Sábado, 31 de Agosto de 2013

Danças

Danças


publicado por João Madureira às 07:45
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Sexta-feira, 30 de Agosto de 2013

O Homem Sem Memória - 173


173 – Tudo aconteceu como nos filmes. Os comunistas do Norte atravessaram a ponte sobre o Mondego na direção Sul e os reacionários do Sul fizeram-no na direção do Norte. Encontraram-se a meio. Eles eram doze, como todos sabemos. Já os prisioneiros do Sul eram perto de cinquenta. Ou seja, a valia do grupo do José era muito maior. Cerca de quatro para um. O que era motivo de orgulho. Postas as leis do mercado a funcionar, dava para perceber que o preço de um comunista era muito superior ao de um reacionário. E isso fazia todo o sentido.


Chegado ao lado de lá, o sítio da liberdade e do socialismo, o José olhou para a terra que abandonava, que era a sua, mas que lhe tinha sido madrasta, e reparou que a meia centena, feliz e contente, de reacionários foi convidada a entrar num autocarro. Eles, entre sorrisos e abraços, fizeram-no na mais perfeita ordem, como se estivessem a entrar na terra da liberdade. Já os camaradas tinham uma carrinha pequena à sua espera, em tudo parecida com uma viatura celular. E foi para ela que foram obrigados a entrar. Quando perguntaram por que em vez de uma viatura civil lhes tinham enviado uma carrinha para transportar presos, os camaradas limitaram-se a dizer que eram ordens superiores. Os camaradas do Norte inquiriram então de quanto de cima elas provinham. Eles responderam que diretamente do Comité Central. Todos sentiram um aperto no coração. O Comité Central nunca se engana. Tiveram então um mesmo pensamento: alguma coisa estava mal. O futuro era uma grande incógnita. Como sempre, adiantamos nós que já andamos nisto há muito tempo.


Sem mais palavras, foram convidados a entrar na carrinha e abalaram dali não se sabe bem para onde. Mas para Sul era de certeza. Disso estavam eles certos.


Andaram muito. Mas mesmo muito. Aperceberam-se que as curvas iam diminuindo e que a velocidade ia aumentando. E o calor também. Ninguém deu palavra. Iam em meditação. Por fim pararam.


Quando lhes abriram as portas para saírem, foram inundados de luz. Estavam dentro de um estabelecimento prisional imaculado na sua brancura. Tudo ali resplandecia. Perguntaram a um homem com cara de diretor de alguma coisa onde se encontravam. Ele respondeu-lhes que não tinha autorização para lhes explicar nada a não ser que estavam presos, por ordem do Comité Central, para averiguações. O camarada funcionário ainda tentou puxar dos seus galões, informando o camarada diretor de que ele era funcionário do Partido, que tinha liderado um grupo de guerrilha no Norte, que tinha sido feito prisioneiro e que tinha, ele e os seus camaradas, sido trocados por um grupo de cinquenta prisioneiros reacionários.


O camarada diretor nem para ele olhou. Limitou-se a assinar um papel que lhe puseram à sua frente e foi-se embora com alguma pressa e também com algum aprumo. Foram todos enfiados numa cela comum.


Tentaram então descansar e pôr as ideias em ordem. Mas não conseguiram. A situação era confusa de mais. Passados algumas horas deram-lhes de comer. Uma comida tão mal confecionada como a que lhes serviam lá no Norte reacionário. Eles comeram e calaram. Depois da entrega da loiça, voltaram para os seus catres e puseram-se novamente a ruminar as ideias para tentar perceber o que lhes estava a acontecer. O culpado daquela situação só podia ser um: o José. Ele e mais a sua rebeldia e a sua religião que lhe embotavam a razão e o conhecimento. Isso foi o que pensou o funcionário, que era o mais esclarecido do grupo. Mas os outros também chegaram à mesma conclusão, sem grande dificuldade. Apenas o Graça tentou ir por outro caminho. Mas não foi capaz. A existir um culpado, tinha de ser o José. E como tinham chegado a essa conclusão? Pois porque o Partido tudo sabe.


Incomodado com a situação, o camarada funcionário resolveu convocar uma reunião geral. Mas deixou logo claro que o José estava excluído. Ele ainda tentou averiguar o porquê, mas desistiu. Não valia a pena. Ou melhor, estava à vista de todos, só um cego ou um reacionário, que são, em termos políticos, a mesma coisa, é que não via.


A reunião fez-se num canto e o José foi obrigado a ficar no outro. O Graça referiu, e bem, que dessa maneira o José ouvia tudo. O camarada funcionário respondeu-lhe que uma coisa é ouvir, outra, bem diferente, é ter o direito a falar. E esse, o José tinha-o perdido há muito tempo.


Todos sem exceção zurziram no José o mais que puderam. Acusaram-no de tudo. Até de terríveis desvios ideológicos e mesmo traição. Muitos referiram que ele, o traidor, o rachado, devia ter sido deixado lá no Norte, preso, a sofrer as consequências. O Graça lembrou-lhes que o José estava preso e todos eles também. E isso é que era estranho. Prendê-lo a ele, ainda vá que vá, agora trocar prisioneiros comunistas e mantê-los na mesma situação é que não fazia sentido nenhum. Mais valia tê-los deixado estar onde estavam. Lá no Norte ainda eram autorizados a ver a família. Ali não podiam, pois não estava a ver a forma das autoridades socialistas autorizarem a deslocação de familiares reacionários a terras da liberdade. Todos concordaram que a situação era, no mínimo, bizarra. A existir um traidor, era o José. Sendo assim, era ele quem devia estar preso por causa dos erros cometidos. Não todos, pois era injusto. A eles deviam libertá-los e até prestarem-lhes uma homenagem pública. Eles tinham pegado em armas para libertarem a sua terra da exploração, da ditadura e da reação.


Por ter a consciência limpa, ou pensar que a tinha, pois, objetivamente, é a mesmo coisa, lá no seu canto, o José caiu num sono profundo. Começou a ressonar alto e bom som. Tal atitude foi também objeto de censura por parte dos seus camaradas. Que era um provocador. Que era um reacionário. Eles preocupados com a situação política. E o José como se nada fosse com ele. A dormir como um bebé. Sem se ralar com nada. Era-lhe bem feito. Estar preso era uma situação justa. Ele bem a merecia. O Partido sabe sempre bem aquilo que faz. O Graça pediu então esclarecimentos ao camarada. Se compreendia a situação era bom que a explicasse a todos.


O camarada funcionário tentou. Que como o Partido tudo sabe, também sabia quem era o traidor. Por isso a situação da prisão de todo o grupo só podia ser um engano, ou excesso de zelo. Há muitos camaradas que são mais papistas que o Papa, ou melhor, que são mais comunistas que o próprio camarada Alberto Punhal. Mas a verdade, que é apenas comunista, como todos sabemos, é como o azeite, vem sempre ao de cima. E que nestas coisas da revolução, existe muita confusão, mas acabam sempre por triunfar os bons e o seu fundamento. Na revolução comunista nunca pode triunfar o mal. Isso é, pura e simplesmente, impossível.


Depois de muito discutirem, passaram às resoluções. Estava na hora de decidirem o seu futuro. E o do José. A situação até podia ser difícil, e era-o de facto, mas um comunista nunca desiste, nem de lutar nem de procurar a verdade, pois só ela é revolucionaria, e vem sempre ao de cima como o azeite. Ele, como o camarada mais responsável do grupo, e seu líder natural, propôs que o José fosse definitivamente expulso do Partido e denunciado mais uma vez aos organismos superiores por desvio ideológico e abandono dos princípios irrefutáveis do marxismo-leninismo. Da reunião foi elaborada uma ata onde constaram todas as decisões. Até a abstenção do Graça no momento da expulsão do José, em nome da amizade. Isto apesar da advertência do camarada funcionário que lhe lembrou que a amizade não se pode sobrepor à razão, nem aos supremos interesses do Partido e da Revolução.


Quando o camarada funcionário deu a reunião por terminada, ainda o José dormia e ressonava como um justo.


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Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013

Conversando


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Quarta-feira, 28 de Agosto de 2013

O Poema Infinito (161): exílio


O espaço expande-se em cima dos nossos nomes, dos nossos corpos, dos nossos sonhos e dentro dos nossos olhos, como se eles fossem o mundo inteiro. Vemos passar o tempo com o mar feliz dentro. Escutamos a sua pulsação. O seu desencanto. Ficamos presos na sua letargia. A brisa inscreve-se dentro do mar e escuta o seu ritmo. O ruído inscreve-se dentro do silêncio prévio. Todas as formas são epifanias do concreto. Talvez as águas nos façam chegar a alegria líquida das palavras. A manhã trepa a sua escala de claridade e abre a sua sabedoria ao mundo. É dessa luz que se faz o sofrimento. E a alegria. O tempo brilha na lentidão da madrugada e orienta-se pela demorada progressão das sombras antigas. A transparência regressou na sua profundidade cristalina. A luz delimita os termos dos objetos. As nuvens fixam-se no céu e modelam-no com a sua gama de matizes. A natureza fica estática. Os sítios abrem-se. As palavras pulsam. O esquecimento lembra-se das cheias que vinham de poente, quando o tempo sofria com as tempestades das palavras que abatiam as imagens e os signos. Sucumbimos à solidão doce da noite onde as árvores sofrem. São longínquas as figuras que dobram as trevas. Os corpos insinuam-se. A infância transforma-se num distúrbio alegre. Nela se estende a nitidez surda do passado. Prolongam-se os bosques e os prodígios. A paixão forma-se devagar dentro das imagens esquecidas. As aves oferecem-nos a rapidez dos seus voos. À tarde, a eternidade aperta. Os vagares tornam-se acústicos. A tristeza torna-se visível na alegria. Os montes esquecem os povoados. Os nossos olhos medem a solidão dos outeiros. Os anjos passam abstraindo-se do silêncio. O tempo voa alto. O tempo desfaz as almas. O tempo reconhece a orientação dos rios. Sofremos com os atalhos dos sentidos. E com o ócio do azul. E com a imensidão do mar. E com a lenta progressão das palavras. O universo roda à procura do seu declínio. Tu és a minha causa. Eu sou o teu efeito. O verão arruma as nuvens, difunde o brilho do sol, estende o calor contemplativo. Todo o esplendor é um indício de ausência. Por isso, as imagens oferecem apenas o seu júbilo redondo. Encaramos o infinito, pois sabemo-lo inundado de fogo e fulgor. A linguagem é o nosso exílio permanente. Saboreamos a gentileza amarga da velhice. A luz expõe a solidão deserta dos objetos. Sonhamos com a limpidez do inverno. Com o seu frio dourado pelo sol. Com o tempo a trepar-lhe pelo tronco. Os rostos recuperam a sabedoria da transparência. Os corpos tornam-se abstratos e o seu vagar contamina os espaços. Os verbos deduzem a impotência dos textos. As imagens tornam-se vivas e caminham sobre os indícios da luz. As ideias esperam pela sua melodia analítica. Sofro com a alegria. Escuto o silêncio dos espaços. A infância brilha de novo.  Sinto o seu júbilo e o seu pranto. Esqueço as palavras. O silêncio traz outro silêncio. As almas ficam incandescentes. Todo o rigor é concreto. A escuridão torna-se implícita. Já ninguém ouve as palavras de luz. Todos os nomes crescem e morrem dentro do seu exílio. O mundo acolhe as palavras sacramentadas pelas águas. O exílio é o lugar onde se debruça a paciência. A harmonia dissemina o tempo. A luz mata as imagens. A tua boca brilha. As sombras matutinas ficam longas. A manhã imobiliza-se. Todos os instantes se perdem queimados pelo tempo. O mundo alonga-se. O crepúsculo bate as suas asas douradas. O mundo é agora um exílio de claridade esfumada. Sinto a loucura a descer com a noite. A solidão fica sem margens. A história repete-se. A história. A.


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Terça-feira, 27 de Agosto de 2013

Divertimento


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Segunda-feira, 26 de Agosto de 2013

Pérolas e diamantes (52): o momento da poda

 

Depois do fiasco da feira do pastel e do festival de música (quem é que gosta de degustar os saborosos pastéis de Chaves polvilhados de poeira?), António Cabeleira resolveu apostar em mais dois eventos para fazer campanha eleitoral.

 

Vai daí pegou na anterior feira medieval, mudou-lhe o nome para “Aquae Flaviae – Festa dos Povos – Mercado Romano”, agarrou em peças do museu da cidade e resolveu distribuí-las pelas lojas comerciais, edifícios públicos e hotéis do centro histórico.

 

É caso para escrevermos como diz o nosso povo: não há fome que não dê em fartura. De facto, depois de sucessivos ciclos autárquicos de imobilismo e ineficácia cultural, eis que, de repente, a Câmara de Chaves, subchefiada por António Cabeleira, se desmultiplica em propaganda política, ajaezada de dinamização cultural.

 

A autarquia, vá-se lá saber porquê, resolveu gastar 40.000 € na promoção de um evento de duvidosa qualidade cultural. E mais estranho é que o fez em fim de ciclo político e em tempo de contenção orçamental, austeridade e vacas magras. É caso para dizer que António Cabeleira, qual administrador romano, apenas aprendeu a entreter o povo com panem et circense. Quem assim se comporta bem pode dar ao Diabo aquilo que sabe.

 

Além disso, o candidato António Cabeleira, numa manobra de propaganda parola e ilegal, publicou num grupo do facebook, ajudado por um apaniguado, disfarçado de independente, o seguinte texto: “PPD/PSD – Todos por Chaves / Aquae Flaviae – Festa dos Povos – Mercado Romano. Viagem ao Império Romano com mais de mil figurantes, 78 expositores muitas recriações históricas.” E etc. Depois segue-se um texto explicativo. E no final: “Nós acreditamos em Chaves / Nós acreditamos nos flavienses. / É hoje. / Todos por Chaves, com o PSD. / Verdade – Trabalho – Competência. “

 

Aqui fica a prova provada de que a tal Festa dos Povos foi um evento pago por todos nós para servir de propaganda eleitoral encapotada, ou já nem isso, ao PSD de António Cabeleira. O descaramento, o abuso e a iniquidade já tomaram conta dos apaniguados e dos propagandistas, à boa maneira soviética, da fação do PSD do senhor arquiteto. 

 

E na própria página de António Cabeleira aparece a confirmação: “PPD/PSD - Todos por Chaves / Aquae Flaviae – Festa dos Povos – Mercado Romano. Viagem ao Império Romano...”, etc.

 

António Cabeleira, com o desespero, já não consegue distinguir a Câmara de si próprio. Já não faz distinção entre o PSD e a autarquia. Já não sabe às quantas anda, nem a que terra pertence.

 

Decididamente, o senhor vice já não sabe o que mais inventar para combater o pânico. Agora meteu-se-lhe na cabeça que enfiar trajes romanos nos funcionários da autarquia, pô-los a fazer de figurantes e distribuir a esmo peças do museu ao deus dará, lhe vai trazer votos e, dessa forma, combater os estragos que o senhor vice provocou no seu partido e, sobretudo, na cidade.

 

O título da notícia define o evento: “Chaves viaja no passado.” Sim, de facto a nossa cidade, com esta Câmara, não só viaja no passado como voltou a ele sem ter necessidade de outros adereços, além da crua realidade.

 

Até porque uma coisa é viajar ao passado, outra, bem distinta, é viajar no passado. Ou melhor: viver no passado. Todos o sabemos: os últimos doze anos de gestão autárquica foram ou de imobilismo ou de atraso de vida.

 

Pegando na prosa jornalística, a intenção do senhor vice é transformar a nossa cidade “numa página arrancada de um livro de história romana, habitada por imperadores e imperatrizes, legionários, gladiadores, senadores, escravos, mendigos, músicos e bailarinos”.

 

Eu quando vejo alguém arrancar páginas de um livro fico arrepiado, mas temos de convir que o verbo até está bem escolhido. De facto, esta gestão autárquica tem arrancado do livro de Chaves páginas e páginas de orgulho, racionalidade, verdade, transparência, memória e liberdade.

 

Só esperamos que, e pegando um pouco na história do Império Romano, este ato serôdio de aproveitamento político, travestido de evento cultural, seja o princípio do fim do “Império” destes senhores, que se fartaram de distribuir benesses e empregos pelos apaniguados, mandando às malvas a democracia, a lealdade, o sentido de justiça e de serviço público que juraram defender quando tomaram posse.

 

Olhando para a nossa cidade, e para a dupla que gere os seus destinos, sentimos que, ao contrário de outras cidades, ou países, em vez dos nossos políticos serem entrevistados por humoristas, por aqui acontece uma coisa bizarra: os nossos políticos parecem cada vez mais personagens criadas por humoristas.

 

Por isso é que há sempre o risco de os mais indignados com o estado do país e da cidade se retirarem da participação cívica e democrática. Hoje ainda é atual aquela frase do filme “A Canção de Lisboa”: «Vamos embora que isto é uma aldravice.»

 

É difícil nos dias de hoje dispensarmos a ironia. Eu prefiro-a, ou cultivo-a, por vezes mansa, por vezes irada, mas exijo-a sempre colada à realidade e, para mal dos meus pecados, encostada ao absurdo da existência. Manias!

 

A quem me procura compreender sempre informo que me pode encontrar já não, como dizia Natália Correia, “entre o riso e a paixão”, mas sim entre o “riso e a compaixão”.

 

Por falar em riso, humor e compaixão, relativamente a esta gestão camarária, um verso de Alexandre O`Neill vale mais do que mil fotografias: “Quando o burocrata trabalha é pior do que quando destrabalha.”

 

Doze anos de António Cabeleira como vice camarário é muito tempo. Todos pensávamos que esse seu percurso era um caminho para chegar a algum sítio, quer se tratasse de um ruela tortuosa ou, então, de uma autoestrada socratista. Mas, neste caso, para mal dos nossos pecados, tratou-se apenas de um caminho para não sair de sítio nenhum.

 

Ele não percebeu o óbvio. É que há uma altura na vida das cidades, dos partidos e das pessoas, que se assemelha à vida das árvores: um dia chega o momento da poda. Ele, definitivamente, era o ramo que necessitava de ser podado para a árvore poder tornar a medrar e a dar frutos. Como não percebeu, só nos resta desejar-lhe que a derrota lhe seja leve.

 

PS – Deixe, estimado leitor, que o convide para em conjunto fazermos um brinde. Mas só ao passado e ao futuro, pois este presente não merece brinde nenhum.  


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Domingo, 25 de Agosto de 2013

Chaves


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Sábado, 24 de Agosto de 2013

Olhares


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Sexta-feira, 23 de Agosto de 2013

O Homem Sem Memória - 172


172 – Andava o José atarefado a organizar e a catequizar as suas tropas quando o inesperado aconteceu. O seu nome fazia parte de uma lista de troca de prisioneiros entre a República Democrática do Norte e República Popular do Sul. Ele nem queria acreditar. Logo agora que andava no seu processo profundo de dissidência política e ideológica é que tinha de ser novamente confrontado com toda a canga comunista marxista-leninista. Isso até era o menos, pois palavras leva-as o vento. Mas ter de aturar de novo todos os seus antigos camaradas é que lhe provocava fastio. Se fosse apenas o Graça, ainda vá que não vá, agora suportar o funcionário e toda a sua idiossincrasia idiota punha-o à beira de um ataque de nervos.


A sua primeira reação foi recusar a oferta. No que foi apoiado pelos seus novos acólitos e até, vamos lá saber porquê, pelos seus ex-camaradas. Mas as ordens eram explícitas, todos os prisioneiros políticos guerrilheiros comunistas tinham de ser postos do outro lado da fronteira. Todos sem exceção. Ele ainda ripostou lembrando que já não fazia parte do grupo. Mas as autoridades lembraram-lhe que uma vez comunista, comunista para sempre. O José contestou essa pretensa verdade com todo o fervor de que foi capaz de se socorrer. Mas a resposta desconcertou-o. A sua capacidade de organização, o seu talento para a persuasão, a sua habilidade para a liderança, a sua lealdade às ideias e, sobretudo, o seu permanente desafio às autoridades e o seu inesgotável poder de contestação às instituições e ao poder constituído eram disso a prova mais evidente e insofismável de que era comunista. Ele disse “olhe que não”, parafraseando o seu ex-líder Alberto Punhal, e de seguida contestou o argumento falacioso lembrando que os antigos, e genuínos cristãos, de que eram exemplo paradigmático, assintomático e problemático, Jesus Cristo e os seus apóstolos, os islamitas e os anarquistas eram gente da mesma fibra e de idêntico feitio. As autoridades, ou alguém por elas, lembraram-lhe que a prova provada de que continuava revolucionário era esta sua permanente inquietação e inconformismo. Ele lembrou-lhes que tal não era verdade, pois os comunistas eram gente do mais conformista que existe à face da terra, que se limitava a ler e a acreditar numa só ideologia e numa só verdade. Os dignos representantes da autoridade reacionária contrapuseram que pouco percebiam de política, que se limitavam a ter bom senso e a cumprir as ordens que vinham de cima, ou seja, atuar de acordo com a lei vigente e democraticamente estabelecida, pois quem manda, manda bem. Ele riu-se. Eles também. Ele tornou a rir-se. Eles, para não se ficarem atrás, riram-se de novo. O José ainda gargalhou uma terceira vez. Mas as autoridades, sentindo-se postas em causa, carregaram-no de bofetadas. Calaram-no, mas à força, porque apenas com o poder da argumentação era pura e simplesmente impossível. Todos o sabiam, o José, os pais do José, os amigos do José, os camaradas do José e, vá-se lá saber porquê, até os inimigos do José.


Mas a contestação deu alguns frutos. As autoridades condescenderam em ir falar com os prisioneiros camaradas do José para tentarem perceber a situação entretanto criada. Mas eles, como bons comunistas, recusaram-se a discutir uma questão interna do Partido fora dos órgãos próprios e, especialmente, com os representantes das forças reacionárias e opressivas do seu povo.


Depois de algumas lambadas bem dadas, e distribuídas equitativamente por todos, não fossem eles argumentar de que foram injustamente discriminados pelas autoridades, como muito bem lembrou um seu elemento mais esclarecido, transigiram em convencer o camarada funcionário a ir às boas. Afinal tratava-se apenas de permutar umas simples e discretas palavras sobre uma hipotética troca de prisoneiros políticos. Aqui ninguém cedia. Era ela por ela.


O funcionário, mesmo com a cara vermelha como um pimento, e já com um olho inchado, teimava na sua, de que não podia ir contra a disciplina partidária. Mas por fim lá se resolveu a participar no diálogo pacífico e construtivo entre as partes. Afinal, se a URSS aceitava a coexistência pacífica entre os diversos sistemas políticos mundiais, por que razão ele não podia seguir a mesma orientação?


As autoridades, ou o seu representante mais graduado, ainda não apurámos ao certo, quiseram apurar a razão por que o camarada, salvo seja, José, se recusava terminantemente a fazer parte da lista de troca de prisioneiros entre o Norte e o Sul.


Eles, os camaradas, ou ele, o camarada funcionário, ainda não sabemos ao certo, responderam que era um problema de disciplina interna de que não podia, ou não devia, falar.


Ele, o representante mais graduado, está claro, ou elas, as autoridades, como é correto dizer-se se tal corresponder à verdade, coisa que até ao momento ainda não conseguimos tirar a limpo, insistiram na pergunta.


Ele, o camarada funcionário, ou eles, os restantes camaradas da célula guerrilheira, ainda não conseguimos dizer de fonte segura, insistiram na resposta.


As autoridades, ou o seu representante mais classificado, ainda não sabemos ao certo, insistiram mais uma vez na pergunta.

 

Eles, os camaradas, ou ele, o camarada funcionário, ainda não apurámos devidamente, responderam da mesma forma e feitio, que era tudo uma questão interna. Que os problemas de família se discutem dentro da família. 


Ele, o representante mais graduado, ou elas, as autoridades, coisa que até ao momento ainda não conseguimos tirar a limpo, pegaram no argumento incluído na resposta e disseram que estavam de acordo. Mas lembraram-lhe, ou “lhes”, como é mais avisado escrever, para não fugirmos ao rigor, como é nosso apanágio, que é também em família que se aplicam os tratamentos corretivos. Vai daí encheram-no, ou “nos”, como é avisado escrevermos pelas razões já invocadas, de estalos, bofetadas, lambadas e chapadas e ainda dos seus derivados: lapadas, bofetões e tapa-olhos.


Mas como a coisa não desempatava, pois os comunistas são extremamente teimosos e disciplinados, e porque fazia parte do acordo entregar a mercadoria para troca em bom estado de conservação, o representante da autoridade, disso temos a certeza absoluta, mandou que os comunistas fossem respeitados nos seus princípios. Se não queriam falar, isso era um problema que só a eles dizia respeito. E deu ordens expressas para que fossem prestados cuidados médicos aos que necessitavam e administrados banhos de imersão e massagens tonificadoras a todos, sem exceção. 


Depois de bem banhados e melhor massajados, os prisioneiros foram postos numa carrinha e transportados até às margens do Mondego. Ao José ninguém lhe deu palavra. Apenas o Graça condescendeu nos bons dias, mas em segredo.


O sol brilhava. Do outro lado esperava-os o socialismo real e a autêntica liberdade. 


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Quinta-feira, 22 de Agosto de 2013

Chaves


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Quarta-feira, 21 de Agosto de 2013

O Poema Infinito (160): Ámen

 

Estou em trânsito, só não sei para onde. As rotas são tão delicadas como vozes de nuvens. Ando atrás dos símbolos. O lindo som dos teus gemidos percute nos meus ouvidos. Sou agora o teu ourives. Os linguistas adormecem. Penetro nas palavras com a minha caneta. Tu moves os lábios. A honra e as dúvidas salvam-nos. A orquestra arde dentro da música que toca. O tempo abre-se. A ira implode. Agora sou navio. Depois a sua sombra. Finalmente sou um ponto no céu. A minha silhueta esbraceja e chora. Sonho com uma infância repentina. Espalho pelo verão os caminhos dos frutos. Aves azuis choram e de seguida ardem dentro das suas penas. É esse o seu alcance inócuo. As luzes incendeiam os nossos olhos. Adormecemos enquanto os nossos corpos flutuam entre a paixão e o medo. São rudes os caminhos da desilusão. Por eles passam as almas turbulentas. Mulheres insólitas ardem dentro do seu esquecimento. Os seus corpos são abismos. Usamos o desejo como o conhecimento. Dormimos dentro dele. O desejo estremece. Conversamos dentro do seu fulgor exato. As mãos choram nos espaços. Multidões exaltadas caminham caras ao passado. A filosofia abusa novamente do tempo. E do modo. As mães fingem distância e cobrem-se de sombras bravias. As águas cavalgam o seu leito de rio. As ninfas são possuídas por minotauros. As vestais são desfrutadas por centauros. Anjos sujos elevam-se no ar amparando-se na sua distância assexuada e perguntam: Onde estão as armas e os falos? Onde está o exemplo vivo de Deus? Tu perguntas-me pela manhã. E pelo sol aborrecido e pela calma que cresce e pela maré salgada dos silêncios. Eu respondo: Os poemas aquecem a memória dos mortos. A esperança permanece mesmo na desordem dos dias. A cidade permanece sossegada. O seu silêncio é um campo de batalha. Persinto as árvores pelo desenho do seu método cartesiano. Por isso o vento assobia quando alguém corta os seus troncos concêntricos. Por isso os poetas naufragam quando o mar se inverte. Por isso a terra sabe a História e nas planícies nascem moinhos de vento. Por isso Cervantes criou Dom Quixote e Sancho Pança. Daí os risos deformarem os espelhos. Daí a Lua nascer equivocada. Daí a gente se dispor a bailar e os poemas serem civis. Daí eu inventar viagens sem começo nem fim onde astronautas voam em naves campesinas que irrompem do silêncio e onde homens embriagados sobem marés de vinho e beijam virgens que arrastam arados que compõem regueiros de prazer que são ao mesmo tempo nascente e foz. Todos somos amáveis criaturas que se alimentam de arrependimentos. Todos acabamos por encontrar justificação para a morte. Todos bebemos frases malignas com sabor a lume e a pecado. Todos nos cansamos das prédicas dos profetas e da euforia dos templos e da melancolia dos pássaros e do céu infinito e das éclogas e do fascínio das luzes e das noites impressas nas páginas dos livros e do barulho da ternura e da vergonha dos sexos expostos e de todos os vocábulos descalços e dos corpos em dilúvio e das dúvidas e das certezas e das emoções controladas e da lírica devoluta e da fronteira da compreensão e dos limites e do desperdício das vozes e da vergonha e do limite dos corpos e dos sentimentos e das tormentas e dos barcos e dos versos submissos e da paciência e da agonia e da ciência e das horas penduradas nos relógios e dos amantes de sinfonias e das cotovias repletas de certezas e da grande delicadeza dos hipócritas. Bem-aventurados sejam, pois, os incrédulos e todos aqueles que escrevem versos. Ámen. 


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Terça-feira, 20 de Agosto de 2013

Mulheres


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Segunda-feira, 19 de Agosto de 2013

Pérolas e diamantes (51): Está na hora desta gente ir embora


Antes mesmo de me pôr a bater com a ponta dos dedos no teclado do computador para alinhavar esta crónica, resolvi, motivado pelo calor que por aqui se faz sentir, arranjar um refresco de limão com água das Pedras. Depois do primeiro golo, veio-me à memória a conversa que tive de manhã com um amigo meu que já não via há algum tempo.

 

Ele disse-me que eu continuava algo excêntrico e talvez mesmo imprevisível. Respondi-lhe que isso se deve ao facto de os meus atos e as minhas ideias serem incompatíveis com os “deles”, se é que os têm, pois, assegurei-lhe, as minhas ideias e os meus atos são perfeitamente compatíveis com os “meus”. E em todos os sentidos. E mais alguns.

 

Sorri-me com a cara de incrédulo do meu amigo. Mesmo assim, ou até por isso, tentei explicar-lhe o trocadilho. Apesar de os meus princípios poderem mudar de vez em quando, mesmo assim possuo tantos que não sou capaz de os usar com proveito. No entanto avisei-o de que eles formam um todo. Por isso a minha vida nunca é menos lógica por causa desta aparente heterodoxia. Resumindo: em regra faço as coisas que me proponho fazer.

 

Tornei a sorrir. O meu amigo, também tentou, mas não conseguiu. Penso que não estava, ou não queria, seguir a ideia.

 

Então perguntei em jeito de filósofo, tentando responder-lhe: “Já alguma vez te desiludiste com histórias que pareciam prometer uma revelação e depois te enganaram desviando-te desse caminho?”

 

Penso que não chegou onde eu queria porque me respondeu desta forma: “Receio que tudo seja significativo e que nada, afinal, seja importante.”

 

Pus-me a pensar de onde teria ele sacado tal frase, mas não consegui chegar lá. Então, por causa das coisas, atirei-lhe com uma frase inteirinha respigada do livro “Ópera Flutuante”, de John Barth: “Acho que entender completamente uma coisa, qualquer que seja a sua relevância, exige que se entendam todas as outras coisas do mundo.”

 

O meu amigo disse: “Afinal, é tudo uma questão de bom gosto. Gostar ou não gostar, eis a questão?” Eu rematei: “Lembra-te que o bom gosto é uma invenção humana.”

 

Ele então levantou-se e, pretextando pressa e afazeres vários, abalou como se de facto assim fosse. Lembrei-me então de Shakespeare: “Ser ou não ser, eis a questão.”

 

Ia eu já no terceiro golo, quando tocou o telefone e um meu outro amigo, muito bem informado, me confidenciou que o “candidato”… o meu ou o teu? perguntei eu em jeito de chalaça… andava inquieto, descarregando na sua secretária o nervoso miudinho que a campanha dos Independentes lhe causa. Daí o agendamento de visitas, fazendo-se convidado de todas as associações do concelho, prometendo-lhes aquilo que sabe, desde há muito tempo, que lhes não pode oferecer, pois em doze anos de regência laranja nada lhes deu de substantivo. Mas isso pouco o preocupa, pois sabe também que às suas promessas leva-as o vento.

 

Depois de mais um sorvo no refresco, aparecem-me no ecrã do computador as palavras do já “ex”-presidente João Batista, e putativo candidato a presidente da Assembleia Municipal de Chaves: “Vivemos tempos difíceis. Todos temos consciência da realidade. Torna-se necessário, por isso, fazer valer a verdade, a responsabilidade para assumir a participação cívica…” blá, blá, blá… daqueles que “personificam a confiança e ensaiam a esperança nas soluções mais adequadas para os múltiplos problemas.” Mais blá, blá, blé e… “Essa liderança, estou convicto, será efetiva com o Arq. António Cabeleira na presidência da Câmara Municipal. O conhecimento que eu e os flavienses partilhamos da sua personalidade dá-nos essa garantia.”

 

Ora vamos lá mais uma vez à verdade, à responsabilidade, à confiança e às soluções de tal dupla de autarcas.

 

Depois de assistirmos ao seu silêncio cúmplice, ou ao arranjo de desculpas esfarrapadas, sobre a situação indecorosa da desqualificação do Tribunal de Chaves; a seguir à divulgação oficial da dívida da Câmara de Chaves, que já se situa na estratosférica cifra dos 41 milhões de euros; a seguir ao Milagre das Laranjas, que pretende transformar paralelos em votos no PSD e que custa aos flavienses a módica quantia de 187.973 €; depois da escandalosa entrega do edifício restaurado do antigo Magistério Primário à rapaziada da JSD local, cujas obras ficaram num milhão de euros; a seguir ao escandaloso aluguer à empresa Jogos e Disfarces, por 150 €, das antigas instalações do Cineteatro de Chaves; a seguir à indemnização à GIPP relativa ao “Projeto de Execução das Piscinas Municipais Cobertas de Chaves”, no valor de 62.181,25 € (+ IVA); depois da indemnização relativa à “Reabilitação do Edifício Adjacente à Igreja da Madalena” para instalação da Pousada da Juventude; após a vereação camarária aprovar a “Rescisão do Contrato de Financiamento com a Empresa Santana Construções, SA.”, no valor de 20.257,28 € (+ IVA); depois da revogação de mais um contrato com a GIPP, relativo ao “Projeto de Execução de Reabilitação e Construção dos Pesqueiros da Margem Esquerda do Tâmega entre a Ponte Romana e a ETA”, no valor de 17.557,68 € (+IVA); a autarquia flaviense resolveu cometer novo atentado à racionalidade e desbaratar ainda mais dinheiro público.

 

Em ata de 16 de abril de 2013 ficámos a saber que a Câmara de Chaves, superiormente dirigida pela dupla atrás referida, resolveu indemnizar a “GALP, Urbanismo, Arquitetura e Engenharia, Lda.”, no processo relativo à elaboração do Plano de Pormenor da Zona Urbana Norte e Projetos e Execução do Pavilhão Multiusos, no valor de 104.000.00 € (+IVA).

 

Ou seja, a Câmara de Chaves resolveu mais uma vez retirar dos bolsos dos contribuintes cento e quatro mil euros, para pagar ainda mais outra indemnização por não conseguir levar a efeito uma obra prometida e já adjudicada. Esta é a sua “política de verdade” e a sua “racionalidade”, o seu “pragmatismo”.

 

Contas feitas, só nestas quatro indemnizações, e a troco de nada e de coisa nenhuma, os flavienses já pagaram, ou vão ter de pagar, a módica quantia de 201.995.18€. Mais IVA.

 

Para que Chaves tenha futuro, está na hora desta gente ir embora. 


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Domingo, 18 de Agosto de 2013

Conversando


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Sábado, 17 de Agosto de 2013

Procissão na Madalena - Chaves


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Sexta-feira, 16 de Agosto de 2013

O Homem Sem Memória - 171

 

171 – Depois de sonhar com o rio da sua terra, com o sol iluminando as árvores da Clérga, com a chuva regando as terras da ribeira e com o lindo sorriso da sua avó materna, o José foi acordado aos solavancos por um dos seus novos amigos, aquele lhe era mais dedicado.


A cela estava uma autêntica bagunça, fruto do descuido de homens que foram desde sempre habituados a considerar o trabalho doméstico como tarefa exclusivamente feminina. Depois de abrir os olhos com alguma dificuldade, pois tinha abusado um pouco da pinga na noite anterior, o nosso herói foi informado de que um seu ex-camarada insistia em lhe falar. Ele adivinhou logo a identidade do interlocutor e o motivo da conversa. Só podia ser o Graça.


“Deixo-o entrar ou dou-lhe uma boa sova cristã?”, perguntou o apelidado de Jesuíta. “Deixa-o entrar. Eu encarrego-me de lhe bater”, respondeu o José.


Mal entrou na cela, o Graça, mais pálido e deprimido do que era costume, agradeceu-lhe a deferência e perguntou-lhe se estava bem de saúde. Ele disse que sim. Que estava sereno e em paz com a sua alma. “Agora tens alma? Nasceu-te tarde”, aferroou-o o Graça. “Tenho-a desde que nasci. Ou mesmo um pouco antes. Nunca te esqueças que falei dentro da barriga da minha mãe.” “És um ungido. Voltaste ao cristianismo?” “Sim e não.” “Contigo nada é certo. Por que voltaste atrás?” “Porque me apeteceu.” “Acreditas de novo em Deus e na vida eterna?” “Não sei. E tu continuas a acreditar numa sociedade sem classes, no fim da exploração do homem pelo homem e no triunfo do comunismo?” “Claro que sim.” “Então andamos os dois enganados. Mas de certeza que não foi por isso que vieste falar comigo?” “Não. Vim para saber da tua resposta. Voltas à organização do Partido?” “Não.” “Porquê?” “Porque não me apetece.” “Olha que isto é uma coisa séria! Não brinques com o fogo?” “Eu já não acredito na revolução. Basicamente, já não acredito em nada.” “Não me leves a mal, mas acho que as tuas novas companhias são uma má influência.” “A minha mãe dizia-me o mesmo de ti e dos teus camaradas.” “E tu achas que somos todos iguais?” “Essa pergunta vinda de um comunista tem a sua piada. Afinal George Orwell tem razão: todos os homens são iguais só que uns são mais iguais do que outros. E vós, os comunistas, sois os mais iguais de todos.” “Não brinques com as palavras…” “Eu não estou a brincar. Estou a falar muito a sério.” “Mesmo que não seja pelos ideais, volta ao Partido.” “Se não acredito porque hei de voltar?” “Pois, pela nossa amizade.” “Esse foi o meu erro. Confundir a amizade com a política. Eu posso deixar de ser comunista, mas nunca deixarei de ser teu amigo.” “A mim não me é permitido tal atitude.” “Só te autorizam a ser amigo de comunistas?” “É mais ou menos isso. Se ainda fosses socialista ou outra coisa pelo estilo, ou até mesmo reacionário bem-intencionado, tudo bem. Mas é determinantemente proibido a um comunista organizado dar-se com um rachado.” “Não sabia que existiam reacionários bem-intencionados.” “É uma maneira de falar. Podes ser socialista ou mesmo reacionário, mas rachado é que não.” “Mas eu não sou rachado.” “Ai não que não és!” “Eu não traí ninguém. Limitei-me a sair da organização.” “A designação de rachado é o Partido que a atribui. Tu nisso nem és tido nem achado. E rachado uma vez, rachado para sempre. Esse, para os comunistas, é um pecado mortal. Literalmente. Numa sociedade socialista eras imediatamente fuzilado por alta traição. Comunista uma vez…” “Comunista para sempre.” “Nada na vida pode ser encarado como definitivo, a não ser a morte.” “O comunismo pode.” “Porque é a morte…” “Da sociedade capitalista…” “Não. Porque é a morte espiritual do ser humano e a morte da liberdade individual.” “Isso é uma blasfémia. Como podes afirmar uma coisa dessas?” “Pois porque o sei.” “O comunismo, em nome da liberdade suprema, institui a repressão absoluta.” “És um anticomunista primário…” “O que tu queres dizer é que sou um pecador.” “De certa forma, sim.” “Afinal, o cristão és tu.” “Eu sou apenas um simples militante revolucionário.” “Tu és apenas um pau mandado. Mas eu perdoo-te.” “E quem és tu para me perdoares?” “Sou teu amigo.” “Se o és, tens de voltar ao seio do Partido…” “Como se ele fosse uma mãe. Mãe só há uma.” “Voltas ou não voltas?” “Não.” “É definitivo?” “Sim.” “Sabes que me colocas numa situação delicada.” “Como assim?” “Quem foi que te levou para o Partido?” “Foste tu.” “Quem foi que te controlou estes anos todos?” “Foste tu. Mas o que é que isso tem a ver com o resto.” “Tudo.” “Eu sei que tudo tem a ver com tudo, mas não estava a colocar a conversa numa perspetiva filosófica.” “Falando a sério, o Partido diz que se não regressares à organização a culpa é minha e por isso terei de sofrer as consequências.” “Mas tu não tens culpa rigorosamente nenhuma. A culpa têm-na os outros.” “Mas eles pensam o contrário. O Partido é que define quem é culpado ou inocente. Definiu que se não regressares às nossas fileiras és um rachado e deliberou que eu sou o culpado de tudo.” “E o que é que te pode acontecer. Mandarem-te para a Sibéria?” “Essa tem piada, mas eu não me consigo rir. A situação é muito séria. Ou regressas, ou expulsam-me.” “Achas que é honesto eu ir outra vez para uma organização que não respeito e da qual desconfio profundamente?” “Não sei. Não quero pensar nisso. Estás na prisão tal como eu. Que diferença te faz entrares ou não entrares na organização.” “Eu estou preso fisicamente, mas a minha vontade e o meu pensamento continuam livres.” “E isso serve-te de quê?” “Nem te respondo.” “Regressas ou não?” “Não. Dessa maneira salvo-te da mentira. Tu merece-lo.” “Obrigado senhor abade. O cadafalso aguarda-me. Reza-me pela alma.”


Nesse momento entrou na cela o Jesuíta e perguntou se estava tudo bem ou era necessária a sua intervenção. “Bofetadas já lhe chegam as que leva dos guardas prisionais nos interrogatórios. Dá-lhe mas é uma sandes de presunto e um copo de tinto, antes de ir embora. E que Deus o acompanhe.” “Assim farei, irmão”, respondeu o Jesuíta. “Obrigado pelo matabicho”, disse o Graça. E rematou: “Este é o último desejo do condenado.” O José: “Quem morre pela revolução, morre feliz.” O Graça: “Vai-te foder.” “Igualmente.” O Jesuíta para o Graça: “Ou te calas, ou dou-te umas lambadas que te fodo.” “Não te atrevas a tocar-lhe…”, avisou o José. 


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Quinta-feira, 15 de Agosto de 2013

Passeando


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Quarta-feira, 14 de Agosto de 2013

O Poema Infinito (159): o sopro e a luz

 

Os pássaros começaram a morrer com uma réstia de luz presa nos seus olhos. A vida vale menos do que os dias que esperam por ti. És a minha mortalha branca. Sobre o relvado o teu corpo transborda de palidez, o teu corpo macio, o teu corpo tenso, o teu corpo inundado de finos rebentos de prazer. Todos os templos estão rodeados das almas dos amantes, num alegre bulício de lonjura. A terra fica congestionada de frescura e encoberta pelo amanhecer dos frutos. As horas desfazem-se como uma pintura de Dali. Gala é uma nuvem perversa. As horas são matutinas. E informes. E lentas. Durante a aurora, os pescadores batem com os remos no mar. A noite fica sem cor e o dia sem céu. Falo-te através dos caminhos com a voz pousada debaixo de uma sombra de desejo. Todas as casas velhas são agora fantasmas que se alimentam do choro das crianças. A tua revelação assedia-me o olhar. Os corpos são ilhas que imploram saudade. Eu acredito em ti. Eu acredito em pequenas árvores e em planícies que não se separam e em palavras novas que se semeiam como beijos e em ninhos que se constroem com a vontade dos pássaros e com a fidelidade dos afetos e com a água que rega os prados na montanha e no canto vagaroso dos pastores enamorados e no ar fresco da noite e nos olhos de quem conhece os trilhos e na fecundidade da incerteza e nos risos e nas lágrimas dos santos e na cor fecunda dos corpos nus e na princesa da chuva que semeia pérolas na terra do consentimento e nos profetas que caminham nas terras onde nasce a música e onde nascem as feiticeiras condenadas à eterna encarnação dos diamantes do mal. Muito brincam estas crianças velhas para nada se divertirem. Os bosques dos livros ficam nus. Já não há florestas na realidade. As meninas ficam maduras como cerejas e vestem-se com lágrimas. As suas mães ficam presas na tona da água dos ribeiros. O céu azul transforma-se numa responsabilidade colorida. Os seios das mulheres giram sobre si próprios pondo os homens tontos. As janelas fecham-se, as paisagens desaparecem, as bocas ficam impuras. No entanto, os nossos olhos voltam a nascer. Os corpos nus voltam a ter calor e rejeitam a tepidez das roupas. O teu corpo mexe-se como a sagração dos cânticos de Salomão. Saltamos sobre o tempo como as crianças quando o fazem com as cordas. Quando entras no meu quarto é como quando o sol dá luz à terra. O teu sorriso é um raio que rompe a noite. Eu tenho medo de voltar a adormecer. Quero arrancar-te ao esquecimento. Com o tempo, o nosso amor ganha precisão. Passo nas portas do frio e deixo lá a amargura. Agora vivo nas paisagens nuas do esquecimento, lá onde descansa o calor das almas, lá onde os dias repousam nos espelhos, lá onde o céu tem o ritmo das nuvens, lá onde o bem nunca se instala, lá onde as fantasias são sombrias, lá onde o presente morre antes de passar o testemunho ao futuro, lá onde a indiferença é um jogo e os mistérios são prodígios excluídos, lá onde ninguém compreende as certezas, a esperança e a vulgaridade, lá onde as pessoas despertam sem desejo e vontade. Banhamo-nos entre as árvores e no meio da tempestade, como quem se ri do tédio, como quem é sacrificado pelo desejo, como quem é cruxificado pelas certezas. O dia termina com as aves em revoada enfrentando a claridade que se esconde. Olhamos a distância dos seus voos e a noite que se abre. O mundo muda de cor e de sentido. Os deuses sopram-nos o último sonho do dia. 


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Terça-feira, 13 de Agosto de 2013

Dançando


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Segunda-feira, 12 de Agosto de 2013

Pérolas e diamantes (50): A Verdade e o Infinito


Estávamos ainda a rir-nos por causa das sondagens encomendadas pelos partidos do arco da governação, quando alguém resolveu citar um ilustre desconhecido de quase todos nós, que veio à apresentação dos candidatos do PS à autarquia, chamado António Laranjeiro, que resolveu avisar os flavienses para terem cuidado com “os partidos e os candidatos que se escondem atrás de um coraçãozinho”.

 

Rimo-nos todos ainda mais um pouco. E ainda um poucochinho mais quando alguém lembrou que quem se escondeu atrás de um coraçãozinho, e de uma paixoneta pela Educação e pela Saúde, foi o partido do ilustre desconhecido que nos veio visitar e tratar como crianças que não sabem o que devem pensar nem onde devem votar. Pobres coitados de nós que sem estas cabeças pensantes ficávamos tão desorientados que só nos restava votar ou no candidato do PS ou no do PSD.

 

Mas não é disto que hoje vos pretendemos falar. É de contas. Especificamente no embuste que o município anda a propagandear no Boletim Municipal (mais um instrumento de propaganda do PSD pago pela Câmara de Chaves, ou seja, por todos os flavienses), e a que resolveu dar forma de artigo e intitular “Relatório de Gestão e Contas 2012 – Município fecha 2012 com resultado líquido positivo superior a 3,1 milhões de euros”.  

 

Logo no início vem transcrita toda a verdade com que foi cozinhado o escrito. Ou seja, “o relatório de Gestão e Contas de 2012 foi aprovado pelo executivo camarário”. Entre outras inverdades, propagandeia-se a ideia de que houve “um resultado líquido positivo de mais de 3 milhões de euros, obtido em consequência de uma gestão rigorosa sustentada em princípios e critérios de racionalidade económica”.

 

Bastaria apenas lembrar que a nossa autarquia se encontra sobre resgate financeiro, para desmentir pela raiz tão falaciosa justificação.

 

Hume salientou que a casualidade nunca é mais do que uma inferência; e qualquer inferência implica nalgum ponto o salto do que vemos para o que não conseguimos ver. Além disso, os processos que se prolongam por muito tempo tendem a tornar-se fins em si mesmos. Ou seja, a Câmara do PSD continua a apostar na propalação de uma mentira para que ela se transforme em verdade.

 

Mas toda a verdade vem num documento fidedigno: o Anuário Financeiro dos Municípios Portugueses (2011-2012), editado pela Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas, em julho de 2013 e elaborado por professores da Universidade do Minho e do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave.

 

No Jornal de Negócios de 12 de julho de 2013, Bruno Simões, citando o Anuário, escreve que “as câmaras municipais empolaram os seus orçamentos em cerca de quatro mil milhões de euros. Apesar de terem previsto receber 11,7 mil milhões de euros, só conseguiram cobrar 7,7 mil milhões. Dessa forma anteciparam receitas que acabaram por não cobrar, o que permitiu realizar despesas que depois não puderam pagar”.

 

Ou seja: “O empolamento de receitas permite aos municípios acomodar despesas para as quais não têm verbas.”

 

Conclusão: “Esta situação é verdadeiramente comprometedora para a sustentabilidade financeira dos municípios.” Por isso é que tiveram de recorrer ao financiamento do Estado para adiar uma mais que provável falência se a dívida e défice não se inverterem.

 

Vamos então aos números do Anuário. Pois esses é que valem. Na página 113, na rubrica R32, intitulada, “Municípios que apresentam maior volume de compromissos por pagar, no final do ano económico”, a Câmara de Chaves ocupa a posição 32 com a bonita dívida de 20.649.653 euros.

 

Na página 164, na rubrica R44, relativa ao “Ranking dos municípios com maior endividamento líquido”, lá vem novamente a Câmara de Chaves colocada no 47º lugar, com uma dívida de 31.450.829 euros.

 

Na página 153, na rubrica R40, relativa aos “Municípios com maior passivo exigível (dívida), reportada a 2012, a autarquia flaviense, num universo de 308, ocupa a 43ª posição, na lista das cinquenta câmaras mais endividadas do país, com um passivo exigível (dívida) de 41.220.000 euros.

 

Estes é que são os números verdadeiros da “gestão rigorosa e sustentada em princípios e critérios de racionalidade económica”, da Câmara gerida pelo PSD de António Cabeleira e João Batista.

 

É história para dela se dizer que as contas da gestão económica e financeira da Câmara de Chaves e a verdade são duas linhas paralelas que apenas se encontram no infinito. Ou mesmo mais além.

 

É caso para apregoarmos com o povo: Está na hora, está na hora, desta Câmara se ir embora. 


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Domingo, 11 de Agosto de 2013

Cozinhando


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Sábado, 10 de Agosto de 2013

O homem da concertina


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Sexta-feira, 9 de Agosto de 2013

O Homem Sem Memória - 170


170 – Como já dissemos no capítulo anterior, quando estamos presos, alguns momentos que vivemos entre grades são particularmente trágicos. O segundo mais trágico de todos é quando recebemos a visita do homem que nos gerou. Aquilo não é nada agradável de se ver e não é nada simples de viver. Um pai a tentar conter as lágrimas a olhar para nós como se estivéssemos a caminho do cadafalso não é uma imagem que nos conforte.


O guarda Ferreira quando olhou para o filho tremeu. A sua afetividade era do reino da intimidade: discreta, sofrida, muda. Cumprimentou-o como se estivesse no café, ofereceu-lhe um cigarro e pôs-se a falar do tempo. O filho também falou sobre o tempo. E fê-lo como se isso fosse a sua preocupação mais premente. Ele não queria desiludir ainda mais o seu pai. Não queria envergonhá-lo. Imaginava o escarnecimento que seria lá no posto da GNR quando os colegas insinuavam a prisão do filho comunista, deixando no ar a mais que provável falta de pulso firme na educação do filho mais velho da Dona Rosa. Um pai que não consegue meter na ordem e ensinar os bons princípios aos seus filhos, não pode ser um bom agente da autoridade. Mas, para sermos sinceros e justos, é necessário informar os estimados leitores de que ao guarda Ferreira pouco lhe interessavam os juízos morais sobre o seu pretenso desleixo educativo ou sobre a sua suposta falta de autoridade paternal. O que verdadeiramente o incomodava era a teimosia do filho em querer, à força das armas, impor aos outros a felicidade, a igualdade e a liberdade. Parecia-lhe um contrassenso. Convenhamos que ao José também o atormentava a falta de entusiasmo, quando não a mais profunda indiferença, do seu povo pelos ideais comunistas e, sobretudo, pela rejeição da magnífica ideia da construção do paraíso na terra. O pai, no seu empirismo, defendia que ninguém pode impor aos outros seja aquilo que for, mesmo a felicidade. Ninguém pode ser livre à força. Ninguém pode ser igual à força. Ninguém pode ser feliz à força. Nem no reino animal isso acontece, como muito bem descobriu e contou, George Orwell, pois todos sabemos que até os animais são iguais, só que uns são mais iguais que outros.


O José sempre considerou que se as ideias são boas elas têm de ser aceites por todos, mesmo que lhes custe. Quando isso não acontece é porque o povo é inculto e vive submergido no obscurantismo. O Partido é a vanguarda. E candeia que vai à frente alumia duas vezes. O seu pai acha que a candeia dos comunistas, em vez de alumiar duas vezes, cega as pessoas. E que os cegos pela luz do sol comunista não veem nada para além das suas ilusões.


Apesar das divergências ideológicas, pai e filho respeitam-se. E amam-se. Cada um à sua maneira, mas amam-se. Nisso são cristãos. Respeitam e amam a família e o sangue do seu sangue.


A dado momento, o guarda Ferreira olha para o seu filho e oferece-lhe novo cigarro. Ele aceita. E voltam a falar do tempo. E da mãe. E dos irmãos.


O guarda Ferreira desculpa-se por não ter vindo com a Dona Rosa visitar o filho: “Tu bem sabes como é a tua mãe. Faz um teatro medonho por tudo e por nada. É uma exagerada. Deve ter feito cá um papelinho.” “Então a mãe não lhe contou nada?” “Não. Ela não me fala.” “Desmaiou para aí duas ou três vezes. Chorou como uma Madalena arrependida. Encheu-se de me dar recados. E até rezou de joelhos…” “Virada para Meca?” “O pai não goze com coisas sérias!” “Sérias? Desde quando tu levas a religião a sério?” “Desde sempre e desde nunca.” “Com a verdade me enganas.” “Eu estava a referir-me à seriedade da mãe em relação ao seu Deus.” “A tua mãe nem Deus leva a sério. Ou melhor, Deus é que não leva a tua mãe a sério.” “Reconheço que a mãe possui um fundo dramático muito vincado. Mas é uma boa católica.” “Isso é porque Deus é muito paciente. Estou em crer que se quisesse vender a alma ao Demónio ele não lha aceitava pois era capaz de o pôr de fel e vinagre. A tua mãe era bem capaz de fazer do demónio um santo só para não ter de a aturar.” “Para GNR, o pai tem um sentido de humor muito apurado.” “Tem de se possuir muito sentido de humor para se viver uma vida inteira ao lado de uma mulher como a tua mãe!” “E como corre a política?” “Eu de política não falo com presos. Estou proibido. Mas posso confessar-te que a grande maioria dos teus ou fugiu para o Sul ou se vendeu à reação, como vós lhe chamais.” “Não acredito. Os comunistas não se vendem.” “Todos nós temos um preço. E, pelo que vou sabendo, o dos teus camaradas é de saldo. Mas, como te disse, eu só posso falar contigo da família e do tempo.” “E como estão os meus irmãos?” “Estão inquietos.” “A mãe disse-me que lhe confessaram que queriam aderir à revolução.” “Não tem chovido nada, o que é mau para a agricultura.” “O pai o que acha?” “Que não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe. O que é que tu achas?” “Considero uma coisa de miúdos.” “Eu já vi um rapaz de doze anos matar um adulto com uma caçadeira.” “Foi um acidente.” “Não, foi adultério.” “O tempo está mau para paixões.” “Não chove.” “Está um tempo para parvos.” “Queres outro cigarro?” “Ainda nem acabei este.” “Trago-te aqui algumas chouriças, salpicões e folar. Isto é iguaria fina. Não é para a partilhares com energúmenos nem com comunistas.” “Claro que não.” “Têm-te tratado bem?” “Mais ou menos. Abusam um pouco das bofetadas.” “Parece a escola primária?” “Mais ou menos.” “Os teus irmãos têm-se portado bem na escola. Mas agora andam sempre juntos. Ninguém os consegue separar. Dizem que vão libertar o seu irmão mais velho das masmorras da reação. Querem ser revolucionários à força.” “Diga-lhes que isso é uma tolice. Que eu já não acredito muito nos comunistas. O povo não nos quer. E se o povo não nos quer não há muito mais a fazer do que desistir.” “A tua mãe vai ficar radiante quando souber disso.” “Ai não vai não porque o pai não lhe vai dizer nada. Era o que mais faltava. Ia logo contar tudo ao padre e eu ficava com fama de traidor.” “Seria melhor se ficasses com o proveito. Se pensas dessa forma, o melhor é dizeres tudo agora. Libertavam-te de imediato.” “Mas eu não quero que me libertem.” “Porquê?” “Pois, porque não!” “ Tu és muito teimoso.” “Seria uma desilusão para todos quantos acreditam em mim e me veem como um exemplo a seguir.” “Não te iludas. Os únicos que acreditam em ti são os teus irmãos. E eles são apenas crianças.” “O pai o que é que acha da toleima dos seus filhos.” “Que é uma rematada idiotice.” “Em Portugal vale tanto a revolução como a reação. Nada.” “Alguma coisa temos de ser.” “Eu prefiro não ser nada.” “Tu é que sabes. Mas o tempo não corre de feição para a vossa gente.” “Isso é aqui no Norte.” “E quem é que te garante que no Sul as coisas se passam de outra maneira? Os presos políticos abundam em ambos os lados. E onde há presos políticos não existe democracia.”


Depois fez-se silêncio. Os dois pararam de falar para poderem meditar. E meditaram a olhar um para o outro. Logo de seguida veio o guarda prisional informar que a visita tinha terminado.


“Pai…” “Sim.” “Não sei se…” “Sim…” “Não sei…” “Nem eu…” Longo silêncio.


“Talvez o tempo melhore”, disse o pai em jeito de despedida. Ao que o filho respondeu: “Temos de ter esperança. O sol vai tornar a brilhar um dia destes.”


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Quinta-feira, 8 de Agosto de 2013

Sorriso


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Quarta-feira, 7 de Agosto de 2013

O Poema Infinito (158): corajosa agonia


As mulheres alteiam as saias para libertarem a vontade e exibirem o seu sexo e as suas nádegas à luz crua do desejo como se levantassem voo para o infinito. E gemem como se parissem equívocos. E arrumam os diálogos nos quartos obscuros e passeiam-se nos corredores como cotovias assustadas. Amanheço com o espanto dos sonhos húmidos. Oiço murmúrios nas escadas. Os campos crescem dentro da sua tepidez molhada pela chuva miudinha. Os corpos estão quietos como estátuas de sal. As almas ondulam como se fossem bandeiras de guerra. A água lava as impurezas dos viajantes. Abro a janela e aspiro o ar que vem da rua. Nada está completo. Recomendamos a incredulidade a quem sonha que pode ser feliz. Os corpos sempre foram a fonte inesgotável do pecado. Por isso é que os homens adoram serpentes. E a iluminação infame das casas. Por isso é que os homens observam pacientemente o seu declínio e morrem gastos e desiludidos, muitas vezes esquecidos do seu próprio rosto. Vivemos tempos imprevistos. Vozes atravessam os bairros. A música flui longínqua, lenta e insistente e transporta-nos até aos anos imprevistos, esse tempo de banhos de sol e de alegria. Os rios eram impetuosos e corriam por entre os altos muros dos montes como se fossem cavalos cegos. O teu corpo segura ainda a esperança e a surpresa do amor. O rosto largo evidencia os teus olhos aquosos. A tua expressão transporta o jeito inventor da linguagem. Somos como comboios que viajam entre estações anónimas. Como um guerreiro desolado atravesso países que habitam os livros. E cavalgo há anos a lonjura das estrelas e os sonhos furiosos dos pacifistas. Evoco o sorriso das mulheres possuídas e o minucioso murmurar dos amantes. Esse é o território da aventura, onde as vozes têm o peso dos rios pálidos e onde o silêncio é tão vasto como o mar. As naus transportam essências de delírios, aromas dos pinheiros verdes e a pressa dos caçadores furtivos. Lá fora, os pássaros movem-se numa velocidade adormecida. Voam contra os anos e contra a imensidade do ar. As gargantas dos que protestam repousam agora no seu grito definitivo. É tão violenta a decadência da esperança! Alguém define uma palavra nunca antes pronunciada. É altura de uma nova viagem. Recolho-te nos meus braços e partimos. Nenhuma verdade resiste ao espanto. O mar é uma pressa de marés. Somos navegadores que sulcam como nuvens em volta de ilhas. E cruzamos as ondas como se fossem corpos andróginos. O prazer é um caminho insaciável que se ramifica pelos sexos e pelos corpos e atropela o tempo. Dizes: a poesia evidencia o destino dos sonhos. Por vezes derrotamos o tempo. O vento e a água substituem-nos. Cruzamos o deserto. Os deuses escrevem os poemas do destino e da morte. Sobram as palavras de pedra. Cortamos os dias com a lâmina das horas. Por isso ficam mais delicados. Dentro deles nasce a frágil matéria da vida. O sol insiste em abater-se sobre nós sem pudor. Até a erva evidencia a sua dor. Dançamos marcando a terra com a nossa infinita precariedade e muito lentamente como quem desaba por cima do som dos instrumentos. Evidenciamos a gentileza amena das madrugadas. O arco da alvorada espera a época que há de vir. É tempo de matar o desejo, de aniquilar as ânsias, de cobrir o dia de palavras, de eternizar os instantes. De palavras vulgares se faz a paixão. É esta a nossa eterna desilusão. O poema está feito desde sempre e para sempre. O poeta nada vale, por muito que digam o contrário. É esta a corajosa agonia de quem escreve versos. 


publicado por João Madureira às 10:29
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Terça-feira, 6 de Agosto de 2013

Descansando


publicado por João Madureira às 07:45
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Segunda-feira, 5 de Agosto de 2013

Pérolas e diamantes (49): as palavras e os números

 

 Das palavras – O meu amigo M., vendo-me com o semblante carregado, talvez por causa do calor, resolveu refrescar-me a esperança: “Vocês estão de parabéns, pois neste país, e mais concretamente nesta cidade, a tarefa dos independentes não é fácil. Sempre que por aí surge um problema político, os meus amigos tentam sempre encontrar uma resposta adequada e até uma proposta de solução equilibrada, enquanto os partidos tradicionais, sempre que lhes surge uma questão política delicada, encontram apenas uma desculpa.”

 

Eu, porque ando a reler Guerra e Paz, lembrei-lhe que Kutuzov derrotou Napoleão precisamente porque não se deixava arrastar pelos valores efémeros e superficiais da corte e tomava as suas decisões com base num conhecimento visceral dos seus homens e do seu povo. E conclui que para se liderar um povo é necessário conhecê-lo bem.

 

E até fui mais longe. “Com a nossa presença pretendemos devolver ao concelho e aos flavienses o bom nome e, sobretudo, a esperança. Depois destes anos de desvario, incompetência e desnorte, tem de surgir um grupo de pessoas capaz de liderar a autarquia, e, essencialmente, decidida a recuperar e a restituir-nos o orgulho em sermos flavienses.”

 

“Sinto nas pessoas algum medo. É preciso ter coragem para enfrentar as máquinas partidárias e a teia dos interesses instalados”, disse o meu amigo. Eu respondi-lhe: “Aprendi com a vida que a coragem não é a ausência de medo. Coragem é triunfar sobre o medo.”

 

Porque estava com a boca doce por causa da água das pedras com limão e açúcar atrevi-me mesmo a levar a dissertação um pouco mais longe: “As pessoas foram ensinadas a desprezar, a achincalhar, a dizer mal e a desistir perante as adversidades. Mas se conseguem aprender isso também é possível ensinar-lhes a amar, a tolerar, a enaltecer e a lutar contra as contrariedades, contra a perseguição, contra o desalento e contra a mentira. Nelson Mandela disse que a bondade nos homens é uma chama que se pode ocultar mas que é impossível extinguir. Podemos não a ver, mas ela está sempre lá, no coração e na alma dos homens e das mulheres de boa vontade.”

 

“Hoje estás com tendência para a pregação”, chalaçou o meu amigo. Eu bebi mais um pouco do meu refresco e atirei-lhe esta pernada de palavras de Madiba: “Na vida, todos os homens têm duas obrigações que andam a par – para com a família, os pais, a mulher e os filhos; mas também para com o seu povo, a sua aldeia, o seu país. Numa sociedade civil humanizada, todos os homens têm condições para cumprir estes deveres segundo as suas tendências e capacidades.”

 

Dos números – No ponto 6 do programa “Todos por Chaves”, afirma-se textualmente: “Seremos realistas na ambição, pragmáticos na gestão e humanistas na ação. O pragmatismo na gestão tem como componente essencial o espírito de equipa, a integridade, a honradez e o respeito pelas pessoas.”

 

Ora vamos lá então ao realismo, à honradez, à integridade e ao pragmatismo e ao tal respeito pelas pessoas.

 

A seguir ao Milagre das Laranjas, que pretende transformar paralelos em votos no PSD e que custa aos flavienses a módica quantia de 187.973 €; depois da escandalosa entrega do edifício restaurado do antigo Magistério Primário à rapaziada da JSD local, cujas obras ficaram num milhão de euros; a seguir ao escandaloso aluguer à empresa Jogos e Disfarces, por 150 €, das antigas instalações do Cineteatro de Chaves; a seguir à indemnização à GIPP relativa ao “Projeto de Execução das Piscinas Municipais Cobertas de Chaves”, no valor de 62.181,25 € (+ IVA); depois da indemnização relativa à “Reabilitação do Edifício Adjacente à Igreja da Madalena” para instalação da Pousada da Juventude; após a vereação camarária aprovar a “Rescisão do Contrato de Financiamento com a Empresa Santana Construções, SA.” no valor de 20.257,28 € (+ IVA); a autarquia flaviense resolveu cometer novo atentado à racionalidade e desbaratar ainda mais dinheiro público.

 

Em reunião de 18 de maio de 2013, a Câmara de Chaves aprovou, por unanimidade, a revogação de mais um contrato com a GIPP, relativo ao “Projeto de Execução de Reabilitação e Construção dos Pesqueiros da Margem Esquerda do Tâmega entre a Ponte Romana e a ETA”, no valor de 17.557,68 € (+IVA).

 

Ou seja, a Câmara de Chaves resolveu mais uma vez retirar dos bolsos dos contribuintes dezassete mil quinhentos e cinquenta e sete euros e sessenta e oito cêntimos, para pagar uma indemnização por não conseguir levar a efeito uma obra prometida e já adjudicada.  Esta é a sua “política de verdade” e a sua “racionalidade”. Este é o seu “pragmatismo”.

 

Contas feitas, só nestas três indemnizações, e a troco de nada e de coisa nenhuma, os flavienses já pagaram, ou vão ter de pagar, a módica quantia de 97.995.18€. Mais IVA. Bem prega Frei Tomás…

 

Mas a história não acaba aqui. Isso é que era bom!


publicado por João Madureira às 07:45
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Domingo, 4 de Agosto de 2013

Pose


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Sábado, 3 de Agosto de 2013

Passeando


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Quinta-feira, 1 de Agosto de 2013

Poldras


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