Segunda-feira, 30 de Setembro de 2013

Pérolas e diamantes (57): a escrita e a sede


Já várias vezes me perguntaram porque escrevo livros sem garantia de publicação. Eu sorrio e fico calado por que nem eu sei bem a razão. Mas partilho da ideia de Gabriel García Márquez de que escrever livros é quase uma atividade suicida.

 

Na opinião do autor de “Cem Anos de Solidão” nenhuma outra exige tanto tempo, tanto trabalho, tanta dedicação comparativamente aos benefícios imediatos.

 

Escreveu ele: “Não acredito que, ao chegarem ao fim de um livro, muitos leitores se questionem sobre quantas horas de angústia e calamidades domésticas custaram aquelas duzentas páginas ao autor ou quanto recebeu pelo seu trabalho […]. Depois desta sombria estimativa de infortúnios é elementar perguntar porque é que nós, escritores, escrevemos. Inevitavelmente, a resposta é tão melodramática como sincera. É-se escritor, simplesmente, como se é judeu ou negro. O sucesso é encorajador, o favor dos nossos leitores é estimulante, mas não passam de meros ganhos adicionais porque um bom escritor continuará a escrever aconteça o que acontecer, mesmo que os seus sapatos precisem de ser remendados e mesmo que os seus livros não vendam.”

 

Mas para tristeza nossa, os portugueses estão muito mais interessados no campeonato nacional de futebol do que com o que está a acontecer ao país. E eu até os compreendo. Enquanto tudo à nossa volta se desmorona, mais vale morrer anestesiado do que cheio de dores.

 

Os nossos políticos andam agora sobretudo entretidos com as informações sobre a altura do primeiro-ministro francês ou sobre o tamanho dos sapatos da senhora Merkel. Apesar de virem para as televisões afirmar que andam especialmente preocupados com a crise.

 

Entretanto, os escritores consagrados relacionam-se não apenas com a compaixão e a caridade, mas, sobretudo com o poder. E, pegando nas suas próprias palavras, igualmente com a responsabilidade, a solidariedade, o empenho e, porque não dizê-lo com toda a clareza, com o amor.

 

Eu a ter que me definir em termos políticos e sociais direi que defendo o sentido da solidariedade, que é o mesmo que a minha avó chamava de Comunhão dos Santos. Isso significa que cada um dos nossos atos nos torna corresponsáveis por toda a humanidade. Ninguém vive sozinho. Todos somos responsáveis por todos. Acho que quando uma pessoa descobre isto é porque atingiu o ponto mais elevado da sua consciência política.

 

Portugal continua a ser um país com uma consciência política reduzida. E ainda vai ficar pior porque os portugueses já não acreditam em nada, a não ser na Nossa Senhora de Fátima. De facto, se a religião nunca nos levou a lado nenhum, a política ainda tornou isto pior. Por isso, é que existe disseminada no tecido social português a atitude do salve-se quem puder e cada um por si. Este é o presságio para a destruição social completa.

 

O pior é que nem o Governo, nem a Assembleia, nem o presidente da República, nem os partidos maioritários se deram conta do descalabro. Todos pressentimos que o abismo está apenas a um passo.

 

Mas a vida segue para uns e termina para outros. No livro “A Casa das Belas Adormecidas”, Yasunari Kawabata escreveu: “Os velhos têm a morte e os jovens têm o amor, e a morte só vem uma vez e o amor muitas vezes.”

 

E o escritor continua a escrever porque, como exprimiu García Márquez, “a vida não é o que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la”.

 

E é também com as palavras de Gabo, ditas numa entrevista a Juan Gossaín em 1971, que termino por hoje: “Sabes, meu velho amigo, a sede de poder é o resultado de uma incapacidade de amar.”


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Domingo, 29 de Setembro de 2013

No rio


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Sábado, 28 de Setembro de 2013

No monte


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Quinta-feira, 26 de Setembro de 2013

Subindo


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Quarta-feira, 25 de Setembro de 2013

O Poema Infinito (165): a caligrafia moral do esquecimento

  

Todo o lugar exige regresso e um olhar demorado. Somos de uma geração agressiva. Aprendemos a ler com palavras de fundo cinzento enquanto ouvíamos a chuva a cair sobre os tetos de zinco. Os nossos avós bebiam aguardente enquanto a noite se aproximava invadida pelos enigmas. Nesse tempo o horizonte era branco e as aves abrigavam-se debaixo das folhas junto aos rios. Aprendíamos palavras que se tingiam de cores imprecisas. Observávamos a mudança do tempo e perseguíamos obsessivamente o silêncio da tristeza. As árvores erguiam-se até ao céu acompanhadas pela nossa imaginação. Ordenávamos todas as possibilidades dos versos e repetíamos rimas em voz alta juntando as vozes à procura de uniformidade. As ondas entravam-nos pelas janelas e flutuavam procurando as arestas breves dos nossos olhares. As possibilidades dos poemas multiplicavam-se pela distância das montanhas. Nessa altura a natureza entrava em contacto com a arte. A filosofia era designada pela imaginação. Afastávamos as superstições com o olhar enquanto a chuva assolava as montanhas e enquanto as memórias incendiavam os anos. Tudo permanecia inquieto. Toda a nossa ironia estava ainda obscurecida. Por isso falávamos da leitura de romances e da compreensão lenta da razão. Recusávamos a vontade dos sentidos. Criávamos distância, invocávamos o esquecimento e encolhíamos o inverno dentro dos nossos cadernos escolares. Os nossos rostos começaram a adquirir tranquilidade. Arrumávamos as obras marcando-as com a nossa harmonia. Estranhávamos o volume dos nossos corpos e os seus movimentos reflexivos. Conservávamos a tradição dentro do seu sentido sombrio e recusávamos a sua regulação regressiva. Só mais tarde prometemos ceder às solicitações do talento. As horas eram mais fluídas do que agora. Os textos eram verticais e reagiam continuamente às influências espectrais. Preenchíamos o espaço das almas com regras arbitrárias. O amor era uma intuição poética com ângulos de pureza. As imagens reproduziam a lírica funesta dos espelhos. Brincávamos à procura de uma identidade falsa, como se ela fosse uma curiosidade explicativa da poesia. Agora sabemos que cada poema tem a sua própria fórmula esclarecedora construída por sensações de desequilíbrio. Como se o poema criasse o seu próprio poeta. Habituámo-nos à ausência, ao seu tédio, à sua indiferença implacável. Era no outono que criávamos as almas, a vegetação dos bosques que orlavam as casas, as aves que pontuavam o céu, os poemas indecisos, a nostalgia das cidades. Era também no outono que invocávamos os regressos, os percursos espirituais, as vozes das mulheres que abriam os poemas, as pontes abstratas de tanta água verem passar, o equilíbrio frio do sofrimento, a mística escrita dos crepúsculos, a pontuação visionária dos astros, a trágica cor dos dogmas, a estética incompreensível do abandono, a embriaguez dramática dos olhares, as translações vegetais, a mecânica antiga do sangue. As aves voavam loucas na direção do inverno. Nós centrávamo-nos na magnificência das verdadeiras profecias, no triunfo da fecundidade, na poesia alcoólica do amor e da morte. A intimidade era uma possibilidade dramática, uma longínqua engenharia de manipulações aparentes. Os anos passaram. O tempo ficou solitário. Os nossos lábios fecharam-se para tentarem corrigir a transcendência da vida. Agora estamos mais disponíveis para o sofrimento, para a intimidade do mundo, para a solidez fixa da dúvida. Agora escrevemos o tempo com a caligrafia moral do esquecimento. 


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Terça-feira, 24 de Setembro de 2013

Homenagem a Béla Tarr


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Domingo, 22 de Setembro de 2013

Pérolas e diamantes (56): urge reformar o sistema político

 

Basta andar um pouco por esse concelho fora para nos apercebermos que as pessoas estão frustradas e ofendidas com este governo e, sobretudo, com esta gestão autárquica. Estão indignados com os abusos desta Câmara gerida por um PSD em desagregação. O nosso povo quer ordem, tranquilidade, progresso e uma sociedade genuinamente democrática. Não este arremedo de gente que não governa nem deixa governar.

 

De facto, em Portugal, como muito bem refere José Miguel Júdice, “não há uma sociedade civil. O Estado fez a sociedade, não foi a sociedade que fez o Estado.” Daí estes caciques de província gerirem as instituições públicas a seu bel-prazer, distribuindo benesses, empregos e obras apenas pelos apaniguados.

 

É visível na nossa sociedade um gosto mal disfarçado pelo autoritarismo. Somos ainda impotentes como povo. Gostamos de gritar, mas depois ficamo-nos pela impotência. E essa é a pior das limitações.

 

Apesar dos sinais, os processos de gestão autárquica na nossa terra nem sequer chegam a ser de repressão evidente. Basta-lhe meter medo. A coragem continua a ser considerada uma coisa de inúteis.

 

Adaptando as palavras de Trotsky à dimensão da nossa realidade, podemos escrever que não é verdade que o poder come os seus filhos. O poder come os seus filhos bons. Os filhos maus comem o poder.

 

Os dirigentes políticos quase sempre chegam ao poder não se zangando com ninguém. Ascendem rastejando, intrigando, prometendo, penhorando e trocando promessas por mentiras. Por isso é que quando aparecem no cimo já não possuem nenhuma disposição psicológica para agirem em conformidade com as suas ideias e os seus princípios. Passam apenas a ser teimosos.

 

A política necessita de pessoas capazes de arriscarem tudo na base das suas convicções. Por isso é que é necessário acabar com as lógicas de conservação do poder pelo poder e eliminar a perniciosa influência mafiosa dos aparelhos partidários. Como diz José Miguel Júdice: “É preciso acabar com estes partidos.”

 

Por razões de compromisso político, livre e publicamente assumido, vi-me na curiosa e estimulante situação de falar com as pessoas no sentido de as estimular a votarem na diferença e na independência políticas. Resumindo, na Mudança.

 

Rodeado pelos amigos do MAI percorremos os bairros e ruas da cidade e calcorreamos os caminhos das nossas aldeias. Fizemos uma campanha devagarinho, como convém a quem realmente se interessa por ouvir a gente do nosso povo.

 

É um trabalho apaixonante e ao mesmo tempo comovente. Percebe-se que existe uma nova pobreza escondida e envergonhada. Está a perder-se a coesão social.

 

Para satisfazer clientelas, a lógica política dos partidos tradicionais fez com que se desperdiçassem recursos públicos em projetos mirabolantes e, quando não, estúpidos. Por isso o nosso país definhou. Por isso a nossa cidade atrofiou.

 

Mas temos que acreditar que através do desenvolvimento económico as cidades podem voltar a ser um fator de crescimento. Chaves pode transformar-se num polo competitivo e criar emprego.

 

Mas emprego verdadeiro e sustentável, pois não podemos fazer como António Cabeleira e João Batista que apenas garantiram emprego municipal à sua fação do PSD.

 

A despesa pública tem de ser contida, mas não na base de cortes cegos, normalmente maus e pouco eficientes.

 

Há conjuntos de empresas semipúblicas que contratualizam com o Estado com a nítida intenção de o prejudicar. Os swaps são disso exemplo paradigmático. Ou seja, existem em Portugal grupos falsamente estatais que à primeira vista parecem estar nas mãos de privados, mas, no fundo, continuam a dominar o Estado, com evidente prejuízo para todos nós.

 

Por isso é que já todos percebemos que a primeira reforma necessária não é a do Estado, mas sim a do sistema político.

 

Uma democracia não pode viver sem partidos. Nós não somos contra os partidos. Achamos é que, como diz Rui Moreira, eles necessitam de levar um cartão amarelo. Pois o regime, tal como o conhecemos, corre o risco de implodir.

 

A maioria dos municípios, incluindo também o de Chaves, está falida. E o nosso vice-presidente tem ainda a distinta lata de vir prometer mais obras e mais tachos aos seus apaniguados.

 

Por isso acredito que os cerca de cem movimentos independentes que concorrem a estas eleições autárquicas podem forçar uma reforma do sistema político.

 

Assim o povo queira tomar nas suas mãos o seu destino. 


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Rua de Santo António - Chaves


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Sábado, 21 de Setembro de 2013

Rua do Sal - Chaves


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Sexta-feira, 20 de Setembro de 2013

O Homem Sem Memória - 176


176 – Depois de mais alguns interrogatórios, e de a cela estar já com meia dúzia de cristos bem ensanguentados, alguns dos camaradas mais aflitos tentaram racionalizar a sua nova realidade e acertar com a estratégia.


Um dos mais audazes contou parte do seu interrogatório: “Tenho de confessar tudo?”, perguntei eu. Responderam-me primeiro com um murro nas trombas e de seguida falaram. “Tens. Se não ainda te batemos mais.” “Mas tudo quanto?” “Tudo o que sabes.” “Mas eu já contei tudo aquilo que sabia. Ou talvez até um pouco mais.” “Olhe que não.” E riram-se, os filhos da puta. “Tens de te confessar culpado.” “Ainda mais?” “Sim.” E continuaram a bater-me. Aí comecei a inventar culpas. Confessei-me de tal maneira que acho que se fosse o próprio Diabo, Deus me perdoava todos os pecados. Mas eles não. Eles continuaram a bater-me até eu desfalecer. Quando acordei sorriram para mim e disseram-me que por agora estava despachado. Explicaram: “Também te vamos confessar uma coisa.” E riram-se outra vez os filhos da puta. “Estamos cansados. E como é fim-de-semana os teus camaradas vão ter de esperar mais dois dias pelo seguimento dos trabalhos. Todos estamos necessitados de um descanso retemperador.”


Estava visto, por mais estratégias que combinassem, não acertavam com a correta. Por isso continuaram a confessar tudo o que sabiam, e que era pouco, como é do nosso conhecimento, e a levar porrada. A semana seguinte foi toda ocupada a gemer, a lavar as feridas e a meditar. Chegados à tarde de sexta-feira, apenas o camarada funcionário estava ainda incólume no seu físico e na sua mente. Por isso pediu para ir à tortura. Eles responderam-lhe que tinha de esperar até segunda-feira para saber o seu destino. Mas que não se preocupasse. Pois o seu destino estava em boas mãos. Nas sábias mãos do Partido.


“Veem camaradas”, disse ele virado para os onze cristos deitados nos seus catres, “afinal o Partido sempre conseguiu apurar a verdade. Eles sabem que sempre fui um militante acima de qualquer suspeita. Escusam de me olhar com esses olhos acusadores. Eu não tenho culpa de nada. Não fui eu que vos prendi, nem fui eu que vos torturei. Reconheço, no entanto, que talvez tenha havido da minha parte algum descuido organizativo e, quem sabe, também tenha existido alguma desatenção relativa a hipotéticos desvios ideológicos na organização. Mas não foram culpa minha. Eu cumpri sempre com o meu dever de revolucionário e várias vezes vos chamei à atenção. Sempre fui disciplinado. Tenho pena que vos tenham torturado para apurarem a verdade. Mas o Partido não pode transigir nos seus princípios e não pode fraquejar nos seus propósitos. Se o trabalho revolucionário falha a culpa tem de ser convenientemente apurada. E os culpados têm de ser identificados e devidamente julgados e chamados a assumirem as suas responsabilidades. O processo pode ter sido um pouco doloroso, mas foi profícuo. A partir de agora vamos todos poder ajudar a revolução imbuídos de um novo espírito revolucionário. O Partido pode ser um pai severo, mas apenas pretende o melhor para o nosso povo e para os seus filhos mais diletos. Faz tudo por amor. Amor ao próximo. Todos sabemos que o caminho para uma nova sociedade se faz de sangue, suor e lágrimas. Sabemos, ainda, que nem todos vamos poder chegar lá. Os melhores filhos da revolução, e os seus melhores intérpretes, são quase sempre sacrificados. Mas é dever de todo o comunista dar, se necessário for, a vida pela libertação do seu povo. Morrer em nome da revolução é um privilégio apenas digno dos verdadeiros comunistas. Não vos peço perdão porque não me sinto culpado de nada, mas, sobretudo, porque não sou católico. Vós, camaradas meus, fostes vítimas das vossas próprias dúvidas, fraquezas e incertezas. Sim, vós fraquejastes muitas vezes. E disso dei a devida conta à direção do Partido. Como nunca me disseram nada conclui que essas atitudes não punham em causa nem o Partido nem o trabalho revolucionário. Afinal parece que não era bem assim. Ou não foi bem assim. Pois uma coisa é trabalhar para conquistar o poder, e nessa tarefa todos somos poucos, outra bem diferente, é trabalhar para consolidar o poder e construir uma nova sociedade. Para combater a velha todos somos necessários. Construir a nova, é tarefa destinada apenas aos melhores. Vós fostes necessários para combater a velha, para eliminar as antiquadas estruturas sociais e ideológicas, para reduzir a escombros a velha sociedade burguesa e capitalista e os seus sequazes. Por isso vos presto a minha sincera homenagem. Mas, ao que parece, a nossa viagem em comum acaba aqui. No entanto podeis sempre contar com a minha amizade e também com o meu testemunho em vossa defesa. É isso que pretendo fazer quando for chamado a depor. Isto é, se for, pois, pelo que vejo, o meu testemunho não vai ser necessário para apurar a verdade. Essa já foi apurada através dos vossos depoimentos. Eu sei que, como bons e sinceros comunistas, apenas falastes a verdade. Pois só ela é revolucionária. Estou também em crer, conhecendo eu como conheço o Partido, que depois de apurada a verdade, vós, como companheiros da revolução, ireis ser reeducados e chamados a participar na construção da nova sociedade socialista. Podeis não chegar a participar nas estruturas de topo, mas numa sociedade de novo tipo todos vamos ser importantes. Uns a dirigir e outros a ser dirigidos. O verdadeiro comunista é o mais singelo e humilde soldado ao serviço da revolução. Ele não aspira a ser importante, pretende apenas servir o seu povo. Vendo o seu povo feliz, ele é feliz. Vendo o seu povo alegre, ele é alegre. Um comunista serve, não é dono nem senhor de nada nem de ninguém. Apenas é fiel à sua verdade. À verdade do partido. Um comunista sofre quando vê o seu povo sofrer. Um comunista sofre quando vê os seus camaradas sofrer. Eu sofro com a vossa situação. Custa-me ver-vos aí derreados de porrada, com esses olhos de sofrimento e desilusão, com essa vontade alquebrada, com essa cara de dúvida e raiva. Mas digo-vos que esse vosso sofrimento também é o meu sofrimento, também é o sofrimento do Partido. Todos sofremos. Mas o sofrimento igualmente traz a luz sobre a verdade, também revela a personalidade de cada um, a sua vontade e, até, a sua dedicação ao Partido. Se depois desta situação difícil e penosa por que estais a passar não puserdes nem a nossa ideologia comunista em causa nem o Partido em dúvida é porque sois verdadeiros revolucionários. Ou seja, isso define a vossa posição de revolucionários na nova sociedade que juntos vamos construir.


Na manhã de segunda-feira, o camarada funcionário foi chamada perante um camarada juiz e acusado de cobardia, deserção no combate revolucionário, desleixo organizativo, esquerdismo, seguidismo, direitismo, imobilismo, centralismo, regionalismo, imobilismo, fracionismo, trotskismo, fraqueza ideológica e responsabilidade acrescida nas inúmeras fugas de informação. 


O camarada juiz condenou-o, por isso, à morte por fuzilamento. No fim perguntou-lhe: “Considera-se culpado ou inocente?” Ele limitou-se a chorar. 


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Quinta-feira, 19 de Setembro de 2013

Rua Direita - Chaves


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Quarta-feira, 18 de Setembro de 2013

O Poema Infinito (164): alma e fogo


Tolda-se-me o romantismo quando quase morro nos teus braços. Acaricio as mãos que sustentam o teu rosto. Tu és o futuro do meu passado. Os deuses, coitados, compram agora a sua glória. Os homens, felizardos, negoceiam a sua própria desgraça. Desventurados os que se sentem felizes. A vida é tão breve. Deus ungiu o seu filho para o matar. Afinal crucificou o seu mito, a alegoria do sol que abre os céus, a parábola de um deus vivo e de um filho morto. Depois entrámos na realidade e fecundámo-la. Vivemos agora dependentes desse instinto. Dessa encarnação ressuscitada. Dessa madrugada que precede a luz. Desse instinto confuso onde tudo começa a extinguir-se. O teu olhar desce sobre a terra e sobre os seus mistérios. Deus fadou-nos com a sua incerteza brutal, com a sua augusta imprevisão. Agora vigiamos o espírito inteiro da força que envelhece. As bênçãos são espadas. A noite escreve as lendas de um mito brilhante. Todos procuramos a beleza por achar no som presente a posteridade. A nossa alma é uma sombra eterna, um enigma que se encobre dentro do Santo Gral. O destino é uma inutilidade semântica. A terra fica fria. Pões-me as mãos sobre os ombros. A febre consome-me. Dentro de mim tudo vibra. A luz da calma e da inquietação sobe-me ao olhar. Divido-me entre o sentir e o querer. Divido-me entre o amor e o gládio. A minha alma é uma estrada estreita por onde passam palavras atrapalhadas. Abro os braços e o mundo varia, desço os olhos cansados na direção do teu rosto. O mar e os medos são anteriores a nós. Abre-se a terra expelindo cores e sons. As árvores do medo desembarcam. As aves sonham formas invisíveis. As flores ficam sós. O horizonte assume a sua perspetiva eterna de linha abstrata. Movimento-me dentro da tua esperança. Nessa distância imprecisa entre o amor e o tédio. Entre a expetativa e a vontade. Por mim escorre o medo dos átomos. Outros acharão o que eu procuro. A magia da evocação, a glória da história, o ato de deus, o gesto divino da criação, o destino das horas, a mão que desvenda a ciência da ousadia, o temporal da vontade humana, o acaso da luz e da sombra. Pelas montanhas ascende o silêncio sangrento da guerra. Toda a sorte é incerta. Deus projeta no céu a luz dos mártires. Sei agora que o mar não tem tempo. Por isso tenho saudades. Saudades da mão fria do vento, da ansiedade das brincadeiras, da hora adversa dos sonhos, da alegria densa de viver em casa, das brasas na lareira, das forças cegas que dormem ainda na penumbra das manhãs cinzentas. O mundo divide a luz. A tua voz chega-me afortunada e eu escuto-a como se fosse uma criança que mora onde o rei esperou pela sua coroação. Ele de gládio ungido revelando o Santo Gral e Excalibur. Eu dormindo ouvindo o som do mar, o som das ondas, o som dos intervalos da alma, erguendo as minhas asas de abandono. 


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Terça-feira, 17 de Setembro de 2013

Rua Direita - Chaves


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Segunda-feira, 16 de Setembro de 2013

Pérolas e diamantes (55): os cromos estão todos trocados

 

Nos cartazes de propaganda eleitoral, o PSD de Chaves insiste na sua trilogia argumentativa da “verdade”, do “trabalho” e da “competência”. Insiste, é verdade, mas pouco fez, ou faz, para que isso seja realidade.

 

Relativamente ao trabalho é à competência todos somos testemunhas que a Câmara de Chaves apenas se limitou a cumprir calendário. E muitas vezes nem isso.

 

Fora umas obritas atamancadas à última da hora, os vários anos de gestão autárquica de João Batista e António Cabeleira foram ou de imobilismo ou de retrocesso.

 

Algumas obras revelaram-se desnecessárias, daí o estarem ao abandono. São disso exemplo paradigmático a denominada plataforma logística, o mercado abastecedor e as infraestruturas da feira.

 

Umas constituem atentados ao bom senso ou ao bom gosto, como são os casos do Jardim das Freiras e do Jardim Público. Outras, até, não passaram do papel, apesar de terem sido adjudicadas e logo abandonadas, e das quais estamos a pagar chorudas indemnizações, como já vos demos conta.

 

A tudo isto ainda podemos somar o buraco por detrás da Adega Faustino (que continua a ser escavado ao ritmo do caracol, para insinuarem que ali vão fazer alguma coisa) e o cruzar de braços sobre a desqualificação do nosso Hospital e também do Tribunal de Chaves.

 

Tudo isto o vento levou. Daí o estarmos esperançados que leve também quem praticou tais dislates, para que o filme fique completo e tenha o fim que merece.

 

Esta introdução ajuda-nos a direcionarmo-nos no sentido do que hoje nos serve de tema de fundo: a “verdade” do PSD de Chaves, nomeadamente a que está plasmada nos cartazes espalhados pela cidade relativos aos candidatos à Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.

 

Estamos habituados a que nos cartazes as caras das fotos correspondam à dos candidatos inscritos nas listas entregues, e aceites, no Tribunal. E que a ordem também esteja de acordo com esses documentos. Ora nem uma coisa nem outra está impressa nesses anúncios.

 

Os placares e os panfletos distribuídos à população parecem uma caderneta com os cromos todos trocados. De facto, lá podemos ver 41 rostos. Só que, relativamente à lista entregue no tribunal, sobram 5, pois nas listas somente aparecem 13 elementos efetivos e 23 suplentes, que somam um total de 36.

 

Mas desses 23 suplentes, o tribunal exclui 10.

 

Para que a verdade seja reposta, e os eleitores saibam em quem vão poder votar, desde já passamos a informar que os seguintes candidatos nem sequer deviam figurar nas listas afixadas pela cidade, pois, como já referimos, foram excluídos pelo tribunal.

 

Segue-se a relação de excluídos: Sandra Sarmento, Alcino Neves, Francisco Santos, Ilda Maria Maia, António Setas, Almor da Costa, Sónia Pires Braz, José António Santos, José Carlos Matos da Conceição e Maria Olívia Cardoso.

 

Depois fomos tentar verificar se a ordem das fotos correspondia à ordenação das listas publicadas pelo tribunal. Outra surpresa desagradável. Não correspondia. Parece que as fotos foram colocadas aleatoriamente. Não adotam seriação nenhuma, pois nem sequer seguem a ordem alfabética.

 

Esta tentativa bacoca de baralhar, e confundir, os eleitores parece ter sido elaborada intencionalmente.

 

O que nos escapa é o critério.

 

As fotos do Rui Louro, do Hugo Silva, da Isaura Silva e do Alexandre Medeiros estão de acordo com as listas do tribunal.

 

O quinto elemento das fotografias é Luís Santos que surge nas listas do tribunal em vigésimo segundo lugar (nono suplente).

 

Já o sexto elemento da lista das fotos é Maria José Pessoa, sendo que na relação do tribunal aparece o nome de José Maria Carvalho. A Maria José Pessoa ocupa apenas o décimo segundo lugar dos efetivos.

 

Em sexto está Marília Abelha que nas fotos aparece em quadragésimo primeiro lugar.

 

A sétima foto é a de Alcino Rodrigues que surge nas listas em sétimo lugar. Bingo.

 

A oitava foto é a de Rui Vital, mas também está trocada com a lista do tribunal, onde aparece apenas como décimo quarto (primeiro membro suplente).

 

A nona foto corresponde a Sandra Sarmento que foi excluída das listas pelo tribunal, onde figurava apenas como vigésima sétima (décima quarta suplente).

 

Na lista do tribunal, em oitavo lugar aparece o nome de Nuno Veras que nas fotos surge colocado na vigésima primeira posição.

 

O nono elemento da lista nominal é Carina Tomás que apenas aparece nas fotos em vigésimo lugar.

 

O décimo das fotos é José Matos (que presumimos nós corresponder a José Carlos Costa Matos da Conceição) que nas listas nominais ocupa o 34º lugar (21º suplente), que, como já referimos, foi excluído pelo tribunal.

 

O décimo elemento das listas do tribunal é Júlio César Serapicos, mas aparece nas fotos apenas em décimo nono.

 

Já o décimo primeiro elemento das lista das fotos é Zulmira Oliveira, que aparece nas listas apenas na vigésima primeira posição (oitava suplente), ou seja, a aparecer no seu devido lugar teria de ocupar o vigésimo primeiro lugar na lista das fotos, que é ocupado, como já referimos, por Nuno Veras.

 

João Silva está corretamente colocado no décimo primeiro lugar. Segundo Bingo.

 

O décimo terceiro efetivo na lista nominal aparece devidamente colocado. Parabéns.  

 

A partir daqui vamos ser sucintos, senão ainda nos vamos perder mais um pouco neste labirinto da “verdade” do PSD local liderado por António Cabeleira. Decidimos, por isso, a partir daqui, apresentar sempre em primeiro lugar a posição da lista nominal e seguidamente a posição na lista das fotos.

 

O décimo quarto da lista nominal, e primeiro suplente, é Rui Vital, que aparece na lista das fotos em sétimo; e a décima quinta, Sandra Dias, aparece colocada em vigésima segunda. 

 

Agora de forma ainda mais simples: João Magalhães (3º suplente) é 16º e aparece em 25º; Domingos Pinho (4º suplente) é 17º e aparece em 22º; Filomena Teixeira (5ª suplente) é 18ª e aparece em 17º; Carlos Teixeira (6º suplente) é o 19º e não o encontrámos nas fotos com esse nome nem com outro parecido; Raul Grilo (7º suplente) é o 20º e aparece em 32º; Maria Zulmira Oliveira (8ª suplente) é a 21ª e aparece em 11º; Luís Miguel Santos (9º suplente) é o 22º e ocupa o 3º lugar nas fotos, como já referimos; Pedro Miguel Campos (10º suplente) é o 23º e aparece em 34º; Carla Sofia Rodrigues (11ª suplente) é a 24ª e aparece em 39º; Hélder Gonçalves (12º suplente) é o 25º e aparece em 16º; João Luiz Rodrigues (13º e último suplente) é o 26º e aparece em 18º.

 

Os restantes, como anteriormente referimos, foram excluídos pelo tribunal.

 

Esta é que é a “verdade” da lista do PSD de Chaves. O que vem no cartaz está profundamente errado. A quem aproveita a confusão e inverdade?

 

O PSD de António Cabeleira vai ter de baralhar de novo para dar cartas. Mas isso, já todos o pressentimos, não vai colmatar a falha do seu sistema de controle e persuasão.  


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Domingo, 15 de Setembro de 2013

Bombeiros IV


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Sábado, 14 de Setembro de 2013

Bombeiros III


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Sexta-feira, 13 de Setembro de 2013

O Homem Sem Memória - 175


175 – Todos ficaram incrédulos e num silêncio profundo a olhar para o José. Deitado no catre parecia Cristo estendido no santo sepulcro, mas ainda por limpar e cheio de sangue e equimoses. O Graça começou a chorar baixinho e a perguntar: “Porquê, porquê, meu Deus. O que fez ele de mal.” O camarada funcionário tentou racionalizar: “A sua traição parece-me agora evidente. O apóstolo da dúvida e da incerteza, finalmente encontrou o seu calvário.” O Graça dirigiu-se para a beira do amigo e pediu água para lhe lavar as feridas. Ninguém lha deu. Os guardas limitaram-se a cantarolar umas incongruências.


“Pai, pai, porque me abandonaste?”, perguntou o José. “Mãe, mãe, porque me abandonaste?”, voltou a perguntar o José. De seguida entrou em delírio. Por fim adormeceu. Ou desfaleceu, ainda não apurámos ao certo. Quando acordou e reparou que o Graça estava a seu lado, tratou-o por Pedro, mas injustamente, como todos sabemos. Entretanto voltou a desfalecer, ou a adormecer, ainda não apurámos ao certo. Quando acordou de novo pôs-se a falar com a mãe.


“Disseste-me que falei dentro da tua barriga, agora falo dentro da tua cabeça. Eles vão-me matar. Vão-nos matar. Fizeram-me confessar tudo. Tudo. E eu não tinha nada para confessar. Mas confessei tudo. Tudo o que eles exigiram.”


O Graça voltou a chorar. O José, tratando-o novamente por Pedro, disse para poupar as lágrimas, pois acreditava na sua amizade, apesar de o ter negado três, trinta, ou trezentas vezes: “O seguinte és tu.”


Todos os camaradas estavam encostados às paredes, hirtos e brancos como a cal. Apenas o camarada funcionário palrava: “Não tenhais medo camaradas. O Partido apenas quer apurar a verdade. Quem não é culpado não deve temer represálias. Vão ver como tudo se resolve por bem. Agora que descobriram o traidor, vão-nos libertar.”


O Graça pôs-se então de pé e correu caras a ele: “Meu grande sacana. Como és capaz de dizer uma coisa dessas de uma pessoa como o José. Ele traiu o quê? A verdade é que não, todos somos testemunhas. E muito menos a sua consciência de homem livre. Tu é que te trais a ti próprio quando pensas pela cabeça dos outros.”


Quando ia para lhe assentar uns murros nas ventas, foi impedido pelos outros camaradas que lhe disseram que não devia fazer o que outros fariam por ele. 


De novo se abriu a porta da cela, desta vez para chamarem pelo Graça. Ele recusou-se. A haver porrada que começasse o mais cedo possível. Além disso não tinha nada para confessar. E foi isso que gritou bem alto durante todo o trajeto.


No catre o José gemia e delirava. Os outros camaradas pareciam rezar. Apenas o funcionário continuava a tentar justificar a situação do ponto de vista marxista-leninista: “Só a verdade é revolucionária. Por isso temos de tentar sempre encontrá-la. Mesmo que o processo seja doloroso.” E lá continuou a debitar outras idiotices do género. Alguém perguntou: “Achas que o Graça também é traidor? Algum dia viste ou soubeste algo que o possa incriminar?” Ao que o camarada funcionário respondeu: “Eu assim diretamente não. Mas nunca se sabe. Quem tem amigos traidores é potencialmente um traidor também.” “Então todos somos traidores.” “Todos não. Eu não sou amigo do Graça e muito menos do José. Tratei-os durante algum tempo por camaradas, pois pensei que o eram. Mas nada mais do que isso. Limitei-me a cumprir com as ordens do Partido. Quando soube da dissidência do José fiz aquilo que qualquer dirigente pode e deve fazer, transmiti essa informação aos organismos dirigentes. Eles depois lá fizeram o resto. E acertadamente, como se vê.”


A pesada porta voltou a gemer nos gonzos. Por ela entrou outro cristo ensanguentado e cheio de chagas. Nisso os camaradas tinham sido exemplares, ninguém conseguia distinguir um cristo do outro, de tão maltratados que estavam.


“Afinal o Graça também é traidor. Veem camaradas, como tinha razão”, gritou o camarada funcionário apontando na direção do segundo cristo. Os restantes camaradas já não lhe passaram cartão nenhum, dirigiram-se ao Graça e trataram de o amparar e de o estender no catre. Alguém pediu água para lhe lavarem as feridas. Responderam-lhe que o fizesse com a saliva, pois a água no Alentejo é um bem muito escasso.


Também o Graça gemeu e delirou. Quando se abeirou de si o camarada funcionário para tirar alguma informação, ele apelidou-o, e com razão, de Judas e cuspiu-lhe na cara um jato de sangue. Depois chamou os outros camaradas e confessou-lhes com as lágrimas nos olhos: “Também eu confessei tudo.” “Tudo o quê?”, perguntaram-lhe incrédulos. “Tudo o que eles queriam. Agora todos somos traidores.” “Mas nós não traímos nada, nem ninguém.” “Por isso mesmo. Quando lhes disse isso, responderam-me que estava a esconder algo de muito grave. Por isso é que estávamos presos. O Partido, argumentaram eles, nunca se engana. Por isso ou confessamos os crimes ou a tortura continua até obterem a reconhecimento da verdade. Dali não saem. O melhor é confessar o mais depressa possível o que eles querem. No entanto subsiste um problema, é conseguirmos acertar com aquilo que eles pretendem que a gente confesse. Quando existe culpa, não é difícil acertar com a resposta. O problema é quando se está inocente e nos culpam de algo que não sabemos bem aquilo que é.”


Alguém confidenciou: “Isto é bem mais complicado do que eu pensava.” “Pois. Se confessas rápido desconfiam que lhes estás a mentir. Se nada lhes confessas, suspeitam que lhes estás a encobrir a verdade. Pois para eles nenhum de nós é inocente. Se todos dizemos o mesmo imaginam que estamos todos combinados na mesma mentira. Se cada um diz coisa diferente, desconfiam que estamos todos a mentir com o propósito de lhes indicar pistas falsas, o que ainda os põe mais furiosos.”


Alguém mais impaciente perguntou-lhe como tinha ele acertado com a confissão. Ao que ele respondeu que foi por tentativa e erro. Quando depois de uma resposta sua lhe batiam ainda mais, deduzia, e bem, pensamos nós, que ia no caminho errado. Então tentava nova resposta. Se a porrada continuava com grande intensidade, tentava inventar outro tipo de resposta. Se a bordoada diminuía seguia esse caminho e assim sucessivamente até a porrada cessar e eles se darem por satisfeitos.


Perguntaram-lhe então que tipo de resposta é que eles deviam dar para não levarem tanta cacetada. O Graça, como bom camarada, disse-lhes que se lhes explicasse o que ele tinha confessado era certo e sabido que levavam tanta porrada ou ainda mais do que ele e do que o José. A melhor estratégia era mesmo irem tenteando as respostas pela intensidade da sova. Muita sova queria significar que se tinha de mudar de rumo. Porrada de criar bicho, todos tinham de levar. O estratagema era não morrer no interrogatório ou ficar paralisado para a vida inteira.”


Abriu-se de novo a porta e foi gritado novo nome. O camarada respondeu presente. E lá foi cumprir com o castigo. Apurar a verdade é, como estamos a tentar provar, uma tarefa dificílima. 


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Quinta-feira, 12 de Setembro de 2013

Bombeiros II


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Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013

O Poema Infinito (163): o desígnio dos poetas

 

Os teus lábios embalam as palavras. Baloiças na minha nave ágil. Estou alerta. O meu canto afaga as ondas. As vagas erguem-se e rumorejam. Um sol ébrio ergue-se no céu como um titã. O silêncio é agora uma seta que incendeia o mundo. Frutos brilhantes vergam os ramos das árvores. As árvores ficam maduras. As estrelas luzem no céu. As praias ficam grisalhas. As sereias cantam e rezam. Os barcos ficam paralisados. O tempo revolve a água. Agosto ergue-se por entre os fogos que devoram as árvores. Anoitece. O céu fica da forma de porcelana. Os momentos tornam-se conscientes. Respiramos a alegria dos jardins e a eternidade do vidro. Fico irreconhecível. O desenho amado do teu corpo esbate a tempestade. Lembro-me de acordar quando os sinos ralhavam rasgando as manhãs de domingo. Os antigos campanários que ostentavam a sua antiguidade acolhiam as preces dos crentes. Todos aprendiam a violar as promessas. Os corações dos jovens ficavam embriagados. Os padres desmentiam as relíquias. A minha alma quebrava-se ao som dos sinos. As nuvens eram como corações vestidos. Deus revelava então o desígnio dos poetas. Os fantasmas exigiam os seus corpos. As palavras sagradas unem-se à carne. Os objetos tornam-se secretos. Todos esperamos pelo sinal redentor. O poeta tece um cordel de palavras. O medo infiltra-se no bosque e fica sombrio. Carreguei-o eu como uma cruz. Os pinheiros ficam assombrados. Na praia, as ondas murmuram espuma. És agora uma imagem imprecisa e ansiosa. Sussurro-te os nomes dos pássaros que voam em despedida. Atrás de nós a gaiola fica vazia. Na nossa frente, a nevoa é espessa. Este momento torna-se misterioso. Os caminheiros desenham novos caminhos com os seus bordões. Nos relógios bate a eternidade. Também sou agora um peregrino que canta a sua angústia enquanto caminha. Transporto no alforge fólios antigos e desbotados. O meu olhar desce em avalancha pela montanha. Apenas a música nos salva dos abismos. Tornaram-se inseparáveis o medo e a queda. O pânico fica vazio de sentimentos. Meço então o tempo e as naves de pedra e dentro dos templos penduro as estrelas com correntes. Penso no desígnio luminoso das abóbadas e dos arcos e na beleza dos templos mergulhando nos vitrais, que são agora janelas onde triunfa a luz. Arcanjos seguram a beleza das cúpulas. O edifício faz agora sentido dentro da sua redondez. Nele já triunfou a penetração dos séculos. Desvendo o peso bruto dos muros, o abismo racional dos pecados, o desvario das florestas ardidas, a timidez cristã das capelas, a alma gótica de Deus. Sonho um dia criar coisas belas e acreditar no peso malévolo da perfeição. Os crentes são arrogantes tímidos. Da minha boca saem cânticos que golpeiam o silêncio. Os sonhos são agora errantes. Os netos procuram os tesouros dos avós. Erguem a sua voz própria e, dentro da igreja, cantam em coro enaltecendo a beleza arqueada dos jardins, a altura divina das cidades, a nostalgia da verdade. Os pescadores morrem sentindo que a areia da praia esfria e proferem os nomes do tempo através dos tempos. O ar fica turvo, a água escura. Tomo nas minhas mãos a tua distraída alegria. Liberto a nau das suas amarras. Oiço agora as sombras da tarde e o que resta dos nossos beijos. As abelhas saem das colmeias e começam a zumbir no meio dos bosques entre a melissa e a hortelã. Ainda se alimentam de tempo. Depois fenecem dentro do seu júbilo doce. A noite cresce dentro da sua mágoa. E chora desenganada do mundo. A desilusão torna-se eterna.  


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Terça-feira, 10 de Setembro de 2013

Bombeiros I


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Segunda-feira, 9 de Setembro de 2013

Pérolas e diamantes (54): temos de nos levantar

 

Foi quando o ar me faltou por causa dos incêndios que me apercebi da importância de respirar.

 

E ele faltou-me segunda vez quando li as declarações de António Cabeleira e de João Batista sobre o seu suposto altruísmo. O dele e o dos seus correligionários. De facto, o altruísmo que eles defendem é do género individualista, do que se diz pôr ao serviço da comunidade, ou seja, deles próprios.

 

Em ata de Câmara de 16 de julho de 2013, relativa à audiência realizada com a senhora Ministra da Justiça, a 9 de Julho, o senhor presidente em exercício, e putativo candidato a presidente da Assembleia Municipal, João Batista, fez saber que, nomeadamente na alínea c, “irão continuar a ser realizados em Chaves julgamentos cujos valores envolvidos sejam superiores a 50 mil euros”.

 

Mas, contrariando as suas palavras demagógicas e falazes, e também a encenação lacrimejante de algumas figuras femininas das listas do PSD local às autárquicas, o Tribunal foi mesmo desqualificado e de forma ainda mais gravosa do que a prevista. A lei nº 62/2013, de 26 de agosto, denominada “Lei de Organização do Sistema Judiciário”, define que o Tribunal de Chaves nem sequer fica com os julgamentos até 50 mil euros, como o senhor João Batista apregoou aos sete ventos, pois apenas pode vir a julgar causas cíveis que não ultrapassem os 30 mil euros.

 

E desta maneira se destrói uma cidade, uma região e um país. No nosso céu começam a voar pássaros negros à velocidade do desespero. Eu ri-me para não chorar. Mas fi-lo a modinho. Com esta câmara, e este governo, qualquer dia, rir passa a ser crime e lá vou eu a Vila Real para ser julgado.

 

E assim vai a nossa cidade e o nosso país carregadinhos de dívidas e de dúvidas a caminho do abismo.

 

Portugal continua a ser um país para quem tem olho e não é cego. Mas tem de ser aldrabão. Portugal é só para alguns. Para os partidos e para as suas clientelas.

 

Depois do 25 de Abril começaram a aparecer rapidamente as oportunidades para os oportunistas. Os corruptos, disfarçados de democratas, começaram a circular nos bastidores do poder. Muitos vigaristas tomaram conta dos partidos políticos e também das empresas nacionalizadas. Os profetas do novo mundo e do progresso social enriqueceram com os dinheiros públicos. Entretanto, as empresas nacionalizadas foram privatizadas pelos que as passaram a gerir em nome do interesse público e de economia de mercado. A finança assenhoreou-se dos cofres do estado.

 

Houve décadas de democracia participativa. As eleições sucederam-se. Houve governos de direita e de esquerda. Portugal, diziam eles, desenvolveu-se a um ritmo excecional.

 

As pessoas sentiram esse desenvolvimento, pois cada vez tinham mais dívidas e os bancos mais dinheiro. Pelo meio, os Governos pragmáticos e desenvolvimentistas começaram a destruir os serviços públicos, pretextando estar a salvá-los. As empresas privadas construíram monopólios intocáveis. Os velhos senhores de antigamente voltaram a mandar na economia e no aparelho do Estado.  

 

Os partidos políticos passaram a financiar as suas campanhas eleitorais com dinheiro saído dos cofres públicos e também do que foi escorrendo como prémio pelas obras faraónicas construídas pelos senhores e as empresas financiadas pelo Estado e com ele se pagam os cartazes, as festas, os almoços, os lanches e os jantares e a propaganda balofa e demagógica que metamorfoseou a nossa democracia numa frivolidade.

 

De eleição para eleição, os números da abstenção aumentam, bem assim como a distância entre quem vota e quem vai ocupar as cadeiras do poder. A democracia representativa é cada vez mais uma farsa, na qual os partidos políticos representam, não o povo, mas a si próprios, os seus interesses e os das suas clientelas. A classe política tomou definitivamente de assalto as instituições públicas e privadas.

 

As promessas eleitorais já não estabelecem compromissos entre ninguém. A seguir às eleições transformam-se em mentiras do tamanho da percentagem obtida, pois a “situação real do país” assim o determina. É desta forma que se legitima a impunidade dos poderosos, a “palavra” perde o seu valor ancestral, a honra é considerada uma subterfúgio linguístico e a seriedade uma futilidade fora de moda. Os interesses públicos e privados misturam-se de tal maneira que já ninguém sabe onde fica a zona de fronteira. A promiscuidade é agora uma licitude e a corrupção um lóbi democrático.

 

Depois da entrada na comunidade europeia tudo foi subsidiado. As empresas engordaram como porcos na ceva.  As desigualdades sociais aumentaram. E o trabalho é agora encarado como um privilégio dos pobres. O dinheiro a fundo perdido perdeu-se em carros, jipes e tratores ou barcos de recreio. As fábricas desapareceram, os barcos de pesca foram abatidos, as vinhas arrancadas, os eucaliptos plantados. Os agricultores foram pagos para não trabalharem. O crédito ao consumo foi incrementado como o direito a ficar endividado sem dor. Todos passámos a ter cartões de crédito de todas as cores. Começou a trocar-se de carro de três em três anos. Construíram-se casas e mais casas. Rotundas e mais rotundas. Os construtores civis passaram a ser os novos deuses para as câmaras municipais.

 

Agora até o trabalho precário é um avanço civilizacional e uma melhoria da qualidade de vida da comunidade e da solvência das empresas e do Estado, que já não é social, mas mínimo.

 

Em vez de cidadãos, agora somos contribuintes e consumidores. Em vez de seres humanos, somos números. E em vez de indivíduos, somos estatísticas numa folha Excel.

 

Fomos atirados ao chão. Mas já a minha avó me dizia: Se queres ver alguém como realmente é, vê-o a erguer-se. 


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Domingo, 8 de Setembro de 2013

Repouso


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Sábado, 7 de Setembro de 2013

Concentração


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Sexta-feira, 6 de Setembro de 2013

O Homem Sem Memória - 174


174 – “Não, mãe. Não me bata mais. Não fui eu que roubei os rebuçados dos cromos da bola no Azeiteiro. Foram o Carlos e o Alcino. Eu apenas fiquei à porta a ver se vinha alguém. Não me bata mais.”


Quando o José despertou do seu sono e abriu os olhos é que reparou onde estava e quem lhe estava a bater para o acordar. Eram dois guardas que tinham ordens expressas para levarem o prisioneiro para interrogatório. E foi isso que fizeram. Como ele se recusava a ir às boas, deram-lhe uns murros para lhe quebrarem a teimosia.


“Se não vais a bem vais a mal”, gritaram-lhe enquanto o arrastavam pelo chão como se fosse um animal. “Ajudem-me”, pediu ele aos seus camaradas do Norte. Mas eles nada fizeram. Não mexeram um dedo. Apenas o Graça esboçou a sua indignação gritando aos guardas que camaradas não batem em camaradas. Os carcereiros riram-se-lhe na cara. Os outros prisioneiros limitaram-se a aconselhar-lhe calma. Ele assim procedeu. Não tinha outro remédio. Numa prisão, a prudência é a arma mais eficaz. A prudência e o silêncio. E também o respeitinho.


Atónitos, os camaradas do Norte puseram-se a conversar em surdina sobre o que acabavam de presenciar. O Graça era o mais indignado. “Não havia necessidade de lhe baterem! Camaradas não batem em camaradas”, insistiu. O camarada funcionário, ainda em exercício, pelo menos era isso que ele pensava, tratou logo de fazer o ponto da situação. “Levaram o rachado para averiguações. Quem trai o Partido, mais cedo ou mais tarde, acaba por ter de pagar o preço da traição.” Ao que o Graça retorquiu: “Como é que eles sabem que o José é rachado?” Fez-se silêncio no grupo. Perante a pertinência da pergunta, o camarada funcionário limitou-se a lembrar que o Partido tudo sabe e tudo vê. O Graça disse, virando-se na direção do aparente líder do grupo: “Com a verdade me enganas.” Ao que o camarada funcionário replicou: “Só a verdade é revolucionária.” “Um caralho, é o que é. A haver alguma verdade nisto tudo ela só pode ter sido apurada porque alguém deu com a língua nos dentes. Eu conheço o camarada José. Ele até pode não ser lá grande comunista, mas é um homem bom e íntegro. Não merece que façam dele um traidor. Ele nunca traiu ninguém…”


Todos olharam para o camarada Graça e acenaram com a cabeça em sinal de concordância. O camarada funcionário, vendo que a dúvida reacionária se começava a instalar na cabeça dos restantes camaradas, atacou: “Ele traiu o Partido.” “Como assim?”, duvidou o Graça. “Deixou de acreditar na revolução e no comunismo”, replicou o camarada funcionário.


De seguida sucedeu-se o seguinte ping-pong argumentativo, que nós transcrevemos, mas sem tomar posição, como mandam as boas regras da independência e da democracia. “E isso é traição?” “É o maior ato de traição que um comunista pode fazer.” “Duvidar não é trair.” “Ai não que não é. É sim senhor.” “Não é não senhor. Duvidar é tentar pensar para atingir a verdade.” “A verdade, uma vez atingida, não pode ser posta em causa. Pois se é verdade, nunca poderá vir a ser mentira.” “A verdade é relativa.” “Eu falo da verdade revolucionária. Essa é indesmentível, incorruptível e indestrutível.” “O comunismo é a verdade absoluta.” “Ou a mentira absoluta.” “Como te atreves a afirmar uma coisa dessas.” “Estou a tentar perceber e a tentar explicar aos camaradas presentes que tudo pode não passar de uma grande ilusão.” “Tudo, o quê?” “Pois, tudo. Tudo é tudo.” “Agora filosofas?” “Tento compreender.” “Queres compreender o comunismo?” “Não. Quero compreender a razão por que uma dúzia de camaradas que tentaram iniciar uma revolução armada numa terra onde o comunismo é, para a maioria das pessoas, um pecado mortal, foi presa, esbofeteada, trocada por prisioneiros reacionários do Sul e, quando chega a terras da liberdade e do socialismo, é feita novamente prisioneira e torturada…” “Torturada?” “Sim. Ou achas que a porrada que deram no José não passa de uma massagem corporal?” “Na minha perspetiva, aplicaram-lhe um corretivo porque sabem quem ele é e o que fez.” “E o que foi que ele fez?” “Renunciou ao comunismo e juntou-se a ladrões e assassinos.” “Isso é o que te dá jeito pensar.” “Todos somos testemunhas disso.” “Vês, tu já o traíste.” “O José é que se traiu a ele próprio.” “Tu é que traíste o grupo. Traíste a confiança que depositamos em ti.” “Limitei-me a fazer um relatório sobre a nossa atividade.” “Limitaste-te a contar a «tua» verdade.” “Ele traiu.” “Quem?” “O Partido.” “Mas não traiu os seus ideais.” “O ideal de um comunista é o comunismo.” “Então não é a verdade?” “São sinónimos.” “Então o ideal comunista é prender pessoas que lutaram pela libertação do seu povo.” “Não foi isso que eu disse.” “Mas é isso que está a acontecer.” “Não, o que está a acontecer é o apuramento da verdade. O Partido quer saber, e tem todo o direito de o fazer, se algum dos seus militantes o traiu. Uma maçã podre no meio de uma cesta delas sãs acaba por fazer com que as restantes apodreçam também.” “Nunca pensaste que a maçã podre podes ser tu?” “Como te atreves a insultar-me dessa forma. Eu sou um comunista puro, sincero e obediente…” “Lá obediente podes ser, agora puro e sincero…” “Para mim o Partido está acima de tudo. Até acima das dúvidas, da amizade e da própria família. Eu estou a tentar salvar-nos.” “Melhor será dizer que estás a tentar salvar-te. Afinal apenas conseguiste arregimentar onze comunistas, um deles «traidor e rachado», mais um maluco e um burro, que não conquistaram nada nem ninguém. A tua guerrilha foi uma desilusão.” “Não tenho culpa. As circunstâncias assim o ditaram.” “Olha que se calhar o traidor que eles verdadeiramente procuram és tu. Tu é que traíste a revolução ao deixares-te apanhar sem sequer disparar um tiro. Sem matar ou ferir um reacionário. Sem teres conseguido libertar um palmo de terra. Além disso, é bom que não esqueças que fomos vencidos por meia dúzia de reacionários que fizeram de nós prisioneiros utilizando apenas as mãos. Tens de reconhecer que só podemos ser motivo de galhofa. E de vergonha. O Partido vai fazer-te as contas.” “Eu fiz aquilo que me foi pedido e que as circunstâncias me possibilitaram. Eles sabem muito bem que o responsável pela derrota foi o José. Ele é que foi o traidor. Ele e, agora pensando melhor, tu também.” “Ou muito me engano, ou sinto que a nossa sorte está ditada. Mas olha que tu estás na mesma situação. Não te safas. Apesar dos teus relatórios, não te safas. A tua verdade não vence a verdade deles: a do Partido.”


Silêncio.


Desesperado, o camarada funcionário disse: “Proponho aos restantes camaradas que o camarada Graça seja também considerado traidor e rachado, à semelhança do rachado e traidor José.”


Mas em vez dos camaradas votarem a proposta, sentindo a porta a ranger nas dobradiças, olharam nessa direção e, para seu espanto e temor, viram entrar Jesus Cristo amparado após a sua via crucis


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Quinta-feira, 5 de Setembro de 2013

Olhares


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Quarta-feira, 4 de Setembro de 2013

O Poema Infinito (162): guerra


Antigamente os filhos mais valorosos matavam-se para libertarem o bem. Antes do sacrifício saciavam-se de vinho. E de verdade. E morriam combatendo todo o dia contra o inimigo. Os seus corações eram audazes. Incendiavam os vales e rodopiavam em volta das labaredas. O vento soprava por todos os lados. Os carros ficavam manchados de sangue dos cadáveres. Mas eles continuavam a lutar salpicados de púrpura viva e de pó para atingirem a glória. Os homens encontravam a morte abandonados. Os seus inimigos e os seus deuses eram cruéis. Alguns morriam olhando para ilhas distantes. E a desgraça chegava quando todos perdiam a razão. A desonra era chegar a velho. Ninguém aguentava presenciar tanta desgraça. E não lutar. Os filhos morriam depois dos pais, as filhas eram maltratadas, as câmaras nupciais eram vandalizadas, as crianças de tenra idade eram atiradas ao chão. Por fim, os cães vorazes dilaceravam os corpos inertes. Os ainda vivos arremessavam as suas armas aos cães. Nos palácios, os ciclopes guardavam as portas enquanto os reis enraivecidos bebiam o sangue dos guerreiros mais intrépidos para lhes ficarem com a coragem, com a força. E a loucura. Os cadáveres dos filhos dos reis eram expostos em câmara ardente atravessados por espadas agudas de bronze. Tudo neles era belo. Até a morte. Cá fora, os mastins devoravam os órgãos genitais dos pobres mortais. As viúvas, dentro dos casebres, mergulhavam num luto terrível. E amaldiçoavam a guerra. Para elas não havia futuro. Outros se apoderavam das suas terras e dos seus corpos. As crianças órfãs andavam sempre de cabeça baixa e com as faces molhadas de lágrimas. Além da dor que sofriam, eram obrigadas a dirigirem-se aos amigos dos pais para lhes pedirem vinho. Puxavam-lhes pelas túnicas e pelas capas. Eles estendiam-lhes rapidamente as taças e apenas lhes deixavam molhar os lábios. Mas não a boca. Aos que tinham ainda os pais vivos batiam-lhes, injuriavam-nos e expulsavam-nos dos festins. Os meninos voltavam então para junto das suas mães viúvas e tentavam dormir. Nunca sonhavam. Não sabiam sonhar. Quando cresciam iam defender as portas e as altas muralhas das cidades. Então olhavam para as naus e também para os palácios onde os seus senhores vestiam longas túnicas douradas e as respetivas esposas se saciavam de sexo e luxúria com escravos de cor de ébano. Os senhores riam-se. As mulheres gemiam. Os deuses espalhavam a sua loucura ventosa pelos mares. As rochas fendiam-se. A população andava pela terra em enxames compactos cumprindo a vontade dos deuses. O chão ressoava terrivelmente debaixo dos seus pés. Eles não sabiam que era a sua coragem louca aquilo que os matava. E os fazia matar. Não havia consolação. Não havia destino. As cidades eram inacessíveis. Mesmo assim, os mais corajosos tentavam assaltá-las. As suas mulheres tinham vergonha de tudo. E preocupavam-se. E batiam no peito, porque sofriam imenso. Os melhores guerreiros domavam os cavalos. Os melhores senhores domavam os guerreiros. E os melhores reis domavam os senhores. No céu as estrelas brilhavam. Os deuses bem-aventurados tocavam o cume dos céus para sentirem a sua suprema glória. Os ricos ofereciam aos seus deuses ovelhas, bois e vinho adoçado com mel. Mil fogueiras ardiam. O vento invadia a planície. O céu rompia em pranto. O clarão cegava os deuses da paz. Do alto do seu trono dourado, o supremo deus da guerra avisava os homens que estava novamente no momento de mais uma guerra começar. Ninguém era capaz de dizer se o sol, a lua e as estrelas continuavam a existir. 


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Terça-feira, 3 de Setembro de 2013

Rostos


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Segunda-feira, 2 de Setembro de 2013

Pérolas e diamantes (53): petas, golfinhos, peter pan’s, coragem e corações


Dizem que foi Charles Dilke, um político republicano liberal inglês, que classificou as afirmações falsas desta maneira e segundo esta ordem: petas, mentiras e estatísticas. Eu, depois de ver aquilo que tenho visto, e lido por aí, acrescentarei, com vossa licença, uma quarta: as sondagens.

 

Mas não é de sondagens que hoje pretendo falar, mas sim das estatísticas que o Governo diz possuir sobre uma ténue – qual brisa passageira – recuperação económica. Mas, para ser honesto, a crónica acabava logo aqui.

 

Li nos jornais, e vi na televisão, que nasceu no Estuário do Sado, há poucas semanas, um golfinho. No entanto, rapidamente a boa notícia passou a má, pois o bebé golfinho morreu.

 

As autoridades aperceberam-se da sua morte quando viram a mãe trazer o corpo do pequeno roaz à superfície, forçando a respiração, que é o comportamento habitual nestes casos. O golfinho representava a esperança de um estuário que está ser abandonado pelos golfinhos.

 

São os golfinhos a abandonar o Estuário do Sado e os portugueses, sobretudo os mais jovens, a abandonar o país. Mas para o executivo de Pedro Passos Coelho isso até é bom. Saudável mesmo.

 

Entrementes, o Governo bafejou-nos com outra peta: a subida do emprego. Ao que veio nos jornais, o emprego aumentou, mas apenas em fundações e gabinetes de ministros. Ou seja, para sermos claros, o número de colaboradores dos nossos governantes cresceu 4,7% desde que o executivo está em funções.

 

António Capucho, ex-secretário-geral do PSD, olhando para o país e para as escolhas autárquicas do seu partido, afirmou textualmente que o PSD está dominado “no governo pelo CDS e no partido por organizações secretas”. Mas foi mais longe: “o PSD está a apunhalar a social-democracia e a transformar-se num bando de oligarcas que se encerram em si próprios e não permitem a democracia interna. A culpa é da influência das organizações secretas.”

 

Quando estava a ler isto no jornal, veio-me à ideia o PSD de Chaves e o seu líder e não consegui conter o riso.

 

“Não tenho dúvidas pelo que vejo publicado em livros e artigos jornalísticos que há influência excessiva de certas sociedades secretas dentro do PSD, mas considero ainda pior a influência das oligarquias que vieram acabar com o debate interno.” Isto foi o que António Capucho disse, não fomos nós, é preciso que se note. Mas assemelha-se demasiado ao que muitos militantes do PSD da concelhia flaviense nos confidenciam, quase em segredo, não vá o líder saber e pô-los fora das listas ou no olho da rua.


O grande problema desse monólito político conhecido como António Cabeleira, nem sequer são as sondagens, que o prejudicam, mas que ele quer que prejudiquem outros. O grande problema é a sua falta de credibilidade. Ele não inspira, nem transmite, confiança.

 

De facto, António Cabeleira, qual Lucky Luke, intriga e cria inimigos mais rápido que a própria sombra. 

 

Outro social-democrata, dos antigos, é preciso que se diga, José Miguel Júdice, afirmou ao “Jornal de Negócios” que “era necessário um golpe de estado, ou uma revolução, que mudasse o sistema político português”.

 

E aponta algumas razões para a atual crise. “A geração dos meus filhos, e a geração seguinte, está a pagar um preço injustíssimo da bandalheira, do abuso, do egoísmo, da falta de sentido de Estado e de futuro, de gerações sucessivas que tomaram conta do poder a seguir ao 25 de Abril. Vão pagar um preço trágico que podia ter sido evitado.”

 

Na sua opinião, que por acaso também partilho, em parte, “estamos a viver um momento de complexo de Peter Pan”. “Esta crise política que estamos a viver é um caso típico de dois adolescentes tardios. Duas pessoas [Passos Coelho e Paulo Portas] que têm enormes qualidades, mas que nunca fizeram a sua maturação.”

 

Descontando as “enormes qualidades”, que pensamos ser um sinal de boa educação, podemos transpor as duas afirmações para a política local, pois tanto o candidato do poder como a sua congénere da oposição, a nosso ver, sofrem, a nível político, do complexo de Peter Pan.

 

Além disso, tanto no país, como nosso concelho, os partidos do arco do poder têm grandes dificuldades em enfrentar os poderosos grupos de interesse. Também eles se deixaram iludir pelo excesso de dinheiro. Por isso o país está falido. E a nossa Câmara também.

 

Poderão os estimados leitores falar da diferença ideológica que separa os partidos, mas, até nisso, Júdice tem razão. Ele, um agnóstico do Estado. “É uma ilusão pensar que o socialismo não se dá bem com o capitalismo – dão-se muitíssimo bem. Os grandes grupos conseguem tirar vantagem [recebem dinheiro aos montões do Estado], as pequenas e médias empresas é que têm dificuldade [até em chegar às migalhas].”

 

Posto perante a sugestão de uma solução política para o sistema político português, Júdice não teve papas na língua: “Precisávamos de acabar com estes partidos.” Eu não consigo chegar tão longe, a isso me obriga a coerência e a minha militância democrática, mas…

 

Mas contra a raiva e a vontade dos partidos, e com a determinação e o entusiamo da população, os Movimentos Independentes são uma força enorme pelo país fora e também no nosso concelho.

 

É como diz o poeta: quando toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.

 

Ter Chaves no Coração não é apenas uma expressão feliz, é, sobretudo, um sentimento imorredoiro.

 

E os flavienses sabem-no tão bem ou melhor do que nós.  


publicado por João Madureira às 07:45
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Domingo, 1 de Setembro de 2013

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