andássemos a passear e ele não tivesse tropeçado nalguma coisa. Já tropeçou em cães e cãezinhos, gatos e gatas, lambris de passeios, pedras pequenas e grandes, pessoas de vários tamanhos, raças, credos e ideologias, crianças calmas e rabugentas, choronas ou risonhas, polícias e guardas-republicanos, bombeiros voluntários e sapadores, soldados, sargentos, tenentes, capitães, majores e por aí fora. Parece que ainda só não tropeçou num contra-almirante. Também já tropeçou em carros de grande e pequena cilindrada, bicicletas de montanha e de corrida, triciclos novos e velhos, burros de carga, cavalos de corrida e, até, mendigos de várias espécies e origens, idades e proveniências, vícios e predileções. Quando isso acontece fica muito aflito e começa a gaguejar. Ato contínuo, oferece uma grande esmola ao sujeito passivo. Alguns deles fazem-se mesmo à colisão. Mal o avistam na rua, tentam sempre ir dar-lhe um encontrão. Ele pede sempre muita desculpa e dá-lhes obsessivamente uma esmola choruda. Mas, a partir daí, o seu discurso torna-se ininteligível. Não só pela temática, mas também por causa da gaguez. É aflitivo. E ele sabe-o. Falar sobre semiótica, ou sobre epistemologia, ou cibernética a gaguejar é uma tortura quase insuportável. Mas se eu o abandonasse quando ele está nesse estado quase catatónico seria uma traição. Afinal eu sou seu amigo. E os amigos devem servir para alguma coisa. O Miguel só tem medo de uma coisa: tropeçar num cigano que esteja a pedir esmola e que finja que toca o acordeão. Aí põe-se aos gritos e tem que tomar dose tripla da sua medicação para os nervos. Ninguém é perfeito. Nem o Miguel. Nem eu. Nem o Nietzsche. E, muito provavelmente, nem o amigo leitor. Essa é que é essa.


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Domingo, 29 de Julho de 2012

Manequim


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Sábado, 28 de Julho de 2012

À conversa


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Sexta-feira, 27 de Julho de 2012

O Homem Sem Memória - 68 [rep]

 

68 – Acordou cedinho e preparou-se para rezar as orações matinais mas lembrou-se que o que tinha rezado na casa do tio Manuel dava e sobrava para toda a semana. Por isso absteve-se de rezar. O que é demais é moléstia. Dormiu mais um pouco.


A sua querida avó preparou-lhe, sem o saber, um pequeno-almoço à inglesa: carne entremeada da pá frita na sertã, um ovo estrelado, pão centeio, café preparado na chicolateira, a que lhe juntou uma brasa incandescente, e por fim três nozes e meio cálice de aguardente, pois o dia tinha amanhecido frio e rabugento.


Foi à missa mas não rezou, observou e escutou o lento desenrolar da liturgia, o fleumático recitar das orações, os dissonantes cânticos das mulheres do coro, a voz desarranjada dos padres, a música hesitante da banda musical, os olhares distraídos e cabisbaixos dos homens, os gestos impacientes das crianças e dos jovens, a aparência compenetrada e débil das beatas, a aparência sofrida do Cristo na cruz em frente do sacrário e o semblante doce de prazer sofrido do São Sebastião pintado na cúpula de madeira do teto da igreja.


Ridiculamente trajados, os rapazes pareciam homens miniaturais enfiados nos seus fatinhos pretos onde uma camisa inexoravelmente branca sobressaía dentro do colete acanhado. O laço e os sapatos de verniz, igualmente desventurados, constituíam o remate que lhes conferia um ar de irmãos replicados. Pareciam todos idênticos, como se fossem chineses ou os pretos dos filmes do Tarzan.


As raparigas trajavam invariavelmente vestidos brancos rendados para mostrar ao Criador, e às gentes da sua aldeia e das aldeias vizinhas, que eram fêmeas, virgens e puras. Usavam conjuntamente um laço a aconchegar o vestido ao pescoço, sapatos brancos de verniz e ainda um outro laço mais vistoso e colorido na cabeça. Todas ostentavam cabelos compridos. Era a imagem de marca da época.


Dentro da igreja, por cima do perfume a flores, do odor a suor e a cera, impunha-se o intenso cheiro da naftalina.


Depois da missa, seguiu-se a procissão. Como todos os anos, os andores eram subidos. Por isso, transportá-los pelo meio das ruas estreitas e sinuosas era tarefa para os homens mais fortes e determinados. Mesmo assim, muitas vezes entre o descer e levantar, o torcer à direita e virar à esquerda, muitos anjos deixavam as suas asas, alguns santos perdiam as suas auréolas, algumas santas os seus mantos e alguns homens a sua divina paciência.


Entretanto a banda tocava, as pessoas entoavam cânticos de louvor a todos os canonizados, e os foguetes estouravam no ar para lembrar aos povos em redor que os habitantes desta aldeia eram os mais devotos dos devotos.


Finalmente, a procissão chegou ao sítio onde tinha principiado. Os homens dos andores puderam, então, sentar-se nos bancos da igreja para limpar o suor e ganhar fôlego para se dirigirem até suas casas onde os aguardava um lauto almoço. Os músicos foram distribuídos um por cada casa. Ao seu tio Manuel calhou-lhe em sorte o regente da banda.


O almoço foi servido com algum requinte. Até o mestre ficou surpreendido. O senhor Manuel, nas suas várias estadias realizadas em França junto dos seus três filhos, tinha absorvido algumas das peculiaridades da cultura culinária francesa. Por exemplo, fornecia agora como entrada o melão em talhadas previamente descascadas para servir de acompanhamento às finas tranches de presunto, servia ternos folhados de galinha cozidos no forno, atreveu-se mesmo a dar a provar aos convidados “pâté de canard au Porto” com torradinhas, e, ó ousadia!, momentos antes do prato principal, colocou em frente de cada comensal meia alface tenra (colhida no seu quintal, mesmo ao lado das meloas, fruto que foi o primeiro a semear na aldeia com muito sucesso, para inveja dos invejosos),  guarnecida com um filete de anchova. Tudo isto foi regado com um branco palhete, colheita própria, de se lhe tirar o chapéu. O seu travo ligeiramente frutado e dulcificado veio mesmo a calhar para refrear o sabor intenso e ácido do sal da anchova.


Ainda todos estavam a recompor-se das torcidelas de nariz e da salivação excessiva por causa da anchova encavalitada na alface, quando foi servido o cabrito assado acompanhado de batatas também assadas e de um arroz de miúdos. O branco palhete foi de imediato substituído por um mais adequado tinto forte para desfazer gorduras e estimular a boa disposição.


A sobremesa, para os convidados mais requintados, foi composta por meias esferas de meloa guarnecidas com vinho generoso, colheita de um amigo da casa de origem duriense, e ainda por bolos, biscoitos sortidos, e um licor de noz de fabrico caseiro.


Foi servido ainda um café bem forte para cortar o álcool. E aos homens mais atrevidos foi oferecido um charuto de razoável qualidade, que alguns fumaram e outros guardaram para mais tarde. Depois dormiu-se a sesta.


Lá mais para o fim da tarde tocou a banda no coreto. O baile não foi muito participado por causa do calor. Mas o arraial foi de arromba.


Além da Filarmónica atuou um conjunto de músicos galegos que tocava todo o tipo de música. Com a banda bailavam os pares mais velhos, ou os jovens mais tradicionais. Com o conjunto dançavam todos, até os coxos, o que provocou uma nuvem de poeira que muito perturbou dançarinos e basbaques, apesar de o recinto ter sido regado durante a tarde. Nas tascas improvisadas, os forasteiros comiam, bebiam e folgavam. Os que eram conhecidos das pessoas da aldeia eram convidados a irem até às adegas beberem um copo e trincar algum pedaço de carne que tivesse sobrado. Por volta da meia-noite já todos os homens, e algumas mulheres, estavam bêbados. Era a hora má. Com os ânimos exaltados, surgiam as provocações dos da terra aos forasteiros e de estes aos da terra. Povos de aldeias vizinhas são rivais para toda a vida. Então se pelo meio algum deles se atrever a namoriscar rapariga do povo, o caldo fica mesmo entornado.


Foi o que aconteceu. No meio do arraial principiou um redemoinho de criaturas que mais parecia uma disputa entre bruxas e zângãos. Começou a chover porrada da grossa: murros, pontapés e paulada. O José, curioso, correu para lá. Aquilo só podia ser obra de gente malformada. Qual não foi o seu espanto quando verificou que, no meio do tumulto, estava o seu tio João a assentar porrada num rapaz emigrante de Soutelinho da Raia que se atreveu a dançar com a sua sobrinha mais nova, filha do seu irmão Manuel, sem a autorização do respetivo pai. Enquanto a rapariga chorava, depois de o pai lhe ter dado umas estaladas bem dadas, o tio João continuava a bater no pobre moço. E não abrandava. Isto fez com que os mancebos de Soutelinho se pusessem em guarda e sacassem das navalhas e dos trabucos dos respetivos bolsos. Acudiu a Guarda Republicana com as espingardas prontas para o que desse e viesse. O ambiente ficou à beira da guerra civil, uns de cá e outros de lá, cada um com as suas armadilhadas razões e cada qual com o seu orgulho ferido. Nisto o José abraçou o tio João e pediu-lhe que, por amor de Deus, pensasse no bom nome da família, no falecido pai e na querida mãe que estava ali afogada em pranto. Lembrou-lhe que também o avô José, e seu saudoso pai, veio de Vilela para a aldeia arranjar mulher que prestasse. E não se arrependeu. Agora o pobre rapaz não podia namorar com quem engraçasse? Ora, ora! Dominada a fera, estabeleceu-se o armistício. O Tio João foi para ao pé dos seus, a sua sobrinha foi para casa curtir as mágoas e a vergonha, e o rapaz namoradeiro, mesmo contra a sua vontade expressa, rumou no jipe da GNR caras à aldeia donde tinha sido nado e criado. 


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Quinta-feira, 26 de Julho de 2012

Mãe e filho


publicado por João Madureira às 11:21
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Quarta-feira, 25 de Julho de 2012

O Poema infinito: Elegia das utopias (em apneia) - [rep]

 

Sonhei num tempo concreto onde um homem magro dividia as utopias e as embrulhava em fórmulas condensadas e a voz do desejo namorava as palavras generosas fazendo a tua boca assemelhar-se a uma estrela de música sacra onde os timbres inesperados ecoavam no abismo do teu corpo que agora se estende em ecos incontrolados como se o silêncio do tempo fosse um soluço de raiva divertida e a fantasia rasgasse o tempo e o rosto da pobreza e as noites negadas aos amantes separados pela religião ou pelas fronteiras da língua ou pelos muros persistentes da intolerância ou como se a vida se compusesse de insónias e rostos abjurados pela guerra e pela surpresa da destruição das paisagens e as carícias fossem um pecado teoricamente livre onde os olhos assassinos inventassem deuses cruéis navegando em buracos negros onde as mães matassem os seus próprios filhos mesmo antes de serem gerados e onde em nome da paz a raiz dos livros sagrados construísse a bondade nos olhos dos poetas cegos para assim da terra brotar a erva daninha da esperança e os corações dos guerreiros poderem girar ostentando o sangue inócuo da glória e do triunfo e da vontade de vencer todos os inimigos e todos os estrangeiros e todos os emigrantes e todos os relógios atómicos e depois ainda escreverem livros repletos de palavras nuas que copulam entre si furiosamente na tentativa frustrada de compor um poema alegre sonhado por crisálidas desenhadas por um computador tão perfeito como o deus da guerra que é a deidade da glorificação da vitória e do sangue e da morte para mais ao longe as bocas famintas de afagos e beijos e palavras doces e quietas brilharem em murmúrios vestidos de silêncio quase feliz quase feliz quase feliz e depois ouvir os gritos mudos de esperança dos homens de boa vontade e as vozes roucas das mulheres ultrajadas pela ablação do órgão do prazer das suas vaginas e o sangue virgem das prostitutas proletárias negras e doentes sufocadas pela moléstia inventada pelos que enviam o amor para fora do tempo e vestem a humanidade de ódio e indulgencia e fome e fartura e religião e ateísmo e de gritos demorados de lutas fratricidas e de classe como se a natureza dos homens os pudesse dividir em rebanhos com donos cheios de razão e onde os mastins ladrassem o manifesto comunista ou a bíblia ou o alcorão até trocarem todas as palavras e todas as frases e todo o sentido para assim o ódio ser ainda maior que o dos nazis aos judeus e meu deus lá vem mais um coração perdido no peito de um ditador como um relógio tresmalhado no bolso de um bancário que vende as horas que não são suas nas praças financeiras do ocidente e que ergue um copo de vinho tinto caríssimo à imagem e semelhança do gesto eclesiástico do regente na missa dos católicos que somos nós quase todos os que vivemos debaixo da beleza inócua das línguas latinas e com elas nos iludimos e nos enganamos e nos amamos e nos odiamos e nela rezamos a um deus insensível mas omnipotente que nos pede obediência e fé e depois ainda sedentos de lucidez recomeçamos tudo de novo como se os sonhos se pudessem repetir como se a vida não fosse única como se a liberdade não fosse individual como se a cultura não fosse essencial para nos envolver no anacronismo que é deus ter dado inteligência ao animal que cada um carrega dentro de si para assim podermos pensar na morte até morrermos…


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Terça-feira, 24 de Julho de 2012

A caminho da nascente do Tâmega


publicado por João Madureira às 08:00
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Segunda-feira, 23 de Julho de 2012

Pérolas e diamantes (1): sexta-feira treze em Montalegre

 

 

 

No passado 13 de Julho fui até Montalegre. E regressei fascinado. Mais uma vez seduzido, valha a verdade, pois já é a terceira sexta-feira 13 que lá vou em meia dúzia de meses. E às três é de vez. Por isso resolvi escrever sobre a minha experiência. Aquilo é uma festa pegada. Uma loucura saudável. Um espetáculo arrebatador, frenético e explosivo. Começou com um jantar muito concorrido no Pavilhão Multiusos, onde se comeu bem e se bebeu também muito bem. Enquanto se comeu e se bebeu, uns aproveitaram para irem pintar os rostos de várias cores e feitios, outros para cumprimentar os conhecidos e os amigos e outros, ainda, para tirarem fotografias junto de algumas personalidades distintas que fazem questão de se juntarem à festa das bruxas. Durante o repasto fomos assustados por diversas figuras devidamente disfarçadas de mortos vivos, monstros, bruxos, bruxas, zangões, vampiros, almas penadas e demais figuras terroríficas. Desta vez jantei em companhia dos meus amigos, o que não é de admirar, mas também junto dos elementos dos Homens da Luta, vestidos de Homens da Luta, mas que não deram muito nas vistas. Nas vistas deram dois cromos da televisão, que não conheço, mas que deu para ver que são famosos. Um dos cromos era uma rapariga, muito esgalgada, com cabelo comprido, levemente aloirado, montada numas sandálias com saltos de cortiça que mais pareciam umas andas. E se ela já era alta, com as andas ficava que parecia um lareiro, pois era esguia como os juncos. O outro personagem da TV era um jovem muito risonho, com barba se sete dias, que se adivinha não ser por falta de tempo para a desfazer, mas antes porque está na moda. Trajava calças verdes e camisa da mesma linhagem. Parecia um soldado desmazelado, mas, no entanto, com algum aprumo, numa mistura fina entre a descontração e a moda cara, que é atualmente o apanágio dos ricos e famosos. Não sei da sua importância, ou relevância, social ou cultural (e com o caso Relvas, agora até já desconfiamos que a nossa sombra se tenha licenciado sem nos avisar), mas deu para ver que o rapaz da barba e a partner esgalgada eram muito solicitados, sobretudo pelos convivas mais jovens, que com eles tiravam fotografias e se riam imenso. Eu também me ri, sobretudo porque me lembrei do emplastro, que também faz o mesmo só que por detrás dos entrevistados, enquanto aqui os emplastros sorridentes se colocavam em primeiro plano, bem na frente das máquinas fotográficas ou das câmaras da TV Barroso. Entre as sobremesas e o café, a malta foi posta a dançar por um conjunto de Chaves constituído por rapazes que tocam bem, cantam bem e afinados. Assim fosse a nossa autarquia e teríamos o futuro garantido. Entretanto, o presidente da Câmara de Montalegre aproveitou para participar na distribuição de uma bebida saborosa que nos sugeria sangue, devido à sua coloração vermelha. Mas se o sangue tivesse aquele sabor é bem provável que muitos de nós abríssemos os pulsos para ir beberricando ou pedíssemos ao vizinho, ou vizinha (conforme o gosto e as preferências), para lhe chuparmos as jugulares. (Ei, cuidado com as generalizações, aqui é só da bebida que se trata. E nada mais. Ah, seus malandros, sempre na paródia. Hem!) Durante o jantar também é frequente escutar alguns grupos ou fanfarras musicais, que tocam uma música ou duas, para ir animando a malta. A mim, das três vezes que tive o prazer e a honra, de lá ir, ficou-me a Fanfarra Kaustika, que é uma banda de metais que toca uma música frenética que até põe os mortos a dançar. Os mortos e os pernetas, como é o meu caso, que tenho pés de chumbo e um feitio que pouco deve à alegria e ao entusiamo. Timidez, já se vê. É claro que muitos a consideram mau feitio, mas não é. É mesmo timidez. Os meus amigos mais chegados bem o sabem. Se não acreditam perguntem-lhes, pois eu não quero ser juiz em causa própria, para isso já chega e sobra, o, com vossa licença, dr. Relvas. Do pavilhão rumámos caras ao castelo. Antes de iniciarmos a viagem, o senhor presidente lembrou-nos que o devíamos seguir, senão ia ser muito difícil conseguir romper por entre a multidão que àquela hora já enchia o recinto onde se realiza sempre o espetáculo da queimada. Então aquela rapaziada colocou-se atrás do presidente Fernando e aí vai de romper por entre a populaça. Todos já devidamente pintados e envergando uma capa preta e um chapéu à imagem e semelhança da bruxa de OZ. Bem, todos é uma forma de dizer. Eu não consigo. É a minha timidez. Ou mau feitio, se preferirem. Eu não me consigo pintar, nem disfarçar de coisa alguma. A minha cara de bruxo é permanente e nem sequer precisa de dissimulação. Por isso, lá fui eu atrás do senhor presidente. Só que a meio da jornada, junto ao Café Terra Fria, encontrei a Elisa, uma querida e estimada colega e amiga das Pedras Salgadas. Está claro que parei para a cumprimentar. Posso ser mau carácter, mas não sou mal-educado. E os meus amigos estão acima de tudo. No ínterim, o nosso bando pôs-se na alheta. Mas não me importei, ali ao meu lado estava a Luzia que, bem vistas as coisas, é a minha companhia de sempre e para sempre. Manias. Por isso dei-lhe a mão, para não a perder ou ela não me perder a mim, e lá rompemos pelo meio da multidão. Lá romper rompemos, mas quando chegámos perto do palco, já as cancelas estavam fechadas e os homens da segurança atentos. Como não tínhamos credenciais, ficámos do lado de fora. O senhor presidente bem nos tinha avisado, mas eu não podia passar pela Elisa e dizer-lhe apenas olá. Não podia. Podia ir até na comitiva do senhor presidente da República e ficar sem jantar, ou almoçar, ou sem comenda, mas o que não conseguia fazer era passar por uma amiga como a Elisa e dizer-lhe olá de longe. Não podia. Manias. Mau feitio. Falta de sentido hierárquico. Pois pode ser tudo isso e mais alguma coisa, mas para mim os amigos, os meus amigos, estão acima de tudo. E digo-vos do fundo do coração, estou-me borrifando para o que dizem, ou o que possam dizer a meu respeito. É que eu sou assim e já estou velho para mudar. Bem, mas voltemos ao essencial. A Paula, que também é minha amiga, e que eu prezo e estimo, ligou a perguntar onde nos encontrávamos. E a Luzia, e eu também, já agora, sorrindo porque gostámos que ela se tivesse lembrado de nós no meio daquela multidão, dissemos-lhe a verdade, que estávamos imersos naquele mar de gente tentado galgar a encosta para arriscar ver o espetáculo. Lá tentar tentámos, mas é o rompes. À medida que subíamos, cada vez as pessoas eram mais e estavam ainda mais juntas umas às outras. Muitas delas estavam mesmo sentadas, o que me meteu medo, pois pensei que se algo de estranho se passasse e desse àquela gente para correr encosta abaixo, podia-se dar ali um desastre de proporções inquietantes. Afastei esse pensamento da minha cabeça lembrando o esconjuro do padre Fontes: Vade retro Satanás para as pedras cagadeiras. No sítio mais alto a que chegámos, eu apenas conseguia ver um carvalho iluminado, dois holofotes, um poste de ferro e a esquina direita do palco. Isto olhando para a frente, porque olhando para trás apenas vislumbrava o cimo das torres do castelo e dois morcegos gigantescos, e, sobre o meu lado direito, lobrigava as chamas de umas latas onde ardia um óleo que cheirava a inferno. A Luzia apenas conseguia observar as estrelas do céu, isto se olhasse para cima, pois pequerrucha como é não via literalmente mais nada. Sentia-se sufocar. Por isso nos viemos embora, e sem muita pena, porque aquele espetáculo já nós o tínhamos visto na primeira sexta-feira da trilogia. Descemos a custo, a muito custo mesmo, a colina e fomos beber um fino a um bar onde naquele momento tocava a Fanfarra Kaustika. Cumprimentei o Abel e o Gil, dois dos mais influentes músicos da banda, pois eu só conheço gente influente, inclusive nos grupos musicais, e ficámos a ouvi-los tocar aquela sua música frenética, ou maluca se preferirem, que eu e a Luzia tanto apreciámos, e até nos atrevemos a dar uns passinhos de dança. Se algum amigo nos visse ia pensar que estávamos ébrios ou felizes. Tenho de reconhecer que estávamos ambas as coisas, mas muito mais a segunda que a primeira. Muito mais. Passado algum tempo, saímos do café e subimos a rua Direita caras ao largo da Câmara. Entretanto assistimos à descarga do fogo-de-artifício, um magnífico espetáculo de som, luz e cor. Pode ser um lugar-comum, mas também é verdade como um punho. No ecrã gigante da praça do município assistimos, descansados, ao esconjuro da queimada feito pelo padre Fontes vestido de bruxo, mas que é um santo, ao contrário de mim que sou um bruxo disfarçado de santinho e ao contrário de muita outra gente que parece santa, que se disfarça de santa, que se diz santa, mas que é pecadora até ao tutano. E nessa gente estão incluídos todos os detratores do bom padre de Vilar de Perdizes, gente que ressuma ódio e vomita insinuações e mentiras como se fossem mafarricos escatológicos expelidos pelos ânus de um demónio gigante, como uma vez vi num filme de Pasolini. Vade retro Satanás para as pedras cagadeiras. Ali descansados, a Luzia enamorou-se de um crepe de chocolate e eu mandei-me a um pão com chouriço. Nem um nem outro acabou o petisco. Mas soube-nos bem a extravagância. Pois de uma extravagância se tratou, dado que os preços por Montalegre, nestas ocasiões, ficam de luxo. Mas festa é festa, música é música. E essa é grátis. E boa. E bonita. Mais tarde, a Paula ligou-nos e lá nos voltámos a encontrar. E a partir dali, até às quatro da madrugada, foi um constante subir e descer a rua Direita, do pelourinho à câmara, da câmara ao pelourinho, bebendo fino aqui, cumprimentando amigos ali, conversando acolá. Sobretudo escutando música em todos os lados. Num crescendo de alegria e entusiasmo contagiantes. Cerca das quatro da madrugada, já um pouco cansados, regressámos a terras de Aquae Flaviae. Lá teve que ser. A idade não perdoa. Na viagem de volta, em amena cavaqueira com o Luís e a Helena, (já agora, obrigado pela boleia e pela companhia) comentámos a qualidade do evento. Foi fácil chegar à simples, e rápida conclusão, de que as sextas-feiras treze em Montalegre são o melhor espetáculo de animação de rua em Portugal. Ou seja, que nestas ocasiões a capital do barroso se transforma na capital da animação. Isto enquanto Chaves definha e morre como polo de atração turística. Enquanto os outros concelhos tratam da sua vida, o de Chaves preocupa-se em fazer de conta que faz aquilo que não sabe e não é capaz. Definhar e morrer desta maneira dá pena. Dá pena e mete dó. Tem de aparecer alguém que não se conforme com este estado de coisas. Este imobilismo mata a cidade e destrói a já pouca autoestima dos flavienses. Rezemos para que alguém nos tire desta pasmaceira, deste marasmo, deste filme medíocre. Ámen. Falta dizer que passei toda a noite agarrado à Luzia e à minha máquina fotográfica e que quando largava a mão da Luzia era apenas para fotografar aquilo que me apetecia. Não perdi nem uma nem outra, graças a Deus. Agora parece que cheguei ao fim e com um sorrisinho maroto no rosto. Escrevo isto porque os estimados leitores não me estão a ver. Mas o sorriso cá está. Isso garanto-vos.


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Domingo, 22 de Julho de 2012

Montalegre - sexta-feira 13 - festa


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Sábado, 21 de Julho de 2012

Montalegre - sexta-feira 13 - pinturas


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Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

O Homem Sem Memória - 124

 

124 – A partir deste dia, o José deixou temporariamente de escrever. Mas não deixou de viver. Valha-nos ao menos isso, senão a nossa história tinha de acabar antes mesmo do seu fim previsto. Por isso vamos continuar a contar as suas venturas, aventuras e desventuras.


À noite fez questão de ir ao Centro de Trabalho preencher a sua ficha de adesão ao Partido e de comunicar aos camaradas da Brigada de Agitação e Propaganda que já se encontrava em condições ideológicas de começar a colar cartazes, fazer pichagens, projetar, desenhar e pintar murais. Tornou-se no melhor cola cartazes da concelhia. Ou quase. Porque o Partido sabe que há sempre um que é o melhor de todos, mas nem sempre o distingue. Prefere distinguir um outro. E esse “outro” é que é o cabo dos trabalhos. A competição aguça o engenho e mantém a amizade sempre no nível da desconfiança. E os comunistas são peritos em isolar cada militante na sua competição máxima e na sua relação mínima. O Partido está acima de tudo.


O José deu a boa notícia aos seus novos camaradas com um sorriso nos lábios. Agora sim, estava preparado para a sua militância revolucionária. E muito bem preparado. Podia discutir o marxismo-leninismo a um nível mínimo, mas aceitável para o seu nível de militância, podia praticar a crítica e a autocrítica nas reuniões da sua organização, podia ler e discutir o editorial d’ A Verdade, podia propor as melhores estratégias para angariar novos militantes, para lhes cobrar as cotas, para vender a voz da classe operária, para se inscrever e angariar sócios tendo em vista controlar as diversas organizações recreativas e culturais, as distintas associações desportivas de juventude, os diversos sindicatos, associações de estudantes e grupos de influência juvenil.


Mas, sobretudo, podia inundar a cidade e os arredores com as palavras de ordem comunistas. A palavra do Partido tinha de chegar às massas. As palavras de ordem tinham de pôr as cabeças dos proletários, dos camponeses, das mulheres e da juventude, a funcionar. Essa era agora a grande batalha revolucionária: convencer o povo da justeza das propostas comunistas, despertar as massas e trazê-las para a luta. E para isso era necessária a urgentíssima tarefa revolucionária de colar cartazes e pintar paredes.


Como a primeira campanha eleitoral pós 25 de Abril se avizinhava, mesmo contra a vontade expressa do Partido que considerava as eleições legislativas inoportunas, ou mesmo reacionárias, a Brigada de Agitprop inundou Névoa de cartazes do Partido. Bem, do Partido não, mas antes da coligação que liderava, identificada com argolinhas como as dos jogos olímpicos, pois o povo ainda não estava preparado para votar no partido da foice e do martelo sem se arrepiar. Foram anos e anos de anticomunismo e isso paga-se caro. Além disso, partidos ditos comunistas criados pelos esquerdistas provocadores, que se identificavam e ostentavam a foice e o martelo, havia uma mão cheia deles. Daí o Partido não poder ser mais um no meio de tantos. Tinha de ser “o outro”, o verdadeiro, o que concorria numa coligação aberta e fraterna com mais dois partidos progressistas, porque o Partido sempre apostou na unidade com as forças genuinamente democráticas, patrióticas e de esquerda. O Partido nunca esteve só, o Partido sempre procurou a unidade na ação. Nunca com a reação. Daí a necessidade de uma coligação. Rima e era verdade.


Aprendeu técnicas de agitprop. Por exemplo, que nunca se deve colar um cartaz isolado. Nesses ninguém repara. As pessoas são atraídas pelas manchas, que são muitos cartazes colados uns ao lado dos outros. Mas não colados ao deus dará, mas antes fixados juntos com muito rigor e disciplina. Todos milimetricamente alinhados. Outra técnica é colá-los em sítios onde as pessoas não lhe cheguem com facilidade, evitando assim que os reacionários e provocadores os arranquem ou os rasguem. Daí a necessidade de uma escada ou um escadote. Cartazes à mão de semear são um desafio a que os arranquem. E cartazes rasgados são inestéticos além de significar que o povo não gosta da mensagem, do mensageiro ou de ambos. E lá vai a propaganda e a agitação para o caraças.


O Graça bem lhe comunicou o que o camarada funcionário lhe transmitiu – e que lhe tinham transmitido a ele através do controleiro distrital e que ele tinha ouvido da boca do camarada da comissão executiva da Direção Regional do Norte e este do Comité Central –, que os cartazes custam dinheiro e que esse dinheiro é do povo, bem assim como a cola, os pincéis e tudo o resto.


Nessa noite, na sua primeira noite como militante comunista, o José encheu-se de subir e descer a escada e o escadote, de estender cartazes, de espalhar cola, de afixar os cartazes nas paredes em lindas e alinhadas manchas coloridas que espantaram os poucos militantes e simpatizantes comunistas que havia na cidade e atrapalharam os muitos militantes e simpatizantes dos outros partidos. Mas quando uns ficam orgulhosos com o trabalho por si realizado há sempre outros que se roem de inveja.


Na noite seguinte as brigadas de cola cartazes dos outros partidos, num impulso revanchista e provocatório, arrancaram os cartazes da coligação das argolinhas e colaram os seus no mesmo lugar. Uns tortos, outros desalinhados, outros mesmo de pernas para o ar, numa autêntica batalha de mau gosto, vingança e, sobretudo, numa atitude antidemocrática própria das forças da reação e obscurantistas.


Na manhã seguinte, o José chorou de raiva e o Graça tratou logo de reunir a célula da agitprop para discutir o assunto. O camarada funcionário fez questão em estar presente, pois sabia da fúria que grassava na militância de base. Um a um, todos tomaram a palavra para dizer que se tinha de fazer alguma coisa. A reação não se podia ficar a rir. Os camaradas mais recentes, liderados pelo José, propuseram que se utilizasse a lei de Talião: olho por olho e dente por dente. Mas o camarada funcionário disse que não se devia entrar no jogo dos reacionários. Isso era o que eles queriam. Tinham de evitar responder na mesma moeda. Se agora fossem arrancar os cartazes deles, estavam a proceder da mesma forma, ou seja, estavam a ser reacionários. E os comunistas podem ser tudo, menos reacionários.


O Mário, de alcunha o “Camões”, por ser cego de um olho, apesar de ser dos camaradas mais jovens, era também um dos mais velhos da organização, levantou o dedo para falar, o que nele era muito raro, pois concordava sempre ou com o camarada funcionário ou com o Graça, e disse: “Eu apoio esse tal camarada Talião. Acho que devemos arrancar os olhos à reação. Ou pelo menos um a cada reacionário.”


Foi o cabo dos trabalhos para lhe explicar que o Talião não era comunista e que não devíamos interpretar a frase à letra, pois o que com ela o camarada funcionário quis dizer é que não lhes devíamos arrancar os cartazes pelo facto deles, os terríveis reacionários, nos terem arrancado os nossos.” “Só isso?”, perguntou espantado o Mário “Camões”. “Que merda de comunistas somos nós se depois de arrancarem os nossos cartazes não respondermos à provocação com a devida violência revolucionária. Já Lenine disse que só a violência é revolucionária…”


Aqui foi interrompido pelo camarada funcionário que lhe perguntou quem lhe tinha dito tal coisa. Ao que o Mário “Camões” respondeu que tinha sido ele, não ele, o próprio, mas sim ele, ele, o camarada funcionário.


Então o camarada funcionário, um pouco exaltado, respondeu-lhe com a verdade, que também é revolucionária, como muito bem disse Lenine, que nunca tinha dito aquilo que ele disse que ele disse. Mas que sim tinha dito que a ditadura revolucionária do proletariado consiste em destruir por meio da violência a máquina burguesa do Estado. Ao que o Mário “Camões” respondeu que era isso que tinha acabado de dizer. Aí o Graça, que era muito amigo do “Camões”, Mário, e também seu controleiro, interrompeu a discussão chamando a devida atenção dos presentes para a necessidade de se prosseguir com os pontos em discussão que estavam em cima da mesa e que eram de cariz eminentemente prático e não apenas ideológico. Ao que o camarada controleiro ripostou dizendo que no Partido Comunista todas, mas mesmo todas as questões são ideológicas ou de caráter iminentemente ideológico.


“Até cagar?”, perguntou o Carlos Chouriço, que gostava tanto de comer como de dizer piadolas de mau gosto. Todos se riram menos o camarada funcionário, pois com coisas sérias não se brinca. Por isso respondeu novamente que no Partido, com o Partido e sobre o Partido, todas as questões são iminentemente ideológicas. Ao que o Graça, por seu lado, replicou que o que queria dizer com “questão ideológica” é que o ponto da ordem de trabalhos não era um assunto de marxismo-leninismo, mas sim de ordem mais prática, pois apenas tinha a ver com o tema de lhes terem arrancado os cartazes e de por isso terem de estudar uma resposta adequada.


O funcionário voltou à baila para afirmar que tudo o que um comunista faz é ideológico. “Até mijar?”, perguntou de novo o Carlos Chouriço. Todos se voltaram a rir, menos o camarada funcionário, que ficou de repente com cara de Alberto Punhal quando alguém lhe chamava estalinista.


Por proposta do Graça, a reunião foi interrompida para almoço. 


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Quinta-feira, 19 de Julho de 2012

Montalegre - sexta-feira 13 - olhares


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Quarta-feira, 18 de Julho de 2012

O Poema Infinito (109): As palavras

 

Vejo-te vítima de um excesso de transparência, dentro da expectativa inútil de um impulso neutro. De súbito, um tremor lúcido de palavras surge dentro de uma história misteriosa. São palavras imaturas, evidências misteriosas, silêncios espontâneos. Estou esgotado dentro da minha aridez semântica. De repente, os teus olhos acendem a paisagem. Palavras vagarosas fabricam árvores felizes dentro do seu verde necessário. Uma luz passageira demonstra a sua breve alegria. Onde há palavras sempre corre uma brisa de alegria e uma outra de tristeza. Agora apenas procuro um pouco de espaço para respirar. E o som ténue das frases repercute-se na passagem breve dos sentimentos. As palavras perfilam-se para escreverem as cores da manhã, para outorgarem a doçura ao poema, para perfumarem as roseiras bravas, para fazerem coincidir o pecado e a salvação. As palavras ardem dentro da sua nudez enigmática enquanto os caminhos se abrem para serem percorridos. As palavras propagam-se nuas pelo calor adentro e contemplam o teu corpo adormecido e estendem-se voluptuosamente dentro do silêncio aéreo. Em volta o mundo converte-se num campo imenso de branquidão. Tudo fica imóvel. Fixo. As superfícies remanescem lisas, sem reflexos nem sombras. Tudo é ao mesmo tempo presença e ausência. E o vento traz de volta os velhos vocábulos que deixaram de se usar. O texto circula e agita a árvore das palavras e as palavras, agora feridas de sentido, dão golpes de movimentos claros. E o meu corpo enrola-se no teu corpo e cintila e desenha novas palavras e novos sentidos para elas, como se nascessem de novo. As frases respiram. As frases constroem novas frases e perdem-se para de novo se voltarem a encontrar, como num jogo infantil. E desenham contornos nítidos ao desejo, ao contentamento, à volúpia. E as palavras, serenamente alinhadas na sua moradia, continuam o seu trabalho de abelhas límpidas. E escrevem a leveza e a transparência da água e a sombra no verão e a fotossíntese das folhas e a necessidade dos jardins suspensos e a ordem do caos e a partícula de deus e o pó das estrelas que te desenharam o corpo e te verdejaram os olhos. E a loucura da torre de babel. E essas mesmas palavras definem ainda a densidade dos sentimentos e a luz exata da origem do universo e a essência de deus e da sua partícula original. E deus fica dentro das palavras como se não tivesse substância. E chora. E chora palavras frias. E delas germinam árvores que sorriem do nada e se deixam abanar pela nudez do vento e pelo seu ritmo. E as palavras são agora o vinho que nos embriaga e que nos permite o excesso. Depois as palavras ficam feridas e dispersas. E choram. E choram porque tudo explicam mas não se conseguem explicar. Por isso agora são folhas que repousam à espera de se transformarem em cinza que o vento da tarde espalhará pelo mundo. 


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Terça-feira, 17 de Julho de 2012

Montalegre - sexta-feira 13 - olhares


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Segunda-feira, 16 de Julho de 2012

Rufadores e Tocadores (2): Tudo o que rufa e toca é tudo a mesma tropa…

 

Para mim já é suficiente saber aquilo que sei acerca de mim próprio e dos outros, pois saber coisas de mais acaba sempre por prejudicar a noção que delas temos.

 

É um pouco como a amizade, que, ao contrário da ideia que dela fazem os interesseiros, não se alimenta de favores e contra favores, mas das alegrias que os amigos dão uns aos outros apenas pelo prazer da companhia, ou mesmo pela simples certeza de um e outro existirem.

 

Amiúde assaltam-nos ideias que tentamos espanar como por vezes o fazemos às moscas teimosas que, mesmo enxotando-as repetidamente, voltam a pousar no mesmo lugar.

 

E esta ideia que por momentos me assalta decorre de observar, e pensar, que nestes tempos de pós-modernidade que dizem vivermos, com acesso à educação e ao conhecimento, cada vez impera mais a estupidez e a fraqueza moral transformou-se numa teoria universal.

 

Desde que o mundo é mundo, uma das ocupações a que os seres humanos se dedicam é a deitar o olho ao que é dos outros e, quando chega a ocasião, deitar também a mão.

 

O mais engraçado é que o larápio acha sempre que toda a gente apenas pensa em roubar e, do mesmo modo que ele pretende rapinar aquilo que é nosso, nós pretendemos surripiar o que é dele.

 

Está escrito nas estrelas, e inscrito nas mentes iluminadas dos que nos governam, ou governaram, que os cidadãos, que têm a ousadia de contestarem o seu mau governo, devem explicar aquilo que eles não conseguem: convencer os céticos de que toda a crítica é desnecessária, demonstrar que o mundo não se pode modificar fora da sua lógica e da sua forma de pensar e de agir.

 

Muitas das vezes exigem mesmo às pessoas que ousam enfrentá-los a tarefa imensa de provar a razão da sua existência: quem somos nós, de onde viemos e para onde vamos.

 

Valha-nos Deus, eles é que vestiram a pele de piedosos, os atavios de líderes espirituais, de gestores da coisa pública, de mentores do desenvolvimento, de administradores políticos, sociais, de animadores de comícios, de fazedores de cidades imaginárias.

 

Eles é que têm o direito, e o dever, de explicarem o que fazem e porque o fazem. Eles e mais ninguém.

 

Mas como não explicam, e muito menos demonstram o que quer que seja, as nossas palavras valem tanto como as deles.

 

Acusam-nos de descrentes por não acreditarmos nas suas falácias. Deixem-nos ser. As nossas palavras, volto a repetir, valem tanto como as deles. E de entre elas, cada cidadão deve eleger as que, por razão confessa ou não, mais lhe convêm, pois todos sabemos que os homens e as mulheres livres escolhem aquilo em que acreditam.

 

Eu entendo-os. Entendo tudo aquilo que dizem e mesmo aquilo que sussurram.

 

Estes senhores desejam que expliquemos o inexplicável: as suas atitudes, o seu mau governo, a sua inábil gestão, a sua fuga sistemática à verdade, o seu despesismo, a sua inoperância.

 

Eu não pago para escrever, a mim ninguém me paga para escrever, a mim ninguém me diz o que devo escrever. Eu não alugo espaço nos jornais ou nas rádios, não escrevo recados anónimos para destabilizar. Eu não devo, nem pago, favores políticos ou jornalísticos a ninguém. A mim ninguém me deve favores políticos.

 

Eu escrevo o que escrevo pensando sempre em construir uma ideia. Eu não lanço as pedras e escondo a mão. Não. Eu dou a cara. Muitos não gostam do que veem ou leem, paciência. Cristo que é Cristo também não agradou a todos. E os judeus, que eram o seu povo, até o crucificaram.

 

Eu não tenho a obrigação de dizer que a realidade é boa ou daninha conforme a orientação política do momento. A realidade é o que eu vejo, não o que me querem fazer ver. Eu não tenho o que é certo como pré definido. O certo é aquilo que está de acordo com a realidade. E quem vê a realidade apenas com um olho é cego.

 

Afinal o que é que nós ganhámos com esta gente? Esta é que é a pergunta que os cidadãos fazem a toda a hora. E a verdade é que não encontram resposta satisfatória ou mesmo nenhuma resposta para ela. Este é que é o drama. Este é que é o pântano em que nos enfiaram.  Difícil, extremamente difícil, vai ser sair dele.

 

Eu sei que de graça ninguém faz nada, até mesmo os santos querem como paga ir para o céu. Todos temos um preço. E o meu ainda é o reconhecimento que muitos dos leitores expressam em relação àquilo que eu escrevo em busca da verdade. Veem, eu até me contento com pouco.

 

Estou mais que habituado a que me aliciem com o conselho de que chegou o tempo de cuidar de mim. Não, ainda não chegou. O imperativo moral é seguir em frente. É de novo necessário desmascarar os filisteus e ajudar a expulsar os vendilhões do templo. Pois Deus só nos pode perdoar.

 

Não, eu não desisto. Para desmascarar o embuste basta lembrar a todos aqueles que nos leem que apesar de os senhores que nos governaram, ou governam, disfarçarem, e até negarem, a sua má gestão, é só prestar um pouco de atenção àquilo que fazem, e não àquilo que dizem, para nos apercebermos da embrulhada em que nos meteram pela calada dos gabinetes. O logro nesta gente não é a exceção, é, infelizmente, a regra. Tudo o que rufa e toca é tudo a mesma tropa.

 

Basta prestar um pouco de atenção à realidade porque ela ajuda-nos na resposta. Eles metem no meio da realidade a ilusão, a sua ilusão. Mas a realidade é justamente o contrário do que eles dizem, ou do que pretendem dizer.

 

Eles estão habituados ao espetáculo mediático. Esta gente persegue a ideia de que é melhor ser herói do que previdente. Gostam mais de pegar fogo e depois vir apagar o incêndio, salvando gente. Eles que não conseguiram prevenir o incêndio, querem depois apagá-lo e serem ressarcidos por isso. Eles sabem que as pessoas se lembram sempre do herói e não do homem previdente. O herói recolhe todas as recompensas. O previdente pode ter sorte em receber um abraço.

 

Os homens e as mulheres que conhecem a arte da vida devem sempre virar ao contrário o que lhes dizem para se inteirarem se o certo não é esse contrário, se essa não é a verdadeira realidade.

 

E de sábios de pacotilha, que pensam que são importantes porque vestem de acordo com a moda para aparecerem em público, mal conseguindo disfarçar o seu incómodo sobre as verdades que se escrevem nos jornais, começamos todos a estar fartos.

 

Mas deixem que vos diga que essa gente que se diz sábia não é tão sábia assim, pois não é tão sábio aquele que sábio demais se mostra. O esperto não é sábio. É apenas sabido. Só que um sabido está sujeito a encontrar sempre algum mais sabido ainda. Por isso é que vive sempre em guarda e nunca tem paz. 


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Domingo, 15 de Julho de 2012

De costas


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Sábado, 14 de Julho de 2012

De costas


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Sexta-feira, 13 de Julho de 2012

O Homem Sem Memória - 123

 

123 – Diário de bordo: Encontrei o Graça no Centro de Trabalho a catalogar os baldes, os pincéis, as brochas, a contar os pacotes de cola de papel, as latas de tinta, os paus de giz, as réguas de madeira, o fio do norte, as tachas e os pregos. Então fui-me caras a ele e perguntei-lhe: “Achas que para se ser comunista é preciso ler o Programa e os Estatutos do Partido ou o Manifesto Comunista?” Ao que ele respondeu: “Não. Para ser sincero, eu não conheço ninguém que em boa verdade o tenha feito.” Então confessei-lhe: “É que eu tenho tentado. Ó como tenho tentado! Mas adormeço sempre. De uma vez, se não fosse a minha mãe, tinha mesmo morrido queimado na cama.”


Posto perante o meu drama e a minha desventura, o Graça contemporizou: “Achas que os católicos leem a Bíblia ou os muçulmanos o Alcorão? Não, não leem. Ouvem os padres nas missas papaguearem as citações dos respetivos livros sagrados, obedecendo aos ensinamentos e às ordens que lhes dão os superiores, que são sempre as mesmas e proferidas nas mesmas alturas. Além disso, a grande maioria do povo é analfabeta, ou iliterata. Se fosse necessário ler o Livro para se ser comunista, ou cristão ou muçulmano, a imensa maioria só o poderia ser quando já fosse velho ou mesmo nunca. Ora isso não pode acontecer. É na juventude que se ganha o entusiasmo para se ser alguma coisa. Depois de velho já ninguém se preocupa com a redenção. Já está tudo redimido, as esperanças fodidas e a morte ao virar da esquina do tempo. Nessa altura apenas se espera que a realidade não seja tão autêntica como é. Um católico sabe ajoelhar-se, utilizar o terço, rezar, benzer-se, recitar passagens do Livro, confessar-se, repetir orações e acreditar na sua nesga de paraíso à sua espera no Céu. Um muçulmano sabe utilizar o terço, ajoelhar-se, repetir orações, rezar, recitar passagens do Livro, confessar-se, benzer-se e acreditar num lugarzinho reservado lá no paraíso celestial. E os comunistas sabem sentar-se a uma mesa e discutir, recitar passagens do Livro, confessar-se, só que o fazem em grupo e chamam-lhe crítica e autocrítica, repetir frases que são o mesmo que as orações dos crentes, e prometerem, ou acreditarem, no paraíso na Terra, nos seus quinze minutos de fama e quinze segundos de proveito. Podemos dizer que o Comunismo é o Catolicismo, ou o Islamismo, na sua forma mais prática. Pretende redimir, fazer-nos acreditar numa vida melhor, afastar da nossa mente a dimensão animal, a barbárie e dar algum sentido à vida.”


Depois de lhe ouvir tais palavras, olhei para o Graça e cheguei à conclusão que o rapaz não estava bem. Não podia estar. Algum mal lhe deviam ter feito. Mas ele continuou a arrumar os utensílios como se não acabasse de contradizer tudo em que acreditava, ou dizia acreditar. Perguntei-lhe: “Tu estás bem?” Ele respondeu-me que sim. Apenas não dormia vai para três dias pois tinha de encher Névoa de cartazes, pichagens e murais revolucionários. Perguntei-lhe como aguentava. Ele disse-me que o camarada médico lhe servia uns comprimidos milagrosos que tiravam o sono, o apetite e até o tesão. “Milagrosos?”, perguntei eu. E ele: “Milagrosos, é o que te digo. Afastam-nos do pecado da gula, da luxúria e fazem-nos ver estrelinhas.” “Ó homem, tu enganaste-te na casa, devias ter ido para o seminário. E olha que eu sei daquilo que estou a falar. Tu és um crente. Um crente desassombrado. A religião para ti pode ser um bálsamo. O comunismo, pelo que te ouvi, só pode vir a tornar-se uma maldição”, disse-lhe como quem se confessa a um amigo. Depois peguei nele pelos ombros, tirei-o dali e fomos comer qualquer coisa.


“Sabes qual é a primeira frase do «Manifesto do Partido Comunista»?”, perguntei-lhe enquanto ambos e dois fumávamos um cigarro virados para o rio. Ele respondeu-me com um sorriso nos lábios: “Sei.” E eu pronto a estender-lhe uma ratoeira: “Então di-la em voz alta para eu a ouvir.” E ele: “A história de toda a sociedade até aqui é a história da luta de classes.” E eu: “Errado”. E ele: “Como errado?” Eu de novo: “Errado.” Ele já visivelmente apreensivo e olhando para mim da mesma maneira que Alberto Punhal olhava para Mário Soares: “Não pode estar nada errado. Eu sei-a de cor. Todo o bom comunista a sabe. Pode não saber o resto, mas a primeira frase do «Manifesto» é sagrada. E eu tenho a certeza de que a pronunciei corretamente.” E voltou a repeti-la. Então eu disse-lhe: “Escreve-a.” E ele escreveu-a e eu tornei a dizer-lhe que estava errada. E acrescentei: “Disseste que todo o bom comunista a sabe, por isso é que tu és dos maus. Eu vou dizê-la corretamente: «A história de toda a sociedade até agora existente é a história de lutas de classes».” E ele fumando mais depressa: “Mas foi isso que eu disse.” “Parece-te”, disse-lhe com cara de mestre. “Não é «luta de classes», mas sim «lutas de classes»”. E ele outra vez com cara de Alberto Punhal contrariado: “Não gozes comigo. Foi isso precisamente o que eu disse: «Luta de classes».” Então eu repeti-lhe calmamente o que tinha lido no «Manifesto»: “«Lutas de classes»: Marx efetivamente escreveu «Klassenkämpfen», marcando assim claramente o duplo plural. Nem «lutas de classe», nem tão pouco «luta de classes». Aqui, é bem de «lutas de classes» que se trata.”


O Graça, quando me ouviu “rezar” tão bem a prédica, deu uma passa profunda no SG filtro e, por entre o engasgo, as lágrimas e a satisfação, disse-me que para ser comunista já só me faltava mesmo acreditar no comunismo. Eu respondi-lhe sinceramente: “Acredito nele tanto como tu. Mas, nos tempos que correm, temos de acreditar nalguma coisa. Terra onde fores ter, faz como vês fazer.”


Depois contei-lhe tudo, os prefácios, as notas, o incêndio, as cabeçadas, as semanas e semanas de tentativas de leitura do «Manifesto». Recitei-lhe uma frase de que gostei particularmente, se é que gostei de alguma coisa: «Um movimento semelhante desenrola-se diante dos nossos olhos. As condições burguesas de produção e de circulação, as condições burguesas de propriedade, a sociedade burguesa moderna que desencantou meios tão poderosos de produção e de circulação assemelha-se ao feiticeiro que já não consegue dominar as forças ocultas que invocou.»


“É José, tu estás um comunista feito. És um comunista às direitas.” E riu-se muito. Eu também me ri com o trocadilho. E dei-lhe conta dos vários tipos de socialismos, segundo a nossa Bíblia. E ele: “Segundo o nosso Catecismo.” E eu: “Tens toda a razão.”


E enumerei-lhas: “Segundo Marx (cujos ossos repousam no cemitério de Highgate, onde a erva continua a crescer) e Engels (cujas cinzas repousam no mar de Eastbourne, Reino Unido, o seu lugar preferido para descansar), existiram, ou existem ainda, três tipos de socialismo que temos de rejeitar e combater para construirmos o nosso. A saber: 1 – Socialismo Reacionário, que se divide em a) Socialismo Feudal, b) Socialismo pequeno-burguês, c) Socialismo alemão, ou Socialismo «verdadeiro» (atenção às aspas); 2 – Socialismo conservador, ou burguês; 3 – Socialismo e comunismo crítico-utópico.


Depois rimo-nos, sem saber bem porquê. E rimo-nos mais uma vez e outra e outra. E citei-lhe mais uma parte do «Manifesto»: “…a navegação e os caminhos-de-ferro expandiam-se e assim se desenvolvia também a burguesia…” E continuámos a rir-nos.


A burguesia a expandir-se como um vírus através dos caminhos-de-ferro transformou-se para nós num episódio hilariante. Eu a ver o meu pai a abandonar o arado e ir para Lisboa trabalhar na GNR, ganhar algum dinheiro e conquistar, à custa de patrulhas e multas, a sua condição de pequeno-burguês que iria dar origem a mais alguns pequeno-burguesitos ranhosos e complexados, encheu-me de pena e de riso. Ria-me para não chorar. E o Graça seguia pelo mesmo caminho. O comboio a ser o motor da contrarrevolução era uma representação decadente como a puta que a pariu. E continuamos a rir até que não conseguimos mais e nos fomos embora a dizer primeiro em surdina o penúltimo parágrafo do «Manifesto»: “Os comunistas recusam-se a esconder os seus pontos de vista e os seus propósitos. (Agora um pouco mais alto.) Declaram abertamente que os seus objetivos só serão alcançados pela liquidação violenta de toda a ordem social até aqui. (Ainda um pouco mais alto.) Que as classes dominantes tremam face a uma revolução comunista. (Já muito mais alto.) Os proletários nada têm a perder com ela a não ser as suas cadeias. E têm um mundo a ganhar. (Finalmente num grito enorme.) Proletários de todos os países, uni-vos.” Ao que uma voz respondeu na escuridão: “Ide-vos foder. Comunistas para a Sibéria já.” Ao que respondemos: “Vai tu, que lá faz muito frio.


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Quinta-feira, 12 de Julho de 2012

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Quarta-feira, 11 de Julho de 2012

O Poema Infinito (108): O tempo

 

O espaço trás dentro de si um outro espaço onde palpita o tempo. Um vento velho envelhece ainda mais e transforma-se em brisa. Está agora concluída a transparência dos anos. Tornamo-nos invisíveis, como se fossemos vestígios sensíveis do espírito. Um fogo abstrato abre o caminho da incerteza. O sofredor persegue o seu sofrimento. O mundo suspende-se à espera de mais rigor. Ilumina-se. E as palavras nascem na sua espessura adequada. O tempo abre-se e o passado adquire uma outra condição. São longas as sombras matutinas. Os pinheiros acordam por entre a luz subtil do sol que espreita com os seus olhos de fogo. As águas da ribeira fluem enquanto a noite se apaga. A velhice espera para avançar mais um pouco convencida do absurdo sentido do seu lento trabalho. Este momento fixo resigna-se à sucessão do tempo. E o tempo geme. E o tempo grita. E o tempo afunda-se dentro da sua lógica. O mundo parece agora mais feliz. O descanso toma conta da minha alma inquieta. O toque dos sinos é de novo o indício da minha feliz meninice. E duas pobres lágrimas desavindas estabilizam-se na comissura dos meus lábios. A alegria foi sempre uma ideia, não uma existência. A felicidade foi sempre um indício, não uma realidade. A vida é uma dulcíssima inutilidade que anoitece devagar iluminada por uma vagarosa saudade de que tudo se inicie. Por isso é que arredondamos os sentimentos. Por isso é que expomos o fluxo leve do amor ao brilho instantâneo do desejo. E teimamos em ficar nus perante o tempo que já nos fez e agora nos desfaz. Vemo-lo vir dentro da sua lógica demolidora. Dentro da sua puríssima abstração. Dentro da sua coerência de um deus devorador. E também a erudição ergue a sua impotente luminosidade transigente. E chora dentro do seu júbilo. Aves expandidas de alegria pousam agora em cima das memórias da infância. E envolvem-me dentro dos seus cânticos mudos. A iluminada indecisão do futuro torna o presente insuportável. Por isso as palavras se tornam insustentáveis. Delas partem gloriosas narrativas de redenção e morte. Delas parte o esquecimento. O pó do esquecimento. O manto eficaz da ausência. A noite remanesce compassiva, fervendo dentro da sua melancolia, rejubilando no meio da sua cegueira, sofrendo a sua ausência perpétua de luz. O tempo curva-se nos breves instantes de uma felicidade escrita. Só a angústia se torna explícita dentro da sua narrativa de amor e morte. Abre-se o horizonte que amanhecerá em breve. Já se almeja o seu ritmo de luz e azul. Um outro horizonte abre-se dentro do anterior. E ainda outro. E outro. Assim sempre até chegarmos ao fim. É esta a muda narração do universo que se expande. Que se expande dentro do seu sentido paradoxal. Que se explica no seu silêncio feito de solidão e pó. Deus diz: Tu és pó e ao pó tens de voltar. Por isso te sonho como pó de estrelas. 


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Terça-feira, 10 de Julho de 2012

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Segunda-feira, 9 de Julho de 2012

Rufadores e Tocadores (1): Manias, medíocres e depressões

 

Sei agora, mas mais vale tarde do que nunca, que nasci demasiado tarde e demasiado medíocre. Mas mesmo assim tive sorte em nascer medíocre, valha-me ao menos isso, pois desta forma não me vejo na triste situação de ter de alcançar a autêntica mediocridade a desoras.

 

Ou seja, há homens que nascem medíocres, outros apenas alcançam esse estado lá mais para a meia-idade. No entanto, há felizardos a quem a mediocridade lhe cai em cima como uma benesse. São aqueles que o povo diz que já nasceram com, vossa licença, o rabo virado para a lua.

 

Reconheço que até na mediocridade unicamente consigo quedar-me sempre, ou quase sempre, aquém dos mais sortudos. Mas não desisto. Quem me conhece sabe muito bem que não sou homem para desistir. Desistir que desistam os outros. Eu resisto, insisto e persisto.

 

Até na mediocridade, que absorvo como uma esponja, a quantidade da que adquiro é sempre, ou quase sempre, inferior à deles. Os outros. Eles.

 

Daí o meu ar inexpressivo que tanto impressiona quem me conhece, ou pensa conhecer-me.

 

Atualmente ando a tentar ser como os demais medíocres. Por isso me esforço em cumprir o humilde dever de incrementar as tarefas sociais com o mínimo aparato, não vá alguém ofender-se por lhe passar à frente.

 

Desenvolvo todos os esforços para não me antagonizar com quem quer que seja, pois assim é que deve ser, explicam os mais avisados. Sorrio até com mais prontidão às pessoas com quem me cruzo. E não ultrapasso ninguém, não me meto com quem quer que seja e até evito assobiar.

 

Agora não falo, murmuro. Tornei-me subserviente, por isso apenas me sinto confortável quando estou acompanhado por muita gente. Aprendi, ainda, que não devemos olhar de frente para os outros. Apenas de lado e com um sorriso tímido na boca. Devemos falar por meias palavras, dizer meias verdades, camuflar estratégias, ser dúbio nos compromissos e deixar tudo, como bem diz o nosso povo, em águas de bacalhau.

 

Cada vez que olho para cima, vejo gente a embolsar dinheiro, e nunca o que pretendo, que é observar o céu, os anjos e os santos. Vejo-os a arrecadar lucros sugados a todos nós que teimamos em intentar impulsos honestos e não ficar indiferentes a todas as tragédias humanas. Daí o experimentar desenvolver esforços para não pensar naquilo que vejo. E, sobretudo, fazer mais um esforço para que não me confundam os valores.

 

Por exemplo, politicamente sou um humanista que sabe distinguir a direita da esquerda, por isso é que estou desconfortavelmente situado entre as duas, defendendo os meus amigos esquerdistas dos seus inimigos direititas e defendendo os meus amigos direitistas dos seus inimigos esquerdistas.

 

Por isso sou solenemente detestado por ambos os grupos, daí ninguém me defender por que me supõem um pateta e, para mal dos meus pecados, não um pateta alegre, mas sim um genuíno pateta triste.

 

Mas deixem que me confesse: eu sou mesmo um pateta. Lamento desiludir alguns de vocês, mas a verdade é para ser dita. A verdade acima de tudo: eu sou mesmo um pateta e, ainda por cima, triste.

 

Sou a modos como os ilustríssimos medíocres identificados acima que não são racistas mas detestam pretos, ciganos e chinocas. Muitos deles até sabem tudo sobre literatura, cultura e música, exceto apreciá-la.

 

Ao contrário de muita gente, boa gente, respeitável gente, eu tento dissimular a minha mente, pois a minha avó avisou-me que as pessoas com mentes desenvolvidas manifestam a criticável tendência para se tornarem espertas.

 

E os espertos são mal vistos, quando não mesmo perseguidos. Convenhamos que pessoas espertas são um perigo social. Toda a gente medíocre diz apreciá-los mas, honra lhes seja feita, detestam-nos com todas as suas forças. Está visto, nem os verdadeiros, os autênticos, os genuínos medíocres são perfeitos. Mas que são precavidos, lá isso são.

 

Um meu amigo bem me avisou: tu és imaturo. Por isso não consegues adaptar-te à sociedade. És para aí um ressentido. Um revoltado.

 

Deixem que me explique melhor: eu sofro de ansiedade de ajustamento social. Por isso luto contra a minha tendência de não conseguir simpatizar com o fanatismo, a prepotência, o cabotinismo e a hipocrisia.

 

Subconscientemente desprezo algumas pessoas. Ou melhor, deixem-me ser sincero, que é outro dos meus grandes defeitos, eu desprezo algumas pessoas conscientemente. Sim, conscientemente.

 

Por isso, muitas vezes insurjo-me (ó pecado dos pecados!) contra a ideia de ser roubado, ludibriado, imbecilizado, menorizado, explorado, humilhado ou iludido.

 

A infelicidade deprime-me, como também me deprime a ignorância, a perseguição, a violência, a falsidade, os bairros de lata, a ambição, o crime, a corrupção. Sim, eu sei, afinal sou mesmo um maníaco-depressivo.

 

Se não como explicar os sustos que apanho com as pessoas que falam alto? Como explicar o meu sentimento de desamparo com os homens e as mulheres de ação, palradores, destemidos e agressivos? Num mundo que só celebra o êxito, como é que eu me consigo resignar com o meu insucesso? Por isso vivo permanentemente angustiado, apesar de nunca me faltar a esperança. A esperança em ter esperança. Ao menos isso. 


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Domingo, 8 de Julho de 2012

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Sábado, 7 de Julho de 2012

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Sexta-feira, 6 de Julho de 2012

O Homem Sem Memória - 122

 

122 – Resumindo e concluindo: Antes do «Manifesto» propriamente dito, ainda aparecem mais três prefácios. A saber: “Do prefácio à edição alemã de 1890”, com três páginas, duas notas de asterisco em numeração árabe e sete em numeração romana (XXI a XXVII); “Prefácio à [terceira] edição polaca de 1892”, com duas páginas e nenhuma nota; “Prefácio à edição italiana de 1893”, com um subtítulo: “Ao leitor italiano”, com uma nota adjacente, a XXVIII, que fala de a nota “Ao Leitor”, originalmente escrita em francês, ser considerada definitivamente perdida, existindo, porém, um rascunho manuscrito de Engels, na qual abundam as variantes e as lacunas, guardado no Vaticano, ó desculpem, em Moscovo, nos Arquivos do Instituto do Marxismo-Leninismo adjunto ao Comité Central do PCUS. Este prefácio foi o último que Engels escreveu para o «Manifesto», ou seja, dois anos antes da sua morte.


Na parte final do prefácio, a coroa da moeda marxista, já que a cara repousa no cemitério de Highgate, onde a erva continua a crescer, escreve que “o «Manifesto» presta plena justiça ao papel revolucionário desempenhado pelo capitalismo no passado. A primeira nação capitalista foi a Itália.” (O quanto se aprende ao ler este livrinho precioso!) “O fim da Idade Média feudal e o início da era capitalista moderna são assinalados por uma figura colossal: um italiano, Dante, ao mesmo tempo o último poeta da Idade Média e o primeiro poeta dos tempos modernos. Hoje, como em 1300, avizinha-se uma nova era histórica. Dar-nos-á a Itália o novo Dante que assinalará a hora do nascimento desta nova era, a era proletária?” Engels a elogiar Dante, maravilhoso.


Mas não, a nova era italiana deu ao comunismo dois desalinhados com o Vaticano, ó perdão, com Moscovo: Palmiro Togliati e Enrico Berlinguer (inventor do herético Eurocomunismo), que Alberto Punhal detesta, combate, rebate, fustiga, admoesta e menospreza.


Segue-se o «Manifesto» propriamente dito, com uma pequena introdução, que se nos afigura premonitória: “Anda um espectro (XXIX) pela Europa – o espectro do Comunismo”. De seguida fala na “santa caçada (XXX)” que lhes é movida pelos poderosos europeus, incluídos os radicais franceses e agentes da polícia alemã. Terminando: “Com este objetivo” (de os comunistas exporem abertamente ao mundo a sua maneira de ver, etc.) “reuniram-se em Londres comunistas das mais diversas nacionalidades e delinearam o «Manifesto» seguinte, que é publicado em inglês, francês, alemão, italiano (XXXI), flamengo e dinamarquês (1).”


Como podem reparar, em 22 linhas de texto, aparecem três notas em numeração romana (ou seja, das grandes) e uma em numeração árabe, a (16). Esta está lá para nos informar que “a publicação do «Manifesto» nas línguas referidas não foi imediatamente possível.” Só não nos fala das razões. Os comunistas não explicam, informam.


A nota (XXIX) é deveras interessante. “«Espectro»: o termo «espectro» parece-nos, após algumas hesitações, preferível ao de «fantasma» para traduzir o alemão «Gespenst» e o inglês «spectre» aprovado por Engels na tradução de Samuel Moore. A razão está no intuito polémico, habitual em Marx, em que o termo parece ter sido empregado.” Seguem-se mais 65 linhas. Entretanto fui tomar um café com cheirinho, fumei um cigarro e passei à frente.


Passei à nota (XXX): “… ‘heilige Hetzjagd’. A exata palavra alemã que aqui se lê neste passo do texto, e tanto no da primeira edição como no das seguintes em vida de Engels é: ‘eniger heilige Hetzjagd’, o que significa rigorosamente: «uma sagrada batida de caça» ou, como acima escreveu o tradutor português: «uma santa caçada». Depois, durante mais 48 linhas, fala do “auspicioso emprego do adjetivo ‘heilige’, sagrado, santo…” e de outras coisas do género.


A nota (XXX) refere que, “segundo os especialistas italianos, não há conhecimento de nenhuma edição italiana em 1484 nem em nenhum dos anos próximos. A primeira teria sido a de Pietro Gori.” Desta forma ficámos todos bem mais descansados. Uf, que alívio!


Pretendia passar em branco alguns factos que me aconteceram durante a leitura da nota (XXX), por pouco significativos para o coletivo comunista, para a revolução democrática e nacional e para a… mas muito dolorosos para mim, José… sim José, filho de outro José, filho de Luís, filho de Manuel, filho de Geraldo, filho de Venceslau, filho de João, filho de Fernando, filho de Dinis, filho de Carlos, filho de Afonso… filho de Alexandre… filho de José, filho de Jacob, filho de Salomão, filho de David, filho de Jessé, filho de Esrom, filho de Farés, filho de Judas, filho de Jacob, filho de Isaac, filho de Abraão.


Mas, pensando melhor, e para memória futura, não resisto a contá-los. Ia eu na linha 31, mais precisamente onde se diz que “mais significativo, no artigo que tem justamente por título ‘A nova Santa Aliança’ (Die neue «Heilige Allianz») e publicado na “Nova Gazeta Renana” em Dezembro de 1848, portanto uns meses apenas depois da redação do «Manifesto», não se deixa qualquer margem para equívocos (K. Marx-F. Engels ‘Werke’, tomo 6, edição Dietz, Berlim, 1959, pp.146-147)… quando adormeci em cima da mesa de carvalho da cozinha. Bem, dizer que adormeci é quase uma mentira piedosa. Literalmente desabei. E dei uma tal cabeçada no tampo da mesa que me cresceu um galo do tamanho de um ovo de pata com duas gemas. Mais uma vez a leitura do «Manifesto» estava a colocar a minha vida em risco.


Fui-me a ele, fechei-o, pu-lo debaixo do braço, não fosse a minha mãe descobri-lo e deitá-lo ao lume, já que o considerava como o “Livro do Demónio”, ainda pior do que o de São Cipriano, e abalei para a farmácia. Demorei uma meia hora para ir, gastei outra meia para vir, com um intervalo de um quarto de hora de discussão. É que não me queriam vender uns comprimidos, vulgo anfetaminas, para me manter acordado, e suficientemente excitado, independentemente do que estivesse a fazer ou a ler. Eu protestei. Mas eles mostraram-se inflexíveis: tais pílulas só as podiam vender com receita médica. Eu tornei a protestar, dizendo-lhes que não era drogado nenhum, que precisava das anfetaminas para me manter desperto e assim conseguir estudar para um exame importante. Eles tornaram a argumentar com a sua inflexibilidade: os comprimidos só os podiam vender com receita médica. Então peguei distraidamente no «Manifesto» e bati com ele em cima do balcão, acusando-os de reacionários, burgueses, capitalistas, exploradores, etc., mostrando-lhes a minha costela de perigoso comunista em que me estava a transformar. O dono veio então de lá de dentro, olhou para a capa do livro e ficou lívido. “Dado tratar-se de quem é”, disse para os empregados, “podemos fazer uma exceção”. E deu um arzinho da sua graça manifestando simpatia pelo MDP/CDE, a muleta eleitoral do Partido.


Tomei dois comprimidos e, finalmente, pus-me a ler o «Manifesto» propriamente dito. Para quem não saiba, começa assim: Título: “I - Burgueses e Proletários (*) – (*) (Nota de Engels à edição inglesa de 1888). Por ‘burguesia’ entende-se a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social e patrões de trabalhadores assalariados (employers of Wage-labour). Por ‘proletariado’, a classe dos trabalhadores assalariados modernos que, não tendo meios próprios de produção, dependem da venda da sua força de trabalho para subsistirem. (Notar, porém que «dependem» é tradução” (ai estes tradutores!) “do alemão «darauf angewiesen sind», e não do inglês «are reduced to». Do mesmo modo se chama a atenção para a diferença entre o inglês «labour-power» e o alemão «arbeitskraft». – Nota da ed. portuguesa.)”


Eis-nos então chegados à primeira frase que é a trave mestra de toda a ideologia comunista: “A história de toda a sociedade até agora existente é a história de lutas de classes (XXXII).” E lá fui eu à procura de outra nota. Ei-la grafada unicamente num terno de linhas, como a palavra «mãe» que é escrita com três letrinhas apenas, e apesar de pequena é a maior que o mundo tem. Lindo. Linda também a nota. “«Lutas de classes»: Marx efetivamente escreveu «Klassenkämpfen», marcando assim claramente o duplo plural. Nem «lutas de classe», nem tão pouco «luta de classes». Aqui, é bem de «lutas de classes» que se trata.”


Não é por nada, mas até aposto que a quase totalidade dos comunistas usa o termo “luta de classes” para se referir às «lutas de classes». Mas, como podemos ver, estão errados. Não há como ler para aprender. Aprender, aprender sempre, como muito bem ensinou Lenine. O que seria do «Manifesto» sem as notas de Vasco Magalhães-Vilhena, Doutor em Filosofia pela Sorbonne (Paris?).


Ainda me pus a respigar uma coisa aqui, outra mais acolá, mas sem muito critério ou valor. Lá mais para a tarde, o efeito das anfetaminas desapareceu e voltei a desabar em cima do tampo da mesa. Ganhei mais um galo do tamanho de um ovo de gansa com três gemas. Com dois altos enormes na testa, guardei o «Manifesto» em parte incerta e fui procurar o Graça para termos uma conversa definitiva sobre quais os requisitos necessários e suficientes para se ser comunista de corpo inteiro.

  


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Quinta-feira, 5 de Julho de 2012

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Quarta-feira, 4 de Julho de 2012

O Poema Infinito (107): Não, este não é um poema de amor…

 

O que fica da noite é o sabor intenso a sexo e nas mãos os resíduos frescos da acidez melíflua dos teus beijos. Não, este não é um poema de amor. Por isso aqui me tens com a corda ao pescoço tecida com palavras e partículas sensíveis. Continuo a ler as páginas do tempo insistindo sempre para que me descubras. Uma e outra vez. Por isso os textos explodem enchendo o ar de mil paciências. E a solidão uiva por dentro de mim. Todo o amor é inexplicável. A sua estrutura inviável. O seu acaso. Os olhares manifestamente estranhos. A fábula lírica com que se compõe. Um corpo aquece-se contra outro corpo numa combustão instantânea. Vêm-me à cabeça as palavras de hoje. E os labirintos com que a natureza molda a cor dos teus olhos. E o seu perfeito desespero. E o seu estado de limpeza. Por vezes conseguimos habituar a nossa idade ao som lento dos segundos. Então as mãos desenham alegorias fantásticas. O ar levanta-se como se fosse um corcel que arrasta as manhãs mais leves. A bruma entra vorazmente na nossa boca aberta de espanto. E o vento arrasta o maravilhoso cheiro das maçãs maduras. E o ar estremece. E a nossa pele vibra. O tempo persegue o tempo no seu paradoxo. Do ar irrompem mamilos prodigiosos que servem o leite adocicado da solidão. Toda a ternura dorme nos nossos sexos. Não, este não é um poema de amor, pois nele o trigo grita nos montes. E o vale reflete o clarão das nossas breves vidas. Não há nenhuma lei que contrarie esta infalibilidade. Disso temos a certeza absoluta. Por isso, estes momentos são nossos. Só nossos. Por isso voamos desesperadamente de encontro à luz, como duas borboletas sôfregas. O céu hoje é um mar distante. Por isso nos despimos movimentando o desejo e a sua linguagem feita de fios de fogo. Não, este não é um poema de amor, pois o tempo é ainda, e para sempre, um murmúrio. As árvores começam a falar e a crescer dentro do seu sossego. As coisas ficam mais rápidas. As nossas mãos semeiam ternura. E o sossego fica perfumado de palavras. O ar transpira e os nossos corpos transformam-se em barcos. E navegam. E cavalgam. E a água começa a desmembrar-se e a construir a sua líquida liturgia. Todo a amor tem a forma de saudade. Por isso é que este não pode ser um poema de amor, mas antes do seu desespero. Começam a chegar agora as páginas da noite caindo sobre nós com a sua lucidez escura. As pequeninas coisas choram no seu infelicíssimo modo. Deitados na cama sentimos a chuva que principiou a cair. Sentimo-nos gravitar. Toco-te. Tocas-me. Os nossos corpos são novamente frases trémulas. Não, este não é um poema de amor, pois as nossas mãos não conseguem dominar o fogo que deles nasce. Somos pontos parados neste momento absoluto. Pontos equilibrados pelo seu sentido. Pelo sentido do amor e da morte. Por isso somos animais famintos. E devoramo-nos. Aqui me tens, com as partículas sensíveis da minha loucura tentando construir frases que deem algum sentido ao absurdo da vida. Aqui me tens nu, magro, velho e doente. Mas ainda vivo. Nada mais tenho para te dar a não ser isto que sou. Não, este não é um poema de amor. É muito mais do que isso. 


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Terça-feira, 3 de Julho de 2012

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Segunda-feira, 2 de Julho de 2012

A lira de centeio verde

 

Aqui há uns anos, um velho amigo disse-me que durante algum tempo devia tentar escrever sobre música. Respondi-lhe que, apesar de gostar muito de música, não podia escrever sobre uma matéria de que não percebia patavina. Por isso deixei temporariamente de escrevinhar.

 

Hoje estava quase para fazer o mesmo: deixar de escrever. Mas consegue alguém viver sem respirar? Depois lembrei-me dos meus tempos de menino e moço quando, com um estreito canudo de pé de centeio verde ao qual se faziam duas incisões laterais, fabricávamos umas gaitas pequenas, mas ruidosas, que soprávamos durante o tempo suficiente para as fazer vibrar tentado imitar o som de alguma modinha que ouvíamos na telefonia lá de casa.

 

Esse foi o único instrumento que ousei tocar. Ainda jovem tentei aprender a tocar viola, mas cedo desisti. Não me dava com o instrumento. Além disso era muito impaciente, o que é meio caminho andado para não conseguir assimilar nem o tempo, nem as modas, nem as posições e, muito menos, as rotinas do instrumento. Feitios, ou melhor, defeitos.

 

Por isso, de música, conformei-me em ouvi-la com algum rigor e método. O que já não é nada mau para uma pessoa da minha singela condição, pouca habilidade manual e escassas posses. Mas cada um tem que se conformar com a sua sorte e com a inerente condição.

 

É a vida, como muito bem diz o meu filho João Vasco. E não vá o sapateiro além da chinela. Por isso, hoje vivo confortado com a minha ventura e com a minha irrigante mediocridade. Por isso decidi continuar a escrever, não sobre música, como irão reparar, mas sim um pouco sobre tudo e um outro tanto sobre nada.

 

Em meu auxílio vieram, então, as palavras de Victor Hugo: A traição trai sempre o traidor.

 

Vou começar por transcrever umas quantas linhas da página 204 e mais algumas outras da pagina 205 do livro “A Grande Arte” de Rubem Fonseca. Não me perguntem porquê, pois eu não o consigo explicar. Mas não é por isso que vou deixar de o fazer com algum entusiamo. De facto existem coisas às quais não conseguimos resistir, apesar de não as alcançarmos entender, ou explicar. Ora aí vai, por isso prestem mais um bocadinho da vossa atenção.

 

«Então?»

«Todas as pesquisas indicam um equilíbrio muito grande. É impossível saber agora, na conjuntura atual, quem ganhará. Pode ser que o quadro se defina daqui a uns dois meses, mas a hora certa de», hesitou, «fazer as doações é agora.»

«Muito bem. São cinco partidos?»

«Cinco.»

«Dá para todos. Mas manobra de maneira a que eles tomem a iniciativa de pedir.»

«Isso não é difícil. O seu nome é neutro e todos precisam de dinheiro, até o partido do governo.»

«Além da doação institucional, que você me garante que não será contabilizada pelos partidos, vamos dar dinheiro também para alguns candidatos, individualmente. Não deixe os radicais de lado. Eles também aceitam, não aceitam?»

«A corrupção não tem bandeiras.»

«Isso não é corrupção, Gontijo.»

«Tem razão. Desculpe.»

 

Agora, com vossa licença, vou dar um pulo até à página 268 do mesmo livro.

«O dinheiro compra, o dinheiro tranquiliza, o dinheiro alegra, o dinheiro fortalece», disse Lima Prado no primeiro dia em que estiveram juntos, «mas não é tudo, lembre-se disso.»

 

Pois é, o Lima Prado tem razão.

 

Agora vou escrever, à falta de motivo mais elevado, sobre um gato e um passarinho. Eu aprecio muito ver os gatos a caçar. Olha, olha, além está um passarinho a bicar o chão à procura de alimento. Tão engraçado. Olha, olha, um pouco mais ao longe lá está um gato parado a examinar o passarinho. Estou em crer que apesar de ambos estarmos a olhar para a mesma ave, cada um tem dela uma perspetiva diferente. O gato está parado dentro da sua ânsia. Eu estou quieto dentro do meu vagar. Observo, pacientemente, os seus saltinhos e a sua arte, a velocidade, a direção, os seus expedientes volatórios. E o gato faz o mesmo. Eu à procura de uma fotografia, o gato em busca da sua carne. Num inesperado momento, o bichano salta e apanha o desditoso passarinho em pleno voo. E depois fica por instantes a olhar para mim com o passarinho nos dentes. Eu digo-lhe para soltar o passarinho. Mas ele ainda o abocanha mais. E parece que sorri. Apesar de ter pena do passarinho, também fico fascinado pela pronta felinidade do gato. É a vida, como muito bem diz o meu filho João Vasco.

 

Agora vou transcrever parte de um diálogo entre um namorado seguro de si e a sua insegura namorada. Ela: «Tu gostas de mim?» Ele: Se tu achasses que eu não gostava não mo estavas a perguntar.» Ele novamente: «Às vezes pareces maluca?» Ela: «Eu apenas amo aqueles que me amam.»

 

De novo volto a Rubem Fonseca: «Enquanto você telefona, lembrei-me de uma frase de Cromwell: “A democracia é forte na Inglaterra porque neste país os homens de bem têm a mesma audácia dos canalhas. Aqui os homens de bem são covardes. (…) Mas, na verdade, como já foi dito, o Poder não corrompe os homens; os tolos, se conseguem uma posição de Poder, corrompem o Poder. O medo, sim, corrompe, como afirmou alguém que não me lembro. O medo de perder o poder, o medo que está sentindo este governo, é que torna as pessoas mais corruptas. Se me permite um circunlóquio, no Brasil o Poder cria corruptos e a corrupção cria poderosos.»

 

Diálogo entre mim e a Luzia: «Então?» «Então o Quê?» «Gostas mesmo de música?» «Gosto.» «Juras?» «Juro. O meu problema é que não aprendi a tocar nenhum instrumento.» «Toca a tua lira de centeio verde.»


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