Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2012

Pérolas e diamantes (18): aparências e desilusões


Para manter as aparências, a nossa autarquia tem mobilizado todas as energias e conseguiu sobreviver sem oposição que se enxergue a olho nu.

 

Apesar disso, a atual gestão da Câmara de Chaves não explica nada: nem o seu insucesso, nem o seu fingimento, nem a sua gerência imobilista feita ao sabor do vento e das geadas. E fá-lo porque é incapaz de admitir que errou na sua estratégia, no seu propósito de modernidade, na sua aposta fracassada no desenvolvimento.

 

Interlúdio poético: Um pouco à semelhança da “inquietação” do José Mário Branco (A contas com o bem que tu me fazes / A contas com o mal por que passei / Com tantas guerras que travei / Já não sei fazer as pazes), é caso para dizer – e o autor que nos perdoe a ousadia, mas é por uma boa causa – que no nosso burgo existe: Cá dentro desilusão, desilusão / É só desilusão, desilusão / Porquê, não sei / Porquê, não sei / Porquê, não sei ainda.

 

Não pretendo reivindicar a qualidade de juiz dos acontecimentos políticos locais, mas, com toda a modéstia, direi que tomei a liberdade (individual) de ter ficado desiludido, vai para um bom par de anos, com a gestão autárquica de João Batista e António Cabeleira.

 

De facto, a gerência camarária do PSD flaviense não soube intuir a desilusão, a frustração e o descalabro. E as pessoas mais clarividentes até ajudaram nesse desapontamento. Deixaram-se levar pelas falinhas mansas dos protagonistas, pois não queremos acreditar que não estivessem a par da realidade: do enorme défice, das obras de fachada e da gestão apriorística da coisa pública. Muitos deles estavam a par, outros estavam, quase de certeza, já comprometidos, mas não o quiseram admitir.

 

A verdade é que a liderança da Câmara de Chaves mudou tantas vezes de opinião que baralhou a sua estratégia, o rumo da sua atuação e, o que é mais grave, a esperança dos flavienses.

 

Demasiadas vezes apareceu o presidente João Batista com os seus lindos discursos vazios a tentar pôr algum sentido no desnorte. Mas isso serviu-lhe de pouco. E aos flavienses não lhes serviu mesmo de nada, nem de coisa nenhuma.

 


É caso para nos perguntarmos se os flavienses se submeterão aos tempos que aí estão para vir sem esperança, se somos impotentes para mudar de rumo ou se estamos condenados a este infortúnio autárquico.

 

Mas a alternativa tem se ser consistente. Já aqui o escrevi uma vez, mas volto a repeti-lo: A proposta política de uma alternativa ganhadora a este poder autárquico serôdio e cediço tem que ser uma questão de afirmação e não uma mera questão de entusiasmos.

 

É bom que nos consciencializemos que a antiga premissa cristã segundo a qual a pobreza, a solidão e a infelicidade desenvolvem boas qualidades no homem já não se coaduna com a modernidade. O futuro tem de obedecer à aspiração legítima da riqueza das regiões e das instituições, da solidariedade, da fraternidade e também da felicidade. Se não para quê trabalhar?

 

Eu sei que aos idealistas, quase sempre, não lhe restam outras armas do que as palavras, mas são elas que definem o pensamento e serão elas que possibilitarão ter esperança num novo rumo para a nossa cidade e para o nosso país. 

 

Percebemos que ainda existe por aí muita falta de seriedade, muita indiferença, muita instabilidade. E também sabemos que há por aí muito bajulador a tentar manter a aparência de um rumo e da possibilidade da evolução da continuidade. A esses marcelistas reciclados, é bom lembrar que, apesar de todos sabermos que não há bem que nunca acabe, também não há mal que sempre dure.

 

Apesar de sabermos que a política se faz de habilidade prática e compromissos, temos de ser capazes de rejeitar veementemente a estratégia imobilista deste poder autárquico que já não é capaz de entusiasmar nada nem ninguém. Nem sequer o próprio partido. Ou muito menos ele.

 

Esta Câmara nem prosperou nem nos fez prosperar. Tudo o que fez foi persistir. Segundo li em algum lado, escorregar é a lei da queda. Por isso estamos em crer que o povo flaviense não vai deixar-se escorregar mais uma vez. Apesar do inverno vir aí e o gelo o acompanhar. Não queremos um novo ano somente cheio de certezas invernais. Vamos esperar pela primavera. Estamos em crer que a esperança virá com as andorinhas.

 

E para terminar, aos litigantes de má-fé lembramos um provérbio chinês: “Encurralado, até um coelho morde.”

 

Ou em versão alargada para os mais distraídos: “Encurralados, os cães saltam muros, os gatos sobem às árvores, os coelhos mordem e os mudos falam.”


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Domingo, 30 de Dezembro de 2012

Vidago Palace

Vidago Palace


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Sábado, 29 de Dezembro de 2012

Árvore solitária


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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012

O Homem Sem Memória - 140


140 – O texto do Luís contava o que se segue (versão corrigida pelo camarada professor): Eu quando for grande quero ser o máximo dirigente da classe operária. Quero ser um líder. Um verdadeiro líder. Muito mais líder do que o meu pai que apenas dirige meia dúzia de comunistas transmontanos. Vá lá, dúzia e meia de comunistas nevoenses teimosos e muito chatos. Eu quero ser um líder da envergadura do camarada Alberto Punhal. Quero ser secretário-geral do Partido. Depois dele, claro está. Logo após o camarada se reformar. Talvez não quando ele se reformar porque parece que os camaradas secretários-gerais dos partidos comunistas não se reformam. Só abandonam o seu posto quando morrem. E mesmo assim a contragosto. Honra lhes seja feita. Por isso acho que só poderei chegar a dirigente máximo do partido comunista, da classe operária e dos camponeses, quando o camarada Alberto Punhal morrer. Mas eu não lhe desejo a morte. Longe disso. Eu faço votos para que viva muitos anos. Muitos, mas mesmo muitos, muitos. Ele é o maior dirigente da classe operária do mundo. Claro que os outros camaradas dirigentes comunistas também são bons como o caraças, mas o nosso camarada de cristal é o melhor deles todos. Isso pelo menos é o que diz o meu pai e todos os comunistas que conheço. Como o camarada Alberto Punhal não existe outro igual. Mas, como ia dizendo, eu quando for grande quero ser o líder máximo do Partido. Talvez só lá chegue quando for velho, mas não me importo. Uma vez lá é cargo para toda a vida. Basta olhar para o exemplo da União Soviética para concluirmos que os camaradas secretários-gerais apenas de lá saem quando morrem. Mas mesmo assim a contragosto, como já disse. Todos os camaradas secretários-gerais do PCUS foram substituídos somente depois de mortos: Lenine, Estaline e Khrushchev. Bem Khrushchev não, esse foi afastado por ser mau comunista, por ser frouxo, por isso não conta. Teve sorte em não ser liquidado, que era o que merecia. Pelo menos isso é o que o meu pai diz. Ainda bem que foi substituído pelo camarada Brezhnev, que também é um camarada como há poucos. Mas como é dos bons, mantém-se no seu cargo sem vacilar. E ninguém pensa em substituí-lo. É o pensas. Só sai de secretário-geral quando morrer, e a contragosto como já disse e repeti. Eu sei que ele é velho como as igrejas, bem como as igrejas não, pois é uma comparação muito pouco comunista, ele é velho como os avôs velhos, ou melhor, como os bisavôs, pois o meu avô tem 50 anos e o meu bisavô 70. E agora que falo no meu bisavô, apesar de ser velho como o Brezhnev, e quase tão desengraçado, é reacionário como o caraças. É quase tão reacionário como o Sá Carneiro e o Freitas do Amaral juntos. Acho que foi pelo facto de o meu bisavô ser tão reacionário que o meu pai se tornou comunista. Mas parece que quem tem ainda mais queixas dele é o meu avô, o pai do meu pai, que, apesar de ser por ele muito maltratado, apenas conseguiu progredir até ao socialismo democrático, dos traidores do PS. O meu avô até pode ser socialista, mas é muito boa pessoa. E muito meu amigo. Mesmo que eu venha a ser secretário-geral do Partido quando Portugal estiver já no socialismo científico, eu ao meu avô não lhe faço mal nenhum, nem deixo que outros lho façam. Levo-o para minha casa e protejo-o. Já ao meu bisavô deixo que a revolução tome conta dele, e de tudo o que é seu, e lhe faça o que deve ser feito aos reacionários. E que aqui não digo porque parece mal. Mas todos sabemos muito bem àquilo a que me refiro. Sei-o eu, sabe-o o camarada professor e sabe-o também o meu pai. Ou melhor, o meu pai é quem sabe disso melhor, pois não fala de outra coisa. O meu bisavô é o culpado de a minha mãe ter abandonado o meu pai e a mim. Foi ele quem acertou o casamento entre o seu neto e a minha mãe, que era filha de um ricaço do Porto, que era também sócio da firma do meu bisavô. Mas quando soube que o meu pai era militante comunista deserdou-o. Não só a ele como ao meu avô. O tal que é socialista mas é muito bom para mim. E não só o deserdou como fez tudo para que a minha mãe o fizesse escolher entre o Partido ou a família. Ele, o meu pai, orgulhoso como é, não só disse que não cedia à chantagem como abandonou o seu emprego muito bem remunerado na fábrica do meu bisavô, e ainda por cima se ofereceu para ser funcionário do Partido na zona mais difícil do país. Por isso aqui estamos. Eu vim com ele porque sim. Bem, vim com ele porque um dia me foi buscar à escola, meteu-me num carro e abalou por essas serras acima até Névoa. Eu sei que o meu pai até é um bom comunista, mas já não é assim tão bom como funcionário. Irrita-se muito com a propaganda, grita muito com os jovens, arrelia-se imenso nas reuniões, não gosta nada de colar cartazes nem de pichar paredes, nem é muito bom a falar nas reuniões. Então em sessões de esclarecimento e comícios é mau de mais para ser verdade. Tem muita dificuldade em escrever relatórios e sofre imenso quando o Partido o incumbe de redigir um comunicado. Ele sofre muito, coitado. Sofre porque reconhece que não foi feito para revolucionário. Arrelia-se muito com tudo. Além disso não gosta de ler. Cá para nós que ninguém nos ouve, ele nem A Verdade lê. Eu sei que sublinha os editoriais, mas se repararmos bem ele sublinha tudo. Ora quem sublinha tudo é porque não consegue distinguir as ideias principais das secundárias. Bem, eu sei que os editoriais d’ A Verdade não têm ideias propriamente secundárias. São todas principais, não fosse o editorial sempre escrito pelo camarada Punhal. Mas, mesmo assim, umas ideias estão lá para dar enfase às outras. E são essas que devem ser sublinhadas. Mas ele não, corre tudo a sublinhado. É a sua maneira de respeitar o Partido, o jornal e o camarada secretário-geral. Ele diz-me que pode não chegar sequer ao Comité Central – aqui que ninguém nos ouve, tomara ele ser selecionado para a Direção Regional do Norte –, mas que eu, se me portar bem e aprender muito na escola de pioneiros e nas outras escolas do partido que se seguirão, posso muito bem chegar a líder da classe operária. Pois ele sabe da minha capacidade organizativa, quase tão boa como a do camarada Alberto Punhal quando dirigia a juventude do Partido na clandestinidade, da minha determinação, da minha firmeza ideológica, da minha capacidade de estudo, da minha habilidade de persuasão, como é o facto de eu ser o maior vendedor de jornais da organização distrital e da minha capacidade natural para a liderança, como se evidencia na prática semanal aqui na nossa escola de pioneiros. Sou eu que lidero a célula ideológica da escola. Apenas uma coisa ainda não consegui: eliminar a irritante oposição do camarada pioneiro Miguel, que me derrota sempre nas simulações da guerrilha revolucionária. Ao João já o conquistei para o meu lado, a camarada pioneira Lídia vai a caminho, e só ainda não deu a volta porque detesta o camarada pioneiro João. Não é tanto por ele, mas antes porque os seus pais não se dão. Isto apesar de serem colegas de profissão, terem frequentado a mesma universidade e serem militantes do mesmo partido. Mas eu tenho de derrotar o camarada pioneiro Miguel, custe o que custar. Ele é o maior entrave ao bom desenvolvimento das aulas, da escola, e, sobretudo, à minha liderança. Foi ele o responsável pelo facto de a turma ter escolhido para chefe a camarada pioneira Lídia. Foi ele quem antes da votação ameaçou todos os camaradas pioneiros de que se não votassem na camarada pioneira Lídia eram pioneiros mortos, ou mancos, ou com os dois olhos à belenenses. Eu sei que se a votação tivesse sido por voto secreto, e não pelo método de braço no ar, eu tinha ganho. Por isso é que propus o voto secreto. Mas o camarada professor, e bem, diga-se de passagem, lembrou que isso era infringir os estatutos do Partido. Agora para terminar, lembro o que disse no princípio: eu quando for grande quero ser secretário-geral do partido comunista. E como até a mais longa marcha começa pelo primeiro passo, como muito bem disse Mao Tse-tung, o meu passo inicial para conseguir lá chegar vai ser o de derrotar o camarada pioneiro Miguel, que nem é pioneiro, nem comunista, nem nada. É apenas um reacionário, e ainda por cima pobre, que é a forma mais miserável de se ser reacionário. Para isso, tenho de me aliar ao camarada pioneiro João, que, mesmo não parecendo, é também extremamente ambicioso, e à camarada pioneira Lídia, que sofre do mesmo mal, mas sabe disfarçar isso muito bem. E ao camarada professor José peço-lhe o maior recato para que isto fique entre nós, pois quando eu chegar onde quero chegar, o camarada, e amigo, penso eu, terá um lugar certo ao meu lado. O lugar que lhe convém e que também merece. 


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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012

Cavalo no descanso


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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2012

O Poema Infinito (126): a noite de todas as aflições

 

Caminharei para perto de ti vindo de dentro da noite de todas as aflições e com a boca cheia de medo apontarei na direção da tua fecundidade e nela me enroscarei sentindo ainda o cheiro a feno e a sexo resfolgando na olorosa geada que agora começa a derreter… e acordo com o chilrear dos pássaros madrugadores que despertam ascendendo na iluminação expectante do dia… os nossos olhares alados crestam de tanta excitação… os nossos corpos incendeiam-se e mordem dentro do fogo que mantemos intacto após estes anos todos… depois da insónia e do amor o dia ainda vai ser perfeito… sinto-te a doer no desassossego da navegação… vou precisar de dormir na viagem para descansar da insónia… sonho que sou pastor e te guardo na nossa infinita adolescência que nos ensinou a vertigem da vida e faço a promessa de rodopiar indefinidamente à volta do teu corpo em forma de cometa… por isso amo as águas da ribeira e o verde dos lameiros e a imagem do mar na minha cabeça e as árduas searas centeias que sempre se incendeiam ao entardecer… e entardeço… e cicio o poema que nunca hei de escrever e que começa assim… hoje vou saciar-me na luz noturna do teu corpo embriagado e vou pegar-lhe fogo para nele acender a tua humidade e a minha humanidade… sei que conheço bem este rio e nele adivinho a liquidez do teu corpo… sinto por isso o rigor das palavras e o seu sopro de vida estelar e as suas cabeças de medusas afrodisíacas… e o desejo desenvolve-se e a saudade e a violência dos sorrisos amargos e… por isso espero a cortante ilusão da felicidade e a sua prolongada ressaca e os dias que passam ou lentos ou demasiado impetuosos… ou inalterados… ou inalteráveis… por isso luto ainda para que os sonhos não se oxidem… ou não se oxidem um pouco mais já que as utopias se estilhaçaram espalhando o seu vermelho vivo de sangue… ouço-te a ti que és o meu oráculo quando alguém me levanta a voz em vez de levantar a razão… dizem que sou o perverso pábulo dos anjos ou o bondoso maná dos demónios… por isso te ouço alisando a verdade com que me surpreendes que é em tudo idêntica à surpreendente floração das urzes, das giestas ou dos tojos… ou da alfazema selvagem… por isso afago a tua fala e a tento passar para a minha triste e hesitante escrita… para que a partir do seu silêncio de lume nomeie todas as pétalas da flor da razão… e da paixão… apesar do crepúsculo… percorro com as mãos a profecia que se ergue do teu corpo que queima devagar como o sangue… por isso vou continuar aqui arrumando a lenha do cortiço… e as pedras dos muros… e o fogo da lareira… e os astros que pendurei no céu dos teus olhos… e a florida e fresca água das fontes… e a memória da vida e de todos os atos de amor… e toda a ternura de um afago teu… e depois fico quieto à espera que o mundo se resolva a iniciar a sua metamorfose deixando para trás toda a ferocidade… por isso escrevo… e escrevo-te… aproveitando este instante de lucidez… pois nada mais possuo de meu…


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Terça-feira, 25 de Dezembro de 2012

O homem e a fogueira


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Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2012

Pérolas e diamantes (17): o Natal e a bebida preferida de Jesus Cristo


Eis que lá do alto do seu império espiritual, o Papa Bento XVI escreveu um livro em que resolveu destruir toda a iconografia do Natal. Além de defender que Jesus Cristo nasceu uns anos antes da data admitida pela Igreja, o representante de Deus na Terra foi perentório ao sustentar que na gruta de Belém tanto o burro como a vaca não estavam lá a fazer companhia a alguém e, muito menos, a bafejar o Menino Jesus.

 

Isto pretendeu aliviar o presépio da sua matriz pagã. A ser assim, também é caso para perguntar o que fazia lá José, pois, atendendo ao que vem na Bíblia, não era o verdadeiro pai da criança.

 

Se se expulsam do presépio os elementos redundantes, a cena fica apenas reduzida a duas personagens: a Virgem Mãe e o seu Santo Filho. O que, convenhamos, constituindo o núcleo vital da cristandade, é muito pouco para a fé e terrivelmente frustrante para o sentido cultural da religião onde todos fomos criados e que ainda é o elemento agregador de toda a civilização ocidental.

 

Mas isto de ler e escrever tem as suas contraindicações. Depois da desilusão do Natal, segundo

o Papa Bento XVI, eis que me deparo com a destruição de um outro mito relacionado com Cristo e com a cristandade. Então não é que Afonso Cruz escreveu no seu último livro Jesus Cristo Bebia Cerveja isso mesmo:  que Jesus Cristo bebia cerveja. Escreveu-o e explicou-o.

 

Naqueles tempos as bebidas alcoólicas confundiam-se umas com as outras, já que era habitual misturar frutos com as bebidas de cereais e vice-versa. No Egipto existiam imensas cervejarias e a cerveja que lá não era consumida era exportada, nomeadamente para a Palestina. Seguindo esta revelação histórica, podemos concluir que a bebida que popularmente se consumia na terra que Cristo habitava era cerveja.

 

Ou seja, o vinho era uma bebida consumida pelos invasores romanos. Por isso Cristo não iria beber a bebida dos ricos, dos opressores, mas antes a dos pobres, a dos pecadores e a das prostitutas. Era o que a cerveja representava: um símbolo do povo. Cristo bebia cerveja, que sempre foi apelidada de pão líquido, pois é verdadeiramente pão com água. Até é a mesma levedura que transforma o cereal.

 

E como estamos em maré de poupança, tanto no país, como no presépio, aproveitamos para sugerir a quem de direito que a partir de agora a eucaristia se passe a celebrar apenas com cerveja, pois a bebida que Cristo consumia é já em si dois em um, broa e pinga, que é muito mais ecológico, pois evita a referência à carne, que é, como todos o sabemos, muito má para a saúde e, sobretudo, pecadora.

 

E a mais não nos aventuramos. 


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Domingo, 23 de Dezembro de 2012

Olhares


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Sábado, 22 de Dezembro de 2012

Jogo do Chino


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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012

O Homem Sem Memória - 139

 

139 – Foram os textos que salvaram definitivamente os dias gastos pelo José na escola de pioneiros. Claro que também descobriu alguma graça nos quatro protagonistas dos episódios anteriores. Descobriu ainda que os traços dos pais se refletem nos filhos com bem mais subtileza do que à primeira vista parece. No fundo, as crianças são uma espécie de esponja que absorve tudo o que se passa à sua volta. Tanto o bom como o mau.


O texto do João rezava assim (versão corrigida pelo camarada professor): Eu quando for grande quero ser um camarada pioneiro tão bom e tão trabalhador como o camarada meu pai, que também é muito camarada da minha mãe. A minha mãe também é uma grande camarada. Bem, ela não é lá muito grande de tamanho, o meu pai é muito maior, mas é grande na camaradagem. Lá isso é. Sobretudo com o meu pai. Acho que nestes últimos tempos já acamaradaram tanto e tão intensamente que vem aí um novo camarada pioneiro a caminho. O camarada meu pai é um comunista exemplar. Aos sábados e domingos tem por hábito levantar-se logo de manhãzinha e pôr-se a ler A Verdade com muita concentração, depois sublinha o editorial, lê as partes mais importantes à minha mãe e pergunta-lhe a sua opinião sobre o que acabou de lhe ler em voz alta e bem articulada. Ela, a camarada minha mãe, concorda sempre com o editorial e o editorialista. Diz que o editorialista tem toda a razão, que assim é que é, que a revolução vai triunfar mais dia, menos dia, e que ela, a minha mãe, quero dizer, vai cá estar para a ver, a revolução, claro está, devidamente acompanhada pelo camarada meu pai, pelo camarada seu filho – o orgulho dos pioneiros de Névoa –, e pela camarada que está para aí a chegar. Aqui o meu pai discorda um pouco. Bem, ele não discorda do editorial, nem do editorialista, é o discordas, nem sequer duvida da infalibilidade do triunfo da revolução em Portugal. Do que ele duvida mesmo é de o/a camarada que aí vem, pois para ele não é “uma” camarada mais sim “um” camarada. Pode parecer até um pouco estranho que um camarada comunista da craveira do meu pai tenha preferência pelo sexo de um seu descendente, mas parece que para ele faz alguma diferença um seu filho ser menino ou menina. A minha mãe diz-lhe então que leia mais alguma coisita do editorial, ou parte de algum artigo mais interessante. Ele então explica-lhe, a modinho, que todos os artigos são interessantes senão não eram publicados n’ A Verdade. A camarada minha mãe olha novamente para ele com os olhos a chispar e sugere que o camarada meu pai escolha à sorte, pois logo se vê. Só que ele fica tão atrapalhado, ou então tão arreliado, ainda não consegui distinguir ao certo, que se recusa a preferir o que vai ler pois afirma que não se devem hierarquizar os artigos. N’A Verdade todos os textos são iguais. Bem, iguais não, avisa ele, são todos bons. Bom, bons não, muito bons mesmo. Ao que a camarada minha mãe contrapõe que necessariamente deve haver por lá alguns artigos que são mais iguais do que outros. Quando a camarada minha mãe profere tais palavras, ele fica muito arreliado, mas mesmo muito arreliado, e quase tão vermelho como a bandeira do Partido. E pede-lhe imediatamente explicações. Ele interroga-a sobre um tal George Orwell, sobre um livro que se intitula O Triunfo dos Porcos, sobre os trotskistas, sobre a Guerra Civil Espanhola, sobre cascos de cavalos, sobre sabão, etc. Bem, o que eu sei é que a minha mãe vai para a sala e põe a tocar no gira-discos um LP dos Pink Floyd. O camarada meu pai faz então que volta a ler o editorial d´A Verdade do princípio ao fim, mas só chega a meio e, como bom camarada, mas camarada mesmo, vai logo atrás da camarada minha mãe e pede-lhe desculpa. Ela faz que não ouve e põe a música mais alto. Então ele chega-se mais próximo dela e pede-lhe, muito a modinho, para dançar. Ela diz-lhe que não. Ele insiste. Ela torna a dizer-lhe que não e ele insiste novamente. Mantêm-se nisto durante algum tempo. Acho que gostam de se lembrar do tempo em que também eles foram pioneiros. Eles não foram pioneiros comunistas, é bom que se diga. Os camaradas meus pais foram pioneiros católicos, mas, mesmo assim, segundo me contaram, pioneiros quase tão pioneiros como nós, só que católicos. Segundo o camarada meu pai, o camarada Jesus, também conhecido como Jeová, ou ainda como Cristo, foi o primeiro comunista famoso. Só que depois deu-lhe alguma coisa que o transtornou e ele pôs-se a inventar um pai que era deus e uma mãe que era virgem e uma pomba que era um espírito e que também era santo e que fazia descer chamas na cabeça dos apóstolos e que transformava água em vinho, as pedras em pão e que fazia chover maná, peixes e coisas pelo estilo, mas sempre coisas de comer. E tão maníaco ficou que os reacionários decidiram eliminá-lo, mas para não darem muito nas vistas, passaram o julgamento para as mãos de um tal Pilatos, que, por sua vez, devolveu essa decisão ao povo de Jesus, também conhecido por Jeová, ou Cristo, que o sentenciou à morte. E aos berros, pois parece que ou o camarada Cristo, ou Jeová, ou Jesus, era surdo, ou o reacionário Pilatos era mouco, ou o povo de então era parvo. Foi a partir daí que os judeus ficaram com raiva do camarada Cristo, ou Jesus, ou Jeová, e os seus seguidores ficaram com raiva dos judeus. Pois, como ia contando, o camarada meu pai continua a insistir na dança e a minha mãe na negação. Até nisso são muito coerentes e determinados. Pois, como bons comunistas que se orgulham de ser, após a discussão há sempre um consenso. E, por fim, lá se põem a dançar como o faziam antes de se casarem. E continuam a dançar até ao fim do disco. Depois, o camarada meu pai diz qualquer coisa ao ouvido da camarada minha mãe e ela aponta na direção do meu quarto. Então ele pega-lhe na mão e vão de novo dormir. Dormir é uma forma de dizer, eles vão mas é brincar. E riem-se, gemem, arfam, soluçam, sussurram, suspiram e, por fim, gritam, especialmente a minha mãe, que grita muito alto, mas é só por um instante ou dois. Penso que o camarada meu pai é um pouco exagerado nas brincadeiras. Bem, ele também é bem mais forte do que ela e por isso pode não saber dosear a intensidade do entretenimento. Por fim, cansados, adormecem de novo. Ou seja, é a altura de eu poder ter duas horinhas de bom divertimento, pois fico com a casa só para mim.


Tenho de dizer ao camarada leitor, pois a isso sou obrigado pela minha consciência de pioneiro comunista, que tudo o que aqui escrevi é a mais pura das verdades e fruto da minha firme intenção de vir a ser um agente de informação do futuro Estado Socialista Português. Pois é isso o que quero ser quando for grande: agente de informação. Penso que um agente de informação comunista é o melhor militante revolucionário do mundo. E eu quero ser não só comunista, como o melhor comunista do mundo. Por isso me ando a especializar em informação, contrainformação e espionagem. Além de saber onde o camarada meu pai esconde uns balões em embalagens prateadas, como os comprimidos, que ele usa nas brincadeiras com a camarada minha mãe, sei onde a camarada pioneira Lídia vai dar beijos ao camarada pioneiro Miguel, sei onde o camarada pioneiro Luís esconde revistas com mulheres nuas, sei onde o camarada pioneiro Toninho esconde os colantes do partido que rapina nas reuniões dos pioneiros, sei onde o camarada pioneiro Zézito esconde os berlindes que rouba ao seu tio que tem uma loja no Arrabalde, sei onde a minha mãe esconde o tal livro dos porcos que são mais iguais do que os cavalos, sei onde o meu avô esconde a garrafa de vinho fino e onde esconde outra de aguardente velha e ainda outra de uísque, sei onde a minha avó esconde os chocolates, sei onde o camarada funcionário esconde as cartas da sua amante, sei onde o camarada Graça esconde as fichas secretas dos militantes do partido mais problemáticos. Sei até a quem, e como, estão distribuídas as armas do Partido. O camarada Martins tem um revólver prateado, o camarada Manuel tem uma navalha de ponta e mola, o camarada Rodrigo tem um isqueiro Zippo, o camarada António tem uma caçadeira, o camarada João Albuquerque tem uma pistola de alarme modificada, o camarada Rui tem uma faca de matar porcos, o camarada Alberto tem uma carabina com mira telescópica, o camarada André tem uma moca de Rio Maior, o camarada Jaime tem uma granada e eu tenho um pau com uma ponta cortante, que fiz com as lâminas da barba do meu pai que fui buscar ao lixo.


Espero que este relatório seja confidencial. Ao camarada professor José, meu chefe e mentor, cabe tão delicada tarefa.


E por agora é tudo. 


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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2012

Ao sol


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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2012

O Poema Infinito (125): a um deus desconhecido


Deus debruça-se digitalmente no absurdo dos espelhos. A sua ausência torna-se iminente. A sua falta torna-se impertinente. A ameaça do seu amor é a forma exata da loucura eterna. A sua dor torna-se palpitante através dos dédalos cerebrais dos agnósticos. O tempo fez dele a prova ativa da inocência humana. Por isso a escrita se tornou interminável. Agora todo o ser humano tem a candura ardente da ambiguidade. Essa doçura digital criada pelo adeus a deus torna-se insuportável e desconstrói-se apelando ao ritmo obsessivo das formas, à aplicação cruel dos impulsos, à subtileza própria do fogo e à nostalgia dourada do esquecimento. Depois da alegria, a eternidade. Ó sim, a eternidade suspensa nas vírgulas. A eternidade restabelecida pela implosão dos sentimentos. E o silêncio vibra. O silêncio faz-se atravessar pela febre fria das palavras irredutíveis. A lição unitária do mundo é o modo demorado da luminosidade. A sua dança súbita. A porta cibernética que se abre sobre os abismos. Essa é a nova revelação. O filho de deus equilibra-se sobre as águas antes de mergulhar. Essa é a sua zona de cintilação. O seu espaço de profecia. Toda a sua glória se transformou em neblina. Toda a sua leveza se transformou em peso. Todas as suas profecias se tornaram suspeitas. O salvador foi absorvido pela sua força centrífuga. Oremos. O poder absorveu o reflexo irradiante do seu discurso. A descrença abriu fendas profundas na sua comunicação. O céu é o eco das suas pancadas criadoras. O que era salvação transformou-se em vergastas de luz que nos afetam a fé. Crer ou não crer, eis a questão. Ó obscura dominação da malevolência íntima. O que era energia transformou-se em ironia. E o que era ironia transfigurou-se em equívoco. E o equívoco ilude toda a ilusão de iludir. Oremos. Oremos ao corpo que começa a definhar. Oremos ao comportamento das paisagens, à brusquidão do tempo, à biografia das explosões metafísicas. Oremos à escrita sagrada dos loucos, à crua alimentação das almas condenadas às trevas e à luz. Oremos. Oremos ao pânico das multidões, ao vocabulário das catástrofes, à perentória possibilidade da solidão. Oremos à verdade magnetizada pela mentira. Oremos à adolescência traída. Oremos ao trabalho sacralizado pela modernidade. Deus já não está no sítio de todas as coisas. Todo o seu talento de mestre morreu dentro da arte longa da gramática.  Agora o ar salta modulado pela ameaça de uma ideia de fim. Deus fenece dentro do texto e do contexto e da caligrafia dos evangelhos. O corpo permite o pecado. O pecado justifica o corpo. Deus agoniza dentro de si próprio. Dentro da sua unidade. Dentro da sua trindade. Dentro da poética transgressão do sofrimento. Já nem o tempo, nem a fé, nem o seu filho o podem ressuscitar. O que sim ressuscita permanentemente é a sua eterna decifração. Por isso os humanos, em nome da liberdade, renunciaram ao princípio da fecundidade. 


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Terça-feira, 18 de Dezembro de 2012

Ao sol


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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012

Pérolas e diamantes (16): as doenças e a pobreza


Veio na capa dos jornais uma notícia que está a alarmar os médicos pelo que significa de retrocesso social. O número de crianças infetadas com tosse convulsa desde janeiro é seis vezes superior ao verificado no ano de 2011 e o maior dos últimos 23 anos. Até à passada semana, foram registados 189 casos e notificados três óbitos.

 

Se juntarmos a estes dados alarmantes doenças como a tuberculose e a fome que se vai estendendo pelo país, tudo indica que em cerca de ano e meio o nosso retrocesso social foi de décadas.

 

Eu ainda sou do tempo em que grassavam pelo país, além da tuberculose, doenças como a citada tosse convulsa, o garrotilho, o tétano, o sarampo, a rubéola e o raquitismo, que dizimavam milhares e milhares de crianças pobres, porque a pobreza era muita, a fome imensa e os cuidados básicos de saúde quase inexistentes. Os casais tinham imensos filhos mas apenas alguns conseguiam sobreviver até à idade adulta. Era a seleção natural a funcionar em todo o seu esplendor, como acontece entre os animais.

 

Estes são os primeiros sinais do que aí está para vir devido à política antissocial levada a cabo pelo governo de Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar.

 

Além da disseminação da pobreza e de uma nova proliferação de doenças erradicadas há décadas, este governo condena a nova geração de portugueses ao empobrecimento definitivo e ao desespero social.

 

Ou seja, a minha geração sabe que os filhos vão viver pior do que os pais, que, já por si, também não vivem bem. Ora isso gera um sentimento de falhanço pessoal a raiar o absurdo. Estamos em crer que se não houver perspetivas de futuro, até mesmo o presente está ameaçado pela convulsão e pelo caos social.

 

A título de exemplo, pode referir-se que as previsões do governo para o desemprego em 2013 correm o sério risco de ser ultrapassadas já em 2012. E no meio de todo este revisionismo histórico e social, Pedro Passos Coelho, deixando fugir a boca para o seu verdadeiro pensamento político ultraconservador, chegou a admitir uma espécie de “taxas moderadoras” na educação, tendo em vista regular o acesso obrigatório dos estudantes às escolas. Pois sabe que todos os estudantes do ensino obrigatório são iguais nos seus direitos, só que uns são mais iguais do que outros.

 

Claro que o primeiro-ministro foi de imediato desmentido pelo seu ministro da Educação, o que, pensamos, é caso único nos governos da democracia, mas isso apenas serve para demonstrar o desnorte absoluto que reina neste governo de triste figura. É o sinal trágico de mais uma pretendida reforma do Estado e ainda da total irresponsabilidade da forma como esta está a ser conduzida pelo governo do PSD e do CDS.

 

Na sua última entrevista televisiva, Pedro Passos Coelho disse para a entrevistadora: “Eu devo ter um problema de comunicação.” Nós pensamos que o problema do senhor primeiro-ministro não é com a comunicação. É, isso sim, com a verdade. E, porque não dizê-lo, com a realidade.

 

Vendo o país a afundar-se em recessão, não cede um milímetro na sua receita de austeridade, não se lhe ouve uma palavra relativa a incentivos ao crescimento, não se lhe conhece uma posição definida relativamente à possível valorização dos benefícios para Portugal do acordo celebrado entre a União Europeia e a Grécia e não admite erro no calamitoso caminho das Finanças. Este autoritarismo vai-nos sair caríssimo.

 

O primeiro-ministro, numa sua célebre frase, afirmou, a sorrir, que se tivesse de escolher entre o triunfo nas próximas eleições e o país, ele escolhia o país. Mas o que ele queria dizer é que se tiver de escolher entre a sua teimosia política e a realidade do país, ele escolhe definitivamente a sua teimosia.

 

Hoje, mais do que nunca em tempos de democracia, ou do que dela resta, a liberdade é coragem, a coragem que temos de ter para enfrentar este descalabro político que nos tocou em sorte. Nós queremos a nossa vida de volta. Nós queremos ter futuro.


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Domingo, 16 de Dezembro de 2012

Feira dos Santos - Chaves - Portugal


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Sábado, 15 de Dezembro de 2012

Feira dos Santos - Chaves - Portugal


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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2012

O Homem Sem Memória - 138


138 – Na sua terceira semana como camarada diretor e professor da Escola de Pioneiros Comunistas de Névoa, José Ferreira, filho do Guarda Ferreira, neto, pela parte da mãe, de Rosa Cantarinha, do Zé do Canto e da Maria do Cântaro, decidiu finalmente pôr os seus camaradas pioneiros a escrever. Tinha de alternar a cantilena do Manifesto, a entoação do Hino do Partido, da Internacional, além de outros rituais, com a escrita livre e criativa. Necessitava de dar espaço à imaginação. Bem vistas as coisas, os camaradas pioneiros eram crianças como as outras, mesmo não parecendo.


Mas temos de ser honestos, pois a isso nos obriga a realidade: os exercícios propostos foram imediatamente motivo de polémica. Desde logo porque os destinatários eram crianças. E as crianças, como todos sabemos, nunca se cansam nem de correr, nem de gritar e muito menos de fazer perguntas. Então se a tudo isto juntarmos a ideologia comunista, temos uma longa e incrível história de controvérsias intermináveis. Nisso os comunistas são tão puros como as crianças, nunca se cansam de questionar.


A polémica instalou-se mal o camarada professor José propôs que naquele dia a maior parte da aula iria ser ocupada com a elaboração de um texto livre. Até aqui tudo bem, pois os camaradas pioneiros acenaram com as cabecitas em sinal de concordância. A controvérsia sobreveio quando sugeriu o tema: “O que eu quero ser quando for grande”. A camarada pioneira Lídia, como comunista coerente, como já vimos atrás, contrapôs que o título tinha aspeto de ser um pouco reacionário, pois em nada diferia dos temas indicados pela sua ditadora professora primária. O camarada professor José tentou argumentar que não era o título de uma obra o que definia a sua orientação ideológica, mas antes o seu conteúdo. “Mas pode sugerir”, argumentou de novo a camarada pioneira Lídia. “Lá poder pode, mas…”, intentou responder o camarada professor José, no que foi prontamente interrompido pelo camarada pioneiro João que não perdia uma única oportunidade de se opor à camarada pioneira Lídia: “Aqui não há mas nem meio mas, na escola de pioneiros comunistas o camarada professor manda e nós obedecemos…” A camarada pioneira Lídia ia começar a argumentar de novo quando o camarada pioneiro Luís se meteu de premeio e disse que o problema não era o tema sugerido mas antes a contradição implícita na sua denominação, pois um texto proposto não é livre, mas antes regulado. E tudo o que é regulado obedece a um princípio, tem uma orientação, leis próprias, regras definidas… “Ó camarada professor”, objetou o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel, “ponha mas é ordem nisto. Tanta confusão por causa da merda de um texto.” “Cuidado com a língua, camarada pioneiro Miguel”, lembrou o camarada professor José. Mas ainda estava a olhar com cara de camarada dirigente Estaline na direção do ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel, quando o camarada pioneiro João contra-atacou: “Merda de texto deve ser o que tu vais escrever, pois só dás erros e não consegues construir uma frase com princípio, meio e fim.” “Silêncio. Respeito. Ordem”, gritou o camarada professor José. “Ordem revolucionária”, acrescentou o camarada pioneiro Luís. Então fez-se silêncio. Logo de seguida a camarada pioneira Lídia pôs o dedo no ar e começou de imediato a falar: “Voltando ao texto proposto, eu continuo a achar que não é livre, pois…” Neste momento o camarada professor José ergueu-se da cadeira de um salto e disse com voz de dirigente: “Ora vamos lá a ver se nos entendemos. Eu quando sugeri um texto livre sobre o que cada um quer ser quando for grande, foi com o propósito de vos dar oportunidade de poderem escrever livremente sobre a vossa determinação em virem a ser, no futuro, uns revolucionários exemplares. A liberdade do texto tem tudo a ver com a possibilidade de cada um o redigir por sua conta e risco. Além disso, toda a liberdade é condicionada. Ninguém é totalmente livre.” “Nem no comunismo?”, perguntou o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel. Mas o camarada professor José não lhe respondeu. “A liberdade conquista-se, não se dá nem se recebe, luta-se por ela e ganha-se. Assim têm os camaradas a possibilidade de, a partir de um texto sugerido, se libertarem libertando o texto, libertando as palavras e as ideias e emancipando o proletariado.” “Então quer dizer que quando o camarada professor sugeriu o tema apenas estava a pensar na dimensão social, na prática política e não no que cada um pode vir a aspirar a ser profissionalmente. É isso?”, questionou-o a camarada pioneira Lídia. “O que é que o resto da turma acha?”, perguntou muito democraticamente o camarada professor José. Mas a maioria da turma manteve-se calada, como sempre. Apesar de ser constituída por pouco mais de duas dezenas de camaradas pioneiros, apenas quatro falavam. Nisto a escola já estava dar os seus frutos, pois tornava nítido quem poderia vir a ocupar os cargos de dirigente da classe operária do futuro. Bem, da classe operária não, melhor será dizer da sua vanguarda, pois assim é que está certo. Porque uma coisa é ser dirigente da classe operária, nos sindicatos, outra bem diferente é ser dirigente da sua vanguarda, no Partido. Apesar do silêncio, o camarada professor José tornou a perguntar: “O que é que o resto da turma acha?” Ao que o camarada pioneiro João respondeu: “Acho que a turma não acha nada, como sempre. São uma cambada de burros.” “Veja lá como fala, camarada pioneiro, a linguagem e o tratamento protocolar definem a personalidade de um líder”, avisou-o o camarada professor. “Desculpe camarada José, mas eles não são camaradas burros, são apenas camaradas reacionários”, disse o camarada João. “Camarada pioneiro João vá já de castigo para o fundo da sala decorar as páginas trinta e nove a cinquenta do Manifesto. E hoje fica sem recreio.” “Outra vez o socialismo reacionário? Já não há quem aguente. Eu vou fazer queixa ao meu pai.” No fundo da sala, o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel começou a rir-se como um perdido e a camarada pioneira Lídia também deu um ar da sua graça. Apenas o camarada pioneiro Luís veio em defesa do seu companheiro: “Não é justo castigar um camarada apenas porque diz a verdade. Eles podem ser camaradas, mas também são muito burros. Isso todos o sabemos. Novamente o camarada professor José se levantou de um salto apenas e gritou na direção do provocador: “Já lá para o fundo decorar o segundo capítulo do Manifesto, «Proletários e Comunistas».” E lá foi o camarada pioneiro Luís para um canto da sala a resmungar alto que também ele ia fazer queixa ao seu pai. Mais uma vez o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel se riu e a camarada pioneira Lídia também.


Quando o camarada professor José se sentou, a camarada pioneira Lídia aproveitou para voltar à liça: “Relativamente ao texto livre sugerido, penso que se por exemplo o camarada pioneiro Miguel quiser escrever que quando for grande quer ser trolha para poder vir a inscrever-se no sindicato e depois passar a organizar greves, manifestações, etc.” “E quem é que te disse que o camarada pioneiro Miguel quer vir a ser trolha? Lá pelo facto de o seu pai ser operário isso não quer significar que ele lhe queira seguir os passos”, contrapôs o camarada professor José. “Mas não é uma honra ser operário? Pois se é uma honra…” ia a continuar a camarada pioneira Lídia, mas o seu camarada professor interrompeu-a com voz autoritária: “Lá uma honra é, mas também é muito cansativo.” “O que é que o camarada professor quer dizer com isso?”, questionou-o a camarada pioneira Lídia. Mas o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel não lhe deu tempo de responder: “Acabem lá com a porra da conversa de uma vez por todas.” O camarada professor José, já com a paciência a desmoronar-se, avisou: “Tento na língua.” Então o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel indagou: “O que foi que eu disse de mal. Apenas pronunciei a palavra «porra».” “E tu sabes o que significa porra?”, perguntou o camarada professor José. “Eu não”, respondeu o ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel meio embasbacado. “Eu sei”, disse a camarada pioneira Lídia, “a minha mãe explicou-me quando eu, por acaso, li essa palavra num soneto do Bocage.” “E a tua mãe deixa-te ler poesia erótica do Bocage.” “Não. Mas eu leio na mesma. «Porra» quer dizer pilinha.” Toda a turma se riu, menos o camarada professor José. Um camarada pioneiro dos que sempre estavam calados, desta vez resolveu falar: “Não é pilinha que se diz, mas sim «piroca».” Mais risos. E um outro contrapôs: “Não é «piroca» é «pélis».” Ainda mais risos. Ao que o camarada pioneiro João, mesmo de castigo, corrigiu: “Não é «pélis», mas sim «pénis»…” “ou «falo»”, sugeriu o Luís. Foi então que o riso tomou conta de toda a turma. O ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel, com a sua arrogância proletária verdadeiramente filha… do proletariado e intrinsecamente provocatória, levantou-se do lugar e gritou bem alto a sua má criação: “Não é nada disso, «porra» é «pissa».” Depois ouviu-se ainda mais alto: “E a palavra escreve-se com um «cê» de cedilha ou com dois «ésses»”. 


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Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012

Feira dos Santos - Chaves - Portugal


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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012

O Poema Infinito (124): o unicórnio branco


Procurei-te no meu sonho por entre mãos abertas que incendiavam barcos de folhagem. E o sol falava com os animais e as plantas sobre os muros. Por isso peguei na linguagem dos gestos quase imóveis e com eles tentei vencer o tempo. E o tempo procurou-me por entre os seus babilónicos labirintos. E a terra explodiu em violência. E mais mãos de água e fogo invadiram o meu sonho. E o mundo encerrou-se nos seus círculos vagarosos em busca da matéria pura. Uma multidão de imagens regressou às origens. E de entre as trevas surgiu um unicórnio branco. Hoje é o desejo que caligrafa os sentidos. A alba equilibra os buracos e a natureza preenche o equilíbrio verde das árvores. E as árvores tornam impronunciável o horizonte. Os fracos bebem a violência na sua obscuridade e no seu medo e na sua angústia. E também no seu delírio. E os seus nomes transformam-se em feridas. Vivemos à beira do desastre. Tudo se desmorona. O movimento do vento torna-se anil. Os anjos são agora azuis. E deus é uma transparência vegetal. As palavras levantam casas. E por baixo delas formam-se círculos de energia. Dessa forma deus pretende dar coerência ao mundo. Por isso nos esquecemos dele e da sua negra e fria transparência. Deus tem o peso informe dos séculos e a fome dos milénios. O sol morre. E o silêncio transforma-se numa sombra. As palavras sangram e envolvem-me nos seus braços. E incendeiam-se. Os suavíssimos versos metamorfoseiam-se em pássaros de água que estendem as suas asas em direção ao infinito. Espero vir a ser aberto por uma palavra. A vida é o segredo evidente da matéria e a sua estrela de carne. O tempo perdido sufoca-me. São os teus olhos que me iluminam os gestos. Os meus gestos deixaram já de ter paisagens dentro. Sou agora um rio sem margens nem leito. Uma coisa me faz vibrar: a tua presença nua. Tu és a conjugação de todos os possíveis. Assombro-me em gestos concêntricos. As mãos escavam delírios. Grito em nome do sofrimento e da liberdade, em nome dos sonhos e dos desejos, em nome da paz e da vitória, em nome das mães desesperadas, em nome dos homens simples, em nome das palavras nuas, em nome dos rostos que brilham, em nome dos relógios que marcam as horas inúteis, em nome dos animais que morrem em silêncio e dos homens que morrem em silêncio e das mulheres que morrem em silêncio e das crianças que morrem em silêncio. E grito por causa do olhar dos poetas e por causa das estrelas que se extinguem e por causa dos navios sem porto e por causa das aldeias sem meninos e por causa do cheiro das madrugadas e por causa de todos os muros de segredos e por causa da amizade sussurrada e por causa dos homens que resistem e por causa das mulheres que resistem e por causa da veemente exatidão dos poetas e por causa da claridade da música e por causa das varandas nuas e por causa da espuma do silêncio e por causa das páginas desertas e por causa dos caminhos feitos de palavras. E grito pela infinita delícia de viver. 


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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2012

Feira dos Santos - Chaves - Portugal

 


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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012

Pérolas e diamantes (15): parabéns ao Governo e à prima


Sabem os estimados leitores qual é a profissão que atualmente tem mais procura? Não, não é a de ex-autarcas, mas sim a de profissionais do despedimento. São gente contratada para dispensar trabalhadores, uma atividade ingrata (quase tão ingrata como a de ex-autarca) que floresce com a crise. Existem mesmo workshops para ensinar como se deve proceder.

 

E isto deve-se ao facto de termos um primeiro-ministro que é vassalo da senhora Merkel e, tal como a patroa, ser incapaz de reconhecer que a sua estratégia neoliberal falhou estrepitosamente. Ou seja, como muito bem lembrou Miguel Sousa Tavares, o que custa já não é a estratégia falhada, mas sim ter de se reconhecer o falhanço.

 

Silva Peneda, o presidente do Conselho Económico e Social, e antigo ministro do PSD, afirmou em entrevista que, se por um lado os atuais dirigentes com assento na concertação social são gente de muita categoria, séria, de grande qualidade política e tecnicamente muito competentes, os membros do governo são gente que deixa muito a desejar.

 

E esclareceu: “Noto claramente que há uma perda de qualidade na administração pública. Era impensável que o ministro viesse para a concertação social apresentar uma ideia sem um papel, sem fundamentar. (…) Hoje as decisões não são suficientemente sustentadas. E há, muitas vezes, falta de coerência, apresentam-se ideias que vão num sentido e depois surgem outras em sentido contrário.”

 

Estamos em crer que este tipo de situações ocorre igualmente ao nível regional e local. Especialmente ao nível autárquico, como mais à frente poderão verificar.

 

Pedro Passos Coelho, e o inenarrável Miguel Relvas, quiseram-nos fazer crer que esta ideia de subir o IVA e o IRS foi apenas uma medida de contingência devido ao descalabro nas contas públicas que encontraram depois de o seu Governo ter tomado posse, tentando declarar que desconheciam a realidade. Mas é mentira.

 

O PSD já sabia de tudo. Afinal esteve de acordo com a assinatura do plano de resgate feito pela Troika a Portugal. E tanto sabia que a 1ª versão do programa eleitoral do PSD, feita por Eduardo Catroga – o tal homem que se recusou a discutir os “pentelhos” do acordo –, e agora trazida a lume pelo “Expresso”, admitia a subida desses impostos. “A título excecional de emergência”, Catroga ponderava “considerar medidas de impacto na receita fiscal”.

 

E lá estava a receita: “Atualização dos impostos sobre o consumo”, “eventuais reestruturações do IVA”, “agravamento temporário das taxas do IRS dos três últimos escalões, “aplicação de um imposto sobre mais-valias” e “restruturação dos benefícios fiscais”.

 

Todas estas propostas foram banidas da versão final do programa eleitoral do PSD. E porquê?, perguntarão os estimados leitores. Pois porque com a verdade o partido de Pedro Passos Coelho não conseguia ganhar as eleições. Por isso os seus dirigentes resolveram fazer que viviam em Marte e que desejavam ir passar férias a Vénus. E mentiram com quantos dentes tinham.

 

Devem estar lembrados, com toda a certeza, das promessas feitas por Pedro Passos Coelho, em plena campanha eleitoral, de que não ia aumentar os impostos e, sobretudo, nunca por nunca iria mexer no subsídio de férias e no décimo terceiro mês.

 

Depois foi aquilo que se viu, ainda estava a subir as escadas do Palácio de Belém para tomar posse e já ia a pensar o modo de se desembaraçar do embuste. Ou seja, o PSD escondeu o aumento de impostos para ganhar as eleições.

 

Daí a queda acentuada dos sociais-democratas nas intenções de voto dos portugueses. E o caricato é que, em apenas ano e meio, o PS, e nomeadamente António José Seguro, apesar de pouco terem feito além de cavalgar a onda de descontentamento, já estarem à frente nas sondagens.

 

O seu argumentário baseia-se em apenas três ideias repetidas até à exaustão: A agenda escondida do Governo do desmantelamento do Estado Social, a oposição do PS à política de austeridade excessiva e empobrecimento do país e o crescimento económico.

 

Ou seja, mesmo cumprindo com os serviços mínimos, o PS já vale tanto como o PSD e o CDS juntos, cerca de 35%, e o líder dos socialistas é o dirigente político mais popular, com o índice +15, sendo que Pedro Passos Coelho tem até nota negativa, – 0,4, ocupando mesmo o desconfortável último lugar da lista.

 

Apesar de todo este descalabro, para o primeiro-ministro e, claro está, para o ministro Vítor Gaspar, e para a fação do PSD que apoia este Governo, tudo está a correr conforme o esperado e programado, com a pequena exceção do falhanço no cumprimento das metas do défice, da queda colossal no consumo, do disparo do desemprego, que nos jovens atinge já os 40%, do aumento exponencial das falências, da falta de financiamento das pequenas e médias empresas e, para terminar em beleza, do brutal aumento de impostos.

 

Apesar desta guerra contra as pessoas, contra as suas famílias, contra os seus direitos, contra toda a lógica, contra o Estado de Direito, contra a democracia, contra a liberdade e, sobretudo, contra a sensatez, o défice orçamental de Portugal atingiu, no final de outubro, os 8,145 mil milhões de euros, um valor muito próximo dos 9 mil milhões, que é o número previsto para o conjunto do ano corrente, correspondente a 5% do nosso PIB. Ou seja, o agravamento face ao mês de setembro foi de 2,576 mil milhões de euros.

 

Apesar dos números, do descalabro, da crise e de tudo o resto, do défice, do seu agravamento, etc., e como estamos em ano de eleições autárquicas, a Câmara de Chaves, resolveu, devido à urgência, remodelar o campo de treinos de futebol 11 do Estádio Municipal. O valor da empreitada é de 260 mil euros e inclui o arranjo do campo, dotando-o, imaginem só, de relva sintética. Era mesmo disto que estávamos a necessitar como de pão para a boca.

 

Outra das apostas do nosso município vai no sentido de avançar com um estudo para a criação de produtos cosméticos com as águas termais. Isto, sim, é pensar no futuro. Parabéns pois à nossa autarquia, parabéns aos seus dirigentes. Parabéns.  


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Domingo, 9 de Dezembro de 2012

A caminho de Loivos


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Sábado, 8 de Dezembro de 2012

Animador de feira


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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2012

O Homem Sem Memória - 137


137 – Ainda o intervalo não ia a meio quando o camarada pioneiro João mais o camarada pioneiro Luís entraram na sala a chorar acusando o camarada pioneiro Miguel de não saber brincar dado que pretendia alterar o sentido da História, pois, como comandante do exército opressor, vencia-os sempre utilizando a força, truques e golpes baixos.


Olhando para o camarada José com os olhos marejados, os camaradas pioneiros Luís (disfarçado de Che Guevara) e João (mascarado de Fidel Castro) argumentaram: “O camarada pioneiro Miguel não nos pode vencer sempre. Assim não vale. O exército dele é muito maior do que o nosso.” “E porquê?”, perguntou o camarada professor. “Pois porque os outros camaradas pioneiros não querem aliar-se a nós. Preferem alistar-se no exército reacionário em vez de engrossarem as fileiras da revolução. Não têm nenhum sentido de classe. Não são sensíveis aos nossos apelos marxistas-leninistas. Dizem que preferem ser reacionários com o pretenso camarada pioneiro Miguel a ser revolucionários connosco. Ao todo, eles são treze. E nós somos apenas sete. Mas os outros cinco não prestam pois foram escorraçados pelo suposto camarada pioneiro Miguel que não os quis no seu exército. Agora temos de ficar com eles, mas eles não sabem brincar às guerras revolucionárias. Eles são daqueles que na escola gostam de brincar com as meninas. Não servem para nada. Nem para reacionários, quanto mais para revolucionários. Nós queremos o camarada pioneiro Miguel do nosso lado para ganharmos a guerra. A não ser assim perdemos sempre. Por favor, camarada professor peça ao camarada pioneiro Miguel para se juntar a nós, para vir para o lado da revolução. O camarada professor José tem de fazer alguma coisa senão esta escola de pioneiros pode transformar-se numa escola de reacionários. Por favor camarada professor fale com o camarada pioneiro Miguel. Ele a nós não nos liga.”


Postas as coisas nestes termos, ao camarada professor José não lhe restou outro caminho que tentar interferir na História. Por isso mandou a camarada pioneira Lídia chamar o camarada pioneiro Miguel, pois sabia que se enviasse os putativos camaradas Fidel e Che, o camarada pioneiro Miguel dizia logo que não. Aquelas duas fações eram irreconciliáveis.


Passado pouco tempo, o camarada pioneiro Miguel entrou na sala com o sorriso provocador dos triunfadores de mão dada com a camarada pioneira Lídia, que também sorria vá-se lá saber porquê. E perguntou: “O que é que se passa, camarada professor?” “Eu é que pergunto o que se passa?”, perguntou o camarada José. “Da minha parte não se passa nada. Tudo como dantes no quartel de Abrantes”, retorquiu o camarada pioneiro Miguel, sorrindo para a camarada pioneira Lídia. “Os camaradas pioneiros João e Luís vieram dizer-me que tu lhes ganhas sempre na guerra de guerrilhas…” “Eu ganho-lhes também no futebol, no hóquei, nas caricas, ao berlinde, no espeto, no pião, ao botão, aos índios, ao bate-fica…” “Chega. Isso assim não vale. Lá na escola ou na rua podes ganhar-lhes ao que queiras, mas aqui tens de respeitar as regras. Por muito que te custe, se brincas às revoluções e se te toca em sorte desempenhar o papel de comandante dos exércitos reacionários, tens de fazer tudo para perder.” “Mas assim não vale…” “Isso foi o que eu disse...” “Mas eu não quero dizer o mesmo que o camarada professor disse. Eu pretendo explicar que ninguém brinca para perder. Jogar para perder não vale. Assim ninguém participa.” “Isso pode ser assim lá fora, mas aqui na escola dos pioneiros as brincadeiras são muito sérias. Tão sérias que se te calhar em sorte fazer de reacionário tens a obrigação de perder e se te tocar fazer de líder revolucionário tens a responsabilidade de ganhar. Aqui tudo tem de estar de acordo com a História. Não podemos aprender uma coisa e fazer outra, temos de ser coerentes. A coerência é atributo dos revolucionários.” “Sendo assim, não brinco. Que joguem um contra o outro.” “Porque não te juntas aos teus camaradas?” “Pois porque perdem sempre.” “Por isso mesmo é que te deves associar a eles. Tanto o camarada pioneiro João como o camarada pioneiro Luís são aqueles que ideologicamente mais bem preparados estão para liderar.” “E a camarada pioneira Lídia?” “A camarada Lídia também.” “Então porque não quer ela fazer parte do grupo deles?” “Porque gosta mais de poesia.” “E não. A camarada pioneira Lídia não gosta é de jogar ao lado de perdedores. Ela gosta de ganhar.” “Então porque não faz parte do teu grupo?” “Porque é uma comunista coerente e verdadeira. Não gosta de trair a sua ideologia.” “Queres tu dizer que não te importas de trair o ideal comunista.” “Se for para ganhar...” “Que rico pioneiro comunista tu me saíste.” “Eu ando na escola de pioneiros porque o meu pai me obrigou, não porque goste.” “Pois. Mas se aqui andas tens de cumprir com o regulamento que explica que na escola tudo se submete ao princípio da ideologia. E a teoria científica do marxismo-leninismo diz que o comunismo triunfa sempre. Pode custar mais ou menos, pode ser mais cedo ou mais tarde, mas triunfa sempre. Portanto, se te calha pertencer à reação tens de perder a guerra de guerrilhas quando lutas contra os nossos. Mesmo que pontualmente até possas ganhar um que outro combate. Mas, no fim, por muito que isso te custe, tens de ser inexoravelmente derrotado. Lembra-te que não estás apenas a participar numa brincadeira. Mesmo quando perdes no jogo da revolução, estás a cumprir com o sentido da História, estás a contribuir com o teu esforço para que a nossa luta faça sentido. Ou seja, mesmo quando perdes ganhas, porque deixas ganhar a revolução e triunfar os comunistas, ou seja, tu. Porque, bem vistas as coisas, tu és um comunista.” “Quando brinco, o camarada professor só me deixa ser da reação.” “Isso não é verdade, o que eu digo é que o camarada pioneiro João e o camarada pioneiro Luís têm de ser os chefes revolucionários, pois são eles os mais organizados, os que decoram melhor o Manifesto Comunista, os que mais jornais vendem, os que cantam A Internacional sem se enganarem. Tu és um cábula. Não tens perfil para liderares um grupo de intrépidos guerrilheiros revolucionários. Não tens a necessária solidez ideológica. Podes ser um excelente sargento, mas nunca darás um bom general.” “Mas na luta ganho-lhes sempre.” “E porquê?” “Pois porque sou mais forte do que eles. Não lhes tenho medo. E a mim não me impressionam com os livros dos papás, com o leitinho e as bolachinhas que bebem e comem de manhã, à tarde e à noite, nem com as férias à beira-mar, nem com o seu cocó amarelo que nem sequer cheira a merda. Eles são uns burgueses. Podem afirmar-se comunistas, cantar canções comunistas, ler livros comunistas, mas não são comunistas. Comunista é o meu pai que trabalha de sol a sol e não ganha dinheiro para nos sustentar.” “Pois, logo vi. As divergências já vêm de longe. Eu sei que o teu pai é pobre, mas isso não faz dele, necessariamente, um comunista. Para se ser comunista é preciso ter-se consciência política revolucionária. Um proletário se for comunista é um revolucionário. Um proletário se não for comunista é apenas proletário.” “Camarada professor José, você fala bem mas não me ilude. Aqui não se trata de divergência, mas de luta. De luta de classes. Se os cocós estão de um lado eu estou obrigatoriamente do outro.” “E a camarada pioneira Lídia?” “Camarada professor, não meta a camarada pioneira Lídia no meio da nossa luta.” “Então não te queres juntar às tropas revolucionárias do camarada pioneiro João e do camarada pioneiro Luís?” “Já lhe disse que não posso. Mas deixe que lhe faça uma proposta. Nomeie-me a mim comandante das tropas revolucionárias e ao camarada pioneiro João e ao camarada pioneiro Luís ponha-os na liderança do exército reacionário e vai ver como a História encontra o seu sentido comunista.” “Bem sabes que não posso. O Partido não me autoriza. Os seus pais são camaradas dirigentes. O do camarada pioneiro Luís é até funcionário.” “Nomeie a camarada pioneira Lídia comandante do exército revolucionário e tem o problema resolvido.” “Tenho é um problema ainda mais complicado. Se os pais do camarada pioneiro João e o pai do camarada pioneiro Luís sabem que nomeei a camarada pioneira Lídia chefe dos revolucionários e os pus aos dois à frente do exército reacionário, mandam-me para o campo de concentração do Larouco.”


Estas foram as primeiras palavras proferidas pelo José que vieram dar razão à sua mãe. Afinal o rapaz tinha mesmo dons adivinhatórios. Mas deixemos a narrativa seguir o seu curso normal. O que for será. E a explicação surgirá quando chegar o seu devido tempo.


Para acabar com a contenda, e não hostilizar as várias sensibilidades comunistas da cidade de Névoa, o camarada professor José pegou na sineta e tocou para a entrada.


Estava no momento certo para mudar de brincadeira na hora do intervalo. Para a semana iria distribuir os baldes, a cola e os desenhos que os camaradas pioneiros fizeram de Marx, Engels e Lenine para com eles se entreterem e aprimorarem a técnica das manchas de cartazes. Pelos vistos esta era a única arma revolucionária que iriam ter à sua disposição. Por isso era de toda a conveniência que fosse nela que se especializassem. 


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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012

Observando


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Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2012

O Poema Infinito (123): loucura branca


Percorro em ti os movimentos da terra e espero ainda que deus faça do teu corpo um desenho boreal. Por isso respiro o teu fulgor na brisa da manhã enquanto o sol expõe de novo o lento fogo dos teus olhos. Este é o novo reconhecimento do caminho bem-aventurado da glória extinta da diferença. O teu corpo ajusta-se à minha visão caleidoscópica e por isso repouso enquanto caminho. E por isso caminho enquanto repouso. A luz agora é outro pretexto de exposição. É a arte da intuição científica. Todos os lugares de afeto se reproduzem. Paisagens invisíveis irrompem da tua voz e extinguem a mágoa e a desastrosa sensação de abandono. Tu és um sopro de deus. Uma sua voz que persiste na matéria. És o seu súbito nome que se multiplica no firmamento. A imagem que ali ficou despediu-se do seu momento para sempre. Abandonou definitivamente o seu espaço tridimensional e o seu tempo unidirecional. A felicidade tem esse sabor a instantâneo que nunca mais se repete. É como uma loucura branca. Sinto a noite subir por mim. Por isso a esperei sentado na tarde. Por isso escrevi a sua luz leve. Por isso a redigi em páginas de preces amargas. Por isso te amei lentamente enquanto tentava decifrar a Eva que há em ti. Sei agora que a alba te desenhou as pestanas e a expressão do rosto quando amas e os gestos quando acaricias. Os dias são breves alegrias que se estendem pela profundidade do júbilo. E o júbilo é uma dilatação do azul do céu e do cristalino verde dos teus olhos. Daí o tempo içar o enigma da brevidade da vida. Daí o ímpeto infinito que vivifica a memória. A ideia de velhice entra em mim como um frio difuso carregado de rugas e desalento. Sinto a tua ausência ao longe. Sinto o espaço da tristeza invadir o mundo da alegria. Gostava de poder ser o teu esplendor da eficiência. Dizes: Sou a tua paciência iluminada. Por isso te padeço em silêncio. Voltamos ao tempo do exílio, ao brilho escuro da desgraça, ao júbilo do sofrimento. A paciência humana é ilimitada. Sobre as memórias submissas passam imagens de desalento. A eternidade é o tempo debaixo de cada imagem. É um tempo sem espessura. É a idade implodida. De novo tudo se ilumina. E as imagens ascendem na sua feliz fragilidade. Afeta-nos a fé da distância. A verdade é a sua própria prefiguração. Escutamos o agudo silêncio da intolerância. Por isso o silêncio cresce por dentro da nossa infância. E o espanto. Sonho com a expansiva surpresa da língua. A luz repousa no teu corpo com a harmonia da chuva miudinha. Dentro de mim ilumina-se o medo. A palavra fundamenta-se. Lá está a pomba sacramental do delírio. Lá está o delírio. Lá está Noé à espera dos animais que lhe mandaram salvar. Lá está ele e a sua felicidade de sal. Mas do céu não cai água, apenas tomba o lume da ciência. Por isso a lucidez tem agora a rutilação artificial da ordem. E o seu brilho subjuga a inteligência. Estamos reduzidos à nossa eternidade instantânea. 


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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012

Homens e vacas


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Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2012

Pérolas e diamantes (14): o jogo das cadeiras ou quem verdadeiramente defende o Tribunal de Chaves


No momento em que começo a escrevinhar esta crónica ainda tenho na boca o delicioso sabor da “tortulhada” (ó desculpem lá!, o paladar dos especiais “tricholoma esquestre” e “tricholoma terreum” cozinhados com a suculenta e vermelha carne  de vitela dos lameiros do barroso) que eu e a Luzia cozinhámos com muita paciência e algum engenho. 

 

Afirmar que cozinhámos é uma maneira de dizer, uma forma não intrusiva de faltar à verdade, mesmo não mentindo porque eu na cozinha sou como os políticos: sorrio, digo meia dúzia de lugares comuns, dou uma dúzia de conselhos inócuos para me sentir útil e o resto fica por conta e risco… da Luzia. Por vezes levanto o testo da panela, cheiro o suave aroma do cozinhado, acrescento um ou outro condimento, tapo a panela e digo o inevitável: Cheira maravilhosamente. Já tenho água na boca. Já me estão a saber os tortulhos… os “tricholomas”. E rimo-nos. Eu com a minha cara de transmontano azedo e a Luzia com o seu sorriso lindo.

 

Toda esta prosa me fez voltar a José Miranda, o tal senhor que apanhou uma roca (ó desculpem, uma “macrolepiota procera”) com quilo e meio. De facto, o barrosão de Ferral é um homem predestinado a encontrar coisas grandes. Há cerca de um ano descobriu nabos com cerca de 3 quilos cada um. E até os meteu no facebook, que também é local de muitos e bons nabos. Só que não tiveram a publicidade que estão a ter as “macrolepiotas proceras”. Pudera, os nabos abundam por toda a província transmontana. Já as “macrolepiotas” são cada vez mais raras.

 

Podemos dizer, e sem exageros, que nabos somos quase todos nós, os cidadãos comuns que ocupam os campos e as ruas. Já as “macrolepiotas proceras” tendem a ocupar as cadeiras do poder. Mas agora há por aí um quarteto de presidentes de Câmara que, por força da lei (ó lei, maldita lei, a quanto obrigas!), vão ser obrigados a deixar a cadeira que presentemente ocupam.

 

E eu olhava para estes senhores e punha-me a pensar no que iriam fazer fora da política. É que muitos deles, por força da lei (ó lei, maldita lei, a quanto obrigas!), ainda não se podem reformar porque o tempo de serviço enquanto autarcas deixou de poder ser contado a dobrar. Por isso eu olhava para eles e punha-me a pensar no que iriam fazer estes distintos senhores fora da política. Pois foram feitos nela e sem ela deixam de ser as tais “macrolepiotas proceras” de quilo e meio para passarem a ser nabos, mesmo que dos taludos, tal e qual como eu ou até como o estimado leitor. Apesar de nós sermos nabos bem mais pequenos e insignificantes.

 

Convenhamos que passar de “macrolepiota procera” a nabo, mesmo que dos taludos, não é lá muito lisonjeiro, nem muito cómodo. Pois lá se vai a canseira do poder, o insignificante ordenado, a miséria das ajudas de custo e todas as demais prebendas que mais não são do que outras tantas arrelias e canseiras. Quando não são pretextos para serem criticados pelos chatos do costume que escrevem nos jornais, nos blogs ou no facebook.

 

Mas objetivemos. Então lá vai a objetivação, com devida anuência dos leitores e também dos estimados autarcas. Que eu me lembre, no PSD existem quatro presidentes que vão ter de deixar de o ser por força da lei (ó lei, maldita lei, a quanto obrigas!). São eles: Francisco Tavares, de Valpaços; Fernando Campos, de Boticas; Domingos Dias, de Vila Pouca de Aguiar; e João Batista, de Chaves.

 

Disseram-me que um manifestou intimamente vontade de se candidatar à Câmara de Chaves e outro manifestou publicamente essa mesma intenção. Sei ainda que um deles é candidato a presidente da Comissão Política Distrital de Vila Real e também sei que o quarto elemento do quadrunvirato não sabe bem para onde se há de virar. Ou se calhar sabe mas não diz.

 

Postas as coisas neste pé, eu dava voltas e voltas à cabeça para atinar com o futuro desta gente. Pois não os estou a ver a definhar em casa frente ao televisor ou a humilharem-se a regressar aos empregos pardacentos que ocupavam antes de entrarem para a política. E tantas voltas dei que descobri a resposta. Encontrei-a escarrapachada nas páginas do “Expresso”.

 

Ou seja, o Miguel Relvas, o inenarrável Relvas, o inigualável Relvas, o homem do aparelho social-democrata, sabendo que muitos dos seus velhos amigos iam ter um final de carreira política infeliz e cinzento, resolveu encontrar uma maneira de, pelo menos, não mandar toda esta gente para casa ou para o antigo emprego.

 

E no que é que pensou? Pois num cargo que fosse quase a mesmo coisa que presidente da Câmara mas sem a chatice de eleições diretas. Ou seja, o inigualável e inenarrável Relvas resolveu arranjar bons jobs para os ex-autarcas. Por isso vai criar uma nova classe de dirigentes a nível intermunicipal, que são os antigos presidentes de Câmara.

 

E o processo está tão adiantado que a proposta de lei que consagra o regime de entidades intermunicipais até já foi aprovada pelo Governo. Este será um novo nível da Administração Púbica que fará nascer mais de cem tachos (ó desculpem), mais de um cento de cargos dirigentes, e todos mal remunerados.

 

Ou seja, à frente de cada comissão metropolitana intermunicipal vai ser colocado um primeiro-secretário com o salário de um presidente de Câmara, cerca de 4000 euros ilíquidos. Isto fora as miseráveis ajudas de custo, os gastos de representação, a viatura, ou viaturas, do Estado ao dispor, etc., etc. e etc.

 

Resumindo e concluindo: o primeiro-secretário fica a ganhar mais do que, por exemplo, um deputado.

 

Mas a história não acaba aqui. É que a tal estrutura intermunicipal vai ter outros membros que serão equiparados, e gratificados, como vereadores a tempo inteiro.

 

Ou seja, a tal comissão executiva intermunicipal vai ser uma espécie de Câmara constituída por ex-presidentes com o respetivo chefe e restantes vereadores. É um fato talhado à medida dos autarcas que por força da lei (ó lei, maldita lei, a quanto obrigas!), estão impedidos de concorrer nas eleições autárquicas de 2013 por limitação de mandatos.

 

Isto numa altura em que se fala de racionalização de despesa, contenção de gastos, de austeridade, de cortar nas gorduras, de acabar com organismos de Estado, entre outras coisas. Bem prega Frei Tomás…

 

Se os estimados leitores acompanharam os meus escritos, entenderão agora a ameaça velada de Fernando Campos se candidatar à Câmara de Chaves, de Francisco Tavares continuar a sorrir e a dizer que está aí para as curvas, de Domingos Dias se candidatar à distrital e de João Batista estar caladinho que nem um rato. É que afinal anda tudo a lutar pela sobrevivência. E não ando longe da verdade se disser que é de entre este quarteto laranja que sairá o próximo primeiro-secretário da comissão executiva do Alto-Tâmega e Barroso. Isto se as eleições autárquicas não correrem mal ao PSD.

 

Até lá muita água vai correr debaixo das pontes. Mas é bonito de observar este jogo do empurra entre companheiros do mesmo partido que se desunham para virem a sentar-se na única cadeira vaga que ainda resta para que não fiquem para aí ao abandono nas prateleiras do partido a criar mofo.

 

Mas uma coisa é certa, a luta já começou. Basta ler as palavras ditas aos semanários locais por João Batista e Fernando Campos sobre a sensível e polémica questão dos tribunais, especialmente do Tribunal de Chaves, para chegarmos a essa conclusão.

 

João Batista, enquanto presidente do Conselho Executivo da Comunidade Intermunicipal de Trás-os-Montes (veem como tudo começa a fazer sentido) pediu ao Estado para ser “mais amigo dos cidadãos”, apelando, por entre sorrisos e palavras de circunstância, dando uma no cravo e outra na ferradura, como é seu timbre e feitio, para, (por favor, por favor, caro Pedro Passos Coelho, caro Miguel Relvas) não desqualificar os vários tribunais da nossa região. Pedindo, gemendo, suplicando, rogando, implorando, solicitando para que fechem os olhos à sua teimosia de acabar primeiro com o Interior para de seguida fechar o país para balanço.

 

Está visto, o plano de João Batista passa por não fazer ondas. Como homem de bastidores e de aparelho, aposta numa estratégia de águas mornas, pensando mais no cargo do que nos direitos inabaláveis das populações que devia defender sem ser vítima da estratégia do poder pelo poder, pensando que tem mais apoio partidário do que os adversários, que é um homem de consensos e que o seu sorriso é meio caminho andado para a resolução dos problemas. Enfim, apostando no sim e… nas sopas.

 

Já Fernando Campos, homem desassombrado, de personalidade mais populista, política e socialmente corajoso, mantém a sua postura de frontalidade. Por isso, em relação ao mesmo problema dos Tribunais, nomeadamente do Tribunal de Chaves, acusa a ministra da Justiça de não estar de boa-fé no processo. E denunciou a vergonha de mesmo ainda estando a decorrer o “processo negocial” já terem conhecimento de que o Ministério da Justiça está a tentar alugar instalações em Vila Real para aí instalar muitos dos serviços que pertenciam à Comarca de Chaves.

 

Considera que “a desqualificação dos serviços de Chaves é muito mais gravosa porque abrange muito mais gente do que o encerramento do Tribunal de Boticas”. Por isso apelou à mobilização da população porque tal atitude persecutória é, manifestamente, uma tremenda injustiça.

 

Ou seja, enquanto o presidente da autarquia flaviense pede desculpa por ser presidente de um concelho que tem manifestado indignação pela política do Governo em relação a Chaves, nomeadamente do Tribunal e do Hospital, o de Boticas vai à luta e, sem papas na língua, diz aquilo que todos sentimos. Afirma-se líder. Parece que o presidente da autarquia de Chaves é Fernando Campos. O que fica muito mal a quem ainda dirige os destinos do nosso concelho. Isto pelo menos é o que parece. E todos sabemos que em política tudo o que parece é.

 

É por estas e por outras que os autarcas em fim de mandato andam ao mesmo tempo a esfregar as mãos e a afiar as garras. Que sejam bem-sucedidos e felizes é o que daqui lhes desejamos.

 

 

PS1 – Ouvindo os nossos sentidos apelos, João Batista, o ainda senhor presidente da Câmara de Chaves, resolveu finalmente aparecer nos jornais. E fê-lo numa pequena fotografia que vinha a ilustrar uma notícia sobre o magusto de São Martinho no Lar de Travancas. O nosso amigo com uma cajadada apenas (pois estamos em crise, é bom que não esqueçamos) matou dois coelhos, porquanto também se juntou à festa de aniversário comemorativa dos 76 anos do senhor Padre Delmino Fontoura. De anoraque, e sem gravata, apenas munido do seu sorriso protocolar, João Batista alegrou e fez alegrar os presentes.

 

Sensibilizados por se ter dignado aparecer, desde já lhe enviamos os nossos mais sinceros cumprimentos. No entanto não queremos deixar de lhe comunicar que não era necessário pôr tanta qualidade e tão subido empenho na cerimónia escolhida.

 

PS2 – Não podemos acabar esta crónica sem enviarmos desde aqui as nossas mais sinceras congratulações pelo facto de António Cabeleira ter sido o escolhido pelo PSD para ser o seu candidato ao honroso cargo de presidente da nossa autarquia. Uma coisa podem desde já ficar a saber os flavienses: se o PSD perder a Câmara de Chaves, a culpa não é de António Cabeleira, mas do PSD. E mais não podemos dizer por causa da fonte que nos passou esta sensível informação. De facto o homem tem feito tudo, mas mesmo tudo, para acabar com a oposição interna, mas os seus esforços, até à data, não têm sido coroados de êxito. Mas a procissão ainda só vai no adro.


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Domingo, 2 de Dezembro de 2012

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