Sexta-feira, 31 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 162


162 – Um pouco contra o que pensava serem as suas inclinações e preferências, e sempre que a ocasião se proporcionava, o José começou a participar e a achar alguma piada aos sínodos comunistas, também conhecidos como congressos; às missas coletivas marxistas-leninistas, também identificadas como comícios; às novenas revolucionárias, também denominadas de sessões de esclarecimento; e ao terço comunitário, também designado como reuniões de célula.


Não é que a ideologia lhe interessasse muito, nem a ele nem a ninguém seu conhecido, valha a verdade. Tudo no Partido era feito como uma obrigação que se executava para não colocar em causa o trabalho organizativo. Tudo era imposto, ou autoimposto. Depois de se colocar o motor da revolução a trabalhar, não existiam mais questões a discutir. Tudo fazia parte de um todo que não se dividia em partes. Tudo ia do zero ao infinito, como escreveu Arthur Koestler, ou até mais além, como muito bem lembrou Buzz Lightyear no seu voo iniciático. Quando se passava a integrar um coletivo comunista já não havia volta atrás. As partes diluíam-se no todo e nada podia restar do anquilosante individualismo que cada um transportava às costas como uma cruz reacionária.


Ao terço ia repetir, e ouvir repetir, a ladainha que lia no órgão oficial do Partido. Sentados em volta de uma mesa, todos diziam o mesmo, e repetiam-no até à exaustão, para deixarem bem claro que tinham lido o editorial da voz da classe operária e até tinham decorado as frases tintim por tintim. Os militantes de base pronunciavam as ave-marias e o camarada dirigente da célula atacava com o pai-nosso. No final, sorriam uns para os outros e lembravam aos mais distraídos que tinham de pagar as quotas, vender A Verdade e recrutar novos camaradas.


As novenas realizavam-se em períodos que podiam variar entre um e três meses. Faziam-se preferencialmente em salas pequenas para onde se convidavam militantes e familiares de militantes, simpatizantes e familiares de simpatizantes, amigos dos militantes e familiares dos amigos dos militantes e um que outro simpatizante de um partido mais à esquerda ou mesmo de outro um pouquinho mais à direita. Isto para que a ladainha não azedasse. Nestas sessões replicavam-se as reuniões de células e as reuniões das organizações concelhias. O camarada esclarecedor, quase sempre um funcionário concelhio, distrital ou regional, atacava com o pai-nosso da Verdade e os camaradas a esclarecer tentavam alinhavar as ave-marias do Combatente. Quando algum dos presentes se atrevia, por esquecimento ou distração, a rezar outra oração qualquer, era de imediato chamado à razão e aconselhado a ler A Verdade para ficar a saber da infalibilidade do catecismo. Se teimava, chamavam o exorcista, isolavam-no, e atuavam em conformidade. No final, sempre alguém se mostrava interessado em preencher a ficha de militante. O processo podia ser lento, mas era seguro. Uma vez comunista, comunista para sempre. E quem afirmar o contrário, mente.


O José, por indicação dos camaradas organizadores, fazia sempre o papel de inquiridor, colocando as perguntas mais pertinentes, agitando as massas e animando as sessões. Nada era deixado ao acaso, pois na revolução nada pode ser dado ao improviso. Tudo encaixa no determinismo histórico e na dialética revolucionária. Pois o sol tem de brilhar para todos nós, ou então não brilhará para ninguém. Alberto Punhal nisso era inflexível: revolucionários, ou vitoriosos ou mortos.


As missas, ou comícios, eram as reuniões de comunistas, ou simpatizantes, de que o José mais gostava. Nos comícios apenas rezavam, perdão, discursavam os padres, perdão, os dirigentes mais destacados, os que possuíam mais dom de palavra e os que conseguiam expressar sempre a mesma coisa dando a impressão de que afirmavam sempre algo de distinto.


Nas missas, perdão, nos comícios não se explicava fosse o que fosse, repetia-se o ritual de sempre e, lá pelo meio, o camarada mais graduado soltava o seu sermão com a plena convicção de que iria pôr a gritar a populaça. O tema principal era invariavelmente o demónio, perdão, a reação, que era sistematicamente acusada de praticar o mal e de tentar contrariar os ventos da História. Clamavam então bem alto as palavras de ordem eternas, gritavam o sagrado nome do Partido a plenos pulmões e davam punhadas no ar. E agitavam bandeiras. E gritavam abaixo a reação. E davam mais murros no ar, enquanto vociferavam novamente as iniciais do sagrado nome do Partido a plenos pulmões. E agitavam as bandeiras vermelhas. E cantavam. E tornavam a gritar as iniciais do sagrado nome do Partido. Depois calavam-se um bocadinho, enquanto mais um camarada rezava mais umas ave-marias e uns pai-nossos. E de seguida voltavam a dar socos no ar enquanto apregoavam as iniciais do sagrado nome do Partido a plenos pulmões e agitavam as bandeiras vermelhas, como nos filmes. No final, berravam alto as palavras de ordem de sempre, gritavam o sagrado nome do Partido a plenos pulmões, davam punhadas no ar e no fim entoavam a Hossana, perdão, A Internacional. E iam para casa alegres e sorridentes como se a revolução estivesse ali mesmo ao virar da esquina. Só que não estava. Mas isso não os impedia de sonhar com ela. Além disso, a revolução sonhada é sempre mais linda do que a realizada.


Apesar de admirar estes gestos repetitivos como se fizessem parte de um filme de Godard, o José era manifestamente incapaz de gritar fosse o que fosse, de cantar A Internacional (ele que se tinha sempre recusado a entoar o Hino Nacional por ser belicista e reacionário) e de dar murros no ar, como se fosse um chimpanzé animado e movido a pilhas.


Não sabemos ainda bem a causa, mas, por incrível que pareça, o José, após a leitura crítica de alguns livros, um pouco reacionários, convenhamos, começou a sentir uma certa repulsa pelos conclaves comunistas.


Os congressos do Partido pareciam-lhe pouco democráticos. Apesar de serem muito participados. E sentia uma certa repulsa pelo unanimismo que se verificava em cada escrutínio. Punha-se uma moção à votação do conclave e era logo aprovada de braço no ar, por unanimidade. Colocava-se uma outra moção ao sufrágio da assembleia e era logo aprovada de braço no ar, por unanimidade. Uma organização distrital punha um documento à votação e era imediatamente aprovado de braço no ar, por unanimidade. No congresso não existia a mínima polémica, a mínima divergência, a mais mínima dúvida fosse sobre o que fosse. Todas as intervenções eram aplaudidas de pé com os congressistas aos gritos e aos murros no ar, numa sintonia impressionante. Mal aparecia nova moção, logo os camaradas puxavam dos seus cartões de delegados e exibiam-nos no ar, como baionetas, aprovando-a por unanimidade e aclamação. Nova moção, nova votação unânime. Mais punhos no ar dando socos na atmosfera e mais gritos invocando o sagrado nome do Partido a plenos pulmões. Depois de tudo aprovado por unanimidade e aclamação, era chegado o momento da intervenção do camarada convidado em representação Partido Comunista da União Soviética.


Mal se ouvia o seu nome, repleto de “ires” “iches” e “oves”, o concílio entrava em delírio. Gritava-se o sagrado nome do Partido Irmão a plenos pulmões, davam-se punhadas ainda mais vigorosas na atmosfera e durante cinco minutos todos os militantes do PC entravam em transe coletivo. Muitos deles até conseguiam ver a figura de Lenine, qual Divino Espírito Santo, descendo sobre as cabeças dos membros do Comité Central para lhes apontar o caminho da revolução proletária mundial. Depois, o camarada soviético falava em russo – sendo por isso mesmo interrompido muitas vezes com palmas, cânticos e palavras de ordem –, e comunicava aquilo que lhe apetecia, numa total concordância com o que acabava de ser dito, não importando para nada o continente, o país ou a língua. Afinal a revolução era mundial, pois se não fosse mundial não era revolução. Mal o camarada soviético acabava o discurso, a sala vinha abaixo. Berrava-se, cantava-se, gritava-se, batiam-se palmas e até se chorava como se de novo Nossa Senhora de Fátima tivesse aparecido em cima de um chaparro, desta vez a três pioneiros alentejanos.


Logo depois, ainda com a sala em transe, era a vez do camarada Secretário- geral, Alberto Punhal, se dirigir ao sínodo. Ele, de novo eleito por unanimidade, aclamação e estupefação, informava os camaradas congressistas que o Comité Central tinha sido igualmente eleito por aclamação, unanimidade e estupefação, e que a revolução sim senhor e que o país tal e coisa e que o Partido coisa e tal. E avante camarada avante. E que a vitória podia ser difícil, mas era deles. E a sala só não desabava porque estava bem provida de betão armado. Nos últimos quinze minutos apenas se ouviam palmas, gritos, ululações e choros. E viam-se grossas lágrimas escorrendo pela face daqueles intrépidos guerreiros comunistas que choravam como crianças.


Todos saíam dali como se a revolução estivesse à sua espera mesmo ali ao virar da esquina. Só que não estava. Mas não importava. Talvez estivesse logo ao virar da outra. Na revolução, como na vida, a esperança é a última a morrer. E esquinas há imensas. Por muito que isso custe ao reacionários. 


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Quinta-feira, 30 de Maio de 2013

Festa - Pereiro de Agrações


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Quarta-feira, 29 de Maio de 2013

O Poema Infinito (148): porque morrem os pássaros


Antes que me perguntes por que morrem os pássaros, responder-te-ei esculpindo frases litigiosas e sentindo dentro de mim a esplêndida manipulação da antiguidade. Através de ti homenageio as cidades inesperadas, a ordenação íntima dos desvios, a limitação das memórias, a interioridade exposta do amor, a voz milenar da morte. Todo o amor é uma desordem absurda, uma curva de tempo. Deixo que os dedos aflorem no teu olhar e que todo o ritual de destruição se torne lógico. Em mim floresce a raiva e o voo resoluto dos milhafres. Pudesse eu navegar-te e os meus lábios haveriam de celebrar o hábito fecundador do incómodo. Reinicio o silêncio selvagem da rutura, reconstruindo vulgaridades, reinventando a longa métrica das aflições, o divino refluxo da reconstrução, a incómoda herança do desespero, o elogio paranoico da civilização reinventada. Quando os teus lábios se fecham, as imagens dos idiomas outonais são de novo metáforas antropológicas. Os cultores da celebração incendeiam as figuras e experimentam voos indicativos. Cumpre-se assim o destino: os invernos tornam-se definitivamente estéreis e resignam-se à verdadeira arte da linguagem. És agora um pretexto, um poema paciente, uma biblioteca efémera, um atalho metafísico. Pertencemos à geração nostálgica da geometria dos gritos e da crença absurda nas estradas. Por isso traçamos na obscuridade a nobreza maravilhosa dos paradoxos. Também eu sou o absurdo, o teu absurdo, o ousado absurdo do lirismo, a crença nas árvores indecisas, a linguagem obediente dos filhos, a indecisão lúcida da filosofia, a disponibilidade íntima do sofrimento e a fragmentada segurança das dúvidas, de todas as dúvidas que nos transformam a alma. O tempo cansa-nos o olhar e joga connosco a sua solitária fluidez. E enraíza-se nos dedos da memória com se fosse uma distância evasiva. Tu dizes: Todos os idólatras são obscuros. E sorris como se morresses. Falas numa corrente enumerativa de silêncios formais. O lirismo. Sim, o lirismo! Esse injusto equilíbrio da frivolidade. Esse tormento evocado por deus e que frutifica nos estultos. Sinto-me partir todas as manhãs, apesar de ficar ao pé de ti. Por isso recuso a compreensão do mundo. A sua ascese crepuscular, o seu brilho indeciso, o seu tormento nomeado, a sua belíssima imagem morta no quadro da parede. Eu sou a tua distância. Tu és a minha distância. Por isso domino a vontade de te amar ainda mais e de filtrar o esquecimento. As palavras que não te digo incendeiam os lugares longínquos que evocam a atenta celebração das planícies. Iluminas-me as tardes enquanto eu esboço as virtudes dos manuscritos. As frases ficam agora à distância das lágrimas. O esquecimento mexe e limita a crença, a linguagem desobediente, a devoradora harmonia dos corpos e da sua respiração. Tu és todo o meu universo erótico, o meu lugar abrigado onde ouço os gritos de todos os coitos do mundo. O mundo tem novamente o sabor amargo da tragédia. Vivemos numa época em que se sacrificam os poemas como se fossem assombramentos desnecessários. Já nem as vozes divinas cantam ao amanhecer. As tuas dúvidas ficam suspensas nos jardins aguardando o orvalho da alvorada. Olhamos todo o horizonte com o rosto chovido de lágrimas completas. Recordo o teu corpo nas ondas que rebentam na praia, sob o próprio peso das marés. Junto às falésias, gaivotas religiosas lançam-se em imprecisos voos de loucura. Amanhece o inverno na indefinição da terra. Os movimentos naturais da paisagem procuram a mobilidade da água. O céu fica rápido e nele desenha-se a ausência. Toda a liberdade é uma técnica de contrastes violentos. A solidão volta a descer como se fosse nevoeiro. Recuso o desígnio da melancolia. Transformo-me na fúria tranquila da escrita. E desenho a tua ausência na minha alma aflita.


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Terça-feira, 28 de Maio de 2013

Castanheiro - Pereiro de Agrações


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Segunda-feira, 27 de Maio de 2013

Pérolas e diamantes (39): roleta russa seguida de inauguração


E os factos caíram-nos em cima como uma peste negra. Os factos, não as dez pragas do Egipto. Mas os factos. Os cortes nos salários, nas pensões e nas despesas sociais. Cortes e mais cortes para fazer frente ao que o PM apelidou de emergência nacional, ou seja, para sermos simples e claros, o estado a que o país chegou pela sua mão e pela do inenarrável Gaspar.

 

São os tais 4,8 mil milhões de euros que Passos fingiu querer discutir, mas vai impor sem apelo nem agravo. Sem diálogo. E sobre o desemprego, nem uma palavrinha. Sobre retoma nada vezes nada. E outro tanto sobre esperança e futuro. PPC apenas foi capaz de embrulhar o seu miserabilismo num preâmbulo vergonhoso relativo ao Documento de Estratégia Orçamental, vulgo DEO.

 

Sem o menor pudor, ou sequer respeito pelos portugueses e pelos sacrifícios que lhes tem imposto de forma despudorada, o líder do Governo, e do PSD, diga-se de passagem, nada diz sobre a agiotagem dos mercados financeiros e sobre a roubalheira dos bancos respaldada pelos seus consórcios internacionais.

 

Por isso é que o DEO é um enorme embuste. Porque assenta em pressupostos errados e objectivos inatingíveis, mas, sobretudo, porque o documento ignora de forma deliberada a nossa realidade social, mesmo à beirinha da rutura.

 

Por isso é que hoje o país está tolhido pelo medo, pelo desalento e pela humilhação. O medo de se perder o emprego, de se regredir de forma definitiva na escala social, de se ver de um dia para o outro sem um mínimo rendimento que permita manter um nível de vida digno.

 

Todos já percebemos que os últimos anos da vida ativa que nos vai tocar viver serão sempre a piorar.

 

Mas, como se isso fosse pouco, o Governo resolveu praticar a política do terrorismo de Estado. E se Bin Laden odiava judeus e americanos, PPC odeia, com a mesma fé fundamentalista, os reformados e os funcionários públicos. Por isso os persegue, humilha e vilipendia, acusando-os de serem os responsáveis pela crise das finanças públicas e pelo desemprego dos jovens, tentando, dessa forma deplorável, colocar uma geração contra outra.

 

No fundo, trata-se de lançar o pânico sobre os reformados e os funcionários públicos e incutir o ódio geracional nos jovens.

 

Aos funcionários públicos propõe-lhes o jogo da roleta russa, que é a tão propalada mobilidade especial, apontando-lhes um revólver à cabeça e dizendo-lhes que têm de apertar o gatilho e esperar que a bala não esteja nessa câmara do tambor.

 

Nicolau Santos tem toda a razão quando afirma que o que pretende PPC, e o inenarrável Gaspar, mais não é do que reduzir o Estado a uma função meramente assistencialista, declarando dessa forma guerra aos portugueses.

 

Mas eu acompanho-o no desígnio de que há de chegar a altura de os portugueses varrerem o Governo para o caixote do lixo da História.

 

Por falar em Governo, não quero terminar esta crónica sem me referir à inauguração do comicamente apelidado “Centro de Artes Criativas de Chaves” pelo secretário de Estado do Desporto e Juventude e desde já afirmar que a propaganda política deste jaez deve envergonhar quem dela se serve de forma tão despudorada.

 

Mas o que mais me indignou (e eu, apesar de tudo, ainda me indigno com coisas destas, coitado de mim) foi o dandy governativo, que puxando de um provocador e postiço sorriso “pepsodente”, ter afirmado que o Estado gastou na recuperação do edifício mais de um milhão de euros e que de imediato fez uma coisa que não é habitual, entregando a gestão deste património a uma associação juvenil.

 

Mas o senhor secretário de Estado esqueceu-se de dizer toda a verdade: é que a referida associação pode ser juvenil, mas também é, e por inteiro, constituída e dirigida exclusivamente por militantes e simpatizantes da JSD.  O líder da dita associação é líder da JSD e foi candidato pelo PSD à CMC. E, até aposto, que vai sê-lo de novo e num lugar tido como elegível.

 

E isso é indigno de um Estado de Direito que deve tratar todos os jovens por igual. Lembram-se dos “jobs for the boys”? Bem prega Frei Tomás! 


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Domingo, 26 de Maio de 2013

Homens


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Sábado, 25 de Maio de 2013

Mulheres


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Sexta-feira, 24 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 161


161 – Depois do seu contributo para ajudar a enfrentar, e a vencer, a reação, na aliança sagrada entre o povo e o MFA, o nosso herói ascendeu uns degraus na consideração dos dirigentes do seu partido. Afinal o camarada José não era só bazófia, crítica e intelecto. Era também povo, marxismo-leninismo, armas e corpo às balas. E para lhe demonstrarem a sua estima, e o seu apreço, resolveram destacá-lo para o serviço de segurança. A planificação, o incentivo e a emulação são, como todos bem sabemos, os principais atributos dos revolucionários bolcheviques. Nisso os revolucionários são mesmo chiques. Rima e é verdade.


Principiaram logo com uma prova de fogo: incluíram-no na equipa de segurança do camarada Alberto Punhal. E não o fizeram de ânimo leve, nem para dar nas vistas, pois destacaram-no para ir proteger o Secretário-geral do Partido em Bragança, cidade que tinha a fama, e o proveito, convenhamos, de ser considerada a mais anticomunista de Portugal.


O José conhecia mesmo um camarada que tinha sido expulso dessa cidade e a quem incendiaram o carro com ele lá dentro. O valoroso camarada conseguiu escapar, à justa, de morrer carbonizado dentro do seu automóvel e a tempo de se pôr em fuga sem ser alvejado pelos muitos tiros de caçadeira com que os reacionários o brindaram na hora da despedida. Pode parecer um nadinha estranho, mas os reacionários também possuem o seu sentido de humor.


Portanto, ele e restante equipa de camaradas de Névoa destacados para tão honrosa missão, já sabiam dos perigos que corriam. Muito provavelmente, por motivos de segurança partidária e de sigilo revolucionário, mandaram-nos para Bragança sem uma única arma. Também a revolução tem razões que a própria revolução desconhece.


Quando perguntaram a que se devia tão arrojada estratégia – pois a não ser com armas, o contributo da brigada na segurança do camarada Secretário-geral só se podia realizar através da força física e para isso eles eram de pouco préstimo –, responderam-lhes que não estavam autorizados a emprestar-lhes armas e que se sentissem verdadeiramente necessidade delas era favor colocar essa questão aos dirigentes locais ou à própria brigada permanente de segurança do Comité Central, especificamente à do camarada Alberto Punhal.


Não é que aos camaradas nevoenses lhes escasseasse a determinação, a coragem, o arrojo e a disciplina. Isso até lhes sobrava. Ó se sobrava! O que lhes faltava era planta física, pois dois dos camaradas eram altos, mas esguios como lareiros, e os outros eram um par de rodas baixas, gorditos e com uma destreza física muito próxima do desalento e da abdicação.


A única coisa que fizeram questão em lhes disponibilizar foi um automóvel, pois as carreiras entre Névoa e Bragança realizavam-se fora de horas, o que punha em causa o cumprimento de horários compatíveis com o acomodar do comício e o desmobilizar dos camaradas.   


A viagem até foi divertida, pois encheram-se de contar anedotas uns aos outros. E, diga-se de passagem, algumas delas bem machistas, racistas e, o que era ainda pior, tão reacionárias que até alguns reacionários mais sensíveis e cultos teriam sérias dificuldades em as contar, mesmo que estivessem numa reunião de fogosos e intrépidos anticomunistas.


Além da do busto de Napoleão, já conhecida de todos nós, duas ou três nos ficaram na memória. Aquela em que um alentejano entra numa carruagem de comboio, olha para um negro e diz: “Com que então preto, hem?” Ao que o negro, incrédulo com tanta sagacidade, responde perguntando: “E como é que descobriu assim logo à primeira?” Ao que o camarada alentejano respondeu: “Pelos bêços.” Ah, ah, ah! Perdão. Outra: “Sabes porque é que o Alentejo é plano? Porque os calhaus foram todos para Trás-os-Montes.” Ah, ah, ah! Perdão. Ah, ah, ah! Perdão. E ainda aquela de dois canibais que estão no jardim a ver passar umas miúdas e um deles diz: “Olha, vês além aquela boazona. Apesar de já não ter um braço, mesmo assim comia-a toda. Ao que o outro responde: Alto lá e para aí com a brincadeira, aquela já eu ando a comer. É a minha namorada.” Ah, ah, ah! Perdão. Ah, ah, ah! Perdão. Ah, ah, ah! Ah, ah, ah! Ah, ah, ah! Perdão. Perdão. Perdão.


Temos ou não razão. As anedotas eram mesmo de baixa cultura e de um primarismo doentio. As mais reacionárias não as… Ah, ah, ah! Ah, ah, ah! Perdão… contamos porque ferem a nossa sensibilidade democrática e… Ah, ah, ah! Ah, ah, ah! Perdão… podem introduzir na narrativa níveis preocupantes de uma polémica escusada com os nossos leitores que ainda acreditam na… Ah, ah, ah! Ah, ah, ah! Perdão… revolução e no triunfo do marxismo-leninismo e, por isso mesmo, do comunismo. E fartos de polémicas andamos nós há muito tempo.


Chegados a Bragança, dirigiram-se ao Liceu onde ia decorrer o comício com o camarada Alberto Punhal. Encontraram lá alguns camaradas a decorar a sala e perguntaram-lhes onde podiam apresentar-se para cumprirem com as tarefas que lhes tinham sido destinadas. Eles responderam-lhes que sobre segurança o melhor era falarem com os camaradas encarregues dessa tarefa. Vendo-os indecisos, indicaram-lhes onde estavam e voltaram à decoração. 


Os camaradas seguranças encontravam-se nas traseiras do Liceu a descansar. Tinham chegado há pouco de Braga, de um outro comício. Dois deles dormiam e ressonavam como bons e dedicados comunistas que eram. Os outros dois jogavam à bisca e fumavam cigarros com muita tenacidade. Para acamaradarem convenientemente, o quarteto de Névoa puxou dos seus paivantes e apresentou-se: “Somos a brigada de Névoa destacada para colaborar na segurança do camarada Secretário-geral. Temos orientações para nos colocarmos à vossa disposição.” Ao que um camarada lhes respondeu: “Sejam bem-vindos. Nós estamos a descansar para mais tarde montarmos o perímetro de segurança ao comício.” E o camarada José: “A que horas chega o camarada Punhal?” E o camarada segurança: “Dentro de duas horas.” E o camarada José: “Qual é o nosso papel?” E o camarada segurança: “Então não vos disseram qual era?” E o camarada José: “Não.” E o camarada segurança: “Isso é uma falha organizativa grave.” E o camarada José: “Pois, se calhar é. Mas nós não temos culpa.” E o camarada segurança: “Alguma culpa devem de ter. Pois se aceitaram fazer parte da segurança do camarada Punhal têm de saber qual é rigorosamente a vossa função. Com a vida do camarada Secretário-geral não se brinca. Ele é o nosso melhor estratega, o nosso timoneiro, o nosso grande líder. Alberto Punhal só há um. Depois deste filho adotivo da classe operária ser feito, o molde foi destruído.” E o camarada José: “Ao menos dê-nos armas e diga-nos onde nos devemos colocar.” E o camarada segurança: “Armas? Quais armas? Aqui cada um anda com as suas. Se não têm armas, o problema é vosso. A tropa manda desenrascar.” E o camarada José: “Mas nós não somos tropas, somos militantes comunistas que foram destacados para…” Neste momento, o camarada Joaquim, o tal das bombas, disse: “Armas? Eu tenho um canivete que é bom para limpar as unhas, mas também pode servir para capar grilos…” E o camarada segurança: “Não te armes em esperto comigo senão levas duas estaladas nessas fuças de aprendiz de comunista que nem vais conseguir atinar com o sítio onde te encontras. Se foram destacados para Bragança devem falar com quem vos destacou. Eu não fui informado de nada.” E o camarada José: “Podemos ficar por aqui?” Mas o camarada segurança nem se dignou responder-lhe. No entanto ficaram. Sentaram-se no chão e puxaram, também eles, por um baralho de cartas e puseram-se a jogar uma suecada.


Passadas duas horas, chegou, sem se fazer notado, o camarada Alberto Punhal. Chegou de mansinho. Todos se levantaram e puseram-se em sentido. Ele olhou-os com o seu rosto sorridente de líder querido e estimado e deu-lhes as boas tardes. Eles reponderam baixinho. Ele cumprimentou-os um a um. A seguir falou do tempo. A seguir dissertou sobre a natureza. E ainda se referiu à viagem e à qualidade do mercedes em que se deslocava. Ele era assim: simples e generoso.


O José ficou quase sem palavras. Ter ali o camarada de cristal na sua frente era uma experiência revolucionária fora do comum. Ele olhava para o amado líder como se fosse quase um deus. E era-o de facto. Tudo em si era luz, serenidade e sapiência. E se isso se via ao longe, observado de perto ofuscava.


Depois dos cumprimentos, e das poucas palavras trocadas com os camaradas que tinham por missão defendê-lo, mesmo que fosse apenas, como era o caso paradigmático da brigada de Névoa, com determinação, coragem, arrojo e disciplina, o camarada Punhal deu alguns passos em frente, na direção de umas giestas, desapertou e breguilha e, sob o olhar atento e compenetrado dos camaradas seguranças, sacou do pénis e pôs-se a urinar como o mais vulgar dos mortais. Fora do comum foram os olhares dos camaradas seguranças, especialmente dos camaradas de Névoa, que se puseram a observar o pénis do camarada Alberto Punhal como se ele fosse a própria “flauta mágica” do próprio Mozart. O camarada Secretário-geral pôs-se a olhar para a linha do horizonte enquanto urinava e disse novamente que o dia estava lindo e que a revolução portuguesa estava prestes a triunfar. O José, tal e qual os restantes camaradas, bem queria olhar para outro lado, mas não conseguia, estava obcecado com o pénis do camarada Secretário-geral, com a maneira revolucionária como ele lhe pegava, com a beleza um pouco anacrónica do jato de urina e, sobretudo, com o primoroso jeito da mão com que o camarada Secretário-geral pegava no pénis sem mostrar a mais leve insegurança, vergonha ou timidez. Porra, Alberto Punhal até no mijar era um verdadeiro líder da classe operária, pois só um verdadeiro marxista-leninista era capaz de mijar daquela forma e feitio. José lembrou-se, naquele momento, da pilinha do menino Jesus que tinha visto em alguns presépios ou também na pilinha dos meninos que decoram as fontes de alguns jardins das casas senhoriais ou em certas praças públicas. Sim, aquele pénis tinha esse mesmo aspeto puro e angelical.


No final da micção, o camarada Secretário-geral sacudiu o seu órgão genital para o libertar de alguma pinga incómoda e recolheu-o com toda a calma e sensibilidade do mundo. Sim, Alberto Punhal, como muito bem diz o povo na sua infinita sabedoria, até no mijar tinha graça. No fundo, os sábios estão carregados de razão quando afirmam que são os pequenos gestos, o que distingue as grandes personalidades.


Resta comunicar aos nossos estimados leitores, para que possam dormir em paz, que o comício correu bem e que não foi necessária nenhuma outra intervenção da segurança do camarada Secretário-geral. 


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Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

Mulheres


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Quarta-feira, 22 de Maio de 2013

O Poema Infinito (147): a cegueira de Zeus


As deusas cantam coléricas precipitando-se na direção da multidão dos homens-pássaros. E choram porque ficaram prisioneiras dos mastins e da vontade de Zeus. Zeus cegou recentemente cumprindo o seu destino de pai liquidado. As rochas fenderam-se e delas sobrevieram flores contínuas que assombraram a multidão. Várias espécies de aves com pescoço longo baixam sobre a planície exibindo as suas asas. Na praia, uma multidão orgulhosa solta o seu grito de espanto. Os deuses lançaram ao mar as suas naus repletas de gente de todas as raças e credos. O chão ressoa intensamente debaixo das patas dos cavalos dos guerreiros que se vieram despedir dos prisioneiros. Os pastores colhem as flores nos lameiros e enchem os tarros com o leite das fêmeas. O vento arrasta o orgulho e o desejo pelas eiras sagradas. As mulheres e as crianças separam a palha do grão e sorriem. E cantam. E sorriem de novo, contemplando o silêncio dos seus esposos que hoje descansam da guerra. É aos loucos que a coragem mata. Nunca para eles existirá outro destino que não seja o de perderem as suas famílias, como se esse desgosto fosse um novo início. A cidade fica inacessível. Os exércitos vão novamente para fora de muralhas. Junto a uma figueira-brava, os espíritos repousam a sua loucura. E choram pelo sofrimento futuro. Eles sentem o sofrimento dos homens, das mulheres e dos seus filhos. As deusas começam a tecer armaduras e a inscrever nelas palavras de guerra, de paixão e morte. Dentro das tendas, os meninos gritam e os pais enlaçam as suas esposas e encostam a cabeça nos seus regaços à procura de carinho. Mais tarde as mulheres perfumarão os seus seios para moldar o amor e para espantar o extermínio. O chão resplandece. Zeus, imaginando enxergar dentro da sua própria cegueira, pronuncia que nenhum homem escapa ao seu destino, seja covarde ou valente, seja rei ou escravo. Os guerreiros fazem corridas de cavalos e chamam pelo nome das suas amadas. Elas apanham lenha, transportam o mel e o vinho, poem o pão e os frutos nas mesas. E esperam. Os ventos conduzem as planícies aos seus deuses. Os deuses mergulham nos seus pensamentos de guerra e triunfo. No campo de batalha acendem-se fogueiras e sente-se um odor a carne grelhada. As estrelas brilham no céu. Os jovens dançam olhando para a lua brilhante. Todos aguardam pela aurora. Os homens são clarões de orgulho e raiva e prometem combater sem descanso contra o inimigo. As naus navegam agora para longe. Aproximam-se novos deuses para devorarem a expectativa que ainda resta. E montam nos seus cavalos alados. São eles os que agora perseguem os homens e as suas esperanças. Os homens tiram as mãos das suas espadas e choram. Os deuses insultam-nos e lançam-lhes a maldição dos sacrifícios incitando-os à batalha, falando-lhes do valoroso heroísmo dos seus antepassados. Eles olham o vale e prometem lutar ardentemente para cobrirem de sangue as nuvens e as montanhas. E o tempo. E dizem que amam a luz, a mesma luz que cegou Zeus e que os há de cegar a eles. Os guerreiros prometem voltar à sua terra gritando bem alto os nomes dos companheiros que morreram para afastarem a maldição da paz. E admiram as suas armas. E permanecem estáticos perante a inutilidade do amor. E aceitam a morte para que os deuses sejam imortais. Agora sentem ainda mais o peso dos seus membros. E a sede. E a fome. Mas não deixam de lutar. E ajoelham-se exortando os seus deuses a que os devorem e espalhem o seu espírito guerreiro pela terra e pelo mar. E galopam com as suas espadas em riste abraçando o medo, devorando a angústia dispersa pelo ar. As mulheres aflitas ardem dentro do seu desespero e penteiam-se enquanto choram. E prometem beijar e lamber as feridas dos seus amados se voltarem vivos da guerra. Mas a terra tornou-se negra e dela só jorra o medo. O medo do futuro.  


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Terça-feira, 21 de Maio de 2013

Mulheres


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Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

Pérolas e diamantes (38): implosão e amizade


No momento em que escrevo esta crónica está a chover e o dia teima em manter-se triste e cinzento. Também eu estou triste porque sinto a pátria a implodir perante a inépcia de uns e a arrogância de outros. Sinto que o Governo da Nação é um mal sem cura, pois apenas consegue sobreviver da desgraça alheia, alimentando-se do desespero das pessoas, perseguindo e aniquilando classes sociais, direitos estabelecidos e expectativas legítimas. Criando uma tal mol humana de desempregados que é já uma calamidade social da qual talvez nunca conseguiremos recuperar. 

 

Quem serviu o seu país com lealdade não sabe quanto tempo mais será capaz de aguentar sem ser levado a fazer um protesto radical que ponha definitivamente cobro a este atentado à liberdade e à coesão social e política. Este Governo está a por tudo em causa, até a fé.

 

Já não temos fé nem na autoridade, nem na verdade e muito menos nos políticos. Chegamos ao ponto em que questionamos toda e qualquer instituição. Já ninguém acredita em nada. Nem no protesto.

 

Dizem que ele é inútil. Também Cristo protestou e por isso morreu na Cruz. Será que foi inútil o seu sacrifício? Protestar é agora uma obrigação que temos para connosco mas, sobretudo, para com os outros e para com a sociedade em geral.

 

Vivemos num mundo de mentira e arrogância, onde até um Governo eleito democraticamente se acha no direito de perseguir e amedrontar todo um povo. Ainda nos é difícil de compreender esta necessidade de vingança, esta sanha neoliberal, esta afronta aos trabalhadores, esta perseguição sem quartel aos funcionários públicos e aos reformados. 

 

A sociedade ocidental lidou com o comunismo e conseguiu vencê-lo. Agora é imperioso lidar com o capitalismo e domesticá-lo. E a seguir, como muito bem disse John Le Carré, temos de ir saber onde está a esperança, pois neste momento não a conseguimos encontrar. Tal como ele, também nós continuamos à procura da esperança para entender onde é que os nossos filhos e os nossos netos irão viver. É triste chegar a velho e perceber que pouco ou nada muda.

 

O nosso primeiro-ministro, e o seu ministro das Finanças, tal como Thatcher, apaixonaram-se pelo dinheiro, como uns velhos avarentos. E não desistem de tudo privatizarem. Qualquer dia até privatizam o ar que respiramos.

 

Os nossos ministros, especialmente o nosso-primeiro e o seu alter-ego Vítor Gaspar, são como os ministros que povoam o último romance de Le Carré: incompetentes. É muito difícil saber como agir face a tanta ignorância e incompetência ministerial. Afinal, como é que se procede perante a estupidez? Le Carré dá uma pista: “Talvez a esperança esteja apenas naquilo que cada um de nós pode fazer.”

 

Olhando para quem nos dirige, seja no Governo Central, seja nas autarquias, tudo indica que a incompetência é uma espécie de cultura. Parece que alguns rapazes, que nada mais fizeram na vida do que furar dentro dos partidos do poder, resolveram meter-se na política para preencherem o seu vazio, a sua inépcia e as suas frustrações. E agora somos nós os que vamos pagar as vacas ao dono.

 

Definitivamente, os nossos políticos não estão à altura da gravíssima situação histórica em que vivemos.

 

Como lembra o filósofo francês Gilles Lipovetsky, vivemos na era do vazio e na sociedade da decepção.

 

Antes de terminar, aqui deixo um aviso à navegação. Eu nunca compreendi “esse” medo de ficar sozinho. Nisso penso o mesmo que o Pedro Mexia: “Ficamos sozinhos quando somos exigentes. Ficamos sozinhos quando não mentimos. Ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções. É um preço que estou disposto a pagar. E há, digamos, dez pessoas de quem gosto, dez pessoas sobre quem não me engano, e dez pessoas é um mundo.”

 

E depois o mundo volta a encher-se de pessoas. 


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Domingo, 19 de Maio de 2013

Subindo a calçada romana

Subindo a calçada romana


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Sábado, 18 de Maio de 2013

Rua Direita - Chaves


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Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 160


160 – O José e os outros dois seus amigos do FAOJ, julgando-se incompreendidos e sentindo que a revolução cultural é muito lenta e possui contornos duvidosos, viraram-se para o lado mais eficaz da luta revolucionária: as armas. Se o povo não ia lá com a cultura, talvez fosse este o momento adequado para se experimentar o método mais eficaz da bomba e da bala, pois o do chuço e da baioneta estava definitivamente ultrapassado. Para grandes males, grandes remédios. 


Falhada a experiência de apanhar um ladrão traidor e reacionário à lei da bomba, o seu amigo Francisco tratou imediatamente de dar vazão ao seu ímpeto guerrilheiro e começou a cogitar na forma de dar sentido à luta armada em terras nevoenses e seus arredores.


Pistolas nem vê-las. As poucas que existiam do lado revolucionário estavam nas mãos de camaradas dirigentes que se enervavam muito no momento de utilizá-las passando-as de mão em mão como se fossem castanhas acabadinhas de tirar do lume. Armas públicas, revoluções falhadas.


Outro problema residia também no facto de ser ainda mais difícil arranjar munições do que pistolas. O camarada Francisco, o objeto mais parecido com uma arma que possuía era uma navalha que utilizava com mestria na limpeza das unhas e para descascar maçãs e outros frutos do género.


Também existia a hipótese das caçadeiras, só que eram armas que davam muito nas vistas, pesadas, de difícil manejo e com um coice, no momento do disparo, que podia deslocar ombros aos jovens camaradas que primavam, apesar da sua robustez ideológica, pela magreza e pela debilidade muscular.


Depois de magicarem sobre o assunto, decidiram-se pelas bombas. Eram muito mais eficazes no momento da ação. Além disso matavam mais gente e eram, por isso mesmo, armas bem mais úteis e económicas. O problema residia na forma de as fabricar e também na logística no momento de colocá-las.


Como eram inexperientes, resolveram contactar um camarada fogueteiro de fora do concelho e pedir-lhe que lhes fizesse umas bombitas para defender a revolução e também as sedes partidárias.


De facto, aproximava-se a data marcada de uma manifestação de reacionários que incluía, no seu percurso citadino, a passagem pelo centro de trabalho do Partido. Umas bombitas vinham mesmo a calhar.


Ainda antes do contacto, o camarada Francisco, junto com mais três outros camaradas da brigada de defesa da revolução, fizeram um buraco no chão da despensa traseira do centro de trabalho destinado a armazenar o arsenal de bombas.


Numa noite de lua cheia, reuniram-se junto ao paiol do camarada fogueteiro e informaram-no da necessidade de arranjarem bombas de autodefesa e de ataque e contra-ataque. Ele disse-lhes que dessas ele não sabia fazer. O camarada fogueteiro conseguia confecionar, dentro de umas caixas de lata, bombas feitas à base de pólvora, cabeças de pregos caibrais e pedaços de ferro fundido.


Aqueles petardos, depois de rebentarem no meio de uma multidão de reacionários, era arma para ferir gravemente ou matar uma caterva deles. E sem fazer distinções objetivas. Ou mesmo subjetivas.


Os camaradas concordaram. Aquilo era para matar indiscriminadamente, fosse homem ou mulher, rapariga ou rapaz, mulher, marido ou amante, filho ou filha, primo ou prima, solteiros ou casados e até divorciados. E as mortes podiam ser diversas. Ou pelos estilhaços da bomba propriamente dita, ou ainda por atropelamento e esmagamento, logo após o deflagrar da bomba e do pânico que isso indubitavelmente gerava numa multidão, ao mesmo tempo, eufórica e acagaçada.


As bombas podiam ser utilizadas de duas formas, ou por rebentamento através de mecha ou por deflagração através de um circuito elétrico. O cliente é que escolhia a estratégia. Claro que em caso de assalto ao centro de trabalho, o mais indicado era mesmo acender a mecha e lançar a bomba para o meio da populaça reacionária e fascista, mas com bom impulso, pois quanto mais para o meio da manifestação fosse arremessada mais efeito teria. Os camaradas podiam estar certos de que as suas queridas bombas eram mesmo muito boas e também extremamente fiáveis. Ele não era homem para vender gato por lebre. Material feito por si tinha selo de garantia.


O camarada fogueteiro pediu uma semana para confecionar o material, pois só dessa maneira podia garantir confidencialidade e qualidade de fabrico. Material tão sensível tinha de ser feito por ele mesmo e em momentos muito bem escolhidos para não levantar suspeitas.


Quando receberam o material, os camaradas da célula armada resolveram ir testá-lo para o monte. Pegaram numa espécie de morteiro envolto com pedaços de ferro, acenderam a mecha, depositaram-no na base de um muro de granito e encolheram-se do outro lado para verem o que dali resultava. Depois de esperarem mais do que o tempo previsto para a bomba rebentar, resolveram, à cautela, espreitar para o outro lado do muro. Apenas viram fumo a sair de um pedaço de papel de embrulho. A bomba tinha ardido sem explodir porque tinha sido aberta num dos lados pelo Francisco, para ver se o que estava lá dentro era mesmo pólvora e pedaços de ferro fundido. Foi esta curiosidade que os salvou de serem presumivelmente mortos pela projeção das pedras do muro. Ficou provado que até os mais intrépidos materialistas possuem o seu anjo da guarda.

 

Não satisfeitos com a façanha resolveram ir experimentar uma segunda bomba, desta vez à noite, bem junto ao rio. Mas, por sugestão do outro amigo especialista em eletrónica, resolveram detonar o engenho explosivo à distância, com a ajuda de um fio elétrico e de um pilha apropriada.


Desta vez, como o Francisco não lhe tinha posto as mãos, a bomba explodiu muito bem. Mas mesmo muito bem. Como a detonação foi enorme, todos os cães das redondezas se puseram a ladrar ao mesmo tempo, o que originou que os seus donos pegassem nas caçadeiras e fossem ver o que se passava. Os pescadores furtivos não utilizavam bombas daquela envergadura, pois, a avaliar pelo estrondo, uma bomba daquelas era das indicadas para pescar tubarões e, ao que todos sabiam, no Tâmega não havia peixes dessa envergadura.


Bem, o José e os outros dois camaradas seus, com o susto, começaram a correr de tal forma e feição que parecia que levavam o diabo atrás. Só pararam às portas da cidade, a arfar como cães.


Decidiram que para se utilizarem bombas é preciso bem mais atributos do que a vontade e determinação revolucionárias.

 

Quando o dia da manifestação chegou, os reacionários resolveram peregrinar à sede do Partido com a nítida intenção de expulsar todos os comunistas da cidade. E eles, os reacionários, eram tantos, meu Deus, mas tantos, tantos, tantos, que se tivessem pensado um bocado, tinham chegado à conclusão de que meia dúzia de comunistas em Névoa eram até motivo de orgulho para a terra. A democracia que diziam defender só podia sentir-se legitimada pelo direito à diferença.


O Francisco, vingativo como era, encheu-se com toda a raiva revolucionária que tinha, e ele possuía-a em doses industriais, e quando já se preparava para acender a mecha da maior bomba que tinha ocultado no esconderijo secreto da despensa do centro de trabalho e lançá-la, de olhos fechados, para o meio da multidão com o firme propósito de dizimar a maior quantidade de reacionários possível da maior manifestação que já tinha visto na sua vida, o José chegou-se ao pé dele e tirou-lha da mão como o anjo sacou a faca da mão de Abraão quando este se preparava para degolar o seu filho Issac, como prova de amor a Deus.


Naquele momento, chegou um camião do exército com militares que se tinham voluntariado para defender o centro de trabalho do Partido Comunista e assim evitar um banho de sangue ou, quem sabe, o início de uma guerra civil em Portugal.


Quando viram os militares de Abril, os reacionários resolveram continuar a sua procissão até ao Largo de Camões e aí dispersar como se tivessem vencido o inimigo comunista. Mas foi uma ilusão.


Por seu lado, os comunistas, ao lado do seu querido e estimado MFA, também se convenceram de que tinham derrotado a reação. Mas também eles estavam enganados.


À noite uma estrela cadente foi avistada no céu. A Dona Rosa foi a primeira a avistá-la. Soube imediatamente que era a astro guia do seu filho que tinha salvado o país de um banho de sangue. E rezou três pais-nossos e três ave-marias, bem junto a Nossa Senhora que sorria para a velinha que a sua estimada devota tinha permanentemente acesa no seu quarto.

 


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Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

Antena parabólica


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Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

O Poema Infinito (146): a luz da criação

 

O brilho dos vitrais inflamam os teus olhos enquanto eu saboreio a fluidez da tarde. Começaram os dias serenos. O silêncio sobe pelas árvores especulando sobre o ritmo do escurecer. De um tempo remoto chegam-nos frases incandescentes, pulando sobre o ritmo dos rios. Perdemo-nos no vagar da profundidade da floresta. Antigos sinais chegam de longe. Nunca nenhum azul do céu foi tão triste como este. O mundo despe-se da sua luz. E o teu desejo é um eco breve. O mar cresce e dentro dele surge nítido o brilho da sua glória. Os teus olhos refletem a harmonia gloriosa da plenitude. As marés expandem-se. Tudo se torna cristalino como os astros. Por isso amo a atracão cosmológica do teu sorriso. Os objetos rebentam dentro da sua iluminação. Eu sofro com a tua transparência, com a lenta iluminação das almas, com os corpos habitados pelo sofrimento e pelo pressentimento da escuridão. Tu és a minha narração, o meu ímpeto passivo, a minha distensão paciente em direção ao desejo e à morte. O mundo fica suspenso. Hoje sou o teu lugar. O teu descanso. A tua interiorização. O silêncio vive do seu próprio estudo e a luz da sua infinita linearidade. A vida persiste na sua figura ambígua expandindo-se na sua desventurada fragilidade. O tempo regressa à sua condição de imagem. Por isso, o mar é liso como a antiguidade. Cada vez sinto mais a minha idade a abrir-se devagar. Esse é o seu ciclo enigmático. Essa é a sua dulcíssima lucidez. A inteligência recolhe a brisa da tarde. As folhas novas parecem faíscas prodigiosas. O mundo move-se na sua abstração profunda. E toda a infância sucumbe no seu excesso dourado. Levas-me no teu júbilo de maré aberta, no teu crepúsculo de asas veementes. A tarde consome-se no seu poente e declina-se no espelho reflexivo do mar. Despeço-me momentaneamente da minha melancolia, do estrondo do tempo, da imagem enigmática da eficácia. Sinto-me caminhar na fronteira do universo. A noite fecha-se por dentro e afunda-se no seu silêncio. Subo ao planalto e sinto o júbilo do seu céu implacável. O azul vinca-se mais e inscreve-se feliz nos teus olhos. O amor é um sinal invisível. A luz descansa na quietude jubilosa das águas. Todos os lugares estão perto do afastamento, no vagar vazio de Deus e no tempo eterno que o envolve. As palavras erguem-se na sua fúria contemporânea. A escrita é uma ausência viva. Apesar da claridade, a escuridão torna-se implícita. A escuridão possui também a sua própria luz. E os seus objetos íntimos. Todo o pensamento é infinito e nele cresce a sua radiação. As crianças cantam a sua doçura larga e prolongam-se na sua lucidez de alegria. E sorriem como se não houvesse tempo, nem futuro. Nem passado. E continuam a sorrir como se todos os lugares fossem abertos, como se as almas fossem pombas sacramentadas, como se o tempo fosse uma evidência diluviana, como se o amor fosse uma palavra feliz, como se o prazer fosse uma causa eterna e o gozo uma crítica quântica. Reparo agora que todas as flores obedecem a um vínculo obscuro, como se fossem glorificadas pela ordenação dos espaços, como se estivessem prisioneiras da sua cor e do seu odor, como se retivessem a beleza superficial. Daí o seu volume incerto, a sua fixidez imóvel, a sua tepidez divina. Eu não gosto de flores, mas é como se gostasse. Por isso me ajusto à obscuridade fria da ciência, ao tempo que se expõe no longínquo esplendor da relva e na metafísica dos aflitos e no desespero forte e no pasmo excessivo dos néscios. Até o próprio conhecimento se reduz à sua frágil eternidade. Estamos sós. O vento traz consigo corolas azuis de alegria e os insetos sentem e percebem a nossa feliz infelicidade. Os anos começam a transparecer. As nossas retinas fixam a nossa nudez. Lá voltamos ao pecado original. A Criação está de volta. 




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Terça-feira, 14 de Maio de 2013

Meninas e guarda-chuvas


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Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Pérolas e diamantes (37): humor com humor se paga


Há uns dias encontrei o meu bom amigo F. e fiquei radiante. Tanto eu como ele somos, além de amigos, como referi, apreciadores de bons livros de humor, sobretudo de romances picarescos. Dizem por aí que os livros são os nossos melhores amigos, mas permitam-me discordar um poucochinho, pois, apesar de os livros serem dos meus maiores amigos, e eu deles, claro está, os meus melhores amigos ainda são pessoas da qualidade e da humildade do meu afetuoso F.

 

Nós partilhamos muitas coisas, sobretudo amizade, mas também livros e alguma informação acerca deles. Desta vez falei-lhe do meu entusiasmo pelo livro de Jaroslav Hasek, O Bom Soldado Svejk, cujo protagonista vive enredado nas aventuras e desventuras do seu regimento de infantaria durante a Primeira Guerra Mundial. Falei-lhe do tom satírico, que aparece aliado a um uso expedito e subversivo da língua, recorrendo a expressões obscenas, ao calão e a jogos linguísticos de sentido múltiplo, instrumentos que Hasek utiliza magistralmente para evidenciar o absurdo da guerra.

 

Falei-lhe das tragédias ao mesmo tempo terríveis e burlescas de faca e alguidar, da miséria, do horror e da violência, ao lado dos prazeres da vida e do encontro da consolação, que mais não são do que a descrição da natureza humana, e que fazem deste livro um clássico da literatura universal.

 

Eu ali pegadinho ao meu entusiasmo, a ver se o estimulava em relação ao livro e ele a dizer-me que se eu queria falar de humor então que ouvisse esta: “O senhor presidente veio a público afirmar que a Câmara de Chaves fechou as contas relativas ao ano de 2012 com um resultado líquido positivo de 3 milhões de euros. Então como é que uma autarquia cuja dívida, segundo o PSD, é de cerca de 41 milhões de euros, e segundo o PS de Paula Barros, é aproximadamente de cerca de 50 milhões, encerra as contas com resultados líquidos positivos? Será um milagre? Esta é boa não é?” E riu-se. E eu também me ri, por o ver rir a ele. Pois o meu amigo tem um sentido de humor muito apurado e umas gargalhadas contagiantes.

 

Ele para ali: “Ah! Ah! Ah!” E eu também: “Ah! Ah! Ah!” “E olha”, disse-lhe eu, “o soldado Svejk, a páginas tantas, encontra um tal cozinheiro ocultista que confidencia a um segundo-sargento contabilista: ‘Meu caro amigo, existe a precariedade de todas as manifestações, formas e coisas. A forma é precariedade e a precariedade é forma. A precariedade não é distinta da forma e a forma não é distinta da precariedade. O que é precariedade, é forma, o que é forma, é precariedade.’”

 

“E isso que raio é?, perguntou-me ele. E riu-se: “Ah! Ah! Ah!” E eu também me ri: “Ah! Ah! Ah!” “De que ris tu?”, perguntou-me ele. E eu: “Do sutra do cozinheiro ocultista.” E ele: “Eu pensei que era das palavras do nosso ilustre edil. E eu: “A esse senhor já não lhe encontro piada nenhuma.” E ele: “Mas tens de reconhecer que a tem”. E eu: “Piada tem é o Svejk, quando um pouco mais à frente, referindo-se ao tal cozinheiro ocultista diz: ‘Só faz é apreciações um bocadinho disparatadas. Passa a vida a exprimir umas coisas sobre umas formas quaisquer, que uma forma não é uma forma e que aquilo que não é uma forma é que é uma forma e que essa forma, por seu lado, não é forma nenhuma.’” E ele: “É um pouco como João Batista, que apesar de a Câmara ter uma dívida colossal, profere que até encerrou as contas do ano com lucro. Ah! Ah! Ah!” E eu: “Ah! Ah! Ah!” E ele: “O argumento é hilariante, não é? Ah! Ah! Ah!” E eu: “Não, a mim esse tipo de argumentação enganosa não me faz rir. O que me faz rir é o Svejk… Ah! Ah! Ah! Muito mais à frente, diz-lhe o tenente Dub: ‘Penso que está a ver onde quero chegar…’”

 

E ele: “A Câmara de Chaves é uma das 71 autarquias resgatadas (com contrato de empréstimo)…” E eu: “‘Com certeza, estou a ver perfeitamente – respondeu Svejk. – O senhor fala tal e qual o canalizador Pokorný, em Budejovice…’” E ele: “… para poderem pagar as suas dívidas aos fornecedores, transformando a dívida de curto em longo prazo (maturidades entre 14 a 20 anos)…” E eu: “‘Esse, quando as pessoas lhe perguntavam: «Este ano tomou banho no Rio Malse?», respondia: «Não tomei, mas em contrapartida este ano vai ser bom para a ameixa».’  Ah! Ah! Ah!” …

 

E ele: “Ah! Ah! Ah! Isto acontece porque à Camara de Chaves já nenhum banco lhe empresta um tosto. Por isso tem de recorrer ao Estado. Assim como o Estado Português recorre à Troika. Isto quer dizer que a nossa autarquia está arruinada… E eu: “Ou então perguntavam-lhe: «Este ano já comeu cogumelinhos?» e ele respondia «Não comi, mas dizem que esse novo sultão de Marrocos é muito boa pessoa». Ah! Ah! Ah!” E ele: “A Câmara, apesar dos tais 3 milhões de lucro… Ah! Ah! Ah! Pediu emprestado 7.873.426.62 euros. E eu: “Este ano já comeu cogumelinhos? Ah! Ah! Ah!” E ele: “A Câmara teve lucro e viu-se obrigada a pedir um empréstimo de 7.873.426.62 euros. Ah! Ah! Ah!”

 

E eu: “Ah! Ah! Ah! O Svejk é cá um prato.” E ele: “Olha que o nosso presidente não lhe fica atrás. Ah! Ah! Ah!” E eu: “Ah! Ah! Ah!” E ele: “Ah! Ah! Ah!” E eu: “Ah! Ah! Ah!” E ele: “Ah! Ah! Ah!” E eu: “Ah! Ah! Ah!” E ele: “Ah! Ah! Ah!” E estivemos nisto para aí vinte minutos até que chegaram as nossas esposas e demos por terminada a sessão para irmos jantar juntos. Elas, apesar de excelentes esposas e amigas, não possuem, ou não partilham, do nosso sentido de humor.

 

Ah! Ah! Ah!


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Domingo, 12 de Maio de 2013

Músicos


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Sábado, 11 de Maio de 2013

A casa, o homem e o cão


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Sexta-feira, 10 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 159

 

159 – Ao contrário dos seus camaradas, o José era um militante do Partido Comunista que se dava muito bem com os esquerdistas, com alguns socialistas e, mais recentemente, com os retornados que tinham chegado das colónias portuguesas. Ou seja, era um PC deveras estranho a atípico.


É que apesar dos esquerdistas serem também comunistas, quem diria, eram, sobretudo, oportunistas e, por isso mesmo, muito diferentes dos militantes do seu partido, que eram rígidos nos princípios e excessivamente zelosos da sua superioridade revolucionária e da sua fidelidade ao marxismo-leninismo e, sobretudo, à União Soviética. Além disso, não possuíam uma réstia de sentido de humor. Levavam tudo a sério, até as brincadeiras e as piadas. Desvalorizavam os socialistas, que para eles eram a escória da esquerda, os traidores de serviço, uns palhaços que tinham o descaramento de se afirmarem marxistas. E os retornados, para os militantes do Partido, eram os mais reacionários dos reacionários, eram todos colonialistas, racistas e fascistas.


Para o José, os retornados eram apenas pessoas diferentes, com hábitos diferentes e até com um linguajar diferente dos portugueses da metrópole, que eram uns acanhados, incultos e ressentidos. Os retornados vestiam de forma distinta, comportavam-se de maneira diversa, ouviam música esquisita e fumavam cigarros muito diferentes dos nossos.


Fez-se amigo de muitos. A um deles convidou-o a dirigir um atelier de modelagem, pois o rapaz revelava uma habilidade manual para construir objetos em barro, ou em plasticina, que a todos deixava encantados. A sua inclinação ia para a modelagem de naves espaciais, pois era fã de ficção científica e também de fumar liamba que cultivava em casa com muito empenho. Modelava extraterrestres com surpreendente imaginação e todos diferentes uns dos outros. Moldava ainda planetas, plantas e animais estranhos e carros futuristas. Quanto mais fumava os seus cigarros esquisitos, e com cheiro adocicado, melhor as naves e os extraterrestres lhe saíam. Durante algum tempo foi um dos melhores animadores do FAOJ. A rapaziada adorava vê-lo trabalhar, pegar numa massa informe e dar-lhe as formas mais bizarras e extraordinárias.


A biblioteca foi aumentando o seu número de obras, tornando-se num excelente divulgador do romance, da poesia e de livros de teoria política tão ao jeito dos tempos que então se viviam. Os romances eram todos revolucionários, a poesia era toda subversiva e os livros de política enalteciam, todos eles, o marxismo-leninismo como a ideologia redentora da Humanidade.


Com o aumento da requisição dos livros, a biblioteca começou a amealhar algum dinheiro recolhido das quotas dos leitores. Passados alguns meses, o pecúlio já atestava um frasco de cevada. Teve de se designar um dos dirigentes para guardar o dinheiro em sua casa, pois começaram a dar-se conta de que, a partir de determinada altura, o dinheiro em vez de crescer começou a diminuir. Andava ali mão de ladrão. Perante o triste facto, a célula revolucionária do Partido resolveu agir. O camarada Joaquim ficou encarregue de arranjar a maneira de descobrir o biltre contrarrevolucionário.


No ínterim, chegou o aparelho televisivo ainda a tempo de se verem os Jogos Olímpicos. A rapaziada delirava com alguns dos desportos. E as suas preferências eram muito diversas. À falta de atletas portugueses de qualidade nos jogos, apoiavam-se outros. De preferência os melhores, os que tinham nome nas revistas e nos jornais. Os norte-americanos, por incrível que pareça, eram os que recolhiam mais adeptos.


Os militantes e simpatizantes do Partido torciam invariavelmente pelos atletas do Bloco de Leste. E, de entre eles, elegiam preferencialmente os desportistas soviéticos. O José não era exceção. Para os comunistas, os atletas dos países socialistas eram os embaixadores da ideologia científica do marxismo e os divulgadores da superioridade do homem comunista. Eram o símbolo do triunfo da vontade e da ideologia libertadora que tinha vencido no Leste e que, em breve, conquistaria o mundo inteiro.


Foi nessa altura que o José engraçou com o boxe. Para ele passou a ser, apesar de um certa brutalidade, um desporto onde a superioridade era mais evidente. Então quando o combate acabava em KO era o clímax perfeito. Ali não restavam dúvidas. O tipo que levava o murro nas trombas ia ao tapete e tudo acabava.


Nesses jogos apareceu um pugilista cubano que demonstrou, para quem ainda tinha dúvidas, a superioridade do socialismo científico e da pátria de Fidel Castro, o barbudo da Sierra Madre. A todos os que lhes calhava a sorte, ou melhor, o azar, de lutarem com o cubano, era certo e sabido que iam ao tapete antes mesmo dos três assaltos terminarem. Escusado será dizer que ganhou todos os combates por KO. Os pugilistas que entravam no ringue para combater contra o gigante, em vez de enfrentarem o Golias, punham-se a dançar em seu redor, na tentativa vã de não serem atingidos pelo golpe fatal do brutamontes. Uns, para não serem muito massacrados, mal entravam no ringue davam um ou dois passos em frente, dois para o lado direito, dois para trás, dois para o lado esquerdo, três para trás, e, com o rosto encoberto pelos punhos, tentavam continuar a bailar em redor do adversário até que o gongo tocasse. Mas a grande maioria, ao décimo segundo, já estava no chão a ouvir os passarinhos a chilrear, como nos desenhos animados. E com cara alegre, pois tinha sido murro e queda. O tormento, apesar de doloroso, era breve, como quem toma uma injeção de penicilina. O que resistiu mais foi um russo, que chegou ao segundo assalto. Mas, corajoso como era, e outra coisa não seria de esperar de um pugilista comunista nascido e educado na pátria do socialismo científico, quando foi ao tapete, tinha a cara como o chapéu de um pobre de um país capitalista.


Aos vários pugilistas que foram passando pelo ringue para defrontarem o Golias cubano, bastou um gancho da direita para os lançar ao tapete como se fossem sacos de batatas. Mas ao russo, o King Kong da América Latina teve de dar três murraços nos queixos. Com o primeiro, o russo corpulento ficou a olhar para o negro caribenho como se não tivesse entendido bem o recado. Ainda estava a levantar os punhos para se proteger novamente quando levou o segundo murro. Depois de uma hesitação, em vez de atacar, começou a andar para trás como se estivesse a ser empurrado pelo vento. Quando se encostou às cordas ficou estático à espera que algo de bom lhe acontecesse. Mas não aconteceu. O gongo continuou caladinho e foi então que o camarada de Fidel lhe pespegou o terceiro e definitivo murro que o fez deslizar, deslizar, deslizar até ao canto do ringue e aí escorregar até se sentar definitivamente no chão com cara de quem não sabia onde estava e, muito menos, quem era Marx, Lenine, Estaline ou Brejnev.


O José celebrou efusivamente. Mas foi durante pouco tempo, pois os camaradas informaram-no que a um comunista, do Partido Comunista, é bom lembrar, não ficavam muito bem esses festejos dado que, afinal, mesmo sendo o vencedor um camarada cubano, o derrotado era um camarada soviético. Era preciso respeitar as hierarquias. Isso não se fazia em público, pois era evidenciar sentimentos mesquinhos e perigosamente pequeno-burgueses contra a pátria de Lenine. Pois a pátria de Lenine era, por muito que a pátria de Fidel quisesse ser, superior. Não se podia esquecer que sem o apoio da União Soviética, Cuba continuaria a ser o casino e o bordel dos Estados Unidos.


Ainda estava o José aos pulos e aos berros perante o olhar estaliniano dos seus camaradas e do ar de gozo dos esquerdistas, esses oportunistas, quando se ouviu no andar de cima um estrondo enorme. Todos correram escadas acima, com o José à frente. Líder uma vez, líder para sempre. Quando chegaram ao andar superior observaram o camarada Joaquim com cara de caso a vir em sentido contrário. “Que aconteceu, camarada?”, perguntaram os seus camaradas. “Descobriste finalmente o ladrão? “Não. Esse reacionário filho de uma cadela burguesa é mais inteligente do que eu pensava. Estourou-me a bomba nas mãos quando fui ver se o mecanismo ainda estava a funcionar. O que vale é que era de carnaval.”


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Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

Na feira do gado


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Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

O Poema Infinito (145): viagem sem fim nem princípio


É descalço que vou ter contigo e pouso as minhas despidas mãos no teu rosto vestido de tristeza e descanso a minha ânsia de infinito. Quando o teu sorriso voltar abrirá todas as palavras de ânimo e esperança. As sombras tomam conta do silêncio. E o silêncio range nas tábuas velhas do soalho. Colhemos as lágrimas que vamos chorar quando chegar a altura certa. Sinto o peso dos anos inundar-nos como as ondas na maré cheia. A tua boca fica dura. As aves ficam impacientes. A luz incha e penetra os espelhos. Um verso atravessa-me como se eu fosse a tua mágoa. E isso dói. A noite expande-se. No outro lado do mundo morrem crianças e são amortalhadas pelas histórias movediças do abandono e da indiferença. E isso dói. Da tarde ficou-me o metal cinzento das nuvens e o choro das giestas em flor. Os pastores lembram-se do tempo, do seu tempo rústico, quando adormeciam junto às casas traídos pela miséria e pela vergonha. E pelo cansaço. Eram eles que faziam coagular o tempo quando matavam as suas ovelhas. E o espaço enchia-se de frio e de mãos inertes. E as bocas lambiam o frio tentando amansá-lo. Entre os montes nascia uma narrativa explosiva. E da experiência velha surgia uma nova, que também era velha como a sabedoria dos astros. O nosso bairro era o centro magnético do mundo. E as mulheres rezavam para que o inverno morresse e para que as almas dos antigos pastores ressuscitassem na primavera. E horas ardiam nas colinas. E os rapazes apedrejavam as memórias dos seus pais e tateavam as vozes das moçoilas enquanto se masturbavam gritando obscenidades inocentes. Ardia-lhes a alegria no sexo. À noite passeavam o fogo pelo seu corpo friorento e cantavam para espantar o medo do amor e a aflição da morte. E deixavam-se inundar pelos seus sonhos de carne e vinho. E prometiam a Deus abstinência e ao Diabo a sua alma em troca de poderem pecar sem que fossem recriminados por serem intransigentemente humanos e pobres. E por serem amargos e por perseguirem as linhas do horizonte e por deslizarem encostados às suas fantasias e por semearem ternura nas terras húmidas. Depois veio a sucessão dos anos e eles dissolveram-se na confusão da vida. E foram cercados pelos lobos. E passaram a ouvir as máquinas e a sua voragem aniquiladora. E deixaram de poder responder às suas próprias perguntas. E tornaram-se belicosos. E doidos. E deixaram de ter sossego. E compareceram sem se fazer anunciar: a chuva, as dores, as doenças, o crime, o terror, a morte. E o tempo ficou espesso. E o silêncio apanhou-lhes a boca e fatiou-lhes as palavras. E passaram a obedecer ao silêncio. E a Deus. E ao Diabo. E deixaram-se povoar pelos espíritos e pelas superstições. E fecharam-se nas abstrações alcoólicas dos bares e nos versículos da Antigo Testamento. E deixaram de apreciar ver as suas mulheres colherem flores no quintal e deliciarem-se com o voo veloz das aves e com os grandes dias de sol. E no bairro começou a sentir-se o silêncio a devorar as portas e a enfiar-se dentro das casas e a deitar-se com as pessoas. E vieram os grandes nevoeiros. E os cães começaram a ganir. E choveu dentro da infância dos seus filhos. E as plantas começaram a dar flores de distância e as árvores começaram a dar frutos de sombras. E no chão acordou a vingança. Todos ficaram mudos à espera da passagem do tempo. E apertaram tanto as palavras que elas acabaram por morrer. O ar ficou liso. As máquinas doentes. Os homens loucos começaram a passear entre as ruínas. E o futuro morreu ao entardecer, declinando-se sobre as árvores. O que mais nos dói é que esta viagem não tem fim. Nem princípio. 


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Terça-feira, 7 de Maio de 2013

No meio do gado


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Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

Pérolas e diamantes (36): o pequeno mundo dos políticos

 

Há um escritor português contemporâneo que aprecio muito, ou melhor, que tem um livro que me deslumbrou quando o li. O escritor chama-se Mário de Carvalho e livro intitula-se Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde.

 

O livro recomendo-o vivamente, mas desta vez vou falar do escritor, ou melhor, de duas pertinentes e esclarecedoras entrevistas que deu aos periódicos Expresso e Jornal de Negócios. Eu não o acompanho em tudo, pois é muito à esquerda para o meu gosto. No entanto, esta classificação é problemática pois lembro que, nos tempos que correm, até a Dr.ª Manuela Ferreira Leite é vista no PSD como uma terrível e perigosa esquerdista.

 

Mário de Carvalho disse uma frase que me tocou especialmente: “A gravidade puxa-nos para baixo”, querendo com isto referir-se à mediocridade, à intolerância, à inveja, à conspiração e ao compadrio. E justificou-o afirmando que o fascismo é natural nas pessoas, pois elas gostam de mandar umas nas outras. Daí os tiraninhos e os tiranetes de província armados em autarcas e os tiranetes e tiraninhos sentados nas cadeiras do poder em Lisboa, justificando o injustificável, defendendo o indefensável e mentindo como se dissessem a verdade.

 

Pois o que custa, lembra o escritor, é o “progressismo”, porque implica esforço, ir mais além, fixar normas e construir instituições que afastem os homens da animalidade.

 

Nós estamos a entrar num período decisivo da nossa história às arrecuas. E a nós flavienses isso está a custar-nos o dobro, pois se do lado do governo central nos chega a chuva em forma de tormenta, aqui para os lados do nosso concelho troveja forte e feio.

 

Mário de Carvalho disse que, para escapar à repressão fascista, teve de se ausentar do país. E sabem por onde passou? Pois por Chaves, que sempre foi terra de gente hospitaleira, honrada e tolerante. Aqui chegou de camioneta, com a mochila às costas, e, conta ele com algum humor, logo foi catrapiscado por uma mocinha camponesa que com ele engraçou. Mas não teve tempo para o namoro, pois foi levado de táxi até à fronteira e ali atravessou a ribeira pelo caminho de pedras, “como na anedota com Jesus Cristo”.

 

Em Espanha foi dar a uma “terra miserável”, onde mandou chamar, com lhe disseram, o sr. Pepe. Foi na sua casa de novo-rico que dormiu num quarto repleto de bonecas espanholas que mexiam os olhos. Como se o pesadelo das bonecas fosse pouco, o alegre Pepe obrigou-o a escutar a cassete com a canção do “Porompompero” durante toda a viagem. Nunca mais pôde ouvir aquilo.

 

Depois falou dos políticos, pois ele, com a sua idade e experiência, conhece-os de ginjeira. Disse que os atuais são muitos fracos, não querendo com isso afirmar que não são inteligentes, mas que a maioria deles é incompatível com as funções que ocupa e incapaz de compreender um fenómeno nas suas várias dimensões. “São pessoas a quem foram inculcadas, à partida, uma série de noções que estão fechadas dentro delas e não são capazes de lá sair. O seu mundo é muito pequenino.”

 

Depois esclarece a razão pela qual a ideologia dominante dos nossos governantes é contra o Estado e contra a regulação. É que é a necessidade de regulação o que origina a lei. E a lei, para esta gente, é um empecilho (veja-se a contestação surda e mesquinha à Constituição e ao Tribunal Constitucional), um embaraço. Eles são contra o Estado pela simples razão de que é o máximo garante e defensor da lei e da regulação.

 

Sobre o papel dos intelectuais, aos quais o poder tanto persegue e calunia, refere que “o nosso espaço de reflexão individual tem sido assoberbado pelo poder e pelas televisões”. Por isso é que existe a desvalorização dos intelectuais. Uma desvalorização da literatura e das artes. É que “o saber é incómodo, está a mais, é maçador.” Interessa-lhes muito pouco o que possa dizer um filósofo, um escritor ou um cientista. “É um pouco nivelar por baixo”.

 

E este governo, e a grande maioria das autarquias, ao desinvestirem tão drasticamente na educação e na cultura, estão a nivelar por baixo. Muito por baixo. É uma espécie de fascismo servido às pinguinhas.

 

É mesmo como diz um amigo meu: “Semeámos flores, nasceram-nos cardos. Enganaram-nos novamente com a embalagem das sementes. Temos de mudar de vendedor.”


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Domingo, 5 de Maio de 2013

Sentado nas escadas


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Sábado, 4 de Maio de 2013

Encostado ao muro


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Sexta-feira, 3 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 158


158 – Desiludido com a arte, voltou-se para outro lado – para o outro lado –, como quem se sente mal durante o sono por ter adormecido na posição do coração e de repente se vira para o lado direito para conseguir sobreviver aos movimentos arritmados do seu coração apaixonado, isto se o tiver,  bien entendu, como muito bem poderia dizer o camarada Jean Ferrat.


Afinal podemos morrer de amor, falecer por causa do pecado da gula, mas ninguém morre por amor à arte. Era o que mais faltava, morrer pela arte. No entanto, no caso do José, não sabemos se isso era possível. De facto, o nosso herói, como já informamos anteriormente, tinha falado na barriga da mãe. E isso era indício de que havia sido tocado por algo de sublime. Ele, apesar da sua aparente e teimosa conformidade com a realidade, era, sobretudo, um ser de ficção, especialmente no aspeto em que a ficção é sempre mais ousada e verdadeira do que a própria realidade. Podendo mesmo atrever-nos a afirmar que a ficção é que é a verdadeira realidade, por muito que isso nos custe a todos.


Voltou de novo à sua intermitente atividade sociocultural, que, no seu modesto ponto de vista, era política, mesmo não parecendo. Uma vez revolucionário, revolucionário para sempre. O Graça nisso era amigo, tinha a noção de que a sua principal valência era do lado da cultura. Uma vez culto, culto para sempre. Uma vez amigo, amigo para sempre. Bem, esta última afirmação tem o seu quê de logro, no entanto vamos deixá-la como está para não interferirmos com o destino, pois esse axioma vai a seu tempo ser devidamente desmentido pela realidade, que sendo mais pobre do que a ficção, a realidade, claro está, não deixa de ser incómoda como um enxame de abelhas tocado por um varapau de rapaz inconsciente ou distraído.


Farto da revolução feita à base de pintar paredes e colar cartazes, o José decidiu investir na frente da animação das associações juvenis. Arranjou um amigo, ou melhor dois, e com eles empreendeu a implementação do FAOJ (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis) em Névoa.


Alugaram uma casa na Rua do Poço, ou dos judeus, recolheram cadeiras, mesas e armários em várias instituições públicas e particulares, adquiriram, com subsídios do Estado, tabuleiros de xadrez e uma televisão, e convidaram os jovens a frequentar a casa, tendo em vista dar-lhes uma ocupação que lhes espevitasse as meninges. Realizaram torneios de xadrez, dinamizaram ateliês de pintura e escultura e iniciaram a constituição de uma biblioteca, e de um grupo de leitores, erigida à base de livros oferecidos que podiam ser lidos em troca de uma pequena quota em dinheiro que seria empregue na aquisição de novas obras.


Tudo se iniciou com o entusiamo necessário a estas coisas. Realizou-se o primeiro torneio de xadrez com a inscrição de dezenas de jovens. Todos eles pagaram, no ato da inscrição, uma quantia simbólica que reverteu a favor da biblioteca em formação. Até o José, que pouco sabia de xadrez, se inscreveu. Não era muito usual os dirigentes inscreverem-se nos torneios que organizavam, mas o José resolveu correr o risco.


Logo no primeiro match saiu-lhe na rifa um militante da extrema-esquerda com um tal ar de Karpov que o José deu logo o jogo por perdido. Mas qualquer jogo, antes de ser perdido, tem de ser jogado, mesmo que isso nos custe. E foi o que o José fez, jogou o jogo pelo jogo. O José, temos de ser sinceros, não gostava nada, mas mesmo nada, de perder, mesmo que fosse a feijões. Por isso sentiu-se mal por lhe ter calhado em sorte esse tal Gasparov, ou Karpov, ou lá o que fosse. Aquele seu ar supostamente inteligente intimidou-o deveras. Além disso, tinha uma vozinha afetada, uns trejeitos amaneirados e emitia uns olhares tão intrigantes como se o quisesse encher de beijos, ou merdas pelo estilo. O José tentou concentrar-se no jogo. E concentrou-se seriamente. Como ficou com as peças pretas, restou-lhe aguardar que o seu adversário, com aspeto de Tasparov, Rarkakov ou lá o que fosse, abrisse o jogo. Bem, o Gsapirov amaneirado demorou o tempo todo permitido pelos regulamentos para realizar uma jogada e mexer o peão de rei. Depois do movimento da sua peça, o Kaspariov da voz afetada mexeu no cronómetro e preparou-se para esperar tanto tempo como o que despendeu a realizar a sua jogada. Mas o José não se fez esperar, jogou um cavalo passados apenas alguns segundos. O Rasparov arrebicado, incrédulo com a rapidez do seu adversário, disse-lhe que não havia necessidade de jogar tão depressa, pois o jogo de xadrez serve sobretudo para pensar e pensar leva o seu tempo. E lembrou-lhe que o xadrez não era como as damas, de jogo, claro está, não as damas de mamas e coisa e tal. Que levasse o seu tempo, que ele não lhe levava a mal, pois o xadrez serve sobretudo para pensar. E pensar leva o seu tempo. O xadrez é um jogo de estratégia. E a estratégia leva o seu tempo. O Fasrapov efeminado gastou novamente todo o tempo permitido pelo regulamento do concurso, cerca de vinte minutos, para mover outro peão. O José nem queria acreditar, mas as jogadas do seu adversário eram todas mais do que previsíveis. A seguir aquele caminho, o Kartapov amaricado arriscava-se a perder. Mas o José, desconfiado, pensando que era estratégia para o enganar, jogou de forma provocadora, ameaçando-lhe uma peça em troca de nada. E fê-lo também rapidamente. Não estava para perder tempo com o jogo, quanto mais depressa ele acabasse melhor. Já que ia ser derrotado, pelo menos que o fosse o mais rapidamente possível. O Vospurov, ou karkarov, ou lá o que era, com mais um gesto irritante, para o José, claro está, lembrou-lhe que levasse o seu tempo, que ele percebia, pois o xadrez serve principalmente para meditar. E meditar leva o seu tempo. O xadrez é um jogo de estratégia. E a estratégia leva o seu tempo. Mas a rapidez do José não buliu minimamente com a estratégia do seu adversário. Ele meditou, pensou e discorreu mais vinte minutos sobre a peça a jogar e o movimento a fazer. A partir daqui, o ritmo do jogo não se alterou. O José rápido e o Vorparov de olhos verdes arrepiantes sempre em jogadas de vinte minutos. Lá para o décimo quinto movimento, já perto da noite, o José começou a dar-se conta de que o Kritipov, ou lá o que era, das palavras sibilantes, afinal não percebia nada de xadrez. Sabia mexer as pedras e pouco mais. Mas, verdade seja dita, ele não saía da sua pose. Olhar de entendido, escrevendo num caderninho as suas jogadas e as do José, tocando nas suas peças com se fossem papos de rola, e marcando o tempo no relógio com todo o ar do deus Kronos.  Mas enquanto o Pagaspov, ou Gaskarov, ou lá o que era, afetado, se entretinha com os pormenores, o José começou a olhar para o jogo com olhos de ver. Já lhe levava uma boa vantagem em peças tomadas. E, a seguir por aquele caminho, o maricas do xadrez ia ser derrotado sem apelo nem agravo. Mas não se dava conta. Por isso continuava com a lengalenga de que o xadrez é um jogo de paciência e de estratégia. E que a estratégia leva tempo. E que a paciência também. Depois calava-se durante dezanove irritantes minutos a fazer que pensava numa jogada. E até parecia que pensava. Quem estivesse a assistir ao jogo e não percebesse nada de xadrez só podia dar como vencedor o adversário do José. Pois apenas um campeão consegue demorar vinte minutos a mudar uma peça, depois anotá-la num caderninho com uma letra de menina de colégio enamorada pelo Simão do Amor de Perdição e finalmente tocar no cronómetro para parar o seu tempo e dar início ao tempo do adversário.


Quando caiu a noite, o xadrezista maneirento, depois de ter realizado o seu vigésimo lance, com todo o seu ar de entendido, depois de o ter anotado no caderninho e de ter dado por terminado o tempo da sua jogada, levantou o seu olhar afetado e rindo-se como um anjo rabudo, propôs: “Vai sendo hora de jantar. O melhor é interrompermos o nosso match e continuarmo-lo logo mais à noite ou deixá-lo para amanhã.” “Toca lá no relógio, pois eu vou jogar”, avisou-o o José. E o Marparov, ou Zaspopov, ou lá o que era: “Não tens fome? Olha que isto, pelas minhas contas, ainda é jogo para durar umas horas largas.” E o José: “Achas?” “Tenho a certeza. Eu já tenho muita experiencia neste jogo. Já passei muitas horas a jogar…” “Disso, não duvido. Dá para ver. O tempo que tu levas para fazer cada jogada é disso um exemplo perfeito”, ironizou o José. E o Pokarpov, ou Gasvonov, ou lá o que era: “Sim. Eu penso muito. Esse é o espírito do xadrez. O xadrez é um jogo de estratégia. Um jogo que exige pensar muito, pois devemos cogitar maduramente nas nossas jogadas. E, sobretudo, estudar as do adversário. Pois as nossas jogadas devem sempre abrir caminho para a frente, mas sem nunca esquecer a retaguarda. O xadrez é como uma guerra, temos de pensar sempre na estratégia do inimigo.”


Ia a levantar-se, depois de ter fechado o caderninho e ter arrumado a caneta, quando o José se virou para ele e disse as palavras fatais no xadrez: “Xeque-mate.”


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Quinta-feira, 2 de Maio de 2013

Ida para o lameiro


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