Quarta-feira, 31 de Outubro de 2012

O Poema Infinito (117): a luz e o enigma

 

A madrugada repousa nas horas que vão subindo pelo rio. E a encosta do monte procura o seu sentido no sossego. Sinto o ritmo dos teus olhos dançando contra a cor dourada da luz filtrada pelas folhas das árvores. Vai ser precisa outra manhã para entardecer de novo. O repouso do rio afeta a claridade do silêncio. Todo este lugar convoca a evidência que repousa nas nossas mãos. Mais uma noite antiga regressa ao futuro. Aparecem-nos os nomes na sua aproximação longínqua. E voam como aves que se aproximam do seu exílio de ar e azul. Todo o pensamento brilha e expende-se sacudindo os campos e as metáforas e a paciência. E a dor oculta-se. Prometo-te que estudarei a origem das enxurradas de luz. E o próprio lume. E a fosforescência dos surtos de energia. E os rumores da chuva. E a paciência da morte. E os alicerces das ventanias. E estudarei as ruínas da civilização ocidental. E ainda a expansão massiva da nossa vacuidade. Sei que novamente as palavras desencadearão tempestades e guerras. Dizes-me: Toda a paciência é sobrenatural. Por isso as cotovias trazem a noite e com ela atravessam a luminosidade dos vitrais dos templos. A madrugada tem ainda mais luz e as nuvens brilham na sua resignação húmida. Lá ao longe os espíritos movem-se rapidamente acompanhando mais uma das infinitas ressurreições de Jesus. E ele brilha dentro do trabalho que continua a ter para ser e parecer humilde. E sofre e ilumina-se, contrariando a intensificação do vento. E os homens estudam a sua condição de girândolas quânticas dispersas pelos grãos de areia do deserto universal. Falo agora deitado sobre a superfície das águas e o tempo varre as palavras que me saem das mãos. E os sentimentos redemoinham enviesados nas suas causas e nos seus efeitos. Velhos artífices tornam lúcido o seu ofício e entardecem com o tempo. E o silêncio torna a estender-se. E o nevoeiro ganha a sua saudosa transparência. E a luz pousa como uma ave. E os anjos voluptuosos analisam a sua inultrapassável velocidade. E partem de novo com tudo resolvido. E a sua velocíssima imagem entra no tempo. E o tempo desfaz-se. Para lá do espaço há sempre mais um bocado de espaço e depois deste outro se lhe segue e outro e ainda outro até as palavras se transformarem em números e serem infinitas. E assim infinitas transformam-se num enigma. E o enigma esconde-se dentro de outro enigma e este esconde-se dentro de outro até serem infinitos e se transformarem em Deus de todas as coisas que também é o Deus de coisa nenhuma. Agora a abundância dos milagres do seu filho multiplica a desgraça dos famintos. E os famintos riem-se, pois estão sempre escondidos dentro das suas necessidades. Deus elucida-os, falando-lhes sempre mais uma vez através do seu filho. E eles escondem-se ainda mais dentro das palavras e dentro dos enigmas e voltam a sorrir. Tal como o Universo e como Deus, também a estupidez é infinita. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 30 de Outubro de 2012

Movimentos I


publicado por João Madureira às 07:45
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 29 de Outubro de 2012

Pérolas e diamantes (9): Mo Yan, não fales

 

Veio nos jornais que o novo Prémio Nobel da Literatura, quando, lá na sua distante cidade de Gaomi, no leste da China, foi informado da feliz novidade terá dito “fiquei radiante e assustado”.

 

Na justificação sucinta dos atributos do autor, o júri destacou o “realismo alucinatório” da sua escrita e a capacidade de fundir o imaginário dos contos populares com a História e a realidade contemporânea.

 

O nome com que assina os seus livros é Mo Yan, um pseudónimo que em português significa “não fales”. E foi isso o que mais me impressionou. Assim, à primeira vista, não encontrei razão explícita para o facto. Mas nem tudo tem um fundamento evidente para existir. A seu tempo a razão das coisas costuma vir à tona, tal e qual o azeite quando o misturam com a água.

 

Também a mim me vão chegando vários apelos para que não fale. Ou, pelo menos, para que não fale de determinadas coisas. Ou, ainda, para que fale, mas não da forma como o faço. E, como os estimados leitores são testemunhas, eu cá me vou tenteando como sei e posso. Por isso falo do P.P. Coelho para não falar do… mo yan. Por isso escrevo sobre o inenarrável Relvas para não dizer nada acerca de… mo yan.

 

É que a cidade é pequena e aqui as forças do poder, e os homens das decisões, pela calada dos gabinetes, sempre pela calada dos gabinetes, batem duro e forte. Castigam as pessoas, discriminam instituições, destituem adversários, perseguem concorrentes e indiferenciam as pessoas competentes e de qualidade. E sempre pela costas. Na sombra dos gabinetes. Sempre na sombra. E pelas costas. Na calada dos gabinetes.

 

Eu até podia, e queria, falar do presidente da comissão política do PSD de Chaves (sim, ainda é António Cabeleira) e da sua patética declaração de que, com a sua proposta de reorganização do território, ele pretende “salvar freguesias do concelho”.

 

Lá poder podia e querer também queria, mas, na realidade, não posso. É que a cidade é pequena e está sujeita a um torniquete político e ideológico que a torna sufocante. Apetecia-me dizer que as palavras do vice-presidente da Câmara são uma verdadeira provo…

 

Alto lá. Eu não devo falar de determinadas coisas. Ou, pelo menos, não devo fazê-lo da forma como o faço. Sendo quase insignificante, senão mesmo insignificante, em termos sociais e políticos, dizem que não sou controlável. Ora porra, e eu a pensar que sim. Então eu não fiz tudo o que devia fazer? Não disse tudo o que era conveniente dizer? Não sorri quando devia? Não condescendi na altura certa? Não me portei bem ao jantar? Não comi com os talheres adequados? Não fiz conversa de salão? Não disse aquilo que de mim exigiam e esperavam no momento certo e na altura adequada?

 

Ah, então foi isso! A verdade nem sempre interessa, ou, pelo menos, não interessa assim despida e nua, assim pura e cristalina. A verdade nem sempre é conveniente.

 

Pois, como vos ia dizendo, eu até podia falar do buraco, do enorme buraco, que persiste por detrás do Faustino e onde dizem que vão construir um parque de estacionamento. Mas… mo yan. Assim é melhor. O que não é falado não é lembrado e eu agora penso mais na vidinha.

 

Também com a crise que por aí vai, o melhor é comer e calar. O que é que adianta uma pessoa estar para aqui a chatear-se. Tudo está no seu devido lugar. Os impostos a subir e o poder de compra a baixar. Mas a quem é que isso interessa?

 

Por exemplo, leio no “Expresso” que para um jantar com os amigos (e eles são tantos e tão bons, não os jantares, claro está, mas os amigos), o seu especialista enólogo recomenda um belíssimo vinho tinto da região do Douro, ao módico preço de 28 euros, que deve ser apreciado, e passo a citar, “num repasto onde entrem carnes fortes, de caça de pena (perdizes, que estamos agora na época delas) ou de pelo (lebres e coelhos)”.

 

Ah, e por falar em Coelho, Miguel Sousa Tavares escreveu também no mesmo jornal que “já tivemos maus e muito maus governos, mas jamais tínhamos tido um Governo tão incompetente e tão mal preparado para governar”. O que me levou a fazer a analogia com o que se relaciona com a nossa autarquia, pois também já tivemos más Câmaras, mas nunca tivemos uma Câmara tão in… (olha os apelos para que não fales) com… (ou, pelo menos, para que não fales de determinadas coisas) pe… (ou, ainda, para que fales, mas não da forma que o fazes) ten… mo yan.

 

Lá tentar, tentaste, mas controlaste-te a tempo. Afinal és controlável. Com um bocadinho de jeito, também consegues. Bravo.

 

Com vossa licença, volto aos vinhos. João Paulo Martins, ainda no mesmo semanário, escreve que é um mito o queijo da Serra acompanhar-se com vinho tinto. Pois, apesar de estarmos na controversa zona dos gostos pessoais, e após provar este queijo com vinhos brancos estagiados em madeira, é provável que não se volte ao tinto. E a mesma ideia é válida para os outros queijos amanteigados, como o de Azeitão e o de Serpa.

 

No meio da polémica, pus-me a pensar que teimar na ideia de que um presidente da Câmara quando se vai embora tem de deixar o seu vice a governar é um mito. E dos maus. E um mito que já deu provas de ser meio caminho andado para o fracasso. Todos nos lembramos de Alexandre Chaves ter teimado em deixar na sua cadeira o seu delfim. E viu os seus intentos destroçados. (Olha os apelos para que não fales…) Também João Batista está a tentar seguir o mesmo caminho. (Ou, pelo menos, para que não fales de determinadas coisas...) Dizem na minha terra que só os… (ou ainda, para que fales, mas não da forma que o fazes…) só os… mo yan.

 

Eu sei que Altamiro Claro e António Cabeleira são pessoas distintas. No entanto também sei que escolher entre um e outro é entrar na controversa zona dos gostos pessoais. Mas eu não tenho receio nenhum em afirmar que gosto mais de vinho tinto a acompanhar o queijo da Serra.

 

Outra treta, relacionada com o vinho, claro está, é que à mesa o copo maior é para a água. Mas lá está João Paulo Martins para nos desfazer de novo o mito, ou melhor, o erro. A água não requer, nem beneficia, de um copo grande. O vinho, pelo contrário, pode melhorar enormemente. Por isso é que eu acho que a candidatura do António Cabeleira não beneficia nada em ser servida em copo grande. Reúne todas as condições para ser servida em copo pequeno. É que a água nem tem sabor, nem cheiro, nem cor. Além disso, quem é que ainda acredita no putati… mo yan.

 

Eu ainda não entendi em que momento foi que António Cabeleira julgou que tinha perfil para ser aquilo para que manifestamente não tem… (Olha os apelos para que não fales… ou, pelo menos, para que não fales de determinadas coisas... ou, ainda, para que fales, mas não da forma como o fazes…), nem nunca virá a… mo yan.

 

Na sua coluna habitual, já para o fim, o diretor do “Expresso” escreveu que “se há coisas que o país não perdoou a Sócrates foi a maquilhagem da verdade, o ‘empurrar com a barriga’, o dourar a pílula, a inconsciência otimista, as faturas adiadas.”

 

Também eu penso que os cidadãos do nosso concelho não vão perdoar a este executivo camarário a maquilhagem da ver… (olha os apelos para que não fales…), a inconsciência otimista das obras prometidas e irreali… (ou, pelo menos, para que não fales de determinadas coisas...), as faturas adiadas de uma década de desperdí… (ou ainda, para que fales, mas não da forma como o fazes…).

 

Apesar do sacrifício feito em me conter, não quero terminar sem partilhar uma sugestão do enólogo do “Expresso” sobre um vinho que devemos guardar na garrafeira. Das suas seis sugestões, eu fiquei-me pela garrafa de preço médio (apenas 30 euritos, ó crise vai-te embora, porra, e leva contigo o Relvas e põe-no a estudar e leva também o Coelho e põe-no em casa a descansar).

 

É um tinto do Douro com o nome de “Quinta do Passadouro” Reserva Tinto de 2009. E escolhi-o porque me fez lembrar António Cabeleira. E sempre por boas razões. Desde logo pelo nome que nos remete para o passado. Para um passado que queremos bem passado. Não numa referência à carne de bife, convenhamos, mas sim numa alusão à memória. Porque, bem vistas as coisas, a memória é o que fica depois de tudo.

 

Mas atentem sobretudo na telegráfica recensão. “Com base em vinhas velhas de castas misturadas, é algo agressivo enquanto novo mas evolui muito bem, tornando-se refinado passados alguns anos na garrafeira.”

 

Fora as castas misturadas, que para aqui não são chamadas, a sua “qualidade agressiva” enquanto novo não vos faz pensar em nada? Se sim, ótimo, se não amigos à mesma. Mas sempre vos digo que engendrar este texto tem-me dado uma imensa trabalheira.

 

É minha firme convicção que o vinho e o senhor vice-presidente da Câmara de Chaves possuem uma característica comum, é que se tornam refinados passados alguns anos na garrafeira. 

 

Eu, como quem não quer a coisa, já tenho a minha garrafa “Quinta do Passadouro” quietinha no lugar a refinar-se. Não sei se me entendem. O que eu quero dizer é que… (Olha os apelos para que não fales… ou, pelo menos, para que não fales de determinadas coisas... ou, ainda, para que fales, mas não da forma como o fazes…)

 

Ainda não entenderam. Pois eu quero dizer que, para a nossa terra ter futuro torna-se necessário que o putativo candidato do PSD seja colocado no… mo yan.

 

PS – A “Quinta do Passadouro”, está reservada para, daqui a uns anos, ser degustada acompanhando um queijo da Serra com o meu amigo Anselmo. E sei que nos vamos rir e apreciar o seu estágio.

 

Mas o que me levou a escrever este PS tem tudo a ver com as boas notícias. Isto para não me acusarem de bota abaixo. Finalmente Chaves ultrapassou Vila Real e é líder distrital.

 

Segundo o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), os concelhos que apresentaram maior número de desempregados em termos absolutos, são Vila Real e Chaves, 15% e 17% respetivamente. E isto no fim de Agosto, que é o mês do turismo. Ou seja o desemprego cresceu 2,46% em relação ao mês de Julho.

 

Finalmente, lideramos o distrito. E estamos à frente de Vila Real. É caso para celebramos. E pensar que devemos isto ao PSD nacional e, muito especialmente, ao PSD local, e à sua gestão autárquica, é um fator de alento e de esperança no futuro.

 

Definitivamente, João Batista e António Cabeleira merecem o nosso aplauso. E mais qualquer coisinha.


publicado por João Madureira às 07:45
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Domingo, 28 de Outubro de 2012

Passeando IV


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 27 de Outubro de 2012

Passeando III


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 26 de Outubro de 2012

O Homem Sem Memória - 131


131 – O José saiu deste encontro a ferver, não só de impaciência como também de desejo. Quanto ao desejo teve de o meter no seu devido lugar. Já a impaciência resolveu despejá-la inteirinha no Graça. Ele que se entendesse depois com o funcionário, com o Partido, com a revolução e com o Alberto Punhal e toda a cambada de políticos profissionais que não descansavam na sua tarefa de pôr o país a ferro e fogo. Portugal na forja da revolução fundia-se melhor do que o ferro. Também aqui alguém pretendia escrever o remake do livro “Assim foi temperado o aço”. Ah valentes guerreiros comunistas! Sempre a copiarem-se uns aos outros. Mas até para copiar é necessário saber.


O José tinha uma dúvida. E ela era bastante interessante. Poderia ele aceitar o convite da Isabel para fazer parte da sua lista de independentes e, muito provavelmente, derrotar a lista unitária dos estudantes comunistas?


E foi essa sua incerteza que comunicou ao Graça. E o Graça até lhe achou graça. Mais à pergunta, claro está. Mas também ao José, convenhamos. Tanta ingenuidade num ex-seminarista era caso digno de estudo e reflexão.


O José estava em pulgas. Cada vez se encontrava mais dividido entre a revolução, o Partido, a sua toleima unitária e a sua paixão independente. A Isabel era um apelo muito forte. Mas a revolução também era um assunto sério. Mesmo muito sério. Pelo menos era disso que se queria convencer, ou deixar convencer. O que vem a dar no mesmo. Já pensar de acordo com este pressuposto era outra coisa, fazia parte de uma outra realidade. Não admitia que lho dissessem, mas trocava de caras a revolução pela Isabel. Ó se trocava! Mas se o podia admitir intimamente, admiti-lo publicamente era uma desonrosa traição à revolução, mesmo que ela neste momento fosse ainda, e apenas, democrática e nacional.


“Então, posso armar-me em menino emancipado e aceitar o convite da Isabel para fazer parte da sua lista de independentes?”, perguntou a custo o José. Ao que o Graça respondeu: “Podes.” Mas ao José custava-lhe acreditar que a situação fosse assim tão clara e simples para a direção do Partido. Por isso insistiu: “Então posso mesmo dizer à Isabel que sim?” Ao que o Graça respondeu: “Podes.” “Não estás a brincar comigo, pois não?” “Eu não brinco com a política. Um comunista não se diverte com o trabalho partidário. Isso era a sigla dos fascistas da FNAT.” “Mas já falaste com o funcionário e com a comissão concelhia?” “Não, não falei.” “E porquê?” “Pois porque não é preciso. A célula de estudantes comunistas é autónoma na sua organização, nas suas tomadas de posição e nas suas decisões.” “Vá lá, poupa-me às tuas piadas.” “Acredites ou não, neste caso quem decide sou eu. E, como te disse, tens a minha autorização para concorreres na lista de independentes do Liceu.” “Mas podemos ganhar?” “Pois podeis. Ou melhor, podemos.” “Como assim?” “Olha José, o que te posso dizer é que a lista de que vais fazer parte é capaz de ter ainda mais estudantes comunistas do que a que concorre sob a nossa bandeira.” “Eu vi logo. Então já minaste a lista adversária, não é?” “Os comunistas são os mestres do disfarce.” “Talvez queiras antes dizer os campeões da dissimulação. Os…” “Os líderes do movimento estudantil unitário, queres tu dizer.” “És um embusteiro.” “Eu prefiro pensar que sou um comunista sincero e um revolucionário consequente.” “Então e a verdade?” “Qual verdade?” “A verdade revolucionária.” “Ah! Essa. Mais importante do que a verdade é a revolução. E a revolução não se pode sujeitar ao jogo da burguesia. As eleições são uma mascarada. Nesse jogo sujo todas as estratégias são permitidas. Vão concorrer quatro listas: a nossa, a dos independentes, que também é nossa, a dos socialistas e ainda a da direita. Se apenas fossem a votos a nossa, a dos socialistas e a da direita, quase de certeza que a dos socialistas ganhava por causa do voto útil da direita na sua lista. Com a entrada na disputa da lista dos independentes, o voto de direita vai ser preferencialmente transferido para a lista da Isabel, bem assim como o da grande parte dos simpatizantes socialistas que gostam mais da tua amada do que de chocolate. A verdade é que a lista independente é constituída por militantes ou simpatizantes dos partidos da direita, dos socialistas e dos…” “…comunistas. Como estás tão bem informado és capaz de saber responder à questão que te vou colocar: Existe algum verdadeiro independente na lista dos independentes?” “Existe sim senhor.” “Quem?” “A tua amada. A Isabel.” “E eu que estava com problemas de consciência de que fosse o único infiltrado!” “Os revolucionários não têm problemas de consciência. Como o seu único objetivo é a revolução, tudo o que contribuir para a fazer triunfar é bem-vindo. Aos comunistas não interessam os meios. A nós só nos interessam os fins.” “Sendo assim, não sei se…” “Proíbo-te de dizeres disparates. Um verdadeiro revolucionário não tem dúvidas quando o que está em jogo é a vitória do seu projeto. Tudo o que nos pode colocar na senda da vitória é permitido.” “Pois que assim seja, mas eu dessa forma não sei estar.” “Se fosses tu o único infiltrado, concedias-te o direito de fazer jogo duplo e armares-te em vítima inocente ao serviço de uma grande causa. Assim como não o és, armas-te em desgraçadinho. Um verdadeiro revolucionário…” “Já não sei se quero ser um revolucionário e muito menos verdadeiro, pois ao que vejo a verdade por aqui anda mais torcida do que o rabo do porco da minha mãe.” “Ai José, José, quanto me custa a tua amizade.” “Se te custa, larga-a. Eu bem me amanho sozinho.” “Não te armes em vítima. Tu sabes bem o que quero dizer.” “Isto parece-me apenas um jogo de espelhos. Anda tudo a ver quem é que engana mais. Coitada da Isabel. A pensar que anda a fazer uma grande coisa, que anda a arranjar espaço para a possibilidade de um trabalho associativo mais independente e sério, fora das amarras dos partidos, e eis que todos lhe caem em cima como uma maldição.” “Ela apenas é vítima da sua ingenuidade.” “É ingenuidade querer percorrer um caminho de unidade, libertando o movimento associativo das garras dos partidos, permitindo-lhe ser livre e independente?” “Claro que é. O movimento associativo se não estiver ao serviço da revolução, está ao serviço da reação. E quem está de fora racha lenha. Então a menina queria vir lá da montanha para Névoa mandar no movimento associativo estudantil apregoando a independência? Mas independência de quê e em relação a quem? Ninguém é verdadeiramente independente. A independência política é uma farsa. Ou se está ao lado dos explorados ou dos exploradores. Não há meio caminho.” “E eu a pensar que era traidor.” “Um revolucionário só é traidor se atraiçoar a revolução. Tudo o resto são cantigas.”


Pela porta do centro de trabalho alguém entrou a cantar forte e seguido como um corridinho: “A cantiga é uma arma contra a burguesia tudo depende da bala e da pontaria tudo depende da raiva e da alegria a cantiga é uma arma contra a burguesia…”


“Hoje ao Mário “Camões” deu-lhe para a cantoria”, disse por dizer o José, para acabar de vez com a conversa de merda que estava a ter com o seu maior amigo. “Não é o Mário quem cantarola. Além disso está proibido pelo funcionário de entrar no centro de trabalho. Quem assim canta é o Aníbal “Goela Grande”. “Bom funcionário do Partido me saiu o gabirú do Porto, então proibiu de entrar na casa dos comunistas o comunista mais puro e decidido que por aqui havia? Isto não é um partido revolucionário, é um partido de burocratas e revisionistas. Se expulsam os comunistas que querem fazer a revolução, com quem é que a vão fazer?” “Contigo.” “Comigo?” “Sim, contigo. E com o Aníbal.” “A ser assim bem pode o bom e crédulo povo português esperar sentado pela revolução, pois ela nunca vai cá chegar.” “És um criticista. Cala-te lá, senão ainda te mando abater…” “Andas armado em Estaline. É?” “Mando-te abater dos ficheiros, para passares definitivamente a independente.” “Neste momento é o que mais desejo.” “És um romântico. Daqui só sais quando eu o permitir. E eu não to vou permitir nunca. Comunista uma vez, comunista para sempre.” “Com a verdade me enganas.” “Intelectual.” “E isso é um elogio ou uma crítica?” “Entre nós é um misto dos dois. Depende da entoação, do emissor e do destinatário.” “Então, decide-te lá. É um elogio ou uma crítica.” “Uma crítica, evidentemente. Pois apenas os intelectuais é que têm a mania da independência.” “Diz-me lá a verdade, quantos independentes há na lista da Isabel?” “Independentes só há um, ela e mais nenhum. Quatro são comunistas, um terno de simpatizantes mais tu; três são socialistas e apenas um é de direita. Ou seja, há um empate entre os comunistas e os outros. Quem desempata é a Isabel. Por isso é necessário que tu a controles. E, pelo que vejo e sei, ela só se deixa dirigir por quem gosta.”


De novo se ouviu: “A cantiga é uma arma contra…”, mas o Graça não deu ao Aníbal a possibilidade de acabar com a cantoria, convidando-o para ir beber cerveja ao bar do pai. 



publicado por João Madureira às 07:45
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 25 de Outubro de 2012

Passeando II


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 24 de Outubro de 2012

O Poema Infinito (117): a desordem e o silêncio


O tempo persegue o frio e o frio inquieta o tempo. E os gelos eternos incendeiam-se fragmentando o olhar dos cetáceos. Cá em baixo o vento fustiga de pavor as árvores. Uma floresta de lírios foge do silêncio da sua cor incendiada. Trago comigo ainda alguns restos do dilúvio. Por isso a vida retoma o seu plano de lucidez. Alguém canta uma ária coletiva. Estende-se a arte nos seus trágicos determinismos. Toda a terra treme. E a raiva recompõe-se no seu tempo de mão solitária. Os heróis dançam dentro da sua razão alucinada. Os mártires rodopiam numa dança de morte e abandono. E ficam cegos dentro da sua razão. A própria boca feita de uma invenção total profere a sua idade hermética. E o tempo fratura-se e nega qualquer tipo de sentimento inquietante. Os verbos da transgressão expõem-se na sua mecânica elementar. Tu chegas-me dividida em metáforas. A vontade atrai a refutada técnica dos murmúrios. Eu deslizo na folhagem suspensa da teimosia. Volto ao meu árduo trabalho de secar palavras e elas reagem como crianças doidas. O teu sorriso é agora uma ambulância psicadélica. As nuvens procuram o seu desastre iminente. Lenços de palavras dispersas fazem vigílias sonâmbulas. E abrem panos e palcos onde tocam orquestras mínimas. Uma chama crepuscular baila e brilha nos teus olhos. O templo da ilusão alastra-se numa sonolência de exemplos. Jonas continua a arfar dentro da sua baleia perpétua. Alguém semeia sorrisos na alba. Um tiro fere o consolo dos pobres. E os ricos flutuam dentro das suas bolhas milionárias. Todos os espelhos se embaciam e estilhaçam por não conseguirem suportar a beleza elástica. Dizem novamente que as armas são perguntas mortais. Os cânticos de guerra sucumbem dentro da linguagem abstrata da história. Símbolos cabalísticos avançam na noite. A multidão entrincheirada vê passar animais suspensos e comboios carregados de símbolos. Todos os povos que habitam o vale estão em festa. E dilatam-se dentro do seu espaço poético. Os reis continuam a ter fome de joias. Eu olho o vulcão que se prepara para expelir vozes. O poder desaba em cima da mesa dos deuses da terra. Uma estrada de raízes trabalha as palavras incorruptíveis. Cavalos galopam dentro do seu espaço abrupto. O tempo lava-nos o cérebro. E as mães choram arrepios de guerra. Eu invisto nas palavras com toda a vertigem do silêncio. O vulcão expele luzes. Uma árvore inundada de palavras quentes uiva e destila poemas de pânico. Eu sento-me na pedra negra do trabalho e aguardo pela noite. Os meus dedos filtram a desordem e aguardam que apareças. As horas perecem umas a seguir às outras apontando o dedo acusador aos deuses da desilusão. Esta viagem não tem fim. Esta viagem não teve princípio por isso nos remete para a sua pulsão metafísica. Toda a paciência que colecionei se esvai como água correndo pela montanha abaixo. A vida refugia-se na sua essência de contradição. Os livros do cânone regressam ao seu silêncio de sempre. As bíblias metálicas desencadeiam um terramoto de orações dentro da catedral vazia. Cristo chora sobre a sua metáfora de Deus. O meu poema infinito metamorfoseia-se em corpo sonoro de um movimento perpétuo. Renuncio ao sistema linguístico. Calo-me aos gritos. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 23 de Outubro de 2012

Passeando I


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 22 de Outubro de 2012

Pérolas e diamantes (8): O drama nacional seguido de duas boas notícias


1 – O Drama

 

Manoel de Oliveira tem um novo filme, “O Gebo e a Sombra”, feito a partir de uma peça escrita por Raul Brandão em 1923. O filme não tem efeitos especiais, tal e qual como a vida que agora nos toca viver.

 

Todo o filme é de uma atualidade acutilante, funcionando como um espelho do momento que atravessamos e que se vinha insinuando vai bem para mais de uma década.

 

Nele encontramos tudo aquilo que infernizou o nosso viver coletivo durante a já longa existência do país: o horror da pobreza, a impiedosa divisão entre castas, classes sociais e económicas e o intransponível fosso existente entre os exageradamente ricos e os ridiculamente pobres.

 

No fundo, o filme é uma crítica mordaz ao capitalismo selvagem que as elites políticas que nos governam pretendem tornar viável. E o que é trágico é que estão mesmo à beirinha de o conseguir.

 

No filme é notória a visão maniqueísta de que temos de cumprir o dever de empobrecer para conseguir sobreviver, baseada no princípio filosófico que Kant definiu como “imperativo categórico”: “O homem apenas se diferencia dos animais quando cumpre o seu dever”, o que na lógica neoliberal do governo da Nação pode ser traduzido por subir na vida à custa da luta desenfreada pela ascensão política, social e económica.

 

Convém lembrar aos mais distraídos que a ambição costuma cegar e a ambição desmedida chega mesmo a matar.

 

Saindo do filme para a realidade, basta reparar nas palavras e nos seus autores para nos apercebermos do ambiente letal que se instalou no país (diz-me como falas, dir-te-ei quem és). Por exemplo, Nuno Amado, o presidente do BCP, afirmou ao Expresso: “Vamos executar, sejam acionistas ou não”. O que na boca de um banqueiro é quase uma frase assassina.

 

Marques Mendes, ex-líder do PSD, e temível comentarista da TVI, referindo-se às últimas decisões do Governo, proferiu: “Isto não é um agravamento fiscal. É um assalto à mão armada.”Mas não se ficou por aí, logo de seguida acusou o PSD de “liquidar a classe média”. E olhem que o pequeno homem do Minho sabe bem daquilo que fala.

 

António Capucho, também ele membro destacado do PSD, admitiu, numa entrevista ao mesmo jornal, curiosamente propriedade de Pinto Balsemão, um dos fundadores do PSD, que com esta gestão danosa dos destinos do país, o PSD, se sobreviver, vai tornar-se um partido odiado.

 

Em discurso aberto, disse que o PSD se transformou numa “máquina fechada que rejeita qualquer inovação e crítica, que chama os seus fiéis e marginaliza os que têm pensamento próprio”.

 

E foi mesmo mais longe: “Não vemos (por parte do Governo) uma estratégia alternativa que permita inverter os efeitos perversos das medidas de austeridade sobre o consumo, a economia e o emprego, efeitos que são evidenciados pela preocupação orçamental.”

 

E a prova provada de que o que Capucho afirma é uma verdade incontornável vem escarrapachada nas páginas do mesmo semanário: “39 mil empresas na restauração podem fechar com IVA a 23%”, o que, segundo a Associação de Hotelaria, Restauração e Similares, significa a extinção, em apenas dois anos, de cerca de 100 mil postos de trabalho. Brilhante, pois pior é impossível. E se pensarmos que os comerciantes são a grande base eleitoral do PSD, o caso pode atingir proporções de drama identitário.

 

Concordemos que para acabar com o que resta da economia do país, é o golpe de misericórdia perfeito.

 

Claro que também há setores laborais que dão um grande contributo para o caos. O mais paradigmático é o caso da CP, que desde janeiro deste ano não teve um único dia de calendário que não fosse afetado por um qualquer pré-aviso de greve, total ou parcial. O que, convenhamos, é obra. Obra de destruição, claro está. No entanto encapotada sobre o manto diáfano de reivindicações dos trabalhadores. Num país em guerra social, anda tudo a ajudar à festa.

 

Vítor Gaspar, vendo-se acossado pelos apupos dos deputados, pelos dichotes dos comentaristas e pelas greves e manifestações dos portugueses, resolveu construir um momento dramático no parlamento ao afirmar textualmente, com a sua vozinha de menino reguila: “O povo português revelou-se o melhor povo do mundo e o melhor ativo de Portugal.”

 

A mim até as lágrimas me vieram aos olhos. De riso. Talvez nervoso, convenhamos, mas é que este tipo de gente provoca-me urticária e arrepios na espinha.

 

No entanto não quero terminar sem vos dar conta de uma boa notícia, ou melhor, duas.

 

2 - As boas notícias

 

Primeira: Veio nos jornais que uns mergulhadores descobriram 120 espécies novas nas ilhas das Berlengas, entre anémonas cor-de-rosa e peixes azuis escondidos em recifes de corais vermelhos. Descoberta que encheu de orgulho e prazer a minha costela de ecologista empedernido.

 

Segunda: O militante social-democrata, e atual presidente da junta de Santa Maria Maior, João Neves, depois de ter declarado publicamente, num jantar de autarcas do PSD flaviense, o seu apoio a António Cabeleira, com a já célebre frase: “António, tu si que vales!”, pensou melhor e resolveu anunciar ao povo do nosso concelho que vai candidatar-se à presidência da Câmara de Chaves como independente. Ou seja, mandou o valioso António às malvas.

 

Candidaturas destas só nos podem orgulhar. E quantos mais candidatos houver mais possibilidades têm os eleitores flavienses de escolher em consciência. E, quem sabe, até acertar. Então se forem todos da mesma valia de João Neves, o nosso futuro está garantido, pois, ganhe quem ganhar, quem definitivamente triunfa é a cidade, o concelho e, sobretudo, o nosso povo.

 

Candidaturas com este nível são bem o espelho do enorme prestígio de que goza a nossa autarquia. Enaltecem, por si só, o valor intrínseco com que contribuíram os três mandatos da gestão do PSD. Por isso, e como é público e notório, a autarquia flaviense é atualmente elogiada por esse país fora. E até mesmo nos Açores e na Madeira. Ah, e também nas Berlengas. Chegou mesmo a ser citada em várias reuniões da Associação de Municípios, e noutros fóruns do estilo, como um exemplo de gestão criativa, dinâmica, enérgica, carismática, financeiramente rigorosa e culturalmente exemplar.

 

Por isso o comércio local está em plena recuperação, a cidade fervilha de dinâmica turística, o nosso património histórico é um exemplo de recuperação e conservação, a nossa população jovem arranja empregos com facilidade, muito pela ação dinamizadora e empreendedora do nosso vice-camarário, o Pólo da UTAD viu muito recentemente os cursos a aumentar, as ruas estão limpas, os jovens têm propostas culturais interessantes, o centro da cidade é, durante a noite, um exemplo de civismo, paz e amizade, as obras prometidas estão em andamento, o parque de estacionamento no centro da cidade é uma nova e encorajadora realidade e o pavilhão multiusos vai possibilitar fazer a Feira dos Santos dentro de portas e com a dignidade que nunca teve.

 

Estamos também em condições de adiantar aos nossos estimados leitores que nos pavilhões desportivos que atualmente se encontram em construção, a autarquia vai levar a efeito os campeonatos europeus de berlinde, matraquilhos, jogo do pião, bilharda, fito e setas.

 

Vão realizar-se, ainda durante os próximos meses, bem à semelhança das que foram organizadas em anos anteriores, e com o sucesso que todos sabemos, a Feira do Mel, a Feira do Presunto de Chaves, a Feira do Pastel de Chaves, seguida de várias exposições de pintura, simpósios e até um congresso internacional, a Feira das Águas Termais, a Feira do Vinho, a Feira das Procissões, que contará sempre com a presença do Senhor Bispo de Vila Real, com a do excelentíssimo senhor presidente da Câmara de Chaves, com a do digníssimo senhor vereador/vice-presidente e putativo candidato António Cabeleira, bem como a excelentíssima esposa do segundo.

 

Foram especialmente convidados a fotografar esta feira para a posteridade, os membros da Associação de Fotografia Lumbudus. Para o final está agendada uma exposição fotográfica inaugurativa da nova sala de exposições do antigo Cineteatro de Chaves (transformado em edifício cultural multiusos), gentilmente cedida pelo senhor presidente da Câmara à dinâmica associação, como cumprimento de uma promessa feita há cerca de dois anos aos elementos da sua direção, em reunião formal concedida com esse mesmo propósito.

 

Peço desculpa, mas tenho de interromper aqui a narrativa, pois o senhor diretor do Notícias de Chaves pediu-me para ser um pouco mais poupado nas palavras. É que o espaço não sobra e, além disso, custa bom dinheiro. E dinheiro é o que mais falta nos bolsos da gente séria e trabalhadora.

 

Para a semana há mais novidades. Penso eu. Isto se o senhor primeiro-ministro permitir e o senhor presidente da câmara de Chaves e seu respetivo vice não se importarem.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
|
Domingo, 21 de Outubro de 2012

Fonte de mergulho


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 20 de Outubro de 2012

Mulher andando


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 19 de Outubro de 2012

O Homem Sem Memória - 130


130 – O José, mesmo não tendo muito feitio para o futebol, não podia recusar jogar ou torcer pela sua equipa, facto que não o safava de, mesmo triunfando sempre, como já vos demos a devida conta, apanhar porrada e confraternizar com os seus.


Mas o que verdadeiramente custava era que tais disputas lhe estragassem a vestimenta e, muitas das vezes, o obrigassem a ir ao barbeiro cortar o cabelo, que usava comprido, porque os bárbaros lhe tinham arrancado mais uma mão cheia dele. Os olhos à belenenses disfarçava-os com uns óculos escuros comprados baratos na festa do São Caetano e que estavam tão riscados que com eles postos mal conseguia enxergar as pessoas.


Por essas alturas limitava-se a fazer o percurso de casa para escola e da escola para casa. Nem ao Partido ia. O que começou a ser suspeito. Comunista que falta às reuniões não é comunista nem é nada. É um diletante, um pequeno burguês de fachada socialista.


A razão de tal afronta ideológica devia-se ao facto de uma camarada da célula estudantil lhe andar a fazer olhinhos. Mas, apesar de ser uma excelente estudante, e uma comunista exemplar, como espécime feminino era de uma reacionarice perversa e irritante. Ele, entalado entre a ideologia e a estética, resolveu meter baixa revolucionária por uns tempos. Baixa oficial, pois passou à clandestinidade. Uma clandestinidade temporária em regime democrático, convenhamos, mas, mesmo assim, clandestinidade.


Foi destacado, com o beneplácito do Partido, e com o conhecimento, controle e supervisão do Graça, e do nosso conhecido e estimado funcionário, a infiltrar-se nos movimentos estudantis sob o disfarce de independente. Dissimulação que lhe assentava como uma luva. No fundo, o José, a ser alguma coisa, era um verdadeiro independente. Possivelmente um simpatizante da ideologia comunista, fosse lá isso o que fosse em termos práticos, mas um militante marcadamente independente. De facto, o José gostava de militar com todos: comunistas, borguistas, socialistas, ciclistas, esquerdistas, ilusionistas, anarquistas e até um que outro reacionário dos bons. Ou mesmo um mau fascista. Não confundir com um fascista mau, pois com gente desse tipo não se brinca. Desde logo porque não sabem brincar. Esse género de pessoas leva tudo demasiado a sério.


A primeira investida foi conquistar uma rapariga que começou a dar nas vistas como líder de uma significativa fação estudantil suficientemente autónoma para chamar a atenção dos que o não eram. Os líderes independentes eram o quebra-cabeças dos comunistas. Detestavam-nos ainda mais do que aos trotskistas.


O primeiro passo consistiu no arranjo de um disfarce. O José deixou de usar calças de ganga, botas alentejanas e casaca de pana castanha, para envergar calças à boca-de-sino de terylene preto impecavelmente engomadas, camisa de colarinho à bifes, aberta no peito, casaco de aba larga aos quadrados very british e nos pés calçou uns sapatos de salto alto que lhe acrescentavam para aí mais uns dez centímetros.


Disseram ao José que os independentes são, regra geral, bem mais altos do que as pessoas consideradas normais. Mas enganaram-no, pois os independentes são de estatura média, como todos bem sabemos.


Assim disfarçado, e engolindo em seco o ridículo, começou a rondar o corredor onde a sua presa reunia com as seguidoras, os admiradores e os muitos e curiosos auditores. O independente José tornou-se um deles.


Alçado nos seus sapatos de salto alto, por isso ainda mais alto do que a sua altura já bem alta, deu logo nas vistas. A líder dos independentes, como quem não quer a coisa, tratou logo de o seduzir. O José deixou-se ir, mas devagar e a seu modo, para não dar nas vistas e deitar tudo a perder. Reconhecido como intrépido comunista, não era fácil, de repente, aparecer como independente. Mesmo que de esquerda. Porque se agora se afirmasse independente, e de direita, ninguém ia acreditar nele. Mesmo a mentira tem de ser coerente e estar conforme os princípios da razoabilidade.


No início ouviu a rapariga discursar, com a sua dicção de sopinha de massa, sobre coisas que até faziam algum sentido. Que os partidos e as suas organizações estudantis estavam a dar cabo do movimento associativo, a estragar as relações sãs e fraternas existentes entre os estudantes, dividindo tudo entre direita e esquerda, entre revolucionários e reacionários, entre bons e maus, entre marrões e mandriões, entre calaceiros e copinhos de leite, como se tudo não passasse de uma luta tribal entre clãs inimigos. Era muito explícita quando referia que o dever de um estudante era estudar, não vadiar com o falso pretexto de que era necessário fazer uma revolução ou uma contrarrevolução, que estava farta de greves, de reuniões de alunos, de saneamento de professores, de guerras entre listas de estudantes. Ela defendia que era necessário criar paz e tranquilidade nas escolas, que deixassem os professores ensinar e os alunos aprender. Além disso, como era de longe, ela e tantos outros que ali estudavam, tudo se lhes tornava mais difícil. As viagens, a estadia, o aluguer do quarto, a vida solitária e as dificuldades de integração e de relação constituíam um sacrifício que devia ser tido em linha de conta. Enquanto os que viviam na cidade só pensavam em divertir-se, fumar, beber e dançar.


A tudo o José dizia que sim, acenando com a cabeça, e até batendo palmas quando disso achava necessidade. A rapariga falava e o José apoiava. E quanto mais a rapariga falava mais o José apoiava. E quanto mais o José apoiava mais a rapariga falava. E tanto a apoiou que viu os seus intentos resultarem. A dialética tinha que dar os seus frutos.


Num intervalo da manhã, quando foi ver se a rapariga estava a falar aos estudantes, reparou, com agrado, que ela estava à sua espera para lhe fazer um convite. Disse-lhe que necessitava de falar com ele. Marcou-lhe encontro para aquela noite.


E foi nessa mesma noite que se encontraram. Ele mostrou-se curioso, mas não deu ares de muito entusiasmo. A independência a isso o obrigava. Mas a verdade é que a rapariga lhe tinha caído no goto. Não sendo propriamente uma moça bonita, era, no entanto, muito expressiva, não só na maneira de falar, como também nos trejeitos que ia dando ao corpo à maneira que ia discursando. E quanto mais discursava mais se meneava, quase como se dançasse. Tinha um corpo bem torneado, cinta fina, ancas largas, coxas roliças e bem estruturadas. Os seios, no entanto, eram talvez um nadinha pequenos para o gosto do José. Mas a perfeição também é coisa que não existe, muito menos numa cidade de província nos saudosos anos setenta.


Foi no Sport que conversaram calmamente. Ela perguntou-lhe se a sua independência era verdadeira, ou fingida, como a tinham avisado os seus colegas de grupo. Ele respondeu-lhe que sim. Ela insistiu. E ele também insistiu na mentira. Mas desde esse momento ficou intimamente dividido entre a verdade e a amizade, prometendo a si próprio que mais dia, menos dia, tinha mesmo de se tornar um verdadeiro independente.


Por agora, o que estava a dizer podia até ser mentira, mas depressa a mentira passaria a ser verdade. Só uma mentira verdadeira, intencional, decidida, pensada e bem digerida é passível de se transformar em verdade. E como apenas ele estava ao corrente da sua intenção, a contradição, mesmo que objetiva, da sua infiltração política, tinha de vir a dar os seus frutos. A informação é poder, e o aprendiz de feiticeiro estava na posse dela toda. Além disso, quando se mente a toda a gente é como se não se minta a ninguém. E ele sabia que conseguia ser fiel a si próprio.


Por isso mentiu-lhe com toda a sinceridade do mundo. E ela foi sensível a esse facto. O que o José dizia era tão sentido, tão bem dito, tão autêntico, que pouco interessava se era verdade ou mentira.


Ela pensou que se ele fosse um comunista armado em independente até podia ser útil. Um comunista isolado é um revolucionário sitiado, faz barulho, barafusta, incomoda, persiste, mas acaba sempre por ser derrotado pela sua própria razão. Foi a razão dos comunistas, aquilo que os derrotou. Ai não sabiam? Pois ficam a saber. Também têm de apreender alguma coisa com este relato.


Ela deu-lhe conta da sua intenção em concorrer à direção da associação de estudantes liderando uma lista de independentes. Estava ali para o convidar a fazer parte dela. Ele respondeu-lhe que tinha de pensar, pois estava firmemente decidido a estudar, daí o ter abandonado a política e o Partido Comunista. Era do seu conhecimento que o trabalho numa associação deste tipo é exigente e rouba muito tempo aos estudos. Ela riu-se muito, mas mesmo muito, meneando o seu corpo como se estivesse a discursar, mostrando, talvez inadvertidamente, uma parte substancialmente apetitosa das suas coxas, encimadas com uma minissaia mesmo muito coerente com a sua denominação. Ele até corou de desejo. E ela sentiu-o, com agrado.


Com a sua intuição de fêmea, deu a sessão por terminada, levantou-se e preparou-se para sair. Ele ofereceu-se para a acompanhar até casa. Ela aceitou e aproveitou para insistir no seu convite, tendo em vista aquilatar da veracidade da sua independência. Mas o José insistiu no mesmo. Nos estudos. Ela tornou a sorrir e desta vez disse-lhe que se ria porque estava a ser vítima do seu próprio argumento. Ele também sorriu e disse que só uma boa ideia pode ter bons seguidores. E atreveu-se a ser mais direto: “Talvez essa seja uma oportunidade para podermos estudar juntos!” “Talvez”, respondeu-lhe entrando em casa depois de lhe dar um beijo na cara. Ainda antes de fechar a porta teve tempo para informar: “Quem pensa antes decidir é uma pessoa avisada. Não devemos reagir motivados por impulsos. A precipitação é má conselheira.”


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 18 de Outubro de 2012

Ao portão da igreja


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 17 de Outubro de 2012

O Poema Infinito (116): o desejo e a indiferença


Na concha orvalhada da tua boca refresco a minha e penso em números mágicos que programam a memória dos dias e que resistem ao ciclo das águas, ao estado do tempo e aos olhares fixos dos retratos, por isso sinto o peso do teu olhar e o teu sorriso que faz com que o meu não me caiba no rosto e sinto que as minhas mãos improvisam um voo de pássaro enquanto na minha alma a paixão desencadeia uma imprevista meteorologia de arco-íris e chuva cintilante. Hoje a noite vai tardar a chegar e não terá sombras como habitualmente. Pelos mesmos motivos irrompe do nosso corpo um outro corpo de palavras que moram no silêncio do seu segredo. Os dedos que escrevem por dentro das palavras murmuram e espalham sementes de densidade variável. E os sonhos amanhecem dentro de outros sonhos. E gemem e perseguem o rasto dos cometas. E atravessam o silêncio da nossa morada erguida dentro do crepúsculo que é agora a nossa nova realidade. Um aroma de vinho desprende-se do teu sexo e junta-se ao mel que as abelhas depositam no meu. Uma consolação iluminada pela tua pressentida frescura toma conta das açucenas. E as flores são agora uma nova aventura onde a poeira de estrelas dos nossos antepassados cai suavemente. E os pássaros rasgam o azul e vagueiam no vento e depois vêm abrigar-se no nosso peito. O sol do meio-dia queima nas nossas bocas e por isso escolho um esboço para o teu cabelo. Ao longe o rio inclina-se como um desenho determinado de ilusão. Amieiros debruçam-se sobre os nossos corpos nus. E daí nasce uma subtil visão. Nos nossos lábios uma alegria líquida dá lugar ao desejo. Esmagamos hortelã bravia contra os nossos rostos e a sua seiva desenha fios de prazer. Alguém prepara fogueiras no campo e em todos os relógios as horas param, o fogo separa-se do segredo das chamas e procura uma combustão lenta. Os nossos sexos flutuam numa efervescência frágil. Uma espessura de alba define agora as brumas que explicam o sol da meia-noite e os fogos-fátuos e as auroras boreais. A natureza explode dentro do seu eterno segredo. É um segredo dentro de outro segredo e este ainda dentro de outro. Hoje é o sexto dia da criação e nele mora o silêncio do sétimo. E Deus anota o nome dos novos símbolos da vida: ternura, melancolia, tristeza, desejo e morte. E anota os nomes dos mares mais penetrantes e os nomes dos insetos que cortam e copiam as cores da natureza. E mantêm-se dentro da sua imobilidade absoluta de pedras profundas.  E projetam falésias onde se escondem os rostos desenhados pelo vento e recolhem a dor da penumbra quando anoitece. E releem tudo de novo para não se enganarem. Mas enganam-se na mesma e por isso anunciam a noite e espiam as estrelas e fecham os olhos quando eu te possuo. E lamentam-se. E lamentam-nos. E despem-nos. E indiferenciam-nos. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 16 de Outubro de 2012

Três mulheres


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 15 de Outubro de 2012

Pérolas e diamantes (7): o entusiasmo e a determinação


Perguntaram-me um dia se eu escrevo para mim. Calei-me. Na altura não respondi à sibilina provocação. Faço-o hoje por imperativos éticos. Eu escrevo porque se não escrever a minha vida fica quase sem sentido.

 

George Orwell, no seu livro escrito no verão de 1946 e intitulado Por Que Escrevo, enumera quatro grandes motivos para escrever, descontando a necessidade de ganhar a vida, o que a mim não se aplica, pois nessa circunstância morreria à fome.

 

O primeiro definiu-o como Puro egoísmo: “Desejo de parecermos inteligentes, de se falar de nós, de sermos lembrados depois de mortos, de nos vingarmos dos adultos que nos rebaixaram na infância.”

 

O segundo definiu-o como de Entusiasmo estético: “A perceção da beleza no mundo que nos rodeia ou, por outro lado, nas palavras e na sua combinação adequada.”

 

O terceiro definiu-o como Impulso histórico: “O desejo de ver as coisas como são, de descobrir factos verdadeiros e de os armazenar para uso da posteridade.”

 

E o quarto identificou-o como Propósito político: “O desejo de empurrar o mundo numa determinada direção, de alterar as ideias dos outros acerca da sociedade pela qual deve lutar.”

 

Neste momento escrevo porque me dói a alma com a situação do país e dos portugueses. Daí lembrar-me de Rosa Luxemburgo que andava pela rua a chorar com pena das pessoas. Talvez a palavra “pena” não seja a mais adequada, provavelmente chorava porque se sentia refletida em todas elas e por isso a sua infelicidade atingia-a como uma bofetada, e ela reagia incorporando como dor própria, a dor do seu povo.

 

As nossas classes dirigentes, vendo a crise financeira agigantar-se, apressaram-se a julgar o nosso povo de uma forma imprudente, desprezando a política, não tomando o partido dos mais fracos, deixando-nos sós. Não nos compreenderam, pois se nos tivessem compreendido não nos tinham julgado de forma tão imprudente e ligeira. Não nos teriam encaminhado para o abismo.

 

O que Vítor Gaspar e todo o governo, e especialmente António Borges, o principal conselheiro e mentor do primeiro-ministro, pensam, e nos querem fazer querer, é que sim “há esperança, mas já não é para nós”. Mas as sociedades são como os livros, apesar de tudo já ter sido escrito, não há mal nenhum em dizer-se tudo outra vez.

 

Muitas vezes dou comigo a pensar que devo estar a sonhar, quando olho para o país e o vejo a definhar como um cavalo manco e velho. Tenho a impressão de que o que se está a passar é um misto de veracidade e absurdo.

 

Definitivamente o primeiro-ministro só pode ter sofrido uma espécie de psicopatia, uma perturbação transitória da personalidade. Ele já não parece o dirigente máximo de um país, mas antes uma alma penada que assusta quem se aproxima da sua residência de S. Bento.

 

Todos os políticos nos disseram, e continuam a sugerir, que esta estuporada crise é por pouco tempo, pois não há mal que sempre dure. Quantas vezes já ouvimos estas estouvadas palavras.

 

 A verdade é que afinal a crise vai durar até nos deixar de rastos. Os nossos desejos e as nossas carências vão continuar a constituir a incerteza do amanhã, como uma vaga aflição que nos mortifica todos os dias. Agora já sabemos que o melhor, e o mais conveniente, dos nossos sacrifícios e das nossas canseiras não serviram rigorosamente para nada.

 

Esta malta que nos governa faz-me lembrar aquele tipo de pessoas que dizem professar um grande amor pela natureza, mas que o revelam de uma forma estranha, pois passam muito do seu tempo livre com os amigos a matar toda a espécie de pássaros e outros animais. E quando não andam a massacrar os animais selvagens das redondezas, andam a esgalhar árvores ou a cortar as flores e a queimar o mato.

 

A verdade é que os nossos governantes veem a natureza como nos observam a nós, como uma força rebelde e anódina que necessita de ser domada e controlada com mão de ferro.

 

O saber talvez equivalha ao poder, mas para que a sua aplicação seja bem-sucedida requer uma preparação meticulosa.

 

Os iluminados do mando regem-se por um adágio que diz que as regras são feitas para orientar os sábios e os tolos obedecerem. A verdade é que agora até o ministro Relvas exibe no rosto uma expressão estranha e perturbadora. Parece um gato depois de ter comido uma dúzia de canários quando a casa estava vazia.

 

O executivo do PSD/CDS comporta-se como um grupo de alunos universitários que aparecem nas aulas a fazer perguntas bastante sensatas, só que sobre assuntos perfeitamente idiotas.

 

Todos eles são muito maus a ser bons, mas são muito bons a ser maus. São os antiquados sinais dos novos tempos. Para nossa desgraça.

 

Estou em crer que o povo português votou nestes rapazes não por esperar da sua parte algum bem, mas desejosos de que ao menos não lhe fizessem mal. Enganou-se.

 

Todos estamos a ficar sem paciência. E a coisa é tão séria que até os que simpatizavam com o rapazio cada vez se desentendem mais e com maior acrimónia.

 

Com o caminho que o país leva, fácil é de depreender que apenas nos resta um futuro de corrupção e pobreza.

 

Em momentos difíceis como este que nos toca viver, quando os interesses coletivos começam a passar para a primeira linha, quem estiver de boa-fé vai descobrir que é impossível separar o seu destino do dos outros.

 

As reações à TSU por parte de trabalhadores, e sobretudo dos empresários, foram disso um brilhante exemplo. Quem ainda não está convencido é Pedro Passos Coelho, o seu guru financeiro, António Borges, e o inqualificável cobrador de impostos e ministro das Finanças, Vítor Gaspar, que faz o Xerife de Nottingam parecer a Madre Teresa de Calcutá.

 

Mas ou arrepiam caminho ou serão abalroados pelo curso da história. E, estamos em crer, este executivo neoliberal já não faz parte do presente. Começou já há algum tempo a fazer parte do passado, de um passado que não orgulha ninguém.

 

A nossa adesão à União Europa foi realmente uma oportunidade quase única de progredirmos e de nos aproximarmos das nações mais desenvolvidas, que sempre foi o nosso sonho. Mas parece que agora todos os nossos sonhos caíram por terra. É que a Europa desenvolvida conseguiu desenvolver-se ainda mais e por isso a distância tornou-se a mesma ou até aumentou. O que é quase um absurdo.

 

A cada dificuldade continuamos a tropeçar na nossa apatia e na nossa velha mania da saudade, enquanto os outros aproveitam as crises para progredirem e pensarem no futuro. Os outros têm ganas do futuro, nós possuímos apenas saudades do passado.

 

Como as coisas estão, a honestidade não só já não é uma moeda de troca, como deixou de sequer ser possível.

 

O que temos de apurar é quanta verdade haverá na imagem com que os outros nos pintam. E se o fazem com ironia carinhosa ou depreciativa.

 

A Política, para gente séria e determinada, não se assenta numa questão de entusiasmos e arrufos, é, antes pelo contrário, uma questão de afirmação e combate. Uma necessidade vital. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 14 de Outubro de 2012

Tecedeira IV


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 13 de Outubro de 2012

Tecedeira III


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 12 de Outubro de 2012

O Homem Sem Memória - 129


129 – Mas o povo – qual vítima inocente do obscurantismo fascista que ainda se fazia sentir com o seu arzinho gelado do Larouco – não aderiu a tão grande ideia e resolveu fazer orelhas moucas. Por isso o José, mais a maioria dos seus camaradas, mesmo contra a sua vontade, tiveram de ir estudar. Não lhes restava outro caminho merecedor de ser seguido. A não ser que tencionassem dedicar-se ao exercício do operariado, coisa que, convenhamos, teoricamente até era sedutora, mas, na prática, fazia calos grandes e robustos.


No primeiro dia de aulas, um dos rituais que o José praticava com enlevo e prazer consistia em juntar-se à malta da sua turma e irem pedir horários pelas diversas livrarias da cidade.


O dia iniciava-se com a visita ao Liceu, onde se encontravam os colegas do ano anterior, se visualizavam os horários da turma colocados nas portas das salas e se preparavam as tesouras com que se faziam as coroas aos caloiros. O que resultava numa luta encarniçada entre os alunos mais velhos e os iniciados que choravam baba e ranho vendo-se impotentes nas mãos de uns jovens bárbaros e sedentos de vingança por aquilo que lhes tinham feito a eles nos momentos da sua iniciação estudantil.


Enquanto uns agarravam nos rapazes mais novos como quem agarra num cordeiro para o tosquiar, ou capar, o líder do grupo munia-se da sua tesoura das unhas e desenhava e cortava na coroa da cabeça dos mais pacatos, um círculo do tamanho de uma moeda de cinco escudos, ou, no cocuruto dos desconhecidos ou mais arrebitados, fazia surgir uma enorme coroa do tamanho da que Santo Antoninho exibia risonho no altar lateral da Igreja Matriz.


A seguir iam ao Faustino, ou ao Jorge, onde emborcavam cálices de aguardente ou jeropiga e fumavam cigarros avulsos, os chamados mata-ratos ou cabeça atada. Os rapazes mais ricos botavam figura chupando o fumo através dos filtros dos seus SG, Estoril, Três Vintes, Ritz, CT, Porto ou Negritas. E os remediados atreviam-se a comprar um macinho de Kentukys, Provisórios, Português Suave ou Definitivos, nas costumeiras casas de tabaco, tascas ou similares espalhadas pela urbe, e jogavam ao sapo enquanto falavam alto e se riam como tolos.


Por volta do meio-dia, iam postar-se nos bancos do jardim das Freiras, onde, por entre assobios, dichotes e piropos, galavam as miúdas mais jeitosas a quem, num dia de maior oportunidade, talvez se atrevessem a pedir namoro.


Muitos deles, por não fugirem a tempo depois do roubo de flores com que presenteavam as eleitas dos respetivos corações, chegavam a alombar com o cabo do ancinho do jardineiro efetivo que era mais raivoso do que um cão de quinta quando se tratava de defender as flores que alindavam o seu jardim e que tanto trabalho lhe tinham dado a plantar, regar e velar.


Mais lá para a tarde iam até ao picadeiro jogar à bola numa disputa que quase sempre – e não dizemos sempre para não nos acusarem de exagerados – acabava em batalha campal, onde se distribuía porrada indistintamente entre jogadores e assistência.


Jogo que não acabasse com umas canelas partidas e uns olhos à belenenses, não era jogo nem era nada. E tudo isto porque, como ninguém se oferecia para fazer de árbitro, pois os dois últimos tinham acabado no hospital com as costelas fraturadas e os respetivos narizes partidos, como se tivessem acabado de sair de um ringue de boxe, a missão ia sendo assumida pelos respetivos capitães, ou, quando já não era possível, por causa da efetiva e tenaz contestação da equipa contrária, o líder do grupo passava essa responsabilidade ao jogador que estivesse o mais longe possível do lance para assim servir de testemunha imparcial.


Toda esta situação era sustentável enquanto o resultado do jogo se mantinha empatado, ou apenas o marcador registava quatro ou cinco golos de diferença, mas quando a distância começava a ser superior, inviabilizando praticamente a recuperação, as faltas contra a equipa ganhadora tendiam a tornar-se permanentes, com os jogadores sempre a deitar-se ao chão, a ganir como cães pontapeados, a pedir falta atrás de falta, o que exasperava os ganhadores e, após mais um livre, menos um canto ou a marcação de outro penalti, que seguido de golo era golo, o jogo de futebol findava mesmo antes do seu término normal.


Depois da confusão, e das cenas de pancadaria, cada grupo rumava aos seus lugares de estágio – que eram quase sempre uma das muitas tascas e casas de pasto que pululavam pela cidade –, e aí comiam e brindavam à respetiva vitória, pois era certo e sabido que naqueles jogos entre equipas de estudantes dava-se sempre um milagre.


Nunca nenhuma das duas equipas perdia, o que até podia ser estranho mas não era impossível, só que o milagre residia precisamente em que triunfavam sempre ambas. Uma porque mesmo tendo marcado menos golos, ou os mesmos, eram eles todos legais (e o contrário para a equipa rival), e a outra porque, mesmo tendo efetivamente introduzido a bola mais vezes na baliza da equipa adversária, os golos que majoravam a contagem e definiam o autêntico vencedor, tinham sido marcados irregularmente, ou em fora de jogo ou precedidos de falta como uma casa, e por isso tinham sido penaltis, que mesmo falhados tinham sido golos à mesma, porque às faltas apitadas pelo putativo, e rotativo, árbitro de serviço ninguém tinha dado ouvidos e marcado golo, pois, como todos bem sabiam, penalti seguido de golo é golo (e o oposto para a equipa rival), ou coisa pelo estilo, pois a confusão era tanta e os respetivos argumentos a favor e contra tão diversificados e intrincados que atinar com alguma lógica era uma impossibilidade. O princípio era o da negação do capitalismo e da afirmação do socialismo: não a cada um segundo a sua eficácia, mas antes a cada um segundo a sua necessidade. Como todos precisavam teoricamente de golos para ganhar, cada um colhia-os onde queria, ou podia.


Descontados os golos irregulares, a conta batia sempre certa e a respetiva equipa podia assim arrecadar mais uma saborosa e árdua vitória (e o contrário para a equipa rival).


Mesmo que um jogo acabasse sem golos, o que muito poucas vezes acontecia, pois as caneladas eram imensas, os empurrões às centenas e os murros aos milhares, pois, como vos íamos dizendo, no final os guarda-redes pegavam nas bolas à sua guarda e, enquanto a equipa principal, incluindo os suplentes, as respetivas famílias e conhecidos, andavam à porrada até se cansarem, iam sorrateiramente pelas bordas do campo até à baliza adversária e marcavam três ou quatro golos sem ninguém ver, mas que efetivamente contavam, porque a bola tinha mesmo atravessado a linha de golo da baliza adversária (e o avesso para a equipa rival).


Que fosse o guarda-redes a marcar não interessava, pois os golos dos guarda-redes valem tanto como os dos outros. Essa é que é essa. E o invés para a equipa rival.  


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012

Tecedeira II


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 10 de Outubro de 2012

O Poema Infinito (115): arrefecimento


Caminho por entre as orquídeas saboreando a minha imensidão mamífera, tocando ao de leve as atuais paisagens que estão impressas no meu sonho. E carrego o sangue do meu espanto animal e tremo dentro da minha aura azul e equilibro-me respirando por um buraco rápido. Desta vez transpiro luz e a minha pele está transparente e o ar é uma película que se mexe no limiar da casa. E a casa alaga-se. E a casa desdobra-se de baixo para cima. E geme. No jardim, as abelhas fervilham dentro da sua imensidão de ouro e mel. Dentro da minha cabeça o som do tempo ferve. As nervuras das orquídeas respiram as longas vozes do amor. E as sombras apaixonam-se pela brancura das paredes que desaguam nas minhas mãos. A vegetação ressurge por cima das vozes dos loucos. Aranhas de prata cruzam com delicadeza as teias e atravessam as imagens minuciosas condensando o seu clarão atormentado. Com a minha cabeça arqueada multiplico o delírio da vida e dela nascem flores de pétalas vingativas. O silêncio desarruma-se e os insetos refratam-se. O sono é outra barreira. Na alvorada que aparece por detrás de mim o som dos círculos torna-se plano. A manhã porosa remanesce e abrasa-se. A água explode lívida. A lentidão aflige a carne. Barcos de papel carregam o álcool que se transforma em doce veneno. Sou novamente carnívoro. E exalto. Mas as linhas do esquecimento pulsam de novo dentro da minha imaginação e transformam-se em mais imagens implacáveis. Os meus pés descalços tocam a folhagem. Todo o esplendor é obsessivo, por isso se espalha em curvas brancas. O tempo cai e por isso fica sem espaço. E o espaço que resta agoniza e freme. Uma sonolência vibrante toma conta de mim. É a loucura que me invade com a sua auréola selvagem. Desdobro-me entre o plano da escuridão e o plano da luz. Deus explode na paisagem. Um terror branco toma conta do tempo e do mundo. E o texto que escrevo respira e sufoca dentro da sua aterradora delicadeza. A velocidade dos olhares afoga-nos com a sua sintaxe colorida e redonda. Tudo me ameaça. Sou de novo uma paisagem animal onde ficam impressos todos os sentimentos. Beijas-me com a tua doçura relampejante. Ferves-me na boca por causa da geometria obstinada das estrelas. As salas ordenam-se e recompõem-se dentro da sua lógica idiomática. Uma luz rara avança pelos jardins da memória. Dizem que a morte é uma longa tristeza de seda. Daí a sua energia de vírgulas. A minha tristeza deita-se com os jacintos. Eu chamo pelos meus mortos que estão impressos nos retratos reclinados a sépia. Os seus olhos são agora pontos noturnos liquefeitos na sua cor de pausa eterna. O meu olhar encosta-se à janela e suspira como um cavalo louco. A vida é sempre alterosa. A morte é sempre a transfiguração para o nada. Por isso sento-me em cima do meu tempo e adormeço dentro do meu sonho onde tudo arrefece: a voz, os enigmas, os sorrisos, a ligeireza das casas, o espaço, o sorriso das crianças, a atenção inerte dos espelhos, a infância que queima, a música lúgubre das glicínias, o vento, o sol, a matéria das almas, tudo aquilo que é sagrado, a velocidade do desejo, todos os nomes que nos são queridos, a inocência, a espuma dos dias, as canções de amor, os cheiros intensos, a energia rápida, os segredos, os instantes imortais, os gritos de prazer, o vapor leve da chuva, os rostos amados, os rostos amados, os rostos… e os olhares.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Terça-feira, 9 de Outubro de 2012

Tecedeira I


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 8 de Outubro de 2012

Pérolas e diamantes (6): desgraça

 

Lá fora chove e o vento faz abanar os ramos e as folhas das árvores. O céu está cinzento, bem da cor da nossa tristeza e da nossa desilusão. O país esgota-se. O governo geme e titubeia nos conselhos de ministros. O primeiro-ministro carpe razões e desilusões.

 

Eu fecho os olhos e na minha memória surge, repentina e dolorosamente, a imagem de Pedro Passos Coelho a declarar ao país mais medidas de austeridade, como quem se vinga do Estado, dos portugueses e, muito especialmente, dos funcionários públicos.

 

É já público e notório que o nosso primeiro-ministro gosta tanto dos trabalhadores do Estado como Hitler simpatizava com os judeus, os ciganos e os homossexuais. E isso nota-se quando fala deles, quando os acusa de todos os males do país. Quando os persegue com impostos e mais impostos e desemprego e ameaças de despedimentos e de cortes e mais cortes.

 

E corta nos salários, aumenta o IRS, o IVA, o IMI, e mais IRS, mais IMI e mais IRS. E ainda mais IRS e mais um corte nos salários e outro nos subsídios. E mais uma taxa moderadora na Saúde.

 

E mais um aumento dos combustíveis. E da eletricidade. E mais um imposto de selo. E mais um ajuste no IRS e mais uma diminuição dos salários e mais um corte nas despesas com a Saúde e mais outro corte nas despesas com a Educação e outro corte nos subsídios. E nova subida no IRS.

 

E depois diz-nos, com um ar entre o vingativo e o gozador, que tanto corte e tanto imposto ainda não chegam. Há que fazer mais cortes. Há que cortar mais qualquer coisinha nos salários e nos subsídios. E ainda é necessário aumentar novamente a taxa do IRS.

 

E o homem não se cansa de cortar e de aumentar os impostos enquanto reduz tudo a zero, até a esperança dos portugueses. E promete, com cara de sádico, que ainda vão ser necessários mais cortes nos salários, nos subsídios e mais uma subida das taxas de IRS. Nunca sabe quando deve parar.

 

Passos Coelho não sabe gerir, não sabe administrar, não sabe governar. Apenas sabe cortar os salários e aumentar os impostos, até não haver mais salários, emprego e riqueza disponível para ninguém. E lá vai mais um aumento das taxas do IRS.

 

Mas uma coisa temos de lhe reconhecer, nunca nenhum governo em Portugal conseguiu unir contra a sua política todos os setores políticos e sociais.

 

O executivo de Passos Coelho tem contra si a maior parte do PSD, o CDS, o PS, o PCP, o BE, os sindicatos, os patrões, os médicos, os professores, os trabalhadores do setor privado, os trabalhadores do setor público, o presidente da República, o Conselho de Estado, os comerciantes, os capitalistas, os proletários e mesmo os bispos e os padres. E até o professor Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes. Acho que melhor é impossível.

 

A tentativa da subida da TSU foi óbvia, quis colocar patrões contra empregados e o povo em geral contra os funcionários públicos. Mas a porca sai-lhe mal capada. Afinal o país levantou-se contra a sua prepotência pueril e contra a sua arrogância neoliberal.

 

As pessoas estão indignadas, frustradas, ou, como diz o nosso povo, fodidas da vida, desesperadas, claro que pelos sacrifícios que lhe são pedidos, mas, sobretudo, e acima de tudo, pela falta de consideração com que têm sido tratadas pelo bando de néscios que nos governa.

 

O povo português detesta este governo porque abomina os chicos espertos que dele fazem parte, porque detesta que se façam de parvos como quando o Tribunal Constitucional disse para distribuir os sacrifícios equitativamente pelos portugueses e o governo atacou com mais cortes nos pensionistas e na função pública e resolveu mesmo ceifar um subsídio aos trabalhadores do setor privado.

 

Além disso, este novo Pinóquio de ferro oxidável que chefia o governo português prometeu, sorrindo como as hienas, que 2013 era já um ano de recuperação quando, pelos números já divulgados, é mais um ano de desastre e afundamento do país. 

 

O governo de Pedro Passos Coelho propagandeou aos sete ventos que a sua tarefa primordial era atacar o défice, pôr as contas em dia e as finanças em ordem. Daí o perfil exclusivamente técnico do seu ministro Vítor Gaspar. Mas a primeira conclusão a tirar deste ano e meio de governação é que a competência técnica foi para o galheiro, resultando apenas da sua política o afundamento da economia e o aumento assustador do défice.

 

Afinal as contas continuam como dantes. Exatamente como dantes. E para onde foi o dinheiro dos cortes? Onde foram metidos os impostos conseguidos com o suor e o trabalho dos portugueses? Para quê tantos sacrifícios se sem eles estaríamos na mesma, ou mesmo um pouco melhor?

 

De facto, o governo de Pedro Passos Coelho tecnicamente é um verdadeiro desastre e a nível político é uma ignomínia, muito próxima da ideologia conservadora e protofascista.

 

O país desmorona-se e Pedro Passos Coelho só nos consegue irritar ainda mais. Será isto loucura? Ele continua a dizer que apenas tenta equilibrar as contas públicas. E até admite que o está a fazer à custa do sacrifício de milhões de portugueses. E até se cala quando o acusam de insensibilidade e ineficácia. E sorri sibilinamente quando lhe lembram que todas as medidas de austeridade são de uma ineficácia de bradar aos céus.

 

Mas tornamos a perguntar incrédulos: Será isto loucura ou desvario? Não, não o é. Pedro Passos Coelho pretende vingar-se do Estado, sobretudo do Estado Social, que detesta e pretende destroçar a todo o custo. O primeiro-ministro está bem mais à direita do que o CDS. Paulo Portas comparado com ele parece o Francisco Louçã ao pé do José Sócrates.

 

Passos Coelho, em conjunto com Merkel e toda a elite neoliberal, pretendem alterar os valores cívicos e civilizacionais com que foi criada a Europa do pós-guerra e na qual nos integramos depois do 25 de Abril.

 

Não, desiludamo-nos, o homem não age desta forma apenas por ignorância, impreparação ou incapacidade. Ele e todos os seus cobradores do fraque querem alterar o paradigma económico e social português. A economia acima de tudo. E com esse fim não se coíbem de destruir o país.

 

Por isso falam no “processo de ajustamento em curso” da nossa economia, baseado em emprego precário e mal pago, em trabalho sem direitos, em pequenas empresas falidas e na destruição da nossa periclitante classe média.

 

O objetivo é, finalizado o “ajustamento”, qual bomba de neutrões económica, restarem em Portugal apenas as grandes empresas financeiras e os antigos e diversos monopólios de má memória, lucrando com os baixos salários praticados, com uma bolsa enorme de emigrantes ou desempregados prontos a trabalhar por umas cascas de alho e sem nenhuns direitos ou condições.

 

Por isso é que, estranhamente ou não, Pedro Passos Coelho não ligou patavina ao artigo da revista britânica conservadora “The Economist” onde se diz que Portugal passou de “aluno modelo” a “exemplo dos perigos” do excesso de austeridade.

 

O artigo intitulado “Quanta austeridade é demasiada austeridade?” frisa que Pedro Passos Coelho “parece ter levado as reformas além do limite considerado aceitável por larga parte do eleitorado”.

 

Agora todos sabemos que o homem só descansa quando entregar isto aos brita-ossos do capital. Pedro Passos Coelho acredita que Portugal só tem futuro como um país do terceiro mundo. Ora esse não é futuro nenhum.

 

O governo de Passos Coelho não é um grupo de pessoas competentes e sérias. É, e por muito que nos custe dizê-lo, um atraso de vida. E já todos o pressentimos: o nosso futuro não passa por aí. Urge arranjar uma alternativa válida e consistente. É que Portugal apaga-se como uma vela na corrente de ar. Temos de conseguir fechar a porta por onde nos invade a desgraça. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Domingo, 7 de Outubro de 2012

Descansando


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 6 de Outubro de 2012

Boa disposição


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 5 de Outubro de 2012

O Homem Sem Memória - 128


128 – Ora aqui estamos de novo para vos dar conta da tal conversa filosófica. E até algo mais, se for necessário.


Depois de enfiarem os pincéis nos baldes e de recolher nas respetivas latas a tinta que sobrou, dirigiram-se ao Centro de Trabalho e aí encontraram o funcionário comunista colérico porque tinha acabado de ser informado que um bando de rapazes encapuzados tinha vandalizado todos os cartazes do Partido. O José lembrou-lhe que também os cartazes dos outros partidos tinham igualmente sido rasgados ou arrancados.


“A mim não me interessam os cartazes dos partidos reacionários. Apenas me preocupam os nossos. Algum de vós tem ideia de quem possa ter sido?”


Os elementos da célula de agitprop tiveram de mentir, o que muito lhes custou, mas admitir a sua participação na razia de cartazes era grave de mais para ser sequer admitida como hipótese. Por isso tentaram desviar as atenções e passaram a culpa aos anarquistas.


“Mas em Névoa não há um único anarquista”, limitou-se o funcionário a admitir o óbvio.


“Isso é o que parece, esqueceste que os anarquistas são muito manhosos. São gente do escuro, da noite, rapaziada que gosta de brincar com tudo, até com a política. Vivem permanentemente na clandestinidade. Eles querem é destruir o Estado. Para esta gente tanto se lhes dá o fascismo, como o comunismo, o socialismo ou a democracia burguesa. Onde existir o Estado aí reside o seu inimigo. Por isso não é de admirar que tenham rasgado todos os cartazes de todos os partidos e escrito nas paredes do Liceu que a virgindade provoca o cancro e outras estupidezes do género, aconselhando as raparigas a vacinarem-se”, disse o Graça para despistar.


Temos de admitir que o Graça era tão bom a dizer a verdade como a mentir. Por isso tinha todas as condições para ser político. Ou melhor, possuía a característica essencial para ser um alto dirigente partidário. Pois quem diz a verdade que parece, e é, uma verdade, é igual a toda a gente vulgar e corrente. Já quem mente e convence os outros de que diz a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade, é um eleito, pois tal predicado é apenas intrínseco aos grandes líderes.


“Quais anarquistas, qual caralho, aqui anda a mão da reação. Só os reacionários são capazes de arrancar os nossos cartazes e a seguir arrancar os outros para disfarçar. Já que os nossos são muito melhores do que os deles, muito mais conseguidos, com outra qualidade artística, com outro nível ideológico, com outra eficácia política”, disse enquanto se babava de entusiasmo o funcionário. E avisou a célula: “Preparai-vos para amanhã, pois nova tarefa revolucionária se avizinha. Mais uma vez vamos inundar as paredes de Névoa com os nossos cartazes, com a nossa mensagem revolucionária. Então, até amanhã camaradas”, terminou sorrindo e citando o título da obra do dirigente de cristal.


Quando o camarada funcionário viu toda a célula comunista da agitprop de Névoa a destroçar, perguntou-lhes se iam ainda a algum lado. O Graça, com a calma de quem diz a verdade, e nada mais do que a verdade, mentiu-lhe: “Já é tarde, por isso vamos todos para a caminha descansar que amanhã vai ser um longo dia a preparar os panos, a fazer a cola, a recolher os placares que vêm do Porto, a misturar tintas, a lavar pincéis, a estudar palavras de ordem, a discutir o editorial de A Verdade e a definir as paredes estratégicas que temos de escolher para colar os nossos cartazes.”


“Tanto cartaz, tanto caralho”, desabafou o Mário “Camões” com o olho de vidro fixo na noite e o bom apontado caras ao Graça. “Já estou farto de colar cartazes e pintar paredes. Penso que as pessoas não ligam nada a isso.” Ao que o José retorquiu, com um pouquinho de ironia: “Existem muitas formas de fazer uma revolução, colar cartazes é a nossa. É a via para o socialismo lusitano. É aí que reside a originalidade da revolução portuguesa, tão elogiada lá fora.”


“Estás a gozar comigo não estás?”, perguntou o Mário “Camões”. Ao que o Graça respondeu como dirigente: “Não, ele está a gozar com a revolução. O José é um poço de ironia.”


Já a noite ia bem comprida, e eles em volta de uma travessa de costelinhas fritas e de uma caneca de vinho tinto, quando o Graça começou a explicar ao Mário “Camões” a relação entre a virgindade e a Virgem Maria.


“A virgindade é a modos que um sexo, neste caso feminino, que nunca foi utilizado com esse fim”, explicou o Graça. Ao que o Mário Camões, na sua infinita ingenuidade, perguntou: “Qual fim?” “Pois, que não foi utilizado para procriar.” “Pois…” “No caso das fêmeas, a virgindade está relacionada com um membrana que quando um homem introduz o seu pénis na vagina de uma mulher, seja ela de que raça, cor, ideologia, condição social ou religiosa for, rasga-se e sangra. Depois disso nunca mais é virgem, independentemente da cor, religião, raça, ideologia, classe social, ou orientação religiosa. Isto que fique bem claro. Ora, vem na Bíblia que a Virgem Maria concebeu sem pecado, que o mesmo é dizer que engravidou sem que tivesse tido relações sexuais, sem que tivesse sido fecundada pelo método natural onde o pénis entra onde deve entrar, faz o que tem a fazer, ejacula e vai à sua vida. Foi a partir daí que ligaram o conceito à condição virgem da mãe de Cristo e arranjaram palavras para separar a função sexual do prazer, pois a mãe do filho de Deus não podia fazer as coisas de maneira natural. Pois se as fizesse não podia ser virgem, Deus não podia ser pai, José perdia a honra e Cristo a sua auréola celeste. Fácil é de concluir que o que vem na Bíblia é um imbróglio dos diabos: Maria engravida virgem, Deus fecunda apenas com a sua palavra, José assiste a tudo isto sem ter sido tido nem achado e Cristo nasce de forma natural, ou seja por uma vagina onde nada penetrou. Temos de convir que tal façanha não é nada fácil de admitir, por isso lhe chamam milagre. Eu penso que o maior milagre não está na circunstância de Deus ter feito o que fez, mas antes no facto de milhões de pessoas acreditarem nisso. Pois quem acredita num tal dogma, está pronto para acreditar em qualquer coisa. E ainda dizem que o Homem é um ser racional.”


O Mário “Camões”, já à beira das lágrimas, não pela história, pois não era muito dado a acreditar em coisas tão elaboradas, mas por causa da pinga, que lhe puxava ao sentimento, balbuciou: “A ser como tu contas, lá milagre é. E dos grandes. Não tenho conhecimento de outro que se lhe compare. E Deus é mesmo muito sério e determinado: fez um filho e nunca mais se aventurou a repetir a proeza. Como homem de palavra, disse uma vez uma coisa, agiu em conformidade e não repetiu a dose. Se isso é verdade quero ir para padre. O comunismo não faz dessas coisas. É só lutas de classes para aqui, proletários para ali, revolução para acolá e cartazes para colar a toda a hora, mas de transcendente não tem nada. Não tem encanto nenhum. É tudo muito fatigante.” E começou a chorar.


Podemos informar os estimados leitores que a guerra dos cartazes ainda continuou por mais algumas semanas, sempre com o mesmo frenesim, a mesma prática e a mesma conclusão. Apenas abrandou com o começo das aulas, pois a juventude tinha também que se instruir. Isto apesar dos comunistas considerarem que talvez este fosse o momento adequado para fechar durante um ano inteiro os estabelecimentos de ensino, para se repensar o sistema educativo, e durante todo esse tempo o povo se dedicar por inteiro a fazer a revolução, transformando os campos e as fábricas em motores de uma nova sociedade sem explorados nem exploradores, numa sociedade fraterna e solidária. O resto logo se veria. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 4 de Outubro de 2012

Casas


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 3 de Outubro de 2012

O Poema Infinito (114): a lucidez das pequenas coisas


Apreendo a substância noturna das palavras voltando a ti pelo lado da sombra. Por isso as palavras existem e consomem-se e consomem-nos. Por isso o tempo coincide com a nossa sede de branco absoluto. O universo torna-se visceral, vertebral e vertical. Todo o gesto culmina na sua densidade de ave de fogo e os espelhos jogam primitivamente, e para sempre, a sua fidelidade à matéria. Torres de fumo coincidem com a época da ignorância. Por isso perdemos a idade e o fervor da alegria. Agora sabemos o sabor da tristeza. E a tristeza é uma inclinação lúcida. Tão lúcida como a loucura dos mártires. Por isso nos entregamos um ao outro com a fúria da ilusão. E oferecemo-nos em paz. E em paz nos glorificamos. Uma transparência incandescente sobe-nos pela garganta. O tempo todo ilumina a inocência. E o passado ascende sobre o nosso peito como se fosse o núcleo vago da vida. Deitados sobre pedras talhadas por raízes estremecemos com a passagem do vento. A terra volta a ser uma proteção.  Uma música de árvores coloridas molda-nos os membros. Deus respira sobre nós como se nos quisesse aquecer. As palavras adormecidas nos livros antigos começam a vibrar. O vazio grita. Toda a ciência é um rumor visível. Deus escolheu-a para nos eliminar. E por isso fez o silêncio. E do silêncio fez o princípio da vida e a origem da angústia. Sobrevivo ainda porque olhas para mim com toda a reserva acolhedora da confiança. A minha linguagem é um agradecimento a isso. Apenas a ti faço confidências puras. Só a ti. E escrevo porque essa é a condição objetiva de te encontrar. Deus é agora um universo mudo de ausência. E a sua ausência é uma infinita brancura irremediavelmente separada e vazia. Nós somos quem espera pela iminência do seu desencontro. As palavras esquecidas caem agora ao chão. Um poema pequenino nasce dentro da sua forma simples de esplendor. As nossas mãos tremem como folhas de uma árvore ávida. O desejo é um ardor silencioso que se liberta em gestos flamejantes. O amor de Deus tornou-se ilegível. A sua liberdade é um desejo escuro. Os raios de sol ardem quando nos transformam a pele. A consciência humana explode. E as palavras transformam-se em gritos. E os gritos tornam-se círculos abertos de abandono. Apenas dele resta a eminência efémera do abandono. O abandono das coisas amadas. O abandono do desígnio divino. O esplendor do nada.  A fragilidade humana atinge-me como um desencontro mortal. Eu estou dentro da tua nudez. Eu estou completamente dentro da tua mortalidade. Da minha mortalidade. Do vazio. Desejar-te é a unidade íntima do amor. Por isso crio espaços com a densidade das palavras. E as palavras sopram círculos abertos. Densos círculos de lentidão. As perguntas brilham dentro de ti. As imagens respiram. Continuar a viver só é possível dentro da unidade com que me cicias palavras à velocidade do amor. Continuas a ser a minha profecia iluminada. Por isso o poema infinito continua a atravessar o resultado absoluto da existência. As imagens incendeiam-se. A visão suspende-se. Uma luz invisível olha-nos como se fossemos uma serena plenitude. A surpresa de um corpo dentro de outro corpo é agora acessível. É essa a lucidez das pequenas coisas. 


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|
Terça-feira, 2 de Outubro de 2012

Dicotomia


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

.Keith Jarrett - La Scala

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9



30
31


.posts recentes

. 344 - Pérolas e diamantes...

. São Sebastião - Vilarinho...

. São Sebastião - Couto Dor...

. Couto de Dornelas (III)

. Poema Infinito (356): O a...

. São Sebastião - Couto Dor...

. S. Sebastião - Couto de D...

. 343 - Pérolas e diamantes...

. A gaivota (III)

. A gaivota (II)

. A gaivota

. Poema Infinito (355): O n...

. Maresias (II)

. Maresias

. 342 - Pérolas e diamantes...

. HAZUL - Porto

. The Augustus no Porto

. A ponte é uma miragem...

. Poema Infinito (354): Um ...

. Interações

. Diversões...

. 341 - Pérolas e diamantes...

. Assando sardinhas - S. Jo...

. Ribeira - Porto - S. João...

. Porto - Ribeira - São Joã...

. Poema Infinito (353): O e...

. Ribeira - Porto - S. João...

. Estação de S. Bento - Por...

. 340 - Pérolas e diamantes...

. Cabo da Roca

. Cabo da Roca

. Cabo da Roca

. Poema Infinito (352): Out...

. Na exposição

. Cavalos no Barroso

. 339 - Pérolas e diamantes...

. Janela

. Eira

. Garrafeira

. Poema Infinito (351): A c...

. À porta

. Reflexos

. 338 - Pérolas e diamantes...

. A vendedora de fumeiro

. O sapateiro

. O barrosão

. Poema Infinito (350): Inv...

. O camarada

. O artesão

. 337 - Pérolas e diamantes...

.arquivos

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.tags

. todas as tags

.Visitas

.A Li(n)gar