Quarta-feira, 31 de Julho de 2013

O Poema Infinito (157): sinais


Os ramos das árvores começam a espalhar solidão. O vento embala o crepúsculo dos meus olhos. A água sobe pelos juncos. Os espíritos suspiram embalados pela tua voz. As flores escutam os pássaros e choram. Sonhamos com a aurora e com a sua luz dançando nas clareiras verdes. Sou a minha própria imagem ancorada num barco solitário. As terras tornam-se inquietas. As asas dos pássaros-anjos cintilam e dardejam. O meu coração não tem método. Antes de anoitecer a sombra do silêncio vagueará pelos caminhos. A margem do lago adormecerá e as estrelas caminharão na superfície das suas águas. Tu dizes: A paixão também cansa. O amor é um contínuo adeus. As horas ficam serenas. Sonhamos com a beleza do orgulho, com a esperança dos prodígios, com a perfeição imortal da chuva, com olhos repletos de luz, com quem desenhou os céus, com ilhas iluminadas de paz, com a exaustão das horas, com a inclinação fresca das fontes, com a felicidade cansada das avós, com o declínio tranquilo da satisfação, com os jardins brancos de neve, com o amor que cresce calmo nas macieiras, com as lágrimas jovens da paixão. Os homens vacilam dentro do seu orgulho, fatigados pela esperança. Os seus pés caminham errantes pelos atalhos. Tentam esquecer o céu e o inferno, as hostes divinas, os anjos que tecem as estrelas, as velas desfraldadas das naus que flutuam silenciadas pelo medo da morte. Regressam as almas dos mártires das guerras inúteis. E gritam com a sua dor exposta. Por isso não conseguem descansar em paz. Alguém canta canções de ar. Alguém lança silêncio sobre a culpa. As vozes eternas são doces. Os chefes enchem-se de júbilo enquanto os deuses suspiram. O mar fica impregnado do sorriso triste dos navegantes. A guerra consagra a paz passageira. Eu chego até ti carregado de distância. O tempo é o cais do infortúnio. A beleza fica triste na sua efemeridade. Leio devagar os sinais do desaparecimento. As sombras ficam profundas como as rugas. Todas as almas são peregrinas. A tristeza altera-nos o rosto. Todas as meditações pertencem ao tempo e por isso se conservam na memória. Alguém ordena que partamos trilhando o caminho do fogo. Outros gritam a sua vontade de ficar. O tempo chora a sua decadência. As fogueiras ardem nas montanhas e nos bosques alimentadas pelos espíritos do desespero. Os homens censuram-nos com palavras amargas. Cada qual tem a sua razão. Os mais jovens cavalgam o fogo semicerrando os seus olhos de relâmpago. As águias espectrais voam empurrando a amargura da alma dos homens. O tempo fica ainda mais cansado. Os olhares das mães cintilam como estrelas velando o sono dos seus amados filhos. O bem e o mal amanhecem com o orvalho. Os corações recuperam a sua esperança. As borboletas voam e cintilam aos primeiros raios de sol. Trutas prateadas ondulam no lago. Caminhamos descalços pela erva escutando os ligeiros ruídos das pequenas criaturas. Alguém chama por nós e foge. Beijamo-nos. Os nossos lábios queimam com se estivéssemos com febre. Alguém passa por nós cavalgando um ginete de aurora. Tem o cabelo em chamas e chora a sua raiva imortal.  


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Terça-feira, 30 de Julho de 2013

Passeando


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Segunda-feira, 29 de Julho de 2013

Pérolas e diamantes (48): o Tribunal de Chaves entre a farsa e a tragédia


A minha avó dizia-me muitas vezes: Nunca te esqueças que és transmontano, que vens de gente do campo, tanto do lado do teu pai como do lado da tua mãe. Os Madureiras e os Ferreiras são gente do campo, têm os seus defeitos, mas ninguém os convence a fazerem aquilo que não querem. Lá teimosos somos nós. Ninguém nos obriga a fazer uma coisa que não queremos. E se alguém não gostar, não tens de lhe dar explicações. Basta lembrar-lhes que não fazemos nada por obrigação. Eles hão de respeitar-te por isso.

 

Lembrei-me destas palavras após a leitura da declaração de voto da deputada do PSD, Manuela Tender, relativa à aprovação do novo mapa judiciário que desqualificou vergonhosamente o Tribunal de Chaves, tentando justificar o injustificável e ensaiando explicar o inexplicável. Mas os atos ficam sempre com quem os pratica.

 

A presidente da delegação da Ordem dos Advogados, Márcia Teixeira, curiosamente militante do mesmo partido da senhora deputada e também candidata nas mesmas listas do PSD à autarquia flaviense, afirmou numa reunião realizada há poucos dias que “o modelo de mapa judiciário preconizado não defende os interesses das populações do Alto Tâmega”.

 

Para Márcia Teixeira, os argumentos de Paula Teixeira da Cruz, curiosamente militante do PSD e ministra de um governo chefiado por um militante do PSD e apoiado incondicionalmente pelo mesmo partido, “são falsos”, sendo em tudo “idênticos aos da integração do Hospital de Chaves no CHTMAD, sabendo todos nós quanto perdemos com a ausência de serviços de qualidade e proximidade”.

 

Na sua perspetiva, esta medida visa ir mais longe, pois pensa ser o princípio para o fecho, “a médio prazo”, do Tribunal de Chaves. Isto perante o silêncio cúmplice das estruturas políticas dirigentes da organização local do seu partido e das manobras de diversão (tipo agarrem-me senão eu bato-lhe) do presidente em exercício da autarquia flaviense, o candidato António Cabeleira. Ele é doutro mundo.

 

Atrapalhada com os acontecimentos, e com o entorno da tragédia anunciada, esta militante do PSD local apela para que os políticos tomem medidas, pois, nas suas doutas palavras, “eles foram eleitos para defenderem os interesses dos cidadãos”.

 

Márcia Teixeira, num gesto de indignação, resolveu chamar os bois pelos nomes e por isso considerou, e passamos a citar, “um ato de traição a atitude da deputada do PSD eleita por Vila Real, e indicada por Chaves, Manuela Tender, que, num verdadeiro ato de traição aos flavienses, votou favoravelmente a proposta de lei.”

 

Mas, caros leitores, como se tudo isto fosse pouco, João Batista, o “ex”-presidente da Câmara de Chaves, e candidato a presidente da Assembleia Municipal de Chaves pelas listas do PSD, em jeito de farsa, veio para os jornais dizer que o Tribunal de Chaves mantém os quadros de Magistrados, pois a senhora Ministra garantiu-lhe que o TC manterá os quatro juízes e que o número de Oficiais de Justiça irá passar de 26 para 27. “Neste sentido”, avisa, “o Tribunal de Chaves, apesar de perder formalmente o título de Comarca, manterá os mesmos serviços, como anteriormente”.

 

Ora isto é brincar com as palavras e com a inteligência dos flavienses. O senhor “ex”-presidente quer fazer de nós parvos.

 

O ato da deputada Manuela Tender ficará para sempre associado à votação que determinou o triste desfecho para o Tribunal de Chaves, isto por mais justificações esfarrapadas que dê, por mais declarações de voto que faça e por mais disciplinas de voto que invoque.

 

Já as palavras do senhor “ex”-presidente João Batista ficarão para sempre inscritas no anedotário da nossa terra. 

 

Pelo meio foram até invocadas questões económicas e financeiras. Mas a Justiça, tal como a Saúde e a Educação, não tem preço.

 

A verdade é que o Tribunal de Chaves, apesar das inverdades do senhor “ex”-presidente João Batista, apenas vai ter competência para julgar ações cíveis até 50.000 € e, nos processos criminais, só poderão correr nele aqueles a que, dito de forma corrente, não corresponda uma pena superior a 5 anos de prisão.

 

Entretanto o poder autárquico nada fez, ou faz, e nem sequer se interessa minimamente em sensibilizar a população do concelho. E pior, os atuais autarcas, em vez de defenderem os interesses dos flavienses e da autarquia, colocaram-se, sem pudor algum, ao lado da lamentável e vergonhosa posição do governo.

 

Por outro lado, a oposição política nacional e local, também nada fez, a não ser proferir alguns lamentos, outros tantos desabafos e, ainda, serôdios comentários nas redes sociais.

 

É cada vez mais claro que a nossa cidade governada pelos partidos políticos, como os que nós conhecemos, é um desastre. É pura perda de tempo. E, sabemo-lo agora, mais do que nunca, é também uma perda de direitos. A alternância entre o PSD e o PS é o jogo do gato e do rato.

 

Precisamos de eleger uma autarquia que não tenha pejo em defender a nossa terra e os nossos direitos. Mesmo que para isso tenhamos de colocar de lado as simpatias partidárias ou, até, pessoais.

 

Quem tem de mandar em Chaves são os flavienses, não os mesquinhos interesses partidários.   A nossa terra tem de estar sempre primeiro. E quando uma disciplina de voto tem mais força do que os direitos inalienáveis de uma população inteira, a democracia transforma-se numa farsa. 


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Domingo, 28 de Julho de 2013

Passeio


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Sábado, 27 de Julho de 2013

Convívio


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Sexta-feira, 26 de Julho de 2013

O Homem Sem Memória - 169


169 – Quando estamos presos, alguns momentos que vivemos entre grades são particularmente trágicos. E o mais trágico de todos é quando recebemos a visita da mulher que nos trouxe ao mundo. Aquilo não é muito bonito de se ver e não é nada, mesmo nada, fácil de viver. Uma mãe banhada em lágrimas a olhar para nós como se estivéssemos prestes a morrer, é desolador. E a cena torna-se ainda mais dramática quando nela entra a Dona Rosa.


Mal a colocaram frente ao seu filho preferido tratou logo de desmaiar. E todos nós sabemos como a Dona Rosa é poderosa no momento do desfalecimento. Desmaiou devagar, mas com um estilo muito próximo do teatro da mais alta qualidade. Se William, o Shakespeare, tivesse mesmo existido, e fosse contemporâneo da Dona Rosa, temos a certeza absoluta de que não se atreveria a morrer sem antes escrever uma peça pensando única e exclusivamente no desempenho dramático de uma atriz com o génio, o talento e o carisma da mãe do José.


Todos os que assistiram à cena ficaram espantados, menos o nosso terno herói que já sabia dos dotes dramáticos de sua mãe. Todos quantos puderam, correram a tentar amparar a pobre senhora em grandioso pranto e estudado desalinho. Os mais sensíveis condescenderam mesmo em deixar correr espontaneamente uma lágrima mais atrevida e afetuosa. O José, temos de reconhecer, mesmo comovido quase até às lágrimas, segurou-as com muito empenho e audácia. Os reacionários não podiam ter o prazer de o ver chorar. Um revolucionário não chora, mesmo que se encontre em processo de dissidência. E desesperar jamais.


Devido a esse facto, muitos dos guardas prisionais acharam-no insensível, o que não acrescentou nada ao conhecimento deles sobre os comunistas, pois todos os reacionários lhes reconhecem a frieza e o desprezo pelos sentimentos próprios, e alheios, como uma das suas principais características.


Quando se recompôs, a Dona Rosa começou logo a ralhar ao filho como se ele fosse um rapazinho da escola primária. O José ficou ainda mais frágil e triste. E lembrou-lhe que ela bem o tinha avisado de que as más companhias o haviam de conduzir à desgraça. Os comunistas não dão nada a ninguém, nem sequer bons conselhos. Pelo contrário, tiram tudo a uma pessoa: a vontade, a educação, a fé e a alma. São uns danados.


O José perguntou-lhe pelos irmãos e pelo pai. Ela informou-o de que o pai não a quis acompanhar com o pretexto de que estava de serviço, mas ela sabia bem o porquê de desculpa tão esfarrapada. Ela bem sabia que o guarda Ferreira a achava choramingona e espalhafateira. Além disso, pensava a mãe do José com alguma propriedade, tinha vergonha de ser militar da GNR e ter um filho preso por motivos políticos. Confessou, no entanto, que ainda se estava a habituar à ideia, mas mandou-lhe cumprimentos e cigarros e algum dinheiro para despesas correntes.


A Dona Rosa: “Com um pai destes, tinhas de sair herege. E logo tu que foste bafejado pelo Espírito Santo, que te pôs a falar na minha barriga. Não soubeste aproveitar o dom, agora estás para aí na companhia do Demónio e desses seus filhos.”


“Mas, mãe, o Graça é bom rapaz, um bom camarada…” “Não te iludas, meu filho. Foi o Graça quem te trouxe para esta desgraça. Foi ele quem te meteu essas más ideias na cabeça. Foi ele quem te enfiou na cadeia.” “Por favor, mãe, não digas isso, porque não é verdade. Eu sou um homem livre…” “Livre? Mas estás preso!” “Sou livre no pensamento que é como o vento que podem prendê-lo, matá-lo não…” “Tu és mesmo parvo. Sempre com as tuas toleimas, com essas rezas mentirosas, com esses falares enganadores.” “Não são rezas mãe, é poesia. Há lá coisa mais bonita do que a poesia!” “Há sim senhor, as orações a Nosso Senhor…” “Pois!” “Não existe por aqui um padre?” “Claro que sim.” “Então confessa-te e volta ao caminho de Deus. Por favor José, desta vez faz a vontade à tua mãe que te quer mais do que a qualquer outra coisa no mundo.” E começou a chorar copiosamente.


Ao José, mesmo contra sua vontade, também os olhos se lhe marejaram de lágrimas pequeninas, mas sensíveis. Ficaram os dois em silêncio. O José não podia contar à sua mãe que, à sua maneira, estava a seguir os seus conselhos, estava a cortar as amarras que o ligavam ao Partido e aos seus antigos camaradas.


Todas as suas decisões foram tomadas individualmente e para isso apenas tinha consultado a sua consciência. Desta vez também não podia ser diferente. Apenas ele e a sua consciência são os donos do seu destino. E seja o que Deus quiser. Bem, Deus não, ou talvez sim, ou… Quem não tem dúvidas não pensa. Só os grandes sábios e os maiores idiotas é que nunca mudam de opinião.


“E os meus irmãos?” “Estão lá fora. Não os deixaram entrar. Mas mandam-te cumprimentos. Dizem que têm saudades tuas e que te querem seguir os passos. Vês, José, os teus irmãos querem seguir-te os passos. Querem dizer coisas tolas, fazer coisas parvas e vir parar à prisão. É esse o ensinamento que lhes envias. És um mau exemplo.” “Por favor, mãe. Eu não fiz nada de mal. Limitei-me a defender as minhas ideias e o meu povo…” “Com armas! Se todos quantos defendem as suas ideias e o seu povo pegassem em armas, não restava uma única pessoa viva no planeta.” “Mas os reacionários apesar de defenderem as suas ideias, não defendem o povo.” “Ai não que não defendem. Tu convences-te de cada coisa. Só vós, comunistas rancorosos e vingativos, é que sois os salvadores do povo? Deixa-me rir. O povo não vos presta nenhuma atenção, nem vos respeita. Rejeita-vos. Detesta-vos.” “Isso é porque as pessoas são ignorantes.” “Tu é que és ignorante. Tu é que não percebes o povo que dizes defender. Tu e os teus camaradas prometeis-lhes o paraíso na Terra. Mas o pobre povo, quando a esmola é grande, desconfia. E com razão. Todos lhe mentem.” “Eu não.” “Tu és igual aos outros. Andas com eles, iludes-te com eles, mentes como eles.” “A revolução liberta os povos.” “Vês. És um mentiroso compulsivo…” “Compulsivo? Quem te ensinou essa palavra?” “É a palavra de Deus…” “De Deus…” “De certa forma sim, pois é a que mais utiliza o senhor padre quando fala da mentira, dos comunistas e do Demónio, que, na sua visão, constituem a Trindade Demoníaca.” “E tu sabes o seu significado?” “O senhor padre diz que quando o Diabo vos transforma em comunistas não sois capazes de conter a tendência para a mentira, pois mesmo pensando que estais a dizer a verdade, não conseguis resistir a apregoar a mentira. E a vossa mentira é medonha.”


O José ficou novamente calado e a Dona Rosa também. Passado algum tempo, a mãe vira-se para o filho e pede-lhe para rezar com ela. Ele levanta-se de imediato do banco e diz-lhe que se insistir na proposta a visita terminará nesse preciso momento. O silêncio instala-se de novo. A Dona Rosa ajoelha-se então sozinha, virada para o crucifixo da sala, junta as mãos, inclina a cabeça para o chão e reza. Os guardas prisionais fazem o mesmo, mas de pé. O José deixa-se ficar sentado a olhar para os pés.


Após a oração, a Dona Rosa senta-se de novo na cadeira, enxuga as lágrimas com o lenço e entrega ao filho as iguarias que lhe trouxe, avisando-o: “Não as desperdices com os teus camaradas e amigos.” Ele respondeu-lhe com a verdade, que também era um enigma para a sua mãe: “Os meus camaradas não são os meus amigos e os meus amigos não são meus camaradas.”


A Dona Rosa, surpreendida com a deixa, questionou-o: “Zangaste-te com os teus camaradas?” “Prefiro não responder.” “É uma boa notícia. Então já não tens amigos…” “Amigos tenho, mas não são os meus camaradas. São os outros.” “Quais outros? Os outros que não são comunistas são ladrões e assassinos. Não me digas que…” “Mãe, em Lucas 23:32-43 é contada a história de Jesus e dois ladrões na cruz. Um desses ladrões demonstrou uma atitude reta para com Jesus e pediu-lhe uma bênção futura. “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” foi a resposta que Jesus lhe deu. Para as pessoas, este é o parágrafo mais consolador da Bíblia.”


“Deus te abençoe, meu filho, voltaste ao caminho da fé e da esperança. Apesar disso, não faças muita confiança nos teus novos amigos. Come, reza e descansa. E afasta-te dos teus antigos camaradas.” “Assim farei mãe. E agradece os cigarros ao pai. E que Deus te abençoe e a mim não me desampare.” E riu-se. A Dona Rosa fez o mesmo.


O guarda prisional disse-lhes que a visita tinha terminado. 


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Quinta-feira, 25 de Julho de 2013

Luzia


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Quarta-feira, 24 de Julho de 2013

O Poema Infinito (156): iluminações


O dia começa a agasalhar as pedras, o musgo e os bichos. Fico imóvel na minha sombra. A casa começa a tremer de frio. Então invento o inverno. No mar, os barcos navegam aos sobressaltos. O silêncio percorre os corredores. As plantas constroem a terra. A minha avó debruça-se sobre a mesa e tenta dormir. As aranhas escrevem poemas de teias nas pedras das paredes. As palavras tornam-se agressivas. Na minha memória acendem-se imagens. Nos meus olhos acende-se o tempo. Todos os sorrisos são desconhecidos. Lá fora um par de namorados cintila procurando o lado quente do sol. Dentro de casa, os objetos brilham. Agora é possível percorrer novamente o caminho da adolescência, registar-lhe os gestos, vigiar o movimento perpétuo dos dias, reparar nas mãos que amam a pele e os sexos, atravessar a noite, alinhar as ruas, sentir a desolação do mar, perceber a amargura dos brinquedos, permanecer imutável como as asas das borboletas, deitar a cabeça em cima das fotografias que enlouquecem no seu instante inalterável, despertar dentro do corpo de quem se ama, passear no sítio onde o tempo se gasta, ouvir os lugares e os murmúrios das coisas, escutar os ruídos interiores das músicas. Tudo volta à sua arrumação agitada. Eu irrompo dentro da minha insónia. A água curva-se quando mergulho as minhas mãos na bacia. Procuro desesperadamente o teu sorriso e o seu brilho lamentativo. Pronuncio palavras violentas que são como gemidos vazios. Ainda nem saí de casa e já volto a ela de novo. A repetição dos dias deixa-me vazio. Escrevo a tua ausência dentro da minha ausência. Procuro-te dentro dos poemas como se a noite já viesse aí arrastando a sua força negra. Escrevo o teu nome na lista de todos os nomes. Aproximo-me do teu corpo passeando os dedos pelo desejo. O teu rosto levanta-se vagarosamente e estende-se no seu sorriso de noite mágica. Tudo é ainda novo. Reconheço os meus próprios erros e o uso violento do desespero. A cama parece feita de cristais líquidos, onde os corpos escorregam. Tenho a adolescência na boca. A memória ficou imobilizada junto ao mar. O mar entra pela janela. Inicio o ciclo dos relatos simples onde as embarcações perdidas entram no eco do tempo. Abro as mãos aos pássaros. Alice espera ainda do outro lado do espelho. O seu corpo tornou-se etéreo. Alice entrou definitivamente no secreto desejo onanista. As histórias e as lendas tornaram-se enigmáticas. Navegamos sobre águas oxidadas agarrados às espadas da insónia. Os homens afogam-se dentro dos seus próprios barcos, têm saudade de tudo e lamentam-se. O cio torna-se noturno, como a fome. E as vozes avançam. Navegamos na memória das tempestades, cansados dos portos e dos corpos e da distância dos lugares. Voltamos a partir para evitar o silêncio da morte e os estilhaços do desespero. Somente a memória sangra. O quarto transforma-se na sua própria insónia. Os sonhos navegam agora em terra, no seu pranto antigo, embebedando-se de saudade. Penso que acordo porque sonho que cheguei sem ter chegado. As colinas inclinam-se, o mar agita-se, o barco baloiça dentro da sua melancolia. Os deuses das pequenas coisas dançam agitando os seus corpos suados em redor do fogo. A nau onde navego está hipnotizada. O meu sexo voa de encontro ao teu. O cais ilumina-se. Os nossos corpos tornam-se fugidios. Os nossos beijos são agora obscenos. Existe sempre uma vontade de partir e uma urgência em chegar. As marés arremessam contra a cama onde nos agitamos. A alucinação do amor é um embriagante perfume. Somos duas ilhas sossegadas onde o amor é um movimento luminoso.


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Terça-feira, 23 de Julho de 2013

Olhares


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Segunda-feira, 22 de Julho de 2013

Pérolas e diamantes (47): os trinta dinheiros e o feitiço das laranjas


Tudo indica que a gente de Chaves aprecia os líderes políticos que colocam os afetos e os princípios à frente das conveniências. Pessoas que têm ideias, convicções e que, sobretudo, acreditam naquilo que fazem e por isso conseguem fazer os outros acreditar de que é possível construirmos um futuro melhor. E olhem que, nos tempos que correm, conseguir protagonizar a esperança não é tarefa para qualquer um.

 

Está provado que o que se espera de um líder político não são ideias baralhadas e um arrazoado de promessas que todos sabemos serem impossíveis de cumprir. O que todos exigimos é alguém com ideias claras, com convicções profundas, que transmita esperança e que ame a nossa terra tanto como o mais humilde e intrépido dos flavienses.

 

O poder autárquico instalado na nossa terra parece desprezar a inteligência dos flavienses. Daí as sucessivas tentativas de nos tentar ludibriar com promessas vãs e com obras irrealizáveis. Mas na política nunca se deve subestimar o pouco que aparentemente as pessoas sabem sobre a situação financeira das instituições públicas. 

 

Uma coisa todos sabemos, na sociedade existem sempre aqueles que se acobardam e aqueles que comandam. Daí a necessidade imperiosa de apoiarmos quem saiba exercer o poder, como ensinava Sócrates, de forma simples e humilde, nunca se cansando de procurar a “virtude e a sabedoria”.

 

Desde há muito tempo que nos habituámos a olhar Chaves, porque a temos no coração, na sua perspetiva sólida, enraizada, resplandecente, gloriosa, inatacável. O poder faz-se e desfaz-se, mas a cidade mantém-se.

 

Esta gestão autárquica do PSD faz-me lembrar os tempos em que comia em cantinas. Quando muitos de nós tentávamos questionar a qualidade da comida, as chefias respondiam-nos sempre que a comida ali servida constituía uma dieta equilibrada. De facto era equilibrada, mas entre o intragável e o impossível de comer.

 

Nunca, como hoje, a política autárquica esteve tão necessitada de clareza, humildade e afetos. Quem se deixa iludir pelo dinheiro, pelas promessas vãs e pela prepotência acaba definitivamente derrotado, mesmo pensando que triunfou. No livro de Camilo Castelo Branco, O Demónio do Ouro, São Francisco de Sales avisa: “O dinheiro pode ser um bom servidor, mas é sempre um mau senhor.”

 

Alguns dirigentes autárquicos, pensando que se estão a servir dele, para aliciar, por exemplo, presidentes de junta para as suas listas, estão já a ser seus escravos. O medo de perderem o poder leva-os a atitudes desesperadas e mesmo mesquinhas.

 

Em ata camarária de 18 de julho de 2013, a Câmara de Chaves (num gesto de aliciamento serôdio e deselegante a presidentes de junta, alguns dos quais abandonaram as suas cores partidárias anteriores para se candidatam agora pelo PSD), assinou um denominado “protocolo” (que mais não parece ser do que os trinta dinheiros pagos a Judas) com 11 juntas de freguesia no valor total de 187.973 euros.

 

Oito invocando como motivo “arruamentos”: Vilas Boas (10.000€), Cimo de Vila da Castanheira (15.000€), Calvão (10.000€), Santa Cruz/Trindade (45.000€), Santo Estevão (10.000€), Vilarelho (15.000€), Eiras (25.000€) e Redondelo (12.000€).

 

Um invocando como motivo “saneamento”: Outeiro Seco (23.000€); outro invocando como motivo “equipamento Centro de Dia”: Soutelo (7.973€); e um terceiro invocando como motivo

“abastecimento de água”: Arcossó (15.000€).

 

E assim pensam comprar consciências e boas vontades. A três meses das eleições, como se fossemos um pobre concelho da América Latina, onde ainda se compram votos por uma malga de caldo e um par de botas. Estes gestos definem bem o caráter e a honradez políticas destes senhores.

 

A Rainha Santa Isabel, em pleno janeiro, conseguiu fazer um milagre e transformar o pão, que levava no regaço para os pobres, em rosas, para descanso do seu rei e senhor. António Cabeleira pretende, passados tantos séculos, protagonizar o milagre das laranjas, transformando paralelos em votos. Mas talvez o pretendido milagre se transforme em feitiço e se vire contra o feiticeiro.

 

Até que lhe era bem feito.


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Domingo, 21 de Julho de 2013

E mais além


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Infinito


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Sábado, 20 de Julho de 2013

Sustentabilidade


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Sexta-feira, 19 de Julho de 2013

O Homem Sem Memória - 168


168 – As mães têm em relação aos filhos um sexto sentido que as faz adivinhar os perigos que eles vão correr no futuro. De facto, a aventura revolucionária do José só podia terminar mal, quer os comunistas triunfassem, quer fossem derrotados, como foi o caso.


Lá na cela, o José fazia por não pensar em nada. Sozinho como um cão, o nosso herói entretinha-se a pensar no futuro. E, se para alguns dos seus camaradas, o futuro se lhes apresentava, apesar das adversidades, risonho e solarengo, para o José o seu futuro não tinha futuro nenhum, que é a pior coisa que um revolucionário encarcerado pode pensar. Os outros bem lhe diziam que desesperar jamais, mas ele desesperava mais um pouco a cada hora que passava.


Quando olhava para trás apenas sentia uma tremenda saudade de rever os amigos e de passear pela sua cidade. Sentiu que a revolução adiada, ou perdida, pouco lhe dizia. No fundo, os seus impulsos revolucionários foram sempre um pretexto para a amizade, não para a ação. Bem vistas as coisas, o José sempre fora um revolucionário pacífico. As revoluções violentas não se enquadravam na sua forma de ser.


Sentiu-se ridículo. Afinal fora perseguido e preso por nada. Limitara-se a andar a passear uma arma de um lado para o outro sem nunca ter disparado um tiro na direção de uma pessoa. A revolução para ele sempre fora bonita nos livros. Neles havia esperança, coragem, sentido de futuro, necessidade de libertação, determinação, arbitrariedades que tinham de ser combatidas, amores quase perfeitos, líderes exemplares, e um povo que sabia o que queria, que seguia sempre os seus libertadores e que os ajudava em tudo o que era necessário. Mas a realidade, a puta da realidade, essa megera mentirosa, revelava tudo de forma distinta.


O que mais o entristecia era o facto de ninguém, a não ser o louco e o burro, terem aderido à revolução. E nem esses dois o tinham feito de forma voluntária. Uma revolução que não mobiliza os operários e os camponeses, não é revolução nem é nada. De facto, aquela dúzia de revolucionários transmontanos tinha que desistir, ou da revolução ou da realidade, ou mesmo de ambas, para poderem continuar a subsistir como seres humanos.


Temos que ser sinceros, o José começava a duvidar seriamente da sua vocação comunista. Não era propriamente dos ideais, mas sim da sua exequibilidade. Uma sociedade forçosamente igualitária para todos devia de ser, além de praticamente impossível, uma tremenda chatice. O que dava beleza ao ser humano era a diferença. Ao chavão “todos diferentes, todos iguais”, ele gostava de contrapor o de “todos iguais, todos diferentes”.


Na verdade, o José iniciou mais um processo de dissidência, mesmo dentro da prisão. Apesar de levar bofetadas da mesma forma e feitio dos seus restantes camaradas começou a isolar-se, a não participar em pequenas reuniões conspirativas, a furtar-se às discussões ideológicas, a preferir a companhia dos outros prisioneiros à dos seus camaradas de partido.


Por causa da estranha conduta do José, quem foi chamado à responsabilidade foi o camarada Graça, seu amigo e controleiro de longa data, a quem foram transmitidas orientações precisas para o conduzir de novo ao seio da organização do Partido.


O Graça, sabendo do feitio obstinado e individualista do seu amigo e camarada José, tentou deferir o assunto para outro camarada. Mas o camarada funcionário logo lhe lembrou que o camarada controleiro é tão, ou mais responsável, pela conduta do camarada controlado do que o próprio camarada. Ele bem resmungou, dizendo que essa é que era boa. Mas lembraram-lhe o ditado popular que diz que tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta. E lá foi o Graça cumprir com o seu dever.


O José, quando o viu a dirigir-se na sua direção, tentou afastar-se. Um monge em meditação não fala com outro monge, apenas fala com Deus. Alguns dos seus novos conhecidos ainda tentaram barrar o caminho ao Graça, mas o José, lembrando-se da velha e sadia amizade, que é o que continuava a honrar, enviou um gesto discreto na direção dos seus novos amigos no sentido de o deixarem aproximar.


“Andas bem protegido! Depressa arranjaste novos amigos. E estes parecem ser dos bons e leais. Têm toda a cara disso. Estás de parabéns”, disse o Graça carregado de ironia. “Não são piores nem melhores do que os teus. São apenas diferentes”, respondeu-lhe asperamente o José. “Os meus! Os meus? Então não são os nossos?”, teimou o Graça. “Para mim já não são camaradas. Não prestam. Não prestamos. Além de fracos comunistas, são gente sem préstimo. Mas a culpa não é deles. É nossa”, avisou o José. Ao que o Graça contrapôs: “Não te esqueças que estamos todos aqui pela mesma razão: a revolução. Isso é aquilo que nos une…” “Ou o que nos separa…” “O que nos une… O que nos unia. Eu não desisti da revolução, de transformar o mundo, de o tornar mais justo…” “Ou injusto…” “Como podes dizer uma coisa dessas?” “Basta ler…” “Tu muito lês! Pensas que a verdade está nos livros?” “Alguma deve estar. Depende dos livros que lemos…” “Então os que tu lês são melhores do que os meus? É isso?” “Pelo menos são diferentes. Eu leio livros diferentes uns dos outros. Tu limitaste a ler sempre o mesmo livro. Tu só lês a cartilha marxista e os seus sucedâneos. Por isso não te dás conta da realidade. A verdade é que os nossos camaradas de Leste são uns verdadeiros assassinos. Transformaram os países onde triunfaram em asilos de alienados e em açougues humanos. São uns bárbaros que não têm perdão de Deus.” “Perdão de Deus? Já não te conheço, José. Vieram-te agora todas as dúvidas? Pobre de ti.” “Por que é que te desiludiste com a revolução?” “Tu chamas a isto uma revolução. Foi apenas uma brincadeira de mau gosto. Nisso, os portugueses são exímios. Em tudo o que mexem, estragam. E este arremedo de revolução é disso o exemplo acabado. E eu só me desiludi com a revolução porque alguém me iludiu. Mas eu perdoo-te, pois não o fizeste por mal.” “Olha, José, eu não preciso do teu perdão. Tenho ordens para te comunicar que tens vinte e quatro horas para te decidires a regressar ao seio do Partido e à nossa organização. Após esse período, e se a tua resposta for negativa, serás expulso e declarado rachado.” “E isso o que é?” “Colaboracionista.” “Eu não preciso de 24 horas, dou-te a resposta já…”, mas não lha deu porque o Graça foi-se embora a correr. 


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Quinta-feira, 18 de Julho de 2013

Futuro


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Quarta-feira, 17 de Julho de 2013

O Poema Infinito (155): a luminosidade e o medo


Desde este lugar apenas diviso a intensidade violenta da luz, dessa luz que nos agarra com as suas mandíbulas e que sustenta o pavor dos objetos faustosos. Os nossos olhos movimentam-se com uma ferocidade objetiva refratando as estrelas. Os dedos das mãos abrem-se enquanto falamos da teoria reveladora da gravitação dos sentimentos. As formas do teu corpo tornam-se rápidas e desenvolvem-se ao longo das paisagens pentagonais que são agora os abismos do fulgor com que nos projetamos em direção aos textos. O desejo corre indomavelmente dentro da nossa inocência. O medo destrói os extremos onde os nossos corpos se transformam em exemplos elementares. Os nossos rostos são de novo astros. Toda a violência é centrífuga. É nela onde os textos se deixam inundar pela necessidade das estações. As paisagens entram na órbita dos relâmpagos. A ciência torna-se selvagem. É nela onde o teu rosto aparece cercado pelas montanhas. É nela onde os poemas se tornam legendas de cinema mudo. Tens esse modo secreto de pôr tudo em movimento, tens esse estilo arriscado de queimares todas as tendências, tens essa maneira sagaz de retratares a decadência. O medo torna-se um grito aberto que se esconde dentro das fotografias sibilantes. As janelas ficam com fundos claros onde os animais se tornam intensos e nítidos. Os dedos ensinam o caminho do desejo. É em m.omentos destes que as mães ficam com as suas caras magníficas e sussurram doçuras. Voltam as paisagens, irrompem as flores, os rostos sustentam os abismos, as constelações palpitam. Tudo dança. Tudo caminha para dentro de si mesmo. As estações ficam brancas e inexplicáveis. As paisagens parecem agora embarcações cegas que navegam dentro da loucura salgada do mar. As estações ficam obsessivas. Essa é a sua doçura e a sua notável desordem. As casas contorcem-se ficando rápidas e espaçosas. A lua abre o seu rosto incrustado de árvores vazias. Toda a noite se enche de radiações largas. A voz rebenta. As musas afugentam as paisagens. A memória maneja a raiz da vida. Sobre a claridade do equilíbrio, o mundo transforma-se num halo repleto de imagens que se incendeiam como se fossem estrelas enervadas. A beleza torna-se áspera. No centro do mundo a energia fica suspensa da sua crueldade que devora a força ininteligível do rosto e da vontade de Deus. Os braços alargam-se, as mãos ficam transparentes, as árvores tremem dentro da sua potência imóvel. Já não consigo dormir porque os sonhos queimam. Todos os movimentos ficam prisioneiros da obscuridade. Dizes: tudo é inocente. Por isso é que não podemos ver o mundo de uma maneira só. Por isso é que és a minha força e a minha desordem. Por isso é que brilhas durante os crepúsculos, por isso é que atravessas as imagens deixando-as feridas dentro da sua limpidez. Agora escrevo frases tocadas pela devastação brutal da vida. O teu rosto cerca-me de memórias intactas deixando implícita a ideia que a idade é uma ferida que se forma dentro de nós. A paixão é uma melancolia luminosa. Entre nós e as imagens suspiram os textos. As mãos carregam a força que atravessa a morte. As mãos tocam a mudança. As mãos dançam dentro da nossa desordem. As mãos vestem-se de poros e escrevem palavras silenciosas. A tua boca fica agarrada à luminosidade dos beijos. Tu dormes dentro da minha insónia para me acalmares. Dos teus olhos salta a luz. A noite fica incendiada de doçura. Luzimos na noite como dois pirilampos apaixonados e repletos de medo.


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Terça-feira, 16 de Julho de 2013

Modernidade


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Segunda-feira, 15 de Julho de 2013

Pérolas e diamantes (47): assumir as responsabilidades


Afinal, aquilo que todos temíamos veio a concretizar-se: o Governo desclassificou o Tribunal de Chaves. Isto perante a apatia e o silêncio público e notório do PSD local e da autarquia flaviense, curiosamente ambos dirigidos pela mesma pessoa.

 

António Cabeleira meteu a envergonhada “indignação” no bolso e ficou calado que nem um rato. Há silêncios indignos, este é um deles.

 

A senhora deputada eleita pelos flavienses votou a favor desta vexatória decisão. Diz-se por aí que o presidente da concelhia do PSD de Chaves ter-lhe-á indicado o voto contra. Mas, ao que parece, nem o governo central, nem o PSD nacional, e muito menos a senhora deputada Manuela Tender, ligam às orientações dadas por António Cabeleira. É bem verdade o que diz o nosso povo: um líder fraco faz fraca a forte gente.

 

Das duas uma, ou o líder do PSD local está amarrado de pés e mãos pelo PSD nacional à estratégia de menorização do Interior, que obriga os seus dirigentes a irem contra os interesses das populações que têm a imperiosa obrigação de defender, ou também existe a possibilidade de já ninguém obedecer a António Cabeleira.

 

Claro que também subsiste uma terceira hipótese, a do líder flaviense do PSD já não conseguir distinguir aquilo que é certo daquilo que é errado. Chaves podia, e devia, estar primeiro do que os partidos, mas não está. E isso prejudica-nos a todos. A defesa do Tribunal de Chaves não é uma questão ideológica, é uma questão de cidadania, de honra e de dignidade. Os flavienses merecem ter acesso a uma justiça de qualidade.

 

Temos de reconhecer que antes desta decisão, o PSD local ainda tentou encenar um pequeno ato de luta. António Cabeleira e a senhora delegada da Ordem dos Advogados em Chaves, uma militante social-democrata intermitente, agora candidata nas listas laranjas a vereadora, resolveram fazer que faziam e dizer que defendiam o nosso Tribunal.

 

A Câmara de Chaves resolveu alugar um autocarro para levar até Lisboa a senhora delegada da Ordem e mais alguns dos seus colegas de profissão, na tentativa de chegarem à fala com a senhora ministra da Justiça. Deste ato falhado apenas se terá aproveitado o leitão à bairrada que presumivelmente os excursionistas degustaram na famosa região.

 

O entusiasmo foi tanto que até apareceu divulgado no facebook. Mas da diligência nada resultou de substantivo. O Tribunal de Chaves foi mesmo desclassificado. Apenas a senhora delegada foi premiada com o convite para integrar as listas à Câmara do PSD local. O que é elucidativo.

 

Depois do encerramento das principais valências médico-cirúrgicas do Hospital de Chaves e depois da desqualificação do Tribunal de Chaves, o que se lhe seguirá? Talvez o encerramento da secção de Finanças, a diminuição dos efetivos da GNR e da PSP e, muito presumivelmente, a privatização e o traslado das Águas das Caldas para Vila Real.

 

Toda esta encenação do PSD, em relação ao Tribunal de Chaves, me levou a pensar em Creonte, da peça Antígona, de Sofócles. No início da tragédia, Creonte é até sincero e patriota e os seus discursos deixam transparecer sabedoria, sugerindo que a experiência é a base da liderança e que as obrigações para com o povo têm precedente sobre a lealdade entre os indivíduos.

 

É por este tipo de atitudes e encenações que o povo se começa a impacientar com os partidos tradicionais. Por isso é que começa a despontar uma nova geração de jovens descontentes com esta mentira social, com este faz de conta, com todo este embuste.

 

De facto, os movimentos independentes começam a mudar a natureza da luta social e política. É por eles que passa o futuro. E ainda bem. É urgente desempatar o jogo entre os partidos tradicionais. Eles são agora o vazio. E os livros ensinam-nos que a política tem horror ao vazio. Por isso é que estamos todos necessitados de uma nova alma, de um novo rumo, de uma nova atitude.

 

Por razões de afetividade, e profundo respeito, desta vez termino com as sábias palavras de Nelson Mandela, do seu livro “Autobiografia Um longo caminho para a liberdade”: “ Em certa medida, para mim a horta era uma metáfora de alguns aspetos da minha vida. Um chefe também tem de cuidar da sua horta; também ele lança as sementes à terra, vigia, cuida e recolhe os frutos. Tal como o hortelão, um líder tem de assumir a responsabilidade do que cultiva. Tem de estar atento, de afastar os inimigos, de preservar o que pode ser preservado e de eliminar o que não tem hipótese de futuro.”

 

De facto, devemos eliminar o que não tem hipótese de futuro. De outra forma voltamos a entregar o ouro ao bandido. 


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Domingo, 14 de Julho de 2013

Reflexos


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Sábado, 13 de Julho de 2013

Noturno flaviense II


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Noturno flaviense


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Sexta-feira, 12 de Julho de 2013

O Homem Sem Memória - 167


167 – Quanto mais liam o Lenine, mais as suas palavras lhes pareciam vazias e ocas. Nas reuniões ideológicas passaram a jogar cartas. O Lenine não os ajudava a passar o tempo, só conseguia arreliá-los ainda mais. Por vezes discutiam a verdadeira razão das pessoas não os seguirem, de os ignorarem, de tratá-los como tratavam os loucos. Chegaram à conclusão de que eles eram isso mesmo, um bandos de alucinados que ninguém conseguia levar a sério. Não se metiam com ninguém, ninguém se metia com eles. Cada qual fazia a sua vida, os camponeses o seu árduo trabalho da lavoura e eles a estapafúrdica e risível tarefa de revolucionários sem paixão e sem povo. Pensaram em desertar, mas o Partido avisou-os de que o abandono das tarefas revolucionárias em tempo de guerra era considerado traição e que só havia uma solução: o pelotão de fuzilamento. Eles perguntaram a quem de direito como é que as outras brigadas revolucionárias se estavam a dar com a luta. Responderam-lhes que quanto menos soubessem menos podiam contar no momento em que fossem feitos prisioneiros e os torturassem. Isto se fossem feitos prisioneiros, que era a pior situação, pois o melhor mesmo era morrer em combate. Ali de arma na mão a defender a revolução. Ali de pé como os carvalhos.


O camarada Secretário-geral do Comité Central Unificado, Alberto Punhal, apoiado pelo camarada Secretário-geral do Comité Central do Norte, o camarada Alberto Fiscal, tinha sido claro nas suas palavras: revolucionários ou valorosos ou mortos. Não havia lugar para os meios-termos.


Por isso, os camaradas passaram a ser uns revolucionários apreensivos, pois começaram a temer tanto as forças repressivas como as forças revolucionárias. Se se deparassem com o exército reacionário tinham de lutar, pois se não o fizessem lá estava o exército revolucionário para lhes tratar da saúde. O que lhes valia era que nem uns nem outros andavam por aquelas bandas. E se andassem, a brigada do José já tinha decidido utilizar a tática da lebre.


Continuaram a calcorrear montes e vales, a ajudar os lavradores na sua labuta e a matar animais para comer. Muitos deles substituíram a leitura das obras do Lenine pela Bíblia Sagrada, sempre era menos enfadonha e dogmática. Além disso contava bonitas histórias que a todos instruía e divertia. O José comentou que talvez fosse por isso que havia muitos mais reacionários que revolucionários, afinal as histórias contadas na Bíblia eram compreensíveis, enquanto os contos de Lenine eram incompreensíveis e, por isso mesmo, aborrecidos e desencorajantes.


Andavam eles nesta sua tranquila vida revolucionária, quando lhes comunicaram que finalmente uma brigada especial do exército tinha sido incumbida de os capturar, mas vivos.


Foi o mesmo camarada que lhes transmitiu esta notícia que lhes lembrou que tinham, a todo o custo, de derrotar o inimigo. E se não fosse de uma maneira tinha de ser da outra. Ou derrotar o inimigo ou, então, tudo fazer para não se deixarem capturar vivos. E veio-lhes com as malditas palavras dos camaradas secretários-gerais: revolucionários ou valorosos ou mortos. Afinal eles tinham de dar o exemplo. Aqueles intrépidos marxistas-leninistas tinham de servir de modelo. O povo, e o Partido, necessitavam urgentemente de mártires que pudessem ser um verdadeiro exemplo de coragem e abnegação.


O Partido enviou-lhes um camarada da Comissão Política do Comité Central para os preparar ideologicamente para a batalha. E preparou-os. Veio outro camarada dos importantes para realizar com eles um estudo do terreno e decidir o lugar das emboscadas. Andaram naquilo muito tempo. O camarada importante querendo apressar a logística e a decisão. Eles, os brigadistas, a tentarem mostrar-lhe as maravilhas dos espaços, o encanto dos riachos, a sumptuosidade de algumas árvores e a diversidade da fauna e da flora. E subiram aos montes e desceram aos vales e fizeram-se encontrados com os agricultores que os iam informando do andamento das colheitas, da vida dos seus familiares e dos animais e, também, das várias visitas da brigada do exército reacionário.


Os camponeses, e as camponesas, entretinham-nos sempre com os seus contos e ditos, com as suas rezas e cantares, com as suas lamentações e, ainda, com uma notícia inquietante: a de que os homens do exército reacionário não se faziam acompanhar nem de pistolas e muito menos de espingardas. O que lhes parecia deveras estranho. Contavam-lhes que também eram altos e fortes.


Mas eles desconfiavam da informação, porque também desconfiavam da fonte. O povo inventa muito. Onde já se tinha visto uma brigada de militares reacionários andarem na perseguição de uma valorosa brigada revolucionária sem armas de fogo! O povo tem cada coisa. Generoso como é só vê aquilo que quer ver. É muito ingénuo. As pessoas do povo comportam-se como as crianças. Mentem, mas não é por mal. Mentem porque pensam que estão a dizer a verdade ou porque sentem que todos mentem e que por isso não deve fazer mal a ninguém.


A rapaziada da brigada comunista ria-se muito com esta história. A ser assim ia ser canja, cada tiro cada melro. Era só apontar e lá ia um reacionário para o céu, inteirinho e direitinho, apenas com mais uns gramas de chumbo no lombo.


O povo tentava contrariar tanto entusiasmo revolucionário, pois quem observava de perto as duas brigadas em confronto, não conseguia dar por garantido que a brigada reacionária fosse derrotada assim do pé para a mão. Lembravam que deviam trazer algum trunfo escondido na manga.  


Por fim, o camarada importante lá lhes definiu a tática e a estratégia, apontou-lhes dois ou três locais bons para uma emboscada e foi-se embora pela calada da noite.


Começaram a andar nervosos. Calcorrearam seca e meca a ver se eram seguidos e também para tentar cansar a brigada oponente. Mas nem uma coisa nem outra conseguiram. A brigada reacionária observava-os de longe e esperava. Eles tanto andaram de um lado para o outro que em vez de cansarem os opositores se cansaram a eles próprios. Como comiam pouco e descansavam ainda menos, começaram a perder a força física e a determinação ideológica. Numa noite escura e fria, os quatro camaradas que estavam de vigilância adormeceram profundamente encostados às suas armas. 


Foi nessa mesma noite que o José, o Graça e os restantes camaradas foram feitos prisioneiros pela calada da noite e sem se ter disparado um único tiro.


Todos os elementos da brigada revolucionária foram feitos prisioneiros à base do pontapé e da bofetada.


Era mesmo verdade, a brigada reacionária tinha feito jura de que era capaz de capturar os doze comunistas, mais o burro e o louco, utilizando apenas os pés e as mãos.


O José levou mais bofetadas nesse dia do que em toda a sua vida. E olhem que ele apanhou muitas da sua querida e estimada mãezinha que o tinha avisado de que a sua toleima comunista só podia terminar mal. 


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Quinta-feira, 11 de Julho de 2013

Interiores II


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Quarta-feira, 10 de Julho de 2013

O Poema Infinito (154): a curvatura das vozes


É por ti que escrevo na imperfeição do horizonte e na inconfidência do dia-a-dia. Para ti desejo o sossego aberto das vogais, a limpidez dos jardins brancos, o reconhecimento das dálias, a felicidade das latitudes puras, a identidade do azul, o sorriso solarizado das crianças refletido nas água iluminadas do nascente, o reconhecimento da identidade do trigo, o oásis das palavras ionizantes, o sangue inquieto da criação, a trajetória larga das planícies e a tranquilidade dos rios sumptuosos. Quando te vejo sinto o tremor puro do desejo, a lasciva bondade dos barcos, a pureza lúcida das urzes, a claridade redonda do voo rápido e nervoso das andorinhas, a trémula volúpia das vaginas, o beijo claro do amanhecer, os relâmpagos incendiados no meu corpo, a velha adolescência do mundo, o lado incestuoso dos anjos inteiros e ainda o sol que renasce todas as manhãs dentro de ti. Em ti procuro o saber e o sabor da integridade, as portas abertas do conhecimento, a velocidade íntegra da luz, o ritmo da respiração das pessoas que se amam imitando o ritmo das marés, toda a lucidez do desejo, todo o vasto desequilíbrio do amor, as palavras que se aproximam da nudez, a cintilação das constelações, a transcendência do mundo e a fragilidade arrepiante de um orgasmo. Tu és todo o equilíbrio que sustenta o meu mundo. Por ti continuo a navegar entre as melodias cintilantes do silêncio, misturando-me na sensualidade das águas, brincando com as conchas e com os diamantes de musgo e também com as línguas flamejantes dos livros. Todas as luas são soberbas e todos os lunáticos são livres. Perco-me na espessa água das florestas profundas. Bebo a tua fragilidade pura e acaricio o teu corpo que se alonga e contrai nas minhas mãos. Adormeço no meu sonho sem espelhos. É na minha fragilidade que reside o meu poder, nos blocos infinitos dos espaços, na presença vibrante da paciência, no magnífico instante do desassossego do amor. Vou de encontro ao meu destino pousado nas tuas mãos, como uma brisa fresca e delirante. Os meus dedos assumem a lenta obstinação dos jardins, o vazio sinuoso dos labirintos, a solidão ativa do sal, a asfixia do isolamento. As vozes tornam-se curvas, a adolescência fica envolta em desejo, os frutos deixam-se envolver pela lucidez do seu amadurecimento. Ainda não desisti de entender o antiquíssimo sossego das arcas dos cereais, as montanhas grávidas de verde e a ondulação unânime e infinita dos mares. O meu corpo é um arbusto elétrico, uma ilha sem mar, um monte pejado de nostalgia e sangue. Sorvo o teu sexo com a lenta pulsação das rosas incandescentes, com a livre arquitetura das sombras, com o deslizamento da eucaristia. O teu corpo fica cheio de estrelas temporãs. O rumor da folhagem torna-me prisioneiro das raízes longínquas. Ergo diante de ti a minha pena vertical e entoo o canto profundo do delírio. Todo o sonho é um projeto de transcendência. Tu és a minha frágil maravilha onde roço a boca repleta de alento vegetal. O sol inclina-se sobre a água e eu adormeço languidamente no teu sexo. 


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Terça-feira, 9 de Julho de 2013

Interiores


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Segunda-feira, 8 de Julho de 2013

Pérolas e diamantes (46): e vão duas indemnizações


Todos nós sabemos que as palavras não bastam para se modificar a realidade. Mas também sabemos que não podemos desistir delas. Se por vezes o silêncio é inestimável, especialmente no espaço público, desistir das palavras é desistir da verdade, do combate e da tentativa de modificarmos a sociedade.

 

Por isso não podemos desistir da esperança e, sobretudo, das palavras certas, pois são elas quem a sustenta. Não desistir das palavras, das palavras certas, é a forma de criar transparência e objetividade entre quem as emite e quem as escuta, ou as lê.

 

O que por aí há mais é quem utilize as palavras com a nítida intenção de mascarar a realidade.

É isso que fazem atualmente os partidos do arco do poder. Criam opacidade com as palavras que emitem, escondem-se atrás delas, maltratam-nas, mascaram-nas, pretendendo com isso mascarar a realidade. Mas as pessoas já se aperceberam do embuste.

 

Durante os últimos doze anos, pelo menos, o poder autárquico em Chaves teimou em destruir a nossa cidade, nomeadamente os seus ícones, o seu coração e a sua memória. Basta lembrar o caso paradigmático da destruição do Jardim das Freiras para nos apercebermos da inconsciência governativa e da falta de memória de quem praticou ato tão vil.

 

Por isso é que é cada vez mais difícil criar uma ligação entre o eleitorado e os eleitos. Mas é também por isso que os movimentos independentes estão a triunfar pelo país e por esse mundo fora. Os movimentos independentes não negoceiam princípios, não cedem na sua argumentação. Arriscam a verdade.

 

Isso tem tudo a ver com a sua identidade. Os movimentos independentes não se sujeitam aos diretórios e aos aparelhos partidários, nem aos interesses instalados. Não se desintegram. De facto, há uma verdade que começa a impor-se nos movimentos políticos e sociais: o povo unido não precisa de partido.

 

Veem como as palavras começam a ter sentido!

 

Agora falam-nos na crise como pretexto para nos silenciar. Mas a todos eles respondemos que a coragem do nosso povo não está em crise. Nós não desesperamos.

 

Para ajuizarmos dos dislates que a nossa autarquia tem vindo a praticar, vamos às palavras, que são outros tantos factos indesmentíveis.

 

No ponto 3 do programa político do PSD local, intitulado “Todos por Chaves”, afirma-se textualmente: “Vamos iniciar um novo ciclo. Hoje, mais do que nunca, se exigem políticas de verdade e de racionalidade. Sabemos que não somos donos da verdade. Todavia, fazemos da verdade uma prática constante.”

 

Com a devida licença dos estimados leitores, vamos lá então à “verdade” e à “racionalidade” do PSD local dos arquitetos António Cabeleira e Carlos Penas. 

 

A seguir à escandalosa entrega do edifício restaurado do antigo Magistério Primário à rapaziada da JSD local, cujas obras ficaram num milhão de euros; a seguir ao escandaloso aluguer à empresa Jogos e Disfarces, por 150 €, das antigas instalações do Cineteatro de Chaves; a seguir à indemnização à GIPP relativa ao “projeto de execução das piscinas municipais cobertas de Chaves”, no valor de 62.181,25 €; a autarquia flaviense resolveu cometer novo atentado à racionalidade e desbaratar mais dinheiro público.

 

Em ata do dia 18 de fevereiro de 2013, relativa à “reabilitação do edifício adjacente à Igreja da Madalena para instalação da Pousada da Juventude, ficámos a saber que a vereação camarária aprovou a “rescisão do contrato de financiamento com a Empresa Santana Construções, SA. no valor de 20.257,28 €”.

 

Ou seja, a Câmara de Chaves resolveu mais uma vez retirar dos bolsos dos contribuintes vinte mil duzentos e cinquenta e sete euros e vinte e oito cêntimos, para pagar uma indemnização por não conseguir levar a efeito uma obra prometida e já adjudicada. 

 

Esta é a sua “política de verdade” e a sua “racionalidade”. Esta é a prova provada de quem utiliza as palavras com a nítida intenção de mascarar a realidade.

 

Contas feitas, só nestas duas indemnizações, e a troco de nada e de coisa nenhuma, os flavienses já pagaram, ou vão ter de pagar, a módica quantia de 80.437.53€.

 

Mas a verdade não fica por aqui, pois a histórias dos atropelos e das irracionalidades da nossa autarquia é interminável. 


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Domingo, 7 de Julho de 2013

Chaves


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Sábado, 6 de Julho de 2013

Poldras


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Sexta-feira, 5 de Julho de 2013

O Homem Sem Memória - 166


166 – Os exercícios iniciaram-se decorridas apenas três semanas, pois os dois camaradas guerrilheiros foram presos ao tentarem passar por uma coluna militar reacionária instalada em Névoa. Outros dois os substituíram, mas isso levou o seu tempo. A paciência, todos o sabemos, é uma virtude revolucionária. Já a impaciência não. A impaciência é contrarrevolucionária. Reacionária mesmo.


Primeiro aprenderam a fardar-se e a andar de botas cardadas. O que muito lhes custou. Faziam ginástica de manhã à noite. Correram seca e meca. Subiram e desceram serras e montes com a mochila às costas e com a arma a tiracolo. Suaram as estopinhas. Começaram a passar fome e a ter que roubar para se alimentar. Mas a quem roubavam os alimentos também pouco possuíam de seu. O povo das aldeias temia-os e fechava-se com as coisas. Muitas vezes tiveram de ser violentos para conseguirem comida e algum abrigo. Por mais esforço que fizessem na tentativa de libertação do seu povo, o povo, esse ingrato, respondia-lhes com indiferença e desconfiança.


Instalavam-se no cume das montanhas e dali se punham a observar as redondezas. O Partido insistia na obstinação de que deviam ser perseverantes e lembrava-lhes que o povo podia demorar a aderir à causa revolucionária, mas quando aderia era para sempre. Começaram então a ler todas as obras apologéticas revolucionárias. Não lhes restava outra solução. A explicação estava nos livros. A verdade estava nos livros. A revolução estava nos livros. O Partido estava nos livros. Mas a realidade parece que não se encontrava nos livros. A realidade, essa meretriz, teimava em não se adequar com a esperança, nem com o sentido da História, nem com os livros. A realidade era eminentemente reacionária, recusava-se a participar na revolução. Os livros diziam que o povo, quando sentia o exército revolucionário em armas, corria logo a juntar-se-lhe. Mas o povo teimava em torcer o nariz ao supremo desígnio de lutar pelos seus direitos inalienáveis. Preferia ficar em casa, ou entretinha-se a trabalhar nas suas terras, a mendigar uma malga de caldo, um naco de pão, ou um copo de vinho, tinto de preferência. Estava visto, para a revolução triunfar na República Livre do Norte era necessário mudar de povo.


Uma coisa que os inquietou foi que ninguém das forças armadas se indignou com a presença dos revolucionários nas serras. Nenhum exército foi atrás deles, talvez porque as chefias sabiam que para vencer aquela dúzia de insurretos apenas era necessário paciência e tempo.


Depois da preparação física, e após a consolidação ideológica feita através da leitura participada e discutida das obras escolhidas de Lenine, os camaradas guerrilheiros resolveram introduzir na recruta o uso e porte de armas.


Por incrível que possa parecer, nenhum daqueles intrépidos revolucionários tinha, algum dia, dado um único tiro. As armas distribuídas foram unicamente caçadeiras, pois as G3 enviadas pelo Partido tinham sido apreendidas por uma patrulha da GNR.


Quem os visse a passear pelos caminhos das serranias com as suas armas às costas podia ser levado a pensar que aquele grupo guerrilheiro mais não era do que um bando de caçadores furtivos à procura de coelhos, perdizes ou tordos. A única coisa que podiam estranhar era o facto de nenhum deles se fazer acompanhar do respetivo cão de caça. Apenas um burro lhes fazia companhia, transportando os utensílios para prepararem as refeições.


As sessões de tiro eram, mais do que exercícios de treino, autênticas brincadeiras em que se divertiam como se fossem meninos na Feira dos Santos a disparar nas barracas. O José era o mais inábil, mas também o mais divertido.


Um dia, quando o mandaram fazer pontaria e disparar na direção de um pássaro pousado num carvalho, após o disparo deu tamanha cambalhota que ficou virado na direção contrária. Normalmente, o José fechava os olhos no momento do disparo. Depois do tiro, quando abriu os olhos e não viu nada à sua frente, disse para o instrutor: “Esta arma é como um canhão. Depois do disparo, foi pássaro, foi ramo, foi tudo.” Todos se riram e informaram-no que o pássaro tinha fugido com o barulho do disparo e que a árvore se encontrava incólume nas suas costas.


Mas para alguma coisa lhe serviu a guerrilha, aprendeu a lavar a roupa, a cozinhar, a dormir em pé, a orientar-se pelo sol e pelas estrelas, a viver sem dinheiro, a dormir ao relento, a conhecer os pássaros pelo chilrear e a respeitar a natureza. Mais por necessidade, do que por solidariedade revolucionária, aquela intrépida dúzia de caçadores guerrilheiros ajudava as populações na labuta da terra. Semeavam e sachavam batatais, juncavam e segavam o centeio, ajudavam na matança do porco e faziam-se convidados em festas, casamentos e batizados. Também iam aos enterros. Na sua paciência camponesa, os agricultores toleravam-nos.


Os intrépidos revolucionários bem porfiavam na sua teima de arregimentarem camponeses para os seguirem na luta de libertação. Mas eles limitavam-se a rir e a oferecer-lhes de comer e beber. Nem um único homem conseguiram convencer a segui-los. Apenas um maluco, dos muitos que abundavam pelas aldeias, se decidiu acompanhá-los tocando flauta e conversando permanentemente com o burro, como se o jerico falasse. Mas o jumento nunca lhe deu troco.


Nos dias de inverno desciam aos povoados como se fossem lobos. Aqueciam-se nas lareiras e pediam emprestada comida. As pessoas nunca lhes diziam que não, pois sabiam que não se deve negar pão a um grupo de homens armados, cheios de fome e de frio. Muitas vezes dormiam em palheiros ou na corte dos animais. 


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Quinta-feira, 4 de Julho de 2013

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