Terça-feira, 30 de Abril de 2013

Sentado à espera


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Segunda-feira, 29 de Abril de 2013

Pérolas e diamantes (35): contemplações e algumas deduções


Foi num fim de semana que finalmente descobri a destrui… desculpem, a transformação do Jardim das Freiras numa praça rasa com um tanque ao fundo. Afinal o seu destino, ou melhor, a sua função, é converter-se num terreiro militar, numa montra de propaganda das nossas forças militares.

 

Em vez de passearmos em redor dos canteiros de flores, vimo-nos, eu e a Luzia, a deambular entre provectas viaturas do exército português, metralhadoras e pistolas com aspeto de serem já do tempo da primeira guerra mundial. Também contemplámos G3 do período da guerra colonial. Ai que saudades!

 

Observámos ainda pais babados a fotografar os seus filhotes alindados com capacetes militares ao volante de carros de assalto blindados. Foi enternecedor observar crianças a brincarem às guerras, os militares a fazerem de animadores culturais e os pais a servirem de repórteres fotográficos, como se estivessem no Afeganistão dos Pequeninos. Uma lágrima rebelde esteve mesmo para me correr pela face abaixo, mas eu, para não dar parte de fraco, consegui aguentá-la. Porra, um homem não chora.

 

Mas não era disto que hoje vos queria falar, mas sim de mais uma apresentação (acho que já vamos na sétima ou oitava) de António Cabeleira como candidato à Câmara de Chaves. Desta vez veio a terreiro afirmar que é o “candidato da verdade”. Mas era escusado, porque no senhor candidato isso é uma redundância. Todos o sabemos.

 

Desta vez veio comunicar que o seu lema é “Todos por Chaves”. O que quer dizer que também me inclui a mim na sua ideia, no seu lema e na sua vontade. Desde já lho agradeço. Mas tenho de lhe pedir desculpas, pois não consigo acompanhá-lo nem na vontade, nem na verdade, nem no lema. Não consigo, não é porque não queira. É mesmo por manifesta incapacidade para o seguir em tão difícil desiderato. Neste caso, desculpe-me senhor candidato, serão “Todos por Chaves”, menos um. No entanto, desejo-lhe as maiores felicidades.

 

Igualmente afirmou que pretende “unir a família social-democrata”. Então ela está desunida? Má notícia nos transmite. Mas acho que exagera. Nós não acreditamos. Que eu saiba ela está mais unida do que nunca. E, como todos sabemos, o povo unido jamais será vencido.

 

Promete ainda “fazer o melhor possível pelos flavienses”. Disso ninguém duvida. Os doze anos de gestão autárquica do PSD são disso a melhor prova: o centro da cidade é hoje um espaço privilegiado de comércio e turismo, a população residente aumentou significativamente, o nosso tecido industrial amplificou-se como nunca. E até já temos uma fábrica de pastéis de nata no imenso complexo construído em Outeiro Seco. E, como se isto fosse pouco, o Hospital de Chaves aumentou as suas valências, o Tribunal ganhou um estatuto de dignidade que a todos enche de orgulho e o Ensino Superior vai ser substancialmente ampliado, pois a UTAD está a pensar seriamente em transferir os seus melhores cursos para Chaves.

 

Além disso, o senhor candidato é um estratega experimentado, sagaz e audacioso. Ora vamos lá às evidências. António Cabeleira, passa de segundo na lista da Câmara a primeiro. João Batista, atual presidente, passa a candidato a presidente da Assembleia Municipal e António Vicente, o atual presidente da AM, passa para 14º na lista da candidatura do PSD. Basta este pormenor para nos apercebermos que quem mexe assim nas listas, é um jogador de xadrez espantoso.

 

Do resto das suas promessas nem é bom falar, pois elas são tão boas, tão atuais e inéditas, que encheríamos páginas e páginas de jornais e mesmo assim, estamos em crer, não conseguiríamos dar-vos nem sequer uma pálida imagem da sua pertinência e profundidade. 

 

Sobre o combate político, AC limitou-se a criticar o PS por ter levantado “suspeitas sem qualquer sentido” em relação à dívida da Câmara, que para o PSD é de 40 milhões e para o PS é de 50 milhões. A nós, seja qual for a cifra parece-nos uma cratera do tamanho das que a chuva provocou em Marvão. A verdade é que o PS de Paula Barros não veio ainda a público apresentar os seus números. Ao que nos disseram, o “aparelho” partidário anda entretido a compor as listas autárquicas. Pelos vistos não consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

 

Chegou-nos aos ouvidos que foi constituído em Chaves o “Movimento Autárquico Independente”, mas deve ser boato, pois se nem o PSD nem o PS dizem nada é porque não existe. Nós até vimos um cartaz na sua sede. Mas pode tratar-se apenas de uma alucinação. João Neves não era capaz de fazer uma desfeita dessas aos partidos do sistema. 


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Domingo, 28 de Abril de 2013

Câmara Municipal de Chaves


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Sábado, 27 de Abril de 2013

Rua Direita - Chaves


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Sexta-feira, 26 de Abril de 2013

O Homem Sem Memória - 157

 

157 – Como teve de deixar de filmar por falta de financiamento – e não por escassez de talento, pois talento possuía o nosso personagem principal em quantidade mais que suficiente para dar e vender –, o José teve de se voltar para outros géneros de arte que lhe ocupassem o espaço mental disponível, ou melhor, o seu espaço vital, pois a arte está para os verdadeiros artistas como o ar está para os animais terrestres e a água para os peixes. Não sei se nos fazemos entender.


Como ouvia sobretudo cantores de intervenção, meteu-se-lhe na cabeça que devia aprender a tocar viola para dar vazão à sua veia artística. Perdido por cem, perdido por mil. Lembrou-se então de pedir ao seu querido amigo Fernando que lhe ensinasse algumas posições no instrumento de cordas que lhe permitissem atamancar algumas cantigas do José Afonso. O Fernando disse-lhe que devia começar por algo mais simples. Mas ele teimou no Zeca e foi o que teve: músicas tocadas pelo Fernando mas que ele não conseguia seguir, nem de perto, nem de longe. Colocava os dedos nas posições certas, mas à custa de muito porfiar, e tangia as cordas muito devagarinho para não as assustar. Por vezes conseguia alcançar um dó a soar a dó, mas o problema era quando tinha de mudar os dedos para, por exemplo o fá, aí atrapalhava-se e demorava tanto tempo que o dó já se tinha ido embora da canção enquanto o fá chegava a passo de tartaruga. E isto passava-se com todas as notas que se lhe seguiam. Enquanto as notas musicais eram breves e rápidas, os intervalos eram enormes e lentos. Chateou-se imenso logo no primeiro dia de ensaio. E no segundo. E no terceiro. E no sétimo. No décimo desistiu, para grande alívio do Fernando. Estava provado que para a viola não servia.


Nesse mesmo dia, olhou para o Fernando com cara de caso e perguntou-lhe se tinha alguma sugestão para dar vazão à sua inquietação artística. Ele, muito a modinho, lembrou-lhe que a banda desenhada era uma via possível. O José, apesar de gostar de BD, como todos bem sabemos, perguntou-lhe se não seria uma espécie de recuo artístico passar do cinema para os quadradinhos, assim de repente. Se não seria passar de cavalo a burro. O Fernando respondeu-lhe que não sabia se era um retrocesso ou não. O que sim sabia era que a BD, por alguma razão, já se designava como a nona arte. O José perguntou-lhe então qual era a oitava, ele respondeu-lhe que era a fotografia.


“Talvez deva então tentar a oitava antes de passar à nona, pois não é bom queimar etapas. Os comunistas chineses que o digam”, lembrou o José com a sabedoria que todos lhe reconhecemos. No entanto, o Fernando lembrou-lhe que para se fazer fotografia era necessário uma máquina, rolos de película fotográfica e um estúdio de revelação, ampliador, revelador e fixador, objetos e materiais que eram caros e difíceis de arranjar. “Então, talvez seja boa ideia dedicar-me à BD”, admitiu o José, imbuído da sua inteligência prática.


Pediu então ao Fernando o último Pilote que tinha recebido e pôs-se a copiar desenhos do Astérix e do Tenente Blueberry. Saíram-lhe mal, como era de esperar. Mais uma vez o Fernando lhe disse que tinha de começar por algo mais simples. Uderzo e Jean Giraud não estão ao alcance de qualquer um.


Mas o José lembrou-lhe que quem reproduz os melhores pode vir a ser como eles e quem plagia os maus só pode conseguir ser pior do que eles. Fernando gostou daquilo que ouviu, por isso disse-lhe que devia, quiçá, tentar a Filosofia, que na Grécia antiga era uma grande arte. O José respondeu-lhe que se dava mal com a Filosofia. O Fernando lembrou-lhe então, e bem, que com quem se dava mal era com a professora de Filosofia e não propriamente com a Filosofia. Ele até concordou com o comentário, pois correspondia à verdade, mas recusou liminarmente dedicar-se à “arte da treta”, que era como ele definia o mester de Sócrates. O Fernando, sabendo da sua inclinação para a escrita, sugeriu-lhe que talvez fosse boa ideia tentar o conto ou o romance, pois para essa arte já possuía as ferramentas necessárias: a caneta e o papel, e dominava a arte da caligrafia com razoável mestria. O José disse que não era bem assim. Além disso faltava-lhe a máquina de escrever, para dar aos escritos a sua versão final. O Fernando disponibilizou-se a emprestar-lhe a do seu pai que pouco uso tinha tido até ao momento.


“E as ideias?, inquiriu o José com toda a pertinácia que lhe reconhecemos. “As ideias?”, perguntou intrigado o Fernando. “Pois, as ideias”, insistiu o José. E o Fernando: “As ideias são como as cerejas, a seguir a umas veem outras e assim por aí fora até acabares o livro. Além disso, ideias tens tu de sobra.” “E as palavras? Como escolho e decido as palavras para concretizar as ideias?”, perguntou o José. E o Fernando: “Essa arte vem com o tempo e com o treino. Mais com o treino do que com o tempo. Com o tempo surgem mais as ideias, com o treino aparece mais a forma. E a forma aprende-se sobretudo lendo e escrevendo, escrevendo e lendo, lendo e escrevendo, escrevendo e…” “Sim, já percebi. Mas como sei que tenho jeito para a escrita. Existe algum teste específico para ficarmos a saber se temos queda para as letras?”, perguntou o José. E o Fernando: “Que eu saiba não. Mas como o meu pai é um bom leitor, podemos pedir-lhe que leia algo que tu escrevas e que imita a sua opinião. Se ele gostar, podes ter a certeza de que o que tu escreves tem qualidade. Nessas coisas não se engana. Nem na qualidade da escrita, nem na qualidade da música, nem na qualidade do vinho.” “Mas ele é meu amigo”, lembrou o José. E o Fernando: “Damos a ler-lhe um conto sem lhe dizermos de quem é, como se ele fosse o elemento do júri de um prémio literário.” “E se ele disser que não presta aquilo que escrevo, o que vou tentar a seguir?”, perguntou com cara de caso o José. E o Fernando: “Pior do que o teu jeito para a música e para a BD com certeza que não será.” “Obrigado pelo elogio”, melindrou-se o José. Para a seguir perguntar: “E quanto ao cinema? O que é que achas da minha arte cinematográfica?” E o Fernando: “Como tu bem sabes, eu de cinema percebo pouco e também pouco vejo. Mas digo-te desde já que detesto o Godard”, e calou-se fazendo-se desentendido, enquanto abordava uma canção do Leonard Cohen na sua viola de cordas metálicas.


O José continuou a olhar para o Fernando à espera de resposta, mas o seu amigo não lhe dava troco. No entanto, o nosso herói insistiu: “O que é que achas da minha arte cinematográfica? Viste os meus filmes, não viste?” “Vi”, respondeu lacónico o Fernando entre o trauteio de passagem de um verso para outro da canção do canadiano. “E?”, perguntou o José. “Pois!”, disse o Fernando enquanto acompanhava com o seu assobio a canção do Leonard. “Então não dizes nada sobre os meus filmes? Não tens opinião acerca deles. Lá por não simpatizares com o Godard não implica que não gostes das minhas curtas-metragens”, declarou o José já um pouco enfadado, até porque sabia que o Fernando não era rapaz para esconder aquilo que pensava. Mas também sabia que era incapaz de ferir os sentimentos de um amigo. E o José era o seu maior amigo. E o Fernando: “Pois, de facto são curtas, as tuas metragens.” (Assobio de acompanhamento musical). “E?”, insistiu o José. (Assobio de acompanhamento musical). “E são a cores…” (Mais assobio de acompanhamento musical). “E?” “E têm planos interessantes…” “E?” (Ainda mais assobio de acompanhamento musical). “E não têm som, o que lhe dá um toque especial…” (Um pouco menos de assobio de acompanhamento musical). “Especial em quê?” (Um pouco mais de assobio de acompanhamento musical). “É que estamos habituados a que os filmes mudos sejam a preto e branco e os teus são mudos, mas a cores…” “E?” “Olha, se calhar, era boa ideia acompanhá-los com músicas do Leonard Cohen tocadas por mim, um pouco à semelhança dos acompanhamentos ao piano das películas a preto e branco que passavam antigamente nas salas de cinema.”


O José então riu-se e olhando bem nos olhos o seu amigo questionou-o decididamente: “Diz lá de uma vez o que pensas dos meus filmes?” E o Fernando: “Pois ou que são uma valente merda ou então são duas obras-primas. Mas eu inclino-me mais para a primeira hipótese. No entanto isso não invalida a segunda. Pelo menos é ponto assente que medíocre não é, o que é um adianto. Ambos detestamos a mediocridade.”


“Obrigado pela tua sinceridade,” disse o José antes de sair porta fora com a determinação dos génios (demónios?) incompreendidos. 


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Quinta-feira, 25 de Abril de 2013

Acordeonista


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Quarta-feira, 24 de Abril de 2013

O Poema Infinito (143): a mudez de Deus


Da minha janela observo o rio a encher-se de água e a manhã a alagar-se de luz. Ainda há pouco a alvorada me entrou nos olhos com a sua ilusória beleza navegante. E eu não quis chorar. Ao longe gritam anjos maduros com as suas bocas claras de brusquidão. Levanto-me e desço as escadas vendo desfilar na minha frente pássaros avermelhados que esperam de Deus o milagre da fala. Sei que esse milagre nunca chegará. Por isso Deus é uma eterna desilusão para as aves. Debaixo da ponte corre a água que transporta as memórias. As ruas esperam-me submersas na sua calma. Eu coleciono passos. Sou um adorador de silhuetas. Sou um colecionador de olhares. Sou um guardador de sorrisos. Sou um adulador de gestos. Toda a terra chega quente aos meus sentidos. O rio continua a encher. Escuto um júbilo triste nas canções que enfeitam os caminhos. Os comboios da infância chegam envoltos numa névoa rosada. E com eles acodem as vozes angustiadas do mundo. Os cães trazem espelhada nos olhos a sua angústia animal. E sofrem. Também eles esperam que Deus lhes conceda o dom da fala. Mas eu sei que esse milagre não está ao alcance do Criador. Por isso Ele é uma desilusão imortal. No rio, a água rumoreja e um vento frio apodera-se do meu coração. Este já não é o mesmo vento que ontem anunciou a tarde. Este vento passa velozmente pelas árvores que esperam de pé há séculos que Deus lhes outorgue o dom da fala. Mas eu sei que isso não está nos seus propósitos. A manhã passa depressa, como se fosse uma nuvem impelida por um vento superior. Agora é o rio que geme. Os sonhos escondem-se nos caminhos. A noite vai chegar fria e solitária e Deus teimará de novo em vigiar os seus filhos prodigiosos para depois se ir esconder no fundo do céu. Deus enlouqueceu. Já é Ele que reza para que os seus prodigiosos filhos Lhe perdoem. Tenta esquecer as culpas supliciadoras e cruéis do Antigo Testamento. Os cães adormeceram dentro da sua paciência. Os pássaros avermelhados descansam as suas asas de desalento, enquanto debicam palavras manuscritas nos livros antigos. As árvores diluvianas ressuscitam prontas a combater a chuva. As pombas da Santíssima Trindade persistem no seu arrulho interminável. Fernando Pessoa dorme no quarto ao lado vigiado por Eros e Psique. Uma família de poetas acrobatas fabrica um trapézio feito de nuvens. Obscuras borboletas assinalam o caminho da loucura. Os mortos viajam no seu tempo eterno de esquecimento. Os mares nunca mais voltarão a ser tranquilos. Nem os sonhos. Nem a voz imponderável de Deus. Por isso Ele semeia nas galáxias os buracos negros. Eu nascerei noutro corpo, no meio de uma vegetação delicada, onde pequenos deuses que cheiram a eucalipto levantarão os seus exércitos e invadirão a Terra. O nosso planeta renascerá ébrio e delirante para que tudo volte a ser igual. Eu já não tenho receio dos meus equívocos. Vivo rodeado de livros que são barcos e que me trazem mensagens de paixões semeadas de memórias onde fêmeas magníficas devoram machos eficazes e onde os pássaros avermelhados se deixam devorar pelos cães na sua vigília de solidão enquanto são observados pelas árvores do esquecimento. As mulheres semeiam choros. Os homens podam angústias. As crianças destroem os caminhos das formigas. Agora sei a razão de Deus ser mudo. 


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Terça-feira, 23 de Abril de 2013

Mercado de Rua


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Segunda-feira, 22 de Abril de 2013

Pérolas e diamantes (34): imagens de uma cidade (III)


Quando por vezes tive de apanhar o comboio para ir viver durante algum tempo fora da nossa cidade, mal ouvia o barulho da marcha das rodas nos carris, era violentamente tomado pelo sentimento de comunidade e de pertença ao coração de Chaves, como nunca me tinha acontecido antes.

 

Era nos períodos da partida e da chegada que me lembrava, tomado por uma dor ao mesmo tempo absurdamente triste e alegre, da Ponte Romana e sentia dentro de mim o seu tempo antigo, o tempo muito antigo da nossa cidade, a dilatar-se e a preencher-me com a sua figura ancestral e digna.

 

Na cidade havia (há) riqueza, mas conjuntamente pobreza (também ainda a há, e muita), coabitando lado a lado com a nossa grande história. As ruas principais enchiam-se de gente e os bairros metiam-se dentro de si, apesar da sensibilidade evidente das pessoas às novas realidades e às diferentes ideias que chegavam de fora. 

 

Por detrás da sua beleza monumental, era esse o segredo de Chaves: a relação fragmentada, mas duradoura e solidária, da nossa vida quotidiana.

 

As palavras relativas às nossas qualidades gerais, ao nosso espírito gregário, à nossa singularidade enquanto cidade, transformaram-se em discurso indireto sobre a nossa própria vida.

 

Agora, o discurso político e partidário tomou conta do nosso estado mental. Como se lhe pertencesse o núcleo principal da vida da nossa cidade. Mas isso é um embuste. Nós, os flavienses, não os que se dizem, mas os que o são desde sempre e para sempre, constituímos o centro essencial do nosso burgo. Nós mesmos. Não eles, mas nós. Nós os que lhe pertencemos desde sempre e para sempre.

 

Por outras palavras: através da contemplação da nossa cidade, agora quase vencida e acabrunhada, esmagada e triste pelo que lhe está a acontecer, ainda mais triste e acabrunhada do que eu, sinto dolorosamente que alguém tem de lhe deitar a mão para que não feneça debaixo da nossa indiferença.

 

Porque, apesar dos atentados que sofreu, e continua a sofrer, Chaves ainda mantém a sua beleza caraterística, que vagas sucessivas de “bárbaros” não conseguiram destruir. Ainda tem a riqueza da sua história, ainda possui os seus mistérios, que bem podem ser os remédios para os nossos sofrimentos. Talvez tenhamos de amar a nossa cidade como amamos a nossa família. Provavelmente não nos resta outra solução.

 

Numa noite destas, com a cabeça um pouco aturdida por algum vinho, lancei-me de novo numa caminhada pelas ruas mais estreitas e escuras da nossa cidade, para as sentir tremer e dar-me conta da sua tristeza. E senti-me dentro dela como se estivesse num filme antigo de que eu gostava.

 

Não sei porquê, mas senti-me feliz. E foi essa felicidade que quis apanhar para a conservar e poder falar dela como uma possibilidade. Como quem leva à boca um fruto maduro ou como quem acariciava um berlinde quando era criança.

 

Tive então vontade de regressar a casa pelas ruas vazias, sentar-me à secretária e escrever o que estão agora a ler.

 

Mais uma vez volto a citar Joaquim Pessoa: “E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.”


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Domingo, 21 de Abril de 2013

Neve em Chaves


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Sábado, 20 de Abril de 2013

Rua Direita - Chaves (II)


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Sexta-feira, 19 de Abril de 2013

O Homem Sem Memória - 156

 

156 – Foi na banda desenhada que procurou também a sua inspiração para o filme. Um argumento à Godard estava definitivamente posto de lado pelo facto de apenas poder realizar um filme sem som e, por isso mesmo, sem diálogos, pois a banda sonora encontrava-se muito para lá dos limites orçamentais. Então lembrou-se de colocar um Pierrô no meio do seu argumento e desenvolver a história a partir daí.


À partida, o filme não podia ultrapassar os 3 minutos e 20 segundos, que era o tempo que durava uma bobine de super 8 da Kodak. Small is beautiful. Ó se é! Basta lembrarmo-nos da sardinha e da mulher. E do país.


O seu filme começou por ser intencionalmente cómico, conseguindo, por incrível que possa parecer, colocar as pessoas a chorar, não de riso, mas sim de desgosto. Era um híbrido, na boa tradição burlesca, misturando cenas cómicas com outras sem sentido nenhum, mas propositadamente repletas de nonsense. Esta sua qualidade, ou defeito, dependendo do ponto de vista, alimentou durante várias semanas discussões intermináveis. Onde uns viam traços de obra-prima, outros vislumbravam apenas cenas sem graça nenhuma e completamente destituídas de sentido.


As filmagens, essas, foram duras de realizar porque exigiram a procura de cenários reais e de protagonistas no seu ambiente natural, nada fáceis de encontrar e mobilizar para esse fim. O José escolheu para Pierrô uma rapariga com cara de anjo que corava por tudo e por nada. Além de ser muito tímida, era também bastante magra e branca como a cal, o que lhe conferia um ar de boneca de porcelana. Era sobretudo uma péssima atriz. Mas o que para os outros era defeito, para o José era virtude, pois, argumentava ele, “se o Pasolini escolhe para os seus filmes atores e atrizes entre o povo e de entre eles escolhe os mais feios e desarranjados, sem preocupações de qualidade representativa, eu também posso escolher para os meus filmes os atores e as atrizes que, sobretudo, não saibam representar, porque, a partir desse pressuposto, abre-se a porta à possibilidade do cinema passar a ser uma coisa completamente distinta do teatro. No cinema a representação não interessa. Quanto pior, melhor. O cinema deve libertar-se dos seus lugares comuns e, definitivamente, transformar-se numa arte alternativa, numa arte redentora. Na arte de todas as artes, porque as representa cabalmente, desde a pintura à fotografia, passando pelo teatro, a poesia e mesmo o romance.”


Na sua ousada aventura artística, colocou o Pierrô no meio das abelhas, no meio das ovelhas e no meio das vacas. E a rapariga lá ficava como se tivesse sido vítima de um assalto à mão armada, corando de vergonha, engunhando-se e chorando como se estivesse às portas da morte. Depois alguém chegava por detrás, rodopiava em volta dela e pespegava-lhe com um bolo na cara.


As cenas rodadas no meio das abelhas foram as mais complicadas, pois, apesar dos cuidados, e também dos conselhos do proprietário das colmeias, as abelhas sentiram-se molestadas e picaram não só a pobre atriz que fazia de Pierrô, como também o realizador e restante equipa técnica. A desgraçada rapariga teve mesmo de ser internada no hospital por causa de uma infeção provocada pelo veneno dos ferrões.


Com a rodagem parada por causa do ataque das abelhas, e enquanto a frágil atriz recuperava no hospital, a equipa e os respetivos amigos reuniram-se nas mais diversas tascas de Névoa à procura de um fim para o filme. Depois de muito discutirem, e sem se porem de acordo sobre a forma de colocar um ponto final na película, mais uma vez o José impôs a sua sabedoria e a sua arte: o filme não teria qualquer fim, acabava no meio, concluía onde a fita terminasse. Nisso tinha um traço à Godard, o filme ia mostrar às pessoas que o cinema é uma arte que não é perfeita, pois sofre das mesmas limitações dos seres humanos, que quando estão no melhor da vida lá vem a puta da morte e leva-os desta para melhor sem perguntar nada a ninguém. A princípio, a ideia vencedora foi objeto de muita contestação, mas depois de devidamente enquadrada e justificada pelo seu mentor, acabou por ser aceite, e mesmo elogiada, como um dos traços mais evidentes da genialidade do mestre realizador.


Na cena das ovelhas, a cara do Pierrô foi tão expressiva no seu medo que até os pobres animais deixaram de balir e puseram-se mesmo em fuga no momento em que o Pierrô levou com o bolo na cara. Isso provocou a fúria do pastor que se foi aos bichos em retirada e os encheu de porrada, cena que só não foi filmada porque a bobine estava quase no fim e tinha que ser poupada para as últimas cenas.


A cena das vacas correu como a das ovelhas, o Pierrô embrulhado no seu medo, tolhido de movimentos, com uma cara de terror tão evidente que as vacas só não se puseram em fuga porque eram leiteiras e no momento das filmagens tinham os úberes repletos de leite, o que lhes paralisou os movimentos.


A película terminou momentos antes do Pierrô levar com o bolo na cara. O que ficou filmado nos últimos fotogramas foi uma das expressões mais tristes do cinema e que só não se tornou célebre porque o José não conseguiu chegar ao estrelato. Isto apesar da sua intrínseca genialidade. A província é verdadeiramente assassina para os génios e para a arte. Quantos génios não morreram, e vão continuar a morrer, na província sem verem a sua genialidade reconhecida. Quantos? Nem Deus sabe. Talvez resida aí a razão do nosso atraso e da nossa pobreza endémica.


Como o filme obteve boa crítica entre os poucos entendidos de Névoa, o monitor do grupo de cinema do Liceu resolveu dar-lhe uma segunda oportunidade. Desta vez, por causa das coisas, decidiu fornecer-lhe três bobines, o que possibilitava rodar um filme com dez minutos exatos.


O José decidiu-se então por rodar um filme sem argumento, uma coisa improvisada, inspirado um pouco no The Living Theatre, apelando à desobediência civil, lutando pelo fim das fronteiras entre o palco e a plateia, pela abolição dos limites entre a arte e a vida, os atores e a assistência e convocando o público a participar ativamente nos espetáculos. Para isso convocou vários elementos dos grupos de teatro e convidou-os a participarem ativamente na rodagem da película. O local escolhido foi determinante para a aceitação.


Na tasca já nossa conhecida, ouviu-se de novo o bêbado com a mania da filosofia: “Amigo Crispim, não escuta este barulho? Lá vem a malta do teatro outra vez.” “Deus te ouça. O negócio tem andado tão fraco que só essa gente é que é capaz de me botar uma mão.” Um outro borracho solidário, e solitário, disse: “Então toca a trabalhar. Pois a malta do teatro está de volta.” E o primeiro bêbado tornou à sua teima: “A malta do teatro é muito mais ligada à política, que é uma puta porca…” “Cala-te homem de Deus, se te ouvem lá se me vai o ganho…” “do que ao teatro, que é uma porca puta, ou...” “Cala-te. Não ouviste.” “O teatro é um pretexto para a porca… o que eles querem com todas estas macacadas sei-o eu bem…” “Se te calares sirvo-te uma caneca de vinho do real, e de graça.” “E um patanisca?” “E uma patanisca.” “E um pratinho de moelas?” “E um pratinho de moelas.” “E pão.” “Vá, não abuses.” E riram-se os dois. “O que esta gente do teatro quer com todas estas macacadas…” “Já não são do teatro, agora são do cinema”, disse alguém melhor informado. E o bêbado filosófico: “O que esta gente do cinema quer com todas estas macacadas sei-o eu bem…”


O filme foi rodado no estilo de free cinema, que é uma mistura de nada e de coisa nenhuma, onde apareciam raparigas nuas. E rapazes também. Os planos estavam repletos de nádegas, seios, vaginas e pénis em movimentos livres, filmados em câmara oscilante e rápida para manter algum pudor, como convém.


Também este filme terminou de forma inconclusiva, parecendo que ia a meio para uns, que estava no início para outros e, para os mais inteligentes e avisados, o filme tinha mesmo a curiosa particularidade de terminar no princípio e iniciar-se no fim. Como se estivesse invertido, tentando demonstrar que a vida é um ciclo composto de outros ciclos que dão origem a novos ciclos e assim sucessivamente até ao início do Big Bang ou vice-versa. O que é uma ideia para nos pôr loucos a todos.  


Claro que também havia aqueles chatos que afirmavam que o filme os deixava ou excitados, ou com dores de cabeça, ou ambas as coisas, que não tinham percebido nada, que se sentiam enfadados, irritados, desalentados, que não conseguiam acreditar no que estavam a ver, tentado com isso afirmar que o filme era uma grande, grandessíssima, merda. Não sabiam esses ignorantes que os defeitos que lhe apontavam são os que definem uma obra-prima, ou melhor, uma genuína obra de vanguarda. 


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Quinta-feira, 18 de Abril de 2013

Rua Direita - Chaves


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Quarta-feira, 17 de Abril de 2013

O Poema Infinito (142): mãos de púrpura


Ai como estamos longe do silêncio do nosso amor e tão perto da cintilação dos meteoros! Vagueio pela margem do rio enquanto o meu espírito se deixa embalar pelo crepúsculo e se deixa envolver pelas árvores húmidas. Eu não desisto. Apesar dos suspiros dos deuses, eu não desisto de ti, nem do verde das colinas. Eu persigo-te. Eu persigo-me. Fluo como a água pelos corgos e escuto a minha velha avó explicar que o mundo está preso no bico de uma ave imortal que vive para além do céu. Os raios de luar iluminam as asas do desejo e ainda a flor de lótus que escuta o mundo. O mundo é uma imagem de água que murmura a sua liquidez assombrosa. Desenho o céu nas pétalas dos teus olhos aflitos e uma miríade de pontos luminosos invade a tua pele. Gotas de uma chuva inclinada deslizam pelo teu corpo. Tu és a minha ilha suspensa na sua aurora. Árvores frondosas espalham a tranquilidade dos seus ramos e os animais dançam na clareira da floresta encantada. A minha imagem enfurece-se com os barcos que não chegam por mais que os chame. Sou eu que ancoro no teu corpo de abrigo. Sou eu que te dou as minhas mãos de púrpura e murmuro baixinho o meu desejo. Por entre a erva, os bichos inquietos lembram-nos a nossa mortalidade de terra e húmus. As aves do apocalipse cintilam no meio da guerra. Os homens lamentam-se e suspiram. Esta é a guerra dos cem segundos. Esta é a guerra dos cem séculos. Antes da noite, alguém se enganará nos caminhos sonolentos e embarcará na nave do adeus. Caem as folhas que já amaram o verde e a seiva. Sobre nós, as horas declinam o seu rigor. Os nossos corpos sentem a exaustão do tempo e lembram o ciclo da paixão. Amamo-nos com os nossos corpos inclinados. Sem querer, derramo uma lágrima sobre a epiderme de seda que cobre a tua face. Os meus olhos nunca se cansam dos teus. Apesar disso, ocultam a minha tristeza. Uma tristeza de solidão oblíqua. As estrelas parecem distantes. Junto ao lago aguardamos pela velha imagem do nosso primeiro beijo. Tomo-te as mãos que já abençoaram a vida dos nossos filhos. Apesar do tempo e do modo, a paixão ainda não se cansou de fertilizar os nossos corações. Os bosques deixam-se cercar pelo desespero das sombras e tombam amortalhados pelo amarelo das folhas mortas. O silêncio colhe-nos as lágrimas. Aguarda-nos a eternidade do nosso amor mortal. Os nossos passos encaminham-se para o canteiro das flores murchas. Os meus olhos pousam suavemente sobre a serenidade dos teus seios. Junto aos salgueiros, ninfas enterram os seus pés brancos no veludo verde do musgo e crescem como se fossem frutos de neve. A erva dilata-se como a vida, com a mesma calma e com a mesma loucura adolescente. Ainda sou o mesmo jovem louco que se banhava nu nas águas melífluas das fontes. Por vezes penso que só tenho as minhas lágrimas para te amar. É tão difícil a esperança. Sonho com a beleza dos sonhos. E com os teus prodigiosos lábios vermelhos que me fazem arder em chamas circulares. Todos os homens vacilam e cedem quando veem no espelho apenas o seu rosto solitário. Nessa morada sombria sucumbem como olmos enfermos. E esquecem-se do seu orgulho. E vestem-se com a sua fatigada frustração de minotauros vazios. E sentam-se no seu trono de pó. O meu espírito deixa-se embalar pela alegria breve do entardecer. Aceno-te com a calma iluminada da noite e voo para fora do destino.  


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Terça-feira, 16 de Abril de 2013

Rua de Santo António - Chaves


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Segunda-feira, 15 de Abril de 2013

Pérolas e diamantes (33): imagens de uma cidade (II)

 

Dizia-me a minha avó: “Tens muito orgulho, meu neto. Mas isso agrada-me. Porque na vida o mais importante não é o dinheiro ou a suposta cultura que vem nos livros, mas sim o orgulho. E é o facto de as pessoas serem orgulhosas o que lhes dá independência e liberdade.”

 

Foi dessa forma que consegui aprender a olhar para a nossa cidade: com orgulho. E ela, a nossa a cidade, retribuiu-me da mesma maneira.

 

Quando se olha uma cidade deste modo, e se vivermos durante muito tempo no seu espaço, para que consigamos fundir as imagens (paisagens, ruas, pontes, praças, casas, jardins, monumentos, pessoas) com os nossos sentimentos mais genuínos e profundos, ao fim de certo tempo tudo isso, tal e qual como as canções que nos recordam paixões, amores e desenganos, transforma-se em princípios que nos revelam em pormenor determinados sentimentos e estados de alma.

 

Por isso é que a nossa cidade (a nossa orgulhosa cidade) é para mim um lugar alegre e acolhedor porque a primeira vez que a vi explodia nela a força telúrica da primavera. Nos seus jardins as crianças e os adultos brincavam, sorriam e falavam com o mesmo entusiasmo e fervor dos pássaros assobiadores.

 

E o Castelo, meu Deus, o Castelo! Observei-o primeiro de longe, quando entrei na cidade numa camioneta onde também vinham a família e a mobília. Mas foi à noite o momento do deslumbramento. A lua transformava os edifícios num admirável conjunto de chiaroscuro (e vai mesmo assim em italiano culto para impressionar) tão ao gosto de Leonardo da Vinci, dando-lhe um ar, como se o resto não fosse suficiente, de um filme de Fellini. Amarcord (io me ricordo). Eu lembro-me!

 

As formas sombrias, banhadas por uma luz prateada e pálida, faziam ressaltar todo o mistério das suas ruas e a majestade do Castelo. A Torre de Menagem, as suas ameias e os telhados das casas sobressaíam na noite como se de uma fotografia inefavelmente bela se tratasse, que vista uma vez apaixona para a vida inteira. A parede grossa das muralhas e a sua fortaleza fizeram-me sentir a sua grandiosidade invencível.

 

A partir daí, esse passou a ser o núcleo fundamental do meu círculo de encanto. O amor é mesmo assim. E quem ama verdadeiramente a nossa cidade sabe de certeza absoluta aquilo a que me refiro.

 

Depois apaixonei-me também pelos seus lugares tristes, que também os tem (e cada vez mais), pelos seus bairros, as suas ruas estreitas, pelas suas paisagens singulares que mudam ao sabor inconformista das estações.

 

Alguma coisa tem de significar nascer num determinado lugar do mundo e em determinado momento da humanidade. Tenho para mim que é nesse “determinismo” que se oculta a misteriosa alquimia entre a formação da nossa própria personalidade e a cidade onde sempre vivemos.

 

Penso que é na captação da luz e das sombras da nossa cidade, na absorção da sua génese e na imersão dentro da sua alma verdadeira que descortinamos a forma e o sentido.

 

Por isso amamos as suas ruelas, os seus monumentos, o seu esplendor e mesmo a sua ruína. Amamos a sua cintilação milenária. Amamo-la porque é nossa, mas, sobretudo, porque lhe pertencemos. 


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Domingo, 14 de Abril de 2013

Homem com chapéu


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Sábado, 13 de Abril de 2013

Tecedeira


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Sexta-feira, 12 de Abril de 2013

O Homem Sem Memória - 155


155 – Mas a sua carreira cinematográfica não acabou no “Trinta e Um”, era o que mais faltava. Além disso, um verdadeiro artista nunca se rende.


O José podia não ser um bom apreciador de cinema, nem sequer ter as qualidades suficientes para ser ator, mas sabia ler e interpretar as críticas cinematográficas bem melhor do que os filmes. Decidiu-se então pela realização. Já que não podia entrar nos filmes, podia, pelo menos, escrevê-los e realizá-los.


A oportunidade surgiu-lhe com a criação de um grupo dedicado à sétima arte por parte de um estudante da Escola Superior de Cinema que se encontrava em Névoa a cumprir o serviço militar e que se ofereceu para ministrar no Liceu umas aulas sobre o nobre ofício dos filmes a um grupo de interessados.


Depois de algumas abordagens, mais ou menos teóricas, apostólicas e romanas, o monitor desafiou os participantes a escreverem um guião. Dependendo da sua qualidade, ficou decidido que os mais interessantes iriam ser objeto de estudo e alguns podiam mesmo vir a ser subsidiados.


Foi o que o José quis ouvir. Era chegada a sua oportunidade de brilhar. Logo ali se formaram dois grupos: o dele e o dos outros. Iria sempre ser assim a sua vida: ele e os outros, ou os outros e ele, que, para o caso, tanto monta. Ou para sermos mais objetivos e rigorosos teremos de escrever: serão sempre os Outros contra Ele.


O grupo de cinema era misto, mas as raparigas limitaram-se a fazer o papel de observadoras, ficando a ver onde a disputa ia dar. No final, dependendo do grupo ganhador, as raparigas seriam agraciadas com o galardão da sua escolha para entrarem nos filmes subsidiados.


Basicamente, o grupo do José ficou constituído por ele e por meia dúzia de colegas da sua turma do Liceu. Ele encarregou-se de tudo. As colegas ficaram à espera. Naqueles tempos as raparigas ficavam quase sempre à espera. Ao contrário dos tempos que correm, em que cada vez são mais atrevidas.


O outro grupo era maioritariamente constituído por rapazes, quase todos parvos, gabarolas e um que outro craque de futebol ou proprietário de muitos discos de música rock, dois sinais de distinção juvenil que as raparigas adoravam e os paspalhos admiravam e cobiçavam. Resumindo: era o José contra o mundo e arredores. Mas a sua fibra de revolucionário solitário veio ao de cima.


Isolou-se em casa e pôs-se a escrevinhar uma ideia que pudesse ser colocada num filme de cerca de dez minutos, que era o tempo que durava a fita das três bobines de filme a cores Super8 com que poderia vir a ser obsequiado.

 

Escreveu, rescreveu e até “trescreveu” um argumento, mas não lhe agradou. Rasgou-o com toda a convicção. Começou então a ler com o propósito de que a inspiração lhe chegasse através dos livros. Mas a inspiração, essa traidora, teimava em nem sequer se abeirar dele. Mas o José, filho da Dona Rosa e do guarda Ferreira, não desesperou. Era o que mais faltava. O José não era de desesperar. Desesperar jamais. Por isso continuou a ler livros e algumas revistas de qualidade. Pelo meio assistiu a mais umas tantas aulas do grupo de cinema.


Basicamente, o grupo rival andava a ser ajudado pelo monitor a desenvolver um argumento baseado na “Barbarela”. Uma coisa mexeruca, sem tino, nem originalidade. O monitor tentava puxar a história para o picaresco, os elementos do grupo teimavam numa abordagem ainda mais pirosa, como se isso fosse possível. Uma coisa entre o folhetim “Simplesmente Maria” e a longa-metragem “A Piscina”. O José, a meio da discussão, riu-se discretamente, como era seu timbre e feitio. Foi o bastante para se virarem para ele e o desafiarem a elaborar uma ideia melhor. Ele fê-lo. E tão bem que o monitor pegou nela e desenvolveu-a como se fosse sua. Situação que se irá repetir ao longo da sua vida: ele a ter as ideias e os outros a apropriarem-se delas e a utilizá-las como se fossem suas.


A personagem principal continuava a ser uma rapariga tipo “Barbarela”, mas o José tinha-a transformado numa espécie de loba má que persegue o casaquinho vermelho, um rapaz tão ingénuo e tão virginal que até parecia santo, que vivia com o avô rico e que morria de amores verdadeiramente platónicos por um seu amigo pobre e feio, falsamente modesto e muito gozão. Basicamente, a história desenvolvia a ideia de uma rapariga trintona, a loba má (um misto de “lobimulher” e vampiro), que tomava conta do avô que tinha uma mansão na floresta, tentava comer o casaquinho vermelho e abusar sexualmente do tal rapaz pobre. Só que, a meio da história, os seus intentos eram descobertos pelos sete descendentes dos sete anões da Branca de Neve (que agora trabalhavam sob as ordens de uma descendente da alva personagem dos contos dos Irmãos Grimm, que se bronzeava compulsivamente nas praias do Norte de Portugal), que raptavam a loba má e a levavam para um circo onde a apresentavam, em noites de lua cheia, a um público previamente selecionado e cheio de dinheiro, ávido por extravagâncias e aberrações deste género. 


O monitor, entusiasmado, tentou passar a pequena história para o cinema, mas depressa chegou à conclusão de que a ideia era muito avantajada para um grupo de rapazes que mal sabia distinguir um plano de um contraplano, um fundido de um encadeado, e muito menos pronunciar Ingmar Bergman ou Akira Kurosawa sem se enganar. 


Por isso deu-se por satisfeito com o dramalhão. Limitando-se o filme a reproduzir imagens pouco criativas do corpo, decorado com um biquíni, de uma rapariga loira e de olhos azuis que frequentava o Liceu, que acaba assassinada por uma morena e de olhos castanhos, que frequentava a Escola Industrial, à beira da piscina do Aeroclube, enquanto o namorado da loira, agora craque da equipa de futebol de Névoa, que tinha sido namorado da morena, quando era estudante repetente do Liceu, dança na discoteca, também do Aeroclube, com uma mulata filha de um retornado proprietário de uma ourivesaria que, insinua-se, abriu com o rendimento dos diamantes que contrabandeou de Angola para Portugal em bisnagas de dentífrico com proteção de chumbo para não serem detetados pelos aparelhos dos aeroportos.


O filme esteve para não ser realizado porque no grupo existiam dois galos para o mesmo poleiro. Um, curiosamente, era o namorado da rapariga loira escolhida para entrar no filme; e o outro, também curiosamente, era o namorado da morena. Como os dois ambicionavam ser, ao mesmo tempo o realizador e o ator principal, o monitor teve de se impor e distribuir o mal pelas aldeias. O namorado da loira, por sorteio, ficou com a tarefa de realizador e ao namorado da morena tocou-lhe o papel de galã. Quem amuou foi o namorado da mulata, que ficou de fora a rachar lenha. Mas não se deu por vencido. Exigiu que para a sua namorada entrar no filme a dançar agarradinha ao namorado da loira, que na verdade era namorado da morena, ele tinha de participar, quanto mais não fosse, como cameraman. O que foi aceite pelo monitor, mas com o voto contra do realizador que também desejava ser ele a manipular a câmara, pois o namorado da mulata era um desastre no manejo de material mais sofisticado do que um lápis, mas mesmo para esse tinha de pedir ajuda, sobretudo para que lho afiassem, senão era rapaz para reduzi-lo a aparas sem conseguir escrever uma palavra que fosse.


A rodagem da curta-metragem correu sem sobressaltos. Isto até ao momento da filmagem da cena da dança na discoteca entre a mulata e o futebolista, o tal que era namorado da morena. Aí foi o cabo dos trabalhos. Quando o realizador, que era o namorado da loira, dizia “ação”, logo o cameraman, que era namorado da mulata, se virava para o ator principal, que fazia de futebolista e era o namorado da morena, e lembrava que devia usar a sua namorada como atriz, mas que não devia abusar.


E avisava: “Porque, apesar do cinema ser cinema, é sempre muito difícil a quem vê, e sobretudo a quem participa nas cenas, distinguir a realidade da ficção, diferençar o que é real e o que é imaginário, apartar o trabalho da paixão, o fingimento do sentimento e… alto lá, não a apertes tanto, não a beijes assim, não a apalpes… faz antes que a apalpas… não a beijes, faz que a beijas… não a… não… corta… corto… vou cortar… cortei.”


E o realizador, o tal que era namorado da loira, afirmou perentório: “Mas aqui quem manda cortar sou eu.” E o cameraman: “Mas a namorada é minha.” E o ator, que fazia de futebolista e que era namorado da morena: “Ninguém te quer a namorada para nada.” E a namorada do cameraman: “O ciúme mata o amor.” O realizador: “Isso não está no guião. O filme é mudo.” O cameraman: “Dizes isso porque a tua namorada só faz de assassina e ao único a que se tem de agarrar é à navalha de ponta e mola.”


Depois de uma pausa, voltou-se ao trabalho. E o realizador, o tal que era namorado da loira: “Ação.” E o cameraman: “Não te meneies tanto, Manuela. Parece exagerado. Parece que estás a gostar.” E o realizador: “Ainda bem que o filme é mudo, senão em vez de um drama seria uma comédia.” E o cameraman: “Corta… corto… vou cortar… cortei. Parece que em vez de dançar estão a… estão a…” E a namorada do cameraman: “Na minha terra é assim que se dança.” E o cameraman: “Pois na minha não é. E ou o filme acaba aqui ou acaba o nosso namoro.“


Para abreviar, podemos relatar aos nossos estimados leitores que o filme foi para diante e que a sua dimensão plástica melhorou significativamente. Nisso teve toda a responsabilidade o José, que acabou por ser o escolhido para servir de cameraman.


No final, aconteceu tudo como na vida real. A mulata enamorou-se do seu colega de trabalho e a sua namorada, em ato de vingança, apaixonou-se pelo primeiro cameraman.


O José ainda pensou fazer desta rodagem o guião para o seu filme. Mas desistiu por causa dos direitos de autor. Os seus rivais não lhe perdoariam o plágio da realidade. E ele não era homem para plagiar. Copiar, sim. Plagiar jamais. 


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Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Na rua


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Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

O Poema Infinito (141): em contraluz


Apesar do rigor da fotografia do teu corpo, para mim ele surgirá sempre tão volátil como as estátuas cósmicas. Por isso insisto sempre em esconder-me no seu interior. Pouso a minha cabeça íngreme docemente sobre os teus joelhos e adormeço. A noite é um estuário denso de dedos emaranhados e de memórias férteis e de bocas húmidas. Os meus olhos vigiam-te quando colhes a doce cor das maçãs. Pelas fendas das janelas penetra a fragância rubra do entardecer. A sua luz espessa deita-se por cima dos nossos corpos à procura de sentido. Tocámo-nos tão inocentemente como duas crianças inábeis. Daí avistamos toda a terra que o nosso deus panteísta criou. Alguém derrama gotas de Baco na toalha alva em honra do vinho. Reparamos na sua delicadeza bárbara impregnada de sentido e desejo. O teu rosto inclina-se sobre o meu como se fosse um ponto de luz. Nesta hora costumam aparecer as ilhas impregnadas de sonhos perturbadores. O meu corpo viajante partirá ao alvorecer atado numa estrela de silêncio. A casa move-se. A cidade agita-se. Os pomares deixam-se assediar pelo fulgor cítrico do verão. Lembrar-me-ei indefinidamente da luz acesa dos teus olhos quando te possuo. E do seu orgástico vagar. Pela madrugada, os deuses do sono voltam para me cansarem dentro dos seus leitos vegetais. Sobre os oceanos surgem as constelações descobertas pela insónia. Volto a inventar-te. Volto a seduzir-te. Volto a pousar as minhas mãos no veludo agitado e geométrico do teu cabelo. Enquanto durmo, os cavalos gloriosos da aurora correm na direção do mar. Uma suave aragem circula pelas paredes da casa. Permaneço vivo na memória da sua ausência. É meu destino desaguar no sono e enlouquecer devagar. Os meus dedos são como as folhas sedosas dos carvalhos jovens. Deixo-me condenar pela invenção do teu corpo, pelos teus dedos de rosa fulgurante. Dou de beber ao teu desejo. Por vezes, tudo o que nos rodeia cai aflito dentro da sua própria ruína. Os cantos do quarto cintilam. Apenas os fragmentos se deixam submergir pela solidão das praias. As casas, essas, estão todas condenadas à demolição. As cidades submergem nos seus rastos de solidão e avidez. Essa é a sua velocidade de indiferença. Tu conheces a minha solidão. Por isso te amo. Não sei onde começa o esquecimento, mas tenho a certeza que nasces sempre no meu lugar desejado. Lá onde os corpos são aromas longínquos de ânsia e volúpia. Lá onde o tempo é uma fotografia de espaços e gestos. Lá onde os sexos são pássaros bruscos sulcando os ares. Lá onde me esvazio de mim para me inundar de ti. Lá onde a memória arrasta a pele e desenha as línguas que aderem aos lábios e aos sexos. Lá onde os dias continuam límpidos e sabem a sal e ardem dentro das bocas aflitas. Lá onde os pássaros de lume cantam ao desafio. Lá onde os dias se transformam em ilhas que nascem como flores. Atravesso o teu corpo falando com a noite e reclinando-me nas árvores que acendem o vidro das casas incendiadas. Aos poucos, os nossos corpos falam cada vez mais com a noite. Depois calam-se isolando-se dentro das brancas margens da aflição. Nada sobrevive ao esquecimento perfeito do tempo. As cidades desfazem-se dentro dos seus sinais indecifráveis. Os nossos corpos colam-se desaguando em carícias líquidas. A vida vai de uma margem à outra margem da fotografia. Revelam-se de novo as aves no desenho lúbrico dos teus lábios. Confundimo-nos dentro dos nossos sonhos. Imitamos a lucidez. Imitamos o sussurro do fogo e o deambular confuso das borboletas. O amor fica impresso nos nossos corpos. Tudo volta a ser fresco. As galáxias cantam. As urzes e as giestas irrompem dentro da forte contraluz deixada pela poeira do sol. Subtil é o fogo que continua a nascer dentro de nós. Não tarda a amanhecer. As palavras despojadas ganham de novo sentido. 


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Terça-feira, 9 de Abril de 2013

Árvores


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Segunda-feira, 8 de Abril de 2013

Pérolas e diamantes (32): imagens de uma cidade (I)


Acho que foi Benjamin Disraeli (1804-1881; escritor e político britânico de origem judaica e italiana, com raízes portuguesas e primeiro-ministro do Reino Unido) quem disse: “Se a versão é mais pitoresca do que o facto, conte-se a versão.»

 

E sendo os factos aquilo que são, pelo menos ao nível do nosso burgo e da política que nele se teima em fazer, desta vez vou tentar transmitir a minha versão pessoal do amor por uma cidade.

 

Por muito que o queiramos disfarçar, cada um de nós possui dentro de si um texto que é metade visível e outra metade encoberto, baseado em preconceitos e devaneios, ou, como se costumava dizer noutros tempos, num idealismo que dá ser e sentido ao nosso juízo e às nossas ações. E é nesse texto onde encontramos o objetivo para a vida.

 

Quando me zango, ou deprimo, ou ambas as coisas, a cidade toma por vezes um outro rosto. As cores vivas das ruas e das casas que a fazem ser-nos familiar apagam-se de repente. E as pessoas para nós conhecidas transformam-se em gente misteriosa que desde há séculos caminha desesperadamente pelos passeios em busca de sentido e de um destino promissor, sempre sonhado, mas sempre adiado.

 

Os parques, os jardins e as praças transfiguram-se em sítios despidos e sujos, onde os postes elétricos parecem extraterrestres e os cartazes publicitários cobrem as paredes das casas em ruínas, onde os blocos de betão anónimos e feios adquirem a configuração de mostrengos. Chaves, de repente, fica vazia como a minha alma.

 

Instala-se em mim a sensação de que existe qualquer coisa de insuficiente, de malévolo e de incompleto, tanto na minha alma, como na minha vida, como na cidade. Então conjeturo que o pior ainda está para acontecer, se não tivermos a coragem de atalhar a tempo a génese do seu ressurgimento.

 

Um verdadeiro sentimento de tristeza insuportável e destrutivo se apodera das ruas estreitas e abandonadas e esmaga-me a alma. Mas como não há bem que sempre dure, penso, para meu consolo e sanidade mental, também não há mal que nunca acabe.

 

Esta tristeza, de que toda a cidade se sente aprisionada, apesar do nosso orgulho, e também da nossa resignação, começa a infiltrar-se na alma dos que continuam a acreditar num futuro que seja verdadeiro e não uma ficção estéril e medíocre.

 

Teremos nós o triste desígnio de capitularmos como capitularam os líderes do seu destino mais recente? Ou de cometermos os mesmos erros e apostarmos nas mesmas soluções, nos mesmos protagonistas e nos asfixiantes aparelhos partidários?

 

Houve um período da minha vida em que sozinho (ou por vezes na companhia de um ou dois amigos mais chegados), fazia caminhadas noturnas que duravam horas. Caminhava até onde me levavam as pernas, observava as montras, olhava para os restaurantes, para os cafés, atravessava as pontes, imergia nos caminhos e nos bairros velhos (até morava num), mergulhava na penumbra, dava a volta às praças, sentava-me nos jardins solitários, olhava para os cartazes e as tabuletas, parava à porta do cinema, de onde tinham saído há pouco tempo centenas de pessoas alegres e confiantes depois de terem visto mais um filme de cobóis, ou de amor ou, ainda, um filme histórico ou uma comédia italiana tão ao meu gosto de jovem inocente, olhava para as gotas de chuva caindo nas pedras das ruas, ou nas poças que se formavam, olhava para as luzes da cidade e para os faróis dos carros.

 

Foi nessa altura que se apoderou de mim o desejo, e que ainda mantenho, para mal dos meus pecados, de correr para casa e de fixar essas imagens por escrito, obsessivamente, sentindo em mim a comoção de um sentimento feito de felicidade, de alegria e de ardor. Nessa altura ainda não sabia o que a vida me destinava. Mas acreditava no futuro. Hoje os jovens nem a isso se podem agarrar. 


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Domingo, 7 de Abril de 2013

Silhueta


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Sábado, 6 de Abril de 2013

Conferindo


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Sexta-feira, 5 de Abril de 2013

O Homem Sem Memória - 154


154 – Acabada a fase do teatro começou a do cinema, também conhecida como o ciclo do “Trinta e Um”. Estava escrito nas estrelas, o José tinha de ser artista.


Já tinha experimentado a poesia com algum sucesso, o teatro com algum sacrifício e iniciava agora o seu ciclo cinematográfico. A partir daqui, apenas lhe faltava tentar a prosa, pois para a música não tinha jeito nenhum, apesar de possuir bom ouvido. Talvez desse um tocador medíocre de bombo ou um sofrível tangedor de ferrinhos, mas para o resto dos instrumentos era tosco de todo.


Podemos afirmar que a sua aproximação ao cinema já tinha sido iniciada há alguns anos atrás, quando, numa eira da sua aldeia, assistiu à projeção do “José do Telhado”, não do filme mudo realizado por Rino Lupo, em 1929, mas sim ao dirigido por Armando Miranda, em 1945; ou quando chorou baba e ranho ao assistir, no Café Terra Fria em Montalegre, ao “Amor de Perdição” de António Lopes Ribeiro, realizado em 1943. Também não é despicienda a visualização em televisão de várias películas, nomeadamente do “Feiticeiro de Oz”, de Victor Fleming, com a, para sempre, menina Judy Garland. Como viu o filme a preto e branco, nunca mais esqueceu a feiticeira que voava na vassoura e que se ria como uma louca. Essas imagens farão parte de muitos dos seus sonhos, ou, melhor dizendo, de maior parte dos seus pesadelos. Na sua condição de operário da construção civil, na já referida época missionária, José assistiu a muito filmes de cobóis e de kung fu.


Depois do 25 de Abril assistiu a três filmes fundadores da sua suposta personalidade artística: “Lawrence da Arábia”, de 1962, filmado por David Lean; “A Filha de Ryan”, de 1972, também da autoria do mesmo realizador; e o “Último Tango em Paris”, igualmente de 1972, realizado por Bernardo Bertolucci, a que assistiu no meio de centenas de espanhóis que faziam excursões para verem filmes deste género em Portugal, pois em Espanha Franco proibia-os de passarem nas salas de cinema.


Depois destes incidentes cinematográficos, dedicou-se a ler crítica de referência que o encaminhou para a cinematografia de Godard, Bergman, Fellini, Pasolini, Antonioni, Kurosawa, Fassbinder e Visconti.


Se antes saía do cinema um pouco embrutecido pela pouca qualidade dos filmes a que assistia, a partir das suas leituras de cineclubista passou a selecionar tanto os seus filmes que apenas ia aos que eram alvo das melhores críticas em revistas da especialidade, ainda mais densas do que os filmes de que falavam. Agora via-se e desejava-se para conseguir manter-se desperto até ao fim de um filme. E quanto melhores críticas tinham os filmes mais ele adormecia quando os via. Claro que começou a pensar, e com razão, que era muito estúpido e também ignorante.


O José bem perseverava na leitura das críticas e fazia os possíveis por se manter atento e desperto durante a projeção dos filmes. Mas, santo deus, adormecia quase sempre. E o pior era que o filme ainda nem sequer tinha chegado a meio. Por isso passou a ir ao cinema sempre sozinho, porquanto os amigos deram em lhe chamar pretensioso e convencido pois, apesar de falar muito bem dos filmes que programava ir assistir, nunca os conseguia ver até ao fim. Nem ele, nem os amigos, que o insultavam por os ter convencido a assistir “àquelas merdas”.


Eles, os ignaros, saíam a meio do filme fazendo um alarido enorme. Ele, o erudito, o devoto, ali se deixava ficar entre o sono e a qualidade intrínseca daquelas obras-primas da sétima arte que esvaziavam salas e punham as plateias aos gritos e às patadas no chão e nas cadeiras.


Vendo-o assim triste e abandonado, quer pelos amigos, quer pela sua imperfeita sensibilidade cinematográfica, Francisco, um seu colega de Liceu, resolveu convidá-lo para ir até ao “Trinta e Um”, pois andava a fazer ensaios para escolher atores e atrizes para rodar um filme em super 8. O José, um pouco envergonhado, disse-lhe que era um mau ator. O Francisco perguntou-lhe porque tinha tentado o teatro se não tinha as qualidades exigidas. Ele respondeu-lhe que se desenrascava a fazer de figurante. Foi então quando o Francisco atirou a matar: “Tens uma linda cara e um cabelo comprido que me fazem lembrar Jesus Cristo. Além disso, a representação no cinema é diferente da do teatro. Aparece lá, que logo vemos.”


E o José apareceu no “Trinta e Um” com a sua carinha larocas, o seu cabelo comprido e ondulado, os seus olhos carinhosos e o seu magro corpo de modelo. Francisco apresentou-o à malta e ofereceu-lhe qualquer coisa de beber. Depois passou um charro, ou dois, pela sala, mas o José, quando viu chegada a sua vez, agarrou na prisca e colocou-a nas mãos do seguinte elemento sem a levar aos lábios. Começou logo a ser olhado de lado. Quem rejeita partilhar um charro não é parceiro à altura de acamaradar, especialmente entre a gente das artes. Dar uma passa no charro cria identificação com o grupo ou coisa pelo estilo.


Alguns colegas do Liceu começaram logo a dizer à boca pequena que o José era o típico punhalista, não fumava maconha e criticava quem o fazia. Ali a malta era toda antirrevisionista. Tudo esquerdista da melhor linhagem. Tudo bom filho da burguesia. Por isso todos antissistema capitalista. Todos bons maoistas. E riam-se muito depois de dar uma passa na prisca. Todos se riam menos o José, que começou a pensar que troçavam dele. Depois de muito se beber e de muito se chupar nas priscas de liamba, o Francisco começou os ensaios. Tudo muito felliniano, muito circense, muito maneirista. O José saiu-se mal como o caralho. Não se conseguia descontrair e por isso não se mexia direito nem falava que se ouvisse.


Não foi chamado a entrar no filme. Mas Francisco não deixou de o convidar para o “Trinta e Um”. Ele não rejeitou a oferta, pelo menos lá podia observar boas fotos, ler livros interessantes e ouvir música de qualidade.


O único elemento com quem conseguiu acamaradar foi um rapaz que se apelidava de poeta e que escrevia quase em transe, provocado não por qualquer apelo divino, mas antes pela cerveja e uns ácidos excitantes que misturava com muita erudição e habilidade. Depois de engolir uns comprimidos e de beber duas ou três imperiais, subia ao “Trinta e Um”, pegava num caderno e numa esferográfica e escrevia até que o efeito lhe passasse. Por vezes saíam-lhe coisas com alguma qualidade que ele recitava para o José, ou ainda para o Francisco, quando este se encontrava a sós observando fotografias ou visionando filmes por si realizados.


O seu novo amigo também não entrava nos filmes do proprietário do “Trinta e Um”, pois, apesar de ser um bom poeta, era feio como as igrejas. O José por vezes brincava com ele, dizendo-lhe que se o Francisco fosse um adepto de Pasolini tinha com toda a certeza o papel principal, pois, na sua opinião, o Pasolini escolhia para os seus filmes sempre as criaturas mais feias que lhe apareciam pela frente. O poeta ameaçava-o sempre entre um sorriso e uma gargalhada: “Qualquer dia dou-te um beijo na boca para te calar.”


O Francisco falava muito com bonitas raparigas e algumas vezes com alguns rapazes lindos que por ali apareciam. O José invejava-lhe a sorte. Até ao dia em que soube que o Francisco, como bom artista de vanguarda, tinha uma inclinação para ser um amigo e cúmplice das meninas, mas uma teimosa cisma em namorar com os rapazes.


A última vez que entrou no “Trinta e Um”, foi uma tarde em que encontrou o Francisco sozinho de avental e espanador do pó na mão a escutar músicas da Gloria Gaynor e a dançar com uns trejeitos um pouco afetados para o seu gosto de comunista punhalista e de ex-seminarista assumido.


“Não queres dançar comigo”, perguntou-lhe o Francisco. Liberta-te desses preconceitos burgueses e da rigidez ideológica do marxismo-leninismo. Vem, solta-te, dança comigo, despe-te…”, mas não disse mais nada pois o José saiu do “Trinta e Um” como se fosse um diabo a abandonar o corpo de um possuído depois de ter sido expulso por um exorcista da força e do carisma do padre Fontes.


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Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

À espera


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Quarta-feira, 3 de Abril de 2013

O Poema Infinito (140): insustentabilidade

 

Resplandeço na voragem da tua boca. Arrancas de mim um espasmo de estrela e sorris com esse teu olhar de deusa verde e cintilante. Toco nos teus arcos do desejo, na tua ponte de mel, na tua hemisférica colina vertebral. Por isso amo o tremor das tuas veias e a frémito das tuas pestanas e o teu cio. E o teu ciclo vulvar. A tua roupa vibra. A noite avança. Dançamos atraídos pela força das canções venenosas. As casas flamejam dentro do seu frio secreto. Deus é atraído por pequenos átomos diamantíferos. São esses os seus laços de pedra. Respiramos feixes de luz. Enlouquecemos dentro das estrelas expelidas pela morte. Amamo-nos dentro da crueza dos nossos corpos. As nossas bocas refletem todos os jardins onde estivemos. As casas são agora precipícios que queimam as memórias quentes dos aspetos. Os corredores brilham encadeando-se como os animais na procriação. Nunca vimos esta água alumiada pelas paisagens que sopram nas nossas janelas. Olhamos o centro do mundo e tocamos no fundo das memórias. O mundo para ser nosso tem de ser uma coisa sonora. Tu és o meu laço de carne. Salto dentro da tua insónia e prendo-te dentro do meu horto de espelhos. Incendeio-me interiormente concentrando-me no mar côncavo do teu desejo. Houve tempo em que fomos ginetes ferozes que se incendiavam pela paixão e pela dor que nos conduzia aos precipícios. Agora fechamos os planetas e os espelhos e as casas e os abismos atómicos. Apesar dos eclipses, os astros não adormecem. Como crianças, damos a volta à noite completamente acesos. Despedimo-nos das giestas inesperadas e da sua iluminação estranha. Espalhamos a eternidade dentro de um instante. Somos a sua corrente oculta, a sua absorvente melancolia. Dizes: Gosto dessa tua ironia doce que toca no fundo dos segredos mais altos. E eu dou-te um beijo com a minha boca subtil. O teu olhar tem a beleza descendente do mar e a glória excelsa da dor. As tuas mãos são monumentos de inspiração. Os teus gestos são rios misteriosos. Comoves-me com esse teu sorriso enigmático. Ardo devagar, como as velas. Essa sempre foi a minha aprendizagem da paciência. E eu sou tão impaciente. A eternidade é o segredo mais lento do universo. O imprevisto silêncio do mundo alimenta todas as dúvidas e incendeia todas as certezas. Procuro-te dentro da tua voz e entre o estremecimento dos salgueiros. E também através do brilho imaturo do centeio. Os homens crescem dentro da sua solidão e acordam pousados na sua incerteza de lua surpreendida. Todos os gritos são marítimos porque foram desde sempre invadidos pelas ondas. Incendeias-me com o teu espírito florido. Ergues-me dentro do teu olhar. Pousas em mim com o teu silêncio que tem a imensidão da terra. O tempo contorna a nossa vida breve e pressente o nosso espírito atrapalhado. O tempo é uma imagem fechada dentro da sua voz monótona. Beijo em ti a vida que rebenta das amoras, o manso altar do desejo, o sentido antigo dos espantos, o instinto manso do pudor, a tradição alegre dos gládios, a distância doce da música, a loucura salgada dos oceanos, a distância espantada das mães, o rigor inspirado das sombras, a malícia da brandura, a verdade da água, o ciclo eterno da beleza, a rarefação das auréolas, a profundidade da noite, a voz renovada da natureza, a aprendizagem do vento, o minuto sobrenatural do fogo, a brisa florescente dos pinheiros, o instinto bárbaro do fulgor e o frágil instante da vida. Confesso: A cada êxtase teu extingo-me mais um pouco. Morrerei contigo amparando-me na tua voz. A cada espasmo. Por isso o tempo é insustentável. 


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Terça-feira, 2 de Abril de 2013

À chuva


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Segunda-feira, 1 de Abril de 2013

Pérolas e diamantes (31): as previsões e os números

 

1 - Correia de Campos, o já saudoso ministro da Saúde de José Sócrates (o Ressuscitado), em entrevista ao “jornal i” afirmou, preto no branco, que “a Troika são pessoas como nós”, o problema foi que encontraram pela frente “uns panhonhas como são os nossos atuais governantes, que não são capazes de bater o pé ou até ficam satisfeitos porque lhes cortaram 600 milhões…”

 

Daí é que enquanto o povo grita “que se lixe a Troika”, Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar e Miguel Relvas ouvem apenas “como é fixe a troika”.

 

Mas o problema não acaba aqui. Nisso todos somos um pouco culpados. Por isso é que Joseph Stiglitz avisa que a “Europa poderá ter de deixar morrer o euro”.

 

Então onde reside a nossa culpa?, perguntarão os estimados leitores. A culpa está no facto de comermos e calarmos, pois todos os sacrifícios que estamos a fazer são quase exclusivamente para mantermos a moeda única europeia.

 

Maria Filomena Mónica insurge-se contra a moda das avaliações estúpidas. E tem razão, pois a sétima avaliação realizada pela Troika foi feita num braço de ferro negocial com momentos que todos adivinhamos de crispação. Mas apenas isso. De facto, o que se tornou evidente é que é o próprio Governo quem desconfia dos seus números.

 

E lá voltamos à pergunta inquietante: Porque é que Gaspar nunca acerta uma previsão? Ele próprio, o sábio que lê o futuro das contas do país nas entranhas das aves, respondeu em direto e ao vivo: “Não sei!”

 

Ou seja, o nosso super-ministro das Finanças erra todos os números e não sabe qual é a razão. É muito provável que o erro seja dos números, ou, ainda melhor, da realidade, da crua e mentirosa realidade que teima em o contestar a todo o momento. Os especialistas registam que o desvio estre “as estimativas originais e os novos números é abissal”. E pode mesmo agravar-se.

 

Mas numa coisa pode este Governo cantar vitória. De facto, a Standard & Poor’s deixou de ter uma perspetiva negativa sobre Portugal. Segundo a sua simpática avaliação, a dívida pública portuguesa estabilizou os seus juros.

 

Por isso rejubilamos, pois à imagem e semelhança da Igreja Católica, cujos cardeais elegeram um Papa admirador dos pobres, e do seu máximo representante na terra, Francisco de Assis, também a nossa dívida sagrada estabilizou no lixo, que é, como muito bem titulou o “Expresso”, o standard dos pobres.

 

Isto apesar de Portugal estar em recessão profunda, de o desemprego estar num nível recorde e dos juros da dívida serem um buraco negro, agora mais ou menos estável, que apenas nos consome mais dinheiro do que toda a riqueza que produzimos enquanto país.

 

Mas rejubilemos, o “franciscano” Papa Francisco tem sentido de humor e não deixa de o evidenciar desde as janelas do Vaticano. Pobretes mas alegretes, lá diz o povo.

 

Henrique Monteiro, na sua coluna do “Expresso”, atento aos sinais, escreveu que “há momentos em que, sem sabermos porquê, somos otimistas.” E por isso vem de encontro àquilo que pensamos, ou nós vamos ao encontro dele, pois para o caso tanto monta.

 

Para o senhor Henrique, “o primeiro sinal é global. A eleição do Papa recaiu num argentino que parece modesto e que gosta”, ó meu Deus, “de futebol e de tango”. Imaginem só!

 

Depois refere outro sinal positivo, o “manifesto” que pede aos deputados uma coisa muito simples: que alterem as regras da sua eleição, para que passe a haver primárias para os eleitores de cada partido poderem determinar quem querem ver a representá-los e, também, que sejam permitidas candidaturas independentes.

 

Ou seja, parece que nesses dois sinais enxerga o otimismo que nos vai contagiar, pois, e é ele que o lembra, amparando-se em “O Leopardo” de Tomasi di Lampedusa, que “se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”.

 

Desta maneira salva-se o Vaticano e a Democracia. A nós, pobres mortais, ou escrivas de província, apenas nos resta esquecer os escândalos de pedofilia no clero, mandar os números do desemprego e os juros da dívida para trás das costas e emigrar. E o último a embarcar que, por favor, não se esqueça de apagar as luzes do aeroporto.

 

Como escreveu o filósofo José Gil, os portugueses estão a ser expulsos do seu espaço e paradoxalmente continuam a habitá-lo.

 

2 – Também cá pelo burgo são os números que dividem o poder, instituído, e a oposição, estabelecida. Não coisas tão triviais, e mesquinhas, como o termos deixado morrer, destruir ou definhar, o Jardim das Freiras, o Jardim Público, o Hospital, o Tribunal, o Centro Histórico, o Comércio Local, as Tradições, as Festas Populares e a Cultura. Aqui mesmo debaixo da nossa pacata indiferença e sob a nossa infinita saudade e compaixão. Não sei se teremos perdão.

 

Mas voltemos aos números da discórdia. O presidente da Câmara sustenta que a dívida do município é de cerca de 40 milhões de euros. A líder da oposição, estabelecida, contrapõe que essa dívida é de cerca de 50 milhões de euros. Por causa do ping-pong, João Batista desafia a líder do PS a mostrar “onde está a dívida escondida”. Cá ficamos à espera, pois com os números, e com a verdade, lembremos, não se brinca.

 

Para nós, cidadãos comuns, apenas nos parece que sendo a dívida de 40 ou 50 milhões é muito dinheiro. Muito dinheiro mesmo, que alguém vai ter de pagar com língua de palmo. Já agora adivinhem quem.

 

Pelo meio, o senhor presidente, face às críticas de dinheiro mal gasto por parte da líder do PS, contrapõe, com o seu característico sorriso e bonomia, que “houve obra e muita”. É até bem possível que exista, mas também é provável que a grande maioria dela esteja escondida em lugar incerto. E, como todos sabemos, o que não é visto não é lembrado.

 

Como muito bem recorda a Bíblia ao comum dos mortais: Não te esqueças que és pó e ao pó vais voltar.

 

Pegando no aforismo, lembramos aos políticos de serviço: Não te esqueças que és povo e ao povo terás de voltar.

 

Que a consciência nos seja leve. 


publicado por João Madureira às 07:45
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