Domingo, 30 de Setembro de 2012

Porco de fogo


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Sábado, 29 de Setembro de 2012

Mula arreliada com o paparazi


publicado por João Madureira às 07:00
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Sexta-feira, 28 de Setembro de 2012

O Homem Sem Memória - 127

 

127 – Em abono da verdade, temos de dizer que a noite foi longa.


Logo após a petiscada, o digestivo, a cigarrada e a cantoria da Internacional, o Graça, provavelmente mordido pela consciência, virou-se na direção do Mário “Camões” e sussurrou-lhe ao ouvido: “Aqui, que ninguém nos ouve, vamos dar sequência à lei de Talião: olho por olho, dente por dente.” “E como?”, perguntou o Mário “Camões” com o seu olho bom a resplandecer de alegria e o outro a querer ganhar vida. “Esse tal de Talião era um homem com eles no sítio. Do tal Talião ninguém se ficava a rir.” “Olha, Mário, a lei de Talião não é um homem é apenas um princípio que se encontra no Código de Hamurabi…” “Talião ou Hamurabi, a mim tanto se me dá. O que interessa é a sua mensagem revolucionária.” “Ouve-me primeiro: As primeiras indicações do princípio de Talião foram descobertas no Código de Hamurabi, em 1780 a.C., no reino da Babilónia. Esse pressuposto permite que as pessoas façam justiça pelas suas próprias mãos e de forma igual, no respeitante ao tratamento de crimes e delitos, é o princípio «olho por olho, dente por dente»…” “Pois isso mesmo…” “Não sejas impaciente, deixa-me continuar. Esse princípio transmite a ideia de reciprocidade e paralelismo entre o mal causado a alguém e o castigo imposto a quem o causou: tal crime, tal pena.” “Boa. É isso mesmo. Vamos ali ao Bar Aurora arrear na reação e tirar, pelo menos, um olho a alguém…” “Ou um dente”, disse a rir o Graça. “Não, um dente não”, alvitrou desgostoso o Mário “Camões”. “Um olho. Apenas um olho. Um olhinho apenas.” “Tu podes não ser comunista, mas lá que és determinado, isso ninguém o pode negar”, concluiu o Graça. E continuou: “O que podemos fazer é enfiar umas meias de vidro na cabeça e…” “…E assaltar um banco, ou o Bar Aurora e arrancar um olho a algum burguês, ou ainda uma ourivesaria e recolher fundos para comprar armas para fazer a revolução. A verdadeira revolução. Não essa merda de revolução dos revisas que consiste em colar cartazes, redigir comunicados, pintar paredes, mandar uns bitaites nas reuniões das associações, nos sindicatos ou nas reuniões do partido… Já agora o que é que quer dizer «revisas»?”, perguntou entusiasmado o Mário “Camões”. “Olha lá, tu queres aprender tudo numa só noite? Ouve-me com atenção. Podemos enfiar umas meias de vidro na cabeça e ir arrancar os cartazes dos reacionários…” “Eu estou entusiasmado é com o Talião, ou Hamurabi ou lá que merda é…” “Olha lá, eles arrancaram os olhos ou os dentes a alguém? Arrancaram?” “Não mas…” “Aqui não há mas nem meio mas. Tu queres ir para a prisão? Sabes, por acaso, de algum comunista que tenha arrancado os olhos a alguém? Sabes?” “Não, mas sei que o Partido defende que é preciso partir os dentes à reação. O próprio Otelo disse que talvez não fosse má ideia meter os reacionários no Campo Pequeno. E não estou a ver que ele estivesse a sugerir que era para assistirem a uma tourada à antiga portuguesa. Inclino-me a pensar que imaginava o mesmo que eu: que é necessário eliminar os reacionários à lei da bala. Ou revolução ou reação…” “Eles arrancaram-nos os cartazes, nós podemos ripostar arrancando-lhes os deles. E assim estamos a cumprir com a Lei de Talião…” “…Mas não com as da revolução”, respondeu o Mário Camões com o olho bom a deitar chispas. Ao que o Graça ripostou: “A mais não vou. E com isso já estou a infringir os Estatutos da Partido, nomeadamente o artigo 33º e o 34º, arriscando uma sanção disciplinar…” “Talvez a alínea b) do artigo 37º e por isso baixares de escalão”, disse como quem não quer a coisa o José. No que foi amoestado pelo Graça: “Não te metas onde não és chamado.”


Alguns bêbados mais tardios encontraram a célula comunista de agitporp de Névoa sentada nos bancos do jardim a fumar uma cigarrada em silêncio. Depois de fumarem a primeira cigarrada fumaram uma segunda e uma terceira. Sempre em silêncio. Logo após, o Graça resolveu levar a sua proposta a votação, mesmo contrariando as diretrizes do Partido, onde nada se votava sem primeiro se consensualizar, que o mesmo é dizer que tudo se decidia sempre antes de votar. A sua proposta ganhou, não por unanimidade unânime, como era tradição, mas sim por unanimidade irregular com um voto contra, o do Mário “Camões”, e uma abstenção, a do Carlos Chouriço.


Enfiaram então as meias na cabeça e, quais heróis revolucionários cinematográficos, foram-se aos cartazes dos partidos reacionários e rasgaram-nos com toda a fúria subversiva de que eram capazes. Rasgaram os que estavam mais à mão de semear, mas também os que se encontravam colados nas paredes altas e derrubaram inclusive os que permaneciam colados em placas de contraplacado e pendurados nos postes. Para não deixarem rasto algum, nem a mínima suspeita, retalharam também os do seu Partido, e que tanto trabalho lhes tinham dado a colocar, assim certinhos e direitinhos. Entretanto foram deixando pintado nas paredes o símbolo dos anarquistas, um “A” inscrito num círculo.


Para rematarem a anarquia, galgaram os muros do Liceu e foram pichar as paredes da antiga parte feminina com uma frase naif que dizia assim: “A virgindade provoca o cancro, vacina-te.”


Depois de ler o escrito com o seu olho vivo, o Mário “Camões” perguntou ao Graça: “O que é isso da virgindade?” Ao que o José, por puro exercício intelectual, tentou responder: “A virgindade tem tudo a ver com a Virgem.” “Qual?”, questionou o mesmo Mário. “Pois, com a Virgem Maria, que concebeu sem pecado”, respondeu evangelicamente o José. “Deixa-te de merdas filosóficas e vai direto ao assunto”, foi direto às dúvidas sobre o assunto o camarada Mário.


“Deixa-me rematar o escrito que logo to explico”, respondeu o Graça com a disponibilidade subversiva que conseguiu arranjar.


Da conversa filosófica que se originou a seguir pretendemos dar-vos conta no capítulo subsequente. Isto se formos capazes. Do que duvidamos, mas vamos tentar. Para isso é que aqui estamos. Quem não quer ser narrador não lhe veste a pele.


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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2012

Ovelhas no pasto


publicado por João Madureira às 07:00
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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2012

O Poema Infinito (113): o tempo e as palavras


Alisou-se o tempo na superfície da sua antiguidade. E as palavras aparecem dourando as frases com uma luz que se ajusta ao friso lento do desassossego. O tempo resplandece de novo no teu olhar. E o teu olhar é a condição de todas as imagens significativas. O tempo refunda o tempo na ordem rigorosa dos conceitos. E as palavras estremecem e assustam-se com a sua acústica. O tempo refunda a condição na ordem prodigiosa dos acontecimentos. E o mundo velho cai vítima da sua inteligência intuitiva. Instala-se a paz na terra e o seu ímpeto pulsa cada vez mais longe. A imensidão da saudade torna-se absoluta. E o amor incrementa-se com a distância. E a distância irradia invisibilidade. E a invisibilidade transforma-se na raiz das coisas. E as imagens gemem. Por isso o sofrimento é visível na tua face. Todos sofremos com a doce visão do envelhecimento. Voltam as palavras com o seu ritmo nítido, envoltas no seu enigma intemporal. E empolgam-se. E irrompem na sua extensão de dor e de júbilo. E prolongam-se gradualmente dentro da sua expansão silenciosa. E cumprem com a sua abstrata sabedoria do sofrimento. E desnudam-se por entre as vírgulas. E deslumbram-se com o espanto dos poetas. Por isso a inteligência humana é simbólica. Da neve eterna da saudade alguém extrai o azul com sabor a céu. E um oceano de palavras espelha-se na folha nervosa da planície. E a terra espelha-se nas folhas verdes das bétulas. E as encostas vertem vinho e o seu júbilo de festa e trabalho. O tempo abre a sua transparência antiga de fogo e alheamento. O desconforto de viver é elevado a uma nova categoria. Por isso as palavras prendem-nos num espaço cada vez mais dilatado. Nuvens de palavras rebentam nos céus fazendo diluviar uma miríade de frases escritas com flocos de neve. Esqueço-me de reter o seu sentido. Ao longe a cidade vai subindo impulsionada pela luz perentória dos fundamentos bíblicos. E o vento sopra arrepios de um frio invisível. As palavras transformam o tempo em solidão. Uma claridade antiga encontra o seu próprio esquecimento. Na terra mais antiga, o sábio semeia palavras eternas. Alguém propaga o seu prudente silêncio. E o silêncio oculta a face no júbilo ordenado da compreensão. O silêncio avoluma-se organizando o pensamento. As palavras encontram o seu sentido espiritual. Olho-te com o tensíssimo olhar do amor. De ti nasce a energia das palavras com que escrevo. Eu escrevo o tempo no tempo. No meu tempo. No teu tempo. No tempo infinito. No tempo infinito das palavras. No tempo infinito da nossa finita vida. Na impetuosa incandescência das palavras transitórias. Na prodigiosa razão da sua infinita combinação. 


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Terça-feira, 25 de Setembro de 2012

Burro teimoso


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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2012

Pérolas e diamantes (4): a utilidade das catástrofes

 

Machado de Assis, no seu livro “Quincas Borba”, referindo-se a uma epidemia que evitou um casamento, conclui que “as catástrofes são úteis, e até necessárias”. E ilustra a sua tirada filosófica com um pequeno conto que, à sua imagem e semelhança, “aqui lhes dou em duas linhas”.

 

“Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona, um triste molambo de mulher, chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela. – É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo. – Dá-me licença que acenda ali o meu charuto?”

 

De facto, pegando agora no que aqui nos trouxe, o nosso primeiro-ministro nem sequer precisa de estar embriagado para acender o seu charuto nas misérias do nosso próprio casebre. É mesmo sóbrio que assim age, falando mal e depressa, atrapalhando-se na sua ânsia de capataz da troika, tentando mostrar que é mesmo homem para ser ainda mais duro do que os duros e mais insensível que os insensíveis.

 

Ninguém, “no seu juízo perfeito, faz render o mal dos outros”, como bem escreve Machado de Assis. “Não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas.” Tudo isto é uma ideia consoladora, pelo menos na cabeça de Pedro Passos Coelho.

 

Já todos percebemos que, para mal dos nossos pecados, este governo que nos desgoverna, fá-lo conscientemente através do medo, da chantagem e da coação verbal e económica. A contenção, a austeridade, a pressão institucional, o confronto com o Tribunal Constitucional e a ameaça permanente de que isto ainda pode vir a piorar, é tão intensa que começa a ser insustentável.

 

Há um provérbio chinês que diz: “Usa o poder que tens. Se não o usares, ele prescreve.” Mas não pode ser lido de forma literal, senão dá barraca. De facto, parece que o poder da ignorância, da estupidez e da boçalidade nunca prescrevem. Paulo Francis tinha razão: a estupidez, a ignorância e a boçalidade ainda são as maiores multinacionais do mundo.

 

Além disso, o poder exercido de forma autista, cega e arrogante, é uma insensatez. Ao que parece, o nosso primeiro-ministro pouco se importa com o facto. Ungido pela maioria absoluta que o sustenta, colocou-se no seu pedestal e aí vai disto.

 

Ele e o seu ministro das finanças são apenas uns paus mandados da troika. São os seus homens da Regisconta, ou melhor, são os cobradores do fraque, que em troca de uma mão cheia de euros, esmifram o devedor até o deixarem exangue.

 

Do nosso lado, alguns ainda lhe invejam o poder, porque vivem na ilusão de que ele, o Passos, é um chefe verdadeiro. Acreditam, erradamente, que o senhor está acima das nossas misérias e inseguranças. Mas, afinal, não está. Antes pelo contrário. O sujeito, deslumbrado pelo poder, pela sua leitura messiânica, vive soterrado pela permanente angústia de o perder.

 

Nas finanças se consome, o homem, e nem consegue falar direito. Atrapalha-se, gagueja e hesita. Como muito bem lembra Michele Apicella no filme “Palombella Rossa”, de Nanni Moretti, “quem fala mal, pensa mal”. E ele, o nosso aflito e gaguejante primeiro, já não consegue encontrar as palavras adequadas. A quem exerce o poder, as palavras – as palavras certas – são as ferramentas que podem apontar o Norte.  

 

Podemos ser levados a pensar que tudo apenas não passa de um problema de comunicação. Mas esta crise não é senão uma crise política. E são os problemas políticos, que este governo não sabe nem quer despachar, que estão por resolver. É isso que Pedro Passos Coelho é incapaz de compreender.

 

Os problemas políticos que não se resolvem tornam-se incomunicáveis. Em política, a força das palavras é decisiva. E as palavras escolhidas por Passos Coelho são de resignação e desespero. Ele não acredita nos portugueses. Ele apenas crê nos números que a troika lhe fornece.

 

O nosso primeiro é a principal vítima da folha de Excel do seu ministro das finanças, que nem sequer é do próprio, mas antes do seu congénere alemão, a quem ele presta vassalagem como um vulgar serviçal. 

 

Desconfio que o nosso primeiro é homem para, à boa maneira de mais uma personagem do livro de Machado de Assis, gostar de Otello, a ópera em quatro atos do compositor italiano Giuseppe Verdi (com libreto de Arrigo Boito, baseado na peça “Othello, the Moor of Venice”, de Shakespeare) e como espectador se regalar das paixões de Otelo e sair do teatro com as mãos limpas da morte de Desdémona, mas assobiando risonho “Nini”, a medíocre cançoneta de Paulo de Carvalho.

 

Pedro Passos Coelho, na sua terrível teimosia de correr tudo a impostos, devia pensar duas vezes na realidade do râguebi, pois quando se começa a correr muito, logo vem alguém que nos faz uma placagem. E ele já foi placado exemplarmente pelo Tribunal Constitucional e pelo povo nas ruas.

 

Talvez também sonhe, ao jeito saudoso do eficaz ditador de Santa Comba, com que a maioria de nós volte para as aldeias cultivar as parcas leiras, dormindo com as galinhas e acordando com os galos por não conseguirmos pagar a fatura da EDP, nem o petróleo do candeeiro de campânula.

 

Estes que agora dizem que nos governam não são gente séria, são gentalha insensível. Estão para o povo como o fardo de palha está para o pão.

 

Pedro Passos Coelho e os seus Relvas, Cratos, Vítores e Chicos, agarraram a triste sina dos desprezíveis: Estão para nunca mais estarem, ficam agora para nunca mais ficarem.

 

Os nossos desejos são de que a História lhes seja leve. E o seu destino político breve. Para bem de todos. E até o deles próprios. 


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Domingo, 23 de Setembro de 2012

Brincando


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Sábado, 22 de Setembro de 2012

Ui que pinga!


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Sexta-feira, 21 de Setembro de 2012

O Homem Sem Memória - 126

 

126 – E a vida seguiu o seu caminho. O camarada funcionário foi à dele e os nossos queridos camaradas foram à sua. Ou seja, o dirigente comunista foi copiar o comunicado de um outro comunicado, fazendo-lhe os pequenos ajustes necessários, para não se enganar na métrica, na semântica e na música, que ele interpretava como coerência ideológica. E era-o de facto. O Graça e o José, coadjuvados pelos seus amigos e camaradas, pegaram nos pinceis, nas tintas, nos fios, nos lápis, no giz, nas réguas e nos esquadros, nas tachas e nos martelos e nos Estatutos do Partido e foram pintar um mural numa parede que servia de resguardo a uma moradia a modos que burguesa. A orientação era boa e a sua posição em relação à rua e aos transeuntes era a ideal.


Para os estimados leitores não ficarem na dúvida, temos de cumprir – mesmo que nos custe, pois nestas coisas não gostamos de tomar partido –, com o dever revolucionário de informar que o Mário “Camões” e o Carlos Chouriço, mesmo a contragosto, se juntaram à brigada de agitprop, pois, sendo dissidentes ao nível da ideologia e da praxis partidária, como já vos demos a devida conta, não conseguiam cortar com a amizade.


Para eles a amizade estava acima de tudo. Até acima do Partido, daí a sua propensão para a debilidade ideológica, para o sectarismo pequeno-burguês e para os seus persistentes desvios ideológicos. Como todos bem sabemos, e a História nos transmite amiúde, são militantes deste tipo que dão em dissidentes e se transformam em perigosos anticomunistas. Dizem por aí que fracos comunistas dão anticomunistas audaciosos. As contradições da burguesia, tal e qual os caminhos do Senhor, são enigmáticas.


Antes de começarem a traçar as linhas quadriculares que iam possibilitar dar a forma correta ao mural, consultaram atentamente o esquiço que tinham na pasta onde a bandeira do Partido estava desenhada e devidamente repartida pelos respetivos quadrados. Alterando a escala, o estudo ia permitir que a bandeira ficasse como era estatutariamente exigido.


É que com a bandeira do Partido não se brinca. Por isso consultaram mais uma vez os Estatutos, nomeadamente o Capítulo X, intitulado “Símbolos do Partido”, art. 43º: “A bandeira do Partido Comunista é um retângulo de tecido vermelho que tem no centro em cor de ouro a foice e o martelo cruzados, símbolo do trabalho e da aliança entre os operários e os camponeses…”


“Então vamos lá a isto”, disse o Graça virando-se para o José. E com o giz e a régua desenhou os quadrados respetivos, tantos quantos os que se encontravam no esquiço. Nem mais, nem menos. Depois foi a vez do José se pôr a desenhar a foice e o martelo bem ao centro, como mandavam os estatutos. Nem menos, nem mais.


Para todos os camaradas poderem participar na tarefa revolucionária, o Graça, como bom e leal comunista, deu a ler ao Mário “Camões” o texto respetivo. Mas o Mário “Camões”, pedindo humildemente desculpa, despachou a tarefa para o Carlos Chouriço, argumentando, e bem, que devido ao olho de vidro e à pouca luz ambiente que por ali havia, as letras se tornavam pouco nítidas, o que podia originar alguma informação deficiente que pudesse por em causa o correto desenho da bandeira e, como muito bem tinha dito o camarada Graça, com a bandeira do Partido não se brinca.


Com voz neutra, como manda a boa tradição marxista-leninista, o Carlos Chouriço leu: “Em cima e à esquerda, debruada em cor de ouro, uma estrela vermelha de cinco pontas, símbolo do internacionalismo proletário…”


“Para aí Carlos”, pediu o Graça. E o Carlos parou. Mais uma vez pegou na régua, ou no esquadro, já não estamos bem cientes, mas para o caso tanto monta, olhou para o esquiço e traçou as linhas que devia traçar. Nem mais, nem menos. E lá apareceu a tal estrela, que afinal eram duas, uma, mais pequena, inscrita numa outra maior, para poder dar o respetivo efeito de debruo, e dessa forma poder a estrela vermelha ser inscrita no retângulo vermelho, que é a bandeira do Partido Comunista, e conseguir ser visível.


Terminada a tarefa, novamente o Graça deu ordem ao Carlos Chouriço para continuar a leitura. E o Carlos, novamente, com a sua voz neutra, como manda a boa tradição marxista-leninista, continuou a ler: “E por baixo da foice e do martelo, bordadas em cor de ouro, as palavras «Partido Comunista». Presas ao tecido…”


“Alto e para o baile”, ordenou o Graça. E o Carlos voltou a parar. Então foi a vez de o José pegar no giz e desenhar as respetivas letras. Redondinhas e à escala devida, enfiadas nas linhas e nos respetivos quadrados. Nem menos, nem mais.


Depois da tarefa terminada, o Graça ordenou: “Agora toca a mexer as tintas e a pintar.” Mas o Carlos Chouriço interrompeu-o para informar que o artigo ainda não tinha chegado ao fim. E pôs-se a ler: “Presas ao tecido, no ângulo superior esquerdo, duas fitas com as cores nacionais: uma verde e outra vermelha.”


“Disso passamos”, avisou o Graça. Nem tudo o que aí vem é para levar à letra. As fitas são para colocar na bandeira. Mas aqui trata-se de um desenho. Um mural é tecnicamente diferente. Além disso, aqui que ninguém nos ouve, eu mando o nacionalismo às malvas. Cá o rapaz é um verdadeiro comunista. E um verdadeiro comunista não tem nacionalidade. Só tem internacionalidade. É um militante planetário e plenipotenciário. Um revolucionário não tem pátria, a sua pátria é a própria revolução. Nisso sou um seguidor do Che Guevara. Para ele não havia fronteiras, depois da revolução em Cuba exportou-a para o Congo e depois para a Bolívia, ele que era Argentino. Por isso deixa lá as fitas e vamos ao que verdadeiramente interessa.”


“Mas aqui ainda há mais uma frase: “O hino do Partido é A Internacional.” Ó Porra, isto não interessa.”


“Olha, deixa estar”, disse o Mário “Camões”, “A Internacional canto-a eu.” Ai não cantas não”, avisou-o o Graça, “é que podes acordar a vizinhança e por estas bandas não somos lá muito bem vistos. Além disso, eu não quero ser mordido pelos cães ou levar o rabo cheio de sal para casa ou chumbo no buxo. Cantamo-la todos quando formos petiscar. Lá no restaurante do camarada podes cantá-la até que a voz te doa. Agora toca de pintar.”


Mais uma vez o Mário “Camões” se desculpou com a falta do olho que não lhe permitia pintar com o rigor exigido, nomeadamente no enchimento da foice e do martelo, podendo deixar a aliança operário-camponesa tremida ou mal definida. Para revisas, já bastavam os burocratas do Partido. Ele a poder ajudar nalguma coisa era no enchimento dos vermelhos. Para definir as linhas de fronteira, o melhor era o José que tinha a mão firme e os princípios todos no devido lugar.


Enquanto vários camaradas continuavam nos seus postos a manter o perímetro de segurança em relação à secção técnica e artística do núcleo da brigada da agitprop, o Graça, o José, o Carlos e o Mário pintaram a bom pintar a Bandeira do Partido. Os dois primeiros a definirem os contornos e os outros a encher o restante painel.


Quando deram por terminada a tarefa, arrumaram o material e dirigiram-se ao Centro de Trabalho com a alegria comunista estampada no rosto, que, ao contrário do que afirmam os reacionários, é igualzinha à da restante gente. Nem mais, nem menos. É bom que os mitos, as falsidades e as calúnias se comecem a desfazer. E se esta obra servir também para isso, ótimo. Se não amigos na mesma. Mas lá tentar, tentamos, até que a tentação nos doa.


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Quinta-feira, 20 de Setembro de 2012

Passeando


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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2012

O Poema Infinito (112): renascimento

 

Uma ave de ouro sobrevoa os altíssimos altares bíblicos e entra de repente nos meus olhos. E os meus olhos entram nos teus. E assim se protegem da escuridão do desalento. Saem do fogo figuras de escrita que ascendem com o fumo. O meu corpo tem agora os sintomas inexpressivos do amor. A febre da demência e do conhecimento sopra de novo sobre a carne dos animais sacrificados, sobre o rebordo inflamado das vozes, sobre o tecido perseverante das metáforas, sobre as vocalizações da dor e do arrependimento. Um gládio de raios laser separa definitivamente o céu da terra. E a boca dos humanos transforma-se num vulcão que expele gritos primitivos, como se a Terra arremessasse por aí a sua lava criativa. Afinal Deus está morto e jaz amortalhado nos seus textos bíblicos. Sentado à beira de um riacho, o seu filho reza um poema do génesis e lamenta a sua infertilidade. Nem mulher a quem amar, nem filhos a quem criar, nem inimigos a quem odiar. Afinal, para que lhe serve a redenção e a sua humanidade divina? Todas as gerações antigas descem agora da Arca de Noé. E Noé chora porque vê Cristo chorar e sabe que dentro do palácio celestial Deus jaz morto e arrefece porque quis deixar de sofrer com o sofrimento dos seus filhos. A Cristo pesam-lhe os pecados e os milagres e as orações e os constantes pedidos de redenção e as súplicas monocórdicas e a cintilação da solidão dos abandonados e os caminhos desertos e a geografia eterna das doenças e a cintilação agreste dos gritos dos logocratas e os projetos esboçados pelos poderosos e as multidões de indignados e a velhice eterna da esperança e as trémulas lágrimas das crianças e os equívocos da condição humana e a sua agressiva falta de sentido e os gestos esforçados dos idosos e os pretextos equívocos dos redentores e os gritos da austeridade da vida real e o seus números agressivos e o simbolismo doloroso da cruz e as translações metálicas dos anjos e as inflexões luxuriosas dos demónios e a palavra “ordem” e a palavra “oráculo” e a palavra “exclusão”. Cristo faz explodir os templos porque se transformaram em casas de apostas. Cristo não chora a morte do seu pai, o filho de Deus chora a inflexão estúpida dos cânones, as mentiras alquímicas dos que ainda se dizem seus seguidores. Cristo lê agora a história curta da vida de cada homem impressa na sua alma. E desenha ao seu redor um templo construído com concavidades perfeitas de alegria de onde nasce incessantemente a razão pura das coisas. E sorri. E canta. E dança. E regressa de novo pródigo ao encontro dos infelizes, às zonas infetadas pela moral vigente, pela ambição, pelo desalento. E joga e abençoa os poetas e consola os desiludidos e transforma todas as palavras em estrelas e origina convulsões de beleza e faz lindos pães cintilantes e multiplica os livros e fecha as cidades ao trânsito e inunda de aldeias as metrópoles e enche de prazer as ruas abandonadas e faz dos falsos profetas estátuas de sal e ilumina as casas com poemas chineses e recompõe a verdade e redime a mentira e comove os exércitos e faz dos generais índices de enciclopédias e ilumina todas as noites com clarões de silêncio e luz subatómica. E liberta o Édipo do seu intricado complexo, as máquinas das suas engrenagens e a Cruz do seu simbólico castigo. Cristo repõe a vida no seu devido lugar, permitindo-lhe o seu sentido utópico. A utopia deixará, definitivamente, de ser utópica. O filho de Deus intenta outra vez a sua corrida final: o recomeço. E grita: Deus já pode descansar em paz. Que a eternidade lhe seja leve. 


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Terça-feira, 18 de Setembro de 2012

Ao telefone


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Segunda-feira, 17 de Setembro de 2012

Pérolas e diamantes (3): os corajosos embuçados e o escritor constrangido e frouxo

 

Talvez seja por eu ter nascido numa aldeia que tem o S. Sebastião como padroeiro que desde sempre atraio sobre mim as setas dos inimigos. Só que como vivemos nos tempos modernos, em vez de setas verdadeiras eu apenas sou vítima das suas palavras afiadas ou dos seus rancores mais obscuros.

 

Esses embuçados, sempre ocultos pelo manto diáfano do anonimato, cumprem com a tradição, nublando-se com o outro Sebastião, não o santo, mas o rei garoto que se sumiu na bruma para nunca mais. Mas cada um tem o fado que merece. E eu já me habituei à minha triste sina. É certo e sabido: o bom português aspira ao anonimato.

 

A eles, os outros, a esses intrépidos embuçados, saltam-lhes dos lábios os velhíssimos truques da arte da sedução da forma mais airosa possível, a mim ouve-se, quando muito, o engolir de palavras que não pronuncio por educação. E olhem que engolir a saliva de forma intrusiva não é mesinha que se aconselhe, nem mesmo aos adversários.

 

Presentemente consolo-me em contar histórias, mais ou menos frescas, que, mesmo sendo incompletas, como tudo na vida, não deixam de ser abundantemente inventadas. E olhem que nunca estão concluídas, como todos bem sabemos. Encontram-se sempre à espera de uma nova oportunidade para serem continuadas ou então narradas do fim para o princípio ou vice-versa, pois para o caso tanto monta.

 

Lembro-me de uma primavera, nos tempos em que a comida não abundava mas sobejava o trabalho nos campos, de estar bem em frente da junta de bois do meu avô e a guiá-la, dando pequenas pancadas com a aguilhada no jugo, de ver-me a tropeçar mesmo em frente das pesadas patas dos bichos, para desespero do meu avô que correu na minha direção com a atrapalhada intenção de me salvar de ser trepado e esmagado, e de eu, num gesto instintivo, ter rebolado para fora do alcance das patas dos bois. Pois lá diz o velho ditado, ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo.

 

Neste caso posso escrever sem me enganar que o João Lorde foi salvo da excomunhão em vida, pois não podendo o meu avô chegar a tempo de me salvar, a sua mulher e a sua filha querida tinham-no cruxificado, não num madeiro de pau, mas antes numa cruz de palavras que o consumiriam em três noites e quatro dias e ainda o transformariam em alma penada por tamanho pecado e tão torpe negligência.

 

Quando ele, atónito, pegou em mim ao colo com um ar sério de atrapalhação e orgulho, e me fez uma festa com tanto carinho e esforço como só um cristo rei do tamanho do nosso e do brasileiro podem fazer, lembrou-me que existe sempre uma saída para um problema, a habilidade está em reagir a tempo.

 

Ainda me recordo das suas palavras: Nunca te esqueças disso. Perante a adversidade, rebola, afasta-te das patorras das bestas. Não te fies no seu olhar dócil e na sua mansidão castrada. Mesmo pacatos, os bois passam por cima de ti sem sequer se deterem. Nunca te fies nas aparências. Rebola, rebola sempre. Nunca te dixes espezinhar. Rebola.  

 

Amiúde ainda me lembro da sua voz de lavrador que rebentava com as paredes da Clerga e da paz com que olhava para aqueles sítios que pouco tinham de lírico: uma paisagem solarenga, disseminada pelas diversas propriedades, por vezes estilizada pela chuva, ou disfarçada pelo nevoeiro. Com a sua voz grossa, unicamente as badaladas do sino da igreja podiam rivalizar.

 

Era a minha aldeia, uma pobre e mansa circunstância que não permitia grandes elevações de consciência. Talvez daí este meu espírito ríspido, dado ter sido talhado com o gume das palavras verdadeiras e temperado com as geadas de janeiro.   

 

Era frequente ir para o sítio do feno meditar e descansar. Eu e os gatos. Depois punha-me a pensar realidades, possivelmente profundas, ou talvez não. Mas, ó deus das pequenas coisas, por incrível que pareça, este vosso amigo já então se punha a pensar pela sua cabeça. O atrevimento já lhe vem de longe.

 

Quando menino era assim, um sempre na lua. Pensava em coisas argutas acerca do céu estrelado, sobre os desenhos inscritos na face do satélite da Terra e, muito provavelmente, em coisas poéticas, acabadinhas de misturar, como o pão na masseira, que levedava bem embrulhado no seu manto de linho e onde a cruz desenhada em cada bola começava a desaparecer ao compasso com que se esfumavam as orações que da boca da minha avó saíam, ciciadas a gosto, cantadas com carinho, sussurradas como cânticos mágicos.

 

O tempo lá ia passando sem grande utilidade. Ou a sua memória. Pois as memórias assentam em memórias que, por sua vez, assentam noutras memórias. E por aí fora.

 

O que aprendi de ciência certa é que é preciso muito tempo para se acabar de conhecer os indivíduos. E como muito bem filosofava D. Quixote: “Portanto Sancho, por onde tanta boa gente tem passado posso eu passar também.”

 

Com a vossa licença, atrevo-me até a mais, pois um pouco à frente, a obra-prima de Cervantes narra a desventura dos seus dois personagens depois de ambos apanharem uma surra das valentes, generosamente brindada por uns viajantes manchegos que tiveram a desdita de se atravessarem nos heroicos destinos do dono do Rocinante e do seu gentil escudeiro.

 

Este, mesmo moído de pancada, tem ainda tempo, e inteligência, para refletir e afirmar para um Sancho lastimável e lastimado: “Deixa-te disso e faz das fraquezas forças, Sancho, que assim eu farei; e vejamos como está Rocinante, que, ao que me parece, o coitado não apanhou menor quinhão que nós.”

 

Por isso, aos anónimos de serviço respondo com a admiração do sábio escudeiro do cavaleiro da triste figura: “Não admira, pois é também andante; o que a mim me espanta é, que o meu jumento escapasse com as costas inteiras donde nós trouxemos quebradas as costelas.”

 

Aos corajosos do incitamento que não sarrabiscam uma linha mas estão continuamente habilitados a rir-se dos adversários e a comentarem a escrita dos demais e sempre, sempre, sempre a resguardo do anonimato, lhes digo em jeito de Sancho Pança: “Mas eu lhe juro, à fé de pobre homem que sou, que mais estou eu para emplastros, que para arrazoados.”


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Domingo, 16 de Setembro de 2012

Olhares


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Sábado, 15 de Setembro de 2012

Sorriso


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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2012

O Homem Sem Memória - 125


125 – Almoçaram como bons, sinceros e coerentes comunistas. Comeram a sopinha, a costeleta de porco, as batatas fritas e o arroz, debicaram a salada, beberam o vinho e “sobremesaram” pudim. Terminaram com um café, meio Croft e uma valente cigarrada que a todos pôs bem-dispostos.


Entraram no Centro de Trabalho a rir e a assobiar energicamente a Internacional. Mas afinados, como convinha. Honra lhes seja feita. E que do proveito não desmereçam. Por isso botaram nova cigarrada e, entrementes, deram por iniciada a segunda parte da reunião.


O camarada funcionário – funcionário uma vez funcionário para sempre –, fez questão em lembrar o ponto da situação. O Graça, por seu lado, sarrazinou em recordar o ponto da situação, qual estado da nação, e até o José se preparava também para botar pendência relativamente ao ponto da situação, para demonstrar, caso fosse necessário, que aprendia bem e depressa, quando o Mário “Camões” veio de novo à liça para propor que deviam seguir o procedimento suficientemente basto e revolucionário do camarada Talião: olho por olho e dente por dente.


O Graça, com a paciência da digestão, acendeu novo cigarro, deu duas chupas bem dadas, travou com efetiva e resoluta decisão revolucionária o fumo do seu SG filtro, fez três argolinhas muito parecidas com as da coligação comunista, e, virando-se para o Mário “Camões”, lembrou-lhe de novo que tirar olhos aos outros, mesmo que os outros sejam temíveis reacionários, não é uma atitude verdadeiramente marxista-leninista, que o tal Talião não era comunista, nem pouco mais ou menos, nunca o foi e não o poderia vir a ser porque já tinha morrido há muito, muito, mas mesmo muito tempo, que os comunistas não são vingativos, e se o fossem não seria nunca com o pretexto de uma guerra de cartazes que se punham a arrancar olhos a quem quer que seja. Nem dentes, quanto mais olhos. É que os dentes ainda se podem substituir, agora os olhos não. A não ser pelos de vidro, mas esses não têm valimento nenhum. Os dentes postiços são como os socialistas, estéreis auxiliares da construção democrática, o que politicamente é pouco. Já os olhos de vidro estão para a visão, como os reacionários para a revolução.


Além disso a cidade é pequena, aqui todos são ou conhecidos ou amigos. E mesmo os comunistas têm familiares distribuídos pelos distintos partidos da reação ou da contrarrevolução. Por isso deviam tentar enquadrar devidamente os acontecimentos.


Todo o verdadeiro comunista tem de saber colocar as coisas no seu devido lugar. Colar cartazes e arrancar cartazes são tarefas políticas de momento. Não é a revolução. A revolução é pegar em armas e tomar o poder ou outra atitude do mesmo estilo. Cada coisa no seu devido lugar.


Por exemplo, quando os comunistas colam cartazes estão a fazer uma tarefa política devidamente enquadrada, estão a comparecer ao jogo democrático. Mas não se ficam por aí. Por aí ficam-se os dentes postiços (perdão!), os socialistas.


Os comunistas não se iludem com o brilho das dentaduras postiças (perdão!), dos socialistas. Pois a democracia burguesa e parlamentar é uma ilusão, bem assim como os socialistas, as dentaduras postiças e os cartazes. Não sei se nos fazemos compreender.


O Mário “Camões” vendo que a conversa não ia dar a lado nenhum, contestou: “Quer dizer que os reacionários rasgam-nos os cartazes e nós vamos ficar quietos e calados como uns cobardes? É isso? Questiono! Vamos para aqui ficar a falar de dentaduras postiças, de socialistas e de olhos de vidro? É isso? Questiono!”


“Não, não é isso”, verbalizou calmamente o Graça. “Quer dizer que temos de discutir o assunto, denunciar a situação e agir em conformidade. Revolucionariamente quanto baste, mas não mais do que isso. E agir como um militante marxista-leninista é agir sempre em favor da revolução, mas também sempre devidamente enquadrado. Mesmo não parecendo. Hoje colamos cartazes, amanhã não sabemos se estamos a afixar cartazes ou de armas na mão a defender as mais amplas liberdades do nosso povo, entrincheirados na Serra do Brunheiro, como o Fidel e o Che estiveram na Sierra Maestra. Mas amanhã é muito tempo, por isso temos de nos concentrar nas tarefas imediatas.”


O Mário “Camões” tentou de novo pegar na palavra, como quem pega em armas, mas o camarada funcionário cortou cerce: “Agora quem fala sou eu. Vamos lá respeitar as hierarquias.” O Graça olhou para o luzeiro escorreito do Mário “Camões” e vendo-o a piscar como um semáforo na cor amarela, o que nele queria significar tormenta, tomou de novo a palavra e tentou temporizar: “Caro camarada funcionário, eu sei que as hierarquias são para ser respeitadas, mas também sei que o direito de cada camarada a expor a sua opinião é sagrado…”


Ao que o camarada funcionário, já visivelmente irritado, respondeu: “Aqui no Partido, a única coisa verdadeiramente sagrada é o centralismo democrático. E esta reunião tem todo o aspeto de ser um debate entre amigos, não uma reunião de intrépidos bolcheviques que honram o Partido acima de tudo, os seus órgãos, as suas orientações e decisões. E a verdade, verdadinha, é que o Partido já decidiu que a resposta a dar à provocação tem de passar pela redação de um comunicado ao nosso povo dando-lhe conta do sucedido, denunciando a provocação, apelando à unidade na ação entre as forças democráticas e de esquerda para combater a reação, o anticomunismo primário, o imperialismo, a exploração capitalista, os latifundiários, a burguesia contrarrevolucionária, denunciar o obscurantismo, o esquerdismo, o aventureirismo pequeno-burguês de fachada socialista e…”


“E o caralho que te foda”, disse o Mário “Camões” com o olho bem aberto e apontando o seu indicador direito como se fosse uma Mauser. “Então eles arrancam-nos os cartazes e nós limitamo-nos a redigir um comunicado a dizer para terem pena de nós? É isso? Vê-se logo que não te custaram a colar. Tu és bom a dar ordens. Mas nem um único cartaz te deste ao trabalho de colar. Limitaste-te a observar e a dizer se os devíamos inclinar mais para a direita ou para a esquerda.”


Ao que o camarada funcionário retorquiu com a verdade, pois só ela é verdadeiramente revolucionária: “E tu bem necessitaste da minha ajuda, senão os cartazes iam ficar todos tortos.” Ao que o Mário “Camões” respondeu: “E a quem é que isso interessava. Afinal era para serem arrancados!” E adiantou: “Além disso, posso ser zarolho mas não sou, nem consigo ser, cobarde.”


O Graça pôs-se então de pé e exigiu calma. Ele ainda era o controleiro. E exigia calma. E quando o Graça exigia calma o melhor a fazer era agir em conformidade. Todos o sabiam. Mesmo o Mário “Camões”, e inclusive o camarada funcionário. Quando a paz voltou ao espírito dos presentes, o Graça deu a palavra ao seu superior hierárquico.


“Sim, é isso. Eles arrancam-nos os cartazes, nós emitimos um comunicado e voltamos a colar os cartazes que nos rasgaram”, disse o camarada funcionário. “São essas as indicações do Partido. A paciência é uma virtude comunista. Uma grande virtude.”


“Tu chamas virtude à paciência. Eu chamo-lhe cobardia”, disse o Mário “Camões” com o peito repleto de coragem transmontana. No que foi coadjuvado pelo Carlos Chouriço que lembrou: “Não vês que para este banana até cagar e mijar são tarefas revolucionárias. Bonito comunista me saiu este funcionareco de província.”


“Razão têm os esquerdistas, este é um partido de revisionistas. Têm medo da reação. E o que é pior, têm medo da revolução. Para eles, a revolução faz-se a redigir comunicados que não interessam nem ao menino Jesus. E as armas? Quando se pega em armas para tomar o poder?”, disse em pose de Lenine o Mário “Camões”.


Logo de seguida, o Carlos Chouriço gritou: “Ou reação ou revolução. Caralho. Unidos venceremos. Nem mais um soldado para as colónias. O Povo está com o MFA. Abaixo a reação. Caralho. Abaixo a reação. Avante camarada, avante, junta…”


“Vamos lá por um ponto de ordem à mesa”, avisou o camarada funcionário. “Disciplina, ordem, respeito. Exijo respeito. E ordem. E disciplina. Não se esqueçam que estão no Centro de Trabalho, na casa dos comunistas. Aqui todos os militantes têm de respeitar os Estatutos do Partido. As decisões são tomadas em consenso. O coletivo é quem mais ordena.”


“Sim”, disse o Graça. “Vamos votar.” “Votar o quê?”, perguntou atrapalhado o funcionário. Ao que o José respondeu: “Votar ou na proposta de redigir um comunicado e de voltar a colar os cartazes ou…” Ao que o camarada funcionário replicou: “Que eu saiba não há mais nenhuma proposta em cima da mesa.” “Não há mais vai haver”, disse o Carlos Chouriço. “Proponho que devemos pegar em armas e ir para o Brunheiro, imediatamente e em toda a força.”


O Mário “Camões”, por seu lado, alvitrou: “Eu proponho que levemos à prática as diretrizes do camarada Talião, deixando cair, no entanto, a parte do “dente por dente”, para poupar os socialistas, mas respeitando na íntegra tudo o que diz respeito ao “olho por olho”, para foder a reação.


Desesperado, o camarada funcionário desabafou: “Não há pior cego do que aquele que não quer ver.” Ao que o Mário “Camões”, sentindo-se coagido, perseguido e gozado, respondeu: “Posso ser zarolho, mas não sou cego. Nem sou cobarde.” E já ia para ele de broxa em riste quando o Graça se interpôs e lhe deu um murro certo no sítio devido que o deitou ao chão. Depois de lhe pedir desculpa, ajudou-o a levantar-se e disse-lhe que ou acatava a decisão do Partido ou tinha de se ir embora.


“E qual é a decisão da Partido?”, perguntou o Carlos Chouriço, fazendo-se de ingénuo. Ao que o Graça objetou pesaroso: “Redigir um comunicado e voltar a colar os cartazes.”


“Com tarefas revolucionárias dessa envergadura, o povo português bem pode esperar sentado pela revolução”, avisou o Carlos Chouriço. Ao que o José juntou: “Só a verdade é revolucionária.”


E o Graça visivelmente desalentado: “Também tu, José. Também tu me atraiçoas.” O Mário “Camões”, visivelmente abalado, virando-se para o Carlos Chouriço, disse: “Vamos embora que esta revolução não é a nossa. Ninguém faz uma revolução a colar cartazes e a redigir comunicados. E fiquem sabendo os do Comité Central que a nossa revolução é mais bonita do que a vossa, ou a deles ou a de quem quer que seja e…”


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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2012

Focando


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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2012

O Poema Infinito (111): da geometria das borboletas


Eis-me nu ao desaguar. Num rasgo melancólico, atravesso a sabedoria como se fosse o último animal mitológico da cidade. Os dedos abandonam a tua profunda ausência. O teu rosto é agora uma batalha. Os dias são pequenas manchas na memória. O teu corpo jaz numa fotografia austera. Já pouco me lembro de mim. Apenas consigo monologar com o medo que é uma visão permanente do fulcro das noites insones. Penso em partir de novo e esquecer tudo: as asas da tua boca, a paixão dos teus olhos, a certeza da morte. Mas acordo de novo e de novo adormeço. Já não sei se sonho ou se vivo. Sei que durmo neste corpo calmo à espera da catástrofe. Por breves momentos largo a tristeza. A cidade cresce dentro do abandono. Agora a alba apenas traz indiferença. Até as aves desaparecem dos meus olhos mesmo durante o seu voo. Os espaços crescem pendurados em árvores que enferrujam na névoa. O tempo é outono ou inverno. As nuvens escondem-se no céu e nele tatuam a saudade eterna do azul e do seu desespero. Relâmpagos acendem o medo que se esconde no ato de viver sem paixão. Outro é o ar que nos estremece. Tu nomeias o mundo. Eu desarrumo-o. Eu desordeno-o. Eu enlouqueço. A escrita é agora uma proximidade de espelhos que se constrói com os gestos exatos da criação. As persianas do quarto transformam-se em fogo-fátuo. E o chão é agora outro mar. E outras árvores protegem-nos os corpos e simulam o sonho da vida. Os meus olhos têm agora a dor salgada do mar. E o mar enche de marés o meu quarto. E a tua voz regressa. E o teu sorriso volta a acariciar-me os olhos. Renasço. O teu rosto já não tem sombras. E o teu corpo atravessou apressado a longa noite do pesadelo. Uma ave de fogo entra pela janela onde me debruço. A memória fica agora impregnada com a loucura perfumada das violetas. A madrugada persente a alegria dos ninhos de aves com asas de libélulas. Tenho uma epifania dourada pelo teu sonho. O tempo volta a circular pelos teus dedos. As tuas mãos esboçam movimentos esquecidos. Uma poalha estelar pousa suavemente sobre a nossa cama. Nela navegam agora barcos cheios de palavras doces. Enchemos as nossas bocas de segredos. A alba fustiga as velas pandas. Nos vidros das janelas gotas de chuva fazem pequenos trajetos. Esta água já não nos magoa o corpo. Um silêncio longínquo invade-nos os ouvidos. A manhã chega encostada às vidraças. Os teus lábios ficam húmidos. Os nossos corpos teimam em não se vergar e por isso são atravessados pelo pulsar denso das estrelas. As nossas mãos ficam transparentes. E os nossos rostos ficam nítidos desenhados pela pureza geométrica das borboletas. 


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Terça-feira, 11 de Setembro de 2012

Ao fumo


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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2012

Pérolas e diamantes (2): Em defesa da minha imagem


Já várias e distintas pessoas me perguntaram por que razão é que eu escrevo, dado que a escrita não me dá pão nem consolação. Eu respondo-lhes sempre com uma frase de Chesterton: “Escrevo, porque é preciso.” É esta a minha íntima filosofia.

 

Depois desta outras perguntas se lhe seguem, as quais evito escutar para não ser forçado à grosseria de mentir ou não responder. Perante a adversidade prefiro pensar que não há mal que sempre dure.

 

Hoje de manhã tive o impulso de um homem banal, e sinceramente tolo, pois deu-me para vestir fato e gravata, compondo com esmero a gola do casaco, de modo a que ela não destoasse da linha com que foi talhado e engomado. E saí à rua cheio de frivolidade, imbuído do espírito sublime de me manter direito entre os aprumados colarinhos da minha camisa e em equilíbrio dinâmico com o nó da minha gravata.

 

Mas rápido voltei para casa, pois senti-me deveras incomodado. O meu exercício de hipocrisia fez-me sentir estúpido. Definitivamente vesti as minhas calças de ganga e o meu polo azul e disse para a minha imagem fixa no espelho: “Eu sou o que sou.”

 

Depois ri-me baixinho. E perguntei à minha imagem parada no espelho: “É possível enganar o mundo?” Ao que ela respondeu: “É. Mas não te esqueças que a consciência do justo não é perturbada.” “E a culpa. Onde fica a culpa do passado?”, perguntei atrapalhado. Ao que a minha imagem parada no espelho respondeu: “A consciência do justo espera sempre.” “Deus do céu, pareces um evangelista!”, retorqui. A minha imagem riu-se muito.

 

“Mau Maria”, pensei eu. Tenho de admitir que hoje não acerto com nada nem coisa nenhuma. Mas mal remediado mal passado. Sobre o passado é melhor dar um ponto na boca. Com águas passadas não mói o moinho. Ou…

 

“Mau Maria”, voltei a pensar. Não consigo acertar com a minha imagem.  

 

Fui para o monte tirar fotografias. Mas acabei a apanhar flores. Flores silvestres. E deslumbrei-me com a sua condição. Elas para ali a nascerem, entre giestais e silvados. Pensei nas que são colhidas nos jardins, com muito esmero e carinho para serem centros de mesa ou adornos de lapela. Vieram-me à memória os versos de Ungareti: “Entre uma flor colhida e outra dada, o inexprimível nada.”

 

E a minha imagem, agora refletida no espelho da viatura, a azucrinar-me o espírito: “Menos política e mais romance. Concentra-te.” Entusiasmado meti-me no carro, rodei a chave da ignição e carreguei no acelerador, mas não mais do que o necessário para não voltar a ser multado por excesso de velocidade. E ri-me para a minha imagem no espelho. Quem não me conhecesse a mim e ao meu ar sisudo pensaria que era tolo.

 

A imagem disse-me assustada: “A pequenez das atitudes e dos valores de algumas pessoas está na razão inversa da grandeza das suas palavras.” Apeteceu-me partir o espelho, mas optei por orientá-lo de forma a que não fosse possível rever-me.

 

Depois pensei no estilo, no estilo da escrita, no estilo do discurso, no estilo da roupa e no estilo de estar sentado a uma mesa. E a imagem voltou a atormentar-me. Desta vez vi-me refletido no vidro da porta do carro. E a minha cínica imagem a incomodar-me, qual grilo falante: “O estilo é uma bonita forma de encobrir certos pensamentos.”

 

Hoje a minha consciência tornou-se arreliadora: “Faz honra ao teu caráter de transmontano. Um homem sério tem obrigação de ser franco e verdadeiro. Deixa-te de trampolinices. Por mais que queiras, não consegues ser artificial. Deixa-os. Tu não consegues servir-te das palavras para esconderes os pensamentos.”

 

E a minha imagem no retrovisor a rir-se desalmadamente: “Já que colheram as flores, deixa-os que colham também os espinhos. Bem o merecem. E eles cheiram tão bem!”

 

Eu disse: “A questão é toda moral.” Ao que a minha imagem trocista respondeu: “Então que a resolvam os moralistas.” De novo olhei para a estrada e fixei-me no risco contínuo.

 

Sim, a ficção acabou. Afinal não há heróis, nem heroínas. Em toda a parte se come, conversa-se, passeia-se, dorme-se da maneira mais trivial possível, dizem-se meias verdades, engana-se a razão, destroem-se os sonhos na proporção inversa dos sorrisos. Dos falsos sorrisos de ocasião. Os episódios poetizados de batalhas e desafios brilhantes não são possíveis.

 

E eu para a minha imagem: “Então, e a moral? E a diferença?” E a minha arreliadora imagem: “Se queres que te diga que existem, eu digo-te que sim para ser simpática. Mas em abono da verdade lembro-te Camilo Castelo Branco: «Dantes a imoralidade era a retalho, hoje é por atacado.» Ou se preferires cito-te La Fontaine: «O ridículo precisa de ser morto pelo ridículo.» E eles, todos eles, são tão ridículos. Deixa-os. Que se consumam. Que se queimem no seu próprio fogo.”

 

E eu para ela (para a minha imagem, claro): “Deslarga-me. Deixa-me em paz.”

 

E ela: “Não te armes em cândido.” E voltou ao Camilo: “A candura tem os seus pedantismos, assim como os pedantes, às vezes, têm canduras irrisórias. São os extremos que se tocam.”

 

E eu: “Deixa-os tocar-se. Merecem-se. É tudo vinho da mesma pipa.”

 

E então a minha imagem desapareceu por entre luz e a escuridão. Nos lados da estrada, as árvores apareciam e desapareciam como fotogramas de um filme francês. Voltei para casa em paz e sossego.

 

PS – Já em casa, no remanso do lar (maumaria), estava eu a lavar os dentes após o jantar, quando me virei para o meu espelho e lhe perguntei: “Espelho, espelho meu, há alguém mais medíocre do que eu?” O meu espelho partiu-se… a rir. E isto é mau agoiro. 


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Domingo, 9 de Setembro de 2012

Jogadores de cartas


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Sábado, 8 de Setembro de 2012

A árvore dos fotógrafos


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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2012

O Homem Sem Memória - 74 [rep]


74 – Se havia uma coisa que caracterizava as férias grandes estudantis em território nacional é que elas eram mesmo grandes. Mas grandes mesmo. Eram noventa dias de lazer e brincadeira que a maioria dos estudantes preenchia como sabia e podia. No Verão do seu contentamento, o José gozou que se fartou. Entre as campanhas territoriais e os fins-de-semana alucinantes vividos à beira rio, existiram ainda várias e distintas incursões semanais em aldeias da vizinhança. Uma delas foi em Outeiro Raso, na casa de um amigo da família, o Carlos Trolaró.


O Carlos tinha os pais e a irmã em França, mas fazia que estudava em Névoa. Era um no meio de centenas de estudantes em idênticas condições. Passava o ano letivo na cidade entretido a passear os livros. No Verão rumava caras Outeiro Raso para aí desfrutar de uma vida regalada e independente.


Com a família longe, entretinha-se a vadiar pelos campos fora e a habitar solitário a sua casa, tipo maison, que os pais tinham construído na croa do povo, já um pouco afastada do núcleo antigo de casebres que ainda davam alma ao lugar. Podia optar por residir em casa dos avós, mas o Carlos preferia viver só que mal acompanhado. Os avós eram uns chatos, uns velhos ranhetas que lhe punham a vida num inferno. E o contrário também era verdadeiro. Ou ainda mais verdadeiro do que a primeira premissa.


O Carlos Trolaró tinha um sonho que se subdividia em dois: queria ser guarda-redes de futebol ou cantor romântico à boa maneira do seu ídolo Adamo. Explicava que não se importava mesmo nada em acumular as duas funções. “C´est la vie, mon pote.”


Carlos convidou o José para lhe fazer companhia na sua grande maison e também para desempenhar o distinto cargo de treinador. Por isso os dias passaram a ser preenchidos com uma rotina exercida a tempo e horas. Acordavam a meio da manhã, tomavam um pequeno-almoço de pão com manteiga e leite frio, dirigiam-se ao campo de futebol, arrimado no cocuruto de um monte aplainado, e aí treinavam até se esgotarem. Pelo menos o Carlos esgotava-se com todas as forças que possuía, pois saía do campo a pingar suor. O outeirense era um guarda-redes esforçado, lá isso era, mas era ainda muito mais um piteiro dos grandalhões. Perguntava insistentemente ao amigo, e treinador ocasional, se eram visíveis melhorias no seu desempenho. O José dizia que sim. O Carlos então insistia para que lhe despachasse uns remates mais difíceis, mais encostados aos postes, ou à trave da baliza. E o José, para não contrariar o amigo, assim procedia. Mas as coisas teimavam em acontecer como não deviam, pois a cada remate do José a bola insistia em entrar sempre na baliza à guarda do seu guarda-redes. Então o Carlos exasperava-se e culpava o amigo de não ser um bom treinador e muito menos seu amigo. Era entre suor, ranho e rancor que terminavam todas as manhãs de treino.


À vinda, passavam no comércio do senhor Zé Crispim onde o guarda-redes outeirense tinha, por indicação expressa dos pais, conta aberta. Aí compravam cervejas, sumóis, manteiga, pão, sardinhas, atum de conserva e várias latas de salsichas Izidoro.


Ao almoço e ao jantar comiam invariavelmente batatas fritas, salsichas e ovos estrelados, que era o único prato que sabiam confecionar. Ainda tentaram manjar as sardinhas e o atum em lata, mas aquilo soube-lhes tão mal que o deitaram às galinhas. Mas até esses bichos, que não são nada esquisitos quanto à sua alimentação, rejeitaram a oferta com uma determinação que os fez rir durante algum tempo. Após o almoço dormiam a sesta. Mais à tardinha davam longos passeios pelos montes armados com a pressão de ar do Carlos. Abatiam indiscriminadamente, à chumbada, distinto passaredo, que penduravam à cintura como os caçadores adultos. Chegados a casa, serviam os troféus de caça ao gato que começou a engordar a olhos vistos.


À noite é que eram elas. O Carlos andava apaixonado pela filha da dona da Serração da aldeia. E o Carlos apaixonado era um caso sério. Vestia-se a rigor, com camisa branca de colarinhos colossais, calças pretas de tirilene à boca-de-sino, meias brancas, sapatos escuros de ponta fina, cordão graúdo de ouro ao pescoço, pulseira do mesmo feitio e material, relógio luzidio e cabelo empoupado com brilhantina. Além disso encharcava-se em perfume que tinha a rara qualidade de atrair toda mosquitada das redondezas. E, depois de empunhar a sua guitarra de cordas de plástico comprada em Feces, punha-se a tange-la como se fosse o vivo demónio em figura de músico de rock. Escusado será dizer que o Carlos não conseguia afinar o instrumento e muito menos tirar dele uma única nota ou acorde que estivesse com as mais elementares regras e leis da música. Podemos mesmo afirmar que ele tinha ainda menos jeito para a música do que para o futebol. Mas nenhum desses equívocos o demovia das suas serenatas quotidianas.


Postados na varanda de casa de onde se avistava a janela iluminada do quarto da moradia da amada do Carlos, o José alumiava a figura garbosa do Carlos com um feixe de luz produzido por uma lanterna de pilhas. Nessa ocasião, o Adamo de Outeiro Raso começava a fustigar as cordas da viola e a entoar suspeitos versos das cantigas do seu ídolo numa imitação mais que duvidosa de francês que alcançava unir na mesma conjuntura, e num coro imenso, a ululação solidária de todos os cães da aldeia, um que outro uivo que bem podia ser de lobo, ou mesmo o regougar de vários raposos ou raposas, pois para o efeito tanto vale. E o Carlos cantava a primeira a segunda e a terceira canções com a mesma coragem e denodo com que deixava entrar a bola na baliza que supostamente defendia. Fazia mesmo vários encores por noite. Só desistia quando ficava rouco ou se finava a amarela luz do foco. 


Deitava-se sempre exausto, mas só adormecia depois de realçar a beleza da sua amada, que por acaso era muito pouco prendada (mas quem feio ama bonito lhe parece), e depois de lhe enaltecer as virtudes e de insistir com o José para lhe confessar, debaixo de juramento, se via alguma virtude nas esforçadas serenatas. O José, depois de jurar por tudo quanto era sagrado que dizia a verdade e só a verdade e mais nada do que verdade, confirmava todas as ilusões do amigo, dado que os amigos são para as ocasiões, pois era fiel ao provérbio de cariz popular: quem muito jura muito mente.

 


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Quinta-feira, 6 de Setembro de 2012

Afinando a pontaria


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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012

O Poema Infinito (110): fotografando a loucura

 

Enquanto fotografo a tua respiração em braçadas alusivas de luz respiro a escrita imóvel da delicadeza num discurso firme de brancos graves. Esse é o discurso mortal da vertigem e do eterno odor da caligrafia que escaldava as nossas mãos de crianças temerárias e inocentes. Presentemente a escrita afoga-se à velocidade das imagens lentas da crueldade humana. Por isso é que a idade é agora uma sintaxe feroz. Por isso é que o álcool já nos arde nos olhos e nos dilacera as mãos e a memória e o desejo. O pensamento é um buraco negro repleto de energia cósmica que nos encharca a cabeça de recordações. E eu fotografo o momento e o teu ar atormentado que repousa nele como uma ave cansada dos voos sucessivos dos dias. Toda a doçura é costurada pela ameaça da morte. E as noites injetam furos na memória e a memória semeia vírgulas no discurso e o discurso imprime fotografias que são cabeças quietas pela sede do desejo. E o desejo transforma-se numa paisagem lunar. E os princípios são ainda discursos de granito. E pesam. E condicionam. E limitam. Mas essa é a sua lei natural. E por isso as palavras fervem-nos na boca, na sua obstinada luminescência de estrelas. A manhã nasce já na sua obstinada geometria arrefecida. É uma manhã de sopro azul resplandecente de vazio e vagar, pousada na sua propensão para a levitação. O diminuto tempo da infância assalta-nos na sua definitiva ausência. E por isso ainda morremos mais um pouco. E ainda um pouquinho mais enquanto choramos lágrimas pequeninas como orvalho. Esperamos sentados pela convulsa energia do desaparecimento. Presto novamente atenção ao teu olhar que é uma clareira de energia matinal. Presto atenção aos teus olhos vivos de verde luminescente na sua textura relampejante. A fotografia que deles tiro incendeia o sensor. As figuras estabelecem-se nos seus pontos rutilantes. E fixam o odor, a lentidão tremenda das fragrâncias. O espírito apreende agora o labor da luz. Deus é agora uma fotografia a preto e branco, fixada pelos seus filtros de cor: tom turquesa, laranja, amarelo e vermelho. Os sons sobem pelos nossos corpos como água fresca. A casa alarga-se. A casa alaga-se. A casa desaparece na sua fixa inutilidade. À medida que envelhecemos cresce dentro de nós uma renovada iluminação. Uma iluminação de vozes perpétuas. Por isso é que atualmente as flores passeiam em redor dos caminhos abandonados. Por isso é que as minhas fotografias fixam as paisagens delirantes e as árvores presas às pessoas e as pessoas presas umas às outras como cogumelos coerentes e belos. E quanto mais belos mais coerentes e venenosos. Quando são pixeladas, as pessoas ganham auréolas divinas e começam a respirar pelos diminutos buracos do sensor. E começam a ficar com a pele transparente e começam a respirar luz. E enlouquecem. E depois espalham pelo espaço circundante sons apaixonados e emitem vozes longas e desaguam no azul infinito e ardem no éter. E transformam-se em paredões de luz e fervem e celebram a morte no seu áspero enlevo de caducidade. 


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Terça-feira, 4 de Setembro de 2012

Jogadores de fito


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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012

Três pequeninas homenagens a Robert Walser [rep]


1 - O louco e a tartaruga

 

Na minha rua há um louco que não parece nada louco. Só que é louco. Mas não se pode assegurar qual é a sua loucura. Todos sabemos bem que ele é louco, mas ninguém sabe de ciência certa quando é que assim ficou. Para dizer a verdade, nós, os seus vizinhos, nem sequer sabemos bem quem ele é. Só sabemos que é louco. E é o próprio quem o declara quando se põe a gritar à janela do seu quarto, principalmente nas noites de Verão. Ele diz que é louco. E tem mesmo ar de louco e olhar de louco e andar de louco e fama de louco. Por isso é louco. Tem de ser louco. Se não fosse louco não dizia que era louco nem se comportava como tal. Sai todos os dias para o trabalho vestido a rigor, transporta sempre uma pasta de cabedal e pela trela leva uma tartaruga das grandes. Sai pela madrugada de casa. Não é que comece a trabalhar cedo, nem o seu local de trabalho diste muito da sua residência. O que lhe leva muito tempo é a viagem com a tartaruga. Mas ele não se desfaz dela, nem a puxa com força, nem lhe ralha e muito menos lhe bate. Muito pelo contrário, tem-lhe muito carinho e dedica-lhe uma atenção deveras especial. A tartaruga também lho retribui. Não faz barulho nenhum, não morde as pessoas, não cheira mal, não protesta, nem lhe dá muito trabalho. Mas, ao contrário do seu dono, a tartaruga é normal. Não ostenta o ar esgazeado do seu proprietário. Revela, até, uma aparência muito natural. Parece mesmo aquilo que é: uma tartaruga comum. É tão normal que passa dias inteiros a ver televisão. Mas televisão generalista. As outras assustam-na com os programas científicos, ou culturais, ou informativos. Ela adora telenovelas e filmes de ação. Também não desdenha de se entreter a ver jogos de futebol, especialmente os do campeonato português. Os dos outros fazem-lhe prejuízo. Um dia o louco, porque detesta futebol, especialmente o nosso, tentou, por três vezes, mostrar-lhe jogos do futebol inglês, só que a pobre criatura marinha ficou tão agitada com a diferença de movimento que tentou subir para as costas do patrão e, no intento, desequilibrou-se, caiu e ficou de pernas para o ar, o que, na sua espécie, significa morte certa, dado que as tartarugas não se conseguem virar, morrendo por isso à fome e à sede. Tão amedrontada ficou que agora só vê televisão no seu quarto e não permite que nessas alturas o louco se aproxime do aparelho. Para gáudio do celerado, o bicho aprendeu a cantar modas alentejanas e, nas noites de Primavera, quando as macieiras se enchem de flores, entoa aqueles cantares lentos e monocórdicos com muito sentido e oportunidade. Por isso é o animal do louco um bicho de estimação muito considerado na vizinhança e querido pelas crianças e velhinhos do bairro. Um grupo de senhoras muito devotas e dadas às coisas da igreja está mesmo a pensar apresentar queixa à sociedade protetora dos animais com a intenção de a libertar do louco e levá-la para uma instituição de caridade, considerando mesmo a hipótese de a integrar no coro que canta nas missas, pois, na sua opinião avalizada, quem canta canções alentejanas com tanta propriedade, melhor entoará lindas canções de júbilo cristão.

 

2 - Para o infinito e mais além


Foi ao amanhecer que o meu pintassilgo morreu. Estava velho, deprimido e exausto. Mas foi a pressa quem o matou. Faleceu mesmo à beira da liberdade. Durante a noite alguém se esqueceu de fechar a portinhola da gaiola. Ele então saiu do cárcere e esperou pacientemente pelo nascer do dia na esperança de que alguém lhe abrisse a porta da cozinha para assim conquistar a brisa e voar rumo ao céu azul e infinito. No preciso momento em que a avó Matilde abriu a porta, a inocente ave, obcecada com a perspetiva do desenlace, distraiu-se e foi então quando o gato da vizinha, que é muito lambareiro e oportunista, o abocanhou e imediatamente se pôs em fuga, desaparecendo no labirinto das ruas do bairro. Nada pudemos fazer. Só lamentar o sucedido.

 

3 - Reflexões de um cão ou do seu dono

 

Sim, hoje vou passeá-lo. É que está já um pouco obeso. Por isso tenho de o levar a dar uma volta. Mas não posso puxar muito por ele, pois já tem alguma idade e pode sentir-se mal. Tem que fazer algum exercício, mas com regra. Também sofre de asma e o seu coração já revela alguns problemas. É gordura a mais e exercício a menos. Tenho de vos confessar que ele gosta pouco de sair, prefere ver televisão ou ficar deitado no sofá a dormir. Só o faz porque eu o forço a isso. Ou melhor, porque me ponho inquieto. E quando estou inquieto ele também fica. E depois põe-se a andar de um lado para o outro como se tivesse muita vontade de urinar. Ele já não urina como urinava. Agora custa-lhe mais. Também já respira com alguma dificuldade. E tem gases. A velhice é complicada. Mas, no fundo, nós toleramo-nos, compreendemo-nos e conseguimos viver juntos sem grandes dramas. Conhecemos os defeitos e as qualidades de cada um. Sobretudo fazemos companhia um ao outro. Ele sente-se muito sozinho. E eu também. Somos uns solitários. Ele ressona e agita-se muito durante o sono. Ele não sonha, sofre. É tudo muito complicado. Temos uma vida simples mas uma memória sofrida. Por vezes os vizinhos queixam-se dos uivos durante a noite, ou dos roncos, ou dos gritos, ou dos gemidos. Nós também temos queixas dos nossos vizinhos mas preferimos ficar calados. Tudo nos envolve. Ou, dito de outro modo, deixamo-nos envolver por tudo. Somos muito senhores do nosso nariz, mas custa-nos muito adormecer nas noites de verão. E também nos custa dormir nas noites frias de inverno. É tudo uma aflição. Ou nos incomoda o calor, ou nos apoquenta o frio. Os nossos desejos são muito inconstantes. Se está frio suspiramos pelo calor. Se está calor pensamos com agrado no frio de inverno. Se está sol desejamos a chuva. E se está a chover clamamos por dias secos e solarengos. Se estamos em casa queremos sair. Se andamos a passear desejamos regressar rapidamente à preguiça do sofá. Ainda agora mesmo saímos de casa para o passeio da tarde e já estamos a pensar em regressar. Pesam-nos muito os membros. E o rabo. E a barriga. Pesa-nos também muito a letargia.


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Domingo, 2 de Setembro de 2012

A ver a procissão passar


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Sábado, 1 de Setembro de 2012

Pegar no andor


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