Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013

Sorrindo


publicado por João Madureira às 07:45
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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2013

O Poema Infinito (131): o enigma da luz e do desejo


Espero muito quieto que as palavras resolvam a súbita metamorfose da ferocidade que se acendeu nos teus olhos. Os animais respiram a luz imensa do dia e exalam constelações e escondem os corpos que respiram dédalos de ansiedade. Palavras adolescentes vão colorindo os sorrisos e os amantes alcançam a visão perfeita do apocalipse. As palavras ciciadas são a janela que permite uma visão perfeita para o início. Toda a vida é uma grafia de águas amnióticas. As crianças gatafunham as suas folhas com cores amargas. E sorriem. E eu regresso a casa onde a humidade faz o seu caminho de descomposição. Morcegos dispersam-se emaranhados nos seus voos devassos. O silêncio derrete-se. A loucura derrete-se. E a morte entorpece o meu olhar no instante em que revejo o caminho do tempo. O teu rosto não me engana. Suponho que vai amanhecer de novo. Sou eu quem inventa o teu sono, quem te segreda a colheita e a apologia dos sonhos. O mundo continua a expelir todos os desastres possíveis. E eu recolho na concha das minhas mãos as lágrimas dos que sofrem. A cama conhece a memória do teu corpo. Por isso o tempo da tua ausência é ainda mais demorado. O amor desenvolve-se agora pelo cheiro a giestas verdes. E a noite, quando vem, traz novamente o esquecimento da voz. Persigo-te com as mãos abertas no vácuo onde o teu rosto se revela como uma fotografia de claridade. Os objetos ficam com o seu interior sombrio. Alguém canta dentro da minha cabeça uma canção de abandono. O nosso sonho é invadido pela sede e pelo desejo. A noite cai em cima das flores como se não as amasse. E as flores dobram-se dentro da sua cor. No céu uma utopia de ave arrisca um voo de morte. A noite pertence ao seu fulcro. Esta é a hora das alucinações, onde se derrama o sémen à velocidade do desejo. E o desejo grita. E o desejo finge que abranda. Lentamente, os meus dedos aperfeiçoam a arte do afago e param quando sussurras. Então deslizo pelo denso espaço das tuas coxas com a mobilidade dos aflitos. Este silêncio não se consegue escrever. De repente, os dedos escavam um sexo numa espiral infindável de dádiva. Posso distinguir o teu corpo pelo rumor do meu. As ilhas chegam com o início da memória. É o momento certo para abandonarmos os corpos que se agitam na sua respiração entrecortada. Crescem-nos asas nos olhos e as palavras atingem o imperceptível estrépito da lucidez. Desce o luar com a cor cinza do desespero. Os corpos reconhecem o seu sítio. Tocamo-nos novamente olhando para o mar azul da fotografia. Adivinho-te os sonhos cobertos de veludo. O ar continua impregnado de desejo. O teu rosto sussurra orgasmos. A manhã aproxima-se da janela. A memória dorme. A boca escreve uma nova melancolia. Lá fora os insetos elevam-se para o cimo das árvores e são comidos pelos pássaros. Eu espero pelo sono. A paixão transforma-se num gesto vegetal. A imobilidade é quase absoluta. A noite constrói um túnel para libertar a madrugada. Ei-la que chega, luminescente. Aperto-te os seios para me proteger. O tempo transforma-se na sua seguinte metamorfose. O tempo ergue-se na sua agonia infinita. O tempo lavra os nossos corpos em lume brando. Soergo-me devagarinho e lambo-te os lábios como quem colhe flores estupefactas. Não consigo sair daqui, por mais que tente. Respiro-te entre a ternura e a destruição. Espero que o vento nos espalhe pelo enigma da vida. 


publicado por João Madureira às 07:45
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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2013

Passeando


publicado por João Madureira às 07:45
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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013

Pérolas e diamantes (22): enganos e desenganos


«Na verdade, quando considero qualquer sistema social do mundo moderno, não vejo neles, assim Deus me perdoe, senão uma conspiração dos ricos, para servirem o melhor possível os seus interesses, sob o pretexto de organizarem a sociedade. Procuram todos os tipos de habilidades e artimanhas, em primeiro lugar para manterem a salvo os seus lucros mal adquiridos e, em segundo lugar, para explorarem os pobres, pagando-lhes o menos possível pelo seu trabalho.»

 

Sabem quem escreveu isto? Não, não foi Karl Marx ou outro perigoso socialista do mesmo calibre. Foi Sir Tomás Morus (Thomas More) no seu livro “Utopia”, publicado, imaginem só, em 1516. O mundo, afinal, passados quase cinco séculos, continua o mesmo, um lugar pouco recomendável para gente boa, honesta e trabalhadora.

 

Desenganemo-nos! Os usurários e os ricos continuam idênticos e a utilizarem as mesmas receitas de sempre. E os seus lacaios também não enganam ninguém. Pedro Passos Coelho e os seus colegas de Governo continuam a ser os capatazes que fazem o trabalho sujo. 

 

O relatório terrorista do FMI afinal é um embuste. E dizemos que é um embuste porque, mesmo tendo a chancela dessa instituição capitalista, é, na prática, da autoria de 10 ministros e cinco secretários de Estado que colaboraram na sua elaboração.

 

Ou seja, o relatório é do Governo, sustentado, à falta de parceiro mais credível e menos agiota, pelo FMI. Por isso é que está eivado de orientações e preconceitos ideológicos contra o Estado, sobretudo contra o Estado Social, que o primeiro-ministro e o seu ministro das Finanças tanto detestam e pretendem destruir.

 

Mas a história já vem de longe e nem sequer é surpresa, pois todos estamos lembrados de Pedro Passos Coelho ter anunciado a famosa “refundação” do memorando, em Novembro, que mais não era do que a explicitação dos dados preliminares deste estudo, como agora se vê. E o mais curioso é que quando lemos o estudo do FMI, não encontramos nele nada que seja novo em relação à velha ideia de desmantelar o Estado Social ou condená-lo à morte.

 

Por detrás disto tudo está a velha tática de lançar o barro à parede para ver se pega. Apresenta-se o pior cenário possível para depois recuar um pouco para dar uma sensação de vitória à oposição. Ou seja, é uma estratégia de labregos para labregos. É a técnica dos vendedores de banha da cobra: começam por pedir um dinheirão pelos seus produtos para no final os deixarem por um preço razoável. Vivemos num tempo em que o valor das palavras se perdeu.

 

Paulo Portas veio, com a suas falinhas mansas de chefe dos escuteiros, dizer que “há sintomas de desalento e desânimo na sociedade portuguesa, que é preciso contrariar com sensibilidade”.

 

Ainda estava o homem a pronunciar estas palavras quando um senhor chamado Moedas, em direto na televisão, veio dizer, com um sorriso tolo estampado no rosto, que o relatório do FMI está “muito bem feito” e que teve o contributo do Governo. Foi o bastante para que os ânimos no PSD se incendiassem, tendo Carlos Carreiras, um autarca muito próximo do primeiro-ministro, pedido a demissão do tal senhor Moedas que, para mal dos nossos pecados, é secretário de Estado adjunto do PM.

 

Além disso, o famigerado relatório do Governo, com a chancela do FMI, é desonesto. Intencionalmente desonesto, o que é ainda mais grave. O ministro Mota Soares afirmou mesmo que parte de “pressupostos errados”. O reitor da Universidade de Lisboa, António Nóvoa, afirmou que os autores do documento utilizaram o que na universidade se ensina os alunos a não fazer: “Partir de um preconceito, de uma teoria, e depois mobilizar os números para a defender.”

 

Segundo o mesmo catedrático, os senhores que elaboraram o relatório do FMI “põem os dados que lhes interessam e quando isso não acontece não os citam e isso é inaceitável.” Mentiram sobre o valor das propinas, mentiram sobre a percentagem do produto interno bruto gasta na despesa com a educação, distorceram os níveis de literacia dos nossos jovens de 15 anos nos testes PISA, fizeram comparações ardilosas, outras incorretas e outras ainda completamente desfasadas da realidade atual. Mas não são apenas os dados da Educação que estão viciados e desatualizados, os da Saúde sofrem do mesmo mal.

 

No relatório tudo tem uma intenção: o de reduzir praticamente a zero a rede social do Estado. Pondo o povo português no dilema de morrer na forca ou atravessado pelo gume de uma espada. Ou, como disse Jerónimo de Sousa, tendo toda a liberdade para poder escolher a árvore onde vai ser enforcado.

 

Todo o documento está eivado de uma sanha ideológica contra os funcionários públicos, os desempregados, os reformados e os pensionistas. E convém também dizer a verdade toda: O Estado detém funções que exigem qualificações que o setor privado não pode fornecer, como são os casos dos militares, forças de segurança e magistrados.

 

No Estado laboram dos profissionais mais qualificados do país. Nos setores da Saúde e da Educação, abertos já à iniciativa privada, muitos dos profissionais que trabalham fora da Função Pública auferem ordenados muitas vezes semelhantes ou mesmo mais elevados do que os funcionários públicos. E todos sabemos que a escola pública e os hospitais públicos, salvo raras exceções, fornecem mais e melhores serviços do que os privados.

 

Mas o mais chocante disto tudo é que a proposta do Governo limita-se a apostar apenas numa via de sentido único: a do empobrecimento das pessoas e das famílias, a da falência da proteção social, reduzindo-a ao assistencialismo. Falta pouco para assistirmos ao regresso do jogo da canastra e do bodo aos pobres.

 

A divulgação do relatório do FMI serviu apenas uma estratégia: a do terrorismo social. Primeiro incute-se medo, muito medo, porque tudo é passível de acontecer: reduzir reformas, aumentar os despedimentos na função pública, diminuir o subsídio de desemprego, cortar ainda mais nos vencimentos, aumentar ainda mais as taxas moderadoras para níveis incomportáveis para a maioria dos portugueses e, para terminar, a bomba de neutrões, o despedimento de uma assentada de 50 mil professores. Depois tenta-se dourar a pílula, aliviando aqui e ali a carga. Mas pouco para não nos habituarmos mal.

 

Para não parecer desonesto de todo, o Governo de Pedro Passos Coelho veio com a ficção política de querer dialogar com os parceiros sociais e os partidos políticos da oposição, nomeadamente o Partido Socialista, que distingue como um “partido do arco da governação”. Afirma que pretende debater as funções do Estado e a sua reforma. Mas tudo isso é fogo de vista. O governo do PSD/CDS apenas deseja cortar a torto e a direito na despesa do Estado cerca de 4 mil milhões de euros, que foi o montante que negociou com a troika na sequência da quinta avaliação da derrapagem orçamental de 2012.

 

Mas uma pergunta se impõe: Porquê 4 mil milhões e não cinco ou seis mil milhões, ou outra quantia qualquer? Como chegou o Governo a este número sagrado? Este é um mistério insondável que nem Pedro Passos Coelho, nem Vítor Gaspar, nem o PSD nem o CDS, e muito menos o FMI, se deram ao trabalho de esclarecer.

 

Pedro Passos Coelho disse para quem o quis ouvir que o relatório do FMI não é a Bíblia do Governo. Talvez não seja a Bíblia, mas é bem possível que seja o seu Alcorão. Os fundamentalistas têm destas obstinações.


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Domingo, 27 de Janeiro de 2013

Mesa de São Sebastião


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Sábado, 26 de Janeiro de 2013

Na conversa


publicado por João Madureira às 07:45
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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2013

O Homem Sem Memória - 144


144 – Ao camarada Graça também lhe exigiram um relatório, não de crítica e autocrítica, como era habitual, mas antes analítico sobre o relatório do “seu” camarada José. E fizeram-lhe sentir as aspas.


O camarada Graça tentou ainda falar com o funcionário às boas para que lhe fosse retirado esse encargo, mas o funcionário disse-lhe que nada podia fazer já que as diretivas vinham lá do alto e que também ele tinha recebido ordens expressas para elaborar um relatório final sobre toda a situação, onde devia obrigatoriamente incluir os dados relevantes de todos os outros relatórios, inclusive dos textos das camaradas crianças, ou melhor, dos camaradas pioneiros, que, não sendo propriamente relatórios, para os devidos efeitos passavam a sê-lo, pois, como muito bem diz o povo, na sua infinita sabedoria, mais vale sê-lo que parecê-lo.


O camarada Graça tentou, logo desde o início, demarcar-se ardilosamente da situação. Pelo menos foi essa a estratégia gizada. Mas um texto nunca é aquilo que temos pensado, é sempre algo mais, e substancialmente distinto, do propósito inicial. Ei-lo, o documento, claro está, como o encontrámos no arquivo do Gulag Português.


«Vou tentar começar pelo princípio, por isso convém esclarecer que a Escola de Pioneiros foi uma imposição do Partido que visava prosseguir a diretiva de criação de escolas destinadas aos filhos dos camaradas militantes, e também de alguns camaradas simpatizantes, com o firme propósito de educar, desde a mais tenra idade, os filhos dos nossos camaradas nos princípios e nos valores do marxismo-leninismo, enfim, do comunismo.


Eu ainda tentei levar a diretiva à reunião da comissão concelhia mas o camarada funcionário proibiu-me determinantemente de pôr à discussão uma decisão do Comité Central, argumentando que não se levam decisões da mais alta instância do Partido a reuniões das concelhias, pois isso inverte, e subverte, toda a lógica do centralismo democrático. Reconheço que até é capaz de ter razão, mas a minha intenção era boa. Pelo menos era honesta.


Na dita reunião limitei-me a dar conta aos camaradas de que tinha ordens superiores para implantar em Névoa uma Escola de Pioneiros. Eles, depois de olharem para o camarada funcionário, nada disseram. Ou melhor, disseram que concordavam. E que achavam boa ideia, pois se os católicos ensinam aos seus filhos, na catequese, os estafados princípios da religião católica com o êxito que todos lhes reconhecemos, os comunistas devem também educar os seus descendentes na doutrina científica e libertadora do marxismo-leninismo.


O camarada funcionário replicou zangado que a Escola de Pioneiros não era como a catequese, pois nela não se ensinam mentiras, não se propagandeiam invenções, nem se ensinam orações. Na Escola de Pioneiros apenas se demonstra a verdade. E não se aprende a rezar, aprende-se a argumentar, que é coisa bem distinta. Todos concordaram com as diferenças evidentes e inimitáveis. Uma coisa é repetir palavras para se aprender a ser dócil e educado como um cordeiro, mesmo que seja de Deus, outra, bem distinta, é pensar e argumentar para dessa maneira transformar o mundo de modo revolucionário.


Então passou-se ao ponto seguinte: o de escolher o local onde iria funcionar a escola, quem devia ser o camarada que tomaria a seu cargo a direção e quais seriam os professores. O primeiro nome a surgir na cabeça dos camaradas foi, por incrível que pareça, o meu. Eu fiz ver aos camaradas que as tarefas da agitação e propaganda me ocupam todo o tempo disponível. Que ou uma coisa ou outra. Ou agitação e propaganda ou Escola de Pioneiros. E que isso iria implicar que outros camaradas fossem chamados a assumir algumas das tarefas, nomeadamente os camaradas professores que, na minha opinião, eram os mais indicados para esse efeito, pelos motivos óbvios. Muitos são os chamados e poucos são os eleitos! Mas eles informaram, desde logo, que não, porque tinham de dar aulas nas respetivas escolas, tinham o sindicato, tinham as diversas associações e tinham as reuniões do Partido. Que já não possuíam nem sequer tempo e disponibilidade para a vida em família. Eu disse que também não tinha tempo para outra coisa que não fosse o Partido, mas eles carregaram com o argumento de que eu não tinha mulher nem filhos. Tentei ainda propor o nome de outros camaradas mais responsáveis, mas todos argumentaram da mesma forma, que já davam tudo o que podiam ao Partido. Que mais era impossível. Um que outro, ainda sugeriu o nome do camarada funcionário. Mas desistiram logo da ideia depois de olharem para a expressão do seu rosto. Restava eu. Mas eu não podia. Não podia mesmo que quisesse. E, para falar verdade, eu não queria. Mas também não podia, como também já referi e repito. Foi então quando me lembrei do camarada José. Tinha andado no seminário, o que lhe dava um adianto em termos de retórica e instrução. Era um camarada organizado. Além disso, como no momento estava com a sua militância congelada por causa do seu papel de independente do movimento associativo estudantil, era uma forma de o enquadrar num trabalho sério e exigente. Isso podia limpar-lhe um pouco a ficha e retirar de lá, ou suspender, a designação de criticista.


De cara alegre e sorriso sincero, transmiti essa ideia aos camaradas. Eles opuseram-se. Ou melhor, não se opuseram logo, começaram com rodeios e meias palavras. Que o camarada José era criticista, que tinha a mania, que era filho de um guarda-republicano e que, ainda por cima, tinha andado no seminário até dele ser expulso. Para palavras loucas orelhas moucas, por isso deixei passar em branco os primeiros três argumentos para me fixar no último. Fiz-lhes ver que o ter andado no seminário e dele ter sido expulso era um argumento a seu favor. Desde logo porque não se tinha dado bem com o ambiente autoritário, porque tinha contestado o ideário católico como desfasado da realidade e que tinha combatido os padres e a sua mensagem de submissão e resignação perante os ricos e poderosos. Eles continuaram a arengar que não tinha perfil, que era criticista, que era indisciplinado, que tinha, durante algum tempo, convivido com o lúmpen e até se tinha tornado o seu chefe guerrilheiro. Que frequentou ambientes degenerados, que mais isto e mais aquilo. Então calei-me. Não valia a pena continuar a chover no molhado. Foi então quando o camarada funcionário disse que apenas restavam duas soluções: ou alguns dos camaradas ali presentes aceitavam a tarefa de dirigir e dar aulas na escola ou então apenas restava a hipótese chamada José, mesmo reconhecendo que os camaradas da comissão concelhia tinham toda a razão nas suas críticas. Mas lembrou também que o Partido é uma casa onde cabem todos os comunistas, com defeitos, ou sem eles. A todos educa por igual, pois é bom não esquecer, já que estávamos a falar em escolas, que o Partido é a melhor escola de todas as escolas que existem no país. Nisso foi apoiado por todos os camaradas presentes. Também se disponibilizou a fazer um controlo mais apertado da atividade do camarada José, tentando refrear-lhe o ímpeto criticista. Confesso que não sei como, mas o camarada lá saberá, pois para isso é que é funcionário.


No entanto, os camaradas professores apenas se disponibilizaram a apoiar a indigitação do camarada José como diretor da Escola se ele ficasse também com a tarefa de ministrar as aulas. A proposta foi aceite por unanimidade, mas sem aclamação, o que não é coisa de somenos. Nestas, como noutras coisas, é bom ler os sinais.


Mas uma coisa muito importante faltava, a anuência do camarada José que até à data não tinha sido tido nem achado no processo e, sobretudo, na decisão. Eu lembrei aos camaradas a conjuntura. Eles limitaram-se a dizer que para o camarada José só podia ser uma honra tão subida distinção. Honra que não merecia e que por isso apenas lhe restava aceitar o cargo com um sorriso nos lábios.


Já que era assim que viam as coisas, sugeri que fossem eles os camaradas designados para lhe darem tão boa nova. Eles declinaram o convite com o argumento de que eu é que era o seu controleiro e, o que ainda era pior, seu amigo íntimo. Eu neguei, mesmo sem querer. Neguei que fosse seu amigo íntimo, e três vezes, mesmo sem galo algum por perto, argumentando que intimidade só a tinha com a minha namorada. Eles riram-se. Eu não consegui.


Resumindo e concluindo: Rejeito perentoriamente a insinuação de que fui eu o responsável pela nomeação do camarada José. A decisão foi do coletivo. Não minha. O engano da sua escolha, como já ouvi dizer, não foi de minha autoria. Foi do coletivo. Porque isto das responsabilidades do coletivo não existem apenas para quando as coisas saem bem. Também devem ser assumidas quando elas correm mal.


Pelo que sei, a atuação do camarada José, enquanto dirigente e professor da Escola de Pioneiros, foi exemplar. Mesmo contra a sua vontade em aceitar o cargo, desempenhou com rigor e disciplina comunista todas as tarefas de que foi incumbido. Empenhou-se desde o primeiro dia em que a escola fosse para todos, sem distinções. Tratou a totalidade dos camaradas pioneiros por igual.


Os problemas começaram a surgir quando os pais perguntaram aos filhos como ia a escola e dois filhos responderam aos pais que não ia nada bem. Pelo menos foi essa a resposta dos camaradas pioneiros Luís e João relativamente à postura e ao comportamento do camarada pioneiro Miguel, filho do camarada operário da construção civil, Manuel Augusto.


Mas os acontecimentos que despoletaram a controvérsia não se deram dentro da sala de aula, aconteceram no recreio, ou mesmo fora da escola. A tentativa de enforcamento deu-se num monte perto do bairro onde vivem e as cenas de pancadaria tiveram lugar à saída da escola normal, não na dos Pioneiros.


A rivalidade que existe já vem dos pais e dos tempos em que eles andavam na escola e o pai do Miguel lhes fazia o mesmo que o seu filho faz agora aos seus descendentes.


Ou seja: a contenda entre os camaradas pioneiros é o prolongamento da luta de classes que existiu entre os pais no tempo em que todos andavam na escola.


A culparem alguém pelo sucedido culpem os adultos e não as crianças que apenas fazem o que veem fazer e apenas dizem o que ouvem dizer.


Gostem ou não, o meu relatório acaba aqui, pois a mais não sou obrigado, pelo menos na minha consciência de comunista.»


publicado por João Madureira às 07:45
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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013

Ver passar os carros


publicado por João Madureira às 07:45
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Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

O Poema Infinito (130): o centro do silêncio

 

Estou no centro do silêncio, aí onde nascem as frases e começa o pensamento. Já tenho idade para isso. Olho essa nova realidade de várias formas, comparando-a com os mapas de viagens assustadoras que trago inscritos na palma das mãos. O medo aproxima-se com delicadeza. O medo tem esse talento fabuloso da zoologia. Presto atenção à luz. Todos somos suas vítimas. A luz desce criando coisas extraordinariamente simples. Tenho-te dentro da cabeça, perto dos nomes de todas as coisas. E olho com rapidez para o teu vagar. Os teus olhos são uma paisagem escrita de sinais permanentes onde tudo começa e acaba. Amanho o poema como as estações trabalham as paisagens. Tudo se precipita. Possuo uma inclinação pelo sentido enigmático das coisas, pela misteriosa verdade de acontecermos, pela vertigem das armadilhas, pelos rostos oblíquos dos amantes, pelo equilíbrio das trevas, pela luz imóvel da energia, pelo rosto teatral de Deus, pela eternidade da abdicação. Todas as formas de vida morrem dentro da sua mutação. Plantas brancas enchem o tempo de indícios. Daí nascem as metáforas da paixão e os símbolos do amor e as frases que abdicam dos seus sistemas de imagens. Por isso as portas se abrem ao estio e deixam entrar na casa eterna os enredos do outono, as lentas estrelas da noite que alguém deposita na arca da roupa onde o brilho da saudade se dobra em pranto. Respiro a energia do vento. A água palpita-me na boca. Tento apanhar a memória. O tempo deposita todo o seu queixume no meu corpo dorido, revolvido pelo medo e pela angústia. O ar arqueia-se. As mãos gravitam em volta das palavras. E as palavras agarram-se-me às mãos e aos pés iluminando-me o corpo. A casa pega fogo. Dentro dela o medo verga-se à lenta inquietação das labaredas. O sonho é um veneno branco que estrangula o sono. Sinto agora a afetuosidade que alimenta a magnificência da alucinação. A casa recua. Lá fora a lua brilha nas clareiras. Por cima das florestas passam os cometas como cavalos loucos. As folhas das árvores ressumam de luz. O sexo brilha agora sobre as mãos, como um fruto maduro. A insónia agrava-se. Visões de demência tornam o tempo nu. A claridade rápida enche de violência radial a manhã. A casa treme. A insónia oscila. O sexo vibra. As mãos ondulam. Sou de novo uma criança perpétua. Um astro dentro de um recinto onde balançam os sorrisos. Amo-te em braçadas de luz. Tens a energia descendente dos desfiladeiros. Por isso sofro dentro da tua vertigem. A infância desaparece filtrada pelas vidraças da janela. Os corpos fecham-se. A noite descentra-se. Fico dentro da tua memória. O amor arde devagar. A casa levanta-se transformando-se num grito de paixão. A tua voz procura-me. E nela as palavras voltam a florir. Cercamos os pensamentos com os nossos corpos iluminados. O teu sorrido tem a imensidão da terra. Dizes: Todas as coisas boas nascem em campos fecundos. E ainda: O espírito das árvores cresce para alumiar a razão. A minha voz confunde-se com a tua. Possuem a mesma brancura fria. Começa outro tempo. O tempo do espanto que diz que a poesia se constrói contra o desejo da carne e contra o passar do tempo, porque os quer possuir. Eis chegada a idade de ignorar os mistérios. 


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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2013

Autorretrato


publicado por João Madureira às 07:45
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

Pérolas e diamantes (21): depois do nevoeiro, o sol


Olho lá para fora, na direção do Brunheiro, e apenas avisto um telhado e uma antena parabólica. Tudo o resto é nevoeiro. Um nevoeiro denso e frio como apenas se sente em Chaves. O sol não se viu durante todo o dia. Na rua está um frio de rachar. É inverno. É janeiro. É natural. É a vida, como gosta de dizer o meu filho João Vasco.  

 

Pego no livro de Mo Yan, “Peito Grande, Ancas Largas” e fixo-me na primeira página onde apenas está escrita uma dedicatória: “Ao espírito da minha mãe”. Duas lágrimas pequeninas, mas muito densas, fazem-se-me nos olhos. É do frio. Quem já não tem mãe tem por vezes muito frio. E então se for de inverno tem frio a dobrar. É a vida, como gosta de dizer o meu filho João Vasco.

 

Olho de novo lá para fora e a fotografia é a mesma: nevoeiro, frio e Brunheiro nem vê-lo. Concentro-me na leitura: “O teu pai falhou porque foi demasiado brando, demasiado bondoso.” De novo outras duas lágrimas tão pequenas e densas como as primeiras ou ainda mais fazem-se-me nos olhos. É do frio. Tem de ser. Eu não sou propriamente um sentimental. Claro que é do frio. Quem já não tem pai vai para umas décadas, sente frio. Muito frio. Sobretudo no inverno. É janeiro. É inverno. É natural. É a vida, como gosta de dizer o meu filho João Vasco.

 

Volto à leitura: “Por isso, não te esqueças: se quiseres ser um homem mau, tens de matar sem piedade; e, se quiseres ser um homem bom, terás de andar sempre de cabeça baixa para não pisar as formigas. O que jamais deverás ser é um morcego, que nem é ave nem é rato. Não te esqueces disto?”

 

“Se quiseres ser um homem bom, terás de andar sempre de cabeça baixa para não pisar as formigas”. Mais duas pequenas e densas lágrimas se fazem nos meus luzeiros que hoje se molham com uma inusitada frequência. “Estás mas é a ficar velho e sentimental”, penso cá com os meus botões. Mas também é do frio. Sim. É do frio. Lá fora está um frio de rachar. É inverno. É janeiro. É natural. É a vida, como gosta de dizer o meu filho João Vasco.

 

Dou-me conta que dentro de casa a temperatura está agradável. Então é sugestão. O nevoeiro. O frio. O sol que não aparece. O Brunheiro que se mantém embuçado. Enfim, a melancolia de um fim de tarde. Sim. É isso.

 

Recordo-me agora que o meu pai andava sempre de cabeça baixa, olhando sempre para o chão, eternamente envolto numa ténue nuvem de fumo que o cigarro lhe conferia. Foi com ele que aprendi a não pisar as formigas.

 

Mais duas pequenas e densas lágrimas se formam nos meus olhos. Levanto-me e vou beber um copo de sumo de laranja. Mau Maria, os indícios fazem-me pensar na política. Sento-me de novo. Era o que mais faltava. Juntar mais frio ao frio, juntar mais nevoeiro ao nevoeiro. E com o inverno que grassa por esse país fora, o melhor é desistir. E já.

 

Só que ninguém lê em vão. “O que jamais deverás ser é um morcego, que nem é ave nem é rato. Não te esqueces disto?” Sim, Mo Yan. Sim, pai. Não me esqueço. Eu também olho sempre para o chão para não pisar as formigas. E não quero ser morcego. Mas olhem que eles abundam no nosso país.

 

Com o copo meado de sumo, olho para um recorte de jornal onde Mota Amaral critica Passos Coelho, chamando a sua atenção para o “alastramento de uma verdadeira catástrofe” em Portugal, onde, a cada dia que passa, a indignação dos cidadãos cresce, porque “não veem nem finalidade nem fim para os cortes de benefícios”. “A situação geral do País em vez de melhorar, como o Governo promete (…), tem vindo a degradar-se e basta ter os olhos abertos para comprovar o alastramento de uma verdadeira catástrofe”.

 

Olho bem para o artigo para confirmar. É mesmo de Mota Amaral, deputado do PSD e ex- Presidente da Assembleia da República. Desta vez as lágrimas não nascem nos meus olhos. Mas uma indignação fria como o dia tomou conta de mim. E tremo. E desta vez não é de frio.

 

E a indignação ainda cresce mais quando leio no jornal que a maioria dos 164 contratados pelo Executivo de Pedro Passos Coelho, todos eles entre os 24 e os 29 anos, ganha o dobro de um técnico superior da função pública. 

 

Enquanto escrevinho este arrazoado que não sei bem onde me vai levar, lembro-me de uma reportagem que vi na televisão dando conta da manifesta incapacidade dos surdos-mudos poderem aceder aos pedidos de emergência através do 112. Agora que me veio à memória, reconheço que a comparação é pertinente. Por vezes, relativamente àquilo que escrevo, também me sinto surdo-mudo gritando desesperado ao telefone por ajuda.

 

Lembro-me de um grande amigo que uma vez me disse, entre a ironia e a confissão, que foi precisamente por se ter encontrado tantas vezes com o fracasso, que não existia ninguém mais hábil do que ele em escondê-lo e a suportá-lo com resignação. “Por isso”, dizia ele sorrindo amargamente, “é que cumprimento ainda com mais efusão os idiotas e lanço sobre os meus amigos um olhar afetuoso”.

 

Lá fora o nevoeiro ainda se tornou mais denso. O frio aumentou. O Brunheiro desapareceu definitivamente. Até a antena parabólica se esfumou. Apenas uma pequena parte do telhado da casa continua visível. É inverno. É janeiro. É natural. É a vida, como gosta de dizer o meu filho João Vasco.

 

Penso na cidade. Como não a vejo, imersa que está no nevoeiro, recordo-me do Jardim das Freiras ou do Largo do Arrabalde. Fecho os olhos e sorrio por momentos. Depois mais duas lágrimas surgem nos meus olhos.

 

A minha cidade, a nossa cidade, essa cidade que todos aprendemos a amar, por obra e graça de uns morcegos, foi demolida à nossa frente, ali mesmo debaixo dos nossos olhos, debaixo da nossa indiferença, debaixo das promessas falsas, debaixo de uma ideia parola de novo riquismo, debaixo de uma ilusória promessa de desenvolvimento. E tudo ruiu.

 

A fantasia chegou ao fim. A obra dos morcegos aí está. Quem tiver a coragem dos néscios que os acompanhe. Esse é o caminho do insucesso, a senda do imobilismo, o domínio dos indiferentes, daqueles que não têm memória, que não têm apego às suas raízes, que não honram nem a palavra, nem a verdade e muito menos a nobreza da alma flaviense. Dez anos de fogo-fátuo, de imobilismo e de hipocrisia já bastam.

 

Apesar das promessas, o poder autárquico atual nem modernizou a cidade nem a devolveu aos cidadãos. Limitou-se a descaraterizá-la.

 

Basta de nevoeiro. Amanhã é bem possível que o sol espreite logo de manhãzinha. Esta noite vou sonhar com o Jardim das Freiras. Talvez para o ano que vem, o Pai Natal mo traga no sapatinho.

 

É verdade que nunca nos banhamos duas vezes na mesma água do rio. Mas também é bom que se diga que nunca vemos duas vezes com o mesmo olhar.

 

É hora de recuperarmos a nossa identidade. 


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Domingo, 20 de Janeiro de 2013

Transmontanos

Transmontanos


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Sábado, 19 de Janeiro de 2013

No túnel


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Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013

O Homem Sem Memória - 143


143 – A escola de pioneiros acabou no dia seguinte. E, por incrível que possa parecer, não por vontade do José, mas sim pela perentória decisão e a ideológica audácia dos órgãos dirigentes do Partido, que tudo sabem e tudo veem.  


Quando o Graça lhe deu a notícia, o José, por incrível que possa parecer, ficou branco como a cal. Mais uma vez desiludiu, mais uma vez saiu desiludido. Se tal situação tivesse acontecido há umas semanas atrás, até tinha ficado contente. Mas agora que lhe começava a apanhar o jeito, a extinção da escola foi um rude golpe. Mas o Partido quando decide está decidido e não se fala mais nisso. Para a frente é que é o caminho.


O camarada Graça não lhe deu apenas essa má notícia, contou-lhe que o camarada funcionário tinha sido incumbido por outros camaradas da direção regional do Norte, que também tinham sido informados por camaradas do Comité Central, de que o camarada professor José tinha de redigir um relatório de crítica e autocrítica sobre o seu desempenho enquanto responsável máximo pela Escola de Pioneiros Comunistas de Névoa.


E ele, muito a contragosto, acatou a imposição.


Aqui disponibilizamos o relatório, na sua versão integral, depois de ter sido por nós recuperado logo após a sua desclassificação a cargo da Comissão de Defesa da Memória dos Prisioneiros do Gulag Português.


«O camarada Graça disse-me que o Comité Central fez questão em que eu, enquanto máximo responsável pela Escola de Pioneiros Comunistas de Névoa, elaborasse um relatório de crítica e autocrítica sobre o meu desempenho enquanto diretor e docente exclusivo. Já agora podia acrescentar, para que toda a verdade seja dita, também enquanto contínuo e até empregado de limpeza. Pois na escola fiz de homem dos sete instrumentos. E talvez por minha culpa, minha tão grande culpa. Pequei. Eu pecador me confesso pois pequei muitas vezes por pensamentos, palavras, atos e omissões, por minha culpa, minha tão grande culpa… Mas deixemo-nos de ironias e avancemos.


Como devem saber (continuo irónico porque sei que o Partido, qual mãe obsessiva e controladora, tudo sabe e tudo vê), eu estudei durante algum tempo no seminário. Lá também era usual a confissão, mas não exigiam que ela fosse feita por escrito. Talvez porque sabem que um documento escrito deixa sempre uma espécie de impressão digital, revela sempre uma personalidade e serve eternamente como prova de alguma coisa, quer seja para o bem, quer seja para o mal, ou mesmo para a desgraça. Uma confissão escrita é um ato de violência sobre a individualidade e o pensamento de alguém, sobretudo se agiu de boa-fé. É a modos como um atestado de desconfiança. É uma incriminação antecipada.


A confissão oral é como uma expiação, uma forma de deitarmos cá para fora algo que nos consome ou atormenta e, assim libertos do pecado, podermos continuar a viver sem que o remorso, ou a má consciência, nos impeça de coabitar com aquilo que temos e com aquilo que somos, no meio daqueles que amamos, ou não, mas que temos o dever de respeitar.


Quando alguém tem de escrever sobre o seu desempenho, logo após a extinção de algo que dirigiu, é invariavelmente um sinal de crítica. Só quem erra e perde é que é chamado a escrever sobre o erro e sobre a derrota. A quem acerta e triunfa escrevem-lhe os discursos, os relatórios e os louvores.


Serve este introito para realçar que escrevo este relatório sobre reserva moral e mesmo ideológica. Eu fiz tudo o que me pediram, segui todos os preceitos, aceitei todas as sugestões e adotei as orientações do Partido à risca. Apenas introduzi uma novidade, a escrita de textos livres, que até não eram muito livres, mas reconheço agora que para lá caminhavam.


Na escola tudo se discutia. Tudo se discutiu. Sem preconceitos, nem tibiezas. A Escola de Pioneiros Comunistas de Névoa foi sempre um exemplo de liberdade. Mais do que falar de liberdade, ou na liberdade, na escola praticávamo-la. Sem preconceitos. Se calhar houve alguém que não gostou. Paciência. Cristo, apesar de ser quem era, também não agradou a todos. Bem assim como Marx, Lenine, etc. E nesse extenso etc. incluo o camarada Alberto Punhal. Mas cada um é para o que nasce. E eu não nasci para pensar como Piatakov, camarada de Lenine, que disse esta frase extraordinária: “Um verdadeiro bolchevique, se o Partido o exigir, está disposto a acreditar que o preto é branco e o branco é preto”. Eu, por incrível que isso possa parecer, não sou desses. Não fui bafejado por tão colossal sentido de obediência. Pois, a ser assim, o socialismo real não é uma luta contra os abusos característicos do capitalismo, mas sobretudo contra a própria realidade. E eu por aí não vou. Nisso sou como o José Régio: “Não, não vou por aí! Só vou por onde / Me levam meus próprios passos...”


Ninguém me disse uma palavra sobre o motivo do encerramento da escola. Apenas o camarada Graça me informou que foi fechada por ordem expressa do Comité Central. Que também a ele não explicaram as razões, mas que sabia que não foi por razões económicas, pois a escola até dava lucro ao Partido por causa dos donativos que recebia de diversos camaradas e ainda pelo dinheiro obtido na venda de diverso material feito pelos camaradas pioneiros, pelos seus familiares e amigos. 


Como não sei porque a encerraram, tento adivinhar. Estou em crer que o fizeram por causa dos pais. Basta olhar para os filhos para ver a personalidade dos pais, pois os filhos são o seu reflexo. E pelo que ia observando, apesar de comunistas, os pais dos camaradas pioneiros davam-se mal. Competiam muito entre si. O que nunca cheguei a entender muito bem foi a razão. Quem decide ser militante comunista não está à espera de facilidades, nem de prebendas, nem de estatuto social. Então por que razão é que competem tanto? Será para cair nas boas graças dos camaradas dirigentes? Ó triste móbil! Mas a cada um a sua luta.


Se os pais forem tão competitivos como os filhos, o problema não reside na vontade de fazer triunfar a revolução, a grande dificuldade coloca-se quando estiverem no poder. Até lá comportam-se como uma matilha de lobos que se junta para conseguir encurralar e matar a presa. O problema vai ser quando tiverem de dividir o cordeiro.


Apesar do discurso abrangente da defesa do proletariado, a maioria dos militantes convive mal com as classes sociais mais baixas. Dizem que as apreciam, que as defendem, mas vê-se logo que é apenas discurso, não é convicção. Uma coisa é recitar as palavras da cartilha comunista, outra, bem diferente, é acreditar naquilo que se diz da boca para fora.


Fazendo uma caricatura, posso escrever, já que estou em maré de confissão, perdão, de crítica e autocrítica, que os camaradas burgueses pretendem chegar a dirigentes de topo, que os pequeno-burgueses pretendem ocupar o lugar dos burgueses, que os operários aspiram a chegar a pequeno-burgueses, que os camponeses querem passar a ser operários qualificados e que ao lúmpen tanto se lhe dá como se lhe deu, quer é emborrachar-se e viver a vida dia a dia sem preocupações de emprego, família e educação. A sua máxima aspiração é viver entre um copo de tinto e um cigarro e entre um cigarro e outro copo, que até pode ser de branco, mas se for de tinto muito melhor.


Depois de ler os textos dos camaradas pioneiros que sugeri que escrevessem deu para perceber que todos querem ser Albertos Punhais. Todos ambicionam mandar, dirigir, ter importância, aparecer nas capas dos jornais, nas televisões, etc. Ora isso só pode ser influência dos pais. Bonitos comunistas eles me saíram. Em vez de ensinarem aos filhos os princípios da humildade, e da humanidade comunista, da partilha, da luta por um ideal, adestram-nos na competição, na conjura, na conspiração, na inveja, na ascensão social a todo o custo.


Não duvido que esses camaradas ensinam aos seus filhos os sagrados princípios da igualdade. Mas, sei que também lhes dizem que todos somos iguais, que os comunistas são iguais ao seu povo, que os comunistas são os melhores filhos do nosso povo, mas que há comunistas que são mais iguais do que outros. E eles sabem muito bem que tipo de igualdade é essa.


Agora que aqui cheguei, até me apetecia escrever mais algumas quantas verdades, mas vou terminar dizendo que se andam atrás de um bode expiatório para justificarem o mal-estar que se vive na concelhia de Névoa, enganaram-se no animal, pois a dissidência está entranhada dentro da organização, na fraca preparação ideológica dos militantes, na tibieza das suas convicções, na pequena inveja e na mediocridade. E até um pouco na ideologia, que é muito intrincada para gente de vistas tão curtas. Quem não lê não sabe, quem não estuda não aprende, quem torto nasce tarde ou nunca se endireita. E o Partido não pode cair na armadilha de ser um antro de pseudointelectuais invejosos, de operários rancorosos e complexados, de agricultores bêbados e preguiçosos e de estudantes cábulas e arruaceiros.


Peço desculpa a quem incumbiu o camarada Graça deste infeliz assunto, mas sempre lhe digo que este é o caminho da suspeição. E a suspeição é meio caminho andado para a desgraça. Coitado do camarada, ainda não deu conta que é atras dele que andam.


Aos conspiradores que lhes faça bom proveito.»


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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2013

Lanche


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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

O Poema Infinito (129): a árvore das palavras


As árvores desejam as palavras para florescerem. As palavras amam as árvores com as suas sombras brancas de desejo. A partir dos limites a ânsia é uma ordem. Por cima das árvores as nuvens assombram os muros. Toda a nudez ilumina as constelações. Vamos iniciar a aprendizagem do desassossego, em silêncio, sentindo por cima de nós a evidência enigmática das cores futuras. Os insetos murmuram sobre as folhas ínfimas. As linhas espaciais segredam refúgios. Abrigamo-nos na terra. Na cintilação da matéria. Frutos azuis abrem-se ao vermelho. As palavras transformam-se em pólen e tornam-se incomunicáveis. Olho-te com a perseverança da espera, num gesto inaugural, onde a solidão é um abismo de estrelas e de luas vazias, onde a luz está submersa numa caligrafia de presságios. Tudo desaparece por momentos. A árvore assimila as borboletas. Músicos bailam por dentro do calor das suas melodias. Dançam dentro dos fragmentos dos violoncelos, no redemoinho dos trompetes, na clausura dos pianos. Os gnomos tomam de assalto os telhados das casas onde dormem os pássaros recolhidos nos seus abismos. O orvalho atravessa o vórtice. As copas das árvores flutuam e dialogam num tranquilo tremor de folhas verdes. As metáforas respiram a consistência dos textos. O desejo é agora uma diagonal silenciosa. Os gnomos agitam-se disfarçados de símbolos fálicos e submergem as suas cabeças em fendas lânguidas. Os signos riem-se em pausas de harmonia. Os músicos sorriem incendiando de música os seus instrumentos. E respiram as sombras das notas musicais. Os pássaros voam dentro de espirais de azul. As nuvens passam velozes pelo céu. A terra sente de novo a ternura da água. Os corpos dos gnomos deslizam lentos e breves como cerejas. Nos jardins minúsculos levantam-se as cores na sua delicada brevidade. Todos os conceitos respiram as palavras que se alimentam da pigmentação das pétalas. O tempo acaricia o musgo e perpetua o crepúsculo. As perguntas tornam-se ausentes. O vento dá ritmo às nossas mãos. A música jorra através das flautas. A terra transforma-se num labirinto voluptuoso. As árvores tornam-se enigmáticas. Os seus frutos são agora estrelas. A orquestra toca um prelúdio de amor e morte. A música faz carícias às palavras e os músicos metamorfoseiam-se em relâmpagos de matéria. As cores puras dormem na espuma do silêncio. É no silêncio que eu escrevo o deslumbramento da luz e a sua afirmação. As paisagens tornam-se claras. Na linha do horizonte constroem-se os corpos. E caminham. E esperam. E navegam. Todo o movimento é livre. O campo é extenso. Olho a tua ausência e beijo as sílabas da tua boca. As folhas secas rodopiam junto às árvores. O tempo fica ausente. Entretanto acumulo sombras. E escrevo palavras dentro de outras palavras. Por isso reverdecem e atravessam as páginas e incendeiam as imagens e afundam-se nas bocas dos anjos. A surpresa transformou-se num desejo imprevisível. O desejo é o limite. O desejo é um grito. O desejo é o vazio que vibra. Adormeço cansado do excesso de transparência e de leveza. As palavras cobrem-me os olhos. Palavras nuas que vaticinam a vocação animal. 


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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

Vidago


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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

Pérolas e diamantes (20): A Coragem e a Esperança


Há na nossa terra muita gente que deplora algum do desperdício da nossa maneira de estar, que se situa entre a sobranceria e o humor. Eu aprecio-a. Aprendia ao longo da vida no seio familiar e nos livros que fui lendo. Por isso me delicio com as observações finas, com o sentido de humor e as frases memoráveis que cada vez mais vão caindo no esquecimento desta sociedade que alguns apelidam do conhecimento.

 

Mas nisto de definições, como noutras coisas da vida, cada um deve ficar com as que mais lhe aprouver, que eu também cá vou andando com as minhas às costas. E até hoje tenho aguentado razoavelmente a carga. A carga e a descarga, diga-se em abono da verdade.

 

Atualmente já ninguém, ao que parece, se preocupa o suficiente com o facto de que tantas palavras tolas andem a sobrar. Mas é bom que elas cheguem, e, por vezes, até sobrem, para o que der e vier.

 

Ao que parece, não fomos nós que inventámos o provérbio de que para palavras loucas orelhas moucas, ou algo pelo estilo.

 

Nós não temos dúvida absolutamente nenhuma de que sabemos sempre, e em todo o lado, toda a verdade acerca dos outros. Outra coisa é sabermos a verdade acerca de nós próprios. Ou sequer admiti-la.

 

Nós, todos nós, pessoas honestas, respeitáveis e distantes de quase tudo o que cheire a realidade, estamos sempre predispostas para acreditar que aquilo que vemos nos outros não passa de manobras de intriga e maquinações.

 

Claro, estimado leitor, que não me refiro apenas a si, mas a toda a cidade. Nós temos um entendimento mais cético e positivo das coisas e até de como os factos se desenrolam neste nosso pequeno burgo.

 

No fundo, a nossa terra é um ninho, ou de néscios, ou de lacraus. Por isso temos de dar cotoveladas uns nos outros, de fechar os olhos, de baixar a cabeça, de, como diz o povo na sua ironia prática, casar a monja com o monge, em caso de necessidade, para que o mundo continue a rodar.

 

E desta forma se vai desgastando a maior parte da nossa prestigiada inteligência, a passiva pelas cadeiras dos cafés e a ativa pelas cadeiras do poder. E então toca de os que têm poder descascar na oposição e vice-versa, numa modinha que nunca dá bons frutos nem consegue criar nada de bom.

 

No fundo, vamo-nos encarniçando com as falhas recíprocas, especialmente com as dos que nos estão mais próximos, não nos dando conta que quando os desacreditamos também nos desacreditamos a nós.

 

É bom que nos consciencializemos que quando estamos permanentemente a lançar aos tubarões as pessoas que nos podem ajudar, acabamos também por lançar borda fora as suas ideias e os nossos ideais.

 

Fui criado num tempo em que existia o preconceito de falar. Ou dito de forma mais clara, subsistia o prejuízo de falar verdade. Agora vejo que se instalou entre nós o preconceito de escrever. Pelo menos de escrever assinando por baixo com o nome verdadeiro.

 

Basta dar uma olhadela nas redes sociais para nos darmos conta da ignomínia que por lá grassa. Há mesmo gente importante da nossa praça que se disfarça debaixo do ridículo manto de quatro ou cinco identidades diferentes para publicar notícias onde é o artista principal, distribuindo prebendas, sorrisos e abraços. Mas, nestas como noutras coisas, as atitudes ficam com quem as toma. E a verdade virá ao de cima como o azeite.

 

Todos sabemos que muito pouco daquilo que existe dentro de nós é passível de ser escrito de forma a que possa ser corretamente transmitido aos outros. E, o que ainda é mais frustrante, apenas uma porção menor dessa mensagem chega ao seu destino.

 

Mas continuamos a falar, ou a escrever, convictos de que a luz da razão irá iluminar as nossas almas tão sequiosas de verdade, transparência e esperança. Dizem, e todos queremos acreditar, que a esperança é a última a morrer. E se morrer que morra de pé como as árvores.

 

A não ser assim, o que será da nossa vida! Então se cada um começar a meter a viola no saco, o que é que nos fica? O que é que nos resta?

 

Não podemos trocar as palavras nem a razão, mesmo que isso seja difícil. Todos sabemos que é nos momentos de grande fracasso – como são disso exemplo cabal a gestão autárquica concelhia e a gestão governamental nacional – que somos acometidos pela tentação de desistirmos, de esquecermos, mal tenhamos ocasião.

 

Mas não podemos desistir. Devemos deixar correr com fluência toda a sinceridade, alguma dela mesmo inútil, que carregamos dentro das nossas almas, mesmo que o outro se mostre de início indisponível para receber uma pobre palavra que seja, vamos aguentar com resignação e alguma perseverança, e deixar que as leis ocultas da sobrevivência da razão tragam novamente a predestinada aproximação humana.

 

Vamos desta vez, apesar das disputas e das discórdias, mostrar que somos capazes de nos unir em favor da nossa terra e das nossas gentes.

 

Deixo-vos, a terminar, dois premonitórios versos de Joaquim Pessoa:  E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.


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Domingo, 13 de Janeiro de 2013

Movimentos


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Sábado, 12 de Janeiro de 2013

Fumar ao Sol


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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2013

O Homem Sem Memória - 142


142 - O texto do, ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel rezava assim (versão ortograficamente muito corrigida pelo camarada professor): Eu quando for grande quero continuar a lutar contra o camarada pioneiro João e contra o camarada pioneiro Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, e ter do meu lado a camarada pioneira Lídia. Nada mais me interessa. Ou quase. Eu sei que nasci para lutar e vencer e também sei que eles os dois nasceram para lutar e perder. Mesmo com ajuda, como é o caso da atitude do camarada professor que sempre os escolhe para dirigir seja o que for nesta escola. O camarada professor, desculpe que lho diga, tem-lhes é medo. Não é bem medo deles mas sim dos seus pais. Eu até o compreendo, camarada professor, mas deixe que lhe diga que não aprecio a sua atitude. O camarada professor José pode até ter medo deles. Isso é lá consigo. Cada um tem os medos que merece e sabe as linhas com que se cose. Mas eu não tenho medo, nem deles, nem dos pais deles, nem dos avós deles, nem dos tios deles, nem dos primos deles. Eles são uns perdedores. E desde já lhe digo uma coisa, o socialismo nunca triunfará em Portugal se aqueles dois estiverem do lado da revolução. Porque eles, volto a repetir, são uns perdedores. E também porque eu não gosto deles. Se eles estiverem do lado da revolução eu estarei do lado da reação e eles perderão e a revolução perderá e o camarada professor José também perderá se estiver do seu lado. Fuja deles, camarada professor, pois ao seu lado só lhe resta a derrota, a vergonha e o fuzilamento. Para lhe ser simpático, até porque o camarada professor José é simpático para comigo, pelo menos quando os camaradas pioneiros João e Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, não estão por perto, eu até gostava de estar do lado das tropas revolucionárias, mas isso apenas no caso dos camaradas pioneiros Luís e João – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, estarem do lado oposto. Mas como sei que isso é praticamente impossível, só vislumbro uma saída: o triunfo da reação e a derrota do Partido Comunista. Não há outra saída, pois eles são uns perdedores. Comigo perdem sempre. E em tudo. Até no jogo de ver quem mija mais alto ou mais distante. Eu apenas me rio e olho para eles. Eles limitam-se a ir para longe de mim chorar. Eles choram muito. E quase sempre de raiva. A mim têm-me uma raiva de morte. Eles tentam todos os jogos para ver se me vencem. Além de tentarem a artimanha de cá na escola me porem do lado da reação para o camarada professor me obrigar a perder. Eles utilizam as mais variadas estratégias para me iludirem, pensando que, por eu ser filho de um trolha, me enganam. Mas são eles que se enganam. Porque o meu pai pode ser trolha, mas eu não sou. O meu pai pode ser burro, mas eu não sou. O meu pai pode ser bêbado, mas eu não sou. O meu pai pode ser comunista mas eu não… O meu pai pode bater na minha mãe e tratá-la mal, mas eu não bato nem trato mal a Lídia. O meu pai pode ser vencido nas discussões políticas e partidárias, mas eu nunca perco uma discussão, seja ela política, futebolística ou lá o que for. Quando me faltam os argumentos, olho bem nos olhos do adversário e digo-lhe que ou se cala ou lhe vou aos cornos. Se for avisado, normalmente cala-se, se não for pior para ele pois é certo e sabido que vai parar ao hospital para tratar dos ferimentos. Os camaradas pioneiros João e Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, já tentaram várias artimanhas para ver se me davam a volta. Já me colocaram de chefe índio e eles de soldados do Sétimo de Cavalaria e perderam. Já me colocaram de cobói ladrão de gado com a cabeça a prémio e foram eles que foram parar à cadeia e depois à forca. E só não os enforquei num pinheiro alto porque a camarada pioneira Lídia mo implorou banhada em lágrimas. Ela que raramente chora. A camarada pioneira disse-me que me dava tudo o que eu quisesse. E eu perguntei: “Tudo, tudo?” Ela disse que sim. “Mas tudo, tudo mesmo?”, insisti na pergunta. Ela disse que sim pela segunda vez. Então dei-lhe um beijo e a camarada pioneira Lídia disse-me que o resto ficava para depois. Eu, um pouco a contragosto, concordei. E concordei porque gosto dela e sei que ela cumpre as promessas. Eles, os tais camaradas pioneiros perdedores, ainda tentaram uma outra estratégia, esta bem malvada, a de me porem do lado dos nazis. Eu, para lhes provar que lhes ganho sempre independentemente do lado em que esteja, aceitei o desaforo. E o desafio. Mas, mesmo contra a minha vontade, voltei a ganhar-lhes. O instinto foi mais forte que a inteligência. Esta foi a vez que mais me custou. Ou melhor, esta foi a única vez em que não senti orgulho em vencê-los. Mas fiz das tripas coração e venci-os como sempre. Cada um é para o que nasce. E eu nasci para lutar contra os camaradas pioneiros João e Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, e vencê-los indefinidamente. Eles experimentaram mesmo o xadrez, mas nem nisso me venceram. Camarada professor José, antes de terminar este texto, vou-lhe contar um segredo: hoje é o último dia que venho à escola de pioneiros, pois o meu pai vai sair do Partido. Vai inscrever-se no verdadeiro Partido Comunista: o Reconstruído. Um partido com muitos menos militantes mas com muito mais fundamento. Eles detestam os revisionistas, chamam-lhes até sociais-fascistas. O meu pai foi convidado para dirigente da classe operária. Ele aqui no Partido é apenas um militante de base. É apenas mais um operário. Lá vai ser dirigente. Foi para isso que foi convidado: para dirigir a classe operária de Névoa e arredores. Esse tal Partido Comunista Reconstruido é pequenino, quase com o mesmo número de militantes pioneiros que existem nesta escola. Mas tamanho não é qualidade. A maioria são estudantes, acompanhados por meia dúzia de professores, um bancário e agora um trolha, o meu pai, que é a modos como um dirigente proletário de raiz operária e camponesa, pois os meus avós são agricultores pobres como Jó, mas o meu pai já chegou a trolha de primeira. A minha mãe disse ao meu pai que o que eles querem é gozar com ele, pois não entende, nem acredita, que os filhos dos burgueses de Névoa sejam comunistas, reconstruídos ou não, e muito menos que o queiram para dirigente. “Eles querem é gozar contigo, como gozam no Jardim das Freiras com os bêbados e os tresloucados”, disse-lhe ontem à noite a minha mãe antes de se ir deitar para não levar um par de bofetadas, pois o meu pai já estava tão bêbado que não conseguia levantar-se do banco, se não tombava no chão como um saco de batatas. O meu pai contou-me então o que lhe estou agora a contar, mas disse-me para guardar segredo. Mas eu ao camarada professor José não tenho receio em lhe contar o que lhe estou a contar pois sei que é de confiança e um homem de palavra, tal e qual a camarada Lídia. Agora posso finalmente dar largas ao meu instinto ganhador sem problemas ideológicos. Não é que isso me interesse, mas a partir de amanhã vou poder ganhar aos camaradas pioneiros revisionistas e sociais-fascistas do lado da revolução e dos verdadeiros revolucionários. Esses camaradas pioneiros merdosos, e medrosos, que se cuidem. O camarada Miguel Che Guevara Estaline vai fazer a revolução total contra os traidores revisionistas e sociais-fascistas ao lado dos comunistas reconstruídos, os verdadeiros defensores da classe operária. Eu até pensei em convidar a Lídia a entrar na clandestinidade e a inscrever-se no Partido Comunista Reconstruído, mas ela disse-me que não podia. Os seus pais iam morrer de desgosto e de vergonha. Eu não insisti. Gostar de uma pessoa tem destas coisas: o respeito. Pensei ainda em convidar o camarada professor José para dirigir a escola de pioneiros comunistas reconstruídos, mas logo desisti porque sei que a militância dos comunistas reconstruídos apenas possui um descendente, que sou eu. Espero que me perdoe, mas quando formos mais, eu vou à sua procura para lhe renovar o convite. Até lá, um grande abraço solidário. E solitário também. Não se esqueça que mais vale só que mal acompanhado.


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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013

Vacas - Feira dos Santos


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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013

O Poema Infinito (128): iluminações


Extingue-se o ruído, sobrepõe-se a existência. Resplandece a luz, a única via para o infinito. O tempo da infância tende a extinguir-se na memória. Somos tomados por uma alheação contemplativa. O rigor é um fator contemporâneo. E o espanto analisa a vida. O tempo para. O tempo incha. O tempo desaparece. O júbilo da inteligência repousa na plenitude da luz sagrada. O tempo move-se. O pensamento é agora uma glória magoada. A nitidez do mundo é magnânima. E a sombra entroniza a claridade, até que aos poucos o vagar do tempo se introduz na cíclica insuficiência das palavras. E as palavras abrem-se e choram. Por detrás dos teus olhos surge um céu inteligível onde se desvendam pensamentos felizes, onde se alarga a paz, onde se fecunda o ímpeto do silêncio. Uma alegria invisível toma conta do nosso choro. Tu és a minha ausência. Por isso as tuas palavras dão nome ao dia. Contas-me o peso da cintilação, a demora das noites, o prodígio do fulgor e o irredutível fausto das descidas. Todo o tempo é interior. Todo o tempo é pessoal. Todo o tempo decresce e perpetua tanto a ausência como a presença. Houve tempo em que eternizámos a alegria que cabia dentro dos nossos nomes. E os objetos reduziam-se hesitando entre a dádiva e a humildade. E Deus era apenas distância. E o amor afastava-se com a sua precisão de conceito. E as nossas almas intensificavam-se e abriam metáforas vivas. E a noite escondia-se no dia e o dia na noite. E eu olhava a tua incandescência que irradiava profundidade. E a alegria era um vagar múltiplo. Um sofrimento feliz e intenso e assíduo na invisível radiação da paternidade. E a noite vinha iluminar o dia e recuperar o seu esplendor e o seu enigma e a sua espessura radiosa. E então surgia a luminescência do teu corpo e tudo pegava fogo à nossa volta. Presentemente a distância insinua expansão e a expansão insinua esquecimento e o esquecimento insinua uma imagem que muda de sítio com os astros antigos que se movem dentro da sua loucura caótica. E as imagens primitivas ascendem e exercem a sua abstração ilimitada. Os nossos corpos cobrem-se agora de paciência e da ciência da morte. E vão-se desfigurando na sua invisibilidade de luz afetada. E ardem saboreando a fluidez da tarde, ou o brilho das manhãs que inflamam os olhos dos ícones. E o silêncio sobe às árvores e especula a incandescência do desejo. Todos os sinais de decadência se aproximam da margem. E as frases de esperança afogam-se. E o mundo despede-se da luz como se fosse um eco da transparência do espaço. E as imagens crescem à volta da sua nitidez. E são tristes dentro da sua glória e do seu brilho instantâneo. E por isso se expandem interiormente fixando a sua plenitude momentânea. A luz sossega agora nos teus olhos e os pássaros erguem os seus voos dentro dela. Toda a imagem é grande dentro da sua iluminação e por isso se ajusta ao caminho do olhar. A luz eterna dos domingos organiza toda a luz dentro do seu espanto. Vestígios de afetos amplificam a tua ausência. O silêncio escuta o silêncio. A luminosidade rompe dos objetos. Outra é a luz que nos ilumina. O mundo acolhe as palavras. O mundo as silencia. As bocas sacramentam-nas. Tudo faz sentido dentro da sua claridade, por isso subimos pelo silêncio de luz. Resta-nos ainda o tempo que se dissemina pela flagrante sucessão dos dias e das noites. A consciência alarga-nos os sítios. As superfícies expandem-se. Pulsa o vínculo da luz. Os anos tornam-se transparentes. O tempo para enquanto escrevo. A minha idade ilumina-se. O passado assume-se no presente. A luz crepuscular avança. Desce devagar a tarde. A noite compassiva multiplica as luzes. O tempo alisa-se. Tudo se renova com a iluminação verde dos teus olhos. Tudo. 


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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2013

Vidago - Palace


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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013

Pérolas e diamantes (19): os Semeadores de Ventos


Foi em plena época natalícia que o despudor nos entrou pela casa dentro através da televisão e com cara de primeiro-ministro. Estragou-nos logo o repasto e a boa disposição.

 

Pensava o senhor Pedro Passos que lá do alto da sua verborreia espertalhona iriam os portugueses pensar que as suas palavras constituiriam uma espécie de dieta equilibrada. De facto foi equilibrada, a dieta, situando-se entre o intragável e o impossível de comer.

 

Não contente com o seu triste e lamentável desempenho, em versão oficial, o nosso primeiro-ministro resolveu vestir a farda do cidadão Pedro (e da sua esposa Laura) e veio espargir gasolina na fogueira.

 

Num registo pretensamente íntimo, que só lhe fica mal, no facebook, insistiu nas falsidades, numa linguagem onde abundou o vocabulário pobre, definidor da sua falta de articulação de pensamento, com conceitos confusos, frases incompreensíveis (recordam-se da “refundação” do Estado?), lembrando-nos, com toda a desfaçatez do mundo, que talvez este não tenha sido o Natal que merecíamos. E garantiu-nos, como um padrasto severo e implacável, à boa maneira salazarista, que devemos ter orgulho nos sacrifícios que fazemos porque a pobreza em si mesma é um mérito que devemos transmitir aos nossos descendentes.

 

Depois as notícias vieram impor o embuste que dá pelo nome de restituição de um subsídio aos trabalhadores, distribuído pelos doze meses do ano de 2013. Mas no ardil nem o presidente da República acreditou, resultando daí o envio do Orçamento de Estado para o Tribunal Constitucional.

 

Pensam os senhores do governo que podem enganar o povo dando com uma mão o que retiram de imediato com a outra, mas enganam-se redondamente. Em política nunca se deve subestimar o pouco que as pessoas parecem saber sobre a situação económica e política. Por vezes sabem até demais e não parece.

 

Em terceiro lugar chegaram os sinais em forma de notícia. Em 2012 foram abatidos em Portugal 2083 cavalos de raça puro-sangue lusitano. E não foi por doença, mas antes porque os seus criadores não conseguem vendê-los e muito menos alimentá-los.

 

Este abate tem todo o aspeto de uma metáfora para o país. Estamos a voltar aos velhos tempos do sacrifício dos que nos estão mais próximos: cães, gatos, cavalos, velhos e crianças abandonadas em hospitais e instituições de caridade.

 

Em apenas ano e meio, este governo do PSD/CDS fez-nos involuir de uma vida minimamente aceitável de conforto e equilíbrio para a pobreza e desta, não tarda nada, para a indigência.

 

Como todos sabemos, as crises económicas geram crises sociais e estas, inevitavelmente, originam crises políticas. E o que se lhe sucede já está estudado há muito tempo. Por isso a inveja, a usura, a insolência, a ganância e a intolerância tornaram-se evidentes na nossa vida social.

 

E no meio disso tudo, o executivo de Pedro e Gaspar, em vez de governar, e liderar, atento aos sinais de perigo, tornou-se errático, perdeu o norte, esqueceu-se da estratégia e, sobretudo, perdeu definitivamente a orientação e a chama.

 

Está visto, este governo rendeu-se à política de terra queimada. Por isso é que Pedro Passos Coelho nos veio dizer com cara de querubim marxista-leninista assustado, e ainda por cima requentado, que “os que têm mais rendimentos são os que absorvem a maior parte dos rendimentos distribuídos pelo Estado”. De certeza que o senhor primeiro-ministro vive dentro de um mundo paralelo de um filme de ficção científica de segunda ordem.

 

Se aos impostos pagos pela classe média, já definidos por Bagão Félix como napalm fiscal, juntarmos a educação e a saúde, ninguém de boa-fé consegue descortinar onde o nosso primeiro-ministro foi buscar esses números absurdos.

 

O governo continua a ser manifestamente incapaz de explicar como é que com a sua estratégia de destruição da economia nacional, e com um crescimento residual prescritos para os próximos anos, Portugal e os portugueses vão conseguir pagar o serviço da dívida externa, quanto mais a própria dívida.

 

Todos os setores socias e políticos nacionais e internacionais minimamente responsáveis sabem, e propõem, que a nossa dívida tem de ser renegociada, ou então daqui a cem anos ainda andaremos a pagar este empréstimo.

 

Não obstante, Pedro Passos e Vítor Gaspar continuam na sua determinação em criar um país novo, que é velho como as igrejas, sem classe média, onde proliferam os pobres e onde os ricos se refugiam nas suas casas de luxo para evitarem a imundície, as doenças e a peste. E um que outro “job for de boys” no Estado minimalista.

 

A tão propalada reforma do Estado prometida como uma sinecura por parte do PSD e do CDS assenta na destruição do Estado, não só do Estado Social, mas de todo o Estado. Senão vejamos: o governo propõe, e já o está a fazer, cortes na saúde, na educação e na segurança social. Ora tudo isto é o Estado, quase todo o Estado. Sem estes serviços é pertinente perguntar para que mais pode ele servir?

 

Mas na onda de reduzir gorduras, o governo de Pedro Passos Coelho acabou com centenas de freguesias, que faziam serviço social de proximidade, para criar as entidades intermunicipais para albergar centenas de “boys” do regime. E nós até conhecemos alguns.

 

Será este o novo país reformado que esta maioria neoliberal pretende legar aos portugueses?

 

O atual primeiro-ministro, dentro do seu fato de tecnocrata reformador, mais não tem feito do que destruir o que estava razoavelmente bem feito para paulatinamente aplicar em seu lugar uma solução alternativa muito pior.

 

Afinal Pedro Passos Coelho gere o país em cima do joelho, com uma estratégia de sobrevivência mínima e com toques de prestidigitação inconsequentes.

 

Mas uma coisa o homem conseguiu: colocar contra si os mais diversos setores sociais, inclusive o presidente da República, tendo mesmo alcançado transformar a concertação social numa irrelevância onde os parceiros aparecem para ficar na fotografia e nada mais.

 

Este executivo já só vive de expedientes. Numa manobra desesperada de fuga para a frente, atualmente, hipoteca e vende tudo o que consegue a preços de saldo, sem sentido de Estado. Mas quem não gosta do Estado como é que o pode sentir e defendê-lo?

 

A continuarmos com a desgraça deste governo, 2013 será um ano de desespero e de impossibilidade. Mas é certo e seguro que será também um ano de indignação e de revolta.

 

D. Manuel Martins, Bispo emérito de Setúbal, afirmou aos jornais que “o governo não está à altura do momento, os ministros não dominam os conteúdos”.

 

Por isso, e para que o futuro ainda seja possível, não me coíbo de citar as palavras de um jornalista apoiante do PSD, e ex-diretor do Público, José Manuel Fernandes: “É preciso olhar para a democracia não como o governo escolhido pelas pessoas, mas como o regime em que se pode correr pacificamente com os governos”.

 

Então vamos lá a isso, caro José. Vamos cumprir com o último desígnio de um Estado democrático. E que a força esteja connosco. 


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Domingo, 6 de Janeiro de 2013

Ruínas do Interior


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Sábado, 5 de Janeiro de 2013

Lareira de São Sebastião - Couto Dornelas


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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013

O Homem Sem Memória - 141

 

141 – O texto da camarada pioneira Lídia rezava assim (versão pouco corrigida pelo camarada professor): Eu quando for grande quero ser homem. Um homem honesto, corajoso, valente e comunista para poder um dia suceder ao camarada Alberto Punhal, pois se for mulher nunca o conseguirei fazer. Ninguém conhece uma mulher que seja, ou tivesse sido, secretária-geral de um partido comunista, ou coisa do estilo. Os meus pais dizem que se eu aproveitar bem a escola dos pioneiros e de seguida fizer o mesmo com a escola do Partido, poderei vir a ser uma grande dirigente proletária, ou melhor, do partido comunista, que é a vanguarda esclarecida da classe operária, e o elo de união entre o proletariado e o campesinato, não esquecendo os intelectuais, os verdadeiros, não as suas imitações de direita. Nisso o meu pai, o Batista Bastos e o Sartre têm toda a razão: um verdadeiro intelectual só pode ser de esquerda. Não há intelectuais de direita. Pelo menos verdadeiros. Assim como não há mulheres secretárias-gerais comunistas. Também não conheço camponeses secretários-gerais. Secretários-gerais apenas os há intelectuais ou coisa parecida, mas todos eles intelectuais que na altura certa foram adotados pela classe operária, como é o caso do camarada Alberto Punhal. Apesar de intelectual, é o filho adotivo da classe operária mais sincero e verdadeiro que se conhece. Até lhe chamam o camarada de Cristal. Mas o camarada não é como o cristal de que são feitos os copos, esse parte, esfrangalha-se todo se for tocado por um objeto contundente, ou cair ao chão. O cristal de que é feito o camarada Punhal é de quartzo puro e duro, mas mesmo assim transparente. Um dia perguntei ao meu pai se um filho adotivo não é menos do que um filho natural. Ele atrapalhou-se pois primeiro disse que sim e depois, quando lhe lembrei o caso do camarada Alberto Punhal, afirmou que não, que eram coisas diferentes, mas que mesmo assim eram iguais em condição e direitos. E até no resto. Mas também me lembrou que a adoção do camarada Alberto Punhal, por parte da classe operária, é uma figura de estilo, uma metáfora, no que concordei porque reconheço que o camarada secretário-geral tem boa figura e evidencia, apesar da sua sobriedade cristalina de revolucionário, um lindo estilo. Talvez uma metáfora nunca tenha sido tão bem empregue como no caso do camarada Alberto Punhal ter sido adotado pela classe operária. Nunca essa querida mãe fez uma escolha tão eficaz, ou, dito de outra maneira, nunca um filho adotivo se sentiu tão cómodo na sua família de adoção. Ou vice-versa. Agora já me confundi um pouco camarada professor, mas o senhor pode corrigir o que por bem entender, sem, claro, alterar o sentido do texto. Na forma pode tocar, já no conteúdo não lho aconselho, pois é sagrado. Bem, sagrado é uma forma de dizer, pois não há nada sagrado no comunismo, nem nos textos comunistas ou escrito por comunistas. Mas eu sei que o camarada professor entende o que quero dizer. Para bom entendedor meio conteúdo basta. Pois, como ia dizendo, quando for grande quero ser homem para poder aspirar a ocupar o cargo de máxima dirigente da classe operária, do proletariado, do campesinato e dos intelectuais, dos verdadeiros, e esses são todos comunistas, mas acho que já me estou a repetir. Se for esse o caso, o camarada professor pode riscar o que estiver a mais, mas não abuse, nem se engane, pois se assim for passa a ser censura e a censura é uma coisa fascista. Eu sei que os camaradas pioneiros João e Luís aspiram também a ocupar o cargo de secretário-geral. Não é que me tenham dito isso, eu é que os escutei quando estavam a brincar aos congressos e se faziam passar pelo camarada Punhal. Faziam-no à vez, mas sempre com muita intenção e segurança. Até empoaram o cabelo com pó de giz do quadro para ficarem parecidos. Quando um fazia de Alberto Punhal, o outro agia como Fidel Castro e vice-versa. E depois riam-se muito e batiam nas costas um do outro como se fossem muito amigos. E repetiam muitas vezes palavras de circunstância: “Então como vai o camarada Punhal? Então como passa o camarada Fidel? Eu vou bem. Eu também tenho passado muito bem. E como vai a revolução em Cuba? E como vai a revolução em Portugal? Vai bem. Por aqui também vai indo. O camarada é um grande dirigente da classe operária. O camarada também. O camarada é o maior e mais digno dirigente da classe operária. Não, o camarada é que é. E não, o camarada é que é. E não, o camarada é que é. E… etc.” E depois riam-se muito enquanto olhavam para os lados com olhinhos de agentes do KGB não fosse o camarada pioneiro Miguel aparecer e dar-lhes cabo da brincadeira, ou do sonho. Estou em crer que se os operários portugueses forem todos da têmpera do camarada pioneiro Miguel, os camaradas pioneiros Luís e João só chegarão a secretários-gerais quando as galinhas tiverem dentes. Já comigo é outra conversa. Para ser sincera, quem me meteu na cabeça a ideia de ser secretária-geral foi o camarada pioneiro Miguel, pois detesta tanto os camaradas pioneiros João e Luís que é muito capaz de fazer uma contrarrevolução só para os destituir do cargo, a bem ou a mal. Ele disse-me uma vez que a mim me apoia incondicionalmente para esse cargo. Eu respondi-lhe que as mulheres não são feitas para esses postos. Nunca o foram, nem nunca o serão. Eu, em troca, sugeri-lhe que ele sim podia aspirar vir a ser secretário-geral. Ao que ele me respondeu que burro como era para as letras, nunca chegaria a intelectual e como operário, ou coisa do estilo, nunca poderia aspirar a fazer frente aos camaradas pioneiros João e Luís. Voltou a insistir comigo para ser eu a fazer-lhes frente, mas eu repeti-lhe aquilo que já disse anteriormente. Foi então quando ele me contou que tinha ouvido falar em homens que fizeram uma operação para passarem a ser mulheres. O que o levou a depreender que o contrário também é verdadeiro, por isso praticável. Eu fiquei um pouco perplexa. Mas se como hipótese teórica é uma possibilidade, então há que admiti-la. Eu ainda lhe perguntei se sabia da possibilidade de um processo inverso. Ou seja, fazer nova operação e voltar a ser mulher. Ele respondeu que não sabia, mas pensava que sim. Pois quem põe é capaz de tirar e quem tira também é capaz de pôr, ou algo pelo estilo. Para dizer a verdade, eu não sei se o que estou a escrever é uma possibilidade, mas como o camarada professor afirmou que num texto tudo é possível, eu aproveitei a ocasião para dar asas à minha imaginação, pois, como muito bem disse uma vez a minha mãe, a ocasião faz o ladrão, ou dito de outra forma, a ocasião traz a solução. No que foi mal interpretada pelo meu pai que exprimiu à minha mãe a sua preocupação lembrando-lhe que ainda era cedo para falar disso à “nossa” menina. Então a minha mãe perguntou-lhe “isso o quê?” e ele confirmou “disso, da menstruação”, ao que a minha mãe retorquiu “não sejas parvo e não te metas onde não és chamado”. Mas como estou em maré de dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade, aproveito para confessar, bem confessar, não, pois um pioneiro comunista não se confessa, apenas faz crítica e autocrítica, que eu para enfrentar os camaradas pioneiros Luís e João sou capaz de tudo, ou de quase tudo. Sinto que lá bem no fundo, esses dois camaradas pioneiros vão dar em dissidentes. Têm todo o aspeto de trotskistas. E quando um comunista se começa a parecer com um renegado, acaba sempre por ser como ele. E mais não digo porque se me acabaram as linhas da folha de papel e já estou as escrever nas margens e não sei se isso é permitido. 


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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

Burro preto, burro branco - Homenagem a Emir Kusturica

 


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Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2013

O Poema Infinito (127): o sonho


Sonhei com esses cavaleiros que montam o silêncio. Sonhei com as suas vítimas inocentes e com as esposas tolhidas pela ausência e pelo remorso. E sonhei também com o cálice sagrado refletido nas pupilas vítreas das mulheres em pranto. E sonhei com os cavalos níveos que gozam ao engolir distâncias e se orgulham do seu suor. E sonhei com as orgias sonoras dos bosques onde habitam faunos e duendes e mistérios. E sonhei com mastins que despertavam dentro dos mistérios enquanto as mulheres se deitavam junto das janelas para escutar os séculos que estavam para vir. E sonhei com todas as metáforas e com todas as memórias de cio e luxúria. E sonhei com a alma dos gigantes e com as diáfanas mãos das infantas que exibiam presilhas nos vestidos e estendiam as suas mãos filosóficas em busca de mais uma desculpa de pão e rosas. Todas as almas galopavam e os reis exprimiam a sua espessa sabedoria que rivalizava com a miséria do povo e com a adversidade da filosofia. E os cavaleiros dormiam sozinhos junto ao seu fogo acariciando o frio inflamado de vocábulos de ciúme e morte. E os olhos dos cavaleiros ardiam dentro das lágrimas. E a História desfilava no sonho coletivo dos cavaleiros pelos vales onde se travavam as guerras. E o tempo debruçava-se sobre a natureza para tentar compreender a sua distância macerada. E o meu sonho afastava-se tentando descobrir o ritmo equívoco da vida. E o inverno abria-se dentro do coração dos cavaleiros e suspendia-lhes os sentimentos. E eles ficavam em pânico olhando para os pássaros negros que lhes transmitiam a sua mensagem de viuvez. Algumas aves desfaziam-se vítimas da sua própria mensagem enquanto outras se dilatavam entrando na terra e criando raízes. E os cavaleiros ressuscitavam na sua vã glória de apocalipse e sobrepunham-se às festas e davam beijos no vento que lhes escurecia a alma e o cio e disseminavam o seu sémen pela terra assaltados por uma transpiração erótica que deslizava pelos seus rostos em pequenas gotas de desejo. Eles então choravam porque adivinhavam a fraude evidente do tempo e dos seus sonhos guerreiros. O tempo agora alimentava-lhes o logro e cravava-lhes na memória toda a dor das suas vítimas. E eles entravam dentro do seu sonho e recomeçavam mais uma batalha campal como se fossem santos sonâmbulos. E alçavam as suas espadas funiculares cortando a terra, a carne e a glória. Depois contemplavam a agonia e a chuva e os olhos dos jovens que morriam já velhos de tanta dor. E uma canção de desespero instalava-se-lhes nos corações. E os abismos abriam-se à sua frente e perseguiam-nos. E sobrepunham-se-lhes. E os cavaleiros então desfaziam-se dos seus elmos e das suas armaduras e das suas espadas funiculares e despertavam dentro do meu sonho caminhando por cima de montanhas sonoras ajudando a noite a despertar o dia seguinte enquanto grãos de luz desenhavam novos caminhos de paz e as suas mãos rendadas modulavam cantigas que as mulheres entoavam enquanto nascia o sol e todo o sonho se transformava em dia. 


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