Sexta-feira, 30 de Novembro de 2012

O Homem Sem Memória - 136

 

136 – O Graça sugeriu ao José que utilizasse como ponto de referência para a escola de pioneiros a catequese dos católicos, ou, ainda melhor, as madrassas islâmicas onde as crianças memorizam o alcorão. O objetivo saltava à vista, pois é dessas escolas de onde saem os militantes de Alá mais revolucionários e fundamentalistas. Os comunistas também têm de ser capazes de educar nas suas escolas os revolucionários do futuro. E quanto mais cedo essa intervenção ideológica se fizer melhor sucedida será.


O camarada José lá foi para a sua escola de pioneiros com o mesmo entusiasmo com que os presos políticos na URSS iam para o Gulag. Mas uma coisa era colocarem-no à frente de uma turma da catequese comunista, outra, bem diferente, era obrigá-lo a administrar única e exclusivamente conhecimentos dos quais já começava a duvidar. Por isso, esqueceu as orientações políticas e ideológicas do Graça e do camarada funcionário e resolveu ser ele próprio a delinear o currículo. Perdido por cem…


Aceitou incluir o ensino de A Internacional e outras canções revolucionárias, condescendeu em obrigar a decorar o Manifesto Comunista aos camaradas pioneiros, mas decidiu, por sua própria conta e risco, fazer também da escolinha um centro de escrita criativa. Teimas e desvios ideológicos que lhe iriam sair caros no futuro.


Ensinou-lhes regras básicas de agitação e propaganda, truques para vender A Verdade, como por exemplo começarem a chorar e a acusarem os que se recusavam a comprar a voz da classe operária de reacionários, anticomunistas primários e inimigos da liberdade. Adestrou-os a levantar o punho direito enquanto gritavam palavras de ordem, pois o esquerdo era gesto dos traidores socialistas. Também lhes ensinou jogos populares, canções de roda, lengalengas, anedotas e outras coisas mais ao gosto popular. Mas no que porfiou mais foi na escrita criativa.


Pediu-lhes que escrevessem tudo aquilo que pensavam. E a maioria escreveu, como mais à frente veremos. E disse-lhes que não ligassem muito à pontuação, pois ela é um elemento limitador do desenvolvimento das ideias mais criativas. Mais tarde, José Saramago iria seguir esse caminho com o sucesso que todos conhecemos.


A sua primeira proposta foi corriqueira, mas honesta. Sugeriu que escrevessem um texto subordinado ao título: “O que quero ser quando for grande”. Eles, os camaradas pioneiros, pobres coitados, torceram de imediato o nariz pois essa era o tipo de proposta em que a professora da primária era useira e vezeira. Mas ele disse-lhes que ali na escola dos pioneiros tinham liberdade para escreverem aquilo que quisessem, desde que fosse genuíno.


“E o que é que quer dizer «genuíno»?”, perguntou a camarada pioneira Lídia com a sua curiosidade pequeno-burguesa. O José explicou-lhe o significado, mas avisou que esse tipo de perguntas era mais para a escola oficial. Na escolinha dos pioneiros deviam prestar mais atenção a outras coisas. A semântica podiam-na descobrir pelo contexto.


Novamente a camarada pioneira Lídia, com a sua impertinência infantil misturada com o seu tipo de educação pequeno-burguesa, perguntou qual o significado das palavras «semântica» e «contexto». Ele tornou a insistir na necessidade do «contexto» para perceber a «semântica», mas que o mais importante era tentar jogar com as palavras para se construírem frases eficazes e com essas mesmas frases construírem bons textos que depois podiam utilizar para compor obras que pudessem influenciar a revolução e abrir horizontes ao nosso povo, que tão carenciado andava deles. Aqui a camarada pioneira Lídia, voltou a perguntar o que queria dizer «carenciado», pois não entendia a sua «semântica» nem atinava com o «contexto».


Nesta altura, o camarada pioneiro João também resolveu entrar na discussão e questionou o camarada professor José sobre o que queria dizer com a expressão «abrir horizontes», pois, ao que sabia, os horizontes não se podem abrir pois eles estão abertos por natureza.


A camarada pioneira Lídia – porque não ia muito ao partido… desculpem, à bola, com o camarada pioneiro João, pois, apesar de serem filhos de dois casais de professores de educação física, davam-se quase como Estaline e o Lenine nos últimos tempos de vida de Vladimir Ilitch Ulianov – contrapôs que isso era a modos que uma forma poética, e marxista-leninista, de dizer que os livros revolucionários que pretendiam escrever iam iluminar o caminho que o povo trabalhador tinha de percorrer até ao socialismo. Mas o camarada pioneiro João, não querendo ficar para trás no poder de argumentação, contrapôs que a expressão utilizada por ela (“ela, não”, avisou a Lídia, “camarada pioneira Lídia, se fazes favor, e também chefe de turma”) era incorreta pois não é um caminho o que vai conduzir o nosso povo ao socialismo, mas antes uma estrada alcatroada.


O José, habituado que estava a este tipo de discussões entre militantes, deixou que a controvérsia continuasse, pois apesar de chata, interrompê-la poderia desencadear uma luta entre fações dentro do partido, facto que podia desencadear uma onda de dissidência da qual iria inevitavelmente ser responsabilizado. Ora ele não estava para esse tipo de coisas. A sua ficha já estava repleta de informações pouca abonatórias quanto à sua firmeza ideológica e à sua quase total incapacidade para o trabalho unitário.


Vendo a discussão tomar ares de polémica ideológica, o camarada pioneiro Luís, filho do camarada funcionário, resolveu vir à liça e argumentar que o que verdadeiramente nos vai levar ao socialismo não é um caminho de terra, nem uma estrada alcatroada, mas antes uma autoestrada bem asfaltada.


“E porquê uma autoestrada asfaltada?”, perguntou curioso o camarada professor. Ao que o camarada pioneiro Luís, filho do camarada funcionário, respondeu ao camarada professor José: “Pois porque na estrada cruzam-se os carros em duas direções opostas, sugerindo que enquanto um povo vai, outro vem, o que não está nada de acordo com o sentido único do socialismo. Caras ao socialismo só podemos ir numa direção. Quem vai e volta, volta e vai são os traidores socialistas burgueses. Os comunistas quando se dirigem para o socialismo fazem-no num só sentido, em via única. Daí a sugestão das autoestradas. Mas concordo que a imagem da estrada alcatroada é muito melhor do que a de um caminho…”


Sentindo-se mal interpretada, a camarada pioneira Lídia exprimiu que quando falou em “iluminar o caminho do socialismo” apenas queria utilizar uma figura de estilo que significasse o “sentido da história” e não um caminho feito de terra e pó por onde caminham as cabras, os burros e os bois.


“E os velhos!”, lembrou o camarada pioneiro João. “E as velhas!”, recordou o camarada pioneiro Luís. “E os burros!”, insistiu a camarada pioneira Lídia. “Estás a chamar-me burro?”, perguntou o camarada pioneiro João à camarada pioneira Lídia. “Porquê, achas-te esperto?”, perguntou a camarada pioneira Lídia como quem responde. “Se eu sou burro, tu és cabra.”


Vendo a discussão descambar para o insulto, mesmo que infantil, o José bateu com a mão na mesa e disse que estava na hora do recreio e lembrou que um camarada pioneiro não chama nomes aos outros camaradas pioneiros. Os comunistas não se insultam, não discutem, apenas trocam pontos de vista. “E escolham bem as brincadeiras! Façam do vosso recreio também um momento de aprendizagem e sã camaradagem.”


O camarada pioneiro Luís perguntou se podiam brincar à guerra de guerrilhas com as armas de plástico. Ele disse que sim. Perguntou-lhe se podia fazer de Che Guevara. Ele disse que sim. Perguntou-lhe se lhe podia emprestar o charuto de plástico. Ele respondeu que não. Que fumar não é próprio de crianças. “Nem na brincadeira?”, perguntou o camarada pioneiro Luís. “Não devemos brincar com coisas sérias”, respondeu o camarada professor José. “Mas brincamos às revoluções!”, observou novamente com muita acutilância o camarada pioneiro Luís. “Já lá para fora, ou a guerra de guerrilhas acaba mesmo antes de começar.” “E qual é o meu papel?”, questionou a camarada pioneira Lídia. “Olha, podes fazer de camarada companheira do camarada Fidel”, sugeriu o camarada José apontando o João que já lá vinha todo enfarpelado de verde oliva, com a sua metralhadora a tiracolo, os seus óculos e as suas longas barbas. “Nem morta! Antes reacionária que companheira daquele trotskista.” “Mas o camarada Fidel nunca foi trotskista”, observou corretamente o camarada professor José. “Isso sei eu. Mas não me estava a referir ao camarada comandante Fidel, mas sim ao camarada pioneiro João.” Ao que o camarada seu professor respondeu: “Não deves insultar dessa forma um teu camarada pioneiro. É muito feio.” “Olha, camarada, sendo assim então prefiro ficar aqui dentro na sala a memorizar e recitar poemas do Ary dos Santos para a festa de Natal.”


Mesmo sem querer, o camarada José riu-se.

 


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Quinta-feira, 29 de Novembro de 2012

Lavando as alfaces


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Quarta-feira, 28 de Novembro de 2012

O Poema Infinito (122): prelúdio e invocação


Olho até cristalizar a tua transparência, a transparência dos dias e a transparência das raízes. Tento condensar todos os possíveis. Tento que a água e o fogo te lambam as mãos, os pés e o desejo. E fotografo-te a libertares-te da roupa lenta com gestos rápidos. Só os animais que se desejam conseguem vibrar juntos. Nem a distância nos perturba. Nem a distância nos afasta. Nem a distância nos distancia. Por isso fabrico versos alisados pelo alfabeto e temperados com a impaciência branda do tempo. Habitas-me a memória, por isso ela se reproduz como o eco dos gritos das sereias na profundidade dos mares. Uma carga semântica explode no silêncio da noite. E a noite chora. Mergulhamos no céu da terra à velocidade dos feixes iluminados. O teu olhar ganha novo significado. Tanta informação mata o prazer. Por isso o teu rosto se cobre de sol e se agarra ao vento e chora lágrimas tão precisas como metáforas. A lentidão introduz a triste organização do abandono. As palavras constroem-se fora de toda a lógica. E a sua ferocidade é transportada numa procissão de sofismas. E o desejo submete-se ao desespero. Por isso os nossos olhos respondem ainda ao desgaste da luz. Invoco a liberdade e invoco o seu som. Invoco a natureza e invoco os campos e as formas bucólicas e os precipícios e as ideias em folha e invoco também os preceitos e a memória de deus e o som dos sinos das aldeias. E invoco a combustão e a penúria, os frutos escritos nas entranhas das árvores e a culpa, toda a culpa, toda a santíssima culpa oculta nas vozes dos mortos, e a violência da sombra e a avidez da luz e todos os sistemas políticos do mundo. Invoco o maneirismo da destruição, as coisas que perturbam, a música inoperante, os fragmentos do quotidiano, o fascínio pelos papéis, a precisa velocidade das asas dos pássaros, a filosofia do fastio. E invoco ainda a brincadeira dos cães e os lábios gélidos da vida e o perfume silencioso dos gestos amorosos e a cortesia tímida das conversas e as palavras maduras e as palavras luminosas e as estações transparentes. E invoco igualmente as árvores que falam e o desassossego da fantasia e a fresca ansiedade da certeza e a preguiça patética do sono e os fragmentos do apocalipse e as medidas preventivas dos filhos da puta e os pensamentos enrodilhados nas gargantas dos domingos sacrílegos e o sorriso natural do entendimento e as minúsculas partículas de deus e os filhos do desassossego. E invoco a seminal geometria dos pénis e a notável interpretação das vaginas. E invoco para sempre a explosão nuclear da criação. E a saudade das formas. E a forma das saudades. E o choro convulsivo das metáforas. E o corpo esbelto das ninfas que comem palavras em suspenso. E invoco, para que conste, a tristeza antiga da morte, a dolorida alegria da vida, o pânico das árvores encolhidas. E finalmente invoco a beleza fulminante das pessoas que já desapareceram e que nunca mais voltarei a ver. Por isso continuo a olhar até conseguir cristalizar a tua transparência. Toda a tua transparência. Absolutamente toda a tua transparência.


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Terça-feira, 27 de Novembro de 2012

Jogo do Chino


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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2012

Pérolas e diamantes (13): cogumelos, amigos e hífenes (ou hífens)


Ora vamos lá por partes. Desta vez pretendemos começar pelos achados. Não pelos candidatos a autarcas perdidos, nem pelos candidatos a autarcas achados, mas sim pelos cogumelos que o senhor José Alves descobriu lá para os lados de Ferral.

 

O valente barrosão deparou-se com um cogumelo que pesava um quilo e quatrocentos gramas. Homem acostumado a estas azáfamas afirmou, espantado, que nunca na sua vida tinha enxergado coisa igual, um cogumelo tão grande. De facto é um achado estranho. Disse-o ele e dizemo-lo nós. E também o expressaram todos quantos viram o cogumelo gigante.

 

O senhor José Alves considera que é importante mostrar às pessoas que as terras do Baixo Barroso são férteis. Parece que por aquelas bandas há muita coisa do género, mas em pequena dimensão. Segundo o feliz apanhador de cogumelos, o enorme fungo comestível vai dar umas “tainadas” jeitosas, cozinhado com bocados de presunto entremeado.

 

Em Vila Pouca de Aguiar, depois do início das chuvadas passageiras do outono, cerca de três mil pessoas iniciaram uma corrida aos cogumelos em diversas manchas florestais do concelho. Cerca de meia centena são apanhadores comerciais.

 

Segundo veio nos jornais, a quantidade de cogumelos recolhidos pode atingir as quatro toneladas e render cerca de quarenta mil euros por época. E a escolha é diversa. Pode ser o popularmente conhecido como frade ou roque (“macrolepiota procera”), o nosso conhecido tortulho (“tricholoma esquestre” e “tricholoma terreum”), o distinto níscaro (“boletus edulis” e “boletus pinophilus”), a modesta sancha (“lactarius deliciosus”), a aprazível língua de vaca (“fistulina hepática”) ou o trivial cantarelo (“cantharellus cibarius”).

 

Têm os estimados leitores de convir que até os nomes científicos dos cogumelos são graciosos e agradáveis, quase tão saborosos como os próprios míscaros que guisamos com carne e comemos à mesa aquecidos por uma boa lareira e por um tinto de Valpaços.

 

Ora pronunciem comigo em voz alta: “macrolepiota procera”. E repitam “ma-cro-le-pi-o-ta pro-ce-ra”. [E desculpem lá a hifenização. Sei que os hífenes, (ou hífens, escolham à vontade) pelo menos estes, não fazem parte das palavras do latinório científico. Limitei-me a utilizar estes tracinhos pequenos para dividir as duas palavras em sílabas. Mas se não estiverem conforme a lei, conformem-se, pois eu esmifro-me tanto, mas mesmo tanto, a pensar no que os outros pensam acerca do que eu penso que não só me atrapalho a teclar nas teclas como dou volta ao teclado e teclo tantas vezes no hífen que me atrapalho no travessão e “estouque” me atrapalho tanto que chego a atrapalhar o estimado leitor, ou leitora.]

 

Veem que bonito. Bonito e erudito. Em vez de dizerem que cearam tortulhos, e sem tracinhos, experimentem explicar na vossa roda de amigos, ou conhecidos, que ao jantar saborearam uns “tricholomas esquestres” e “tricholomas terreuns”, libertos de toda a hifenização, por isso mesmo saborosíssimos, e vão ver que eles, os vossos amigos, não os cogumelos, e muito menos os hífenes, ou hífens, ou tracinhos, pois para o caso tanto monta, porque não se manducam, além de ficarem a salivar como o cãozinho de Pavlov, passarão a admirar-vos ainda mais pela vossa graciosa sapiência. E também porque não são ingénuos ao ponto de deglutirem os hífenes (bifes?) como o cão fazia aos tracinhos (ossos?). Se é que lhos davam, claro está.

 

E a seguir podem diversificar, explicando, por exemplo, que lancharam umas atraentes “fistulinas hepáticas” panadas com pão ralado ou com omelete de ovo de galinha garnisé. Se por lá estiver alguém que sofra do fígado, evitem pronunciar o termo “hepática” que pode levar à indesejável associação com a doença e estragar de imediato o efeito surpresa e a digestiva conversação. Podem limitar-se a utilizar apenas o termo “fistulina”.

 

Para prolongar o efeito, e os convivas não se aperceberem de que os estimados leitores apenas pronunciaram a primeira parte do nome científico do cogumelo, pois, de certeza que já descobriram que têm sempre dois, digam, simplesmente, que degustaram umas “fistulinas” embebidas em ovo de galinha garnisé. E se algum deles, mais atrevido, perguntar “fistulinas” quê?, para se dar ares de entendido, respondam-lhe dividindo a palavra “fistulina” em sílabas para colocar a esperteza do insolente no seu devido lugar. Tipo: Não percebeste? Eu torno a repetir: “Fis-tu-li-na”, (e ainda mais devagar) “fis-tu-li-na” embebida em fina e amarela omolete de ovo de galinha garnisé. Entendeste agora direito ou queres que te faça um desenho? Aqui chegados, podem ter a certeza de que o atrevido já meteu a viola no saco.

 

Por exemplo, eu, por altura dos Santos, em amena cavaqueira com alguns amigos que já não via há muito tempo, e que por acaso até estavam com outros amigos que presentemente estão ligados à política, experimentei dar um arzinho da minha graça e, para fazer conversa e ficar bem visto por gente tão distinta e ilustre, pois os meus amigos que por cá encontro nos Santos são todos ilustres e distintos, daí o conhecerem políticos, mas, como ia dizendo, experimentei pôr cara de entendido e, enquanto eles falavam de marisco, champanhe, bifes, hífenes, caviar, salmão fumado e bombons, eu, mais terra a terra, e para não me ficar atrás, pois já me basta ter quedado a penar aqui pela província enquanto eles se pavoneiam pelas distintas metrópoles lusitanas, introduzi na conversa, com o meu ar de transmontano de província que não saiu da província e por isso mais provinciano é, os cogumelos. E fi-lo do jeito que vos passo a contar.

 

Com um ar entre o indiferente empenhado, tipo o nosso estimado vice(hífen)presidente António Cabeleira, e o jovial insonso, género o do senhor presidente fantasma João Batista, olhei para o grupo e disse com o ar mais casual possível: «Ontem à noite entremeei umas “macrolepiotas proceras” que me souberam pela vida. Pu-las nas brasas até ficarem no ponto, polvilhei-as com umas pedrinhas de sal grosso, reguei-as com um fiozinho de azeite e estendi-as virtuosamente numa travessa muito antiga que a minha avó me deixou. Numa frigideira, também das antigas, fritei um pouco de presunto, cortei pão centeio às rodelas, enchi uma caneca de vinho e, sentado no escano e de pernas abertas para a lareira, ceei como já o não fazia há alguns dias.»

 

Bem, eles olharam para mim com um ar tão guloso, mas mesmo tão guloso, que até me deu pena. Claro está que apesar de se alimentarem de coisas finas e boas, quando ouvem falar de presunto, de pão centeio e de vinho tinto da região, acende-se-lhes um desfastio no estômago que se transmite aos luzeiros, pois ficam logo com uma claridade nostálgica que dá aflição. Claro que, apesar de conhecerem os frades, ou roques, ou rocas, não sabem o que são “macrolepiotas proceras”. Mas como são do tipo orgulhoso, também não perguntam. Ninguém gosta de dar parte de fraco. Muito menos eles que são cultos até dizer chega. Só que ninguém sabe tudo.

 

Como os vi tão ougados como crianças, mas tão altivos como o Pedro Passos Coelho que é incapaz de, mesmo tendo a plena consciência de que a sua política falhou, reconhecer que errou e arrepiar caminho, resolvi levar o meu exercício mais longe e, à minha maneira altruísta, pus-me com a seguinte conversa: «Hoje vou preparar uns “boletus edulis” e uns “boletus pinophilus”, com carne de javali. Tudo no pote. Vou acompanhar o petisco com batatas barrosãs e tinto de Barreiros. Requintes destes só cá na terra é que se encontram. Eu misturo os “boletus”, porque os “edulis” têm um travo mais espontâneo que os “pinophilus”, que são mais suaves. Dos dois sabores combinados, resulta um terceiro que é uma magnífica síntese entre a natureza e a cozinha tradicional. Há muita gente que gosta de misturar sabores. Enfiam tudo dentro da panela e depois comem à bruta. Mas a verdade é que, por exemplo, os “cantharellus cibarius” não ligam muito bem com os “boletus”, especialmente com os “boletus edulis”, pois intensifica-lhes o sabor agreste. Por isso, devem misturar-se com os “boletus pinophilus”, ou com os “tricholomas”, de preferência o “tricholoma esquestres”, pois os “tricholoma terreum” também têm tendência a acidular um pouco a mistura.»

 

No fim da preleção, os meus amigos mais amigos, riram-se e os outros riram-se porque viram rir os primeiros. Já os nossos amigos políticos, ou afins, riram-se porque é o que costumam fazer por tudo e por nada. Menos o nosso vice(hífen)presidente da câmara, honra lhe seja feita, que apenas sorri quando a sua assessora de imagem lho pede lembrando-lhe que quando a sua cara sai a ilustrar as notícias dos jornais tem de estar sorridente.

 

E tudo isto porque depois dos cogumelos vos queria falar de nabos e, por junto, dos motivos porque quatro presidentes em fim de mandato já andam a lutar para ver quem se vai sentar na cadeira do poder que o Relvas lhes está a aprontar. Mas como a crónica já vai adiantada, fica para a semana.

 

 

PS – Por favor, senhor presidente, apareça. Olhe que continuamos impacientemente à sua espera. 


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Domingo, 25 de Novembro de 2012

Luz do alto


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Sábado, 24 de Novembro de 2012

Outono III


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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012

O Homem Sem Memória - 135


135 – Mesmo contra a sua vontade, o camarada José lá se decidiu a ir pregar o sermão comunista aos girinos. O Graça deu-lhe carta-branca quanto aos métodos e às estratégias pedagógicas a utilizar, apenas foi ortodoxo quanto aos conteúdos: a cartilha tinha de ser a comunista e mais nenhuma. Podia utilizar todos os materiais impressos do partido, mas até a bibliografia unitária, porque subtilmente enganadora, estava rigorosamente interdita. Nesta idade só podia ser fornecida aos camaradas pioneiros a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. As subtilezas argumentativas ficavam para uma fase posterior. E quanto mais posterior melhor.


Forneceu-lhe mesmo uma listagem de obras a decorar, gentilmente cedida pelo camarada funcionário que a foi copiar diretamente da bibliografia recomendada à escola superior do Partido, à imagem e semelhança da escola central de quadros leninistas do Partido Comunista da União Soviética.


“Abrenúncio!”, exclamou o camarada José quando o camarada Graça lhe entregou a bibliografia aconselhada datilografada a dois espaços em folha a4.


“O Manifesto? Mas eles mal sabem ler! E mesmo que soubessem. Esse livro é ilegível. A mim quase me matou. Pobres crianças.” “Não subestimes a capacidade dos camaradas pioneiros.” “Subestimar, dizes tu? Subestimar? Como é que eles vão compreender aquele jargão todo?” “Jargão? Tu atreveste a qualificar a linguagem científica do Manifesto do Partido Comunista como jargão? És um apostata visceral.” “Eu?” “Sim, tu?” “Porque embirras com tudo o que eu digo? Fiz-te algum mal?” “E eu fiz-te algum mal a ti?” “Se me fizeste mal? Tu perguntas-me se me fizeste mal? Então como qualificas a decisão de me mandares organizar a escola de pioneiros e dar lá aulas?” “E o que é que a escola tem de mal?” “O que tem de mal? Eu faço a pergunta ao contrário, o que é que ela tem de bom?” “Perguntas-me o que é que uma escola onde se ensina o comunismo tem de bom? É isso? Será que não consegues descortinar o seu sentido revolucionário?” “E a escola tem algum significado revolucionário especial que necessite de ser descortinado?” “Tu que até tens a mania que sabes tudo não consegues enxergar o objetivo?” “Tu achas que eu tenho a mania que sei tudo?” “Tu não sabias disso?” “Disso, o quê?” “Tu não sabias que tinhas essa mania?” “Tu achas que se eu soubesse que tu me achavas convencido era teu amigo? Achas?” “Quem te julgas tu para me inquirires como se fosses um camarada dirigente?” “Ai apenas os camaradas dirigentes é que estão autorizados a fazer perguntas idiotas?” “É essa a tua contribuição para o esclarecimento da verdade? É? Chalacear com a organização e os dirigentes do Partido deixa-te contente?” “Desde quando é que colocar questões incómodas é chalacear?” “Para ti o que é que é chalacear?” “E isso interessa-te para alguma coisa?” “Olha lá, onde queres chegar com esta conversa de parvos?” “Conversa de parvos? Tu estás a chamar-me parvo?” “Até onde pretendes levar esta discussão? Não estarás a negar-te a cumprir uma tarefa diretamente incumbida pela direção regional?” “Ai foi a direção regional quem te incumbiu de me incumbires tão honrosa tarefa revolucionária?” “Achas, por acaso, que eu te colocava a executar uma tarefa revolucionária tão melindrosa sem uma decisão de um organismo superior?” “Porque será que quando te faço uma pergunta concreta tu te desculpas sempre com os de lá de cima?” “Com que intenção me insultas?” “As minhas perguntas insultam-te?” “Perguntas-me com esse desdém se as tuas perguntas me insultam?” “As minhas perguntas insultam-te?” “Tu perguntas-me com esse desdém todo se as tuas perguntas me insultam?” “As minhas perguntas insultam-te?” “Tu tens a distinta lata de me perguntares com toda essa altivez de intelectual pequeno-burguês se as tuas perguntas me insultam?” “As minhas perguntas insultam-te?” “Tu és meu camarada?” “Duvidas?” “Tu és meu camarada?” “Duvidas?” “Então porque será que nunca cumpres uma ordem dada por mim?” “Ai tu dás-me ordens?” “Tu és meu camarada?” “Porque não me perguntas antes se sou teu amigo?” “Respondias mais rápido?” “A ti interessa-te a rapidez de uma resposta ou a sua sinceridade?” “A tua adesão ao Partido foi sincera?” “Nesta ocasião, a quem é que isso interessa?” “A ti não te interessa?” “E a ti interessa-te?” “Porque é que a verdade não havia de me interessar?” “Não foste tu que disseste que a verdade só interessa se ajudar a revolução?” “E tu não concordas?” “Contigo ou com a verdade?” “Porque nunca consegues ser afirmativo?” “O teu objetivo é que eu concorde contigo?” “Não consegues responder?” “Responder para quê?” “Queres ou não queres cumprir com a decisão do coletivo partidário?” “Achas que isso ajuda a revolução?” “Pensas que eu ando a brincar às revoluções?” “Porque te indispões comigo como se eu fosse teu inimigo?” “Porque me perguntas isso?” “Porque achas que aderi ao Partido?” “Porque és uma pessoa inteligente?” “Achas?” “Porque és uma pessoa sincera?” “Achas?” “Porque és solidário?” “Achas?” “Então porque caralho foi?” “Ora adivinha lá?” “Porque queres transformar o mundo?” “Será? Olha lá, a amizade para ti conta alguma coisa?” “Porque me fazes essa pergunta?” “Queres mesmo que eu vá dar aulas aos pioneiros?” “E tu não queres?”


Depois de mais uma noite de copos e desabafos, os dois concordaram em continuar a ser amigos. Mas uma coisa o José tinha de fazer, levar para diante a escola de pioneiros. E com sucesso. Pois do seu sucesso dependia a ascensão de ambos no Partido. Por isso, o José perguntou-lhe: “E tu achas que eu quero ascender no Partido?” “E quem não quer?” “Tu queres?”


A partir daqui resolveram calar-se para podermos continuar com o nosso relato. Tanta pergunta também cansa. Não só quem as faz, mas, sobretudo, quem as lê. 


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Quinta-feira, 22 de Novembro de 2012

Outono II


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Quarta-feira, 21 de Novembro de 2012

O Poema Infinito (121): a grande solidão dos sonhos


Hoje é o sexto dia da criação, a sexta morada do silêncio inicial. Por isso cito os nomes dos bichos e das flores e escrevo num caderno a sua implícita significação. E anoto os sentimentos que me sugerem: melancolia, tristeza, alegria, ternura. E recopio tudo para a tua pele. Tu manténs a imobilidade absoluta da beleza. Os teus olhos abrem sulcos nos meus. E o teu rosto dispersa-se pelo jardim e o vento recolhe a dor da morte que se concentra na penumbra do entardecer. Releio tudo e observo o frémito intenso da luz que se esvai. Com a ponta dos dedos toco no teu corpo e sinto-o a falar com o meu em surdina. Por isso escrevo no teu o meu desejo com tinta permanente. E de vez em quando sublinho as palavras que se confundem com o latejar dos nossos corações. E a memória enrola-se em imagens impercetíveis. Anoitece. E com a noite vem a solidão, a obscura solidão da sonolência. E as paredes balbuciam poemas do tempo maduro. Lembramo-nos dos verões prolongados da nossa afeição, com os sexos aflitos, com as bocas triturando beijos, com a lua seduzindo rios, com o cio a subir por dentro de nós como a cobra bíblica do mal. E nós como anjos aflitos transmitíamos um ao outro todo o amor que é possível arrecadar nas estações quentes. Agora falamos do tempo com os olhos presos nos filhos e do futuro com os pensamentos fixos no desespero. E murmuramos desejos incompletos e olhamos em silêncio o tempo dos sorrisos. E tocamo-nos brincando com as mãos como o fazíamos quando éramos crianças descalças que chapinhavam na beira do rio. Presentemente já nos demoramos nos sorrisos que não nos apetecem e olhámos para a foz do rio em vez de o fazermos na direção da nascente. Somos como páginas ainda legíveis que se vão tornando ilegíveis. O sonho agarra-se à esperança do regresso. Mas os nossos rostos são atualmente mapas tristes. Agora fazemos promessas e sorrimos só deus sabe porquê. É como se tivéssemos os lábios viciados pela amargura. Todas as flores nos parecem amores imperfeitos. E a alegria tem o luminoso sabor a sal. Descobrimo-nos no silêncio cúmplice das palavras. Somos como a água magoada que reflete o cansado choro das magnólias. O tempo encobre-se para lá das portas da casa que atualmente permanecem quase sempre fechadas. E pelas janelas por onde entrava o verde da primavera presentemente só avistamos nuvens espessas que ensombram os dias e enegrecem a terra. No entanto, do nosso posto de vigia continuamos a olhar a rota das aves no céu. E as aves percebem-nos e tornam-se vibráteis. Sim, ainda é cedo para começarmos a matar palavras. Devemos tentar mais uma vez ortografar paisagens e descrevê-las minuciosamente como se fossem corpos vivos e transparentes. Por vezes, quando a solidão se torna maior, desenhamos escadas à medida da ausência e esperamos. Uma coisa se impõe como necessária: a grande solidão dos sonhos.


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Terça-feira, 20 de Novembro de 2012

Outono I


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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2012

Pérolas e diamantes (12): o sorriso do ex-putativo… candidato


Slothrop, ou melhor, o tenente Tyrone Slothrop (cujo nome é um anagrama de «sloth or entropia», que é igual a “preguiça ou entropia”), um dos personagens do livro Arco-Íris da Gravidade, do enigmático escritor norte-americano Thomas Pynchon, querendo fazer ver que a paranoia tem a utilidade teológica de tornar a Criação inteligível, reflete a determinado momento: “Se há algo de consolador – de religioso, se quisermos – na paranoia, também há a antiparanoia, onde nada se liga a nada, uma condição que poucos de nós conseguem suportar… por muito tempo.”

 

Confusos? Pois vão deixar de o estar daqui a alguns momentos. Por enquanto tenham paciência e deixem-me, das duas uma, ou arriscar tentar ser famoso, ou fazer famoso alguém, pois essa é a forma que nós temos de reconhecer na rua as pessoas célebres. E há na política muita gente ansiosa por não se conseguir imaginar ver fora do poder sem entrar em depressão. No entanto, começam já a sentir falta de alguma coisa, pois sabem que apenas reparamos no poder quando ele nos falta. Ou melhor, nós humanos sentimos mais a sua falta quando nos abandona. Ou está prestes a abandonar-nos. De certa maneira comportamo-nos como felinos que sonham em voar com a simples ação de… comer aves.

 

Os dirigentes que atualmente nos governam querem fazê-lo sacrificando a população portuguesa, mas é caso para perguntar, que pai faria isso aos seus filhos? Um verdadeiro líder sacrifica-se, não sacrifica o seu povo. Os líderes que atualmente por aí andam apenas se comportam como malfeitores vestidos de… fato e gravata.

 

Os romanos consideravam que a fama era um monstro repleto de olhos e de bocas com asas. Também estes governantes e autarcas que nos calharam em sorte andam sempre acompanhados pelos boatos que eles próprios criam, difundem e ampliam. E apelam sempre à credulidade. Isto para espanto e incredulidade dos eleitores. Os romanos tinham razão, estes senhores dizem a verdade com umas bocas ao mesmo tempo que mentem com… as outras.

 

É ver o caso do Tribunal de Chaves, onde o PSD flaviense faz oposição ao PSD nacional, porque lhe vê fugir o chão eleitoral debaixo dos pés. E o mesmo se aplica ao Hospital de Chaves. Mas por muito que estrebuchem, o garrote ideológico do seu líder máximo vai definitivamente levá-los ao desespero e à abdicação. Bem podem balbuciar desculpas em comunicados inócuos, que a realidade neo-liberal lhes fará o que é inevitável, desmascará-los como demagogos e… picuinhas.

 

São homens e mulheres de um pensamento só: conservar o poder a todo o custo. Mesmo que este seja conquistado à base da mentira, da abdicação e… do improviso.

 

A experiência diz-nos que se um desconhecido disser uma verdade, logo lhe dirão que é uma idiotice. Mas se alguém famoso disser uma palermice, ela passará ser encarada como… a verdade.

 

Os atuais dirigentes do PSD dizem cobras e lagartos do PS e das suas antigas políticas suicidas de despesismo e de reformas milionárias adquiridas numa dúzia de anos. E até têm razão. Mas é essa mesma razão a que destrói o argumento pela… base.

 

Todos sabemos que, segundo o semanário Sol, a atual segunda figura de Estado, a senhora presidente do Parlamento, recebe uma pensão de 7255 euros por dez anos de trabalho como… juíza do Tribunal Constitucional.

 

Por não poder acumular esse valor com o ordenado de Presidente do Parlamento (também uma lei de José Sócrates), Assunção Esteves abdicou de receber pelo exercício do seu atual cargo, cujo salário é de 5219 euros. No entanto mantém o direito a ajudas de custo no valor de 2133 euros. Ora, no total, a senhora aufere mensalmente 9388 euros. Uma pensão de miséria, conquistada numa vida inteira de… trabalho e canseiras.

 

Repito: É a segunda figura do Estado, estamos em crise e, além disso, é militante de topo do… PSD.

 

Volto a repetir: É militante do PSD e a segunda figura de Estado, de um Estado em crise profunda onde a classe média está a ser vergonhosamente espezinhada por… impostos estratosféricos.

 

Mas voltemos aos laranjinhas cá do burgo. Parece que há no PSD gente que não consegue senão pensar em ocupar a cadeira de presidente da autarquia flaviense. Apesar de já entradotes na idade, assemelham-se aos jovens, pois não conseguem ver as coisas para além… das coisas.

 

A circunstância de Fernando Campos querer vir invadir o terreno político autárquico que por princípio pertence a António Cabeleira, permanece um mistério cuja resolução só poderá ser o próprio mistério. Mas todos sabemos que o autarca barrosão não dá ponto… sem nó.

 

Uma coisa já conseguiu, fazer com que António Cabeleira metesse pés a caminho até Vila Real para fazer aprovar a sua candidatura à Câmara de Chaves e logo de seguida rumasse caras a Lisboa para que a Comissão Nacional do PSD a ratificasse em… tempo recorde.

 

Isto depois de ter convocado um plenário concelhio do PSD flaviense, onde apenas compareceram os apaniguados do ex-putativo candidato. Os opositores de António Cabeleira, sabendo como são estas coisas, sabendo como se arregimentam apoios, e para não parecer mal, resolveram ir fazer a oposição ao vice-camarário em reuniões informais, em contactos pessoais e em… grupos de amigos.

 

Que me lembre, e eu tenho alguma memória, apenas uma vez se soube de tanta animosidade e tanta conspiração dentro do PSD, foi no tempo do último mandato de Branco Teixeira. E o homem acabou por… perder.

 

Pensando que afastou definitivamente a potencial, e incómoda, candidatura de Fernando Campos à Câmara de Chaves, António Cabeleira apareceu pela primeira vez a esboçar um sorriso nas capas dos jornais. Claro que ainda tímido e envergonhado, pois só dele, do sorriso, claro está, nos apercebemos pelo estender dos lábios e pelo brilhozinho nos olhos, já que os dentes ainda ninguém lhos conseguiu ver. Mas mesmo assim… um sorriso.

 

Finalmente sorri. E nós também. E com ele. E por ele. E dele. A amizade isso nos impõe e a isso nos obriga. Mais a mais, um sorriso do “oficialmente candidato pelo PSD à Camara Municipal de Chaves”, como veio escarrapachado nos jornais da terra, enche-nos de… felicidade.

 

Nós somos assim, solidários. E a felicidade dos nossos conterrâneos é como seja a nossa própria felicidade, pois sentimos que o seu sorriso vale mais do que mil palavras. E nós tocados por um sorriso daqueles, pela sua espontaneidade, pelo seu arreganho, pelo seu engenho, pela sua eloquente arte, como diz um spot publicitário da TSF, vamos ao fim da rua, vamos ao… fim do mundo.

 

Mas no nosso último escrito, prometemos que iríamos dedicar algumas palavras à candidatura independente do militante do histórico do PSD flaviense, e atual presidente da Junta de Santa Maria Maior… João Neves.

 

Na verdade, vou pegar na carta de João Neves ao “Notícias de Chaves” porque me parece honesta, genuína, desassombrada, até talvez ingénua, mas… verdadeira.

 

Logo de início pergunta, como quem responde a insinuações malévolas, se o artigo “A Política Será Assim?, visando a sua pessoa, foi escrito porque João Neves incomoda… alguém?

 

Sobre a organização de um almoço de apoio ao “senhor Cabeleira”, confirma que sim o fez “mas a mando deste” (e nós, ingénuos, a pensar que tinha sido espontâneo!) “pois andava assustado com a ameaça de um outro candidato… à Câmara”.

 

Caro amigo João Neves, aqui permita-nos discordar, mas o ex-putativo candidato António não se assusta com ameaças dessas. Ele é daqueles que dá o corpo às balas. Além disso, é um militante partidário que não conspira, só inspira e expira, como todos… nós.

 

Mais adiante refere que “desde então o putativo candidato” (permitam-nos que retifiquemos, o ex-putativo candidato) “tomou a peito alguns dossiês que, não só redundaram em fracasso, como, através deles, hostilizou por completo a maioria dos… Presidentes de Junta.”

 

De seguida coloca uma questão: Será que os presentes nesse almoço ainda estão com o ex-putativo candidato? A seguir lança um desafio. E que desafio: “Que faça outro almoço para saber a… verdade!”

 

Sobre a agregação das freguesias, pergunta se será “algum crime defender a restauração da antiga freguesia de Chaves? Não sou carneiro, logo não tenho que seguir o pensamento… do «chefe»”.

 

A terminar, João Neves pergunta, e nós com ele: “Vozes de burro algum dia chegarão ao céu?” Cá ficamos à espera… da resposta.

 

Numa nota final, João Neves acusa o autor do artigo “A Política Será Assim?” de ser um encapotado que mais não pretende do que assustá-lo e demovê-lo das suas intenções. Por isso lhe manda um recado: “Nada nem ninguém me arredará do meu percurso. Aos que andam atrapalhados e com medo, dou uma sugestão: comprem… um cão.”

 

Pois é caro ex-putativo candidato António, quem semeia ventos colhe… tempestades.

 

PS – Novo apelo: Caro senhor presidente João Batista, os flavienses já desesperam com a sua prolongada ausência das cerimónias camarárias e outras análogas, e por consequência dos seus sempre bem-dispostos retratos nos jornais. Apareça, caro senhor presidente. Por favor, apareça mesmo que seja por um momento ou dois, pois sentimos a falta da sua serena e simpática postura. A presença useira e vezeira do seu vice já nos começa a inquietar um pouco. Vá lá senhor presidente, não nos abandone antes mesmo de abandonar definitivamente o cargo para que foi eleito. Por favor! O povo que em si votou reclama-o. Por isso faça-lhes, faça-nos, a vontade. Por favor, por favor senhor presidente. Olhe que nós sentimos a sua falta. Não permita que façam de si um fantasma. Vá lá, senhor presidente. Não nos obrigue a fazer uma petição pública ou um abaixo-assinado. Vá lá, faça-nos a vontade, nem que seja só por uma única vez. Vá… lá.  


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Domingo, 18 de Novembro de 2012

Na Feira dos Santos


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Sábado, 17 de Novembro de 2012

Na Feira dos Santos


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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2012

O Homem Sem Memória - 134

 

134 – Depois do triunfo da razão em Ribeira de Pena, o Partido a nível regional ganhou nova alma. Os comunistas em Trás-os-Montes podiam até ser poucos, mas eram bons, corajosos e íntegros. Embora em vilas como Ribeira de Pena se pudessem contar pelos dedos de uma mão, isso não queria significar que não constituíssem uma força política emergente, digna de crédito, disciplinada, respeitada e respeitadora das mais amplas liberdades. Isto apesar de os reacionários na nossa província serem como as moscas da, com vossa licença, merda, muitos e incómodos como o carvalho. Isto para não dizer outra coisa.


Vai daí, entre namoricos com a independente Isabel, entre infiltrações nos movimentos autónomos e alternativos, entre a militância clandestina no Partido, e o estudo nos dias ímpares da semana, o José foi distinguido com a subida honra de organizar, dirigir e orientar uma escola de pioneiros comunistas que iria funcionar na garagem de uma camarada professora primária, para não dar nas vistas e para dessa forma poder manter o seu estatuto de independente.


A escola de pioneiros era, aos olhos do Partido, a única tarefa revolucionária compatível com a sua militância clandestina. Claro que ainda pensaram em libertá-lo de todas as tarefas relacionadas diretamente com a ação partidária, mas em Névoa os camaradas com qualidades eram tão poucos que até os clandestinos tinham de ajudar nas tarefas planeadas pela direção regional. Ou era isso ou então tornava-se impossível cumprir com o programado. E os comunistas são políticos que cumprem sempre os seus planos, sejam eles mensais, trimestrais, semestrais, anuais ou quinquenais.


Quando o Graça lhe deu tão boa notícia, o José limitou-se a ficar desiludido, muito desiludido mesmo. Para garotos já lhe chegava aturar os irmãos que eram muitos e com feitios diversos e pouco abrangentes. O Graça, vendo-o remexer-se como se tivesse sido tocado por um ramo de urtigas, levou-o ao bar do Aníbal e tratou de lhe levantar o ânimo.


Ainda antes de sorver o primeiro golo da sua espumante imperial tirada pelo próprio “Goela Grande” – que além de ingerir canecas de cerveja como o fazem os camelos quando encontram um poço de água barrenta no meio do deserto, sacava finos com subida arte –, disse-lhe com voz de verdadeiro dirigente do partido da classe operária: “Educar comunistas desde a mais tenra idade é uma das tarefas mais delicadas e nobres que um marxista-leninista pode exercer. Por isso só te podes sentir honrado com tão subida distinção.” Ao que ele respondeu: “Não me fodas a paciência.” E o Graça: “Vá lá, não precisas de ser indelicado.” E o José: “Para mim estão guardados todos os papéis de parvo.”


Embezerrados como estavam, entretiveram-se a beber as imperiais, a debicar os tremoços, a cuspir os caroços das azeitonas e a sacudir das calças os pedaços das cascas torradas dos amendoins.


Vendo-os amuados como dois asnos acorrentados ao mesmo madeiro, o Aníbal pediu licença e sentou-se à mesa pousando lá uma segunda caneca a transbordar de espuma, enquanto escorropichava a primeira que trazia na outra mão. Ato contínuo arrotou, peidou-se com graça e de seguida fumou um cigarro. Logo após, bebeu a segunda caneca de cerveja de uma assentada, arrotou, deu novo peido e fumou outro cigarro.


Vendo que na mesa os copos estavam vazios e os dois camaradas e amigos continuavam a emburrar na sua calada teimosia, levantou-se e foi fazer aquilo que lhe competia. Tirou mais dois finos e outra caneca de cerveja com a devida arte revolucionária que já todos lhe reconhecemos e, enquanto assobiava A Internacional, serviu os amigos com toda a delicadeza de que foi capaz. Eles continuavam calados a ruminar os tremoços, as azeitonas e os amendoins. De seguida serviu-se e engorgitou a caneca de cerveja ainda com mais rapidez do que era normal.


Os camaradas desavindos continuavam desavindos. De novo arrotou, fumou o seu terceiro cigarro e peidou-se tão artisticamente como era habitual. À terceira vez, o Graça e o José acusaram-no em simultâneo: “Porco.” “São gases, camaradas. E os gases oprimidos necessitam de liberdade”, contrapôs o Aníbal com o seu arzinho engraçado. Então os camaradas e amigos riram-se como se tivessem ouvido uma piada do Grouxo Marx. “Vão uns camarõezinhos?” Eles limitaram-se a acenar com a cabeça, pois reconheceram a proposta do “Goela Grande” como exequível.

 

Já em ambiente de descontração, e depois de beberem uma dúzia de finos, seis canecas de cerveja, comerem um quilo de camarão e o Aníbal ter fumado mais três cigarros e dado três peidos muito a modinho, apenas para manter o estilo e a tradição, o anfitrião perguntou qual era afinal o problema. O Graça contou-lhe o que todos já nós sabemos e o José fez o mesmo.


Foi então quando o Aníbal veio em socorro do José para contento do Graça. E disse: “Afinal é uma forma de utilizares as capacidades que desenvolveste no seminário. No fundo, a escola de pioneiros comunistas é a modos como a catequese para os católicos. É uma forma de moldar o saber e a personalidade dos mais jovens dos nossos camaradas. É a maneira de os doutrinar, possibilitando-lhes uma formação sólida e de qualidade, fornecendo-lhes ferramentas que lhes abrirão as portas ao conhecimento do marxismo-leninismo de forma cuidada e permanente.”


“É isso mesmo, camarada Goe… Aníbal. É isso mesmo. Imagina José, o avanço que podes permitir a todos esses pequenos camaradas para que possam vir a ser verdadeiros revolucionários. E sem hesitações. E sem dúvidas. É de pequenino que se torce o pepino”, adiantou o Graça. Ao que o camarada José contrapôs: “Mas não vos ouvi dizer que a catequese e o batismo definiam cedo de mais a orientação religiosa de uma criança, pois, enquanto pequenos, não possuíam capacidade crítica, nem conseguiam compreender, quanto mais optar, em assuntos desta natureza? Deus para elas é uma abstração…” “Também para os adultos Deus é uma abstração”, contrapôs o Graça. Esta frase teve a concordância do Aníbal que aproveitou a deixa para ir buscar mais dois finos e outra caneca.


Ainda antes do “Goela Grande” arrotar e etc., o José teve oportunidade para insistir que uma escola de pioneiros comunistas era bem capaz de ser uma violência para a pequenada. E confessou: “Sim, Deus é uma abstração para as crianças e até para os adultos. Mas temos de reconhecer que o marxismo-leninismo não o é menos. Estou mesmo em crer que a teoria comunista é até bem mais abstrata para as crianças do que o catolicismo. Explorados e exploradores, lutas de classes, meios de produção, ditadura do proletariado, o próprio proletariado, a pequena, a média e a grande burguesia, o processo histórico, a dialética e outros conceitos, são coisas que não desenvolvem a imaginação. São conceitos tão rebuscados, são preconceitos tão arreigados que…”


“Alto e para o baile. Lá estás tu com os teus desvios ideológicos. Ai José, José, nunca mais te emendas. Num país socialista estavas na prisão a aprender a não ter dúvidas. Mas ainda bem que vivemos numa democracia burguesa e és meu amigo, senão…”


“Com a verdade me enganas, meu Judas traiçoeiro. Preferia dar catequese às crianças, pois elas até podem achar o conceito de Deus abstrato, mas consideram a ressurreição e os milagres histórias de encantar. Agora falar-lhes de pobreza, de lutas de classes, de sacrifícios, de violência e de morte aos reacionários, parece-me excessivo. Deixem as crianças ser crianças.”


“Mas essas crianças são filhas de comunistas. E os seus pais querem educá-los sob os princípios do materialismo dialético, do marxismo-leninismo, do comunismo.”


“Razão tem o Aníbal, a escola de pioneiros é a catequese dos comunistas. Quando é que lhes pode ser ministrada a primeira comunhão? Será que o camarada Alberto Punhal vem cá para os crismar?”, provocou o José.


“Crismar não sei, mas com toda a certeza que lhes distribuirá um lenço com a foice e o martelo para eles colocarem ao pescoço.”


“Pagam?”, perguntou o José. “É que preciso de dinheiro para comprar as obras completas de Brejnev.” “Não me provoques. Ouviste?” “Ao menos perdoem-me as cotas. Ou paguem-me a assinatura d’A Verdade ou da Vida Soviética.” “O único que prometemos é arranjar material e deixarmos-te levar para casa o volume encadernado de O Militante.” “Ah, vão comprar baldes de praia e cromos de futebol para os ensinarmos a colar cartazes?” “Não, vamos comprar metralhadoras e granadas de plástico para os treinares na nobre arte da guerrilha revolucionária.” “Também tenho de lhes ensinar a cantar os hinos do partido?” “Sim, tens. E também a gritar PC, e a pôr o punho no ar com toda a força e toda a convicção do camarada Punhal.” “Só aceito se me for permitido fazer parte da lista da Isabel e não tiver de relatar nada do que de mais íntimo possa acontecer entre nós.”“Sendo assim, podes amanhã mesmo iniciar as aulas na nossa escola de pioneiros. E que Deus Marx e Cristo Lenine estejam contigo.” E o Aníbal, vendo que as negociações tinham chegado a bom termo, finalizou dizendo: “Ide em paz e que o comunismo vos acompanhe.” “Falta-nos pagar a conta.” “A conta já está paga. Faço questão.”


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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2012

Na Feira dos Santos

 


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Quarta-feira, 14 de Novembro de 2012

O Poema Infinito (120): orientação mortal


Fiquei parado na tua extraordinária insinuação gestual. Nela observei o símbolo de toda a inflexão do esforço e da desordem que preside a todo o pensamento coerente. Toda a ideia pré-existente já foi organizada pelo cânone ocidental das imagens que respiram e se dilatam e se movimentam. E as palavras confessam amor e trazem consigo a perigosa e enigmática pergunta dos amantes. Os campos são percorridos por olhares arbitrários e neles nasce o espírito do destino. As palavras são novas oportunidades para o desastre. E respiram desespero e dilatam-se enquanto se movimentam. Experimentamos de novo o “era uma vez” e a pequena possibilidade de encontrar a verdade em algum deus que exclame oblíquas partículas de tempo e espaço noutra dimensão. Os atores invadem o cinema e destroem todas as imagens. E os realizadores fabricam estios e sussurros e inclinações graves e planos ambíguos e instantes luminosos. E o “the end” vem tão depressa que não possibilita a surpresa da sacralidade das posições sexuais. Só conseguimos observar a pressa da luz e a vivacidade do “pb” e a turbulência íntima dos planos falhados. Por isso o tempo se acautela e desce por nós com a serena destreza do desejo. Os planos multiplicam razões e submissão permitindo que os atores principais se consumam no seu sorriso ingénuo de videntes sem sítio e sem ocasião. Sobre o teu rosto deito o meu rosto. Dentro do teu olhar combinam-se as trevas e o fogo. Por cima das minhas mãos abertas expande-se a energia positiva da luz. E a luz estende-se. Afinal, a ideia é sempre fixa. Imaginamos uma ventania que varre o espaço e que se define dentro da geometria dos sexos. Enchemos o tempo de vazio. E o tempo torna-se ainda mais rápido. E exalta-se. E cai. Umas coisas caem por causa de ver cair as outras. E os nossos olhos enchem-se de mapas abertos que não levam a lado nenhum nem explicam nada. Unicamente sentimos os nossos corpos moldar-se com o ritmo aceso dos relevos. E as linhas de água gravam fendas nos nossos sentimentos repentinos. Uma exaltação táctil expõe-nos à leitura do medo e à ortografia da angústia. Vejo o teu sorriso liso e sinto o frio a bater na orientação mortal da suavidade da noite. Uma sonolência explosiva toma conta de mim. O espaço transforma-se em energia e a energia em delicadeza inútil. As mãos contornam de novo o espaço dos nossos corpos que se agitam na veloz delicadeza dos orgasmos. Continuo a sentir a tua viva ausência mesmo quando estás na minha companhia. A devassidão torna-se um querer que não pretende sair do silêncio. Sempre assim foi. O prazer guardado na arca da mudez. Vou de novo ter medo de adormecer porque me sinto transformar em fotografia incendiada. A verdade queima, o silêncio queima, a leveza pesa e a leviandade examina tudo na sua pose de coração longínquo. As perguntas eternas brilham no entendimento dos olhares. Tu dizes: O amor é uma energia bruta. Eu digo: O amor é uma curva fulminante. Eu penso: Tu és a aplicação determinada de uma dança. Tu pensas: Tu és um pretexto espácio-temporal. Todo o amor aguarda a sua vez na sagrada suspensão do desejo. E o prazer envolve-se em si mesmo. E o universo organiza-se. E os corpos nus transferem-se de imagem para imagem. E bebem-se demonstrando a sua grandeza descontinuada. 


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Terça-feira, 13 de Novembro de 2012

Na Feira dos Santos


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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2012

Pérolas e diamantes (11): António Cabeleira versus Fernando Campos, ou o problema em busca de solução, ou a solução em busca do problema, ou vice-versa


José Eduardo Martins, ex-deputado e dirigente do PSD disse ao Jornal de Negócios que “os partidos vivem hoje de diretas. E Portugal sempre foi um país de grande caciquismo. Na prática, quem tem força e disponibilidade para organizar o caciquismo acaba por ganhar”.

 

Mas não é sobre isto que hoje vos quero falar, por isso esqueçam o que anteriormente ficou escrito. Desta vez o que me traz à liça são os sabores de outono, ou melhor, o workshop promovido pelas Termas de Chaves – Spa do Imperador.

 

De facto, com a chegada do frio temos a nefasta tendência de preferir alimentos mais “aconchegantes”, mas também mais fortes e pesados “abandonando assim algumas das boas práticas adquiridas no verão”, como muito bem nos lembram os simpáticos organizadores do gracioso workshop.

 

Para evitar ganhar peso torna-se necessário “aprender a preparar refeições equilibradas, saciantes, com recurso aos produtos da época”. Ora, vai daí, preparei-me para ir aos tortulhos. Mas começou a chover tanto, mas tanto, mas mesmo tanto, que não me restou outra hipótese a não ser ficar em casa a ler os jornais da terra. 

 

E pus-me a pensar que cá no nosso torrão nascem candidatos do PSD à câmara como cogumelos. Mas, como todos sabemos, nisto dos cogumelos, os mais coloridos e vistosos são sempre venenosos.

 

Mas também não é sobre míscaros tóxicos que hoje vos pretendo falar. Mas de coisas bem mais prosaicas. Fernando Campos, presidente da Câmara de Boticas, e dirigente nacional do PSD, depois de ter feito, através de uma sondagem presumivelmente encomendada a uma empresa especializada do Porto, uma primeira investida tentando insinuar-se como suposto candidato à autarquia flaviense, e após ter ensaiado nas redes sociais apresentar-se como candidato efetivo do PSD ao mesmo concelho, já com cartaz e propostas prontas a servir e carregadinhas de demagogia e promessas tipo banha da cobra, resolveu intentar uma terceira investida fazendo-se ao lugar para ver se a ideia pegava, ou se alguém lhe pega. Ou ambas as coisas.

 

No seu jeito humilde e modesto de barrosão, revelou que tem sido muito pressionado a avançar com a sua candidatura à Câmara de Chaves. Só não disse “quão” muito, nem “quais” os distintos “pressionadores”. Desde logo para não nos impressionar com o seu valor endógeno e exógeno, antropológico, sociológico e ideológico. Sobre isso, apenas reafirmou à “Voz de Chaves” que tem recebido diversas mensagens de apoio encorajando-o a avançar com a candidatura ao município flaviense. E confessou, não os pecados, porque não os tem, mas sim sentir-se “honrado com o desafio”. Estamos em crer que este seu repto tem muito a ver com aquela atitude, agarrai-me se não vou-me ao Cabeleira que o destrono. Mas, enfim, na política o que parece é.

 

Não se esqueceu de dizer que Chaves é a sua cidade, é o local onde estudou, passou grande parte da sua vida e onde tem os seus melhores amigos. Ora, segundo o “Dicionário dos mais Ilustres Transmontanos”, Fernando Campos nasceu na freguesia de Salto, concelho de Montalegre, e passou a maior parte da sua vida em Boticas. Afirmar que Chaves é a sua cidade pode ser muito simpático para os flavienses, e sentimentalmente verdadeiro para o próprio, mas também é muito capaz de ser uma “boutade” dita para se enfiar no fato curto e apertado de uma candidatura autárquica a uma terra onde  a maior parte da população tem dificuldade em aceitar essas suas afirmações como autênticas. E admitir que é em Chaves que tem os seus melhores amigos pode ser uma confissão que muitos dos cidadãos do concelho a que atualmente preside recebam não sem alguma acrimónia. Viver em Boticas, presidir à Câmara de Boticas e ter os seus melhores amigos em Chaves é, muito provavelmente, manifestamente exagerado.

 

Na sua reconhecida modéstia, e humildade, acredita que a sua experiência autárquica “poderá ser uma mais-valia para dar continuidade ao bom trabalho que tem vindo a ser feito em Chaves”. Ora, deixem lá ver se entendi direito. Afinal Fernando Campos quer vir dar continuidade ao “trabalho que está a ser bem feito”, mandando borda fora um dos obreiros de mais uma “boutade” ficcional, sendo, ainda por cima, seu companheiro de partido. Essa hipótese não lembrava ao demónio, se ainda existisse. Mas lembrou ao senhor autarca. Lá pelo meio da declaração pôs-se com mais uns blablás da defesa dos interesses da região, de reforço de luta e etecetera e tal a que só faltou, para rematar, citar Sá Carneiro. Pois é, até os mais avisados por vezes se olvidam da cartilha.  

 

No final, talvez na sua tirada mais honesta e sentida, disse, e, pensamos nós, sem se rir, que a sua declaração de disponibilidade “não é mais do que isso”, pois quer “apenas fazer parte da solução e nunca parte do problema”. Avisando que só avançará com uma candidatura “se for legitimada pelos órgãos próprios e se reunir um consenso alargado”.

 

Do que fica dito pelo senhor autarca de Boticas, uma coisa continuamos a não entender. Afinal qual é o problema a que quer dar solução? Se o seu partido tem candidato, se até pertence à concelhia local, se, nas suas próprias palavras, está mesmo a realizar um bom trabalho, quem lhe foi meter na cabeça a ideia peregrina de que por aqui estávamos à espera de um salvador chamado Fernando Campos?

 

Agora fica visível para todos os flavienses, especialmente para a maioria dos militantes e simpatizantes do PSD, que Fernando Campos não é parte da solução, mas sim parte do problema, pois o que conseguiu foi incendiar as hostes e pôr a correr António Cabeleira caras a Lisboa para, nos órgãos nacionais, ver aprovada oficialmente a sua candidatura à autarquia flaviense.

 

Mas uma coisa também nós sabemos, Fernando Campos anda nestas coisas da política há muito, mas mesmo muito tempo, por isso não o vemos a protagonizar dois ensaios encapotados e, após esses balões de ensaio, fazer um terceiro intento declarando oficialmente a um jornal cá da terra a sua disponibilidade de concorrer à Câmara de Chaves e, daqui a alguns meses, ir para casa calçar as pantufas e beber vinho dos mortos. Algum trunfo guarda na manga.  Alguma intenção terá. E, todos o sabemos, não se fazem declarações tão explícitas sem um objetivo bem definido. Em política tudo o que parece é.

 

Não tirámos ainda a limpo se o senhor autarca de Boticas será solução para alguma coisa em Chaves. Mas o que sim sabemos, e categoricamente, é que passou a ser o maior problema para António Cabeleira. Daí os escrivas a mando do vice-presidente do PSD flaviense baterem no senhor com muita determinação e arreganho. E com razão, convenhamos, é que Fernando Campos pôs-se mesmo a jeito.

 

Outra coisa que podemos concluir é que o PSD, como não sente ainda, por parte da oposição, nenhum candidato forte e consistente, dá-se ao luxo de tentar ser ao mesmo tempo poder e oposição.

 

Também existe a possibilidade, talvez complementar, talvez autónoma, de que a presumível candidatura de Paula Barros pelo PS, esteja a ser encarada tão a sério pelo PSD local e nacional, que para aqui decidiu enviar os pesos pesados para lhe dar luta. A ser assim, tanta temeridade custa a acreditar. Mas em política, tudo o que parece é.

 

E por hoje é tudo. Para a semana há mais. João Neves aguarda também por umas palavrinhas depois da sua corajosa carta aberta publicada neste jornal. E olhem que bem as merece.

 

PS – Apelo: Ó senhor presidente, os flavienses já estranham a sua prolongada ausência das cerimónias camarárias e afins, e, por consequência, das fotografias nos jornais. Apareça. Caro presidente, por favor, apareça mesmo que seja muito de vez em quando, pois sentimos a falta do seu sereno e simpático sorriso. Vá lá senhor presidente, não nos abandone antes mesmo de desocupar definitivamente o cargo para que foi eleito. Por favor! O povo que em si votou reclama-o. Por isso faça-lhes, faça-nos, a vontade. Por favor. Por favor, senhor presidente. Olhe que nós sentimos a sua falta, apesar de não o parecer à primeira vista, pois somos homens e mulheres de sentimentos recatados. 


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Domingo, 11 de Novembro de 2012

Mulheres no tanque

 


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Sábado, 10 de Novembro de 2012

Descansando o olhar


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Sexta-feira, 9 de Novembro de 2012

O Homem Sem Memória - 133


133 – Quando José relatou o sucedido aos camaradas, eles limitaram-se a censurar-lhe o medo e a desvalorizar os sinais. A terra podia ser um antro de reacionários, mas aquela não era gente com coragem suficiente para se meter com o Partido e os seus militantes mais distintos. “Eles que se atrevam a molestar-nos que logo ficam a saber do que somos capazes. Os comunistas não têm medo de nada nem de ninguém. Era o que mais faltava! Nós enfrentámos, durante a longa noite fascista, as forças policiais e repressivas, a PIDE e o Salazar. Enfrentámo-los e vencemos. Não são agora meia dúzia de matarruanos que nos amedrontam ou que nos limitam no nosso direito sagrado a fazer política.”


Depois de mais uma tarefa revolucionária concluída, foram jantar a um dos poucos restaurantes que se encontravam abertos. O dono serviu-lhes de forma neutra umas ousadas costeletas de vitela com batata cozida e vinho da casa. Entretanto escureceu. Quando se preparavam para pedir o café, uma valente pedrada contra a porta do restaurante fê-los saltar das cadeiras. Todos ficaram em silêncio, menos o patrão da casa que lhes serviu o café com o pedido de que pagassem rápido e se fossem embora o mais depressa possível. Informou-os de que um grupo de pessoas se dirigia para a salão onde se ia realizar o comício munidos de varapaus, seitouras, enxadas, forquilhas, engaços, algumas pistolas e uma que outra caçadeira. O propósito não era pacífico. A reação estava alerta e organizada.


“Vão-se embora antes que eles deem cabo do meu restaurante”, pediu-lhes. “Vocês deviam saber que por aqui os comunistas não são bem-vindos. Cá na terra, até os socialistas são molestados e perseguidos. Vão-se embora enquanto é tempo.”


O camarada de Vila Real foi taxativo: “Não podemos fugir. Vem aí a Maria Tenrinha para fazer o comício. Ela é membro do Comité Central. O que iria pensar de nós? Que somos cobardes? Um comunista nunca vira a cara à luta.”


Nova pedrada embateu em cheio na porta do restaurante. De seguida ouviu-se um grito: “Morte aos comunistas.” Logo depois ouviu-se uma saraivada de sons de ferros e paus a bater com força no empedrado da rua. O dono do restaurante começou a desligar as luzes e encaminhou-os para uma saída lateral. “Fujam, que ainda há tempo”, disse-lhes em jeito de despedida.


Na rua, dirigiram-se apressados ao salão, mas não se atreveram a entrar. Do lado de fora, uma multidão furiosa ululava e batia no chão com varapaus, aguilhadas e vários utensílios agrícolas. “Morte ao comunismo. Comunistas para a Sibéria”, bradavam excitados os homens. “Assassinos”, gritavam desvairadas as mulheres.


Por muita coragem que tivesse aquela meia dúzia de intrépidos militantes comunistas, o ar assanhado da população era um enorme dissuasor de qualquer propósito que não fosse abandonar Ribeira de Pena com a organização necessária. E quanto mais depressa melhor. O camarada dirigente de Vila Real ainda ensaiou uma derradeira solução. Como a entrada do salão estava bloqueada, resolveu dirigir-se ao posto de GNR para pedir proteção e apoio. A liberdade de expressão era um direito, e uma conquista, da revolução democrática e nacional. Ninguém podia coagir ou tentar proibir os comunistas de divulgar as suas ideias e propalar os seus ideais. Além disso, a GNR, como força da ordem, tinha o dever de os proteger e de impor o respeito pelas mais amplas liberdades. A sua missão consistia em fazer vingar o princípio da coexistência pacífica entre a população e os diferentes partidos políticos.


“Vamos ao posto da GNR exigir-lhes que dispersem os reacionários para que possamos fazer o nosso comício”, disse com cara de caso o camarada de Vila Real. “Anda daí comigo José, o teu pai não é da GNR? Anda, vai lá falar com eles, enquanto eu fico a guardar os carros.” “Eu vou lá mas só se tu fores também. Eu sou apenas um militante de base, enquanto tu és dirigente. Quem tem as credenciais és tu. O Aníbal fica aqui a guardar os carros. Ele e os outros. A Catarina vem connosco.”


O Aníbal, apercebendo-se da trovoada que se estava a preparar sugeriu que fossem todos ao posto da GNR e nos carros. Estacionados perto do posto estavam a salvo.


Quando chegaram ao posto, encontraram o plantão a fechar as portadas das janelas, o portão da rua e a aferrolhar por dentro a entrada.


“Por favor, por favor, ajude-nos. Os reacionários não nos deixam entrar no salão onde vai ter lugar o comício do Partido. Mande uma patrulha lá acima por ordem naquilo”, exigiu o camarada dirigente de Vila Real.


O soldado da GNR olhou para ele com todo o desprezo do mundo e disse-lhe que a patrulha tinha ido tomar conta de uma ocorrência numa aldeia do concelho.


“Então chame o cabo.” “O cabo foi-se deitar.” “Às nove da noite?” “Está doente.” “Então chame o sargento, pois o caso é grave e pode trazer consequências.” “O nosso sargento foi passar o fim de semana a casa.” “Então e os outros guardas?” “Os outros guardas foram gozar o seu dia de folga. Eles também têm mulher e filhos.” “E então nós?” “Desenrascam-se como puderem.” “Mas somos meia dúzia de pessoas. Não podemos com aquela gente toda.” “Quem bem faz a cama bem se deita nela. Boa noite.” E mais nada disse o plantão da GNR. Bateu com a porta, deu duas voltas à chave e desapareceu deixando-os ali no meio da rua com cara de incrédulos. (Íamos para escrever cara de estúpidos, mas, como todos sabemos, os comunistas podem ter cara de tudo, menos de estúpidos. Oferecemos as antigas e saudosas obras completas de Lenine, da Novosti, em espanhol de lei, e ainda novinhas em folha, a quem nos provar o contrário.)


“Não acredito”, disse o camarada dirigente de Vila Real. “A GNR em vez de nos proteger abandona-nos à nossa sorte.” A camarada Catarina, com a sua lucidez feminina, disse: “O melhor é irmos embora enquanto podemos e lá em cima esperar pela camarada Maria Tenrinha e avisá-la de que o comício não se pode realizar por falta de segurança.”


Uma parte da multidão começou a descer a rua de encontro aos camaradas batendo com os paus no chão como se estivessem a afugentar cobras ou a espantar javalis. Jovens de moto começaram a fazer-lhes tangentes e a insultá-los.


“Vamos embora”, ordenou o camarada dirigente. Encontrámo-nos lá em cima na estrada que liga a Vila Pouca. E ninguém para. Quem se meter à frente é reacionário morto.


Quando se enfiaram nos carros, já a multidão os tinham cercado. Enquanto batiam nos viros e na chapa do carro com o que tinham à mão, insultavam-nos de tudo: “Filhos da puta, comunistas do caralho, assassinos, ladrões, papantes.”


Dentro do carro, o José, virando-se para o Aníbal, quase em lágrimas, perguntou: “Porque será que o nosso povo é tão reacionário. Será que não enxerga que quem os defende somos nós, os comunistas. Por que razão nos odeiam tanto?” “Não ligues. O povo não presta.” “Como podes dizer isso, sendo tu comunista?” “Sempre é melhor do que pensar que quem não presta somos nós.” “Que terrível dilema: Nós defendemos o povo e o povo é contra nós.” “Lá terá as suas razões…”, mas não acabou a frase pois teve de travar de repente para não atropelar uma mulher idosa que com uma forquilha em punho se meteu à frente do carro para o picar como o fazia aos animais bravos.


“O camarada de Vila Real disse que não devíamos parar. Quem se atravessar à frente morre.” “Quem morre somos nós se atropelarmos alguém,” argumentou com muita sapiência o Aníbal.


Um pouco mais adiante, o outro veículo dirigia-se com velocidade variável em direção ao cordão humano de homens mulheres que gritavam impropérios e agitavam toda a espécie de ferramentas agrícolas. Adivinhava-se uma tragédia, pois nem o carro abrandava nem a barreira humana abria qualquer brecha.


“Vamo-nos foder todos por causa daquele maluco. Se pensa que pode atropelar alguém e sair daqui incólume é bem mais maluco do que eu imaginava”, comentou o Aníbal. “Que Deus nos ajude neste momento tão delicado”, desabafou o José. “Tu ainda és católico?” “É apenas uma força de expressão.” “Com a verdade me enganas.” “Segue o carro da frente e não traves.” “Posso não ser lá grande comunista, mas decididamente não sou louco.” “Depois de ele matar alguém, o seu destino será o nosso destino.”


Milagrosamente a muralha humana abriu uma frincha quase no momento da colisão.


Estavam os intrépidos e decididos marxistas-leninistas transmontanos a acelerar por ali acima quando o automóvel da Maria Tenrinha passou por eles sem se ter apercebido que eram os seus camaradas quem abandonava Ribeira de Pena para não serem trucidados. Quando, um pouco mais adiante, pararam os veículos, discutiram se deviam ou não ir atrás da camarada do Comité Central, para a salvarem.


Meterem-se no vespeiro era morte certa, mas abandonar a camarada era uma cobardia, um ato indigno de comunistas revolucionários. Enquanto discutiam, apareceu o carro de um camarada de Névoa que em boa hora tinha decidido ir assistir ao comício. Vendo-os parados, parou também e perguntou-lhes o que faziam ali imóveis no meio da serra.


Depois de o informarem sumariamente do ocorrido, resolveram que o melhor era o camarada ir a Ribeira de Pena disfarçado de turista e tentar avisar a Maria Tenrinha do sucedido. Para o efeito teve de arrancar os cartazes dos vidros e das portas da viatura e desfazer-se de toda a iconografia comunista que nela transportava.


Quando lá chegou, já a camarada Maria Tenrinha tinha sido agredida e, com um olho negro e um joelho inchado, ia agora a caminho do hospital de Vila Real.


No hospital, a camarada do Comité Central, enquanto era observada e lhe faziam o curativo, contou aos camaradas que a rodeavam que vendo tanta gente junta dirigiu-se-lhes e que de imediato foi agredida, ainda antes de ter perguntado onde ficava o salão do comício do Partido. “Ai tu é que és a Maria Tenrinha?”, questionou-a um popular. “Aqui as bruxas comunistas levam porrada até lhes sair a ronha.” Já o pau estava a descer na direção da sua cabeça quando ela sacou de um spray de defesa pessoal e o disparou bem na direção dos olhos daqueles que pretendiam agredi-la. Mesmo assim foi atingida por vários murros e um que outro pontapé. Ato contínuo, os dois camaradas seguranças pegaram-lhe com determinação, enfiaram-na no carro e levaram-na dali com toda a velocidade que o carro permitia. 


Como a camarada do Comité Central era a companheira de outro camarada do Comité Central que tinha seu cargo as tarefas de organização e controle da segurança do Partido, logo na manhã seguinte telefonou ao governador civil de Vila Real, para se queixar da vergonhosa atuação da GNR, cuja jurisdição estava a cargo do representante do governo no distrito, e para o avisar que no fim-de-semana seguinte Ribeira de Pena ia assistir ao maior comício da sua existência enquanto vila.


E assim foi. Centenas de carros, camionetas, motas e autocarros transportando milhares de simpatizantes e militantes comunistas entupiram a estrada que ligava Vila Pouca a Ribeira de Pena agitando bandeiras com a foice e o martelo, buzinando sem parar e gritando palavras de ordem até ficarem roucos.


Os mesmos populares que no dia anterior se tinham engalfinhado contra a Maria Tenrinha e os seus companheiros, desta vez juntaram-se aos camaradas e comportaram-se como se fossem comunistas de toda a vida.


José lembrou-se do ditado popular: Se não podes com eles junta-te a eles. O povo é mesmo assim, como as giestas no monte, afaz-se ao sentido do vento.


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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2012

Mulheres ao sol


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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2012

O Poema Infinito (119): o fluxo


Respiram-me as mãos aflitas de tanta luz. E eu respiro alto e fundo fustigado por deus e pelo demónio. E a lua multiplica a angústia. E a angústia arde entre o sopro e o murmúrio. Esta é a hora da santa aliança entre o divino e a irreverência. É o tempo do limbo, esse lugar entre o vazio das sombras e o silêncio da alba. Volto-me no sentido da tua ausência onde me sinto uma semente adormecida. Esse é o enigma da pastora de viagens que adormece sonhando com o eterno enigma das brisas matinais. E a pastora fica calada na totalitária imobilidade de perceção. Agora tenho a certeza de que o meu jardim interior tem uma astronomia infinitamente minúscula. E nele vejo os insetos, com os seus múltiplos aspetos e as suas delicadas antenas, colidirem de frente com os átomos e orientarem-se pelo sentido das formigas. Nesse jardim, as palavras ficam fascinadas com a meticulosidade das constelações legíveis e permanecem sempre intactas. E as palavras transformam-se em fábulas que adormecem junto ao sol sintetizado das folhas. O jardim é agora um estremecimento. Toda a certeza do mundo se veste com as cores penetrantes do adeus. E o sol abre a noite onde mora a memória, onde os relâmpagos principiam de novo a reconstruir o mundo. E o meu corpo fica silenciosamente enrolado nos meus membros. É o caos que surge em todo o seu esplendor de borboleta ensurdecida pela beleza das cores do arco-íris. É de novo o princípio. E a água corre dentro da tua boca ardente. É dessa forma que o inferno procura a celeste ardência dos corpos. E o vazio rodopia. Explodem os gestos. Explodem as palavras. Explode a fúria suave dos corpos. Toda a vontade é agora uma força intensa de volúpia. E a fluência do poema deixa-me a boca incompleta. Lágrimas obscuras descem pelo rosto ignorando o futuro. A tua voz é um gesto em chamas. E a tua língua acende-se de sombra e vento e pousa no centro vazio dos dias. Nasce um corpo que é uma vontade, que é um sinal breve de princípio, um corpo que é quase nada. Que é quase tudo. E nele se dilui a liberdade rude do desejo. Falas-me agora do princípio escuro da paixão. E as partículas fundem-se na sua evidência atómica. E tocam a nudez como se ela fosse um bicho ao mesmo tempo obsceno e belo. De novo o caos nos visita montado nas asas da sua borboleta teórica. E o caos respira o ardor completo das palavras que respiram a tenacidade da matéria. O turbilhão, por incrível que pareça, torna-se legível. E envolve-se na parte permanente do plasma e da matéria inacessível, que os físicos denominam de antimatéria. Novamente viajo no prodigioso núcleo onde se formam os sentimentos. Aqui existe a superabundância do nada.  Toda a matéria é uma dissidência de deus. Todo o deus é um delírio legível e branco. Tudo é uma sequência viva de palavras. Todos os sinais se transformam em palavras. Todo o silêncio é uma fissão de palavras. Por isso elas dançam antes de serem absorvidas pelos buracos negros do universo. E dançam no seu desejo de delírio. E as suas linhas ardem na sua própria cor. Cada vez estou mais perto da fenda inicial da vida, da origem de tudo, da criação completa. Sobre o meu jardim interior desce um ponto negro que resolve a origem da luz e a equilibra dentro do seu silêncio suspenso. E o fluxo da vida não cessa, apesar do abismo branco da morte. 


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Terça-feira, 6 de Novembro de 2012

O homem da enxada


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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2012

Pérolas e diamantes (10): o júbilo, o frenesim, estórias e indignação


Começamos hoje como terminámos a semana passada, com júbilo e regozijo. Para os mais desatentos lembramos que, segundo o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), os concelhos que apresentaram maior número de desempregados em termos absolutos, são Vila Real e Chaves, 15% e 17% respetivamente. Isto no fim de Agosto, que é o mês do turismo. Ou seja, o desemprego cresceu em Chaves 2,46% em relação ao mês de Julho.

 

Finalmente lideramos o distrito. E estamos à frente de Vila Real. É caso para celebrarmos. E pensar que devemos isto essencialmente ao PSD nacional e, muito particularmente, ao PSD local e à sua gestão autárquica, é um fator de alento e de esperança no futuro.

 

E imaginarmos a redundante hipótese de o nosso futuro passar por uma Câmara presidida por António Cabeleira, então é caso para fazer rebater os sinos, especialmente os sinos das igrejas das freguesias extintas, cuja proposta de agregação, na visão progressista de António Cabeleira, João Batista, Nelson Montalvão e Manuela Tender, visa salvar freguesias. Salvam-se umas e morrem outras. É a lei natural dos políticos variáveis.

 

Estivesse a oposição no governo e estes senhores, e a senhora, claro está, faziam o que agora tão veementemente criticam nos outros. É por isso que a política é tão patusca. É por isso que os políticos cada vez têm mais apoio por parte dos portugueses. E, digo-vos de coração, todos eles merecem o nosso amparo.

 

Deixem que aqui faça um pequeno parêntesis. Eu sei que estão surpreendidos por tão grande lembrança, refiro-me, claro está, a Manuela Tender. Mas o que tem de ser tem muita força. Sim, a senhora ainda está no parlamento, pois eu vejo-a sempre sentadinha no seu lugar, educada e atenta, e nesse seu prestigiado estatuto, e estado de alma, tem desempenhado o seu papel com muito denodo e subido empenho.

 

Ainda não nos cansámos de observar a senhora deputada bater palmas e sorrir quando os seus correligionários de partido falam, ou os do governo discursam (bem, quando os do governo dão aquelas boas notícias que a todos nos enchem de esperança e júbilo, como o aumento estratosférico do IRS, bem, aí a senhora deputada sai da sua pacatez habitual e aplaude tanto, mas mesmo tanto, que até o senhor primeiro-ministro fica surpreendido por ter na sua bancada parlamentar deputada tão solidária), a senhora sorri com um sorriso verdadeiramente liberal. E extraordinariamente neo.

 

Mas também, mesmo que lhe custe, e nós sabemos que sim, quando os deputados da oposição tagarelam a dizer mal do seu partido, da sua coligação e, sobretudo, do seu querido e estimado primeiro-ministro e do seu governo, a senhora deputada (que não se cansa de citar e recitar e tornar a citar, o chefe do executivo como se Pedro Passos Coelho fosse um sábio da Pérsia), sabe manifestar o seu genuíno desagrado.

 

Só ainda não a vimos deitar faladura. Mas ainda não perdemos a esperança de a observar, lá no hemiciclo de São Bento, a discursar em favor dos transmontanos e, sobretudo, dos flavienses. Assim ali de pé como as árvores, a defender as nossas freguesias, a defender o nosso Tribunal, a defender o nosso hospital, a defender o nosso comércio tradicional, os nossos agricultores, o nosso direito a andar nas autoestradas que pagamos todos os meses através dos impostos, enfim, a defender o nosso direito a termos futuro.

 

Definitivamente, João Batista (Ó senhor presidente, os flavienses já estranham a sua prolongada ausência das cerimónias camarárias e afins, e por consequência das fotografias nos jornais. Apareça. Caro presidente, por favor, apareça mesmo que seja muito de vez em quando, pois sentimos a falta do seu sereno e simpático sorriso. Vá lá senhor presidente, não nos abandone antes mesmo de desocupar definitivamente o cargo para que foi eleito. Por favor! O povo que em si votou reclama-o. Por isso faça-lhes, faça-nos, a vontade. Por favor, por favor senhor presidente. Olhe que nós sentimos a sua falta.), António Cabeleira, Nelson Montalvão, Manuela Tender e todo o seu pequeno grupo de apoiantes acérrimos merecem bem o nosso aplauso. E, estamos em crer, o seu esforço será devidamente recompensado.

 

Mas o que desta vez nos abalança para a escrita são as atividades que semana a semana o município de Chaves, através do seu presidente em exercício e putativo candidato a presidente efetivo, protagoniza e que por isso vemos escarrapachadas nos jornais, quase sempre na capa e a cores, e que nos enchem de júbilo.

 

Uma das que nos chamou mais a atenção foi o “Primeiro Fórum Europeu de Cooperação Transfronteiriça de Segurança Rodoviária”, evento que encerrou a “Semana da Educação e Segurança Rodoviária na Eurocidade”. Veem, lá voltam eles com a brincadeira da Eurocidade. Estes autarcas de Chaves e de Verin são uns patuscos.

 

Reúnem-se à volta de uma mesa para lerem umas folhas escritas pelos assessores e saltam logo a dizer que aquela reunião é um Fórum. Seguidamente basta um dos presentes falar português e outro galego, para propalarem que é Transfronteiriço. Posteriormente chega apertarem as mãos uns aos outros e trocarem meia dúzia de abraços e palavras de circunstância para falarem imediatamente de cooperação. E depois enchem a boca com a Segurança Rodoviária por acarrearem meia dúzia de guardas-civis e colocarem duas dezenas de crianças a guiarem uns carrinhos de feira num campo alcatroado em Verin e dizerem que foi um sucesso de adesão e participação.

 

Para que esta história fique para a História como uma estória com muita imaginação e com os figurantes devidamente identificados, podemos dizer que os convidados de honra foram Roberto de Castro, subdelegado do Governo em Orense (Olhem, nós até conhecíamos vários tachos, panelas, designações, prebendas, títulos e demais caganças nominativas, mas esta de subdelegado do Governo em Orense é de se lhe tirar o chapéu. Mas Orense é algum principado? Algum enclave territorial para merecer a presença de um delegado e de um subdelegado do governo numa cidade tão pouco relevante numa relação entre Estados?), José Hermida, tenente-coronel chefe do setor de tráfico da Galiza, David Llorente, chefe provincial de Tráfico, Juan Manuel Jimenez Morán, alcaide de Verin (outro patusco da dimensão de António Cabeleira) e o próprio presidente em exercício do município flaviense, o nosso querido e estimado arquiteto paisagista.

 

E enquanto dentro de portas, os adultos brincavam com palavras tão bonitas como “coordenação dos serviços de vigilância” e “acordo de Schengen”, além dos lugares comuns useiros e vezeiros nestas ocasiões, cá fora as crianças brincavam com os carrinhos a pedal e subiam para um helicóptero e para um camião dos bombeiros como se fossem diversões da Feira dos Santos.

 

E riam-se muito. Tanto as crianças, como os adultos.

 

António Cabeleira, na cerimónia inaugural, meio tapado pelo seu computador portátil, chegou mesmo a esboçar um sorriso quase natural. Vê-se que tem treinado com os seus assessores de imagem. É que a campanha está aí à porta, e os seus presumíveis adversários nisso ganham-lhe sem nenhum esforço e até lhe dão uma capilota. Por isso, o putativo candidato do PSD ainda tem muito que aprender. Mas se adotar a pose sorridente de João Batista, já não vai nada mal acompanhado para a contenda.

 

PS – Sobre a extinção das freguesias no nosso concelho, o PSD sentiu-se tão incomodado com a atitude de indignação e contestação por parte do PS, que o seu líder concelhio, novamente António Cabeleira (quem diria, o homem está em todas, cada cavadela sua minhoca), ele e o seu reduzido núcleo de persistentes apoiantes, acusou os subversivos e temíveis socialistas flavienses de, e passamos a citar, “discutir a bondade ou não da lei, mas nunca as propostas concretas” (como se elas fossem discutíveis), “nem apresentar qualquer alternativa. Bem pelo contrário, numa atitude que não tem qualificação, apelou, com a distribuição de um panfleto, à revolta das populações”.

 

Por muito que nos custe a admitir, o senhor presidente do PSD flaviense, e presidente em exercício da Câmara de Chaves, tem razão. Esses agitadores do PS são uns bardinos, pois mostram-se dispostos a contestar e a lutar. Onde já se viu tamanha desfaçatez. Apelar à revolta das populações é um crime de lesa pátria. É uma atitude indigna de um partido democrático. Eles deviam era seguir o PSD e aceitar a extinção das freguesias de bico calado. Deviam era votar na proposta do PSD, aplaudi-la de pé e ir para casa calçar as pantufas e ouvir os discursos de Vistor Gaspar para se convencerem da infalível verdade dos seus números que ainda nem uma única vez bateram certo nem com a realidade nem com as suas próprias previsões.

 

E, bem vistas e analisadas as coisas, as freguesias afinal servem para quê? Apenas prestam serviço às poucas pessoas que habitam nas aldeias. O melhor será extingui-las a todas. Acabava-se com o mal pela raiz. Basta a troika exigir isso a Pedro Passos Coelho que ele assina logo por baixo de cruz. E nem pestaneja. E os nossos autarcas do PSD batem logo palmas de pé. Pois que lhes faça bom proveito a destruição do nosso mundo rural. Um dia a história os julgará.

 

Assim como os julgará pela que estão a fazer, ou a deixar fazer, ao Tribunal de Chaves e ao Hospital. Mas em verdade, em verdade vos digo, e lhes digo, quem semeia ventos colhe tempestades. 


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Domingo, 4 de Novembro de 2012

Movimentos IV


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Sábado, 3 de Novembro de 2012

Movimentos III


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Sexta-feira, 2 de Novembro de 2012

O Homem Sem Memória - 132


132 – O Aníbal “Goela Grande” era assim conhecido pelo simples facto de conseguir emborcar uma caneca de cerveja apenas de uma assentada. Quem espreitasse pelo vidro do recipiente bojudo podia observar a goela do Aníbal abrir-se e ficar da forma de um túnel do comboio enquanto engolia o líquido amarelado. Depois de engorgitar a cerveja dava sempre um arroto engraçado e de seguida fumava um cigarro. Pelo meio expelia sempre um peido com que pretendia alegrar o seu desempenho.


Era rapaz para beber cerveja como um bávaro e era até fisicamente parecido com eles, quase albino, vermelho de cara e barrigudo como uma burra prenha. Só não vestia calções porque infelizmente tinha pernas à Garrincha e também não usava suspensórios e chapéu a condizer porque eram adereços caros. Era também um homem de paz, o que num comunista parecia algo bizarro. Era, ainda, bom amigo, pachorrento e andava sempre bem-disposto e disponível para tudo, até para fazer a revolução, mesmo que a “puta da revolução revisionista”, como a classificava o Mário “Camões”, consistisse apenas em colar cartazes, pintar paredes e redigir comunicados que, bem vistas as coisas, ninguém lia, a não ser os próprios autores.


Enquanto o Graça e o José beberam dois finos cada, o Aníbal “Goela Grande” ingurgitou três canecas que acompanhou com dois pratos de marisco do Eusébio. Arrotou três vezes, deu três traques e fumou três cigarros. O pai do Aníbal, com um misto de ironia e verdade, disse que boa parte do que ganhava a vender cerveja, pratos de tremoços e amendoins era gasta para tapar o buraco da endémica sede do filho. Ele a ganhar dinheiro por um lado e o filho a bebê-lo e a mijá-lo por outro.


Depois de deixar o álcool produzir o seu efeito colateral, o Graça chegou ao que queria: convencer o José e o Aníbal a passarem o fim-de-semana ao serviço do Partido. O Aníbal sorriu e disse que talvez sim, já o José levou-se dos diabos. “Então agora não sou independente?”, perguntou. Ao que o Graça respondeu: “Isso é durante a semana e aqui em Névoa. O Partido necessita que os seus melhores quadros o sirvam a tempo inteiro. E tu és indispensável. Neste sábado temos de organizar um comício em Ribeira de Pena. Tu foste indicado para, em conjunto com os camaradas de Vila Real, decorares a sala e montares o sistema de som.” “Eu sozinho?” “Não, tu e o Aníbal.” “Mas o Aníbal só sabe beber canecas de cerveja.” “Olha que não. Também sou bom a beber finos e até a beberricar cerveja pela garrafa”, contrapôs o “Goela Grande”. “Não sejas reacionário”, avisou-o o Graça. “O Aníbal é um bom condutor e uma excelente companhia.” “É disso mesmo que estou a precisar, da companhia de uma esponja”, rematou o José.


O Aníbal riu-se. O Graça sorriu e o José amuou. “Não posso negar-me?”, perguntou o José. “Não convém. Com a ficha partidária que tens, o melhor é cumprires com as indicações do coletivo.”


Sábado de manhãzinha, o Aníbal foi buscar o José a casa e, numa velocidade hesitante, pois o Volkswagen do camarada Marcelino não dava para mais, puseram rodas a caminho. Chegaram a Ribeira de Pena por volta do meio-dia. Os camaradas de Vila Real ainda não tinham chegado. Gente importante faz-se sempre esperar. Foram até um bar e pediram de beber e de comer. Enquanto o José ingeriu dois finos e comeu um prego, o camarada Aníbal enfunilou três canecas e outros tantos pregos no pão. Arrotou três vezes e fumou três cigarros. No fim, um pouco mais a modinho, deu um terno de peidos. “Porco”, acusou-o o José. “Gases”, respondeu o Aníbal. “E com os gases não se brinca. Temos de lhes dar a liberdade que requerem. O meu médico disse que não os devemos reter. Faz muito mal à saúde.”


Eram cerca das três horas da tarde quando chegou a brigada de Vila Real. Quando olharam para o José nem o reconheceram. A sua toilete de independente era um disfarce com sucesso. O camarada mais graduado da brigada disse-lhe: “Pareces um verdadeiro independente.” Ao que o José respondeu: “É o que agora sou.”


Ainda antes de irem buscar as chaves da sala, o chefe da brigada de Vila Real propôs que fossem comer e beber qualquer coisa, pois os camaradas estavam quase em jejum. Tinham passado quase a noite toda a revolucionar a sua cidade, enchendo-a de cartazes e de palavras de ordem pintadas na parede.


O Aníbal aceitou de imediato. O José, a princípio, resolveu fazer-se esquerdo, desculpando-se que ele e o Aníbal já tinham comido e bebido que chegasse, mas depois alinhou.


Como se por acaso, o elemento feminino da brigada até tinha os seus encantos. Por isso havia algo em que pôr os olhos para ajudar a passar o tempo.


Estavam eles a terminar o segundo fino e o primeiro prego no pão com mostarda e já o Aníbal fumava o seu terceiro cigarro depois de ter engorgitado a sua terceira caneca, devorado o seu terceiro prego no pão lambuzado de ketchup e arrotado três vezes. E mesmo na frente da camarada, peidou-se de novo com muito à vontade e com um sorriso marxista de Grouxo nos lábios carnudos. A camarada, ligeiramente enjoada, pois parece que não estava habituada àquelas amplas liberdades, acusou-o: “Porco.” E ele respondeu-lhe como era seu timbre. “São gases, menina.” “Camarada, se não te importas, camarada”, disse ela com toda a sua autoridade comunista. “Então: são gases camarada menina. E eu tenho permissão do meu médico para os libertar seja onde for. Sofro de flatulência”, rematou o Aníbal.


Quando saíram do bar repararam que a vila estava deserta. O que não era normal. Mas não lhe atribuíram nenhum significado especial. Descarregaram os materiais do carro, transportaram-nos para dentro do recinto e puseram-se a trabalhar. Quando se preparavam para distribuir e colar os cartazes pelo salão repararam que não tinham trazido a fita-cola. O chefe da brigada de Vila Real pediu então ao Aníbal, que estava sentado numa cadeira a ver como os outros camaradas trabalhavam, para ir ver se arranjava fita adesiva. “Num sábado à tarde?”, perguntou perplexo. Olhando de novo para o camarada que quase dormia na cadeira, o camarada chefe mudou de ideias. “Acho melhor ideia ir o José. O camarada Aníbal tem um aspeto estranho. Pode criar antipatia. Já o José, com a sua indumentária de independente, é rapaz para cumprir a tarefa com sucesso.”


E lá foi o José calcorrear as ruas da localidade com toda a paciência revolucionária de que era capaz. Pediu nos cafés e nos bares, mas todos lhe disseram que não com maus modos. Reparou que logo após explicar que a fita-cola era para ajudar a arranjar a sala para o comício do Partido Comunista que se ia realizar à noite, as pessoas alteravam a expressão do seu rosto como se tivessem engolido fel. Voltou para ao pé dos camaradas de mãos vazias. Alguém lembrou que apenas lhes restava uma possibilidade, recorrer à farmácia de serviço na vila. E lá foi ele. Desta vez, apesar das ruas desertas e das portas e janelas fechadas, começou a escutar palavras de ódio aos comunistas. Como não encontrava ninguém a quem perguntar onde era a farmácia, dirigiu-se ao posto da GNR. Lá dentro apenas encontrou o plantão de serviço que a seu pedido o informou, mas fê-lo com maus modos. O José tentou amenizar a antipatia informando-o que o seu pai era também guarda-republicano. Ele resmungou: “E o que faz o filho de um GNR com os comunistas? E ainda por cima cabeludo. O teu pai não te educou? Não sabes que os comunistas odeiam os militares da GNR? Se fosses meu filho esganava-te.”


O José virou-lhe as costas e foi-se embora. Na farmácia perguntaram-lhe quem era e o que fazia ali. Ele respondeu com a verdade, que era comunista e que estava ali para decorar a sala onde à noite se ia realizar um comício do seu Partido. Os empregados disseram-lhe que apenas tinham um rolo e que não lho podiam dispensar pois precisavam dele para as suas necessidades. E invetivaram-no com afirmações de que os comunistas eram gente ruim que roubava as terras e as casas às pessoas. Ele saiu da farmácia furibundo. Cá fora, apesar de não avistar vivalma, ouvia cada vez mais vozes que lhe chamavam cabeludo, degenerado e maricas, que lhe diziam para se ir embora, ele mais os seus compinchas, pois se não iam a bem teriam de ir a mal. Que Ribeira de Pena era terra de gente séria, pacata e respeitadora dos bons costumes e da velha tradição, por isso não gostavam de comunistas, que eram gente daninha e traiçoeira, que eram contra a igreja e que matavam os padres e os velhos. Que retiravam os filhos às pessoas. “Ladrões, assassinos”, eram palavras cada vez mais audíveis nas vozes que vinham de dentro das casas. Ao José não lhe restou outra solução que não fosse ir para junto dos seus e avisá-los que o ambiente se estava a tornar perigoso. 


publicado por João Madureira às 07:45
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Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012

Valentes guerreiros


publicado por João Madureira às 12:00
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