Domingo, 31 de Março de 2013

Neve no recreio


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Sábado, 30 de Março de 2013

Interiores


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Sexta-feira, 29 de Março de 2013

O Homem Sem Memória - 153


153 – A extinção do grupo de teatro deu lugar à criação de mais dois. A esquerda é excelente nestas práticas. A sua capacidade de divisão e de reprodução em grupos, grupinhos e grupelhos foi sempre um dos seus melhores atributos.


O primeiro juntava os esquerdistas e os socialistas. O segundo agregava os militantes e simpatizantes do Partido Comunista, mais os respetivos unitários. Para sermos rigorosos, temos de explicar que o segundo grupo se subdividiu ainda noutros dois, porquanto a sensibilidade mais ligada aos intelectuais era defensora do teatro de vanguarda e uma outra, de cariz mais operário, se inclinava para o tipo de espetáculo de caráter essencialmente popular, logo cómico. No entanto uma coisa ainda os ficou a unir: todos ensaiavam na sala dos “Canários”, só que em dias diferentes. Fugiam uns dos outros como Trotsky de Estaline.


O José conseguiu, vá-se lá saber bem o como e o porquê, pertencer aos três. Estava decidido a unir o que a ideologia desunia com tanta exuberância. Isto apesar de serem todos marxistas.


O grupo esquerdista e socialista convidou um ex-actor do Seiva Trupe, que à época dava aulas em Névoa, para ser o seu diretor e encenador. Por causa dos apelos mais basistas, imitaram a técnica do improviso e puseram-se a rabiscar pequenos textos a partir de músicas do Zeca Afonso, tentando ilustrá-las com movimentos apelativos, numa mistura grossa entre ballet e danças folclóricas, combinando o “Lago dos Cisnes” com o “Malhão”. Era vê-los a esticar muito os braços em direção ao teto, e ao público, fazendo cara sofrida e falando muito em gaivotas, em pescadores, em estivadores, em burguesia, em operários, em exploração do homem pelo homem, em camponeses e na terra a quem a trabalha pois a canalha come palha, como as cavalgaduras.


Os ensaios nem sempre corriam como deviam. Não só porque se começaram a aperceber que a peça não funcionava como era suposto, pois não se conseguia enxergar lá muito bem o seu sentido, o que provocava acesas discussões entre os seus autores (que, é bom que se diga, pois corresponde à verdade, e, como todos bem sabemos, só a verdade é revolucionaria, eram todos), criando um mal-estar que indispunha, sobremaneira, o encenador, mais habituado a trabalhar textos de qualidade, fazendo com que a maior parte dos ensaios fossem orientados à vez pelos líderes das distintas fações existentes. Originando ainda mais barafunda e confusão, pois se um dava uma certa orientação às cenas, às falas, às músicas e à direção de atores, o que se lhe seguia fazia tudo ao contrário, tentando mostrar quem efetivamente detinha o poder.


Como todos mandavam era certo e sabido que ali ninguém obedecia. Muitas vezes, quando o encenador substituto dizia “toca a sair de cena quem não é de cena” ou saíam todos ou não saía nenhum, ou as duas coisas ao mesmo tempo, o que era ainda mais complicado de gerir e, sobretudo, de compreender.


Era extremamente difícil alguém fazer-se obedecer por quem contestava toda e qualquer autoridade pessoal. Nas poucas vezes em que aparecia o encenador titular, a maioria dos atores e figurantes tentava agir de forma a que o espetáculo ganhasse certa dinâmica e ainda algum sentido, mas a verdade é que o diretor passava quase todo o tempo a reunir com os atores principais, escolhidos exclusivamente por si, e que obedeciam a um princípio: todos gostavam muito de fumar umas ganzas. E era isso que faziam enquanto os restantes se exercitavam nos gargarejos, na colocação da voz, no ensaio de vários passos de dança e na memorização de várias falas. E andaram naquele teatro de enganos durante dois ou três meses sem que a peça adquirisse qualquer aspeto coerente. Foi portanto com um misto de espanto e incredulidade que ouviram o encenador, e diretor, anunciar que, apesar de não parecer, a peça estava pronta para ser apresentada ao público e com esse propósito indicou uma data que, curiosamente, coincidia com a primeira semana de férias grandes da estudantada.


Foi marcado o dia da estreia. Foram vendidos os bilhetes. Foram elaborados e afixados os cartazes. No dia da estreia apenas apareceram os atores secundários e o público, pois ao encenador nunca mais lhe puseram a vista em cima e os atores principais foram passar o fim de semana a Lisboa onde assistiram a um concerto de reggae.


O José nem teve tempo para se desiludir, pois, como informámos anteriormente os estimados leitores, o nosso herói fazia parte de mais dois grupos que naquele momento ensaiavam duas peças de teatro. Uma de um autor português militante do Partido ainda sem nome na praça e a outra de um autor clássico francês muito conhecido, mas de quem agora não lembramos o nome.


A primeira consistia num texto pretensamente moderno onde se tentava desmistificar o teatro como espetáculo, brincando com os estereótipos de classe. O José fazia de ator principal e ao mesmo tempo de falso encenador, muito intelectual, muito revolucionário, muito dado à causa da verdade e da revolução, todo entregue à arte e à sua glorificação. E punha máscaras e tirava máscaras e contracenava com uma diva que o tentava tirar dos espetáculos revolucionários dizendo-lhe que ele era um génio das artes cénicas e que se andava a perder no meio da populaça e do teatro dos maltrapilhos e dos famintos. Mas ele, metido dentro do seu papel, contrapunha que a arte só é arte se for revolucionária, por isso detestava a frivolidade e que o seu dom só tinha sentido se fosse orientado para servir o povo, para denunciar o mal e defender o bem. Mas temos que ser sinceros e comunicar que, apesar do texto ser vigoroso, ao José as palavras saiam-lhe sem chama nem viço. E isto porque a pretensa diva era uma rapariga desengraçada, sem voz para o teatro, com um corpo de lutadora de luta livre, com uns ombros vigorosos, com uma anca reduzida, que, apesar de bem vestida, parecia um manequim de feira, gesticulando fora de tempo, tentando seduzi-lo com a mesma sensualidade de uma senhora de oitenta anos. E como se tudo isso fosse pouco, a donzela rechonchuda estava apaixonada por ele, quase até à náusea. Perseguia-o dia e noite, mandava-lhe bilhetes, escrevia-lhe cartas, fazia-se encontrada em todas os cantos e esquinas. Um dia conseguiu levá-lo mesmo até sua casa e, numa manobra de sedução, despiu-se atrás de um biombo, vestiu um robe e puxou-o para a cama. Ele resistiu, tarde, mas resistiu. Ela deitou-se ao seu lado, por baixo e por cima dele, beijou-o, abraçou-o, acariciou-o, lambeu-o como se fosse um chupa-chupa, disse-lhe palavras doces, recitou-lhe poemas eróticos, fez trinta por uma linha, mas o José parecia que tinha sido mergulhado nas águas do Tâmega em dia de geada, por isso não conseguiu reagir. Mas nem mesmo assim a rapariga desistiu do seu amor e do seu Romeu. Já de pé, porque deitados estavam sentenciados ao adormecimento, abraçou-o pela cintura e pôs-se a falar com ele e a dizer que o desculpava pela sua fraqueza, que ainda o amava mais, se isso fosse possível, por ter demonstrado que não é o amor físico o que o atrai e que mais isto e mais aquilo. Mesmo não querendo ser indelicado, o José bem porfiou nas suas tentativas de se libertar do abraço da ursa apaixonada, mas é o libertas. Deu para perceber que a donzela dos ombros largos podia não ser lá muito prendada, mas era mulher para o agarrar com muita resolução e crença. Já ia alta a noite quando o José utilizou o último recurso, dizendo que logo pela manhã tinha um teste de filosofia no Liceu e que tinha de fazer uma direta para estudar, pois a prova era decisória. À falta de melhor fundamento socorreu-se dos versos de uma canção brasileira então muito em voga. E com a sua cara de verdadeiro ator recitou: “Além disso a minha mãe não dorme enquanto eu não chegar.” Sensibilizada com este último argumento, resolveu libertá-lo mas com a promessa de que lhe desse um tempinho para se vestir e poder acompanhá-lo a casa.


Se esta cena de amor foi deplorável, por todas as razões e mais algumas, então a da apresentação da peça nem é bom falar. A verdade é que o edifício dos “Canários” desabou perto das três da manhã, apenas cerca de vinte e cinco minutos depois de os elementos do grupo de teatro o terem abandonado após o último ensaio antes da estreia. Com a companhia salva quase por milagre, resolveu-se transferir o espetáculo para o Cineteatro da cidade. Mas existia um problema. Como a sala era enorme tornava-se extremamente difícil os atores fazerem-se ouvir sem a devida ampliação da voz através de microfones. Depois de várias e distintas experiências, chegou-se à conclusão que para serem audíveis os diálogos das diversas personagens, tinha de se semear o palco com microfones emprestados por um grupo de música rock e limitar as deslocações dos atores ao mínimo indispensável. Conclusão: todos ficaram nos seus postos a debitar o texto sem quase se mexerem. O José passou sensivelmente todo o espetáculo ao lado da atlética Julieta escutando-lhe a sua voz desengraçada ampliada pela aparelhagem. Apenas o público se portou como devia, no fim não bateu palmas, mas também não arriou porrada em ninguém por causa de tão mau desempenho.


Depois de mais um fracasso, ao José apenas lhe restou levar a sua cruz até ao calvário. Do mal o menos, na terceira peça unicamente executou a tarefa de sonoplasta.


Durante um mês, auxiliados e transportados por um camarada camponês que possuía uma carrinha de caixa aberta, calcorrearam o concelho, apresentando com assinalável êxito uma farsa gaulesa que muito fez rir o povo das aldeias, pois nisso é como as crianças, as piadas mais brejeiras e alarves são as mais bem aceites. Ai povo, povo que lavas no rio e talhas com teu machado as tábuas do caixão do senhor que escreveu a letra da citada cançoneta, a quanto obrigas. Que seja tudo pela altura do incenso. 


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Quinta-feira, 28 de Março de 2013

À porta


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Quarta-feira, 27 de Março de 2013

O Poema Infinito (139): bênção

 

Voamos como os insetos à volta das lâmpadas em movimentos fortuitos e as pedras transformam-se em cinza e a noite torna-se obscena. De imediato lanças frementes atravessam o espaço indo cair na margem sombria do silêncio. Erguemos esse silêncio, envolvendo-o com os braços em forma de teia de aranha. Já não há nenhum firmamento que consiga proteger-nos do abraço definitivo da noite. A noite estala como se fosse feita de bagos de milho que explodem dentro de um micro-ondas. E a tua transparência surge desenhada pelas delicadas veias do meu sexo. Esse é o meu corpo futuro. Beijo-te os lábios como os poemas beijam a brancura incompleta do amanhecer. As lâmpadas transformam-se em flores e decidem iluminar a felicidade ténue da tua nudez. Eu nomeio o teu desejo e inscrevo-o na pele fresca da lua que é agora uma deusa de chuva. Bebemos a água no oásis do silêncio da manhã. Um lírio nasce no meio dos teus seios. Uma luz misteriosa voa alto em direção ao teu olhar. As palavras curvam-se. O tempo desenha o alvo. As janelas deixam entrar as nuvens. Apesar da nossa idade cansada deitamo-nos na nascente do desejo à espera que circule por nós. Voam os sonhos como pássaros fugidios dissolvendo a terra, pegando fogo aos desejos, queimando os fantasmas brancos da loucura. O mundo revela-se dentro das suas torres obstinadas. A chama dos teus olhos flutua entre línguas de veludo. Tens o rosto tatuado de água. És uma menina nua dormindo sobre as dunas protegida por uma pantera vermelha. A espuma inunda-te o sono e faz-te despertar do devaneio. Eu escrevo um poema suspenso no azul do céu procurando identificar a pureza da água no teu corpo. Círculos vazios vibram dentro do nada estendendo o horizonte do fim para o princípio. Sonho com a ardência do teu corpo, com a mudez das casas, com o fragor dos minotauros, com os labirintos do desespero, com a solidão da sede, com a fragância da névoa, com o fulgor dos teus olhos matinais, com a nitidez dos rostos enlouquecidos. Nas nossas mãos nascem raízes que atravessam as sombras. O nevoeiro sobe pelos muros. Uma luz subterrânea alimenta a memória. O teu rosto persiste e procura as carícias. Dizes: Amo a tua timidez. E a tua fragilidade acesa. E a tua permanente adolescência repleta de recatos. Inclino-me e ofereço-te uma frágil flor de chuva. E guardo as tuas palavras dentro do meu coração de árvore inexorável. Possuirei o teu corpo com a perseverança do mar correndo como o vento na rapidez dos teus gestos. Por isso escrevo incendiando as bocas silenciosas e pegando fogo às palavras, procurando indefinidamente a enigmática transparência de cada pessoa. Por isso sorvo a cor das montanhas, a agitação dos mares, a calma do entardecer, a trémula nascença de uma flor, a violência de um parto, a impaciência de um coito, as linhas intermináveis do horizonte, a inclinação das luzes, a frescura da terra quando chove nas tardes quentes, o reflexo dos teus olhos, a marcha do vento, a respiração feliz dos amantes, a impenetrável lucidez dos loucos. Por isso toda a linguagem é necessária, por isso a luz incide duramente sobre a vida, por isso todas as coincidências são inflexíveis. Digo: Deixa-te estar mais um bocadinho pois eu nutro-me de ti. Adormeço beijando-te entre um sorriso e duas lágrimas. Bendita sejas. 


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Terça-feira, 26 de Março de 2013

Homem com cajado


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Segunda-feira, 25 de Março de 2013

Pérolas e diamantes (30): a loucura de Nietzsche


Começo esta crónica quase sem palavras, claramente tão poucas como as que existem no filme “O Cavalo de Turim”, do húngaro Béla Tarr, película que conquistou o Urso de Prata – Grande Prémio do Júri no Festival de Berlim em 2011 – e foi, segundo o autor, o filme que encerrou a sua carreira.

 

O filme começa com o ecrã em negro e com as seguintes palavras do narrador: “Turim, 3 de janeiro de 1889. O filósofo Friedrich Nietzsche sai de casa. Ali perto, um camponês luta com a teimosia do seu cavalo, que se recusa a obedecer. O homem perde a paciência e começa a chicotear o animal. Nietzsche aproxima-se e tenta impedir a brutalidade dos golpes com o seu próprio corpo. Naquele momento perde os sentidos e é levado para casa, onde permanece em silêncio por dois dias. A partir daquele trágico evento Nietzsche nunca mais recuperará a razão. Ficando aos cuidados da sua mãe e irmãs até ao dia da sua morte, a 25 de agosto de 1900.”

 

A seguir vê-se um cavalo a puxar uma carroça e um velho em cima dela. Depois o filme tenta recriar o percurso do camponês, da sua filha, do velho cavalo doente e a sua vida miserável. E não sai disso, metido quase sempre dentro de quatro paredes, numa contemplação aflitiva do vento e das folhas feita através de uma janela minúscula. De Nietzsche nunca mais se ouve falar, nem se sabe muito bem porque foi citado.

 

Eu, ao contrário de Béla Tarr, até vos queria falar do filósofo alemão, designadamente porque queria chegar a Freud, devido ao facto de andar a ler o livro de Michel Onfray, onde o autor pretende demonstrar que o pai da psicanálise é uma fraude, inspirada, sobretudo, imaginem só, em Friedrich Nietzsche. As voltas que a ciência dá!

 

Mas resolvi deixar essa abordagem do “Anti-Freud” para outra altura, porque a figura de Nietzsche a aproximar-se do camponês que chicoteava o cavalo e a tentar impedir a brutalidade dos golpes com o seu próprio corpo, me fez olhar para as notícias dos últimos dias e ficar em estado de choque.

 

Eu explico. Com a crise que o atual Governo da Nação está a impor, a golpes de chicote, ao país, e com o sucesso que todos sabemos, agora já não nos enganam vendendo gato por lebre, como nos bons velhos tempos, mas sim enfiando-nos carne de cavalo por carne de vaca.

 

Eu sei que a carne de cavalo até é mais barata e saudável, que é rica em ferro pois possui um maior teor de hemoglobina, sendo por isso uma forma de tratamento das anemias e até usada por atletas de alta competição. Sei ainda que tem um baixo teor calórico, ao contrário das carnes vermelhas, e que possui, comparativamente, a mesma gordura da coxa de um frango, sendo boa para prevenir, ou mesmo tratar, problemas relacionados com o colesterol.

 

Mas que, por causa da crise, andem a abater cavalos puro-sangue lusitano e garranos aos milhares, para consumo, deixa-me à beira do desespero.

 

O preço de um potro garrano varia entre os 75 e os 100 euros e o do puro-sangue lusitano atinge certamente valores mais altos.

 

Em 2012 foram abatidos 2.803 cavalos, quatro vezes mais do que em 2011, um aumento de 312%. No que diz respeito aos garranos, a carnificina atingiu mais de metade dos poldros do Minho.

 

Parece que já ninguém sabe muito bem aquilo que há de fazer. Neste estado de coisas, além de se abaterem cavalos (o que seria de Nietzsche se lhe tocasse viver em Portugal), também se abatem empregos aos milhares todos os dias. Mas, nesse aspeto, há sempre gente inteligente que sabe muito bem aquilo que tem de se fazer.

 

João Salgueiro, ex-ministro do PSD e membro do Conselho Económico e Social, possivelmente depois de ter lido o capítulo “Do homem superior” (“Assim Falava Zaratustra”, de Friedrich Nietzsche), resolveu citar Keynes: “Se não sabem o que fazer, ponham metade dos desempregados a abrir buracos e a outra metade a tapá-los. O que interessa é que estejam ocupados.”

 

Não sabemos é se com o dinheiro que vão receber, esses fazedores e tapadores de buracos, conseguirão amealhar o suficiente para conseguirem chegar à carne de garrano, pois a de vaca para eles está ao preço do caviar para Cavaco Silva. Por isso tememos que, depois dos cavalos, sejam os burros as próximas vítimas. O problema é que em Portugal os asininos de raça, não os de condição, estão em vias de extinção.

 

Mas voltemos a Nietzsche (“A Ceia”- “Assim Falava Zaratustra”).

 

“E a propósito: não me tinhas convidado para uma refeição? E repara, todos os que aqui estão tiveram de percorrer um longo caminho. Por certo não vais alimentar-nos com discursos!”

 

“E já todos vós falastes demasiado do perigo de se morrer congelado, afogado, ou de qualquer outro mal; mas nenhum de entre vós pensou no mal de que, pela parte que me toca, sofro, e que é a fome.”

 

“Assim falou o Profeta, mas quando os animais de Zaratustra ouviram estas palavras, fugiram apavorados; pois eles bem viam que tudo o que tinham conseguido trazer durante o dia não era suficiente para encher o estômago àquele único profeta.”

 

“ (…) Assim falava Zaratustra – mas o Rei da direita replicou: “É estranho! Já alguma vez se ouviram palavras tão razoáveis sair da boca de um sábio?”

 

“E em verdade, o que de mais estranho se pode encontrar num sábio, é ele ser razoável e não um burro.”

 

“Assim falava o Rei da direita, surpreendido. Mas o burro sublinhou as suas palavras com um I-han! descontente.”

 

Pelos vistos, com o caminho que isto leva, só nos resta juntarmo-nos ao burro do Zaratustra e

fazer: I-han! I-han! I-han! I-han!

 

Nesta época de vacas anoréxicas, está um tempo para cavalos gordos, economistas inteligentes e para burros filosóficos, tenham eles a condição que tiverem. 


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Domingo, 24 de Março de 2013

Neve no bairro


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Sábado, 23 de Março de 2013

Duo


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Sexta-feira, 22 de Março de 2013

O Homem Sem Memória - 152


152 – E lá foi a rapaziada dos “Canários” pregar a outra freguesia. Através de vários contactos estabelecidos com distintas associações de índole cultural, a que não era estranha a filiação partidária dos dirigentes, dos atores e do restante pessoal, arranjaram disponibilidade, e ajuda financeira, para rumarem até ao centro do país, para aí exibirem a sua arte.


Alugaram um autocarro onde transportaram as pessoas e o restante material necessário ao bom desempenho do seu trabalho e, carregados de boa-fé e muita esperança, dormiam em pousadas da juventude, comiam onde calhava e apresentavam o espetáculo onde fosse possível, bastava para tanto que existisse um palco, mesmo que improvisado, e um ponto de luz para ajudar no som e na iluminação.


Apesar do espetáculo estar pensado para exortar as massas à revolta e a participarem ativamente, primeiro na revolução democrática e nacional e de seguida na revolução socialista em direção ao comunismo, o sucesso da peça residia, quase exclusivamente, na “banda sonora”, especialmente no fado do tal povo que lava no rio e talha com o seu machado as tábuas do caixão do senhor que escreveu a letra da cançoneta. O único defeito para os especialistas na cantiga dos bairros de má fama, e pouca fortuna, de Lisboa, residia no facto de o fadista ser apenas acompanhado à viola pelo seu irmão. Guitarra nem vê-la. E um fado sem guitarra fica manco. Mas, mesmo assim, o povo aderia à modinha e punha-se a cantar ao lado do fadista com muito tino e afinação. Está claro que isto exasperava os atores e as atrizes com mais consciência política do grupo. Que o povo se identificasse, quase exclusivamente, com este tipo de cançoneta reacionária, monótona e desprezível, deixava-os desconsolados, pondo muitos deles a pensar e a comentar, se valia verdadeiramente a pena apostar no teatro como instrumento de ajuda no esclarecimento do povo que queriam libertar da ignorância e da exploração do homem pelo homem. Além disso, a letra falava em “chão sagrado”, o que revelava uma clara conotação religiosa, logo reacionária e trazia à baila um “aroma de urze e de lama”. “Aroma de urze”, ainda vá que não vá, agora “de lama”?, isto atingia as raias do mau gosto e da idiotice. Onde se viu alguma vez um aroma “de lama”? O que queria dizer o homem que escreveu o poema com tamanha alarvidade? E, como se ainda fosse pouco, tinha mesmo um verso em que declarava rigorosamente: “Deste-me alturas de incenso”. “Alturas de incenso”? Afinal, o autor pretende falar do cheiro do “incenso” ou das “alturas” do fumo? Ou a que raio se queria ele referir?


Estas e outras interrogações incómodas foram circulando de boca em boca, o que originou uma espécie de desconfiança não só em relação à música propriamente dita, mas também em relação ao duo de irmãos fadistas que se limitavam, depois do espetáculo, a beber fino atrás de fino sem se comprometerem com mais nada. Pouco lhes interessava o que os elementos mais revolucionários do grupo diziam acerca do fado.


A verdade é que o pessoal começou a desmoralizar e a pensar seriamente em acabar de imediato com aquele arremedo de peça subversiva. Para isso reuniram em plenário e debateram o tema com a seriedade exigida. A maioria votou a favor da proposta dos esquerdistas que apontavam ou o cancelamento do espetáculo ou, então, a eliminação do fado da “banda sonora”.


Os elementos dirigentes ligados ao PC ficaram fulos pois alguns dos seus militantes, ou simpatizantes, tinham votado contra os dois fadistas que, apesar de não serem propriamente comunistas de cartão, eram simpatizantes comunistas com provas dadas. Alguém lembrou que a proposta ganhadora de se acabar com a peça ou com o fado, colidia com a circunstância de o grupo estar obrigado, por contrato, a levar a efeito os espetáculos previamente definidos. Do outro lado surgiu o comentário de que o contrato não tinha validade nenhuma pois as associações que o assinaram não pagaram um mísero tostão à passarada canarinha.


Com o grupo rachado, não restou aos presentes outra solução a não ser a de darem a digressão por terminada. Depois das despedidas conflituosas e de uma que outra palavra mais viva, ou atitude mais belicosa, meteram-se dentro da carreira e rumaram caras a Névoa. A meio do caminho, e a meio da noite também, foram mandados parar por uma brigada revolucionária do exército que estava de vigia às manobras reacionárias dos adversários da revolução democrática e nacional (imaginem só quando ela se transformar em socialista a caminho do comunismo!), pois, ao que corria como informação fidedigna, é que os spinolistas tinham intentado mais um golpe para por termo à democracia participativa e ao avanço para isso que nós sabemos.


Tudo correu bem até um dos graduados ter descoberto as fotografias com o semblante de Marcelo Caetano, de Américo Tomas e de Salazar coladas em cartão prensado e pregadas em ripas. Surpreendidos com tal achado, quiseram questionar os responsáveis pelo grupo sobre a razão de tal dislate. Não seria que por debaixo do manto de um grupo de teatro popular se pretendia esconder um bando de fascistas?


Está claro que a insinuação exasperou os presentes. Foi um problema para o militar graduado se pôr à fala com algum dos responsáveis. Como o grupo estava sem diretor, ninguém quis assumir interinamente o cargo e prestar as devidas explicações a quem de direito. Quem salvou a situação foi o José quando colocou a questão sem papas na língua: “Então acham que se fossemos verdadeiros fascistas andávamos com os retratos dos nossos líderes à vista de todos? Com os ares que atualmente por cá se respiram, essa era a fórmula perfeita para acabarmos na prisão ou em frente a um pelotão de fuzilamento.”


O argumento fez com que a tensão se dissipasse e por isso os “Canários” foram autorizados a seguir caminho rumo ao seu destino. 


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Quinta-feira, 21 de Março de 2013

Solitário

 


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Quarta-feira, 20 de Março de 2013

O Poema Infinito (138): insinuação


Adivinho-te pela insinuação do corpo, pelo devagar do teu amor, pela vista jubilosa do teu olhar e pela frescura verde da tua luz. Junto aos pinheiros desafetamos os pensamentos com a lentidão clamorosa do entardecer. Perto do rio, as sombras estendem o seu sono pelo susto breve do adormecimento. O pensamento recupera o seu vagar. A infância imensa ainda se agita dentro de nós. E nós dentro dela. O tempo move-se na ordem singular da sua glória eterna. Com o declinar da tarde, as palavras exultam na sua nova grafia acústica. Os bosques prolongam-se nos seus dédalos eficazes de verdura. Os faunos andam por aqui. E despertam dentro do seu ócio pesado e da sua nitidez surda. Os animais do bosque fundem um novo tempo e um outro espaço. As nuvens do poente saturam-se de luz e paciência. E a noite começa a expandir-se próxima do seu lume. Os nossos olhos recuperam as representações do dia. E brilham entrando pela razão da alma. As imagens sofrem o trabalho invisível dos enigmas e recuperam a terra antiga e os anos de paciência iluminada. A eternidade do entardecer é frágil por isso se desenha no sossego jubiloso das águas. E o silêncio traz mais silêncio e este mais silêncio ainda. Alguém fala dentro do seu procedimento de entrega. Também o vagar é eterno, como eterna é a nostalgia e o sossego abstrato dos objetos. Identificamos o amor pelo seu uso e deixamos que a noite nos narre a eternidade do mundo. Todo o espaço irradia o seu tempo. A golpes de alma se subverte a evidência da morte. O mundo oferece-se aos homens. A idade do tempo desassossega-nos. O mesmo aconteceu a Noé quando as suas pombas sacramentaram as águas que engoliram as montanhas e as palavras. Toda a glorificação consome a obra e o esplendor da ordenação e a uniformidade oferecida das flores. Por isso Deus se consuma dentro da sua tepidez divina. Tudo o que é divino se reduz à sua eternidade estancada. Aproximo-me da idade diáfana da lucidez. Por isso sinto o afeto doloroso do alheamento a invadir-me com a sua insondável invisibilidade de exílio. Nos campos brilham os frutos na sua evidência vegetal. Ouve-se uma música imóvel. O mundo volta a iluminar-se dentro da sua abstração de borboleta caótica. Da nossa janela vê-se o mundo todo e também o eixo imperfeito das estações. O horizonte torna-se invisível. Ruminamos a brisa prodigiosa da lucidez do pinheiral. As folhas das árvores iluminam-se com a lucidez impetuosa das lágrimas. O mundo move-se no seu profundo júbilo expansivo. Este é o início de mais uma diegese antiga. E as nuvens prolongam-se ao ritmo da narração. A noite transporta consigo novas imagens enigmáticas. O universo é uma extensão de silêncio. Por isso o teu corpo é um alicerce de surpresa. E a surpresa fixa-se na previsibilidade dos sexos. A noite sobe por nós. A imensidão do céu aproxima-se do nosso sono. O prazer torna-se azul. Devolvemos as estrelas à sua própria graça. A chuva ilumina as ruínas. A madrugada trará a brisa húmida e a luz paciente da humildade. O vento varre as portas e as janelas das casas. As aves cicatrizam-se nos seus voos. Eva volta a ser pecadora. Por isso sinto um infinito respeito pela estupidez do Adão. Todo o rigor contemporâneo me abandona. 


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Terça-feira, 19 de Março de 2013

Entre o boi e a parede

 


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Segunda-feira, 18 de Março de 2013

Pérolas e diamantes (29): o protocolo e as coisas

 

A arte existe porque a vida não chega, lembra-nos o poeta brasileiro Fernando Gullar.

 

Observo diferentes fotos antigas de Chaves e penso que esta terra já foi berço de excelentes artistas e também de bons estadistas. Homens que entendiam o exercício da política como uma arte. Mas atualmente, Deus meu, tocamos mesmo no fundo. O que temos em termos de ciclo político autárquico é mau e o que se aproxima não será, quase de certeza, melhor. Que Deus nos ajude, se puder.

 

Eu agnóstico me confesso, mas deixo que o materialismo e a metafísica convivam dentro de mim em afetuosa tensão. Nisso acompanho Fernando Gullar. Não sou religioso, nem acredito em Deus. Mas, apesar de o não ser, considero que o Universo é inexplicável.  

 

Inexplicável é também o que os responsáveis atuais fizeram à nossa cidade e ao nosso concelho. Não sei porquê, mas vem-me à memória o título do livro de Arthur Koestler, “O Zero e o Infinito”.

 

Talvez um dia me inspire a escrever um conto intitulado “O Infinito e o Zero”.

 

A cada dia que passa fico mais estupefacto em relação ao mundo. Porque é que existe a matéria em vez do nada? Dizem que o mundo teve um começo. Falam do Big Bang, dessa enorme explosão de energia e matéria. Mas como é que do nada surge uma deflagração dessa magnitude? É um mistério sem decifração.

 

Também o poder autárquico desta última década continua a ser para mim um mistério sem explicação. Como é que gente com tanta falta de talento para a política foi capaz de se impor no seu partido e de ganhar eleições? Eu gostaria de conseguir entender o enigma, porque considero que é melhor ter uma resposta explicativa das coisas do que não a ter. Afinal estamos sujeitos ao acaso, à Teoria do Caos. Em política, particularmente na nossa cidade, tudo pode acontecer.

 

Foi a ler “O Bom Soldado Svejk”, de Jaroslav Hasek, que descobri uma possível resposta, não para a explicação da origem do Universo, pois isso era pedir demais a um livro humorístico, mas sim para a vitória do atual poder autárquico. Que também pode ser extensível a anteriores executivos camarários e de algumas juntas de freguesia.

 

O bom soldado Svejk conta, a dado momento, a história de um homem que num interrogatório, quando lhe perguntaram se tinha alguma objeção ao protocolo, disse: “Independentemente da forma como se passaram as coisas, sempre se passaram de alguma forma, até à data não houve vez nenhuma em que não se tivessem passado de alguma forma.”

 

De facto, em Chaves, depois de tanto esforço por parte das autoridades civis e militares, depois de tantos presidentes de câmara, vereadores, presidentes de junta, assessores, secretários, doutores, arquitetos, engenheiros, deputados, deputadas, governadores civis e marechais, até à data não houve vez nenhuma em que as coisas não se tivessem passado de alguma forma. E nós somos testemunhas de que nunca ninguém pôs em causa o protocolo, independentemente da forma como se passaram as coisas, pois elas, as coisas, sempre se passaram, e passam, de alguma forma.

 

Também nós flavienses, à imagem e semelhança do valente soldado Svejk, perante os absurdos colossais e insondáveis dos nossos políticos, e das suas políticas, resistimos oferecendo a mais veemente cooperação.

 

Foi Montesquieu, nas suas Cartas Persas, que deu origem a uma tradição humorística que pretendia demonstrar quão ridículo é o mundo se observarmos os seus princípios civilizacionais com olhos de um extraterrestre.

 

Estamos em crer que os discursos da gente que nos governa são todos inspirados no coronel Salzburgo, um dos muitos personagens do livro de Hasek. O militar padece da mania de definir enciclopedicamente qualquer objeto que lhe apareça ao alcance da mão, ou do discurso: “Um livro, meus senhores, é um conjunto de folhas de papel de recorte diferente e formato diverso que é coberto de carateres impressos e depois agrupado, cosido e colado. Pois. Sabeis, meus senhores, o que é a cola? A cola é um preparado glutinoso para fazer aderir papel, madeira e outras substâncias.”

 

E perante a nossa teimosia em não querermos ser tratados como imbecis, esses nossos dirigentes de certeza que olham para nós com os olhos, e as intenções, do catequista violento do delicioso livro de Hasek, que “pretendia aproximar toda a gente de Deus” à força de porrada. Pois, como conta o bom soldado Svejk, ele esbofeteou um aluno porque apresentara determinadas dúvidas relativamente à Santíssima Trindade. “Recebeu três estalos. Um por Deus Pai, o segundo pelo Filho de Deus, e o terceiro pelo Espírito Santo.”

 

Estimados leitores, pelo que vou lendo, escutando e observando, cada vez mais me convenço que Mark Twain tem toda a razão: “A Humanidade tem apenas uma arma eficaz: o riso.”

 

E é bem verdade que cá por Chaves também nos rimos… para não chorar. 


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Domingo, 17 de Março de 2013

Neve


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Sábado, 16 de Março de 2013

Feira dos Santos


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Sexta-feira, 15 de Março de 2013

O Homem Sem Memória - 151


151 – A verdade é que a peça foi escrita, musicada, ensaiada e levada à cena em pouco tempo. Os textos todos os sabiam de cor e salteado, as músicas eram as que passavam todos os dias na rádio e os atores e atrizes eram simples aprendizes de feiticeiro intentando disfarçar-se de revolucionários.


A peça era tão popular que tinha mais figurantes que atores, sendo que os figurantes, por artes do próprio mafarrico, passavam por verdeiros atores e os verdadeiros atores, por obra e graça da emergente revolução, eram encarados como figurantes. Em tempos de mudanças aceleradas, a arte é revolucionada pela própria verdade, sendo que a verdade para uns é a mentira para os outros. E vice-versa.


Por ali andavam citados excertos de todos os bons dramaturgos da cultura ocidental, só que as referências eram todas maneiristas. Quem estava por dentro era capaz de identificar citações de Shakespeare resumidas em um “não” do Rei Lear, num “sim” do Círculo de Giz Caucasiano de Brecht, ou numa interjeição burlesco-judaica do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. Mas de boas intenções está a cultura portuguesa cheia. E o teatro também.


Podemos resumir a peça em alguns momentos basilares: um bom ator com cara de parvo a fazer disso mesmo, vários comunistas a fazer também deles mesmos, o José a atuar como drogado e filho da burguesia, o José a compor o papel de membro da mocidade portuguesa, o José a fazer de escravo angolano chicoteado pelos temíveis, e terríveis, colonialistas portugueses, e no momento mais celebrado do espetáculo, o Manuel António a cantar o “Povo que lavas no rio” enquanto em palco meia dúzia de atores desengonçados se arrastavam pelo chão fazendo gemer as velhas tábuas do palanque.


Podemos dizer que a peça foi um sucesso em Névoa, terra muito pouco habituada a espetáculos tão apelativos. Pena foi que os assistentes se resumissem apenas aos militantes de esquerda e respetivos familiares. Mas serviu, pelo menos, para dar calor aos convencidos da revolução de que o seu convencimento não era em vão.


Por exemplo, a mãe do José encheu-se de chorar baba e ranho quando viu o seu rebento em cena saudar Salazar e ser apupado pelo público presente; quando o avistou derreadinho de todo debaixo de um saco de café que transportava às costas, sendo chicoteado por um feroz colonialista que, curiosamente, usava o chapéu versão africana, ou indiana, da GNR que o guarda Ferreira resolveu emprestar à comandita a pedido do filho; ou quando o enxergou aos ziguezagues e aos tombos pelo palco fora fazendo-se de drogado e filho da burguesia. Claro está que só descobriu que o José estava a representar esse malfadado papel depois de dois camaradas operários o apelidarem disso mesmo, senão, pelo menos para a Dona Rosa, o José apenas representava o papel de bêbado, imitando na perfeição o guarda Ferreira quando chegava embriagado ao lar, depois de mais uma noite de afogamento das insónias existenciais em copos de vinho nas tabernas da cidade, que eram a modos como a sua via-sacra. É bem verdade que cada filho de Deus transporta a sua cruz.


Faltaríamos à verdade se não aclarássemos que até o guarda Ferreira verteu a sua lagrimazita vendo o seu filho fazer papel de parvo. O José, na visão do seu progenitor, podia não ser parvo nenhum, mas representava esse papel na perfeição. Cada um é para o que nasce, e o José era um ás a fazer papel de parvo. Por isso fazia papel de fascista parvo, fazia papel de preto parvo, fazia papel de drogado parvo. E de tão parvo que, por momentos, todos na sala se convenciam que era mesmo parvo rematado.


Por isso o espetáculo resultou na perfeição. O idiota atuava tão bem no seu papel de idiota que todos saíam do espetáculo convencidos que era mesmo idiota; os comunistas faziam tão bem disso mesmo que ninguém diria que eram mesmo comunistas, porque na vida real até os comunistas são incapazes de fazer de comunistas tão bem como os atores que, sendo comunistas, devem tentar não o aparentar para que o público consiga distinguir a realidade da ficção, pois, por muito que queiramos, a realidade é a realidade e a ficção é outra coisa diferente. Porquanto um ator comunista pode fazer de comunista, mas nunca conseguirá sê-lo verdadeiramente. Porque um comunista nunca atua, nunca faz de conta, nunca se disfarça. Por isso é que, voltamos a repetir, é extremamente difícil fazer de comunista, mesmo sendo-se comunista. Um comunista disfarçado dele próprio é quase um paradoxo. Ninguém, nem mesmo os comunistas, conseguem representar-se a si próprios sem se sentirem ridículos. Eu sei que isto é um pouco complicado de entender, mas todos temos de fazer um esforço acrescido para que a explicação resulte. E se mesmo assim não resultar, tentem a via da tolerância e sigam em frente.


Os irmãos do José foram postos fora da sala porque convencidos, pela sua atuação de negro escravizado, de que o terrível, e temível, colonialista, lhe assentava com o chicote a valer, romperam pelo palco fora e só não lhes deram o devido troco porque a Dona Rosa lhes gritou cá de baixo que aquilo era tudo a fingir, mesmo que não parecesse.


Claro está que este desempenho criou um mal-estar no grupo cénico que fez com que, numa reunião de emergência, se discutisse se era plausível continuar com a apresentação do espetáculo em Névoa, dado que a família do José, por muito que se lhe fizesse ver que o que se passava em cena era tudo a fazer de conta, assistia sempre à peça e participava nela através do choro convulsivo da Dona Rosa e das entradas de rompante em cena dos irmãos Ferreira, perante a total impavidez do guarda Ferreira, tentando salvar o José de mais umas chicotadas, pontapés e insultos de indolência e ignorância.


Aqui que ninguém nos ouve, o diretor e demais elementos do grupo, resolveram deixar de apresentar o espetáculo em Névoa porque, de repente, as pessoas já iam aos “Canários”, não para assistirem à representação da peça que se interpretava em palco, mas sim para presenciarem o desempenho da família Ferreira na plateia.


Temos de convir que o povo tem sempre razão, mesmo que não pareça. E identifica sempre o cerne da questão, que, neste caso, era o espetáculo. E o espetáculo não se desenrolava em cima do palco, mas sim na zona do público. E isso era a inversão do teatro, revolucionário ou não. Alguns dos elementos do grupo até acharam a ideia da transferência do espetáculo do palco para a plateia como boa. Só não admitiam era que aqueles pobres coitados da família Ferreira fossem considerados atores de primeira linha, eles que não representavam nada, apenas agiam primitivamente em defesa do irmão que julgavam ameaçado, isto apesar de estarem fartos de saber que era tudo a fingir. 

  

Depois de um mês em cartaz, a peça levada à cena pelo grupo recreativo e cultural dos “Canários”, resolveu dar por terminada a temporada. Estava à vista de todos, até do José, que a sua família tinha dado cabo do espetáculo, pois conseguiram tirar o protagonismo aos verdadeiros atores e metamorfosear uma peça revolucionária num espetáculo de revista à portuguesa, o que era intolerável. Alguém sugeriu que se transformasse o espetáculo em itinerante, levando-o a várias vilas e aldeias dos arredores. Mas o José, também já ele farto do assédio constante da sua família, e sabendo quanto a casa gasta, lembrou que os Ferreiras eram gente para se deslocarem em grupo fazendo caravana como se fossem artistas de circo. E, ele, como era bom de ver, não os podia impedir de fazerem o que achavam por bem fazer. O 25 de Abril serviu para isso mesmo, para cada um ser livre.


Escusado será dizer que o desânimo tomou conta da rapaziada. Mas foi circunstância de pouco dura. O José disse, e bem, que existia uma maneira de resolver o imbróglio: o espetáculo tinha sim de se adaptar à itinerância, mas era necessário que rumasse a terras longe da nossa. Dessa forma, a família Ferreira, por falta de mobilidade, via-se, mesmo contra a sua vontade, privada de meios para se poder deslocar atrás da caravana nevoense dos “Canários”. Escutaram-se exclamações de contentamento na sala.


“Amigo Crispim”, ouviu-se aos de sempre na taberna próxima, “toca a trabalhar, pois a malta do teatro está de volta.” E o bêbado com a mania da filosofia tornou à sua teima: “A malta dos «Canários» é muito mais ligada à política, que é uma puta porca… do que ao teatro, que é uma porca puta, ou... o teatro é um pretexto para a porca… o que eles querem com todas estas macacadas sei-o eu bem…” e ia  a fazer um gesto feio e obsceno na direção da porta, quando o quarteto do copo e das moelas (e também do pão e das azeitonas e dos ovos cozidos e das costelinhas fritas e das pataniscas de bacalhau e dos carapaus de escabeche e das iscas de fígado com cebolada e do polvo frito e dos rojões do redenho e do caldo de pedra e da feijoada e do rancho…) o avisou: “Cala-te mas é, pois estás bêbedo como um cacho”.


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Quinta-feira, 14 de Março de 2013

Feira dos Santos


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Quarta-feira, 13 de Março de 2013

O Poema Infinito (137): viagem


Seguindo na direção de Chaves, encontrar-me-ás sempre em todas as estações de serviço, como se fosse um marinheiro fazendo escala em todos os portos onde se completam festas livres aonde não entram nem os abutres nem se ouvem os sinos do pânico. Procuro-te sentindo-me afogar num cais clássico onde as mulheres tristes ensaiam gestos apavorados e acenam com lenços aos faroleiros das luzes eróticas onde as flores douradas se espalham pelos passeios. Em qualquer lugar onde me procures encontrarás fruta, uma fruta masculina que atravessa o âmbar. No mar alto navegaremos por cima da escrita pornográfica sonhando como é bom ter os pés assentes em terra. Nas nossas mãos ficarão as marcas do sal. Os deuses então sucumbirão ao incesto e à calamidade. O mundo conduz-nos e celebra os novos mandamentos do apocalipse. Os versos opulentos inundam as robustas fortalezas e abrem caminho para dentro da cabeça das estátuas. E as estátuas tombam como se fossem náufragos dos velhos tempos e saúdam-nos com as suas bocas inchadas de veludo. As aves aquecem o céu e inundam o mar de voos suspensos. O medo desfaz-se de encontro aos pensamentos. Escutamos as criaturas que gritam dentro dos indefesos túneis da História. A cidade inclina-se para os versos e os versos inclinam-se para os espelhos e os espelhos inclinam-se para os corpos e os corpos enganam-se e deixam-se despir com a memória irrigada pela água dos rios de sombra. Os teus olhos são pequenas flores de medo. Alguém profere um sopro selvagem dentro da tarde transparente. O tempo torna-se acústico e emite murmúrios de pranto que se tornam obscenos em contacto com o ar. Os pássaros sossegam escutando as ventanias rústicas que lhes chegam vindas do mar. E o próprio mar naufraga entre a flora salgada das marés. E as marés escutam o sol e deambulam pelas ameias do castelo do tempo. A terra grita a sua própria idade e o chão abre-se de espanto. Nada se acrescenta à incúria dos seres humanos a não ser os versos passageiros do tempo. A tua mão convoca-me. O fogo incendeia as grutas da memória. Desperto próximo do teu olhar. Reparo no incêndio que alastra na tua boca. Já os poemas ardem como se fossem uma linguagem de fios de fogo. E acordam as almas que deslizam agarradas às coisas. Está longe o sol. E os meus lábios marcam o chão onde o teu coração vive. O silêncio volta a rodear-te os braços. E o horizonte desenha-te com uma fina geometria doirada. Estamos no limiar de mais um dilúvio onde os homens ganham barbatanas e almas de pássaros longos. A terra tem de novo sede de bichos. Os corpos celestes incendeiam-se de mistérios. O mundo volta a ser uma ilha requintada onde o medo dá lugar ao medo. Transformo-me num bloco denso de ternura. As horas constroem a solidão. Essa solidão doméstica que se debruça sobre mim e me talha o sonho. O sonho que é uma pista de tristeza paciente. Sou de novo uma coisa transparente que teme a loucura doce do encontro. Já sabes, seguindo na direção de Chaves, encontrar-me-ás sempre…


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Terça-feira, 12 de Março de 2013

Feira dos Santos


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Segunda-feira, 11 de Março de 2013

Pérolas e diamantes (28): Confissões de um sapateiro


Por mais voltas que deem aos factos, há pessoas que, devido à sua forte personalidade, se não fizerem parte da solução farão, obrigatoriamente, parte do problema. É a vida, como muito bem diz o meu filho João Vasco.

 

E quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. E às bodas e batizados só vão os convidados. Além disso, longe vão os tempos em que fazer política se resumia em sorrir para as câmaras fotográficas, cumprimentar as pessoas e não ter ideias, porque esse é o caminho perfeito para perder a razão e tudo o que se ambiciona.

 

Essa é a perspetiva dos indolentes, dos convencidos e dos autistas. Política sem ideias é um abismo. E quem se mete por esse caminho perde forçosamente. Não só a razão, repetimos, como tudo o resto.

 

A política não tem horror ao vazio, como é vulgar ouvir dizer. Não. A política tem horror à qualidade, à verticalidade, à frontalidade, à independência, à criatividade e às ideias. Então da política na província nem é bom falar.

 

E os aparelhos partidários (Ó meu Deus, os aparelhos partidários!), porque são abstrusos e extremamente conservadores, não toleram e muito menos digerem a divergência e a discussão livre das ideias. Quase sempre rejeitam a qualidade e abominam a independência de caráter e de pensamento. Sobretudo a independência em relação aos poderes instalados.

 

Os aparelhos partidários (Ó meu Deus, os aparelhos partidários!) apenas funcionam em espírito de manada. E, porque são acéfalos, rejeitam a diversidade.

 

Pessoas que pensam da mesma maneira não conseguem adiantar ideias, nem projetos, nem soluções. Unicamente são capazes de discutir e aprovar sempre a mesma ideia, sempre o mesmo projeto, sempre a mesma solução, mesmo que a tentem disfarçar sob o manto diáfano da diversidade.

 

Quando todos pensam da mesma maneira é porque não pensam coisa nenhuma.

 

Por mais que digam o contrário, as pessoas que se metem na política, afirmando sempre que é pela defesa intransigente da causa pública, apenas pensam em si próprias. Pensam sempre primeiro nelas e só depois é que pensam nos outros. Raras são as exceções. E aí estão as distintas regras para o confirmar: os ministros, os presidentes de câmara e a grande maioria dos que aspiram a sê-lo.

 

Eu conheço esses políticos altruístas e os estimados leitores também.

 

Os sorrisos, os abraços, a falta de compreensão da realidade e a total ausência de ideais próprias e consistentes podem ajudar a ganhar eleições, mas nunca conseguirão desenvolver uma cidade, uma região e um país.

 

E aí estão as provas: o país falido, as autarquias empenhadas até às orelhas, os governos regionais insolventes, as cidades a caírem aos bocados, as pessoas no desemprego, muitas delas a passar fome e privações de toda a ordem.

 

Podem dizer-me que nem sempre assim acontece. Mas, cético como sou, desconfio das palavras e atenho-me à realidade. E a realidade diz-me que a história tende a repetir-se indefinidamente.

 

É como nos livros e nos filmes policiais: o criminoso volta sempre ao local do crime.

 

Olho agora para o ecrã do computador e ponho-me a pensar nas variadas situações que fui vivendo nos últimos meses e concluo: Não vá o sapateiro além da chinela. Eu, sapateiro me confesso.

 

E seja o que Deus quiser. O meu peditório acaba aqui, pois já dei para ele mais do que me era exigido. E faço-o com uma citação de um poema do livro de poesia Sentimento do Tempo de Giuseppe Ungaretti: “EternoEntre uma flor colhida e outra dada / o inexprimível nada”.

 

E nunca se esqueçam que nem todas as flores são bonitas, nem todas as flores são úteis, nem todas as flores cheiram bem. Há até flores de estufa que não cheiram a nada.

 

Quando me falam em flores, lembro-me sempre d’ As Flores do Mal de  Charles Baudelaire.

 

Eu, definitivamente, sou mais do lado dos poetas. 


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Domingo, 10 de Março de 2013

Douro


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Sábado, 9 de Março de 2013

Rua Direita - Chaves (II)


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Sexta-feira, 8 de Março de 2013

O Homem Sem Memória - 150

 

150 – Como se os textos não chegassem para a confusão, o acompanhamento musical proposto veio ainda deitar mais achas para a fogueira. Cada sensibilidade partidária, se assim se lhe pode chamar, propunha apenas as canções dos bardos ligados à sua fação política. Nenhuma foi aprovada à primeira. Se um elemento propunha uma canção, por exemplo, do Luís Cília, logo alguém mais ligado à extrema-esquerda argumentava que esse tal de Luís era revisionista, ou social-fascista, quando não as duas coisas ao mesmo tempo. Os membros ligados ao PS não se atreviam a tanto, rejeitavam-no porque as suas canções eram muito chatas e, sobretudo, muito mal cantadas. Numa coisa todos concordaram, com a abstenção compreensível dos membros ligados ao Partido Comunista, o Luís Cília desafinava muito.


Alguém se lembrou do José Barata Moura, mas os desalinhados rejeitaram-no porque, diziam, era muito conotado com as canções dedicadas às crianças. Os mais avisados argumentaram em seu favor que, mesmo assim, quem soubesse ler nas entrelinhas facilmente se apercebia que por detrás das letras aparentemente infantis, encontravam-se mensagens muito adultas. E musicalmente era muito bom.


Os mais basistas contrapuseram que o povo a quem era destinada a peça de teatro não tinha cultura para se aperceber das mensagens encobertas e que se estava a borrifar para a qualidade da música. O povo, lembraram os mais comprometidos com a revolução a todo o custo, detestava a música, classificada pela burguesia, de qualidade. Quanto mais qualidade, menos adesão e por isso menos revolução. E o que atualmente interessava era esclarecer o povo, trazê-lo para o lado da revolução, não hostilizá-lo com merdas pseudorrevolucionárias dos intelectuais pequeno-burgueses, que provocavam a raiva e a ira de quem era pobre e simples.


Aparentemente todos estavam de acordo em que o mais importante era produzir um espetáculo para as massas, para as esclarecer e para as colocar do lado da revolução. Mas já divergiam no nível de qualidade, ou na falta dela, que tinham de dar ao espetáculo. Alguns recusavam-se mesmo a nivelar por baixo o texto – como se isso fosse possível – e a deitar borda fora a boa música e os bons textos de intervenção.


Enquanto os mais basistas defendiam que eram os intelectuais que tinham de descer ao nível do povo, os mais distintos afirmavam que essa ideia era a modos que fascista, pois o povo tem, para que a revolução triunfe, de se cultivar e aprender a apreciar e a desfrutar da verdadeira cultura.


Outros havia, como sempre os houve e haverá, que defendiam que era no meio que estava a virtude. Que o povo, para seu bem e para a sua emancipação, tinha de se elevar um bocadinho, e os intelectuais, também para seu proveito e aceitação, tinham de descer um pouco do seu pedestal e aproximarem-se mais do povo. Porque a cultura sem o povo não presta e o povo sem a cultura também não é lá grande coisa. A melhor solução era unirem esforços e prosseguirem juntos pela mesma senda do progresso e do futuro. A aliança entre os intelectuais tinha de ser feita. Por isso tornava-se necessário escolher bons textos, que fossem ao mesmo tempo de qualidade e simples, bem assim como as canções que também tinham de aliar a simplicidade com a qualidade. Alguém lembrou Fernando Tordo ou Paulo de Carvalho ou Carlos Mendes. Mas a grande maioria levantou a sua voz num coro de protestos tal que se fez ouvir no outro lado da rua. Alarido que teve o condão de ocasionar que vários dos amantes do copo e do petisco, que se encontravam na tasca já nossa conhecida, avisassem o dono da taberna de que se preparasse para trabalhar porquanto a malta do teatro estava para chegar. Alguém discordou da designação, pois, na sua opinião, a malta dos “Canários” era muito mais da política do que do teatro. O teatro para eles era um pretexto para a política. Não sabemos se por causa das avisadas palavras deste último parlante amante da pinga, ou se motivado pela boa notícia de que a passarada das artes cénicas e dramáticas estava para chegar, o taberneiro serviu uma rodada a todos os presentes, junto com o seguinte aviso: “Porque estou de bom humor, esta é por conta da casa, mas é bom que não vos habitueis, porque a vida está cada vez mais difícil. Estamos todos metidos numa grande crise.” Ao que o bêbado mais esclarecido do grupo contrapôs com toda a razão: “Os ricos que a paguem, pois apenas eles é que têm dinheiro. Nós nem para o copo amealhamos.”


E os “Canários” em bando chegaram. Em bando comeram e beberam. E em bando se foram porta fora para mais uma discussão de onde, forçosamente, tinha de surgir a luz. A claridade da reconciliação.


Mas não foi fácil. Rejeitados os cantores festivaleiros, mesmo que comunistas, da fação pró-soviética, alguém se lembrou de sugerir José Mário Branco. O clamor foi igualmente grande, pois os elementos do PC levaram-se dos diabos. Para os revisionistas, o esquerdista era inegociável. Entravam as canções dele e os punhalistas, que constituíam a maioria, se contarmos os independentes por si controlados, iam-se embora, inviabilizando o espetáculo. Falou-se de Francisco Fanhais e a cena repetiu-se. “Esquerdista e ainda por cima padre, era o que mais faltava”, indignaram-se de novo os punhalistas. Alguém se lembrou do José Jorge Letria, mas a maior parte não lhe reconheceu a suficiente qualidade revolucionária. Alguém lembrou, de novo, que para a peça só podiam ser escolhidos cantores de intervenção. “E o Carlos do Carmo?” “Quem?” “O Capachinho Vermelho!” “Esse só canta fado. E o fado é reacionário.” “Nem todo. O «Povo que lavas no rio» é uma grande canção de intervenção…” Novo brado na sala.


Na taberna ao lado, novamente se levantou o moral aos mais resistentes do copo e da noite: “Ó senhor Crispim, vá-se preparando que a rapaziada do teatro vem aí de novo.”


Alguém voltou a discordar da designação, pois, na sua opinião, “a malta dos Canários era muito mais ligada à política, que é uma porca… do que ao teatro, que é uma puta, ou... o teatro é um pretexto para a porca… o que  eles todos querem com todas estas macacadas sei-o eu bem…” e compôs um gesto feio e obsceno na direção da porta.


O taberneiro, para que o bêbedo se calasse com o seu discurso, pois no grupo dos “Canários” militavam algumas meninas de boas famílias, que por isso mesmo não podiam escutar baboseiras deste calibre, resolveu oferecer mais uma rodada de tinto e um pratinho de moelas ao quinteto que tinha resolvido pernoitar na tasca, em troca de comer, beber e calar.


E o bando chegou. E o bando comeu e bebeu. E o bando foi-se embora para mais uma discussão de onde, necessariamente, tinha de brotar a claridade do entendimento.


Voltou-se de novo à discussão de quem era ou não era cantor de intervenção, com possibilidades de vir a ser admitido. Dos poucos que ainda restavam, talvez porque todos os grupos tinham guardado os trunfos para o fim, apareceram os nomes de Sérgio Godinho, o de Adriano Correia de Oliveira e de José Afonso. Todos foram aceites. O Sérgio porque era um esquerdista moderado, que não hostilizava os revisionistas nem os socialistas, o Adriano Correia de Oliveira porque, apesar de ser militante do PC, não hostilizava os esquerdistas e era grande amigo de Manuel Alegre e da esquerda do PS, e o Zeca Afonso devido à sua qualidade, à sua honestidade e à sua militante e esfusiante humildade e também porque sim. Dos esquerdistas, era o único com quem os punhalistas não se metiam, honra lhes seja feita.


Por fim, alguém com mais sentido de humor resolveu questionar os presentes: “E então, não incluímos nenhum cantor de intervenção do PS?” “Mas não tem ninguém”, lembrou a maioria. “Alguém se lembra de algum?” “Eu”, respondeu o José. “O Paco Bandeira!”


A risada foi tão intensa que estamos em crer que foi nessa noite que a enorme trave mestra que sustentava o telhado dos “Canários” sofreu a primeira grande fissura nos tempos da democracia e que lhe viria ser fatal, como mais à frente informaremos. 


Na taberna ao lado, mais uma vez se levantou o moral ao quinteto do copo. E o mais afoito voltou a avisar: “Ó senhor Crispim, vá-se preparando que a rapaziada do teatro vem aí de novo.”


E por aqui nos ficamos, pois o resto podem os estimados leitores adivinhar sem que para isso seja necessária a nossa intervenção. Porque, bem vistas as coisas, o leitor também tem que fazer alguma coisa. N’est-ce pas?


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Quinta-feira, 7 de Março de 2013

Rua Direita - Chaves


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Quarta-feira, 6 de Março de 2013

O Poema Infinito (136): sétimo dia


Sou definitivamente um cúmplice das águas. Da água do mar e da água dos rios. E também da água que arde nos teus e nos meus olhos. Sou cúmplice da sua sedução, do seu tempo infinito, dos seus navios de espelhos, da sua iluminação de queda e do seu reflexo longínquo. Por isso pressinto os navios que transportam a vida e a morte para as cidades e as gaivotas pardas que sobrevoam os areais e os cais e os rochedos e as falésias. Por isso acordo todos os dias com uma sensação de queda eminente onde permaneço até que tu me salvas. Por isso espero por ti envolvido numa concha luminosa de maresia e aflição. Por isso envolvo os segredos no sal da estátua de Edith, esposa de Lot, que teve a coragem transgressora e suicida de olhar uma última vez para Sodoma. Por isso me desidrato quando olho para as paisagens e me agito com a atração da Lua que me inunda com vagas sucessivas de poemas. E leio livros de água e rezo em igrejas com vitrais líquidos. Os meus dedos frios de marés estrangulam incertezas minerais e devoram o cansaço de te perseguir. Agora sei que existe um enigma em tudo aquilo que escrevo, por isso a margem do meu rio embate no meu corpo e despenha-se pela branca cascata da desolação. Nada sobrevive à memória das águas. Nada sobrevive à liquidez dos corpos. Uma sossegada ausência alimenta a escrita, aí onde a violência adquire o estatuto de fala. Desfaço-me em carícias e prevejo os sonhos no lume terno da noite. Descrevo barcos cuja quilha fende a vastíssima superfície dos oceanos. Os mares de agora estão presos à terra. Todas as visões do apocalipse são feitas com a dor salgada das marés. Os abismos desordenam o mundo. A memória está perfumada de corais e dos gestos exatos dos pescadores. Sinto as oscilações do mar quando te amo. Todo o sonho marinho faz o seu ninho nas asas afiadas da imaginação. Os barcos esquecidos voam novamente sobre ondas de poalha estelar. Por isso os meus gestos duplicados naufragam no abandono do teu repouso. E regresso à praia com os olhos cansados de sal e de lírios e de delírios também. O brilho do sol corta a pele como uma fera longínqua. As águas magoadas refletem as minhas cicatrizes abertas pelo tempo. Por isso desço o meu corpo no teu corpo, como se fosse um marinheiro adolescente. Junto ao mar o vento é fresco e por isso me ilude com a sua embriaguez de lobo-do-mar. Caminhamos na praia abrindo os olhos para a incerteza. Os golfinhos refugiam-se no seu inverno marítimo. A manhã chega encostada ao cristalino dos nossos olhos. Estendemo-nos na areia e lembramos os nomes dos peixes e dos pássaros. Os barcos voam sem alma, como se fossem uma cintilação de nevoeiro. As ondas espalham os gemidos de silêncio. O nosso olhar rasa o mar como um pássaro de vento. Ofereço-te a alegria líquida dos meus lábios. Transformo-me em peixe e entro pelo mar dentro como se me quisesse salvar. Sinto os teus passos hesitantes a pisar a água. Hoje é o sétimo dia da criação e nós dormimos abraçados à nossa imobilidade de veludo. 


publicado por João Madureira às 07:45
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Terça-feira, 5 de Março de 2013

À espreita


publicado por João Madureira às 07:45
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Segunda-feira, 4 de Março de 2013

Pérolas e diamantes (27): a tempestade e a bonança ou vice-versa…

 

Já a minha avó me dizia: Para perdoar tudo, precisamos de compreender. E eu bem queria compreender porque foi necessário gastar tanto dinheiro na cidade de Chaves e ela estar cada vez mais degradada. Eu bem queria compreender porque se destrói um jardim e em seu lugar se coloca um lajedo tão impessoal e frio que dá pena. Eu bem queria compreender porque se gastaram 500 mil euros na requalificação do Jardim Público e os melhoramentos se limitaram ao abate de árvores centenárias e à destruição de vários canteiros de flores. Eu bem queria compreender porque se levantou duas vezes o piso da Rua de Santo António e postaram lá umas cestas de plástico de um mau gosto inexplicável, para ficar igual ou pior.

 

Eu bem queria compreender porque se gastou uma pipa de massa na construção da pomposamente denominada Plataforma Logística e ainda no famigerado Mercado Abastecedor, em Outeiro Seco, para atualmente estarem completamente abandonados. “Atualmente” é uma maneira de dizer, pois é bom que se lembre que desde a sua construção estes “elefantes brancos” estiveram sempre vazios.

 

Eu bem queria compreender estas e outras coisas que fizeram à nossa cidade, mas não consigo. Não consigo eu, não conseguem os estimados leitores e, estamos em crer, nem mesmo os mandantes de tais dislates o compreendem.

 

Também em Chaves, as exceções são mais do que as regras e as palavras tontas dos nossos autarcas mais do que as mães. Mas numa coisa temos de dar-lhes razão: na sua teimosia em conseguir que o nosso concelho regredisse umas décadas. Aconteceu-lhes o mesmo que aos burros. Eu explico. A população puxou por eles de dianteira, como manda o bom senso. Só que aos burros, se queremos que eles andem para a frente, é preciso puxar-lhes pelo rabo. Enganámo-nos. Enganaram-nos. Mas já aprendemos. Pelo menos o seu jeito e a sua manha.

 

Uma pessoa que me quer bem disse-me que é bom que me liberte de sarilhos. “Que sarilhos?”, perguntei-lhe. “Da política”, respondeu-me sem pestanejar. “A política é sempre um sarilho.” Eu disse-lhe que para esse peditório já dei. E, a propósito, citei-lhe o político americano Eugene MacCarthy: «Estar na política é parecido com ser treinador de futebol – tem que se ser suficientemente esperto para perceber o jogo e estúpido ao ponto de julgar que se é importante.» E eu de futebol não percebo nada e muito menos quero ser treinador seja daquilo que for. A mim já me basta o que me basta.

 

Por isso nos identificamos muito mais com os movimentos da sociedade civil que fazem manifestações apartidárias. Ali as expressões que dizem respeito aos sentimentos de indignação por parte das populações são genuínas.

 

É urgente restaurar a confiança como o valor mais importante das instituições públicas. É necessário colocar à frente das autarquias gente de coragem, gente honesta e trabalhadora e que tenha, acima de tudo, espírito de missão. E por aqui me fico. Ou me queria ficar, não fosse essa pessoa que me estima colocar um ponto de interrogação na equação.

 

Disse-me, relativamente à política autárquica, enquanto tomávamos café: “O poder autárquico atual e a oposição são cara e coroa da mesma moeda.” “Como assim?”, perguntei eu. Ao que ela respondeu: “Se de um lado chove do outro troveja.” “Ei, para aí com a trovoada. Não metas tudo no mesmo saco”, avisei-a eu, à pessoa claro. E essa pessoa: “Eu bem não queria, mas não sei, não sei não. É necessário que te vás preparando. À falta de melhor, é bom que não te esqueças de rezar a Santa Bárbara.”

 

Confesso que fiquei um pouco perturbado. Eu explico porquê. Essa pessoa é inteligente, muito inteligente mesmo. Apesar de difícil. É tão difícil que as pessoas até têm medo de abrir a boca à sua frente, porque está sempre a interpretar. E repara em todas as nuances e em todos os pormenores. Por isso também é desconfiada. Mas quer-me bem. Eu isso sei-o de fonte segura.

 

Por causa das coisas tentei contemporizar. “Sabes que sou simpático até com quem não me paga na mesma moeda.” Aqui fiz um pequeno intervalo porque me ri, e ela, a pessoa que me quer bem, também. Depois continuei: “Muitas vezes não sou bem compreendido naquilo que quero dizer… Mas com a idade fiquei mas sábio, sei quando não devo levar as coisas a peito!” Ela, a tal pessoa que me quer bem, contrapôs: “Tens de aprender a ceder um bocadinho. Ouve o que te dizem os outros. Tu estás sempre a…” “A quê?” “Bom, deixa lá, vamos antes falar de futebol…

 

Já a minha avó me dizia: Para perdoar tudo, precisamos de compreender. 


publicado por João Madureira às 07:45
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Domingo, 3 de Março de 2013

Arco da Ponte Romana


publicado por João Madureira às 09:22
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Sábado, 2 de Março de 2013

O pastor


publicado por João Madureira às 09:05
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