Sexta-feira, 31 de Agosto de 2012

O Homem Sem Memória - 73 [rep]


73 – O José continua vigilante. De cima do terraço observa as suas tropas que, também elas, mesmo não parecendo, continuam despertas. Nas terras em volta amadurecem os frutos, as ervas secam e os pássaros cantam alegres. Este continua ser o Verão do seu contentamento.


Sentado numa cadeira reza baixinho uma oração por si inventada onde exalta o Sol, a Terra, a Água e o Ar. O chapéu à Daniel Boone permanece bem ereto na sua cabeça. Enquanto observa o nascer do dia tem uma ereção e começa o chorar baixinho de verdadeiro júbilo. De seguida entoa, com a boca transformada em cornetim, o hino do amanhecer, para deleite das suas imaginárias tropas, dos galos dos vizinhos e dos cães das redondezas.


A sua mãe, também ela já desperta e a rezar as suas orações, emociona-se com a pequena loucura do filho mais velho. O seminário tem desenvolvido nele uma estranha, mas tocante, loucura fantasiosa. Os irmãos adoram-no.


O José tem feito deles, pequenos conselheiros, confidentes ou filhos adotivos. Conta-lhes histórias, confidencia-lhes pequenos segredos, enche-os de mimos. Continua a ler imenso. Os livros são o seu verdadeiro mundo. São o território que administra com sabedoria, lealdade, verdade e justiça.


Hoje o cornetim toca também para lembrar à família que está na hora de acordar e preparar toda a logística necessária que permita passar um dia à beira rio.


O dia tem tudo para dar certo: amanheceu lindo de morrer, não há vento e está calor. Além disso, o guarda Ferreira está a gozar alguns dias de licença. Por insistência da dona Rosa, uns dias fuma menos… mas bebe mais. Noutros dias bebe menos… mas fuma mais. O guarda Ferreira continua, para nosso gáudio, o homem equilibrado que sempre foi e continuará ser, se Deus quiser.


Mal acordou fumou um cigarro, mas não bebeu nada. Tratou da sua higiene pessoal, foi buscar os garrafões do vinho tinto e arrumou-os junto à porta. Depois comeu um pedaço de pão com nozes e figos e bebeu um calicezinho de aguardente. Mas não fumou nenhum cigarro. Continua fiel à sua promessa de equilíbrio. De seguida ajudou a acomodar a comida feita de véspera nos cabazes e a dobrar os liteiros e os cobertores. Enquanto a dona Rosa vestiu e calçou os filhos, o guarda Ferreira e o José transportaram e acomodaram toda a tralha na carroça do vizinho Carriço.


Saíram de casa às sete, chegaram, por volta das oito, à margem direita do Tâmega e às nove sentaram-se a comer o pequeno-almoço. Durante o caminho o guarda Ferreira não fumou um único cigarro. Ainda fez uma ou duas tentativas para puxar o maço do bolso da camisa, mas o olhar certeiro da dona Rosa foi suficientemente persuasivo para o inibir da atitude. Pelo caminho juntaram-se a muitas outras famílias que seguiam na mesma direção e com o mesmo propósito.


Mal dispuseram as mantas no chão, algumas crianças voltaram a adormecer. O José pediu autorização à mãe para as acordar. Ela disse-lhe que o melhor era deixá-las dormir até acordarem. Nessa altura terão fome e será mais fácil alimentá-las. A mãe sorriu para o José e o José sorriu para a mãe. É bem possível que já se queiram mais um pouco. Viver à distância torna-nos mais tolerantes, atenua-nos os defeitos, aumenta-nos as virtudes.


O mata-bicho soube-lhes pela vida. O bacalhau frito e o presunto, juntos com o pão centeio, combinaram bem com a fome e esta também combinou muito bem com a bola de carne, os rissóis, a linguiça e o salpicão. Depois o vinho caiu regaladamente em cima da comida e a comida agradeceu. O guarda Ferreira, em coerência com o equilíbrio prometido, e devido a não ter fumado um único cigarro – se descontarmos um fumaçado a medo quando foi mijar atrás de um casebre e ainda outro durante a penosa montagem do acampamento –, bebeu um litro de tinto bem medido. Seguidamente foi pendurar os garrafões a refrescar na água do rio.


As crianças, por fim, acordaram e puseram-se também elas a comer. As mães começaram a falar-lhes, a dar-lhes mimo e a sorrir, o que combinou muito bem com a boa disposição dos cavalheiros que começaram a falar de futebol e a organizar-se em pequenos grupos. Porque os garrafões de vinho estavam afogados em água corrente, o guarda Ferreira, mais uma vez fiel à sua promessa de equilíbrio, fumou vários cigarros com o ligeiro intervalo de tempo que levava a acendê-los uns nos outros.


Os homens, esses sortudos, como não discutiam política, por não saberem o que isso era, e porque eram todos, ou quase todos, do Benfica, o que não possibilitava o contraditório necessário à manutenção de uma discussão acesa sobre o desporto rei, puseram-se a jogar à sueca. E assim se mantiveram até à hora do almoço.


Na banca onde o guarda Ferreira se alapou para batê-las, ao contrário das outras mesas de sueca, o vinho não entrou. A Dona Rosa tinha dado ordens expressas: “Aqui só joga quem não beber.” Ao que alguém mais bem disposto do que a anfitriã perguntou: “Nem um copinho de água?” Ao que ela respondeu: “Vai à merda Manuel.” Para logo de seguida se ouvir a voz serena do José: “Por favor, mãe, não sejas tão escatológica.” Ao que a família Ferreira em uníssono respondeu, incluído o guarda Ferreira, imitando a voz estridente da dona Rosa: “O que eu sou é escanifobética. Ah, ah, ah!” Ao que o senhor Manuel ripostou atrapalhado: “Não percebo nada do que estais para aí a dizer.” Então a dona Rosa repetiu: “O que eu sou é escanifobética”. Foi a vez do João se começar a rir e dar um peido sonoro como sempre acontecia quando gargalhava com vontade. O que foi aproveitado pelos outros irmãos para se rirem também o que provocou novo peido do João e mais riso nos irmãos e na dona Rosa, a que só não se lhes juntou o Leão, porque já tinha morrido, e o Virtudes porque tinha ficado em Montalegre, sempre num crescendo de hilaridade que nos abstemos de dar conta mais pormenorizada porque, afinal, já foi descrita em dois momentos anteriores. 


O guarda Ferreira, como não bebeu… fumou. E bem, só não chupou os dedos porque necessitou deles para pegar e largar as cartas.


O almoço foi bom. Comeram bolos de bacalhau, azeitonas, presunto, arroz de ervilhas, frango assado e bifes e chicharro de cebolada. Como sobremesa filaram-se no melão. As crianças beberam Sumol, as mulheres mais envergonhadas água e as mais destemidas vinho branco. Os homens enfrascaram-se com tinto. No fim do almoço o guarda Ferreira ainda esboçou o gesto de puxar de um cigarro. Mas como antes olhou instintivamente na direção da dona Rosa, meteu de imediato o cigarro no maço e serviu-se de mais dois copos de tinto de Arcossó.


Depois do repasto, enquanto o sol apertava, todas aquelas singelas criaturas de Deus, saciadas de comida e de paz, se puseram a dormir a sesta. Ressonaram como cavalos bêbados.


Lá mais para a tarde, sob o olhar vigilante das mães e dos irmãos mais velhos, as crianças atreveram-se a ir dar banho nas águas mansas do rio. Com a algazarra das crianças, os homens despertaram dos seus sonos embriagados e começaram a sorrir e a peidar-se com muita singeleza de espírito.


Esta ocasião hilariante permitiu que o guarda Ferreira fumasse mais um apetecido cigarro. Depois foi jogar as cartas e continuou a fumar ao mesmo ritmo com que perdia partida atrás de partida. A sorte do jogo não queria nada com ele. “Azar ao jogo, sorte no amor”, disse galhofando o par de adversários de mesa da sueca. Mas não levaram o riso até ao fim. Falar de amor na relação entre o guarda Ferreira e a dona Rosa é coisa que nem os pobres de espírito conseguem dizer sem sentirem remorsos. Com coisas sérias não se brinca.


No meio da erva seca os rapazes mais velhos jogaram futebol por entre gargalhadas e pó. Apenas o José se absteve devido a não ser capaz de andar descalço. Ainda propôs que lhe autorizassem a jogar com os sapatos que eram mimosinhos. Mas eles disseram que não, a jogar que o fizesse de meias. Ele assim procedeu, mas o raio das peúgas romperam-se logo de seguida.


Depois de mais uma maratona de cartas e de cigarros, o guarda Ferreira voltou a ser convidado para a merenda. Comeram-se os restos, que, mais do que restos, eram nova e suculenta refeição. Escorropicharam-se os garrafões de vinho e alguns homens mais bebidos, começaram cantar o fado. Por não haver mais vinho, o guarda Ferreira pode terminar o dia fumando os cigarros que lhes restavam olhando serena e calmamente para os filhos e para o pôr-do-sol. Quando a dona Rosa apareceu na sua frente, em contra luz, a lembrar-lhe que estava na hora de regressar a casa, o guarda Ferreira teve uma epifania: viu a sua mulher a morrer afogada no rio. Depois olhou para o filho e arrepiou-se. O José continuava a adivinhar o pensamento dos outros. 


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Quinta-feira, 30 de Agosto de 2012

Na capela


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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2012

O Poema Infinito (21): Criação [rep]


A invenção do Mundo custou a parir cinco dias infinitos. Logo de seguida Deus criou os seres vivos em apenas dois. E o mesmo Deus ofertou o Mundo, ainda tosco e selvagem, aos animais e às plantas e aos homens que, na sua omnisciente visão, não são nem uma coisa nem outra. Valha-nos Deus. No início, o mundo foi feito através da iluminação cega da criação e Deus transformou-se em loucura e em espada e cortou as estrelas e modelou planetas e tingiu de escuro o firmamento e pôs calhaus a voar caoticamente entre eles. Posteriormente tornou-se amargo e amassou as montanhas e condenou animais a sê-lo para sempre e deu cor à humanidade criando o pecado e o sexo para ser praticado com conta, peso e medida. Deus fez o homem do barro e a mulher das costelas dele. Deus brincou com os humanos como se fossem bonecos de plasticina. Deus gosta muito de brincar. Nisso assemelha-se às crianças. Depois purificou as fontes e as crianças e deu vinho aos reis e aos pobres e colocou carga erótica nas coxas e nas mamas das mulheres e fez-lhes de seguida um rasgo entre pernas para parirem com dor. E pôs lá pêlos. E teve coragem de criar o macaco para o homem se sentir superior e de criar os homossexuais para confundir a sexualidade de uns e de outros. Depois criou os anjos sem sexo. E ainda criou o sexo sem anjos. E chegou mesmo a criar o sexo sem sexo. A que se seguiu o celibato de padres e de freiras. E criou os pedófilos que se abrigam dentro da sua Igreja. E criou caracóis para sugerir ao homem que se quiser prosseguir na sua evolução pode muito bem foder-se a si próprio sempre que queira sem incomodar ninguém e depois pôr muitos ovos para formar descendência. E criou Darwin para nos dizer que todos os seres vivos evoluem só que uns evoluem mais do que outros. E outros evoluíram tanto que chegaram a seres inteligentes e por isso conseguem ter consciência de que Ele existe. E criou a palavra virgem para distinguir a pureza das mulheres pois já sabia que ia ter um filho de uma que o foi antes e depois da fecundação e do nascimento do seu filho que foi utilizado para sofrer e redimir os homens e as mulheres e que, apesar de ser crucificado, de nada nos valeu pois os homens continuam tão maus como dantes e o seu único filho ficou para sempre crucificado numa cruz de pau feita de prata ou ouro que o seu representante na Terra ostenta como símbolo de poder. Mas o poder de Deus num homem é uma das coisas mais estúpidas que se pode conceber. E Deus, ao que por aí se diz, não é estúpido. Estúpida é a economia que foi criada pelo homem para enriquecer uns e empobrecer outros. A economia é uma prostituta rica que muitas vezes é abençoada pelo Homem e por Deus. E nisso o seu filho foi peremptório atribuindo a César o que é de César. Pois à mulher de César, que agora sabemos chamar-se Economia, não lhe basta ser séria também tem de parecê-lo. E finalmente criou o foguetão e enfiou lá dentro três homens que foram à Lua e um deles deu um pequeno passo para ele, disse ele, mas um grande passo para a Humanidade, disse ele também. E ninguém se atreveu a desmenti-lo. Ainda hoje se está a medir o seu tamanho e ninguém conseguiu definir com exactidão a sua extensão. São, por isso, insondáveis os caminhos do Senhor. 


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Terça-feira, 28 de Agosto de 2012

Rezar ou não rezar, eis a questão!


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Segunda-feira, 27 de Agosto de 2012

Um, dois e três… contos outra vez


1 – A galinha garnizé


Não é minimamente aceitável que se faça pouco da inteligência das galinhas garnizés. Não sendo tão grandes como as outras, são mais aguerridas, mais carinhosas com os pintainhos, mais defensoras do seu território, mais independentes dos galos, mais poedeiras, mais mexidas, decididas e guerreiras. Sabem adivinhar os eclipses da Lua e o vento Norte. Eu conheço uma que dança de roda quando houve música do Marco Paulo, que salta quando vê um padre e que cacareja ao contrário quando avista uma bruxa das más (Ai Mimi, Mimi, finalmente chegaste a um conto meu). Também adivinha os dias de trovoada e as noites de geada negra. É tão atenta e perspicaz que descobre um mentiroso pelo sorriso, um caloteiro pela maneira como se senta e um político invejoso pela grafia. Tem esta galinha garnizé o condão de se rir nos dias santos, sem que ninguém lho sugira. É também muito piedosa, muito tolerante com os outros e, sobretudo, sobe e desce escadas com uma pata só. Gosta muito de passear de carro, sobretudo de descer a Rua de Santo António aos domingos, especialmente quando as pessoas saem da missa. Nas noites de Natal canta lindas canções que ouve na televisão. Chegou a assistir a uma missa do galo e cacarejou com tanta ventura que a vaquinha e o burrinho choraram lágrimas verdadeiras e até o menino Jesus do presépio se sorriu. O que também é um milagre e, mesmo que pareça trivial, cai muito bem numa noite de consoada que é a festa da família onde os animais têm o mais honroso papel.

 

2 - O boi da corte

 

Veem o Larouco lá em baixo? Era ali que eu gostava de viver, entre a relva fresca e verde, entre as nuvens, o ar puro e os animais selvagens. Tudo menos andar rodeado de seres humanos que apenas me utilizam para competir simbolicamente em nome do seu pretérito orgulho tribal. E eu não gosto mesmo nada de andar por aí às marradas aos outros bois como se eles fossem os meus inimigos. Inimigos são os homens que me fustigam o lombo com as varas quando vou para o campo de batalha, quando perco a luta ou mesmo quando a ganho. Tristes ou alegres, derrotados ou vitoriosos, dão-me sempre com os varapaus nos costados. E eu ali a aguentar o desaforo. Por vezes só me apetece lançar-me a eles às cornadas e projetá-los lá bem para longe. O que eu queria de verdade era andar por esses pastos fora em liberdade e não fazer o papel de boi da Corte, como antigamente os bobos eram obrigados a representar aos pés do seu rei. Antigamente éramos os bois do povo, agora somos os bois dos parvos ou de um patrão que nos utiliza como animais amestrados de circo. E lá se foi a simbologia totémica, a virilidade serrana, a força telúrica do seminal. O que mais desejo é ver-me livre destes patetas e ir correr à desfilada por esses campos fora à procura de uma vaca que me espere e deseje. Uma vaca redondinha, amável e prazenteira. O resto é-me indiferente. E por agora é tudo, porque já ali vem o meu tratador para me levar para o estábulo. E eu que enjoo quando ando na camioneta. Ó triste sina a minha!

 

3 - O solilóquio libidinoso sobre um boi de barroso feito por uma digressionista ocasional logo após uma chega

 

Vou filmar este bicho espantoso enclausurado dentro do contentor da camioneta. Depois da vitória, o encarceramento. Ó desconsolada ironia! Já filmei o animal a turrar com o seu competidor. Já o filmei a resfolegar. Até já o cinematografei a espumar de irritação. É um magnífico animal, sem dúvida. Uma autêntica força da natureza. Um cântico à virilidade. E que genitais, meu deus! Que genitais! Que quadris! Que força! Quando mostrar isto à Lili de certeza que vai alterar-se copiosamente e sorrir. Ela adora animais potentes. Ela é doida por genitais. Tudo o que sugere virilidade a aproxima da parede. E ela adora ser encostada à parede. Ou estendida no chão. Ou assentada metodicamente numa mesa. Este toiro bravo faz-me evocar o Manuel. Era ele um autêntico beligerante. Era montês a esgrimir gládios. Era arrojado e destemido. Saracoteava com muito talento a silvestre agitação dos guerreiros. Agora vou confecionar um grande plano do frontispício do viril bovino para cinematografar os seus olhos. Olhos serenos. Olhos diligentes. E que genitais, meu deus! Vou também filmar os chifres. Armadura alta. Arnês apontando ao céu. E que genitais, meu deus! Também tem o dorso bem desenhado, pernas enérgicas e locomoção segura. E que genitais, meu deus! Que potência! São testículos telúricos. Uma ejaculação deste bichano deve ser como uma trovoada de Verão. Tem os músculos bem tonificados. E que genitais, meu deus! Nunca pensei que existisse realidade tão magnificente. A penetração dum bicho destes deve deixar a fêmea em estado de deslumbramento. Quando se desloca parece dócil. Mas quando investe contra o adversário até o piso tirita. Provoca cútis de galinha e tremores na espinha aos indivíduos alterosos. E que genitais, meu deus! Que genitais! Genitais destes são um excelso cântico à multiplicação indómita. E o Manelinho!? Bem, o Manelinho quando observar estas expressivas imagens vai dar saltinhos de contentamento. Vai emitir gritinhos de luxúria. Vai irradiar vagidos sincréticos e apologéticos. Mas que genitais, deus meu! Que opulência reprodutora! Que idiossincrasia indomável! Que estratégia construtiva! Que genialidade! Que genitais, meu deus! Que genes e tais! Bem alentados os genes. Bem ocorridos os garanhões informais. Bem-aventurados esses.


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Domingo, 26 de Agosto de 2012

Noite para amantes antigos


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Sábado, 25 de Agosto de 2012

Noite religiosa


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Sexta-feira, 24 de Agosto de 2012

O Homem Sem Memória - 72 [rep]


72 – Emboscada ao capitão escoteiro mirim do monóculo de plástico (continuação II).


Cena 9 (take 1). O Graça e o José, bem comidos e bem bebidos, palitam os dentes com um pauzinho de urze aguçado à navalha, arrotam alto, peidam-se e riem. Entretanto esperam pacientemente pelo inimigo que tarda em chegar.


Cena 10 (take 2). Ao longe o batalhão mirim serpenteia teimosamente pelo mesmo trilho percorrido anteriormente. Depois de algum movimento, estaca quase no mesmo sítio da primeira paragem efetuada durante a manhã, na qual o burro abandonou o seu comandante.


Cena 11 (take 5). Um soldado mirim: “Estou estafado. Comi muitos feijões e carne ao almoço. Dói-me a barriga. Vou ali arrear o calhau.” Vermelho de raiva, e com o brio pelas ruas da amargura, o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro, adverte alto e bom som: “Ai não vais não. Por este andar nunca mais chegamos ao campo de batalha. Não vos apoquenta o que pensa o inimigo da vossa coragem, ou da falta dela?” O soldado à rasca da barriga: “Ou vou ali cagar ou…” Os outros soldados aflitos: “Deixa-o ir se não borra as calças e depois é a debandada geral por causa do pivete.” O chefe mirim: “Vai, mas volta rápido, pois há ainda muito caminho para percorrer e um inimigo para atacar e vencer.”


Cena 12 (take 3). O Graça e o José continuam impacientemente à espera que o inimigo se resolva a atacar. O Graça: “Lá voltaram eles a parar. Se não nos atacam eles, atacamo-los nós.” O José: “Mas somos apenas dois e eles são para aí uns vinte.” O Graça: “Eu sei. Mas não aguento mais esta indecisão. Pelo que vejo temos de mudar de inimigo. Este nunca mais se decide a atacar. E uma guerra sem luta não presta. Eu nunca gostei das batalhas táticas. Detesto estrategas. Eu aprecio uma luta cara a cara. Gosto de sentir o cheiro do medo do inimigo.” O José: “Olha, olha, a coluna pôs-se de novo em andamento. Está tudo a postos?” O Graça com cara de caso: “Está tudo a postos, mas nada em ordem. Mas deixa-os vir. Até os comemos!


Cena 13 (take 3). O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro: “Em frente marche. Um dois três, um dois três, um dois… Lá está o inimigo empoleirado em cima das árvores. Os primeiros a entrar em combate vão ser os cães pisteiros. Sobem às árvores e enxotam o inimigo cá para baixo, que depois nós caímos-lhes em cima. Um cão pisteiro: “Falar é fácil, mas uma coisa é ladrar como os cães e mijar como os cães, outra bem distinta é subir às árvores. Os cães não sobem às árvores. Quem sobe às árvores são os gatos. E nós não somos gatos. Somos cães. Por isso não posso subir às árvores. Além do mais tenho tonturas. Que suba o outro cão.” O outro cão pisteiro: “Essa é boa. Queres passar as responsabilidades para cima de mim, sem sequer me consultares. Eu também não subo às árvores. Sou tão cão como tu, com os mesmos direitos e com os mesmos deveres. Quando me alistei no batalhão mirim foi como cão pisteiro e os cães, como muito bem referiste, não sobem às árvores. Quem sobe às árvores são os gatos.” De novo o batalhão parou.


Cena 14 (take 1). O José: “Voltaram a parar. Há-de chegar a noite e nós sem guerra. Estou de acordo contigo, está na hora de escolher outro inimigo. Este não presta. Só falam, cagam e mijam.”


Cena 15 (take 7). O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro: “Começo a estar farto desta merda. Primeiro foi o burro, depois foi a sede, depois foi a fome, ainda há pouco tempo parámos para o Peidolas ir cagar e agora são os cães que descobrem que os cães não sobem às árvores. Começo a estar farto desta merda. Se os cães não subirem às árvores desisto da guerra e a vergonha desabará por cima de nós como um manto negro da cobardia.” “Não, isso não pode acontecer”, gritaram irritados os soldados mirins. “Dá-lhes com a vergasta de salgueiro no cu que eles logo arrebitam. Até sobem pelas paredes acima.” O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro com um sorriso de escárnio nos lábios: “ O pelotão está comigo? Está mesmo? Acha o valoroso pelotão, que eu tenho a subida honra de comandar, que devo arrear com o meu pinguelim no rabo destes cães cobardes?” “Sim, sim, sim”, gritou o pelotão a uma só voz. “Então que assim seja. Agarrai-mos que eu logo lhes quebro a cobardia.” “A ver se te atreves”, desafiou o primeiro cão pisteiro. “A ver se te atreves”, desafiou o segundo cão pisteiro. “Ai atrevo, atrevo”, ameaçou vibrando o pinguelim o chefe mirim. Vendo que a razão da força pendia claramente para o lado do líder, os cães decidiram-se a subir às árvores.


Cena 16 (take 4). O pelotão mirim avança determinado na direção do inimigo. Nota-se ainda uma ligeira hesitação nos cães, que guincham baixinho impropérios. O chefe chega-lhes a roupa ao pelo.


Cena 17 (take 2). O Graça eufórico: “Agora é mesmo para valer” e lança um berro que põe os pássaros empoleirados nas árvores a voar sem direção definida.


Cena 18 (take 2). Os cães pisteiros caem num fosso e começam a chorar.


Cena 19 (take 10). Quatro troncos, vindos sabe-se lá bem de aonde, presos por fortes cordas de sisal, deitam por terra todos os soldados mirins e também todas as esperanças numa vitória.


Cena 20 (take 1). O José eufórico: “Agora é mesmo para valer. A vitória é nossa.” E lança três berros que arrepiam os soldados caídos e os põe em debandada geral.


Cena 21 (take 1). O capitão escoteiro, caído por terra, já sem chapéu colonial, sem monóculo e sem pinguelim de varinha de salgueiro, chora de raiva. O Graça abre-lhe a carcela das calças e sentencia com uma risada demoníaca: “Vamos fazer-lhe uma barrela para aprender.” O José: “Não o humilhes tanto.” O Graça: “Como chefe de brigada, condeno este imbecil a sofrer a suprema desonra de uma barrela. E, pondo-lhe a piroca à mostra, cospe-llhe. O mesmo faz o José. Depois deitam-lhe em cima várias mãos cheias de terra e esfregam até doer. E, desta forma humilhante para o capitão mirim, os heróis do momento dão por finalizada a guerra. 



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Quinta-feira, 23 de Agosto de 2012

Noite desfocada


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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2012

O Poema Infinito (30): o logro [rep]


Espero um tempo novo feito de palavras virgens recitadas por jubilosos jovens bebedores de vinho puro. Das suas mãos hão-de nascer os sinais ardentes da esperança e os seus dedos irão moldar um mundo novo. Já aí vem o esplendor da revolução. Os demónios da opressão vergam-se perante a luz violenta da liberdade. As estrelas da inocência brilham nos olhos dos idealistas. Devagar o espírito dos livros transforma o sangue espesso dos mártires em seiva que alimenta os novos heróis redentores. Deus é uma estrela sonâmbula. Os campos de batalha cheiram a trevo. Os astros da madrugada derramam esperança. A vitória dos que triunfam é bela. O espírito dos guerreiros espelha a invenção do amor. Os chefes amam com lágrimas fortes os seus mais intrépidos combatentes. Os campos enchem-se de cânticos. Começa de novo o mundo a girar na sua rota perfeita. Os astros estão alinhados. As mulheres inventam de novo amores loucos e heróis infinitos. A terra arada brota em cereais nobres. As árvores de fruto alimentam os pássaros que sobrevoam os campos gloriosos da batalha. Viver torna a ser uma arte pura. Pintam-se quadros soberbos dos semideuses. O pensamento é livre. As primaveras são instintivas. O pão e a alegria são o dinheiro do reino. O rei tem força. As manhãs nascem sublimes. A beleza vibra na boca das princesas. As mães embalam os seus filhos com palavras de ouro. Os poetas inspiram-se na vida simples dos virtuosos. As águas são puras como a alma dos mártires. O leite renasce nos úberes das fêmeas. O fogo provoca o contentamento dos jovens. Os sorrisos nascem da bondade. A verdade é a aurora do império. A esperança é integral. Tudo o que eu digo está vivo na frescura de um coração novo. Tudo o que eu escrevo é mentira.


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Terça-feira, 21 de Agosto de 2012

Noite colorida


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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2012

Contos (de) animais [rep]

 

1 - O cão, a gata e o hámster

 

Que mania! O cão do meu vizinho gosta de ladrar às pessoas bem comportadas. Elas, com razão, indignam-se. O cão do meu vizinho também gosta de gatos. Lambe-os e sorri sem pudor ou sentido canino comportável com a tradição. Ao que isto chegou, meu deus. Será que fizemos o 25 de Abril para agora nos invadir tamanha incoerência filosófica? Tanta educação, tanta inspiração, tantos direitos, tanta indignação, e agora isto! Já não há “agoras” como antes. Atualmente anda tudo de cara escarnecedora e espírito derrotista. Tanto mar (tanto mar?), tanto marinheiro, tanto sal, tanta poesia, tanto sol, tanta sardinha assada, tanto caracol, tanto pimento, e, também, bacalhau cozido, para nada? Eu até podia culpar o cão do meu vizinho, mas não consigo. É que não sei se gosto dele. A minha mulher inclina-se mais para a gata da sua tia. Mas o hámster cá de casa é que goza da simpatia geral. Dizem que os ratos são sempre os primeiros a abandonar o barco. Mas a tradição já não é o que era. Hoje já não temos barcos. Nem tradição. Nem… Que mania! A gata da tia da minha mulher gosta de miar ao pássaro que canta com erudição. Parece-me que não suporta a qualidade nos outros. Ao que isto chegou!

 

2 - Do destino dos papagaios pornográficos

 

Junto ao canto estava um papagaio. Junto ao papagaio estava um vaso. Junto ao vaso estava outro. O papagaio estava numa gaiola a rasgar folhas de jornal com o bico. Estava triste o papagaio. Noutro local também lá estava um outro papagaio dentro duma gaiola. Este não rasgava folhas de jornal, limitava-se a olhar para quem passava como quem esbulha sementes com o bico. Estava triste o segundo papagaio. Numa praça estavam vários marroquinos a vender ventoinhas, cintos, perfumes e, também, filmes pornográficos piratas a homens de meia-idade. Estavam tristes os marroquinos e tristes também estavam os homens de meia-idade que compravam filmes pornográficos piratas aos marroquinos. Mais a sul vários emigrantes apanhavam sombra junto ao rio sentados em cadeiras de plástico, comendo tremoços, amendoins e bebendo cerveja fresca. Estavam também tristes os emigrantes, estavam tristes os tremoços, estava triste a cerveja e as cadeiras de plástico e os amendoins. Estava triste a relva e os pássaros e, até, o verde das árvores das margens. Estavam tristes as margens. As duas. No rio pedalavam turistas nas gaivotas, enquanto deslizavam nas águas turvas do T. Estavam tristes os turistas, estavam tristes as gaivotas, estava triste o rio, estava triste a tarde. Na varanda duma rua estreita uma mulher gritou que já não conseguia aguentar mais a monotonia semântica das molas da roupa. Estava triste a mulher. Estava triste a varanda. Estavam tristes as molas e a roupa e a monotonia também estava triste, de uma tristeza redundante, rígida, hiperbólica. Triste também ficou o grito da mulher. Mas de nada lhe valeu. O grito extinguiu-se sem destino. Os gritos não têm destino.

 

3 – Canitite aguda

 

Não há necessidade de olhares para mim com esses olhos ternos e interrogadores. Eu não me chateio. Até gosto. Mais a mais, não te tenho medo. Ai ris-te. Pois ri-te à vontade. Eu não me importo. Até gosto. Não. Não olhes para mim dessa maneira. Não me convences. Eu não gosto de cães. Bem, não é que não goste deles. Só que não os aprecio e acho detestável o excessivo afeto que as pessoas lhe dedicam. Lavam-nos, passeiam-nos, dão-lhe boa comida, vacinam-nos e até lhe administram contracetivos. Já reparaste que todos os cães de agora são obesos? Há por esse mundo fora gente que não tem nem sequer um copo de água para beber ou uma mão cheia de arroz com que se alimentar. Os cães não são seres humanos para merecerem tanta atenção. Agora há cachorros por todos os lados. Ladram, defecam, cheiram mal apesar dos sabonetes e urinam em qualquer canto. Eu não gosto de cães. Ou melhor, não gosto de epidemias e o número de cães que há por aí não augura nada de bom. O que está em causa não são os cães. É o seu número excessivo. É a sua sacralização. As pessoas podem não ter filhos, mas têm cães. E depois passeiam-nos pela rua, que é um espaço público que custa tempo e dinheiro a manter limpo, para que eles defequem e urinem nos passeios, nos postes de iluminação pública, nos jardins. Menos nas casas dos seus donos e nos seus jardins. Sujam a casa de todos nós deixando as casas dos seus donos limpas e asseadas. Reparo que começou a chover. Fica-te bem o cabelo assim molhado. Eu gosto de olhar para ti. Se tivesses um cão ao lado distraía-me com coisas acessórias de que não gosto. Bem, não é que não goste. O mais correto será dizer que não aprecio. Gosto de animais que vivem nos seus espaços vitais. No seu meio. Olha, gosto de lobos. Gosto da sua ferocidade, da sua luta pela vida, de cumprirem com a sua função. Por isso é que estão em extinção. Os cães não têm função, são subsidiários, são quase indigentes. Gosto de passear à chuva. O cabelo molhado fica-te bem, dá-te um ar vivificante. Gota a gota enche o rio o leito. Essa é que é essa. 


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Domingo, 19 de Agosto de 2012

Rostos femininos - sexta-feira 13 - Montalegre


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Sábado, 18 de Agosto de 2012

Rostos femininos - sexta-feira 13 - Montalegre


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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2012

O Homem Sem Memória - 71 [rep]


71 – Emboscada ao capitão escoteiro mirim do monóculo de plástico (continuação I).


Cena 5 (take 3). “Então quem se oferece para vir a ter o privilégio de ser o meu novo burro?”, perguntou, enfunado de brio, o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro. Ao que o Francisco respondeu: “O teu burro já vai lá longe e não me parece que volte.” E o capitão mirim: “Então, meu caro Francisco, não te ofereces como voluntário para o cargo que ainda permanece vago? Tu que sempre me foste fiel. Se bem me lembro, estavas permanentemente disponível para substituir o Joaquim como guarda-redes e agora…” E o Francisco: “Uma coisa é substituir, ou trocar de lugar com o guarda-redes, outra, bem distinta, é substituir um burro.” O capitão mirim: “São uma e a mesma coisa. É tudo em prol da sagrada união do nosso grupo. Tudo em defesa da exaltação do espírito de corpo. Tu tens o dom de substituir seja quem for. És pau para toda a colher.” O Francisco paciente: “Reconheço que tenho algum jeito para defender uma baliza, mas não tenho feitio nenhum para ser burro.” De novo o capitão mirim: “Ai isso é que tens.” O Francisco: “Se teimares no mesmo caminho vais ter nova deserção.” O capitão mirim cauteloso: “Pronto, não te amofines…” O Francisco aliviado: “Assim está bem. Mostras que és um chefe sensato. E é disso que nós precisamos.” Novamente o chefe mirim: “Quem se oferece para ser o meu burro, o lugar continua vago e à espera de ser preenchido?” Ao que o Francisco respondeu: “Acho que te deves habituar à ideia de seres um comandante sem montada. Essa teimosia pode fazer com que te vejas na triste situação de vires a ser um capitão sem tropas.” “Nomeio-te meu conselheiro vitalício”, propôs rápido o chefe mirim, “e não admito uma recusa”. Iriam ser golpes semelhantes que o elevariam, mais tarde, à categoria de secretário de Estado.


Cena 6 (take 3). Ainda empoleirados nas suas árvores, o Graça e o José continuam a observar o avanço das tropas inimigas. Diz o Graça para o José: “Continuam a falar. Nunca mais se decidem a avançar. Eu quando espero, desespero. Ferve-me o sangue e turvasse-me a vista.” Foi esta impaciência o que o levou a emigrar para Espanha e a transformar-se num mecânico de automóveis. Responde o José: “Deixa-os lá. Discutem as chefias, tentam defender as suas ideais, lutam pelos seus direitos, fazem valer os seus pontos de vista. Organizam-se democraticamente. Partilham as decisões. Reivindicam o direito de cidadania.” Foram palavras como estas que pregaram com os costados do José na cadeia e fizeram dele um dos mais notáveis presos políticos do Portugal do socialismo real. O Graça: “Ó José, por vezes não te compreendo. Não sei se brincas e entretanto falas sério. Ou se falas a brincar e eu te levo a sério. Ou se levas tudo tão a sério que parece que estás sempre a brincar, mesmo quando não brincas e não falas a sério.”


Cena 7 (take 10). E de novo as tropas do capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro se puseram a caminho. Os cães pisteiros à frente, o exército em fila indiana e o chefe, agora apeado, marchando sobre o seu lado direito. “Tenho sede”, disse um dos cães. “Eu também”, disse o outro cachorro. “Os cães não falam, mesmo quando têm sede”, lembrou o capitão mirim. “Nós também temos sede”, gritaram em uníssono os soldados escoteiros. “Assim nunca mais chegámos à guerra. Nunca mais enfrentamos o inimigo. Nunca mais conquistamos o seu território. Nunca mais nos enchemos de honra e glória”, avisou o chefe. E os soldados: “Mas nós temos muita sede e um exército cheio de sede não combate bem”, lembraram os escoteiros. “Tendes sede porque só falais. Os soldados não falam, não reivindicam, combatem…” “Mesmo quando têm sede?” “Sim, mesmo quando têm sede.” “Mesmo quando têm fome?” “Sim, mesmo quanto têm fome.” “Mesmo quando têm calor?” “Sim, mesmo quando têm calor.” “Mesmo quando têm dúvidas?” “Sim, mesmo quando têm dúvidas.” “Mesmo quando têm medo?” “Sim, mesmo quando têm medo. Mas os meus bravos escoteiros não têm medo. Ou têm?” “Nós temos é sede.” “Os meus bravos escoteiros não são cobardes, pois não?” “Nós temos é sede.” “Os meus bravos escoteiros não têm medo da luta, pois não? Os bravos guerreiros do meu pelotão não são cobardes, ora não?” “Eu não sei o que é ser cobarde?”, confessou o Felisberto. “Ser cobarde é ter medo de combater…” “Só?” “Sim. Ser cobarde é ter medo de combater.” “Só?” “Sim…” “Não. Para ser cobarde é necessário também fugir. Porque ter medo todos temos. Pelo menos isso é o que diz o meu pai. E ele ficou sem uma mão a combater os turras”, disse o Mário Maneta, assim apelidado, não por ser maneta mas por ser filho do João Maneta. “Pelo caminho que isto leva, nem a puta da discussão acaba, nem o combate começa. Em frente marche”, ordenou o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro. “Eu desisto se não beber um golo de água”, disse o Carlos Ranheta disfarçado de primeiro cão pisteiro. “Eu também desisto da guerra se não beber água”, disse o Manuel Merrinhau deitando-se num tufo de ervas meias secas. “Nós também desertamos se não bebermos água” disseram a uma voz todos os sedentos bravos do pelotão. “Mas aqui não há água”, avisou o chefe mirim já visivelmente desorientado. “Existe uma nascente além ao pé dos carvalhos”, esclareceu o Pinto Manco, assim conhecido por ter um pé boto. “Mas para irmos lá vamo-nos desviar muito do nosso trajeto. O território do nosso inimigo fica quase na direção oposta”, lembrou o capitão mirim. “Isso desvia-nos muito do nosso alvo. Temos de seguir em frente”, concluiu. De seguida ordenou: “Em frente marche!” “Em frente marche o caralho”, avisou o Carlos Ranheta camuflado de primeiro cão pisteiro. E todos se deitaram no chão ao lado do Manuel Merrinhau. “Eu proponho que se vote se devemos ir para a batalha mortinhos de sede, se devemos ir além à nascente dos carvalhos beber água ou se devemos ir para casa porque tenho muita fome”, propôs o primeiro cão pisteiro Carlos Ranheta, também conhecido pelo Esfomeado. “Nem é necessário recorrer a nenhuma votação, eu mesmo ordeno que recuemos até nossas casas para almoçar. Um soldado cheio de sede e de fome não consegue lutar”, ordenou o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro. Mais uma vez lembramos que foram tiradas como esta que o elevaram ao cargo de secretário de estado do Estado.


Cena 8 (take 3). Ainda mais empoleirados nas duas árvores, o Graça e o José observam intrigados o recuo das tropas inimigas. Diz o Graça para o José: “Não entendo nada desta guerra. É muito tática para o meu feitio. Primeiro avançam, depois param, logo discutem, depois deitam-se no chão e, finalmente, recuam. Assim não sei brincar.” O José, apontando para um vulto que se aproximava deles empunhando umas cuecas brancas na ponta de um pau, exclama: “Um mensageiro.” Após uma pausa, disse o Graça para o vulto: “Diz lá o que tens a dizer e rápido, antes que te esganemos.” O mensageiro aflito, pois sabia dos maus fígados do filho do sargento, balbucia: “Na guerra não se esganam os mensageiros.” “Mas isto não é uma guerra a sério. Quando se brinca tudo é permitido, até estrangular mensageiros que empunham cuecas brancas todas sujas. Ciscaste nas cuecas, cagão,” ironizou o Graça gargalhando. “As cuecas não são minhas, são do Manuel Merrinhau. O nosso chefe manda dizer que vamos para casa almoçar e que logo vimos. E que a vitória será nossa.” “Vai-te foder cagão, e diz lá ao teu chefe que cá o esperamos.”


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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2012

Rostos femininos - sexta-feira 13 - Montalegre


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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2012

O Poema Infinito: Uma oração sofridamente fodida… [rep]

 

Foda-se, está tudo incompleto. Está tudo incompleto. Foda-se. A vida está irremediavelmente incompleta. Dizem que a vida se completa na morte. Ora foda-se, a vida é o contrário da morte. E a morte é o contrário da vida. E o contrário do contrário é a origem da vida. Não há dicotomia mais absurda. Para além de tudo, Deus fez da morte a sua vingança. Deixemos a ergonomia de Deus em paz. Deixemos a insolvência da eternidade em paz. Deixemos a economia das almas em paz. Deixemos o desespero da paz em paz. Deixemos todas as desilusões em paz. Deixemos a santíssima trindade em paz. Deixemos a guerra em paz. Deixemos a guerra em paz. Deixemos a guerra em paz. Deixemos em paz a brutalidade inusual de um coito severo. Deixemos em paz a virtude de um orgasmo múltiplo e de uma ejaculação precoce. Deixemos em paz as raras ejaculações tardias e os orgasmos funcionais. Deixemos definitivamente em paz a fertilização em vítreo. Deus, dizem os profetas, quis a vontade dominada pela crença. Deus, dizem os teólogos encartados, quis os homens dominados e santos e responsáveis e obedientes e respeitadores e simples e inteligentemente obsessivos pelos gestos simbólicos da abdicação. Deus quer existir na dissidência humana da vacuidade. Deus é um momento eterno. Deus deixou de ser verdadeiro a partir do momento em que me fez mortal. Deus teve o descaramento de se travestir de serpente. Foda-se, Deus teve de se disfarçar de animal rastejante para nos condenar à condição humana. Deus não desiste da paz em favor da guerra nem da guerra a favor da paz. Deus não desiste da necessidade urgente de ser uma desilusão cada vez mais urgente e insurgente e insolvente e incipiente. Deus fodeu-nos definitivamente a vida eterna afirmando com língua de fogo que era isso que nos oferecia em troca de lhe sermos fiéis. E se há coisa que seja verdadeiramente humana é que os homens são féis a Deus. Muito mais fiéis que Deus o é em relação aos homens e à sua nua humanidade. O Deus de todas as coisas é cada vez mais um Deus de coisa nenhuma. 


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Terça-feira, 14 de Agosto de 2012

Rostos femininos - sexta-feira 13 - Montalegre


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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2012

Cinco histórias curtas ou mesmo muito curtas [rep]


Primeira - Higiene oral


Insisti com o Manuel para que fosse nadar para a piscina. Ele assim fez.Mas a meio do exercício sentiu-se cansado e resolveu ir ler um livro para o jardim. Depois foi comprar comida. Comeu e bebeu. Nem muito nem pouco. À noite foi correr.Correu 10 quilómetros e sentiu-se bem. Antes de se ir deitar lavou os dentes. Manuel tem uns dentes brancos e bem definidos. Quando sorri encanta as pessoas. Só lhe custa adormecer.

 

Segunda - Malmequeres


Fiquei contente por ver o Miguel a desfolhar um malmequer. Mal-me-quer, bem-me-quer, murmurava ele debicando pétala a pétala a flor pendurada há pouco na lapela do casaco, enquanto os olhos lhe brilhavam como duas estrelas numa noite muito escura. Penso que está apaixonado pela sua colega da turma B. Ela chama-se Maria João, que é um bonito nome, bem diferente das Vanessas, das Soraias, ou Sabrinas, ou outros que por aí aparecem e nos vão transfigurando em varões solitários com dificuldade em pronunciar nomes esquisitos e infecundos. Pelo meio das pétalas, o Miguel lê poemas de amor e ouve música romântica. Depois sorri novamente e vai à procura de um novo malmequer para desfolhar. Anda azougado o Miguel. Por vezes até entoa música dos velhos Beatles. Anda tonto o rapaz, com aquele brilhozinho nos olhos e os malmequeres no bolso do casaco. Até se penteia à moda antiga, com risca ao lado e brilhantina no cabelo castanho. Anda risonho e azougado o marialva. Fico contente por ele. Fico satisfeito como ele.

 

Terceira - Mudar de passeio


O José não gosta nada de mudar de passeio. Diz que tem medo de atravessar a rua. Que lhe desestabiliza o sistema nervoso e lhe mexe com a libido. Ele tem a libido um pouco estragada. Coisas da juventude. O José foi à guerra e quem vai à guerra dá e leva. E ele levou mais do que deu. Por vezes fica com os olhos turvos e começa a chorar. Nesses dias não sai de casa. Nem do quarto. Nem da cama. Desenha fios de metal e aranhas muito coloridas. Pode passar assim dias e dias alimentando-se apenas de iogurtes naturais e fruta cristalizada. Também lê revistas científicas, mas lê os artigos do fim para o princípio. Depois traduz alguns para o árabe e no fim rasga-os. Sabe tocar piano, andar de bicicleta e assobiar com os dedos. Toca piano só a partir das cinco da manhã e apenas até ao amanhecer. Nunca o faz fora deste intervalo de tempo. Tira muitas fotografias às suas mãos e depois amplia-as muitíssimo para observar os poros e os pelos da epiderme. Nos dias de chuva mia muito. Nos dias de sol muge como os bois do barroso. Na sua quinta da aldeia tem uma zebra manca que comprou a um circo. Escova-a todas as semanas e passeia-a pela aldeia. Também toca muito bem cítara. Mas os amigos não gostam deste tipo de música. Coisa que o irrita muitíssimo e o faz estalar os dedos. Costuma sair nas noites de geada e passear um galo de briga cego que comprou a um mexicano de férias em Espanha. Costuma dar-lhe pipocas picantes e levá-lo ao Miradouro de S. Lourenço para lhe mostrar a cidade de C. Nesses dias o galo canta que se farta e ele acompanha-o à guitarra. O José é muito habilidoso com as mãos. Aprendeu a fazer croché e confeciona lindos carapuços para árabes e judeus. Escreve-me cartas enormes com letras desenhadas a rigor e isto vivendo nós apenas a cem metros um do outro. E envia-mas sempre em correio azul. São cartas que falam do seu amor pelos passeios, pelos candeeiros, pelos bancos de granito, pela poesia chinesa antiga, pelas flores da urze e da carqueja, pelo musgo dos muros e pelos reflexos do céu nas águas do T. Ontem compôs uma música muito bonita para o seu galo cego.Hoje tocou-a para mim. Eu até chorei. Depois fomos os dois, sempre pelo mesmo passeio, até ao rio, descalçámo-nos e molhámos os pés nas suas águas tranquilas. Então ele tirou um grilo do bolso e pediu-lhe que cantasse uma ária de Mozart. O grilo não se fez rogado e deslumbrou todos os presentes. O mundo é, por vezes, um lugar estranho, mas encantador.

 

Quarta - Má disposição


Hoje encontrei o Luís, um rapaz da minha idade que já não via há muitos anos.Está praticamente igual. Parece que o tempo não passou por ele. Claro que está um pouco mais gordo, mais enrugado e mais calvo, mas, fora isso, parece praticamente igual ao que foi. O Luís era muito castiço. Tinha muita piada. Sabia tocar um pente com um papel imitando uma trompete, cantava como o Joe Cocker, imitava a bateria dos Deep Purple com a boca, travava os seus carrinhos de brincar no tempo certo e com um chiar muito caraterístico. Fora isso, queria ir para polícia. Só que emigrou para Espanha. E… já não me apetece escrever mais nada sobre o Luís, nem sobre nada. Estou irritado, apetece-me espatifar o computador e quebrar um disco de fado. Estou muito irritado e mal disposto. Até me doem os dentes. Também me apetece dizer asneiras. Apetece-me dar um pontapé num gato. Ou num cão. Estou muito arreliado. Até me doem os joelhos e os pés. E este tempo ainda me põe mais assanhado. Chove e brilha o sol. Onde já se viu tal estupidez. O barulho dos carros enfurece-me. Tenho uma borbulha no nariz. Estou numa pilha de nervos. Tenho de ir cortar as unhas.

 

Quinta - Será o tempo infinito?

 

Já lá vai o dia. Hoje passeei pela cidade na companhia de um velho amigo.Descemos e subimos ruas, parámos para admirar edifícios antigos e rememorámos velhos tempos que nos estão impressos na memória como se fossem marcados a ferro em brasa. Só por si, passear com um amigo é um prazer. Faz-nos sentir um pouco mais novos, mais solidários, lembra-nos um passado feliz e vivido intensamente.Não importa que parte dessas memórias seja produto da nossa imaginação.O que interessa são as reminiscências doces dos momentos que agora nos parecem felizes e perfeitos. Dizem que a memória é seletiva e é bom que assim seja. O meu amigo também é seletivo. Sabe selecionar bem os vinhos que bebe, sabe selecionar os melões mais doces e maduros, sabe selecionar os pratos mais apetitosos quando vai a um restaurante, sabe selecionar a melhor música e os melhores livros. Sabe selecionar, ainda, os seus amigos. Quando era jovem, este meu amigo era muito rebelde e as garotas derretiam-se por ele. A mim pouco ligavam. Fui sempre um rapaz apagado, sorumbático, pouco falador e insuficientemente imaginativo. Hoje já falo um pouco mais, mas permaneço um homem apagado. O meu amigo continua alegre e sorridente, atrativo para as mulheres e bom garfo. Quando vem a C. gosta de passear pelas ruas antigas na companhia dos amigos. Ainda se lembra dos tintins que líamos a meias nos bancos do jardim do Tabolado. Também se recorda dos poemas do Fernando Pessoa que líamos e decorávamos para recitar às raparigas namoradeiras. Nós apreciávamos muito o poeta, as garotas é que não lhe achavam lá grande piada. Mas também para que serve uma rapariga que aprecia Fernando Pessoa na juventude? Cada coisa a seu tempo. É que a idade esclarece muita coisa e confere alguma circunspeção. Mas também arruína muita realidade, apaga muita beleza, esclarece muitos equívocos e destrói intensas ilusões. Fora isso tem a propriedade de tornar tudo finito.


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Domingo, 12 de Agosto de 2012

Amigos Transmontanos


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Sábado, 11 de Agosto de 2012

Amigos Transmontanos


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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2012

O Homem Sem Memória - 70 [rep]


70 – Emboscada ao capitão escoteiro mirim do monóculo de plástico. Cena 1(take 3). O capitão escoteiro de chapéu colonial e monóculo, batendo ritmadamente o pinguelim de varinha de salgueiro, segue ao lado do seu batalhão que se desloca em fila indiana. Um, dois, três… um, dois, três… Todos suam, especialmente o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro. A linha de pequenos soldados serpenteia pelo meio do matagal. Alguns queixam-se por causa das espetadelas nos tojos. Outros gemem devido às urtigas e à picadela das moscas, que são bravas. O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro, ordena que se faça silêncio. Estão a entrar em território inimigo e todo o silêncio é pouco. E adverte: “Quem se queixar por causa de merdices é expulso do pelotão.” Todos se calam, menos o burro mirim que, ordenado a pôr-se de cócoras para ser montado pelo seu chefe, esclarece que está farto de ser o burro do capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro. E sugere que se proceda como nos jogos de futebol relativamente ao guarda-redes: “Está na hora de outro tomar o meu lugar. Estou farto de ser burro.” O chefe, vendo que começa a ser perigosamente contestado nas suas ordens, ordena que se pare para descansar e convoca uma assembleia.


Cena 2 (take 1). Empoleirados em duas árvores, o Graça e o José observam o avanço das tropas inimigas.


Cena 3 (take 2). Sentados à chinês, os mirins conferenciam, debaixo do olhar atento do capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro. O putativo burro, os putativos cães pisteiros e o restante pessoal começam todos a falar ao mesmo tempo. O chefe ordena que se calem. O putativo burro diz: “Estou farto de ser o burro do pelotão. Outro que tome o meu lugar.” Em troca houve um elogio unânime: “Mas tu és o melhor burro que temos. É muito difícil substituir-te.” O putativo burro, olhando na direção do chefe, inquire: “Tu disseste que, depois de um bom desempenho, haveria lugar a promoções. Como sei que cumpri bem o meu dever, considero que devo ser promovido.” O chefe: “Burro como tu não há nenhum no pelotão. Mesmo no bairro inteiro é difícil encontrar outro que se te compare. Por isso te escolhi propositadamente para seres a garbosa cavalgadura do capitão. Tenho por ti um carinho especial. Mas, em verdade te digo, um burro não pode ser promovido. É burro e pronto. Podemos é arranjar uma solução em que tenhas direito a mais descanso e a ração melhorada. Mas de burro não podes passar, senão ninguém se entende. No exército todos são igualmente importantes. Somos todos companheiros. Somos todos irmãos…” “Se somos todos irmãos, somos todos burros”, disse o putativo burro mirim, originando grande algazarra no pelotão. “Não interpretes mal as minhas palavras”, avisou o chefe mirim. “Disse que éramos todos irmãos… na solidariedade. O burro que transporta o chefe é tão importante como os cães pisteiros, ou os soldados. Mas uma vez burro, burro para sempre. Todos temos uma tarefa a cumprir.” “Ao menos troca um dos cães pelo meu lugar de burro”, disse o burro. Então o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro, levantou-se e, ajustando o monóculo, proferiu: “Achas que devo colocar no teu lugar o Carlos ou o Diogo, que não podem com um gato pelo rabo? Nem os dois juntos possuem a tua força. Este nosso vigor em combater está estruturado de forma científica. Cada um ocupa o lugar que ocupa por direito próprio.” O putativo burro, lamentando-se: “Queres dizer que eu vou ser sempre o burro do pelotão?” “Sim, é isso. Basicamente é isso.” “Então vou-me embora.” “Mas um soldado não pode desertar no momento em que se acerca a batalha.” “Mas eu sou o burro do capitão e não um soldado. Além disso estamos a brincar. Se não me promoves, pelo menos a cão, vou-me embora.” O capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro, pôs-se a andar de um lado para o outro. Algum tempo passou e a expectativa cresceu. Por fim, disse o chefe: “Promovo-te…” E o putativo burro, interrompendo-o: “Assim está bem….” O chefe, chateado, por causa da interrupção: “… a cavalo.” O putativo burro: “Isso não é promoção nenhuma.” “Ai é, é. Um cavalo é muito superior a um burro, mesmo no exército”, esclareceu o chefe mirim. O putativo burro: “Tenho de alombar à mesma contigo. Isso não é nenhuma promoção.” E o chefe, magnânime, pois sabia que perder um excelente burro é uma complicação, mas perder a autoridade perante os seus homens é o caminho para a derrota da cadeia de comando, que conduz, inevitavelmente, ao desastre e ao caos, pensou, e bem, que a verdadeira autoridade não se proclama exerce-se. Por isso afirmou categórico: “Ou aceitas a promoção a cavalo, ou nada mais posso fazer por ti.” O putativo burro: “Então vou-me embora.” O chefe, autoritário: “Vai e não voltes. A partir deste momento passas a ser considerado um inimigo dos escoteiros mirins do Bairro. Passarás a ser um proscrito. Um burro sem préstimo, bom para os trabalhos do campo.” “Burro és tu”, disse em tom de desafio o ex-burro mirim. “Olha como falas para um teu superior”, advertiu o capitão escoteiro de chapéu colonial, monóculo e pinguelim de varinha de salgueiro. “Tu para mim não passas de um merdas. Razão têm o José e o Graça, és um presumido que não pode com duas bofetadas na cara. Só gostas de te armar. És um cobarde. Desafio-te para uma luta aqui mesmo. Mostra que és homem.” E foi-se caras a ele. Todo o pelotão se meteu a meio. Vendo que não podia com todos ao mesmo tempo, o ex-burro mirim deu meia volta e tomou o caminho de casa. E avisou: “Lá chegará a vez, do burro te foder as trombas, meu ventas de larego.” 


Cena 4 (take 1). Empoleirados, cada um em sua árvore, o Graça e o José continuam a observar o avanço das tropas inimigas. Diz o Graça intrigado: “Olha, o António vai-se embora!” Ao que o José responde: “Isso é muito bom, pois sem o calmeirão a vitória é quase certa.”

 


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Quinta-feira, 9 de Agosto de 2012

Amigos Transmontanos


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Quarta-feira, 8 de Agosto de 2012

O Poema Infinito: O ofício subtil da firmeza [rep]


Viver é um ofício de subtil firmeza. Este ano vingativo está repleto de signos astrais que indiciam a feliz fragilidade das manhãs que sustentam os dias vagos. Invento para ti a forma perfeita do sentido. Empreendo o ritmo azul da paciência. Apuro o ouvido para uma audição atenta da verdade incorruptível. Estou exposto à infidelidade invisível da nudez. Permanece incandescente a mutação ténue da eternidade onde a memória da tristeza tende para o infinito. Sou subjugado pela penitência da viagem, eu o escrivão surdo da melancolia. Organizo agora as imagens inclinadas pelo medo. Quero devolver a Deus o esplendor do espanto inicial. Por isso ajusto a minha escrita à incandescência interior do Diabo. Entre eles se joga a eternidade das palavras. O bem e o mal expandem-se sacramentados pela liturgia dos discursos rigorosos dos sábios. Quem de entre vós preenche o buraco negro do sentido da vida? Quem de entre vós explica a súbita iluminação dos poemas do espanto? Quem de entre vós ousa dizer toda a verdade sem sofismas? Quem de entre vós tem a coragem de incrementar a inteligência milagrosa do deslumbramento? Definitivamente, o mundo entra na sua luz de assombro. Definitivamente, o milagre da eucaristia deixa de ser prodigioso. Os homens sofrem porque se sustentam de frivolidades. Os homens sofrem quando pensam que se divertem com o esplendor profano do sagrado. Os homens narram o inenarrável como se fossem os deuses gregos da ausência e da vacuidade… Eu sou novamente a ínfima parte do ínfimo gesto da beleza crepuscular da simplicidade de um sorriso glorificado pela luz da doce velhice da minha avó iluminada pelo enigma claro da terra antiga expurgada pela névoa paciente da fecundação onde o espírito da paz incendeia a face oculta dos reinos unificados pelo fulgor apressado dos pastores de almas e pelos irredutíveis demónios da impaciência por isso a fé nos afecta quando a verdade se activa na nossa mente… Agora eu sei: há definitivamente uma cicatriz antiga em tudo o que escrevo. Por isso sofro quando me exalto pensando no ritmo da morte.


publicado por João Madureira às 07:00
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Terça-feira, 7 de Agosto de 2012

Amigos Transmontanos


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Segunda-feira, 6 de Agosto de 2012

Trilogia Manuelina e… [rep]


1 - Pensar ou não pensar, eis a questão…


O meu amigo Manuel revelou-me que anda triste porque agora já não consegue encontrar indivíduos. Confesso-vos que não percebi bem o queixume. Eu sou mais terra a terra. Ele é que gosta de pensar sobre o que os outros pensam ou não pensam, sobre o que significam determinadas palavras fora do contexto ou dentro dele, de refletir sobre a arbitrariedade das ideologias totalitárias ou sobre a indiferenciação ideológica e política que atravessamos. Fora isso, é até bom rapaz, um eficaz chefe de família, um atinado adepto do FCP e um rigoroso praticante de desporto, nomeadamente das corridas de karting. Na segunda-feira passada abandonou na mesa do café os seus amigos mais chegados. E isto porque, segundo o próprio, sendo todos de orientação política, futebolística e religiosa diferente, agora estão sempre de acordo. Parecem parvos, diz ele para quem o quer ouvir. Atualmente dizem e defendem todos o mesmo. E repete muitas vezes a frase: “Cada vez existem mais pessoas com as mesmas ideias.” E isso é assustador. Eu também acho que é. Mas penso que não é motivo suficiente para abandonar a mesa das suas amizades. Mesa que frequentou e animou durante 20 longos anos. Foi ali que debateu a questão da semiótica do marxismo, a tática e estratégia da guerra do Iraque na perspetiva de um chinês xintoísta, a liberdade aparente dos ricos, a penúria simbólica dos deputados europeus, a ontologia das operações matemáticas, a liberdade sexual em contexto cibernético, o direito internacional dos cães de caça, a influência da cor dos olhos na reprodução assistida, a importância da linguagem no crescimento dos antúrios e por aí fora, passando pela requalificação da Galinheira, o simbolismo da curva do Caneiro, a inteligência sofisticada dos embriões dos caracóis e o egocentrismo das estrelas-do-mar. A mãe do Manuel disse-me que o filho falou na sua barriga, quando andava grávida de sete meses. Por isso ele é tão predestinado e…

 

2 - Assim a modos que…


Não sei se me estais a perceber? Eu estava assim a modos que… mas, não sei porquê, às tantas, pumba, o gajo pirou-se e eu ali fiquei assim a olhar para ele e ele a olhar para longe e tal e coisa. Vai daí apareceu o Manuel e também começou a querer qualquer coisa e tal. Mas eu nada de me deixar ir na onda marada. Só sei que depois voltou o gajo e de novo se pirou e eu tornei a ficar ali e de novo a olhar para ele e ele a olhar para longe… e tal. O Manuel, entretanto, assobiava. Eu já estava a ficar chateado. Assim a modos que fodido. Mas mesmo muito. Não sei se me estais a perceber. Era uma cena muito marada. E eu para ali a cismar com os neurónios encalacrados de tanto pensar na coisa. Mas não desisti. Eu, como vós sabeis, não sou dos que desistem e muito menos quando sei aquilo que quero e tenho a certeza daquilo que penso. Não sei por que razão, mas o Manuel em vez de torcer por mim, continuava a assobiar como se não fosse nada com ele. E até era. Quando um amigo está em apuros o outro, se é mesmo amigo, também está. Era este o caso. E o gajo que tanto se pirava como regressava, voltou outra vez e, pumba, deu-se a mesma cena e coisa e tal. Não sei se me estais a perceber? Eu não podia permitir tal atuação. Era muito chato andar para ali à porrada, mas, bem vistas as coisas, que outra coisa podia eu fazer? Vai daí mandei o Manuel à merda e dirigi-me ao outro lado. No outro lado estava o Chico Pernalta, mas também ele fez que não me conhecia e pôs-se a assobiar como quem não quer a coisa… e tal. Vendo que o gajo tornava a ir-se embora, eu tornei o olhar para ele e ele novamente olhou para longe, como se não se tivesse já apercebido do imbróglio em que estava metido. Mas eu, por uma questão de honestidade, não podia proceder de outra forma e zás, tornei a atravessar a rua como quem não quer a coisa. Aquilo até já se estava a tornar monótono. Foi então quando o Manuel me perguntou se lhe podia emprestar algum dinheiro. E eu, porra, como estava um pouco chateado com ele disse-lhe para ir à merda. Mas ele não se chateou e continuou a assobiar e até me contou que na noite passada também esteve metido assim numa cena tal e qual como esta que vos conto. Eu não acreditei, claro! Mas, como vos conto, eu não sou sujeito para desistir. Eu prezo muito a honra e a dignidade. Ora, sendo assim, não podia agir de outro modo e foi aquilo que fiz. Agi como vos relato. Tal e qual. Eu não invento nada. Tudo o que vos conto é a mais pura verdade. Por isso, zás. E estava feito. O Manuel perguntou-me se não estava arrependido daquilo que tinha feito. E eu respondi-lhe que não. Penso que vós, na mesma situação, agiríeis da mesma forma. Ou não? Claro que sim! Eu conheço-vos bem. Não sei se me estais, bem, não sei se me estais, coisa e tal… Não sei se me estais a perceber? Eu estava assim a modos que… mas, não sei porquê, às tantas, pumba, o gajo pirou-se e eu ali fiquei assim a olhar para ele e ele a olhar para longe e tal e coisa. E zás, vai daí eu olho para ele e ele olha para longe e…

 

3 - Coisas verdadeiramente importantes…


Manuel, Manuel, Manuel, já te disse para não pensares tanto. Isso faz-te mal. Desinquieta-te o espírito, afasta as pessoas, põe os cães a ladrar para ti no meio da rua. Pensar não convém. O melhor é entreteres-te com a telenovela das oito ou com o futebol, com a nossa seleção, que é tão boa, tão digna, tão ganhadora. Fosse assim o país e outro galo cantaria. Os rapazes enchem-se de dinheiro porque são mestres no chuto da bola. E aquilo é difícil à brava. Muito estudo, muito sacrifício, muitos exames, muito rigor científico, muito método, muita perseverança, muito conhecimento, muito estudar e estudar e estudar, sempre, sempre, sempre em busca da melhor média. E muito cálculo matemático, muita física, muita química e também filosofia, português, história, ciências, muita mistura para aqui e para ali, muitas táticas, muito sangue suor e lágrimas. E depois são tão generosos que aplicam o seu dinheirinho na indústria nacional: bares e restaurantes, restaurantes e cafés, cafés e pizzarias, pizzarias e bares e discotecas e casas de moda. Tudo muito nacional, muito português, muito lusitano. E depois a cerveja que se bebe quando o Cristiano Ronaldo marca um golo e o Hugo Almeida quase marca outro e o Hélder Postiga também, e o Pepe, exemplo máximo da nossa alma lusitana, e o Quaresma e o Miguel Veloso, bem, o Miguel Veloso, bem, o Miguel Veloso tem aquele corte de cabelo que faz dele um autêntico campeão. E, mesmo em jogo, nunca deixa de se preocupar com a sua bela figura. Manuel, Manuel, Manuel, vamos ganhar o próximo Mundial e tu só pensas em pensar, em discutir coisas que não interessam nem ao menino Jesus. Manuel, Manuel, Manuel, pega na bandeira e vai para a rua gritar o teu enorme orgulho em seres português. Em teres nascido neste país que é o orgulho da Europa. Um país que deu novos mundos ao mundo e países tão ricos e desenvolvidos como o Brasil, Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, e, por último, aquele país que é um exemplo mundial da generosa e iluminada alma lusitana: Timor-Leste. Manuel, não chores que isso não resolve nada. Toma o antidepressivo que isso passa e…


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Domingo, 5 de Agosto de 2012

Montalegre - sexta-feira treze


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Sábado, 4 de Agosto de 2012

Montalegre - sexta-feira treze


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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2012

O Homem Sem Memória - 69 [rep]


69 – Aquele foi o Verão do seu contentamento. Acordava cedo e lia, quando podia, ou então, quando se deitava tarde, dormia mais um pouco para arranjar forças para brincar. Havia mesmo manhãs em que se levantava com as galinhas e ia para o seu forte, que era o terraço que servia de telhado à casa de banho, esperar pelo nascer do sol. Ali, com o seu chapéu à Daniel Boone, chorava de emoção quando via os primeiros raios de sol expandirem-se por cima do cume das montanhas. Este exercício de vigilância territorial era repetido ao pôr-do-sol, quando o José endireitava o seu chapéu de pele de raposa e entoava com a boca, transformada em cornetim, o hino do recolher dos seus féis exércitos imaginários.


O estranho chapéu à Daniel Boone resultou de uma investida solitária ao monte em busca de inimigos, que tanto podiam ser índios, como cowboys renegados, ou rebeldes sulistas. Numa dessas incursões deparou-se com uma raposa ferida de morte. Assinalou o local e deixou o animal entregue à sua sorte. Podia ter sido ele a dar-lhe o golpe de misericórdia, mas deixou que fosse o tempo a finalizar a tarefa. O José não conseguia matar nem uma mosca, quanto mais um animal belo e agonizante como aquele.


Passou lá no outro dia e encontrou, como esperava, o corpo inerte e frio do animal. Trouxe-o para casa e pediu a um amigo peleiro que o esfolasse e curtisse a pele. Depois levou-a a um alfaiate para dela fazer um boné com base numa fotografia do Daniel Boone publicada numa revista.


Passou a ser o herói do bairro. O ídolo das raparigas, que namoriscava sem se comprometer com nenhuma. Muitos dos seus amigos achavam-lhe graça e, de certa forma, admiravam a sua propensão para a fantasia. Via-se que não era como os outros. Vivia num mundo muito próprio. Alimentava-se de mitos, sonhos e conquistas.


Arranjou um amigo tão estouvado e tão solitário como ele que tinha um nome feminino. Todas as tardes partiam à desfilada, nos seus cavalos loucos, para o meio dos montes onde construíram cabanas de pinheiros e giestas, onde assavam as galinhas e os láparos caçados nas capoeiras e nas coelheiras dos seus familiares, onde bebiam os licores de laranja e anis preparados à base de concentrado adquirido nas farmácias, ao qual misturavam aguardente bagaceira e uma boa dose de açúcar. Fumavam cigarros feitos de barbas de milho seco ou, quando encontravam uma tribo de índios amiga, fumavam fortes cachimbadas de ervas aromáticas, até ficarem atordoados, à volta da fogueira e bebiam a meias, de garrafas especiais, os licores balsâmicos e açucarados.


Pescavam nos rios bogas, escalos, panjorcas, percas-sol, pimpões, trutas mariscas e enguias que abriam e secavam ao sol, ou davam aos gatos, ou se atreviam a assá-las num bom braseiro, ou então vendiam o peixe a algumas famílias com posses, e o que ainda sobrava entregavam-no ao asilo dos velhinhos, com a nítida intenção de alimentar os mais necessitados, mas o peixe do rio ia sempre parar ao prato do senhor abade, e de uma ou outra freira mais próxima da influência eucarística do guia espiritual, numa boa sertã recheada de suculentas postas fritas com cebola, tomate e pimento, que acompanhava com batata cozida, broa centeia e vinho branco de uma colheita privada de Arcossó.


O Graça – assim se chamava o seu amigo – vivia com a avó, pois a sua mãe tinha morrido vomitando os bofes devido a uma intoxicação de gás provocada por uma fuga de um esquentador instalado dentro da casa de banho. O seu pai, um sargento do exército português condecorado pela sua coragem em combate em comissões de serviço nas províncias ultramarinas (e colecionador de orelhas e dedos de turras), vivia agora um segundo casamento onde não cabia o seu primogénito. Houve ainda uma tentativa que correu muito mal, pois um dia o Graça insultou a sua madrasta dizendo-lhe obscenidades e mostrando-lhe o pénis de forma ostensiva. Esta era a sua forma de marcar terreno em relação às fêmeas. Quando o irritavam, ou o provocavam, ou olhavam muito para ele, de imediato baixava as calças e as cuecas e ostentava o falo como se fosse um troféu de caça.


Nesse mesmo dia, quando o pai chegou a casa, tratou de o amansar com um chicote (ó ironia das ironias) feito de pénis de boi que o deixou às portas da morte. Dali foi para o hospital em estado de coma. Quando recuperou, passados alguns dias, foi entregue aos cuidados da sua avó materna, que lhe dedicava um carinho especial e que era recíproco.


Um dia, o José e o Graça, resolveram envolver-se numa luta feroz contra um bando de escoteiros mirins comandados por um meia leca de calções e chapéu colonial emprestado pelo seu pai, que era soldado da GNR. Ambos e dois lhe tinham uma raiva muito particular. Sobretudo porque tinha a mania que era bom, que se sabia impor e arregimentar soldados para o seu pelotão. Verdade é que os tratava com uma varinha de salgueiro e os vigiava com monóculo de plástico de fabrico próprio, numa tentativa de imitar o seu herói preferido, o General Spínola. O zelo era tanto, que, por vezes, à falta de animal para cavalgar, montava no lombo de um dos seus apaniguados, que tinha uma queda especial para fazer de burro. Como também não tinha cães, socorria-se de outros dois rapazes que eram especialmente dotados para rosnar, ladrar, seguir pistas, mijar junto dos troncos das árvores alçando a perna, e morder a barriga das pernas do inimigo.


O pai deste garboso capitão mirim era conhecido por, usando o seu carisma e prestígio de GNR zeloso e autuador, pois passava multas por tudo e por nada, conseguir alimentar a família à custa do povo temerário que ele patrulhava na companhia de outro imbecil do mesmo calibre. Sempre que as batatas, as cebolas, as couves, os grelos, as galinhas, os coelhos, um que outro cabrito ou cordeiro para os dias festivos, um que outro leitão para cevar lá em casa, atingiam o ponto crítico na despensa ou na corte, e o fumeiro desaparecia na arca do centeio, o mirim sénior fazia-se encontrado com determinado agricultor e encomendava-lhe aquilo que lhe faltava a troco de um próximo pagamento. Quando recebesse o vencimento prometia pagar, até com juros. Lá prometer prometia, mas nunca cumpria. Os pobres homens tinham-lhe medo e metiam-se em copas. Algum, menos avisado, a princípio ainda teve a ousadia de ir pedir-lhe o que lhe era devido. Ele prometeu-lhe, mais uma vez, ir pagar-lhe no dia seguinte. E cumpriu com o prometido. Mas, imediatamente a ter feito o pagamento, inspecionou tudo o que tinha a inspecionar, desde a licença e as vacinas dos cães, o tamanho da ponta metálica da aguilhada, as chedas dos carros de bois, a licença e porte de armas da caçadeira, as vacinas dos bovinos, a permissão de abate dos cabritos e dos porcos, a autorização para os galináceos que andavam pelas eiras e pelos caminhos a invadir propriedade privada, a autorização para a venda dos restantes animais, das batatas e dos feijões, a licença das navalhas e dos isqueiros espanhóis, enfim tudo o que podia ser escrutinado foi-o duplamente e o dinheiro que tinha recebido nem sequer deu para um décimo da multa que se viu obrigado a pagar ao Estado. Foi lição definitiva. Todos vendiam ao GNR a troco de um sorriso e de uma promessa de pagamento que era de imediato esquecida. 


publicado por João Madureira às 07:00
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Quinta-feira, 2 de Agosto de 2012

Montalegre - sexta-feira treze


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