Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2013

Acabou-se...


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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013

O Poema Infinito (135): fogo


A luz profunda das lareiras funde as labaredas e aprofunda os rostos das mulheres que ficam perpendiculares como sexos reluzentes. E as mulheres ficam abismadas dentro dos seus olhares diretos. E gemem. E ciciam. E absorvem as radiações dos astros centrais que se entretecem no âmago das constelações da carne. E os seus membros ligam as estrelas. E agitam-se vibrando dentro das suas fibras repletas de desejo e abandono. E os seus sexos abrem-se e as suas bocas flamejam e tudo se incendeia e os seus rostos tornam-se circulares e respiram e os lençóis brilham e os corpos arrepiam-se e giram. As flores nos canteiros estremecem e sorvem os suspiros subterrâneos daqueles que se amam dentro da sua loucura imensa. E o prazer sopra todo o seu oxigénio e clarifica os órgãos agora afinados pela dor e pela paixão. As habitações supersticiosas navegam atónitas pela noite. E os corpos descansam envoltos na sua doçura e na sua febre momentânea e no seu medo sombrio que se agrava com os limites da luz. O mundo pesa. A memória dói. Por isso a infância se torna imóvel e fica estranha como uma doença. Não é fácil usar o medo como substituto da paixão. Por isso o mundo escurece dentro das nossas mãos como se fossemos buracos negros e as nossas imagens incendeiam-se dentro dos espelhos. Sentimo-nos como crisálidas presas dentro de estrelas. Afastamos as nuvens do tempo com as mãos e tudo se incendeia de novo. Enxames de astros circulam em roda da nossa infância e a espuma atravessa todas as fotografias e os ecos das primaveras atravessam a infância como planetas de fotões que retêm o mundo dentro da sua lógica material. Os olhos dos amantes tornam-se secretos e fecham-se dentro da sua perfeição de lágrimas ávidas de abismos. As labaredas soltam-se e o poder do fogo agarra-se às mãos dos homens e das mulheres que se amam dentro dos vórtices dos seus quartos e agarram todos os instantes dos seus orgasmos velozes e depois adormecem ateados pelas chamas das árvores que agora aquecem o seu sono. Os rostos que dormem tornam-se soberanos. A claridade evapora-se. Os abismos ascendem e gemem dentro da sua poderosa violência astrológica. Reparo agora na nossa elegância de mamíferos lívidos. Fotografo-te de bruços e lembro-me do genial movimento dos teus membros e das tuas asas de prazer e do teu rosto rápido que flutua no meio das constelações das labaredas que dançam e mergulham na luz e irradiam astros e se desorientam quando te entram nos olhos fixos. O meu sexo é de novo um poema que gravita em redor do teu sexo. Todo o teu corpo se transformou num sistema planetário. Eu flutuo no centro dessa constelação. E o teu corpo turva os astros. Brilha na noite a arte secreta do adeus. A fogueira extingue-se. Por fim sonhamos que o mundo é um lugar de silêncio e calma. O nosso sonho já rola pela noite com o que ficou em nós das labaredas de luz. Descansemos. 


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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013

Potes


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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013

Pérolas e diamantes (26): obsessões


Enquanto fotografo a Rua Direita, situada bem no centro da minha cidade em ruínas, fixo-me no meu rosto refletido nos vidros das montras das lojas vazias e abandonadas e reparo na minha cara triste e magoada. Penso: Tenho a cara de feição com os tempos que correm. E tento sorrir, mas até o sorriso me sai triste.

 

Penso de seguida, e por um momento, nos homens que dizem que a governam e fico impressionado com tanta palavra vã e com tanto sorriso tonto. Eu sei que o hábito faz o monge, que a sela faz o cavalo, mas não sei se um fato e uma ambição desmedida fazem um bom presidente de câmara.

 

Obsessões, dirão uns, mas eu contraponho que não é por uma mentira ser muitas vezes repetida que passa a ser verdade. E o alardeado progresso dos últimos dez anos de gestão autárquica não passa disso mesmo, de uma mentira constantemente repetida, por muito que se afirme o contrário.

 

E os argumentos que se invocam são tão desfasados da realidade que chegam a ser confrangedores. E olhem que não é por evidenciarem um simplismo aflitivo. Não. O problema está mesmo na sua total falta à verdade. É claro que, como muito bem lembra António Aleixo: «P'ra mentira ser segura / e atingir profundidade / tem de trazer à mistura / qualquer coisa de verdade.»

 

Se tivessem existido políticas de desenvolvimento e progresso, o coração da nossa cidade não estava a cair aos pedaços, o hospital não se tinha transformado num mero centro de saúde, o tribunal não se tinha transfigurado num “juízo de paz” para brincar à justiça, nem os nossos jovens tinham rumado a outras terras à procura de um futuro que a sua lhe nega.

 

Sim, reconheço, essas são as minhas obsessões. Mas a maior é Chaves e a sua defesa intransigente. Essa é a minha obsessão de décadas. Por isso é que continuo a falar de coisas incómodas e de pessoas importantes. Importantes, é bom dizê-lo, no cargo que exercem, mas quase insignificantes na qualidade do seu desempenho.

 

Obsessivos são esses senhores que não querem largar o poder, que se agarram a ele como lapas, que utilizam todas as estratégias para calar e silenciar as vozes incómodas. Esses sim, são obsessivos e a sua obsessão destrói. Destrói casas, ruas, centros históricos, hospitais, tribunais e, o que ainda é mais grave, destrói o futuro e a esperança. Destrói a nossa juventude.

 

E fazem-no porque em vez de tentar compreender e dialogar com os cidadãos do seu concelho e de aproveitarem o saber dos mais capazes e sérios para defenderem a causa pública, são apenas bons a utilizar o trunfo de saber de cor o nome e a morada de todos os militantes e respetivos cônjuges e filhos, a quem, de vez em quando, fazem favores ou arranjam empregos para compensar a militância partidária. Por isso é que não existem na nossa terra associações ou instituições públicas que não sejam controladas por militantes, ou simpatizantes, do PSD. Uma mão chega, e sobra, para enumerar as honrosas exceções.

 

A política, para ser nobre e justa, tem de se basear na defesa de ideais e convicções e não ter um pé na demagogia e outro no arranjismo. Por isso é que os portugueses acham que quem vai para a política vai para fazer o mal e não para fazer o bem.

 

Eu ainda sou do tempo em que quando um homem tomava uma decisão nem duas juntas de bois o demoviam da sua intenção. E lembro-me bem que as pessoas lutavam por um argumento imparcial e não por um tacho ou prebendas. Antigamente os homens justos e honrados negavam-se a apanhar as migalhas que os poderosos, e os seus lacaios, lhes ofereciam. Preferiam passar fome. Podia faltar-lhes o pão, mas nunca lhes faltava a honra e a dignidade.

 

Atualmente tudo se compra e tudo se vende ao desbarato. Eu sei que a honra não se come e a palavra dada não alimenta ninguém, mas é triste ver o preço tão baixo da desonra e assistir aos saldos da palavra dada, dos princípios, da coerência e da honestidade. É triste e confrangedor.

 

Já me tentaram envergonhar pelos meus presumíveis excessos argumentativos em defesa de Chaves e das suas gentes, pelo meu idealismo, aconselhando-me a autocensura, ou a escrever sobre música. Mas eu não segui o conselho porque não consigo. Sou vítima dos princípios indomáveis com que fui criado. E também sei que aquela nossa tão conhecida capacidade de aguentar o inaguentável se volta inexoravelmente contra nós.

 

Eu milito no grupo dos que consideram que é preferível uma derrota a seguir à qual possamos eleger pessoas novas, do que uma vitória e manter os mesmos de ontem. E daqui não saio. O poder pelo poder é uma estupidez.

 

Para terminar, e com a vossa licença, não resisto a citar o Cântico Negro de José Régio: «"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: "vem por aqui!" / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) / E cruzo os braços, / E nunca vou por ali...»


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Domingo, 24 de Fevereiro de 2013

Feira dos Santos IV


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Sábado, 23 de Fevereiro de 2013

Feira dos Santos III


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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013

O Homem Sem Memória - 148


148 – Como uma aparição virginal, vaginal e demoníaca, uma camarada entrou-lhe pela portas dos Canários dentro pronta a fazer das suas. Camarada é uma maneira de dizer, pois a verdade é que era assim considerada por ser sobrinha de um camarada angolano que estava de férias em Névoa. Mas nem tudo o que parece é. Mesmo entre camaradas.


Com idade para ainda ser considerada menina, mas com corpo para já ser observada como moçoila, esta angolana roliça com cheiro a frutas tropicais e com sabor a gindungo, era conhecida no grupo de amigos e camaradas do seu tio como uma fêmea quente como a terra onde nasceu e foi criada. Os seus pais, angolanos de nascimento, ao contrário de muito outros descendentes de portugueses da metrópole, tendo aderido há muito tempo ao MPLA e sendo seus dirigentes intermédios, com algum prestígio e certo proveito, resolveram adotar a nacionalidade angolana e ficar a construir um país novo, sem racismo, livre do colonialismo e da exploração do homem pelo homem. Em suma, eram comunistas convictos e de princípios sãos, predicados que lhes viriam a ser fatais nas diversas lutas que se travaram dentro do MPLA na luta pelo poder. A sua adesão ao Nitismo encostou-os à parede, encheu-os de chumbo e seguidamente depositou-os numa vala comum. Malhas que a revolução tece. Mas, nesta altura, ainda a procissão ia no adro e todos os militantes nitistas, chipendistas, pintistas, netistas ou de outro género semelhante, eram um por todos e todos por um no combate à UNITA e à FNLA.


Mal a fêmea entrou, sentiu o cheiro da excitação do José, e enganchou-se nele como se fosse a Jane do Tarzan. O nosso herói vacilou, mas não caiu. Isto apesar do fator surpresa, do forte impulso da arremetida e, ainda, devido ao facto da angolana ser avantajada de carnes, particularidade que ao José até lhe caía bem, pelo menos naquela altura.


Filada nele ao estilo do alien no filme que viria a ser realizado alguns anos mais tarde, Madalena, pois assim era a sua graça, chupou-lhe a boca com a mesma intensidade dos aspiradores de saliva dos odontologistas. Passado um minuto, as pernas começaram a fraquejar-lhe. Mas ele, sabendo bem onde estava, deu um passo atrás e encostou-se à parede, no espaço justo e disponível que sobejava entre dois quadros da exposição. Aquilo foi ereção para uma dezena de minutos, ou mais.


A Madalena porfiou no linguado ainda durante bastante tempo. Mas dali não passava. Era mais fogo de vista do que outra coisa qualquer. Para ela, tal acontecimento não passava de uma brincadeira, como quem vê uma atriz famosa num filme a beijar o namorado e depois a quer imitar. Já para o José, como todos sabemos, mas não contamos a ninguém como mandam as regras da boa educação, a excitação punha-o a arfar e com uma vontade louca de consumar o ato. Mas teve de se contentar com uma masturbação displicente e até custosa. A angolana era mesmo má de mãos. Para sexo explícito, dizia ela com um sorriso cândido nos lábios, ainda era muito nova.


Dois atos não consumados deixaram o José muito desanimado, sobretudo porque não conseguia convencer as suas parceiras para o ato final. Se fosse assim em relação às massas proletárias, a revolução nunca chegaria a ter sucesso, nunca chegaria a consumar-se, nunca chegaria a triunfar. E isso punha-o à beira de uma crise de confiança. Abalou-lhe profundamente a autoestima.


O José, cansado e desiludido, sentou-se numa cadeira e pôs-se a observar os quadros. A Madalena fez o mesmo, mastigando um chiclete com a mesma intensidade com que há momentos lhe enrolava a língua na boca. Ele nem queria acreditar, gozado por uma garota e desprezado por uma estudante do Liceu armada em dirigente associativa zeladora da sua virgindade. Era mau de mais para ser verdade.


“Para o que olhas tu?”, perguntou-lhe a angolana, versão república popular. “Para nada”, respondeu-lhe ele com a fadiga e a deceção estampadas no rosto e refletidas na voz. “A mim parece-me que estás a olhar para essa ginasta loira que tem as pernas demasiado abertas. Ou melhor, parece-me que estás a olhar para o meio das pernas dela. Não te chegou?”, disse ela. E ele, cansado, retorquiu: “Praticar a sexualidade da maneira como nós o fizemos parece coisa de crianças quando brincam aos médicos ou aos namorados.”


Ela não disse nada, limitou-se a sorrir e a avisá-lo que lhe desse espaço para poder mostrar tudo aquilo de que era capaz enquanto ginasta. Como as calças lhe eram apertadas, despiu-as, despiu também a blusa, descalçou os sapatos e em cuecas e sutiã começou para ali a cabriolar em posições tão estranhas e arrojadas que o José chegou a temer pela sua integridade física. Ela só dizia: “Olha para mim. Olha para mim. Não te excito. Vês como sou boa. Eu também sou capaz de abrir as pernas tanto como a russa. Ou ainda mais.”


O José, tonto por ver a rapariga a rodopiar, a fazer a espargata, glosas e flique-flaques, mandou-a parar, antes que fosse tarde de mais, partisse algum membro e tivesse de a levar ao hospital.


Ela obedeceu. Foi sentar-se a seu lado e estabeleceram o seguinte diálogo: “Queres que te beije de novo?” “Não.” “Queres que te… como se diz em português de cá?” “Que te masturbe…” “Não, eu não estou habituada a chamar-lhe assim. Os meus colegas chamam-lhe outra coisa…” “Não.” “Mesmo.” “Sim.” “Sim, o quê? Que te mas…” “Não.” “Porquê?” “És má de mãos.” “O quê?” “Estou a brincar. Mais a mais, estamos aqui na presença dos maiores comunistas do mundo. Estão a olhar para nós. O Brejnev e o Alberto Punhal estão a olhar para nós.” “Sim, estão, mas não nos veem. Os dirigentes só veem o que lhes interessa.” “Não digas isso.”


Ela então levantou-se, deu mais uns quantos pulos e vestiu-se. O José também se levantou para a observar melhor. Ela então preparou-se para mais um assalto, pelo menos foi isso o que o José pensou. Pelo sim, pelo não, sentou-se de imediato. Ela sentou-se a seu lado. O José então contou-lhe que a sua excitação lhe tinha vindo diretamente da observação da real beleza do socialismo que as fotografias mostravam.


Ela riu-se e disse: “Excitas-te com pouco. E com mentiras.” “Como assim?” “Tudo o que aí vês é mentira. Ou melhor, todo o ar de felicidade que as fotografias espelham é falso. Eu já lá estive e vi. Os russos são um povo triste e desalentado. Vestem mal, comem mal, não têm roupa digna, não têm papel higiénico, nem sabão. Achas que uma sociedade avançada não é capaz de produzir papel suficiente para os seus cidadãos limparem o cu? Achas que uma sociedade desenvolvida não é capaz de fabricar sabão para o seu povo tomar banho? Os soviéticos estão tão contentes com o socialismo que se emborracham com vodka até caírem para o lado. Eu vi como muitos deles eram encontrados pela manhã mortos e enregelados, como as pescadas que vemos nos frigoríficos. Isto apesar das bebidas alcoólicas estarem praticamente proibidas. Bem, lá quase tudo está proibido. O que vês nas fotos é uma realidade fabricada. É tudo montagem. Eu vi o Brejnev na Praça Vermelha. Em relação ao que aí vês, o real tem mais cem anos. O Palácio de Inverno, o Bolshoi e alguns edifícios são idênticos, mas o resto é fabricado. É apenas um filme onde só passam as cenas bonitas. A grande maioria dos apartamentos é miserável, além de pequenos. A maioria deles são habitados por várias famílias. Os hotéis são miseráveis. As lojas não têm o que vender, quase não há carros. Lá é tudo frio…”


“Então como explicas as viagens espaciais, os mísseis, as bombas atómicas, os navios de guerra, as…”


“Pois, é isso mesmo: o comunismo soviético é apenas uma máquina de guerra. Para que ela exista o seu povo morre à míngua de pão, de liberdade, sabão e papel higiénico. O socialismo colocou um homem, uma mulher e uma cadela no espaço, fabricou bombas nucleares para destruir o mundo inteiro, mas foi incapaz de produzir máquinas de calcular para que os funcionários das lojas façam as contas. Na URSS usa-se ainda o ábaco.”


“Não acredito”, disse o José. “Nem eu quero que acredites tão depressa”, avisou-o a Madalena. “Senão eras bem capaz de pegares fogo a isto tudo. Leva-me a casa que estou cansada.”

 

“Queres que te leve às carrachulas?” “Às quê?” “Às costas.” “Não é preciso.”

 


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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2013

Feira dos Santos II


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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013

O Poema Infinito (134): o cavalo de sangue


Um cavalo de sangue galopa dentro do meu corpo fazendo do meu coração uma montanha vazia. Sou alguém que se perdeu no musgo denso das estrelas. De repente fico com a boca iluminada e inclino-me para a clareira densa do teu sexo. Todo o amor é uma loucura que o delírio purifica. Por isso é que o sémen é uma constelação densa. Por isso é que o silêncio arde nas nossas bocas que tremem e sussurram palavras reanimadas. Sinto a tua fragilidade dentro da minha fragilidade como se fosse uma estrela branca. O teu sorriso é de novo uma linha renovada. O espaço transforma-se de imediato num círculo vazio onde todas as imagens se reúnem para nascerem de novo.  E eu nasço com elas. Por isso, o meu corpo é uma flecha de murmúrios. Estou cada vez mais cercado pela espessa nitidez do teu olhar. E nele me afogo. Deus é um satélite do tempo que procura a sua identidade na ignorância imprevisível do desastre. A vida é um ponto vazio de sons e sombras onde germinam os abismos da matéria. As aparências apagaram-se-me dos olhos. As aparências apagaram-me os olhos. E as coisas oscilam e concentram-se e dilatam-se. E vacilam. Sou outra vez uma criança brincando na parte inacessível dos sonhos. E surpreendo-me com a inocência aberta do desejo. Por isso tudo se incendeia à nossa volta: o silêncio, o vento, as variações do dia, as tempestades do esquecimento, a terra árdua dos equilíbrios. A ausência. Toda a ausência é uma sombra dentro de outra sombra e esta dentro da claridade, daí as páginas se incendiarem com a criação e a destruição da poesia. Por isso as palavras sufocam nas gargantas dos humanos. Por isso todas as imagens ficam suspensas. Por isso a linguagem se apaga dos livros onde foi presa. A arca da aliança gravita na pobreza nua da verdade. Os nomes caminham pela senda dos bichos. A nossa forma animal estende-se para o futuro e acorda o desejo. O cavalo de sangue continua a correr dentro do meu corpo. Sinto-lhe o silêncio dos nervos. Por muito que galope nunca encontrará a fluência dos versos límpidos, nem as palavras de angústia, nem a vertigem das lágrimas. Aves frias trazem o som do silêncio e deixam-no cair no meio de gestos em chamas. As palavras caminham ávidas de corpos e de gestos e de delírios. As evidências crescem-nos na garganta. Trago nos olhos as marcas do deserto. Máscaras de água gritam a sua paixão líquida. Surge de novo o cavalo de sangue com a sua aflição milimétrica, com a sua limpidez única, com o seu fluxo de fúria. Do lado forte da vida brilham os declives como referências de paz. A mão prolonga a distância. É essa a fascinação do vazio: a longínqua proximidade do adeus. Os nossos corpos revelam-se na infinita contemplação da beleza. Por isso, o cavalo de sangue continua na sua incessante teimosia. Na sua incerteza exata de felicidade. Na sua passagem para um outro corpo imprevisível. A inocência mora tão longe que já não a conseguimos reaver. 


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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013

Feira dos Santos I


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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013

Pérolas e diamantes (25): porcos, suspeitos e capitais


Há pouco tempo deu-se na A1 um descarrilamento de porcos que provocou atrasos nos autocarros que levavam professores para uma manifestação em Lisboa. Os dirigentes sindicais, um pouco a sério e também um nadinha a brincar, levantaram suspeitas de que tantos porcos à solta na autoestrada talvez fosse uma nova arma do Governo contra a contestação dos tão mal amados, e vilipendiados, docentes portugueses.

 

De suspeitos, os porcos, que não os nossos governantes, passaram a vítimas. Pelo menos um foi filmado a levar um pontapé no traseiro por parte de um agente da GNR. Ora tal ato bárbaro fez com que as chefias da GNR se apressassem a condenar a conduta do agente da autoridade e anunciassem a abertura de um inquérito para investigar em que circunstâncias é que o pontapé ocorreu. O GNR vai ser ouvido em breve e, estamos em crer, o porco também. Os nossos governantes é que não, pois têm mais que fazer.

 

De facto, o suíno começa a ocupar o seu verdeiro lugar na nossa sociedade. Já chega de estigmatização de animal tão nobre. Nisso concordo com o Zeca, o protagonista do romance Porno Popeia de Reinaldo Moraes: “O Porco é o melhor amigo do homem, muito mais do que o cão e até do que o frango.”

 

E tanto assim é que Bruxelas impôs a Portugal novas regras que visam garantir o bem-estar dos suínos, propondo mesmo multas para os seus produtores. Essas novas regras visam garantir, por exemplo, a concretização dos, e passamos a citar, “contactos sociais” que as porcas estabelecem facilmente com os outros suínos, mas para as quais necessitam de “liberdade de movimentos e um ambiente variado”, e, continuamos a citar, para que conste, “deverá, portanto, ser proibido manter as porcas em confinamento rigoroso contínuo”.

 

Além de proibir o isolamento, Bruxelas impõe para cada animal espaços com as dimensões mínimas, que serão de 1,64 m2 para marrãs e de 2,25m2 para porcas, além de pavimento sólido com a respetiva drenagem.

 

E é bom que assim seja, pois ele, o nosso conhecido reco, como muito bem defende o Zeca, é o melhor amigo do homem. Pelo menos do homem transmontano. Por exemplo, em Montalegre, a Feira do Fumeiro, também conhecida como a romaria do São João das Chouriças, levou à capital barrosã cerca de 70 mil forasteiros que deixaram lá cerca de milhão e meio de euros. Por isso é que o presidente da Câmara fez um apelo aos jovens para que não emigrem e façam chouriças e outro fumeiro, porque dessa forma cria-se emprego e desenvolve-se a economia local e nacional.

 

Os enchidos, e o restante fumeiro de carne de porco, tornaram Vinhais na capital do fumeiro, Mirandela na capital da alheira, a Mealhada na capital do leitão, Montijo na capital do porco, Barrancos na capital do presunto e Ourique na capital do porco alentejano. Já agora, Chaves é a capital do quê?

 

Sabemos que Olhão é a capital do marisco, Santa Luzia é a capital do polvo, São Brás de Alportel é a capital da cortiça, Portimão é a capital da sardinha, Rogil é a capital da batata-doce, Moura é a capital do azeite alentejano, Estremoz é a capital do mármore, e Chaves, afinal, é a capital do quê? De que raio Chaves é capital?

 

Sabemos também que Bucelas é a capital do arinto, Almeirim é a capital da sopa de pedra, Cartaxo é a capital do vinho, Santarém é a capital do gótico, Bombarral é a capital da pera rocha, Peniche é a capital da onda, Óbidos é a capital do chocolate, Golegã é a capital do cavalo, Marvão é a capital da castanha, Caldas da Rainha é a capital da cerâmica e do comércio tradicional, Entroncamento é a capital do comboio, Ferreira do Zêzere é a capital do ovo, Marinha Grande é a capital do vidro, Alvaiázere é a capital do chícharo, Miranda do Corvo é a capital da chanfana, Lousã é a capital do livro e… Chaves é a capital do quê? De que raio Chaves é capital?

 

Sabemos ainda que Fundão é a capital da cereja, Vila Nova de Poiares é a capital universal da chanfana e do artesanato e da gastronomia, Montemor-o-Velho é a capital do arroz, Coimbra é a capital do saber português, Penacova é a capital da lampreia, Anadia é a capital do espumante, Linhares da Beira é a capital do parapente, Celorico da Beira é a capital do queijo da Serra, Armamar é a capital da maçã de montanha, São João da Madeira é a capital do calçado, Castelo de Paiva é a capital das águas bravas, Penafiel é a capital do vinho verde, Paredes é a capital do design, Paços de Ferreira é a capital do móvel, Felgueiras é a capital do calçado, Favaios é a capital do moscatel, Vila Nova de Famalicão é a capital do móvel antigo, Caldas das Taipas é a capital da cutelaria, Braga é a capital do barroco, Melgaço é a capital ibérica do rafting, Vila Pouca de Aguiar é a capital do granito, Valpaços é a capital do folar e… Chaves, meu Deus, é a capital de quê? De que raio Chaves é capital?


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Domingo, 17 de Fevereiro de 2013

Cozinheiras e potes - São Sebastião


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Sábado, 16 de Fevereiro de 2013

Ao sol


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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2013

O Homem Sem Memória - 147


147 – Mais uma vez o José foi ter com o seu amigo, e camarada, Graça para lhe dar conta do sucedido. Ele perguntou-lhe o que tinha acontecido. O José contou-lhe tudo. Vai daí, o Graça comentou: “Vejo que és o protótipo do Marialva comunista. Primeiro o sexo, depois o pão, perdão, a revolução. Visto que já não há volta atrás, apenas te resta o trabalho unitário… a tempo inteiro. E vem-te mesmo a calhar, pois acabou de chegar uma exposição sobre a União Soviética e tu, como membro da Associação de Amizade Portugal-URSS, vais ficar com a responsabilidade de a ires montar nos Canários.”


“Mas eu não faço parte dessa associação!”, exclamou o José. “Qual delas?”, questionou o amigo, e camarada, Graça. “Da primeira”, respondeu o camarada unitário, e amigo, José. Ao que o camarada, e amigo, Graça retorquiu: “Mas desde este momento passas a fazer. E lembro-te que o seu presidente é o General Costa Gomes.”


“Sim, um independente como eu. Vá, não brinques com coisas sérias”, verbalizou o desatento jovem bolchevique nevoense José. “Tu bem sabes que eu não brinco com o Partido, pois o Partido não é para brincadeiras. Que te fique de exemplo a Escola de Pioneiros”, rematou o camarada, e amigo, Graça.


Para transportar e desembalar as caixas com as fotos, a secção de Informação e Propaganda ainda deu uma mão, mas foi sol de pouca dura, pois mal a noite arribou, cada um foi para seu canto e não mais apareceu para o que quer que fosse. Mas, em boa verdade, o José até gostava mais assim. Não estar ali alguém que o incomodasse, para ele era um alívio. Aos poucos, foi desembalando as fotografias e, uma a uma, lá as foi colocando na parede seguindo as instruções escritas que superiormente lhe forneceram.


A exposição era enorme e a sala dos Canários era pequena, originando que os quadros ficassem uns em cima dos outros, como camaradas num comício. Mas se num comício fica bem aos camaradas estarem aglomerados para exibirem unidade e força, numa exposição já o mesmo não se passa. Mas o ótimo é inimigo do bom (princípio filosófico presumivelmente marxista versão soviética); quem não tem cão caça com um gato (princípio filosófico presumivelmente marxista versão chinesa); ou mesmo com um rato se ele for leiranco (princípio filosófico presumivelmente marxista versão portuguesa).


As caixas de papelão e os plásticos onde vieram embrulhados os quadros foram amontoadas no palco onde se mantiveram até ao final da exposição, sempre com o pano de cena corrido para não dar nas vistas.


Depois de montada, seguindo a numeração estipulada, o José foi o primeiro a admirá-la com um sorriso estampado no rosto e, porque não dizê-lo sem rodeios, com a pele arrepiada, o que nele era sinal de grande emoção.


Tudo nas fotos era apologético. Os blocos de apartamentos que celebravam a modernidade eram enormes e de uma geometria verdadeiramente científica e marxista-leninista. E sucediam-se uns aos outros como uma floresta de betão armado, tão armado como a pátria do socialismo comunista, ou do comunismo socialista. As fábricas eram imensas, limpas, repletas de máquinas espantosas e de operários que transpiravam felicidade e boa disposição. Fossem homens ou mulheres, jovens, velhos ou gente de meia-idade, todos sorriam com um sorriso tão natural que até parecia artificial. Mas de artificial não tinha nada. Na URSS, a Pátria do socialismo científico e de Lenine, Estaline e Brejnev, nada havia de artificial, tudo ali era fruto do trabalho de operários e camponeses, fossem homens ou mulheres, militantes ou simpatizantes do Partido Comunista da União Soviética, e do engenho dos seus dirigentes que eram os melhores comunistas do mundo. Razão tinha o camarada Alberto Punhal, a URSS era o sol da Terra, era quem iluminava o mundo, quem lhe abria os horizontes, quem apontava o rumo a seguir a todos os explorados da humanidade. A altura dos edifícios estonteava-o, as fotografias onde se via o camarada Brejnev, a sorrir e a acenar às massas na Tribuna da Praça Vermelha durante o desfile do 1º de Maio, enchiam-no de entusiasmo revolucionário. Em várias fotografias aparecia o camarada Punhal a ser cumprimentado e beijado pelo camarada Brejnev. Alberto Punhal sorria, Brejnev sorria, os camaradas da delegação portuguesa ao congresso do PCUS sorriam, os camaradas da comissão de receção do PCUS aos convidados ao congresso do PCUS sorriam, os polícias sorriam, as estátuas sorriam, até Lenine sorria em várias fotografias que enquadravam o camarada Brejnev, enquanto discursava, brilhava ou acenava. As cores do Palácio de Inverno eram tão intensas que resplandeciam, enchendo os olhos de quem as observava. Então que dizer da Praça Vermelha. A Praça Vermelha era tão vermelha, mas tão vermelha, que toda a gente percebia logo à primeira observação porque lhe chamavam assim. As filas para visitar o mausoléu de Lenine davam várias voltas ao edifício e ainda se estendiam por centenas, senão mesmo milhares, de metros de empedrado. Militares do exército vermelho sorriam enquanto tiravam fotografias às namoradas e às mulheres, ou eram fotografados por elas, ou por algum camarada que por ali passava. Os filhos sorriam para os pais, os pais sorriam para os filhos, os avós sorriam para os filhos e para os netos, os netos sorriam para os avós e para os pais, os polícias sorriam para as pessoas, as pessoas sorriam para os polícias e a guarda de honra do mausoléu de Lenine marchava como se os seus elementos fossem incríveis ginastas com pernas quase até ao pescoço, enquanto as pessoas os admiravam sorrindo. Nos hospitais os médicos sorriam para os doentes e os doentes sorriam para os médicos como se não tivessem maleita nenhuma. Nos concursos de ginástica, os ginastas sorriam quando ganhavam medalhas, mas também quando não as ganhavam.


O verdadeiro socialismo era assim, a todos punha bem-dispostos, quer estivessem a trabalhar ou a descansar, a ler ou a dormir, a correr ou parados, nas bichas para o pão ou nas filas para o cinema, na bicha para o sabão ou na fila para o teatro, na bicha para a carne ou na fila para o balé. Até a cadela Laika sorria à sua maneira dentro da cápsula que a levou para o espaço. Podem não acreditar, mas na pátria do socialismo científico até os animais tinham outro comportamento. Não é que sorrissem, mas quase. Não é que falassem, mas quase. Não é que fossem gente, mas quase. Gagarin também sorria a bom sorrir e a camarada Valentina Tereshkova, a primeira mulher no espaço, também ria com toda a sua simplicidade proletária, filha de proletários.


Viver na URSS era como habitar no paraíso. Ou quase, pois nem tudo ainda era perfeito. Mas para lá marchava. Até nisso o camarada Brejnev e o camarada Alberto Punhal eram sinceros e verdadeiros, honra lhes seja feita: a URSS ainda não era uma sociedade comunista, mas para lá caminhava a passos largos.


Quando chegou ao fim da exposição, o camarada José, de tão entusiasmado, voltou ao início. E admirou mais uma vez aquela realidade toda. As fotografias não enganavam. Tudo ali era o testemunho de que o socialismo no mundo inteiro só podia triunfar. Na URSS não se via pobreza e respirava-se liberdade. Não se viam muitos carros, mas em contrapartida os transportes púbicos abundavam e o metro de Moscovo, o melhor e o mais belo do mundo, estava sempre cheio, mas nunca a abarrotar. E as mulheres eram lindas e loiras e bem proporcionadas. E sorriam sempre. Os homens também não eram desengraçados. As crianças tinham um ótimo aspeto e via-se logo que eram inteligentes. Falavam sempre ajuizadamente, esperavam a sua vez, não diziam disparates e comiam sempre nas cantinas uma comida cientificamente preparada para as tornar fortes, espertas e sadias. Por isso eram sempre os melhores atletas do mundo e também os melhores cientistas. Lá não existiam igrejas, nem padres, nem beatas. Os templos tinham dado lugar a museus ou tinham pura e simplesmente sido arrasados. Lá ninguém se ajoelhava perante Deus. Lá não existia Deus, só homens e mulheres de boa vontade. Lá ninguém se drogava, ninguém se prostituía, nem ninguém passava fome. Lá o que havia mais era fartura. Mas não havia desperdício. Isso é que era bom! Tudo o que lhes sobrava, os camaradas soviéticos distribuíam pelos povos necessitados do mundo: máquinas, medicamentos, roupa, calçado, armas, muitas armas, e mesmo sanitas, mas, e voltamos a repetir para que conste, sobretudo armas, muitas armas, mas também calçado, roupa, medicamentos, máquinas e até sanitas. Tudo, mas mesmo tudo o que lhes sobrava, eles, os camaradas soviéticos, distribuíam aos povos explorados e oprimidos do mundo, para se libertarem do jugo imperialista e capitalista.


Se todas as fotografias eram impressionantes na sua realidade reveladora, então o que dizer das que retratavam os desfiles comemorativos da Revolução de Outubro. Tudo nelas era de uma beleza arrepiante. A disposição geometricamente perfeita das pessoas que desfilavam com passos perfeitos dentro das suas roupas, ou das suas fardas, perfeitas, a perfeição dos gestos, a perfeição dos sorrisos, a perfeição dos acenos, a perfeição da pose dos dirigentes do PCUS na tribuna, a perfeição do alinhamento das medalhas que o camarada Brejnev ostentava no peito e que demonstravam, até à exaustão, a sua bravura, a sua dedicação e a sua sábia liderança que tinham levado a URSS a ser a maior e a mais digna nação do mundo.


Duplamente arrepiante eram as fotos onde se via o poderio militar soviético. Os exércitos desfilavam de tal forma perfeitos e arrumados que até pareciam de chumbo. Os carros de combate eram aos milhares. Lá nas alturas de Moscovo esquadrilhas de aviões rasgavam os céus deixando impressas no seu azul linhas de fumo tão perfeitas que até pareciam pintadas. E então que dizer dos mísseis! Bem, os mísseis intercontinentais eram impressionantes. E eram tantos que podiam destruir o mundo de um momento para o outro. Por isso é que as potências ocidentais tinham medo da URSS. Por isso é que ainda não a tinham atacado para destruir o socialismo que lá se construía com toda a sabedoria comunista. Ai de quem tivesse o atrevimento de se meter com a pátria de Lenine. Era atrevimento para nunca mais. Por isso é que o camarada Brejnev ria com aquele seu sorriso de urso polar. Um abraço seu e era a morte do artista.


Tão excitado ficou o camarada José com mais esta segunda ronda, que lhe apeteceu masturbar-se. Mas conteve-se. Uma exposição da URSS não era propiamente um filme com a Sofia Loren. Mais respeito, rapaz. Mais respeito. Ainda olhou mais uma vez para uma ginasta que fazia umas acrobacias a modos que provocantes. Mas quando olhou na outra direção deu de caras com uma foto onde o camarada Alberto Punhal estava com uma expressão tão séria e marxista-leninista que fez com que do entusiasmo e da excitação passasse à circunspeção.


O comunismo pode ser excitante, como muita coisa na vida, mas não é para aí que apontam as suas armas. Cada coisa a seu tempo, cada coisa no seu lugar. Assim é que é. 


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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013

À espera


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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013

O Poema Infinito (133): a natureza das figuras impetuosas


O mar cresce dentro de ti com a nitidez da glória. Um brilho invisível expande-se até ao infinito. São sinais novos que estudam o tempo e o seu silêncio substantivo.  Agora o mar afaga-nos e o vento que lhe define o temperamento expande-se. Todas as epifanias são de novo possíveis. O mundo acorda dentro do seu eixo paradoxal. Os animais recolhem-se dentro das suas tocas pressagiando metáforas precárias. A manhã entra pelo mar adentro trepando a sua escala de claridade. Sobe-nos a aurora ao pensamento. Há um silêncio prévio às palavras, aí onde te espero. Aí onde desespero. Enormes portões abrem-se à pulsação extensa das evidências. As palavras maninhas inclinam-se para os limites dos objetos. De ti brota a natural abundância do desejo. Está na hora de subir às nuvens e de estudar os seus domínios. As palavras atrapalham-se na sua circulação fixa. Paramos dentro do nosso vagar e assustamo-nos. As cheias vêm do poente, lá onde as cores se eternizam. Passam os dias sobre as águas e sobre as árvores. Afinal os verbos também se abatem. Os verbos e as casas e os lugares e os olhares e os gestos e o júbilo da extensão e a razão e o doce retraimento da poesia e a brancura sobrenatural dos teus seios. A noite atrapalha-se na sua lucidez de gaivota vaga e goza o seu júbilo solitário. A felicidade não tem razão, por isso nos absorve. Sou conforme a tua brisa e por isso me deixo entusiasmar pela tua longínqua figura. Lá onde se move a natureza das figuras impetuosas. Vivo nesses lugares sem sítio, sem poiso, sem tempestades. Sinto a doce solidão do apocalipse quando te possuo. Lentamente voo com a nitidez dos pássaros de inverno. Com a mesma esperança de vida. Hoje o mar devolve-me o tempo antigo. E o meu passado nítido. E o sossego dos teus olhos de esmeralda. O calor do desejo instala-se no interior do sexo com a mobilidade dos arcanjos. E Deus brinda à vida pegando no cálice do seu único filho, celebrando o ser pai único e indivisível e indiscritível e inamovível e esplendoroso e renovado em cada morte. Deus entra nas palavras crescendo como as marés vivas. E brilha com o seu esplendor redundante. O mundo acorda despontando dentro do seu enigma. Os frutos lúcidos caem das árvores como se fossem cegos e enigmáticos e claros e vingativos. O amor constrói-se dentro da sua paciência iluminada e faz os seus cálculos alucinogénios. Começa a erguer-se o halo decisivo da minha velhice. Eu prometo-lhe indulgência e paciência. Eu prometo-me. Eu prometo-lhe um enxame de luz que contamina o espaço. Eu prometo-lhe o fausto do silêncio. Eu prometo-lhe incêndios de volúpia. Eu prometo-lhes Feud ao ritmo do chachachá. E verbos unificados. E toda a paciência dos pastores. Eu já guardei rebanhos com toda a indiferença do Álvaro de Campos e rezei com a mesma ausência de nudez. Por isso é que eu sou a imagem que sobra do desejo e do sofrimento. O infinito tem-me assim: em partes de memória. Lá fora as imagens passam para outra eternidade. Os relâmpagos transformam-se numa negrura abstrata. Eu sou a tua dúvida metódica. Perto da tua face abro o sorriso triste ao júbilo da minha idade. Vou-me embora penitenciando-me para a viagem. O mundo volta a entrar no seu espanto de movimento sacramental.  O vento é um vestígio que magoa. A sua dádiva é uma narração de movimento. O vento é o espírito da melancolia. Tu és a minha fecunda explicitação. Eu sou cada vez mais distância. Cresço dentro do teu silêncio que me escuta. Cresço como quem minga. Deslumbro-me com o espantoso silêncio da infância. A luz repousa agora na tua harmonia de água incandescente. A luz deixou de ser um obstáculo. A luz pressente o fim. Somos o seu vagar incessante.


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Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2013

Ruínas do Interior


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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2013

Pérolas e diamantes (24): a lenta agonia da zona história de Chaves


Aos domingos, depois do almoço, eu e a Luzia costumamos ir tomar a bica ao Sport e a seguir passeamos pela cidade. No café encontramos sempre as mesmas pessoas. Quase todas elas idosas. Invariavelmente falam umas com as outras ou, então, olham para a praça sempre vazia onde até o tanque e o repuxo deixaram de cumprir com a sua obrigação, pois estão secos e inoperantes. Sinais dos tempos. O quiosque está sempre fechado e o Aurora também. Aos domingos parece que o centro da cidade fecha para balanço.

 

Depois do café tomado descemos a rua de Santo António e, ou viramos à esquerda caras à rua do Olival, ou, então, infletimos à destra para subirmos a rua Direita. Raramente nos cruzamos com mais do que meia dúzia de pessoas.

 

No passado domingo, virámos à direita. Quem diria. O dia estava cinzento e soprava um vento arisco com todo o aspeto de ser galego. Encolhemo-nos dentro dos nossos casacos e lá fomos pelo lajedo fora.

 

Nós já nos habituámos à desolação, mas, mesmo assim, quase sempre subimos a rua em silêncio remordendo a nossa tristeza.

 

Muitas das casas ameaçam ruína, dezenas de estabelecimentos comerciais encontram-se vazios e outros estão de tal maneira protegidos por portas de metal que mais parecem garagens.

 

A tristeza que nos invade não tem fim. Grande parte dos edifícios está habitada por sombras, fantasmas, ratos ou aranhas. Desta vez chegámos mesmo a ouvir o silêncio. Aqui e ali ainda eram visíveis copos de plástico e algumas garrafas de cerveja. São alguns dos vestígios das noites atribuladas na zona histórica da nossa cidade.

 

Vieram-me logo à memória as palavras do senhor Marcolino ao DN: “Vivo nesta rua há mais de 60 anos e nunca vi tal coisa. É um pandemónio. Então à noite é demais, consumo e venda de droga, de álcool por menores na via pública e filas de homens a entrar nas casas onde estão as prostitutas.”

 

Foi este estado de coisas que levou a que alguns dos “heróis resistentes”, que ainda teimam em morar no centro histórico da nossa cidade, elaborassem uma petição pública online onde acusam o executivo camarário de ter pouca, ou nenhuma, sensibilidade para a limpeza da zona, declarando que “nas ruas do centro histórico, por todo o lado se veem dejetos humanos e garrafas de bebidas alcoólicas partidas, as casas estão degradadas, afastando não só a população residente mas também os comerciantes ali instalados há dezenas de anos”.

 

Uma moradora colocou o dedo na ferida: “Como é que se pode morar na zona histórica se atualmente é só droga e prostituição?”

 

O que vai proliferando por ali é a droga e a prostituição, negócios que são ilegais, perigosos e confrangedores. O DN dá conta de que uma senhora de 52 anos que, após ter morado durante quarenta anos na zona, acabou por sair dali devido ao medo. E desabafou: “Dantes só tínhamos a «Z…», mas agora esta tornou-se empresária do ramo e são às dezenas as prostitutas.»

 

E a fama está em crescendo, porque o negócio da droga e da prostituição não tem deixado de aumentar. Mas a agiotagem também se vai governando com a miséria humana, pois ainda há gente que negoceia a cedência de casas degradas para a troca de serviços.

 

As mulheres são de diversas origens. Além das portuguesas, passeiam-se por ali africanas, brasileiras e romenas. Convém talvez dizer que a prostituição por aquelas bandas não é prática recente, desde que Chaves é Chaves sempre existiu esse hábito na zona, só que em pequena escala.

 

Ao DN, curiosamente, nem o senhor presidente da Câmara, nem o senhor vice se atreveram a dar um arzinho da sua graça. Para dar a cara, desculpando a autarquia da situação, o executivo PSD destacou desta vez o senhor vereador Penas que declarou à comunicação social que as situações referidas na petição são da competência da PSP, adiantando que a autarquia está a regularizar o horário do funcionamento dos bares.

 

Pelos vistos, a culpa morre sempre solteira. Mas é importante que se lembre que a responsabilidade pela requalificação urbana é da autarquia, a dinamização das políticas de urbanização é da inteira responsabilidade da autarquia, a defesa do património é da responsabilidade da autarquia e a defesa do bom nome da nossa cidade é da responsabilidade da autarquia. A não ser assim, para que raio serve a Câmara? Para cobrar a conta da água e do saneamento e fazer propaganda ilusória sobre a Eurocidade?

 

O problema é que a nossa Câmara apenas se preocupa com a gestão do dia-a-dia e da dinamização de projetos, ou megalómanos, ou ridículos. António Cabeleira em vez de atuar em defesa da sua cidade e das suas gentes, entretém-se a tecer loas à Eurocidade e a gastar dinheiro em projetos que nada nos trazem, nem nada adiantam.

 

Em vez de requalificar a zona histórica da cidade, que, bem vistas as coisas, é o coração da nossa urbe, esta gestão autárquica consome o tempo a dizer que vai fazer o que não faz, prometendo fundações e outras fantasias que apenas vão contribuir ainda mais para que o buraco financeiro atinja proporções alarmantes.

 

Quando a Câmara remete as culpas da degradação da Zona Histórica para os ombros da PSP só pode ser num ato de profundo cinismo, ou, então, de má-fé. A gestão da nossa urbe está entregue a desistentes, a gente que não ama a sua cidade, que despreza as suas gentes, que maltrata a nossa memória, que colocou em ruínas o coração da nossa velha cidade e que é incapaz de ter uma atitude de dignidade para com os seus concidadãos.

 

Por isso é que a petição põe o dedo na ferida ao acusar os responsáveis autárquicos de “desinteresse” e de prestarem “uma pouco cuidada atenção social e urbanística” à zona compreendida entre a rua Direita e a Rua do Poço, incluindo as ruas de Santa Maria Maior, General Sousa Machado até ao largo da Câmara de Chaves.

 

Os signatários exigem, a quem de direito, uma cidade mais segura e uma mais atenta atuação policial. Jorge Machado, proprietário de um bar na zona, disse à Voz de Chaves que “há um abandono das forças policiais e autárquicas ao contrário do que se passa nas outras cidades, que tentam reavivar e tornar os centros mais atrativos.”

 

Os signatários, e já agora os subscritores, entre os quais eu me incluo, solicitam à Câmara um plano simples de pintura de paredes, colocação de caixotes do lixo nas ruas principais, tomada de medidas para acabar com a degradação dos edifícios que transbordam lixo para as ruas e outras que se venham a mostrar urgentes e adequadas.

 

Mas, estamos em crer, que depois de a autarquia ter gasto todo o dinheiro que tinha, e não tinha, em foguetório e festas e festas e foguetório, o que vai restar é o conhecido gesto do senhor presidente em falar com as pessoas e nada fazer.

 

Os dois primeiros subscritores foram já apanhados nessa estratégia, pois, e passo a citar novamente a Voz de Chaves, “chegaram a reunir com a autarquia flaviense, mas apesar do «interesse» e da «conversa positiva», até hoje nenhuma medida foi tomada”.

 

Enquanto o consumo de álcool, as drogas, a prática de prostituição e as ruas se enchem de lixo na zona histórica da nossa cidade, a autarquia ignora ostensivamente o problema e faz como Pilatos, lava dali as suas mãos.

 

Por isso é que urge devolver a identidade aos flavienses, porque Chaves necessita urgentemente de ser de novo colocada na senda da centralidade e do desenvolvimento, pois, ao contrário do que a gestão de João Batista e António Cabeleira propagandeou aos quatro ventos, a nossa cidade não se modernizou, antes se descaracterizou, não se desenvolveu, estagnou, fruto de uma administração imobilista e apriorística, esbanjou dinheiro à tripa forra, daí a sua dívida real ultrapassar os 50 milhões de euros.

 

É urgente renovar as nossas potencialidades, criar condições de atratividade, fazer com que grande parte dos nossos jovens regressem, motivar os flavienses e acreditar de novo na sua capacidade de trabalho, apostar na criatividade e pugnar pela melhoria de serviços e não pela sua degradação, desqualificação ou extinção.

 

Esta gestão autárquica é, definitivamente, um atraso de vida. E quando for embora já vai tarde. 


publicado por João Madureira às 07:45
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Domingo, 10 de Fevereiro de 2013

Mulheres IV


publicado por João Madureira às 08:00
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Sábado, 9 de Fevereiro de 2013

Mulheres III

Mulheres III


publicado por João Madureira às 08:36
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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2013

O Homem Sem Memória - 146

 

146 – O José foi formalmente dispensado das suas obrigações partidárias e compelido a cumprir uns meses de militância unitária, frente que andava muito descurada, quer pela deserção dos militantes mais sérios, que já não conseguiam disfarçar por mais tempo a sua militância comunista, quer porque a gente que por ali se encontrava ao deus dará era realmente sensaborona, titubeante e muito complicada de gerir, quer no espaço político propriamente dito, quer dentro do seu núcleo social.


O José detestava-os, não porque possuíssem a estranha mania da independência, mas porque faziam disso uma máscara para se protegerem especialmente dos ataques da esquerda e também para não serem hostilizados pela direita, onde tinham os amigos ou maior parte dos familiares. Afirmando-se de esquerda, davam-se bem com a direita e inclinavam-se para o centro.


Além da sua versão independente na associação de estudantes do Liceu, o José vestiu este seu novo fato unitário para conceder a si próprio um ar mais credível. E, de facto, cresceu em prestígio aos olhos da sua querida amiga Isabel, que, bem vistas as coisas, era o que mais lhe interessava no momento.


Por isso dedicou-se ao trabalho associativo com muito afinco, organizando principalmente sessões e eventos culturais. E cumpria as tarefas com satisfação. Quando calhava estar por perto a sua querida presidente, o prazer era redobrado. À falta de melhor tática, tornaram-se companheiros inseparáveis que estudavam emparelhados, passeavam muito e até se apalpavam e beijavam com tanto afinco que não era raro terem orgasmos simples e sinceros que lhes sabiam pela vida. No entanto, que nós saibamos, nunca chegaram a vias de facto, mas andaram lá muito perto. E foi isso que estragou tudo.


A Isabel, prudente como era, travava sempre a tempo. Ou melhor, refreava o José quando ele já estava tão empenhado no ato que nem dava conta que a Isabel fechava as pernas para lhe impedir a ousadia. Quando finalmente se apercebia da conjuntura, barafustava muito, mas sempre em vão. A Isabel prezava, e protegia, a sua virgindade com toda a perseverança de mulher de princípios. Não queria perder a sua independência, não queria ficar presa a alguém vítima de um ato irrefletido. Para casar ainda era nova e primeiro tinha de tirar um curso para poder escolher com quem queria viver a sua vida. E esse alguém, quando a levasse, “tinha de a levar inteira”, como gostava de afirmar.


O José porfiou e tornou a porfiar, chegando a confessar-lhe que a amava muito, que queria casar com ela, que mais isto e mais aquilo. Mas a Isabel, quando chegava o momento decisivo, fechava as pernas e dava por terminada a sessão. O José ficava colérico e, muitas das vezes, desorientado. Explicava que lhe custava sair daquele tipo de situações sem sofrer. Contava-lhe que sofria como um cão. Não terminar o ato deixava-o quase sem ar, vermelho e ofegante. Mas a Isabel não cedia, contrapondo que também ela sofria de um mal muito parecido, mas que nestas coisas do amor, quem fica com as marcas e as sequelas são sempre as mulheres. Ele disse-lhe que quando vinha ter com ela trazia sempre no bolso um preservativo, que por isso nada tinha a temer. A Isabel sorriu e disse-lhe que com ela o prazo de validade da camisinha ia ser ultrapassado, com toda a certeza. Ele explicou-lhe que tinha comprado não só um mas uma caixa deles. Ao que ela respondeu que ele era um rapaz com expectativas muito elevadas, mas que nestas coisas do amor carnal é preciso a concordância do par. Ele apelidou-a de conservadora e reacionária, que os tempos que viviam atualmente eram de liberdade, fraternidade e igualdade e que por isso mesmo estava na hora de destruir alguns tabus, nomeadamente esse da virgindade. Ela então perguntou-lhe se era virgem. Ele disse que não. Que não era homem para lhe dizer que a virgindade era um tabu e um mito reacionários sendo ele virgem. Ele era lógico. Ele aliava a teoria à prática. Ele era científico. Mesmo não parecendo, era um revolucionário coerente. A Isabel respondeu-lhe que também ela era coerente, mesmo não sendo revolucionária. Que para si a virgindade era como um escudo protetor. Era uma coisa que se partilha apenas com alguém muito especial. Era a prova de fogo do amor. Ele então perguntou-lhe se não o amava. Ela sorriu. Ele voltou a perguntar. E ela voltou a sorrir. Ele insistiu na pergunta mais uma vez. Ela então respondeu-lhe que sim, que o amava, mas que ainda não sabia se o amava o bastante para lhe dar o que pretendia. Ele beijou-a e tornou a beijá-la. Beijou-a copiosamente e com benefício. Ela respondeu na mesma moeda. Engalfinharam-se com muito empenho e com intensa loucura. E estiveram naquele enlevo de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito tempo bastante para atingirem o ponto de ebulição. O José então pegou no preservativo, colocou-o como ensinavam as regras das boas práticas sexuais e mais uma vez tentou. E tentou. E voltou a tentar. Mas as coxas da Isabel, depois de fechadas, eram como as portas da gruta do Ali-babá, só uma palavra mágica as podiam desatravancar de modo a deixar que lá penetrasse quem devia penetrar. E, pelos vistos, nem o José era o Ali-babá e muito menos sabia a palavra mágica que abria o que devia abrir.


O José, vendo que mais uma vez dali não levava nada, foi-se embora prometendo que era um adeus definitivo. Que não estava para aturar mais atitudes preconceituosas da Isabel. Ela então encolheu-se dentro do seu desejo, e da sua desilusão, e disse-lhe que se fosse embora o mais rápido possível, que ali já não fazia nada. Que o seu amor era como uma ejaculação precoce. Quem declara que pensa em amor mas apenas pretende sexo, não passa de um animal vítima dos seus próprios instintos. Depois chorou. Ele então guardou o seu desejo no sítio recomendado às pessoas sensatas e tentou beijá-la de novo, mas foi parado com um grito tão intenso que até o cão da vizinha se pôs a ladrar com se tivesse visto um salteador. O José ficou sem pinga de sangue. E foi-se dali tão desgostoso como quando acabou de ler o livro de poemas “Só”, de António Nobre, que o próprio autor definiu como o livro mais triste de Portugal.


Escusado será dizer que o seu trabalho unitário na associação de estudantes acabou mesmo ali. E sem honra nem glória. 


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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2013

Mulheres II


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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2013

O Poema Infinito (132): delírio


Abre-se o vazio mesmo em frente das montanhas melodiosas. Eu sei calar a voz do amor. Aprendi-o de pequenino. Conheço quem amo pela cadência do pensar. Por isso, quando me inquieto, sobreponho a fala ao desejo. E eu desejo-te tanto que passo a noite a falar. Quando me calo tento pensar nas consequências desse delírio. Por isso cai-me das mãos a embriaguez do tempo, a insónia da noite e o trompete alucinatório de Miles Davis. E eu ali a olhar para os pedaços de grãos de luz com que o sol ilumina o teu olhar. E choro por sinais, como se quisesse enganar a distância que separa o meu corpo do teu corpo, o som do sangue que nos corre nas veias e a lucidez dos caminhos que avançam pelo meio das chamas como os lamentos dos felinos. E as nossas mãos cantam uma canção de embalar. E cantam ainda mais quando a lascívia regressa ao seu pânico solitário, lá onde a terra se enraivece, lá onde as raízes mortas ressuscitam, lá onde se transpira cada gota de desejo, onde ninguém recua perante as evidências, lá onde a memória fixa todo o amor suspenso como os jardins da Babilónia. Afinal o muro da indiferença move-se e os sentimentos dos néscios regressam em pânico ao seu lugar de origem. Mulheres arregaçadas dentro dos seus silêncios gozam a distância das nuvens e sibilam a metáfora dos seus cios e galopam cavalos memoráveis. Aos ciumentos ardem-lhes os olhos, aos loucos inflamam-se-lhes os vocábulos, por isso todas as palavras doces chegam dentro de naus carregadas de semântica. A multiplicação linguística é um milagre que mata a fome aos gigantes. Alguém grita dentro da sua rouca limpidez anunciando um parto delicioso com dor. Arde-nos a boca porque se alimenta de gestos suspensos. Todas as divindades sobram dentro da sua razão aparente. Dormimos no limiar do sonho. Acordamos no meio de uma ilha em chamas. O pânico tem o sabor da fruta do pecado. A febre é um incêndio que flutua dentro das nossas línguas. Voltamos ao caminho do medo. O sonho é uma máquina de contemplação onde o próprio medo se espanta com a voz fria das memórias. As palavras voam despedindo-se dos seus sentidos em busca da sua prometida liberdade. E choram quando ficam prisioneiras da ilusão. Os poemas são suturados com lágrimas copiosas e tornam-se impiedosos. Então choram gritando inclinados sobre os nossos corpos. As nossas bocas incendeiam-se com a mesma ternura com que se beijam. Por vezes repousam no seu riso. Por vezes fingem que descansam. Por vezes enrolam-se dentro das suas incertezas. A ternura nasce do chão e aponta na direção patética do infinito. A nossa fome de sexo fixa-se dentro da sua certeza de fresca ansiedade. A fé no tempo traz muito desperdício. Por isso as semanas se dobram umas nas outras. As almas confundem-se no mar. Está uma manhã de vento. As ondas invadem-nos o quarto. O sol torna-se vagaroso. O mar conquista tudo com a sua energia insólita. Comemos as palavras, moemos as sílabas, mastigamos os sonhos. Toda a gramática emerge dentro do seu pânico votivo. As árvores encolhem-se. O tempo soluça. Plantas novas nascem-nos nas mãos. Todo o trabalho que dá o amor aflora aos nossos olhos. Encontramo-nos na parte lírica da vida, por isso devoramos o silêncio e mudamos de cor como os camaleões. Aparecemos vindo da parte real da emoção com as louváveis maneiras dos amantes. Alguém semeia sorrisos nos campos. Uma chuva miudinha ajeita a água aos sonhos. Uma canção antiga enche-nos os sexos de ternura. Os nossos corpos bebem luz. Deitamo-nos em cima de palavras e adormecemos amando-nos devagar como quem chora baixinho de prazer. 


publicado por João Madureira às 07:45
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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2013

Mulheres I


publicado por João Madureira às 08:32
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Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2013

Pérolas e diamantes (23): as pedradas do governo


O independente António Barreto, eminente sociólogo e presidente da prestigiada Fundação Francisco Manuel dos Santos disse, sem hesitar, ao Jornal I que o executivo de Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar, Miguel Relvas e Carlos Moedas “é um governo cobarde. O governo toma as medidas que tem de tomar, muitas delas terríveis e algumas justas, ainda por cima, e toma-as de supetão, manda para a rua, como quem atira pedras, bumba! Têm tido coragem para tomar medidas, mas era muito mais corajoso tornar as coisas públicas antes, discutir e envolver os parceiros sociais. Isso era coragem.”

 

Na mesma entrevista, sobre o relatório do FMI refere que “há muitas coisas que é o próprio governo que diz, mas faz com que seja o Fundo Monetário Internacional a dizer para não ter de ser o governo a fazê-lo. O que é ridículo. É de um altíssimo grau de cobardia.”

 

E a sua cobardia, dizemos nós sem hesitar, não se fica por aqui, pois este governo liberal (mas no mau sentido) montou uma insaciável máquina estatal de caça a todos os portugueses para lhes extorquir, através dos impostos, taxas e multas, os poucos tostões que lhes restam.

 

O executivo do PSD/CDS, é preciso que se diga, está a transformar o Estado num condomínio privado fiel às clientelas políticas e subserviente à gente dos negócios.

 

No relatório do FMI, que, como já foi demonstrado, é da autoria do governo português, há cortes para todos os gostos e feitios, mas apenas no Estado Social. A sua obsessão é destruir e arrasar tudo aquilo que dentro do Estado se reveste de preocupação com a sociedade.

 

O “menu” do governo, como muito bem qualificou Carlos Moedas, assenta apenas nos cortes na saúde, nas reformas, na educação e no aumento de impostos. Trocando isto por miúdos, podemos dizer que o executivo do PSD/CDS aponta unicamente num só sentido, no triste caminho do regresso à pobreza extrema, sem que o Estado tenha possibilidades de dar uma ajuda a quem precisa.

 

Mas a deslealdade não se fica por aqui, pois a divulgação do relatório do governo, que o próprio governo designa como sendo do FMI, tem subjacente uma estratégia saloia, a de desviar a atenção da questão essencial, que é o que vai fazer o Tribunal Constitucional com o Orçamento do Estado.

 

Para Pedro Passos Coelho, a inconstitucionalidade do seu Orçamento de Estado é apenas mais um entrave no prosseguimento dos altos desígnios do governo. Para os seus mais diretos colaboradores, e para algumas das pardas individualidades liberais que lhe dão apoio político e ideológico, o Estado de direito é, além de uma irrelevância maçadora, um empecilho que urge alterar, se não mesmo rasgar, e mandar para o caixote do lixo.

 

Todos nos damos conta de que este governo submete todo o país à sua gestão errática, espalhando pela sociedade um cardápio de medidas políticas avulsas e erráticas, provando todos os dias que não possui qualquer estratégia coerente e socialmente justa e equitativa para o país.

 

Pelo caminho que isto leva, cada vez há mais gente a pensar, e provavelmente bem, de que a profecia cínica do engenheiro Sócrates de que havíamos de ter saudades do PEC IV, é atualmente, uma evidência, mesmo que serôdia.

 

Daí, presumivelmente, Cavaco Silva ter dito na sua primeira mensagem do ano que sem crescimento económico, os sacrifícios por que estamos a passar não nos vão servir para nada, nem para coisa nenhuma.

 

Os economistas nacionais e internacionais também já vieram explicar que um processo de redução das contas públicas acompanhado por um negativo crescimento económico tende a tornar-se política e socialmente insustentável. E por várias e distintas razões.

 

Desde logo porque depois da austeridade vem a quebra de produção e a esta junta-se a quebra das receitas fiscais, produzindo a urgência de mais austeridade para atingir as metas do nosso défice, o que por seu lado gera novas quedas de produção e assim sucessivamente. É o que é apelidada de espiral recessiva. Isto está a originar uma perda de poder de compra que se aproxima dos 30%.

 

Ora toda esta estratégia por parte de Passos Coelho tem como objetivo voltar aos mercados. E, estamos em crer, será essa a altura para o primeiro-ministro cantar vitória. Mas é provável que essa seja a sua vitória de Pirro.

 

Mas mesmo que isso se verifique, importa saber o que é que o país fará depois de se libertar da troika. Porque se não existir uma mudança estrutural no tecido produtivo nacional, todos os sacrifícios foram em vão. Até agora, e no ano que se avizinha, a nossa estrutura produtiva enfraqueceu de tal maneira que agoniza entre o espanto e a incredulidade.

 

Os trabalhadores ou estão no desemprego, ou nos seus postos de trabalho, com o coração nas mãos, cansados e desmotivados, enquanto os nossos melhores e mais talentosos jovens foram literalmente obrigados a emigrar para poderem aspirar a virem a ter uma vida minimamente digna e estável. E esta, é bom que o lembremos, foi uma escolha e um ditame do governo e não da troika.

 

Como se isto fosse pouco, o governo conseguiu transformar um debate da sociedade civil num ridículo exercício de manipulação da opinião pública, onde o primeiro-ministro teve o atrevimento de fechar a porta da sala na cara dos portugueses, como se eles fossem parvos ou analfabetos.

 

Foi mais um truque, dos muitos que este governo é perito em engendrar. Na dita conferência, o executivo debateu consigo próprio a questão da reforma do Estado. Como se estivessem num lanche em família, discutindo entre um pastel de bacalhau, um camarão cozido, um golo de vinho branco e um sorriso maroto, o despedimento de 120 mil funcionários públicos, dos quais 50 mil são professores. O senhor primeiro-ministro, ladeado por Carlos Moedas, Vítor Gaspar e o inenarrável Relvas, sorria com o seu ar de raposo matreiro, enquanto acenava com a cabeça a dizer que sim, que sim. “Afinal foi para isso que fomos para o governo”, afirmava enquanto tornava visível a textura fina e branca do marisco que entretanto mastigava.

 

É já por demais evidente que este governo tem uma predisposição para o despropósito infantil e supérfluo. Mal sai de uma trapalhada, logo se mete noutra. Depois do disparate da fuga de informação sobre o falaz relatório do FMI, o executivo de Pedro Passos Coelho resolveu organizar o que denominou como uma conferência sobre o tema: Pensar Portugal – Um Estado para Uma Sociedade.

 

A entrada no local da sua realização, o Palácio Foz, foi controlada por uma militante do PSD, a mando do primeiro-ministro, para onde a senhora funcionária “social-democrata” apenas convidou pessoas que apoiam a política do governo, gente fiel, portanto. Fiel e acrítica, subserviente e anestesiada com o Estado da Nação. Calculo a originalidade das propostas discutidas e o seu sentido político e científico. Por isso é que a captação de imagens diretas foi proibida e a divulgação das doutas opiniões dos opinantes só poderem ser divulgadas após autorização dos citados. A verdade é que nenhuma delas apareceu noticiada nos órgãos de informação, o que nos leva a inferir do nível e da pertinência do que ali foi dito e discutido.

 

Esta foi a maneira como o governo mobilizou a sociedade civil para discutir os graves problemas do país. Por isso mesmo é que já nem consegue mobilizar a maioria da militância do PSD, porque a do CDS já nem se levanta da cadeira para cantar o Hino Nacional na companhia do seu parceiro de governo.

 

 

 

PS - Ao nível dos municípios, o presidente da Associação Nacional de Municípios, o autarca do PSD, Fernando Ruas, fez há uns dias atrás duras críticas à nova lei das finanças locais, chegando a classificar as intenções do governo como “uma machadada final na autonomia do poder local”.

 

Considerou ainda a nova legislação como uma “perfeita ingerência” na vida das câmaras, denunciando que na sua discussão não entraram os autarcas democraticamente eleitos.


publicado por João Madureira às 07:45
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Domingo, 3 de Fevereiro de 2013

Ponte Romana


publicado por João Madureira às 07:45
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Sábado, 2 de Fevereiro de 2013

Passeando II


publicado por João Madureira às 07:45
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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2013

O Homem Sem Memória - 145


145 – Mas esta história de relatórios de crítica e autocrítica, de relatórios críticos sobre relatórios de crítica e autocrítica e ainda de relatórios críticos sobre os relatórios críticos de crítica e autocrítica deram lugar a uma espiral de relatórios críticos que ainda hoje estamos para perceber onde terminou.


Podemos no entanto afirmar que, pelo menos à escala dos nossos parcos conhecimentos, o camarada funcionário se viu na obrigação de escrever um relatório sobre os relatórios que lhe chegaram às mãos, bem assim como sobre os textos livres (ou não, mas não queremos entrar aqui em polémicas desnecessárias) dos camaradas pioneiros, coisa que muito tempo lhe ocupou e que muito sacrifício lhe exigiu, tendo mesmo pedido ao camarada José para lhe realizar um esboço que ele depois remataria com a ajuda do camarada Graça.


Ora, tão intricada tarefa criou um mal-estar na concelhia de Névoa que viria mais tarde a dar que falar e a definir algumas amizades e, sobretudo, a criar muitas e definitivas inimizades. Com a agravante de que, como todos sabemos, os marxistas-leninistas quando se zangam é para sempre.


O camarada funcionário, colocado pela direção regional do Norte entre as foices, os martelos e as estrelinhas do seu partido, resolveu distribuir o mal pelas aldeias. A fazer um relatório sobre a problemática da Escola dos Pioneiros tinha de chamar à pedra cada um dos intervenientes, pois eram todos ou culpados, ou inocentes, no problemático processo do seu encerramento. Ali não podia existir meio-termo. Essa era a estratégia.


A primeira coisa que fez foi reunir a Comissão Concelhia de Névoa e solicitar a cada membro efetivo, e também aos suplentes, como não podia deixar de ser dentro de um coletivo que baseava a sua razão de ser nos consensos mais alargados, um relatório sucinto, explícito e autêntico sobre a participação de cada camarada no processo.


Quando ouviram tal proposta, todos os camaradas ficaram com cara de caso. Muitos deles apenas tinham participado no assunto da Escola ao nível elementar de uma reunião onde se discutiu quem ficava responsável pela sua direção e quem lá ia ministrar aulas. Depois nunca mais tinham, sequer, pensado nisso. Aí o camarada funcionário foi aos arames.


“Por isso mesmo é que têm de fazer um relatório crítico e autocrítico sobre a vossa falta de disponibilidade e de terem encarado esta problemática com toda a leveza pequeno-burguesa que o nosso partido tanto critica”, disse sem se atrapalhar o camarada funcionário.


“Essa é que era boa!”, exclamaram, e repisaram, muitos dos presentes. “Tu vieste para aqui com a decisão tomada e agora queres que assumamos culpas no cartório numa coisa em que não fomos tidos nem achados? Era o que mais faltava. Se existiram coisas que correram mal na escola isso é da inteira, e exclusiva, responsabilidade do camarada José.”


“Ai é? Ai é?”, interpelou ironicamente o camarada funcionário para depois responder: “A culpa é de todos nós, camaradas. Se bem me lembro, aqui todos se eximiram de responsabilidades despachando tudo para cima dos ombros do camarada Graça, ou, o que ainda é mais grave, para cima dos meus. Ninguém teve a coragem de assumir qualquer tipo de responsabilidade ou tarefa na Escola. E como nem eu nem o camarada Graça tínhamos disponibilidade para juntar mais uma tarefa às milhentas que já desempenhamos, empurraram o assunto para o camarada José, mesmo sabendo que ele era criticista, ou lá o que é, e que, portanto, podia arranjar problemas no desempenho da sua tarefa.”


O camarada pai do camarada pioneiro João, vendo que as coisas tendiam a complicar-se resolveu atacar: “Vais-me desculpar, mas quem indicou o nome do camarada José não fomos nós, foi o camarada Graça.” “Desculpa-me lá camarada, mas deixa que te faça uma pergunta: Quem são os “nós”?” Ao que o camarada pai do camarada pioneiro João respondeu: “”Nós” somos todos aqueles que não participaram ativamente na Escola de Pioneiros.” “Vês, estás a dar-me razão. Vocês não participaram ativamente, e sublinho o “ativamente”, na Escola de Pioneiros, logo recusaram-se a aderir a uma iniciativa do Partido decidida pelo Comité Central, daí o serem culpados pelo seu encerramento”, disse o camarada funcionário já um pouco fora de si. “E é sobre isso que devem falar no vosso relatório de crítica e autocrítica. Ou, dito de outra forma, para ver se os camaradas entendem melhor, no vosso relatório deve apenas constar a autocrítica, pois, pelo que estou a ver, a crítica que fazem ao processo da Escola de Pioneiros é demagógica e…” “… Pequeno-burguesa…” “… Sim, pequeno-burguesa”… “… E de fachada socialista…” “… Sim, e de fachada socialista. Obrigado por mo lembrarem. Tem a palavra o camarada Graça.”


O camarada Graça tomou a palavra para lembrar que a decisão da escolha do nome do camarada José para dirigir, e dar aulas, na Escola de Pioneiros foi do coletivo e não dele. No que foi interrompido pelo camarada pai da camarada pioneira Lídia que lhe recordou o facto de ter sido ele quem teve a infeliz ideia de lembrar, e recomendar, o nome do seu amigo para desempenhar a tarefa.


Aí o camarada Graça deu um murro na mesa e disse que não admitia insinuações desse tipo, pois ele nunca confundiu as relações pessoais com as tarefas partidárias, ao contrário do camarada que tinha acabado de falar que travava dentro do partido uma guerra surda com outros camaradas para alcançar o desiderato de ser ele a dirigir a célula dos professores e não o camarada que atualmente desempenhava tal cargo.


Vendo que a discussão estava a entrar por um caminho nada recomendável, e muito pouco marxista-leninista, convenhamos, o camarada funcionário pediu licença para propor um pequeno intervalo pois tinha de fazer um telefonema para o Porto para contactar o seu camarada controleiro no sentido de receber diretivas mais precisas sobre o assunto em epígrafe (Perdão camaradas leitores, não, camaradas leitores não, leitores camaradas ou de outro tipo, desculpem-me a confusão. Por vezes os narradores também são vítimas da síndrome de Estocolmo, entre outras coisas.), em discussão.


Quando a comissão concelhia de Névoa do Partido Comunista se voltou a sentar à volta da mesa, o camarada funcionário estava ainda agarrado ao telefone e a escrever o que alguém lhe dizia do outro lado da linha. Foi com cara de poucos amigos que articulou o que a seguir relatamos.


“Camaradas, quero que saibam que liguei para o máximo responsável da Direção Regional no sentido de saber se existia alguma possibilidade de terminarmos com a problemática dos relatórios já aqui, pois, pelo que me apercebo, a questão pode trazer-nos vários e distintos problemas. As opiniões são muitas e diversas, mas a realidade objetiva é só uma: a Escola encerrou e, ao que parece, o Partido quer saber de quem é a culpa. E daqui não sai. Porque a responsabilidade política tem de ser de alguém. Não de uma pessoa só, mas de um organismo, já que aqui no Partido a responsabilidade, tanto nos êxitos como nos fracassos, é do coletivo, não das pessoas individualmente. Relativamente aos relatórios, infelizmente as notícias são más, todos vão ter de fazer o seu e nele vão ter de assumir a sua cota parte de responsabilidade. Disseram-me que no Partido a culpa não pode morrer solteira. E daí não saem. Daí ninguém os tira. Além disso, o camarada com quem falei disse-me que também ele, coitado, foi incumbido de elaborar um relatório que tem de entregar ao camarada que o controla para, também ele, elaborar o seu relatório que tem de entregar na sua secção que, por seu lado, vai ter de elaborar um relatório conclusivo que vai ser entregue em mão ao camarada Secretário-Geral que elaborará um relatório final para o Comité Central discutir e aprovar, para depois serem tomadas as convenientes decisões. E por agora é tudo.”


Para terminarmos o assunto da Escola de Pioneiros, informamos os estimados leitores, e os distintos companheiros de luta, que da análise do relatório do camarada Secretário-Geral resultou a destituição do camarada do Comité Central com a pasta da organização dos pioneiros, que passou a suplente da direção de um organismo regional; a transferência do camarada da direção regional do Norte para os Açores e também a deslocação do camarada funcionário do Partido em Névoa para o Minho. Ao Graça foi-lhe negada a inscrição, e participação, numa turma de militantes que iam para a URSS frequentar a Escola de Quadros e aí aprenderem a ser funcionários comunistas de primeira.


Aos restantes intervenientes no processo, o Partido resolveu não aplicar nenhuma sanção especial, limitando-se a mandar elaborar uma pequena ficha secundária, para apensar à principal, com a indicação da prática de trabalho fracionário em pequena dimensão. A princípio ainda foi aventada a hipótese de expulsar do Partido todos os elementos da Comissão Concelhia, mas isso era o mesmo que acabar com o Partido em Névoa, pois, apesar de poucos e maus, isto segundo as conversas informais dos dirigentes nacionais, eram eles que davam corpo ao Partido. Era preferível poucos e maus do que nenhuns


publicado por João Madureira às 07:45
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