Quinta-feira, 31 de Outubro de 2013

Pensando


publicado por João Madureira às 07:45
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Quarta-feira, 30 de Outubro de 2013

Poema Infinito (170): a sombra do tempo


Quero ignorar absolutamente a imobilidade dos mares invisíveis. A sua lucidez abandonada, as suas marés sem margens, a sua distração líquida. Do teu olhar nasce o silêncio mais delicado. A tua inocência é branca e tão concreta como o aroma levíssimo da aurora. Tu és a minha exatidão terna e subtil. Entretanto ondulo dentro de uma alfombra transparente e permaneço dentro do navio que harmoniza a natureza das coisas. Todo o olhar é um novo nascimento. Os rostos movem-se como sombras esquivas. Deitamo-nos dentro de minúsculas constelações de estrelas anãs saboreando a sua verdura dourada. Uma estrela de musgo solitária torna-se incandescente. Imaginamos a matéria. Bebemos o prazer por um cálice cristalino. Os livros são agora nuvens que se embriagam como aves ingénuas. A felicidade é dissimulada e sôfrega. Nascemos ao ritmo do júbilo e da agonia. As casas engolem os seus abismos interiores. Adormecemos nos ombros do mundo. Habitamos o interior dos livros e vivemos cingidos pela sua claridade ofuscante. Abrem-se as janelas para a luz entrar. As palavras vibram como meteoros. Estátuas aéreas elevam-se à nossa frente. Levantamo-nos para atravessar a queda interminável do desejo. Os nomes desfazem-se. As aves escondem-se dentro da sua própria sombra. Renasço a partir de ti. O horizonte entra-nos pela casa dentro iluminado pela permanência dos sorrisos. Florescem as palavras na orla das páginas. Do ventre da terra nasce a lentidão do pão. E o silêncio absoluto. Do mar chegam os presságios do arco-íris e os eclipses do vento e a distância dos nomes e os argonautas embriagados. As flores escodem-se dentro das árvores para fabricarem o sexo das sereias. Por isso é que as magnólias são eloquentes. Por isso é que o silêncio do espaço é absoluto. O vento sopra desesperado, tentando apagar as estrelas do céu. Escrever é tentar criar sempre uma nova versão do mundo. Por isso é que queremos ser outros em vez de nós. Ninguém consegue perceber todo o processo da transformação. Por isso inventamos o reconhecimento das trajetórias paralelas e as referências exatas. Ó preciosa fragilidade da geometria dos gestos, envolve-me na tua cúpula incandescente. Já não é este o tempo de sonhar. Acendem-se as lâmpadas fúnebres do sofrimento. Acendem-se as lâmpadas sombrias do tempo. As dúvidas continuam suspensas nas nossas gargantas. As certezas são círculos de pedra. Nas casas abandonadas moram as memórias obscuras. É lá que se escondem os relâmpagos de fúria. As palavras caem-nos nas mãos como lágrimas. E deliram. O seu princípio de evidência é a liberdade. Por isso é que os poemas nascem entre o silêncio e o desejo. Por isso é que os delírios se tornam legíveis. Os sinais passam rápidos. Páginas brancas transformam as palavras em pó. Lembra-te que és pó e ao pó hás de tornar. 


publicado por João Madureira às 07:45
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Terça-feira, 29 de Outubro de 2013

Assando o porco


publicado por João Madureira às 07:45
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Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013

Pérolas e diamantes (61): intelectuais e… intelectuais

 

Todos o sabemos, Portugal não é um bom país para intelectuais. Por isso é que eles não abundam por cá. E os que existem são olhados de soslaio ou são mesmo vítimas da má-língua e do escárnio.

 

A palavra “intelectual” é utilizada em Portugal sobretudo para denegrir e quase nunca para elogiar. Chamar intelectual a alguém é uma forma de insulto. Um intelectual é alguém que tem a mania que lê, que escreve e que pensa pela sua cabeça. Além disso, um intelectual é sempre alguém que gosta de se armar em… intelectual.

 

O intelectual é o tipo de pessoa que se deve evitar porque é determinado, obstinado e muito dado à reflexão. E como refletir leva muitas vezes a colocar tudo em causa, o intelectual é, por definição, um agitador.

 

E um agitador desestabiliza, pergunta, responde, inquieta e assusta.

 

E Portugal, sobretudo o Portugal provinciano, assusta-se com a desestabilização, com a inquietação, com as perguntas, com a cultura, com os livros, com a escrita, com as ideias.

 

A excelsa província inquieta-se com a cultura e com os intelectuais, que, por definição, são aqueles que a produzem.

 

Por isso os políticos provincianos utilizam os intelectuais, e a cultura, como arranjos florais para de vez em quando os exibirem em festas e comemorações. Depois aconselham-nos a ir para casa ler e escrever, pois é aí que devem estar, em reflexão, em meditação, escrevendo para a gaveta, esgotando-se no remanso do lar, definhando como bibelôs de estante. 

 

De facto, os designados como intelectuais são bichos estranhos, pouco dados a carreirismos, a subserviências, por isso são tão mal-amados ou mesmo vilipendiados. Eu, em vez de os ver pelo prisma da intrujice e da maledicência, prefiro entendê-los como estão descritos nos dicionários. No da Academia das Ciências de Lisboa, intelectual vem definido como “pessoa que cultiva preferencialmente as coisas do espírito e do entendimento”.

 

O intelectual de gaiola dourada, Vasco Graça Moura, em Agosto deste ano, talvez por causa do calor que se fazia sentir lá por Lisboa, disse uma coisa que me deixou deveras preocupado: “Os intelectuais estão em vias de extinção.”

 

Então agora depois do lince da Malcata e do burro mirandês só nos faltava mesmo os intelectuais portugueses estarem à beira da extinção.

 

E ainda mais preocupado fiquei quando na sua entrevista afirmou textualmente: “Sinto-me próximo do Presidente Cavaco Silva. Apoio-o desde 1986 e acho-o o maior político português desde 74.”

 

Não só os intelectuais portugueses estão à beira da extinção como um dos seus mais dignos representantes na pátria de Camões foi atacado por uma doença rara, pois considerar Cavaco Silva como o melhor político português depois de 1974 só é possível em pleno estado alucinatório ou de loucura galopante.

 

Talvez seja por isso que foi escolhido para presidente do Centro Cultural de Belém. Cá se fazem cá se pagam. 

 

Afinal Vasco Graça Moura só é um verdadeiro intelectual quando o Partido Socialista está no poder. Nessas alturas enche-se de razões e zurze neles com a determinação dos visionários. Quando o PSD chega ao poder, lá vai ele lampeiro sentar-se numa cadeira dourada e, a partir daí, tecer loas a tudo quanto é figura laranja destacada no aparelho do Estado. Podemos dizer que Vasco Graça Moura é o verdadeiro intelectual do PSD.

 

Mas deixem-me passar a uma intelectual muito em voga nos dias de hoje, Clara Ferreira Alves. Na revista do Expresso, revoltando-se, e bem, contra os escritores injustamente esquecidos pela inteligência portuguesa, escreveu que os novíssimos autores são todos sobrevalorizados. Tanto os que publicaram, como os que publicam e até os que publicarão ou nunca pensaram publicar.

 

A seguir vai atrás dos culpados. Na sua opinião em Portugal não existe massa crítica e muito menos discórdia, pois a única revista literária que se publica em Portugal, a “Ler”, que ela define como um produto do lobby de Francisco José Viegas (com o seu índex de inimigos e desagrados), e um meio pequeníssimo corrompido pela recusa da polémica, “pois toda a gente se conhece e todos dependem uns dos outros, faz com que os autores nunca sejam sujeitos a um juízo literário liberto de constrangimentos e cumplicidades. Que alguns mereciam. A “Ler” institui uma ditadura do gosto e do marketing e exerce um poder de canibalização que ninguém ousa contrariar. No corredor, pratica-se o escárnio e maldizer. E lá vamos andando.”

 

Um intelectual à maneira antiga – daqueles que eu aprecio e venero, Vassili Grossman, cujo livro “Vida e Destino” foi considerado tão perigoso na União Soviética que não só o manuscrito como também as fitas com que foi digitado foram confiscados pelo KGB, permanecendo desaparecido durante vinte anos – escreveu no seu romance “Tudo Passa” este fragmento épico que a todos nos deve pôr a pensar: “A quantidade geral da violência mantém-se sempre igual na terra, enquanto os pensadores tomam o caos das suas metamorfoses por uma evolução.”

 

E ainda mais esta: “As fontes da mansidão correspondem às do fanatismo e da intolerância.”

 

Vassili Grossman, com a ajuda da sua máquina de escrever, pois era também repórter de guerra, foi capaz de colocar em questão não só a violência nazi como também a institucionalização progressiva do nacionalismo, chauvinismo e antissemitismo pelo regime estalinista. Morreu três anos após ter entregado o seu livro e de o ver apreendido pelas autoridades. 


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Domingo, 27 de Outubro de 2013

Fanfarra Kaustica em Montalegre


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Sábado, 26 de Outubro de 2013

Gestos


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Sexta-feira, 25 de Outubro de 2013

O Homem Sem Memória - 180


180 – Por causa do seu sentido de humor demasiado apurado, o sósia do John Cleese esteve várias vezes às portas da morte. E o José andou por lá muito perto. É que o humor também tem os seus efeitos colaterais. E pode mesmo provocar a morte. Não só de quem o utiliza como também de quem se deixa contaminar por ele. A piada mortal dos Monty Python é disso a tese de doutoramento perfeita.


Demorou-lhes tempo a recuperação. Alternavam entre o desespero e a exaltação. Entre o riso e o choro. Entre a esperança e o desânimo. Entre o inferno e o paraíso. Entre a vida e a morte. Entre Grouxo Marx e Karl Marx.


Comiam mal, vestiam-se desgraçadamente e trabalhavam como desalmados, muitas vezes labutando de sol a sol, sem tino nem destino. As autoridades comunistas do campo não pretendiam sequer explorar-lhes a sua mão-de-obra, queriam apenas castigá-los, humilhá-los e subjugá-los. Comunista que enfrenta o Partido só pode ter um destino: a completa aniquilação. Com o Partido podemos ir do zero ao infinito. Sem o Partido apenas nos resta a possibilidade de passarmos do infinito ao zero absoluto.


O comissário do povo pretendia despersonalizá-los, reduzi-los à sua insignificância individual, transformá-los em despojos humanos, ridículos e miseráveis. O Partido não tolerava nem as dissidências e, muito menos, o humor. O humor é arrasador, porque o ridículo mata. O humor é o caos. E o escárnio gera a babel.


Já razoavelmente recuperados, os dois amigos foram de novo obrigados a executar tarefas vexatórias, tais como limpar latrinas, e outras de natureza ideológica que os punha à beira de um ataque de nervos, tais como ouvir repetidamente os discursos do camarada Alberto Punhal ou escutar “A Internacional” em todas as línguas do mundo. Durante a noite, antes de dormir e ao levantar, era-lhes exigido rezar, não o terço mas excertos do programa do Partido, dos Estatutos e até do Manifesto Comunista. Para quem aprecia boa literatura e detesta catecismos, temos de reconhecer que tais atitudes eram tão ou mais dolorosas e humilhantes do que a porrada.


Só havia uma forma de manterem a esperança e a sanidade de espírito: continuar a apostar no humor. Por isso começaram a disseminar as anedotas por toda a planície, no maior sigilo. Por vezes ouviam-se nos campos, ou nas celas, fortes risadas que punham os camaradas responsáveis vermelhos de raiva. O que era ridículo. Mesmo irónico. E extremamente caótico.


O chefe da UCP apercebeu-se de que era manifestamente impossível controlar a disseminação das anedotas anticomunistas, mas, mesmo assim, não desistia de perseguir quem julgava andar a contá-las pelos atalhos das planuras ou pela calada da noite. A última que lhe chegou aos ouvidos e o encheu de espanto marxista e raiva leninista, por causa do atrevimento e da profunda ironia, foi a que a seguir contamos, e que fomos encontrar na enorme pasta dos arquivos secretos da extinta Polícia de Defesa do Estado Socialista (PDES), referente ao José. Ei-la.


Alberto Punhal desloca-se sozinho com o motorista na sua limusine blindada logo após uma reunião do Comité Central onde foi discutida a Reforma Agrária, o Controle Socialista dos Meios de Produção, as Amplas Liberdades, o Movimento Operário, o Partido como Vanguarda da Sociedade de Novo Tipo e o Novo Homem Socialista. De repente, vira-se para o motorista, que se arrepia um pouco, mesmo sem querer, e pergunta-lhe com verdadeira cara de secretário-geral do Partido Comunista: “Responda-me sinceramente. O camarada motorista está mais ou menos contente desde o triunfo da revolução portuguesa?” Ao que ele responde com toda a verdade revolucionária de que é capaz: “Sinceramente, camarada Punhal, estou menos.” Visivelmente perturbado pela resposta, o camarada secretário-geral, elevando um pouco a voz, pergunta-lhe porquê? O camarada motorista, porque lhe ensinaram que mentir é feio, responde com a sua verdade: “Olhe camarada Punhal, antes da revolução eu tinha dois fatos. Mas agora só tenho um, que é este que trago vestido. Depois de um breve silêncio meditativo, o camarada secretário-geral, argumenta: “Olhe, camarada, em vez de estar triste devia estar contente. É que isto é tudo muito relativo. Então não sabe que em África a maioria das pessoas anda completamente nua?” “A sério?”, interpela incrédulo o camarada motorista. “Há quanto tempo tiveram eles a sua revolução?”


Diz quem sabe que nessa noite não houve ensopado de borrego, quase sempre sem borrego, para ninguém, pensando, o camarada chefe do cárcere, dessa forma, provocar um enorme tumulto que lhe servisse de pretexto para poder reprimir os presos sem apelo nem agravo. Mas os reacionários preferiram ficar calados em vez de gritar a sua indignação. Pois podiam ser reacionários mas não eram burros. Durante a noite resolveram semear no vento que passa a anedota que retratava bem o estado a que tinha chegado a UCP, depois dos camaradas terem consumido todo o cereal, até o destinado à sementeira, e de terem devorado todos os animais da exploração, incluindo os destinados à reprodução.


Ei-la, a anedota. Alberto Punhal, o camarada de cristal, está no seu Gabinete no Palácio de São Bento, batizado recentemente de Palácio Baleizão, e repara que há muitos ratos. Queixa-se a Costa Gomes. O presidente da República reflete durante algum tempo, que, no seu caso, quer significar várias horas. A seguir ao chá e aos scones, pega no telefone vermelho e aconselha: “Camarada Punhal, porque não coloca na porta um dístico a dizer “Unidade Coletiva de Produção”? Assim metade dos ratos morre de fome e a outra metade há de fugir.


Quando a anedota chegou aos ouvidos do camarada capataz, este mobilizou de imediato a milícia do campo e ordenou que todos os elementos subversivos fossem acordados durante a noite e torturados até confessarem quem tinha sido o autor da heresia. Primeiro, a totalidade negou identificar o mensageiro. Depois todos admitiram ser os propagadores da anedota. Por vezes, a resistência contra a repressão nasce das mais pequenas coisas.


O sósia do John Cleese, entre o delírio e o desespero, resolveu contar nova anedota antes de desfalecer em frente do seu carcereiro, que era um avô babado e que exibia o seu neto como o melhor dos camaradas pioneiros, gabando-lhe o cargo de secretário do comité central da organização infantil.


“Ó camarada avô, ainda existirá polícia quando chegarmos ao comunismo?”


“Não, camarada neto, nessa altura já as pessoas aprenderam como se prender a elas próprias.”


Bem, está bom de ver que o sósia do John Cleese levou tantas na focinheira que sofreu três KO múltiplos antes mesmo de cair definitivamente inanimado no chão.


Aí o José não se conteve e contou a melhor anedota de todas, pelo menos na nossa opinião, e ela vale o que vale, em honra do camarada inanimado. Ali de pé, como os carvalhos.


Um rebanho de ovelhas é mandado parar por guardas-civis na fronteira com a Espanha. Os agentes da autoridade do país vizinho perguntam: “Porque é que querem sair da República Popular de Portugal?” “É o PDES”, respondem as ovelhas aterrorizadas. “O Beria português mandou prender todos os burros.” “Mas vocês não são burros.” “Vão os camaradas guardas-civis dizer isso ao Beria e à PDES.” 


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Quinta-feira, 24 de Outubro de 2013

Poldras


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Quarta-feira, 23 de Outubro de 2013

Poema Infinito (169): o menino entre ruínas


Por onde passo as ruínas choram porque já ninguém brinca. Agora é só silêncio. Lembro-me da Alice dançar com os cabelos soltos enquanto ouvia música. Presentemente as coisas morrem dentro de nós. Os homens são misteriosos e as mulheres escondem-se detrás das cortinas velhas das janelas. Agora a música é estranha. Os muros caminham ao lado dos homens. Vamo-nos esquecendo de tudo. Das dádivas. Dos homens que bebem à mesa. Da alma que suporta os poetas. Das flores suicidas. Da espera dos grandes acontecimentos. Das verdades que duram segundos. Das mãos que pintam o tempo de mudez. Das raízes que brotam dos corpos. Dos corpos que se entregam ao tempo. Dos enormes pomares tranquilos. Das mães que cantarolam. Da inútil aprendizagem do ódio. Da trabalhosa arte do amor. Da tranquilidade das casas. Do aroma dos jardins. Da impercetível emoção do desaparecimento. Da incompreensível frescura dos mistérios. Dos rostos descobertos pelo sol. Do prazer da expectativa. Das crianças reclinadas junto ao mar. Do equilíbrio das curvas. Da evocação das paisagens. Das casas que dormem na hora quieta do meio-dia. Dos gritos que permanecem dentro de nós. Do pedido de socorro dos náufragos. Dos sonhos que são lamentos. Do estranho fenómeno das coisas paradas. Dos corpos que chamam. Dos corações que vibram. Atravessamos a infância projetando mais outros dez mandamentos que ofendem particularmente a obediência. As mulheres ficam desertas. As árvores ficam cor de cinza. A chuva dobra os meninos. As folhas movimentam-se. O silêncio volta de novo. Os pássaros assustam-se. Os caminhos ficam indecisos. Chego ainda antes dos meus passos. Um desejo obscuro desafia a imperturbável simplicidade das ruínas. Agora só procuro a paz. Guardo as colinas dentro do meu corpo. Inclino-me dentro das minhas cicatrizes. Encontro restos de orvalho dentro da tua boca. Sinto-me germinar de novo. Afasto de mim as despedidas. As mãos guardam as sementes. Rostos secos habitam agora a minha casa antiga. Tenho desejo das chuvas e de correr pelos caminhos molhados e do frescor dos musgos e dos jardins claros e de ficar em casa encerrado na minha inocência animal e do ar maduro das tardes de domingo e do pressentimento dos frutos e das bocas que são fontes. Sossego na frescura lúcida da terra onde os dias se abrem com a nitidez dos rios. Alguém me quer explicar de novo a vida e a pouquíssima poesia que há no mundo. Eu já tive esse brilho de descobrimento nos olhos. Agora construo estátuas de nuvens para espantar as aves do aborrecimento. Sou um pobre narrador enterrado em memórias quietas. Senta-te a meu lado para que a tarde deixe de ser tão séria. Sorri para mim e deixa que o teu corpo faça uma ligeira curva em cima das flores. Sou um homem ladeado de muros que vê florescer a tarde através de um espelho. Sou para sempre o menino do crepúsculo que escuta o movimento das folhas antes de adormecer. 


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Terça-feira, 22 de Outubro de 2013

Na feira


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Segunda-feira, 21 de Outubro de 2013

Pérolas e diamantes (60): uma lufada de ar fresco


Foi o histórico dirigente socialista Manuel Alegre, um dos membros fundadores do nosso Estado democrático, que pôs o dedo na ferida ao criticar os partidos políticos por sozinhos quererem ser donos e senhores da democracia.

 

Convém lembrar que já há alguns anos a esta parte Manuel Alegre vem defendendo o reforço dos Movimentos Independentes pois tem a convicção de que os partidos são indispensáveis à democracia, mas não a esgotam. Nem pouco mais ou menos.

 

O aumento significativo da votação nos Movimentos Independentes e a vitória de muitas das suas candidaturas por esse país fora são o triunfo e a consolidação da cidadania. Está na hora dos portugueses pensarem seriamente se o atual modelo de representação os satisfaz.

 

Os Movimentos Independentes vieram provar que não há desamor à política. O desamor que existe é à forma como a política está a ser feita e gerida.

 

Por isso faz todo o sentido, como muito bem propôs Pacheco Pereira na “Quadratura do Círculo”, debater e decidir afirmativamente a candidatura de listas Independentes à Assembleia da República.

 

Os resultados obtidos pelas listas protagonizadas pelos Movimentos Independentes evidenciam que já ninguém pode ignorar um fenómeno que conquistou 13 câmaras municipais e 7% dos votos dos portugueses.

 

 Os candidatos Independentes, quer sejam provenientes de dissidências partidárias, quer sejam pessoas que sempre fizeram um percurso fora dos partidos, não deixam de ser a prova provada de que este sistema político, que apenas está montado tendo como base exclusiva os partidos políticos tradicionais, está a desmoronar-se a cada dia que passa, especialmente porque assenta em estruturas arcaicas, anquilosadas e incompetentes para efetivamente representarem a sociedade portuguesa.

 

Os portugueses já estão fartos de assistir às danças e contradanças das jotas laranjas ou rosas, às ditas universidades de verão, ao clientelismo e ao carreirismo, que são os sustentáculos da militância que se inicia na juventude e que faz com que um qualquer desconhecido passe a assessor de presidente de câmara ou a adjunto de um secretário de Estado ou de um ministro.

 

Depois basta esperar sentado nos gabinetes do poder até ver chegar o momento de passar de assessor diretamente a deputado, ministro ou, quando não, acabar mesmo por ser designado para ficar à frente de uma qualquer instituição pública sem utilidade visível ou até a dirigir os destinos de uma qualquer fundação privada mas, como todos sabemos, sempre dependente do Orçamento de Estado.

 

Esta sórdida realidade, sem bases sólidas de competência técnica e ausente de uma base ideológica prudente e culta, que os portugueses rejeitam cada vez mais, está a fazer com que os mais indignados identifiquem os políticos quase como um bando de mafiosos.

 

A primeira grande indicação de indignação social contra este regime partidocrático aconteceu aquando da grande mobilização social feita a partir de uma base independente tendo como objetivo lutar contra a TSU. Daí resultou uma gigantesca manifestação que obrigou o governo a ceder.

 

A segunda indicação da necessidade dos Movimentos Independentes na vida política portuguesa aconteceu precisamente nas eleições autárquicas.

 

Estamos em crer que, se os partidos políticos tradicionais e as suas clientelas procurarem travar este novo tipo de intervenção social pensando que dessa forma acautelam os seus mesquinhos interesses, correm o sério risco de criar um bloqueio social que pura e simplesmente os ignorará, deixando então de participar nas eleições e, um dia mais tarde, quem sabe, tenderá a modificar as coisas através de um movimento devastador que levará tudo pela frente.

 

A nosso ver, a solução é simples. Basta estudar-se uma forma de legitimar o fenómeno dos Movimentos Independentes de forma a possibilitar-lhes representação parlamentar.

 

Está na hora de os partidos políticos se regenerarem e absterem-se de controlar a sociedade e o Estado através dos seus grupos aparelhistas.

 

Esta significativa porção de gente empenhada civicamente na vida política e social do seu país merece ver o seu entusiasmo, a sua dedicação e a sua independência reconhecida e recompensada.

 

A democracia portuguesa necessita de se regenerar fora do ambiente poluído dos partidos. Os Movimentos Independentes são a necessária lufada de ar fresco. Deixem-nos respirar.

 

Por favor. Deixem-nos respirar.


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Domingo, 20 de Outubro de 2013

Olhares


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Sábado, 19 de Outubro de 2013

Expectativa


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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013

O Homem Sem Memória - 179


179 – O seu recente amigo, muito parecido com o John Cleese, qual Cristo alto, desengonçado e redentor, também ele um comunista carregado de dúvidas, qual cruz sacrificadora, contou-lhe uma anedota que o fez pôr-se em pé e caminhar, como Lázaro.


“Sabes qual é a diferença entre o comunismo e o capitalismo? O capitalismo é a exploração do homem pelo homem… e o comunismo é exatamente o contrário.”


De seguida riram-se como dois perdidos. Os camaradas guardas, sentindo-se provocados, pegaram nos seus bastões e malharam neles como em centeio verde.


O sósia do John Cleese, com o sangue a correr-lhe das chagas, ainda teve fôlego para contar nova anedota: “Camarada José, já chegamos ao comunismo ou as coisas ainda vão piorar mais?”


Como não paravam de se rir, os camaradas vigilantes continuaram a bater-lhes para lhes quebrar o ânimo. Vendo que a coisa não ia lá dessa forma, os guardas resolveram levá-los à polícia política para um interrogatório sério e circunstanciado. Rir do comunismo é a forma suprema de reacionarismo. Aquele par de cínicos estava decididamente a passar as marcas.


Sentados à espera, de estômago vazio e com o corpo moído, o sósia do John Cleese resolveu contar nova anedota. Já que não se podiam alimentar convenientemente, recorriam ao humor para distrair a fome.


Eis a anedota. Uma delegação de camaradas italianos vai visitar o camarada Alberto Punhal. Apesar da sua indiferença protocolar, pois o nosso camarada de cristal abomina o eurocomunismo, os elementos da delegação falam com ele como se fossem amigos e camaradas de longa data. No final vão-se embora cheios de prospetos, pines, emblemas, carregando em sacos decorados com foices, martelos e estrelinhas internacionalistas, pesados volumes contendo as obras completas e anotadas do camarada secretário-geral. Assim que desaparecem porta fora, o camarada Punhal começa a procurar a caneta com que escreveu “Boa noite camaradas, amanhã o sol brilhará para todos nós”, “URSS, o Sol que alumia a Humanidade”, “O Sol do Comunismo aquece o Mundo”, “Marx, o Sol que ilumina a filosofia materialista”, “Lenine, o Sol que dá calor ao marxismo”, “Estaline, o Sol que aclara o leninismo”, etc. Remexe nos papéis, abre e fecha gavetas, mas não a encontra em lado nenhum. Inquieto pela sua reservada e nunca assumida fixação supersticiosa, pega no telefone e chama o novo chefe da polícia política, um zeloso carrasco comunista apreciador incondicional de Beria.


Diz-lhe de semblante carregado: “Perdi a minha preciosa caneta de tinta permanente com que escrevi “Reforma Agrária, a estrela que indica o caminho para o socialismo científico”, “Controle Operário, o Sol da revolução”, “Nacionalizações, o Sol que aquece a nossa nova economia”, “Ditadura do Proletariado, o Sol que nos traz a verdadeira democracia”, “Partido com paredes de vidro, por onde o Sol entra quando quer e os camaradas autorizam”, entre outros. Vai atrás da delegação desses seguidores de Enrico Berlinguer e vê se descobres quem ma roubou”. Ao que o Beria portuga e sulista replicou: “Os Comunistas não roubam.” Azedo, o camarada Punhal retorquiu: “E desde quando é que os comunistas italianos são comunistas. Esses traidores nem sequer socialistas são. Quando muito são sociais-democratas de direita. Mas deixa-te de discussões ideológicas e vai fazer executar a tarefa que te propus.”


O camarada chefe da polícia política acaricia a sua pistola e corre escadas abaixo. Entretanto o camarada Alberto Punhal continua a procurar a sua caneta. Passados alguns minutos olha para debaixo da secretária e vê-a ali deitadinha no chão, como que a descansar do enorme esforço despendido na escrita de tanta prosa revolucionária. Pega de novo no telefone e diz ao seguidor de Beria: “Já encontrei a caneta, a minha mais devota companheira. Por isso podes deixar ir embora os italianos.”


“Agora é tarde camarada secretário-geral. Metade confessou ter levado a sua caneta e a outra metade morreu no interrogatório.”


Novas gargalhadas repartidas irmãmente entre o José e o sósia do John Cleese. Pelo desaforo foram novamente espancados e deixados mais um dia sem comer. E eles, como se nada fosse, conseguiram resistir mais três dias a água e anedotas. Por fim sucumbiram e foram levados em maca para o centro médico da UCP.


Mal se recompuseram, puseram-nos a abrir e a fechar buracos e a executar outras tarefas ridículas e sem sentido com a nítida intenção de os subjugar ainda mais. Separaram-nos dos outros presos políticos, não fossem eles contagiá-los com o seu humor corrosivo. Como a fé move montanhas, também o humor derruba regimes políticos totalitários. E quem não acredita é porque ou não tem fé ou não possui a mínima réstia de humor. 


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Quinta-feira, 17 de Outubro de 2013

Sorrisos


publicado por João Madureira às 08:12
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Quarta-feira, 16 de Outubro de 2013

O Poema Infinito (168): tempo impresso


Já lá vai o tempo em que nos vestíamos com flores de amendoeira e abríamos os cadernos onde escrevíamos a possibilidade infinita dos desejos e onde desenhávamos bibliotecas de livros com páginas azuis. Agora aquecem-nos as mãos sem sabermos bem porquê. E observamo-nos a ler histórias feitas de ternura e repletas de frases redentoras. A idade deu-nos pinceis dourados com que retocamos os sentimentos. O sol mostra-se espalhando os seus raios mesmo à nossa frente. Verificamos os bordados das toalhas e a bondade com que a mãe as bordou. O relógio deita fora as horas. Nós não. Entretanto observámos o horizonte repleto de verde e índigo. Os planetas aproximam-se numa respiração acelerada. As galáxias desesperam. Eu colo-me a ti porque tenho medo, apesar de o esconder. Os objetos dançam. Os nossos corpos ondulam. Fabricamos juntos essa felicidade de instantes que escapa à incerteza. Abraço-te como dantes para poder sentir-te da mesma forma. Tu és a minha imensa excitação. Sinto que voltaremos a nadar nos rios secretos da nossa juventude. Que voltaremos a beijar-nos nos bancos do jardim sem que ninguém perceba. Nada temos a perder. Retenho essa sensação física de ti. A tua adolescência grávida. Tenho saudades de tudo: dos campos, do rio, de te morder os lóbulos das orelhas, de descobrir a cumplicidade do amor, de estar orgulhoso das palavras que te dizia, de te oferecer aves escritas, de acionar o mecanismo amoroso dos dedos, de escolher lembranças, de te responder com flores, de fugir do medo que as crianças têm dos espelhos e dos palhaços, de passear na cidade onde as pessoas disputavam olhares fabulosos, de te soprar beijos inexplicáveis. Escrevia então o mundo com poemas de terra e deixava-me embalar pelo som monótono dos comboios. Guardava, sem o saber, a memória dos dias e da luz do entardecer. A claridade atravessava-nos assustando os anjos. Mergulhávamos em aquários para observar peixes amorosos. Foi quando os teus olhos se transformaram em pérolas. Foi quando ardi pela primeira vez entre as tuas coxas. Onde me alaguei nos teus braços enquanto olhava o céu e as nuvens. Imagino-te vestida de linho como uma fada rural voando sentada em canções infantis enquanto várias crianças correm atrás do gato da vizinha. Todo o fruto é bendito. Todo o vinho é bendito. É a partir daí que as almas se quebram. Daí a necessidade de as lavar em água pura. Amanhecemos quentes e enrolados ainda no sono. Dormimos como o fazem os animais amantes. Verificamos que o tempo está impresso nos nossos corpos. Os sonhos, então enormes, são agora pequenos e cheios de vento. E possuem portas. E escadas. E camas desesperadas. E elmos. E espadas. E coletes de força. E cadeiras moribundas. E janelas bordadas de desespero. E um mar que nunca acaba. E cavalos alados puxando jangadas de pedra. E recreios de escola com bancos e mimosas. E mulheres a lavar a roupa em água gelada. E pombas secas. E deuses que não aguentam a dor nem a alegria. Para sobreviver desenho o teu corpo dentro do meu corpo. 


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Terça-feira, 15 de Outubro de 2013

Subindo a ladeira


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Segunda-feira, 14 de Outubro de 2013

Pérolas e diamantes (59): Pirro e os pirristas


Depois da excelente notícia relativa à estrondosa vitória eleitoral autárquica do PSD de Chaves e, porque não dizê-lo com toda a frontalidade, desse mestre da estratégia política que dá pelo nome de António Cabeleira, outra me encheu de orgulho e de boa disposição.

 

Mas antes de lá ir deixem que relembre ainda aos amigos leitores o acerto das previsões do presidente do PSD flaviense. Afinal conseguiu mesmo eleger cinco vereadores e, melhor do que isso, fez com que o MAI e João Neves se ficassem pelos 499 votos, como tinha prognosticado com todo a sua sapiência.

 

Além de visionário, António Cabeleira possui mesmo a faculdade de adivinho. Temos de convir que o senhor arquiteto não leu “A Zaragata” e o “Adivinho” de Astérix em vão. Finalmente a sua guerra psicológica, à maneira dos romanos (leia-se PSD), para vencer a aldeia dos gauleses (leia-se oposição do MAI), e os seus dotes adivinhatórios, deram mesmo resultado.

 

Noutro registo, mas dentro da mesma temática, Ágata, a cantora, antes mesmo da sua apresentação, pela primeira vez, no Coliseu do Porto, deu uma entrevista ao JN onde, entre outras informações valiosas, nos surpreendeu com algo que já suspeitávamos, mas que não tínhamos a coragem suficiente para explicar.

 

Passamos a citar: “Fiquei a saber que, noutras encarnações, fui princesa egípcia e cantora de ópera.” Só não conseguimos apurar se as encarnações da senhora estão num processo evolutivo ou involutivo. Mas isso fica para a análise de quem seja mestre no ofício.

 

Alguém nosso amigo, e muito dado a estas coisas dos espíritos e da migração das almas, sobretudo das penadas, avisou-nos que António Cabeleira, noutras encarnações, primeiro foi soldado romano, depois objetor de consciência, chegando mesmo a encarnar, num processo, à altura, claramente evolutivo, como Pirro.

 

Como todos sabemos, o nome desse rei guerreiro tornou-se famoso pela expressão "Vitória Pírrica”, no momento do triunfo na Batalha de Ásculo. Quando lhe deram os parabéns pela vitória conseguida a custo, diz-se que respondeu com estas palavras: "Mais uma vitória como esta e estou perdido." Afinal a história repetiu-se. Desta vez juntou-se o mito da encarnação com o do eterno retorno. É o buraco do tempo em todo o seu esplendor.

 

Por falar em almas penadas, em migração e em encarnação, temos de convir que a oposição por parte do PS foi também uma tremenda desilusão. O seu imobilismo foi perigoso numa cidade que necessita de ser liderada e reformada por quem a ame de verdade.

 

Poderão argumentar que nada disso interessa à democracia. Mas, meus senhores e minhas senhoras, a sociedade portuguesa, e a nossa cidade nisso não é exceção, aprendeu a esperar que a esquerda fosse o motor da mudança, que fosse a alternativa ao imobilismo, ao compadrio e à corrupção, sobretudo quando comparada com os partidos de base conservadora. Mas parece que o motor gripou. Ou por desleixo, ou mesmo por premeditada desatenção.

 

No entanto, há sinais de mudança. Senão vejamos. A nível nacional, o PSD e o CDS juntos, relativamente às últimas eleições autárquicas, perderam 644 mil votos, cerca de 30%. Mas se a comparação for feita com as legislativas de há dois anos, verificamos que o cenário é ainda mais negativo, pois tiveram uma variação de 40%, o que corresponde a uma perda de 1 milhão e 146 mil votos.

 

Relativamente ao PS, apesar de os resultados serem simpáticos, fruto sobretudo da conjuntura política nacional, que é um calvário para o PSD e o CDS, eles são ambíguos. De facto, conquistou 243 mil votos relativamente às últimas legislativas, mas, contudo, perdeu 274 mil votos relativamente às autárquicas de 2009.

 

Talvez esta seja também uma vitória de Pirro para o PS, pois, como muito bem lembrou Pedro Adão e Silva, “à primeira oportunidade. Os fatores que devastaram o PSD e o CDS ressurgirão para fazer o mesmo ao PS.” E, para agudizar ainda mais a previsão, lembra que “para piorar as coisas, imaginem só como todo este contexto se agudizará quando o PS não tiver alternativa (porque não terá mesmo) a comprometer-se com um novo resgate ou, se preferirem eufemismos, com um programa cautelar. Estaremos cá todos para ver a onda de mudança. Não vai ser bonito.”

 

Sim cá estaremos todos de olhos arregalados para ver a nova realidade.

 

Os números indicam que o eleitorado português está com vontade de romper com este ping-pong alternativo entre o PSD e o PS, que tem caraterizado, mais para o mal do que para o bem, a democracia portuguesa. O declínio do bipartidismo é já uma realidade clara.

 

Ao longo da campanha eleitoral foi sobretudo evidente o crescimento significativo dos candidatos independentes. Dissidentes ou não dos partidos (e quem não foi militante ou simpatizante de um partido que atire a primeira pedra), pouco importa, serviram de ninho para muito do descontentamento face, principalmente, aos aparelhos partidários.

 

Os independentes, nestas eleições, conquistaram conjuntamente 344 mil votos. Mais 120 mil do que há quatro anos atrás. E os votos brancos e nulos subiram de 3% para 7%. O que significa que estamos perante um indicador de descontentamento perfeitamente lúcido e disposto a manifestar-se.

 

O fenómeno crescente da corrupção, da austeridade e da desorganização social, explica em grande parte a atual crise. Se a isto juntarmos o aparelhismo que tomou conta dos partidos, o terreno está fecundo para o surgimento de algo novo. Se será bom ou mau, logo se verá. Mas uma coisa é certa, e por isso não me canso de a repetir: quando toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima. 


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Domingo, 13 de Outubro de 2013

A mulher das abóboras


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Sábado, 12 de Outubro de 2013

À espera


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Sexta-feira, 11 de Outubro de 2013

O Homem Sem Memória - 178


178 – O sol. O sol inclemente. Esse sol desolador dava cabo do José. Um transmontano dá-se mal com o astro rei. E com o amarelo. Um transmontano não gosta do amarelo. Um transmontano é de outras cores. Ama outras tonalidades. Um transmontano ama o azul do céu, deslumbra-se com o verde dos montes e alimenta-se do vermelho das carnes e do sangue. Um transmontano é um amante totalitário. Não é de meias tintas. Ou sim ou sopas. Um transmontano não disfarça, assume. Não desculpa, nem se desculpa, age e luta. Ama ou odeia. Não consegue matizar sentimentos. Um transmontano definha fora da sua terra. Um transmontano olha, não deixa que o olhem. Um transmontano não deixa que o transformem num alvo em movimento. Ele é o caçador. Um transmontano dá a camisa, não deixa que lha engomem com artimanhas. Um transmontano não argumenta, diz. Não lacrimeja e geme, chora e grita. Não anda, caminha. Não deixa que o levem, faz caminho caminhando.


O José sentia-se morrer. Ali naquela luz cegueira, que se alimenta de dor e sofrimento, que reduz tudo a uma dimensão plana. O José, o filho da Dona Rosa e do guarda Ferreira, que tinha falado na barriga de sua mãe, perguntava ao Deus da indiferença e do acaso o que tinha feito de mal para merecer tal castigo. Mas Deus não lhe respondia. Ou talvez lhe respondesse, mas apenas com o silêncio. Mas para que serve um Deus silencioso? Para que presta um Deus que se limita a observar e a deixar correr o marfim? Como se justifica um ser superior que nada faz para alterar o curso dos acontecimentos. Será que o totalitarismo ineficaz de Deus justifica o comunismo? Será que os homens prestam? Será que as ideias e a cultura servem para alguma coisa?


Por mais voltas que desse à sua vida nada encontrava de intencionalmente mau. Tinha agido sempre de acordo com o bem e com as suas leis. Nunca tinha feito mal a ninguém.


Quando pregava a bondade de Deus fazia-o com toda a fé. Não matizava os argumentos. Não arranjava desculpas. Não fundamentava desvios. Nem admitia que se arranjassem desculpas para justificar o que não tinha justificação.


Quando pregou a bondade do comunismo fê-lo com todo o ardor revolucionário. Não variava nos fundamentos. Não amanhava pretextos. Não apoiava rodeios. Nem aprovava que se aprontassem evasivas para explicar aquilo que não tinha justificação.


Mas, apesar disso, ou por isso mesmo, tudo lhe saía ao contrário. Os preconceituosos apontavam-lhe a rigidez dos ideais, a incapacidade para embuçar argumentos, a indisfarçável coerência dos princípios, que ele considerava serem de todos mas afinal eram professados apenas por alguns.


O José agia como um cético, mas era extremamente fiel aos princípios, aos compromissos e à amizade. O seu erro, pensamos nós, aqui que ninguém nos ouve, consistia em acreditar profundamente na identidade e na exclusividade de cada ser humano. O seu erro foi ter pensado no início que aqui na terra todos temos de sofrer para atingirmos o paraíso ao lado de Deus que até ao momento do juízo final é cego, surdo e mudo. O segundo erro consistiu em ter considerado que era possível construir o paraíso a partir do poder de homens que tudo veem, tudo ouvem e tudo justificam a seu favor.


Errar todos erramos, mas é verdade que uns erram porque querem, outros porque a isso são obrigados e outros, ainda, porque acreditam na liberdade como um princípio sagrado. A obrigação moral do José impôs-lhe a dúvida. Aos seus camaradas, a dúvida foi-lhes amputada por meio da coação.


É tão bom não ter dúvidas. É tão confortável ter certezas. O problema do José é que via sempre dúvidas nas certezas dos outros.


É tão bom dizer que se acredita. É tão tranquilizador afirmar que se ama tudo e todos quando apenas pensamos em nós próprios. É tão benéfico ser bom pregador. 


Dessem-lhe ao José a possibilidade de prosseguir outro caminho e ele tinha escolhido o mesmo. Os homens coerentes são mesmo assim. Teimosos como burros. Quando lhe colocam em alternativa a conveniência ou a coerência, gente desta teimosia nunca duvida. Escolhe o caminho das pedras.


O José, para seu mal, mas para bem deste relato, escolheu sempre o caminho mais difícil. Nunca se vergou à vontade dos poderosos. Nunca se desculpou com os outros, ou sequer, com as circunstâncias. Nunca se importou de ficar sozinho, nem mesmo quando teve de escolher entre a verdade e a verdade das conveniências.


Mas aquele sol, aquele amarelo, aquele calor que até fazia parar as moscas, punham-no de rastos. Nem sequer tinha fome, apenas sede. E saudades. Saudade da sua terra. Saudade dos seus. Saudade até daquilo que não gostava.


Quando estamos longe daquilo que amamos até os defeitos nos parecem virtudes. A nossa mãe surge-nos como Maria, o pai como São José e os nossos manos como os irmãos de Cristo. As ruas ficam suaves, as árvores límpidas, as aves ficam da dimensão dos anjos e tudo se harmoniza.


O José pensou mesmo em deixar-se morrer. Ali estendido para remorso de quem tanto mal lhe fez e lhe continuava a fazer. Mas considerou que ele não era homem para facilitar a vida aos seus carrascos. Além disso tinha prometido à sua avó que estivesse onde estivesse, quando sentisse a morte por perto teria de ir morrer à sua terra.  


Mas estamos em crer que o que definitivamente salvou o nosso herói da morte foi o humor. 


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Quinta-feira, 10 de Outubro de 2013

Varandas de Chaves


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Quarta-feira, 9 de Outubro de 2013

O Poema Infinito (167): a luz densa do tempo

 

Eu te saúdo, ó densidade do tempo. Esse tempo que projeta a alma dos enormes carvalhos e transporta dentro de si a reprodução fantasmagórica dos sonhos. Todas as idades humanas são rápidas. Todo o mar é exaltação. A ressurreição é um turbilhão de astros. O acaso vai muito para além de nós. A terra acelera-se. O ar é agora uma onda de vitalidade. Viajamos dentro da inquietude das árvores. Seguimos dentro dos carreiros densos das nuvens. O vento canta o alongamento dos campos. O sol é uma fonte violenta de luz. Afinal somos pássaros do acaso. Somos as encruzilhadas que se alongam. O nosso planeta densamente povoado é um labirinto redondo. Apesar disso sinto o veludo da tua face sob os meus dedos emaranhados de júbilo. Dentro de nós cresce o tempo que se vira contra nós. Abandonamos o silêncio da idade. Toda a distância abandona a mágoa que transportamos dentro. A noite anula a luz. Dançaremos para sempre entre os nomes que são dias e noites e através da brancura fragmentada dos líquidos. A matéria é incansável. Assim fosse Deus. A nossa voz é tão subtil como uma lenta paixão. Os momentos brilham no nosso interior. Nós somos momentos. Esses nítidos fragmentos da desordem. E da paixão. Essa funda duração do envolvimento da gravitação. Todas as crianças abandonam os monstros que as habitam. A memória esquece tudo. Até o arrefecimento estúpido das palavras. Falaremos da luz, falaremos das árvores, falaremos dos murmúrios. Falaremos da ondulação das águas, da rutilação do mundo, da arte de morrer dentro de uma explosão matemática. Emitimos radiações. Presentemente as janelas estão sossegadas porque conseguiram transmitir o seu endurecimento. Afastamo-nos daquilo que sempre nos afastou. Aprendemos a incandescência da liberdade. A solidão das estrelas. A epifania da desordem. O receio das portas. A lassidão do movimento. O mundo gira dentro da sua menor amplitude. E ama a leveza e o cansaço da geografia das ruínas. Os dias voam como catedrais iluminadas. A solidão agasalha os vestígios. A voz surda dos loucos implode dentro da minha cabeça. Os espelhos já não respondem, perguntam. As asas transformam-se no abismo dos pássaros. Os anjos ficam escuros. Tudo pode recomeçar. Tudo deve recomeçar. As crianças são o centro do mundo. As mães são as mãos incansáveis dentro das casas. As mães são o contacto das mãos. Por isso as tardes ficam acesas. A nossa alegria afoga os rios. E move as pedras. E ilumina o tempo. E revela a imensa fluência do céu. E fixa o brilho dos momentos. E a gravitação das palavras. Todo o excesso de luz magoa a escuridão. É urgente agitar a desordem da paz. A violência das regras. A monotonia densa da música. A cintilação fluorescente do tempo. Ardemos dentro da nossa própria solidão. Os corpos sabem tudo, desde o amor à morte. O amor é uma amplidão. A morte é uma oração. Resta-nos o desejo. As cicatrizes do mar. A água que se abre como uma vulva. 


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Terça-feira, 8 de Outubro de 2013

Na feira do gado


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Segunda-feira, 7 de Outubro de 2013

Pérolas e diamantes (58): o humor dos camaleões


Os políticos “aparelhistas” têm a estranha habilidade de formularem os problemas sociais para que uma pessoa seja obrigada a concordar com eles. E fazem-no parecendo que expõem os dois lados da questão de forma bastante objetiva. Mas isso não é verdade.

 

É cada vez mais evidente que o nosso país, e a nossa sociedade, estão prestes a afundar-se. Os sistemas políticos estão profundamente comprometidos com a corrupção, os interesses obscuros e a oligarquia financeira. Já não têm utilidade visível.

 

Os nossos padrões comportamentais, interiores e exteriores, revelaram-se um fracasso. A desgraça é que não podemos, e provavelmente não queremos, ou nem sequer temos a força necessária para mudar o rumo das coisas.

 

O tempo das revoluções já lá vai e, bem vistas as coisas, nem os mais otimistas acreditam nos seus efeitos positivos.

 

Ali, ao virar da esquina, estão os lobos à espera. E um dia eles vão abater-se sobre a nossa existência ultra-individualizada sem apelo nem agravo. Mesmo assim, continuo um democrata social convicto.

 

O meu ceticismo leva-me a que não consiga ter uma opinião favorável sobre as instituições. Eu sei, todos sabemos, que a característica mais marcante da humanidade é a desumanidade do homem face ao homem.

 

O que mais me espanta na nossa sociedade dita democrática e consumista não é a arte ou os progressos científicos que alcançámos. O que me abisma é a indiferença perante a carnificina diária e a estupidez permanente.

 

Os fenómenos políticos e culturais não devem ser programados apenas no sentido de agradarem às pessoas. Vale mais não gostarem de nós, desde que sejamos honestos e competentes naquilo que fazemos.

 

É preferível tentar fazer sempre melhor e falhar estrepitosamente do que jogar pelo seguro e tentar cair nas boas graças de quem quer que seja.

 

Quem me conhece sabe bem que fico satisfeito quando escrevo ou faço alguma coisa que as pessoas apreciam. Mas quando isso não acontece não posso fazer nada para remediar a situação porque simplesmente não faço aquilo que tenho de fazer para obter a sua aprovação.

 

Tal como toda a gente, possuo apenas uma visão limitada de mim próprio, ao passo que qualquer pessoa, ao observar-me de fora, pode alertar-me para uma dimensão que eu não reconheço imediatamente. Para isso servem as pessoas de boa vontade e os amigos.

 

Também sei que o humor, segundo uma teoria recente, é uma forma de esconder uma certa forma de hostilidade.

 

Mas o que mais detesto é essa espécie de camaleões modernos que se dão em todos os ambientes.

 

Fazem-me sempre lembrar Zelig – uma personagem de um filme de Woody Allen, interpretada pelo próprio –, que tão desesperado por ser aceite se torna um homem camaleão capaz de reproduzir a personalidade de qualquer que seja o grupo com que se encontra.

 

Por vezes aventuramo-nos a fantasiar, mas a realidade acaba sempre por nos tramar. Por mais que nos custe, somos sempre forçados a escolher a realidade, em detrimento da fantasia. Mas a realidade acaba sempre por nos magoar. E a fantasia tem o condão de nos fazer enlouquecer.

 

Há pessoas que lutam toda a vida por conseguir troféus, colecionar medalhas ou obter diplomas. Mas uma coisa todos sabemos, eles não mudam a nossa vida, não nos afetam positivamente em termos de saúde, não nos tornam a vida mais longa, nem nos dão felicidade emocional.

 

Tudo aquilo que queremos ver consertado, ou que pretendemos que nos ajudem a conseguir, toda a harmonia e o bem-estar pessoal de que necessitamos são questões que não conseguimos resolver com as maiores honrarias do mundo. 


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Domingo, 6 de Outubro de 2013

A procissão


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Sábado, 5 de Outubro de 2013

À espera da procissão


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Sexta-feira, 4 de Outubro de 2013

O Homem Sem Memória - 177


177 – As más notícias correm depressa, mesmo na prisão. E a notícia da condenação à morte do camarada funcionário não foi exceção. Quando os onze ex-guerrilheiros se inteiraram do sucedido tiveram primeiro um ataque de incredulidade seguido de outro de pânico. Nem queriam acreditar que por coisa tão pouca um comunista dedicado fosse sentenciado com a pena de morte. Que teria ele feito de tão grave para merecer cumprir com destino tão cruel? Além disso, como todos pertenciam ao mesmo grupo de traidores, o mais provável era que a sentença fosse igual para todos. O autêntico bolchevismo, mesmo luso e sulista, a isso estava obrigado.


Como bons comunistas transmontanos, puseram-se a rezar como o faziam os fiéis cristãos do tempo dos romanos condenados a serem lançados às feras. Passaram toda a noite em claro, calculando que fossem também chamados ao camarada juiz para ele lhes ler a sentença. Mas ela não veio, nem nesse dia nem nos seguintes. Essa era a forma de suplício superior. E eles bem o mereciam. Não conseguiram aguentar a tortura, confessando tudo o que lhes veio à cabeça e que eles pensavam poder satisfazer a insaciável curiosidade do Partido e dos seus iluminados líderes. 


Foi-lhes entretanto proposto, como ato de misericórdia, assistirem ao fuzilamento do camarada funcionário. Afinal sempre tinham sido os seus camaradas mais chegados. E também foram eles quem o delatou. Podemos dizer, como eles disseram em sua defesa, que as suas confissões foram obtidas à força da tortura. E foram sim senhor, como todos bem sabemos. Mas, para o caso, o que interessava eram as declarações datilografadas pelo camarada escrivão e assinadas por todos os seviciados. No final de cada depoimento, era bem visível a caligrafia, tremidinha é certo, de cada um deles. Para a justiça, mesmo revolucionária, os papéis é que contam. E para a história ficaram aquelas folhas datilografadas a dois espaços com as declarações dos camaradas explicando que o camarada funcionário era um cobarde que tinha desertado em pleno combate revolucionário, além de que era também responsável por desleixo organizativo, fraqueza ideológica, por inúmeras fugas de informação e ainda por direitismo, imobilismo, centralismo, regionalismo, imobilismo, fracionismo, trotskismo, esquerdismo e seguidismo.


Apesar da cortesia do Partido, e dos seus iluminados líderes, e da inquestionável afirmação revolucionária do convite, todos os camaradas o rejeitaram invocando razões de saúde. Os camaradas do sul apelidaram-nos de cobardes. Eles não conseguiram contestar. Era por demais evidente que lá cobardes eram. Mas a revolução, como todos sabemos, é uma guerra. E nela quem não mata morre. Por isso a escolha tornava-se fácil. Era ele ou eles. E essa coisa da verdade, da honestidade, da honradez e da heroicidade é argumento bom para filmes e para livros de aventuras. Na guerra não se limpam armas. Nem se têm crises de consciência. Entre a vida do outro ou a nossa, está claro que escolhemos a nossa. Sejamos comunistas, democratas, fascistas ou mesmo budistas. A vida é um fim, mesmo que digam o contrário os cristãos, os muçulmanos ou mesmo os fadistas. A vida não é um meio. E os fins justificam sempre os meios, como todos sabemos bem.


O camarada funcionário foi fuzilado de manhazinha, logo depois de lhe terem servido o pequeno-almoço, que ele recusou, para não vomitar no momento da execução. O curioso foi que tanto os camaradas fuziladores como o camarada fuzilado deram vivas ao comunismo ao mesmo tempo e da mesma forma. A revolução tem destes paradoxos. Afinal, ela é feita por seres humanos, mesmo que por vezes não pareça.


As distintas sentenças foram apenas comunicadas aos camaradas traidores ao sétimo dia, como Deus manda.


Nenhum foi condenado à morte. Foram enviados para o Gulag sulista, o Alentejo mais profundo, para programas de reeducação revolucionária. Receberam uma guia de marcha para as Unidades Coletivas de Produção para auxiliarem na reforma agrária com a diretiva expressa de labutarem de sol a sol. 


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Quinta-feira, 3 de Outubro de 2013

À espera da procissão


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Rua Direita - Chaves


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