Sábado, 30 de Novembro de 2013

JM


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Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013

O Homem Sem Memória - 185


185 – O golpe final na fé comunista do José aconteceu quando leu o discurso de Nikita Khrushchev feito no XX Congresso do Partido Comunista, depois de pedir a todos os convidados estrangeiros que abandonassem a sala. Perante 1400 congressistas atónitos, o poderoso secretário-geral do PCUS discursou durante quatro horas e descreveu com pormenor os terríveis crimes de José Estaline, o homem que foi adorado por milhões de comunistas do mundo inteiro. Talvez ainda mais que Lenine e Marx.


Foi perto da meia-noite do dia 23 de janeiro de 1956 que Khrushchev acusou Estaline do massacre de milhões de pessoas. Constou que depois do discurso, muitos dos delegados choraram como crianças, outros puxaram os cabelos e outros ainda desmaiaram ou tiveram ataques cardíacos. Dois suicidaram-se após aquela noite. Mas nem uma única palavra foi publicada pelos meios de comunicação soviéticos. Alguns excertos do discurso foram lidos em sessões fechadas para os corpos máximos do Partido. Muito poucos comunistas estrangeiros tiveram acesso a essa informação. Alberto Punhal foi um deles. E nem pestanejou aquando da leitura do documento. Dele nada contou aos seus camaradas. Guardou-o num cofre-forte em parte incerta. Mas mãos milagrosas, passados 24 anos, descobriram-no e fotocopiaram-no. Para os comunistas, e para a maioria dos cidadãos em geral, o relatório continuou a ser escondido. Muitos, dos poucos que o leram, continuavam convictos de que o que lá estava escrito era tudo, ou quase tudo, mentira. O que diziam uns aos outros para se convencerem era que Khrushchev não passava de um demente mentiroso e fraco.


Quando as dezenas de folhas com os excertos mais importantes do discurso chegaram às trémulas mãos do José, ele tratou logo de as guardar em lugar seguro. Com paciência e determinação fez a respetiva leitura e os inevitáveis cálculos. A seguir elaborou um pequeno documento com a intenção de o distribuir através das células clandestinas do campo. O problema era que tanto ele como a meia dúzia dos seus camaradas contrarrevolucionários não atinavam com a forma de o imprimirem para posterior distribuição. Primeiro pensaram na forma de arranjarem papel ou algo pelo estilo. Conformaram-se em acondicionar e secar folhas de cana ou outras idênticas. Mas faltava-lhes a prensa e as letras para organizarem um texto que fosse possível de imprimir e também a tinta.


A tinta fabricaram-na utilizando suco de frutos silvestres. Mas continuava a faltar a prensa e o tabuleiro com os carateres gráficos. Depois de muito pensar, o José descobriu uma forma. A solução encontrou-a na cortiça. Desenhou as palavras em placas e depois, com a ajuda de uma navalha bem afiada, esculpiu-as em relevo para serem embebidas em tinta consistente e posteriormente, através de uma prensa de pedra, as imprimir em folhas de plantas. Toda aquela tarefa demorou o tempo que tinha de demorar. Num campo de prisioneiros o que mais sobra é tempo.


Foram impressos e distribuídos cerca de quinhentos prospetos. As pessoas que liam os textos, ou que os ouviam ler, pois a maioria era analfabeta, também se recusavam a acreditar em números tão cruéis.


A primeira leitura realizada em grupo levou aquela meia dúzia de ex-comunistas desiludidos às lágrimas. Podiam já não ser comunistas, mas muitos deles ainda se sentiam de esquerda e até revolucionários. Consideravam que era possível a utopia do comunismo, mas de um comunismo com rosto humano. Não sabendo que todo o comunismo leva sempre à ditadura e à barbárie. Por isso é que eram considerados pelo Partido uns insensatos e uns contrarrevolucionários perigosos.


O texto rezava assim: “Em 1956, Khrushchev revelou que Estaline, durante os seus anos de poder, cometeu crimes monstruosos e ordenou o assassínio de milhões de pessoas. Lembrou ainda que Lenine avisou o Partido para que tivesse cuidado com Estaline. Nessa altura Khrushchev condenou o culto da personalidade do homem que foi apelidado de “o Sol das Nações”. Revelou a deslocação forçada de grupos étnicos na União Soviética, que conduziu a milhões de mortes. Nas grandes purgas (1936-1937), um milhão e meio de comunistas foram presos e 680 mil executados. Por altura do XVII Congresso do Partido, 848 foram executados a mando de Estaline, assim como 98 dos 138 candidatos ao Comité Central. Ou seja, Khrushchev revelou Estaline como um assassino de massas, responsável pelo massacre de milhões de russos e pessoas de outras nacionalidades, muitas das quais comunistas leais. Afinal o Messias comunista não passou de um monstro sanguinário.


Mas o pior de tudo é que o camarada Alberto Punhal sempre soube disso e escondeu-o dos seus camaradas e do seu povo. Ou seja, mentiu-nos. Sim, mentiu-nos, porque quem esconde a verdade aos seus camaradas e ao seu povo, mente. E, como diz o povo, mentiroso que mente uma vez mente mais uma dúzia ou três. 


Alberto Punhal, sempre apoiou de forma inequívoca a ditadura totalitária na URSS e nos restantes países do Leste signatários do Pacto de Varsóvia que provocou a morte de mais de 21 milhões de pessoas.


Eles pretendem que nós esqueçamos ou que sejamos coniventes com esta hedionda mentira, mas o comunismo e o nazismo são duas faces da mesma moeda: o totalitarismo, onde cada indivíduo é subjugado à vontade do Estado. 


Mas não pensem que isto aconteceu apenas na URSS. Aconteceu, e acontece, em maior ou menor escala, em todos os países comunistas. Inclusive no nosso. Disso todos vamos sendo testemunhas. A morte aqui nos campos é seletiva, mas não deixa de ser extinção de uma parte do nosso povo. Está na hora de esse mesmo povo se revoltar contra os tiranos que em nome da liberdade e da igualdade mais não fazem do que aprisionar e aniquilar os seus melhores filhos. Agora todos sabemos que o comunismo é uma doença incurável.


O esqueleto do camarada John Cleese que ao sol expõe a sua brancura acusatória, ali no meio da planície, diz-nos que os tiranos são todos iguais.


E povo que não tem memória nega o seu futuro para sempre.”


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Quinta-feira, 28 de Novembro de 2013

O senhor Ventura


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Quarta-feira, 27 de Novembro de 2013

Poema Infinito (174): arte insensata


Sou incendiado pela tua forte delicadeza, eu que sou esguio e alteroso. Os dedos trabalham o movimento branco das aparições. Sou dominado pelas paisagens constituídas por letras e pela sua ardente cavalgada e pela luz impressa em papel esférico e pela eterna solidão do céu e das estrelas. Os cavalos são números e os homens que os montam tremem e por isso as mulheres se transformam em catedrais góticas e esgotadas. Essas mulheres enchem-se de maçãs e de pecado e trepam as cobras e amassam os homens como se fossem de barro. O problema dos homens é que não desistem de pintar quadros insidiosos, tentando dar-lhes uma ordenação, experimentado forçá-los a constituírem a ordem dentro do caos. Todas as paisagens são escorregadias. Todas as paisagens são mulheres ardentes cavalgando palavras vermelhas. O mundo é um lugar ameaçado porque não percebe as metamorfoses da imaginação. E também não entende os homens que amam as mulheres e a sua prestidigitação amorosa. Toda a arte é uma espécie de fidelização aos abismos primitivos. As mãos multiplicam-se por causa das vozes que são cores e que são estátuas que abrangem os parques inteiros. Todas as vítimas caminham com a boca impressa de uma amabilidade biliosa. E escutam a nudez do silêncio e as fotografias bêbedas e a perfeição repentina do amanhecer e a urgência terrível da beleza e ainda os outros homens e as distintas mulheres que habitam as montanhas violentas. É durante a noite que se plantam os espelhos nos jardins, enquanto o luar desce até ficar imóvel nas ruas. Todo esse assombro linear cavalga de cidade em cidade espantado com a ambígua fama do amor. Por isso as cores são silenciosas. Por isso o seu perfume dança fazendo nascer novos espaços. Todas as pessoas são duas pessoas criadas pelo Deus supremo da imprevisibilidade. Por isso os anjos se escondem atrás das portas e lá penduram as suas asas de cera arrefecida. O meu tempo é feito de uma seda ambígua nascido na interseção dos espaços que dançam. Tenho por vezes aparições de frases escritas que lacrimejam gotas de sangue geométrico. Costumo pensar em ti a dançar ao ritmo da tua respiração, como se a beleza fosse um pavor de destinos. E depois tremo. Então desapareces antes de te revelares. Sinto a música como uma sucessão de crianças que desaparecem nas pautas. Agora o luar de inverno devora as aldeias. E as varandas desaparecem das casas a uma velocidade branda. Novamente os dias se atrasaram em relação à razão. O fim é uma dança leve e silenciosa. Vejo nos lugares o começo eterno da vida e a dança da morte. E o princípio das linhas puras e o vento que atiça a solidão. Atrás de mim ardem as noites e as imagens e a ressurreição do tempo e as raízes brancas da paciência. Sou um pintor de letras que se evaporam. E de mulheres que se vestem de magnólias e que suspiram temeridades e que são livros tranquilos que observam os factos como se fossem corpos nus. Ouve-se a água a levitar por cima da extensa profusão da terra. Absorvemos a delicadeza das estações que empunham a pressa invulgar dos camponeses. As montanhas descem pelo lado esquerdo do quadro contrariando a intenção impressa do pintor. Os animais estremecem antes de adormecer. Adivinham outra alvorada monótona. A minha voz emigra para a terra do silêncio. É aí onde se encontra o perfume implacável da razão. Ter razão antes de tempo é uma arte insensata.


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Terça-feira, 26 de Novembro de 2013

Sorriso


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Segunda-feira, 25 de Novembro de 2013

Pérolas e diamantes (65): Com D. Quixote no Coração


Santo Agostinho dizia que até os corações bons têm um abismo. Descobri agora que também o meu sofre da mesma sensação de vórtice.  Isto partindo do princípio de que o meu coração é bom. É isso que quero crer, mas será assim?

 

É que corações há muitos, tal e qual como os chapéus. E para todos os gostos, feitios e medidas. E também para todas as declarações de intenção ou outras manobras de diversão ou inversão de rumo. É por isso que continuo a ser uma pessoa agreste que ri como uma criança perante os factos mais inexplicáveis que muitos insistem em tornar compreensíveis. E de coração aberto. É que para esse peditório já dei o que tinha a dar. E quem dá o que tem a mais não é obrigado.

 

Li algures uma coisa que me deixou a meditar de inquietação. Um homem disse que cegou quando era pequenino. Estava deitado na cama a dormir e quando acordou disse à avó para abrir a janela porque não via nada. Descobriu então que estava cego.

 

Confesso que também eu tenho medo de cegar de repente. Por vezes fecho os olhos para me aperceber da sensação. Então consigo compreender as palavras do artista basco Eduardo Chilila: “O espaço é uma matéria rápida. A matéria é um espaço lento.”

 

E também as de Churchill: “Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir.” Ou: “Uma meia mentira nunca será uma meia verdade.” Ou ainda: "Algumas pessoas mudam de partido em defesa de seus princípios. Outras mudam de princípios em defesa do seu partido."

 

Muitos dos que nos rodeiam parecem personagens de Beckett, pessoas sem liberdade, porque, apesar de a possuírem em excesso, não sabem o que fazer com ela.

 

Um dos meus livros de cabeceira, que leio para não enlouquecer, ou melhor, para tentar dar algum sentido ao mundo e àquilo que nos rodeia, é o Dom Quixote. Tenho por ele uma admiração infinita. Para mim é o livro de todos os livros. Nele está incluído o género de exaltação que os idealistas voluntariosos quase sempre nos provocam.

 

Hoje continua a ser mal visto, ou incompreendido, manifestar a diferença. As pessoas têm sempre medo do que os outros vão dizer. Mas, talvez por isso, não me vou coibir de citar o escritor Pedro Badarra, numa entrevista recente: “O que é que o faz amar e odiar Portugal? É muito simples e está destilado. Já destilei esse pensamento de taxista. Gosto e amo o cheiro, e a cor, e o mar, e os robalos, e a praia. E detesto gente. Não são as pessoas. A parte das pessoas que é animal, que é como os robalos, os cães, os gatos, gosto. Aquela parte que é a nossa construção social cheia de convenções, cheia de gentinha, cheia de grupinhos, não gosto. É tudo muito conservador. Somos pequenos.”

 

De facto, o escritor tem razão. Aqui tudo é pequeno, especialmente na província mais provinciana. Os ricos são pouco ricos e os líderes são pouco líderes. Muitos dos líderes são risíveis, quando não patéticos. Toda a gente parece que tem muito a perder porque tem pouco.

 

E ainda há quem divida isto ao meio, entre a esquerda e a direita. Isso é agora uma irracionalidade. Aqui ninguém fala verdade. E o discurso dos que apoiamos chama-nos estúpidos a todos.

 

É a pequenez. A nossa pequenez. Eu abomino a pequenez. Não é a pequenez das casas ou das aldeias. É a pequenez de espírito. É o espírito destes dias do lixo, como diz Pacheco Pereira. Estamos mais preocupados em conservar o pouco que temos do que em arriscar o que temos para conseguir mais.

 

Sim, nós somos bons alunos, só que de maus mestres. Já fizemos tantas vezes de Sísifo que estamos cansados. Sempre a levar a pedra pela encosta e ela, antes de chegar ao cimo do monte, cai-nos sempre e rola pela encosta.

 

A cidade nesta crise imensa, nesta dívida colossal, que se calcula em cerca de 70 milões de euros, e os nossos subordinados regentes apenas se mostram dispostos à politiquice e à troca de cadeiras, da busca de lugares, de tachos, de panelas e potes. Mas há pessoas que apenas aceitam o caldeirão do Astérix, mas atenção, com a poção mágica incluída para combater os romanos.

 

A política da verdade, do trabalho e da competência deu nisto. Nesta governação subordinada à vaidade e à prepotência de gente que não se enxerga na sua irresponsabilidade, na sua arrogância, no seu despotismo.

 

Por isso é que esta gestão autárquica já é irrelevante.  

 

Hoje vou terminar com as palavras do político e intelectual brasileiro Ruy Barbosa (1849-1923), e um pouco emocionado, sabe-se lá bem porquê: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”


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Domingo, 24 de Novembro de 2013

João Vasco e Ana Soares em Chaves


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Sábado, 23 de Novembro de 2013

Axel e Marina em Paris - Museu Rodin


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Sexta-feira, 22 de Novembro de 2013

O Homem Sem Memória - 184


184 – O José estava sentado num banco à sombra de uma parede alva como a cal quando viu chegar a brigada de perseguidores. Além de suados, vinham todos perplexos, montadas incluídas. Apenas os cães e o camarada capataz denotavam uma satisfação acrescida. O José nem se mexeu. Fez-se de mexicano a dormir a sesta. Quando a ocasião se proporcionou, perguntou a quem sabia pelo paradeiro do seu amigo. “Será que escapou?”, questionou curioso conjeturando algum milagre. “Do inferno ninguém escapa”, responderam-lhe. Ele voltou a perguntar pelo amigo. A trupe limitou-se a apontar na direção dos cães. Como ninguém dizia nada de esclarecedor, um camarada menos camarada, resolveu contar-lhe a verdade nua e crua. Ele recusou-se a acreditar.


Nessa mesma noite, o José resolveu vingar a morte do contador de anedotas. Mas com paciência e método. Decidiu combater os comunistas com as suas próprias armas: organizando células clandestinas e espalhando a incerteza, a dúvida, a desconfiança e a desobediência.


Fez-se amigo de vários dirigentes e transformou-se num prisioneiro exemplar. Obedecia a todas as ordens e não contestava nada nem ninguém. Devido à sua conduta exemplar, resolveram conceder-lhe mais liberdade. E ele aproveitou-a. Ia de monte em monte fazendo amizades e tentando desenvolver cumplicidades.


Saía de manhazinha e caminhava enquanto o sol não apertava. Por volta das dez matava o bicho com pão e algum conduto que conseguia desenrascar entre a malta conhecida. Depois punha-se a olhar para o horizonte até se perder no infinito. Desesperado com a monotonia das vistas, adormecia. E sonhava. Sonhar era a forma de se manter mentalmente são.


Sonhava com a família, com a infância, com o verde dos montes, com os amigos. Sonhava com a sua terra. Quando acordava punha-se a gritar muito alto canções que tinha aprendido na infância. Quando chegava a algum monte habitado disponibilizava-se a ajudar no que quer que fosse. Transformou-se num bom trabalhador agrícola. Aprendeu a viver com as dificuldades do dia-a-dia, com a pobreza, com a indiferença, com a solidão. Amigos verdadeiros deixou de ter, por vontade própria. A sua inseparável amizade passou a ser a sua sombra. Afinal, o José dava azar a quem com ele convivia. Limitava-se a ter conhecidos, que respeitava. Mas nada mais do que isso. Contava histórias às crianças e entretinha-se a ensinar alguns adultos a ler e a escrever. Nunca falava de política, nem de religião e muito menos de futebol. Quando alguém lhe perguntava algo sobre a situação política do país respondia que nada sabia e que pouco lhe importava. Além disso ele era do Norte. E no Norte as coisas são diferentes. “Para pior?”, perguntavam-lhe a rir. Ao que ele respondia que apenas eram diferentes. “E diferentes, como?”, insistiam. O José mudava então de conversa. Falava do tempo e da natureza. Entretanto ia tirando algumas informações sobre o camarada capataz.


Contaram-lhe que era um homem que se tinha feito a si próprio, de origem humilde. Não se lhe conheciam amigos do peito. Tinha sido um jovem solitário que cedo se inscreveu no Partido. Era carreirista, ou, melhor dizendo, um homem de partido. Não discutia ordens nem admitia que as discutissem. Ascendeu rápido na hierarquia, o que não é de admirar. Ainda no tempo do fascismo ficou ligado ao assassinato de uma patrulha de dois soldados da GNR que tinham ido em serviço inspecionar uma greve numa herdade de um latifundiário. Perseguido pelos militares, e pela polícia política, o Partido resolveu enviá-lo para Moscovo. Foi na pátria de Lenine que decorou toda a parafernália de textos sobre a reforma agrária nos países socialistas. Visitou várias herdades coletivas e familiarizou-se com a retórica marxista-leninista. Não entendia nada de agricultura e muito menos percebia o que quer que fosse do conteúdo da ideologia que tinha jurado abraçar, mas era um ás na repetição das palavras dos camaradas do Comité Central que vinham plasmadas no jornal do partido. Com a queda do Estado Novo, voltou ao seu querido Alentejo e encabeçou todas as lutas que pode contra os latifundiários e os seus lacaios. A muitos deles derreou-os de porrada, ele mais as suas brigadas revolucionárias. Não olhava a meios para atingir os fins. Nisso era um leninista genuíno. Com a conquista do poder pelo Partido, manobrou as estruturas dirigentes para o nomearem diretor da primeira Unidade Coletiva de Produção da Reforma Agrária. Mas não tardou que muitos dos camaradas começassem a contestar os seus processos autoritários. Conseguiu saneá-los a todos, sem exceção. Ele mal comia, visitava a família muito de vez em quando e à mulher e aos filhos tratava-os com a mesma autoridade que os demais, como militantes de base do Partido. Muitos dos que lhe fizeram frente foram encontrados mortos nas encruzilhadas dos caminhos. Espalhava aos quatro ventos que era tudo manobra da reação ou de uma seita de fanáticos religiosos. E com esse argumento perseguia ainda mais os já poucos reacionários que por ali existiam, se é que nessa altura sobravam alguns. Como a UCP era um primor de organização política, mas um desastre na produção agrícola e pecuária, resolveram, para bem do povo e da revolução, transformar a UCP num projeto piloto, conferindo-lhe o estatuto de uma Unidade de Produção Agrícola e Pecuária destinada a albergar e a reabilitar prisoneiros políticos, quer reacionários, quer dissidentes. Pois todos sabemos desde o tempo dos campos de concentração nazi que o trabalho dá liberdade, confere igualdade e irradia fraternidade.


Ele, como bom comunista, detestava ambos os tipos de prisioneiros, mas odiava ainda mais os dissidentes. Não conseguia conceber como é que depois de terem sido iluminados pela verdade revolucionária eram capazes de renegar a revolução, ou os camaradas dirigentes, ou as orientações partidárias, ou contestarem as verdades ideológicas criadas por Marx, Lenine, Estaline e Alberto Punhal.


As orientações do Partido tinham sido explícitas: Os prisioneiros políticos apenas podem sair da UCP reabilitados ou mortos. E ele, como bom comunista, sabia que a reabilitação de um ex-comunista é pura e simplesmente, impossível. E os prisioneiros cada vez eram mais e piores. A dúvida num corpo comunista é uma doença epidémica e mortal. 


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Quinta-feira, 21 de Novembro de 2013

Pensando


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Quarta-feira, 20 de Novembro de 2013

Poema Infinito (173): cântico


Vou a bordo de um navio tão azul que não tem limites. Os ventos sibilam e ouvem-se músicas que são ondas grandes e imperiosas. Ao seu lado um barco solitário flutua no mar denso como se estivesse dentro de um filme de Fellini. O barco está cheio de fé e por isso exibe as suas velas brancas entre o fulgor do dia e a espuma do mar. Adivinham-se no céu as inúmeras estrelas que brilharão durante a noite. Eu sou a reminiscência da terra. Eu sou o jovem marinheiro. Eu sou o velho marinheiro. Eu sou o pensamento dos viajantes. A terra firme. A curvatura dos arcos e a longa pulsação dos momentos. Eu sou o fluxo e o refluxo dos movimentos eternos. Eu sou o som do mistério. As vagas invisíveis e todas as sugestões de deslocação. Eu sou todas as sílabas líquidas que tu pronuncias. Eu sou o ritmo ilimitado da melancolia. O longínquo poema que criou o horizonte. Eu sou a hesitação de todos os que não hesitam. O destino dos que não têm destino. A reminiscência da fé e dos barcos que se isolam no mar. Eu sou o navio que não navega porque não quer. Eu sou a ânsia dos navegantes. A determinação de tudo aquilo que avança. As folhas dos livros imperiosos. O enigma que se explica com outro enigma. Eu celebro o passado. Eu celebro o presente. Eu celebro o futuro. Eu canto o que há de vir. Eu canto o orgulho e todas as velhas causas. Eu canto a doce ideia da paixão. A imortalidade do tempo. A guerra triste da verdade. Eu canto a dúvida e a sua eterna marcha silenciosa. Eu avanço em ebulição. Por isso rodeio toda a ideia de guerra, o jogo cruel das causas violentas, os eixos dos espíritos e as folhas enigmáticas. Por isso canto a ciência artística dos videntes e tudo o que gira à sua volta. Sei agora que é essa a causa das horas enigmáticas. As imagens começam a introduzir a luz nos círculos atmosféricos. Submerjo com toda a certeza de recomeçar a desagregação da matéria. Eu sou uma imagem líquida. Eu sou o esforço dos guerreiros. O martírio dos mártires. A heroicidade dos invisuais. A emoção dos pensamentos emergentes. Eu sou uma terra que já desapareceu há muito tempo. Por isso canto a densidade dos impulsos, o nascimento do êxtase, a transfiguração das montanhas, o tempo das estrelas, a perturbação do sol e a tremenda brevidade de um raio de luz. Milhares são as coisas silenciosas que desaguam nos rios e que vão para o mar. Agora ganha sentido a vida e o mundo e o universo. Por isso amplio o espaço e ergo o presente e amplio o passado e construo o futuro. O mar volta a ser uma sugestão assustada com a sua própria força e a sua liquidez permanente. Por isso descubro em ti o que procuro em mim. A simplicidade da consciência, o poder da mobilidade dos olhares, o paradoxo da idade, a grande aquisição do desejo, o cântico inexorável das viagens. Em ti recupero a minha liberdade. Entrego-me ao cântico da passagem das estações. Entrego-me à demora do crescimento das cidades espantadíssimas. O teu corpo é o meu norte magnético. A minha alma promulgada. A rebeldia audaciosa do prazer. Descubro um novo silêncio na natureza dos átomos. Os marinheiros ensinam os seus barcos a engolirem as tempestades. O mar volta à sua origem. Os filhos levam consigo a admiração dos pais. Nós somos de novo os navios que partem. O mar sem limites. As velas desfraldadas. O vigor do mar. O brilho da espuma. Hoje sou o poeta que descansa o seu desassossego. 


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Terça-feira, 19 de Novembro de 2013

Anelhe


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Segunda-feira, 18 de Novembro de 2013

Pérolas e diamantes (64): a tempestade e a queda


O nosso problema enquanto país é grave e não sabemos muito bem como sair dele. Do problema, claro está, não do país. Apesar dos apelos do nosso primeiro, alguns de nós têm mesmo de teimar em viver dentro de fronteiras, pois não nos resta outra solução.

 

Se os políticos deste país nos comeram a carne, agora que se saciem com os ossos.

 

Um país que possui como chefe de Governo Passos Coelho e como líder da oposição António José Seguro tem as suas esperanças num futuro melhor necessariamente comprometidas. Como muito bem diz o nosso povo: Se de um lado chove do outro troveja.

 

Ambos e dois são figuras de estilo, intelectualmente medíocres, que se limitam a repetir frases feitas e vazias de sentido. Essa é a sua pose de Estado. E do vazio ninguém conseguiu até hoje fazer nascer algo de substancial.

 

Passos Coelho admite que vamos precisar de um segundo resgate, e dá-se por feliz com o feito, mesmo que isso signifique, obviamente, o completo falhanço do seu Governo e de três anos de massacre social.

 

José Seguro, em alternativa, sugere, entre linhas, ou entre dentes, que vamos necessitar de um programa cautelar, mal termine o resgate, e com isso mostra-se, ao mesmo tempo, satisfeito e indignado.

 

Basta assistir à dialética parlamentar deste duo dinâmico – e a “dialética” que me perdoe por ser tão mal invocada –, para nos inteirarmos da sua quase total impreparação e incompetência para tratar seriamente dos problemas do país. As suas intervenções são absolutamente vazias e a sua capacidade e substância argumentativas raiam o ridículo, quando não o patético.

 

Dizem que uma desgraça nunca vem só e é bem verdade. Primeiro chegou a troika mais a estupidez do seu programa financeiro e económico. Depois chegaram as instituições europeias a justificarem o injustificável. Antes, durante e depois, caiu-nos em cima a vampiragem dos mercados e do grande capital. Logo após mergulhámos num mar de indicadores que nos tiraram, e tiram, toda e qualquer ténue esperança de futuro.

 

Quando é chegada a hora de pedirmos apoio a quem nos governa, caem-nos no regaço estes dois senhores que não possuem passado político ou profissional que os recomende sequer para presidentes de junta, quanto mais para primeiros-ministros.

 

O senhor da bandeira laranja, em apenas dois anos, sacou dos bolsos dos portugueses cerca de 25 mil milhões de euros para poupar 5 mil milhões no défice estrutural do Estado. Pelo caminho destruiu 400 mil postos de trabalho e mandou para a emigração cerca de 100 mil jovens qualificados.

 

E não cabe em si de contente porque a Europa, e a troika, não se cansam de lhe gabar a determinação de cumprir o programa à risca. Se daí resultar a destruição do país tanto faz. Perdidos por cem perdidos por mil.

 

Do lado do senhor de rosa ao peito tudo é tão simples que mete dó. Basta parar com a austeridade para o milagre da recuperação económica se verificar. A verdadeira oposição que a faça o Tribunal Constitucional. Pois, mais dia, menos dia, o poder cai-lhes no regaço e depois… logo se verá.

 

Está visto que seguindo por esta via crucis de austeridade e miséria política e social, o PSD será varrido do poder por muitos anos. E bem o merece.

 

Mas a verdade é que com um PS conduzido por um líder tão apático e desenxabido como António José Seguro não é alternativa para nada nem para ninguém.

 

Numa coisa todos temos que convir: ou o principal partido da oposição muda de líder e escolhe uma alternativa que possa ser levada a sério pelos portugueses, quer sejam socialistas ou não, ou então o nosso futuro resume-se a não ter futuro nenhum.

 

Portugal necessita, mais do que nunca, de ter verdadeiros estadistas e verdadeiros políticos à frente dos seus destinos, quer locais quer nacionais. Urge mandar para casa os caciques partidários e as enguias políticas.

 

E por hoje termino citando o escritor JM Coetzee, prémio Nobel da Literatura em 2003, numa entrevista ao Expresso: “O contrato que funda o Estado requer que os cidadãos entreguem o poder ao Estado; em troca, os cidadãos esperam que o Estado mantenha a paz e os trate justamente. Estas esperanças nem sempre são fundadas; só raramente são satisfeitas. Porque é que a forma de governo que inventámos nos desaponta tantas vezes? Não posso dar uma resposta satisfatória exceto para dizer que somos criaturas caídas.”


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Domingo, 17 de Novembro de 2013

À espera


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Sábado, 16 de Novembro de 2013

Conversas


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Sexta-feira, 15 de Novembro de 2013

O Homem Sem Memória - 183


183 – A partir do momento em que os dois amigos se recompuseram, o sósia do John Cleese nunca mais contou uma anedota ou sequer falou. Dava dó vê-lo. Parecia um morto vivo. Ensimesmando, olhava para o infinito como se esse fosse o seu destino. Olhava para as pessoas como se fossem de vidro transparente e examinava o amigo como se ele habitasse um planeta diferente. O gulag alentejano estava a matá-lo inexoravelmente, tirando -lhe o fundamento de viver, sugando-lhe a vitalidade, apagando-lhe a memória e destruindo-lhe a razão de ser. O José bem que tentava animá-lo, distraí-lo, conversar com ele sobre tudo e sobre nada. Mas o sósia do John Cleese apenas sorria como se fosse idiota. Davam muitos passeios nos poucos momentos livres, o José falando e ele escutando como se fosse um gravador.


O sósia do John Cleese gostava de se deitar no meio do chão e contemplar o céu azul. E sorria sempre, como se fosse tolo de todo. De noite, mal adormecia, começava a gemer como se estivesse a ser torturado. Gemia e balbuciava. Tremia como se estivesse no meio da neve. O José cobria-o com o seu cobertor e fazia-lhe festas como se fosse uma criança carente. O José começou de novo a escrever, mas só o fazia na presença do amigo. Como se ele fosse a sua inspiração. E de certa maneira era-o. O sósia do John Cleese parecia-se agora com um Woody Allen mudo, protagonizando um filme dramático em que ninguém falava, como se fosse um filme onde apenas se ouviam os sons da natureza, como se os seres humanos tivessem perdido o dom da fala. Essa foi até uma das ideias que o José desenvolveu num dos seus contos. O comunismo tinha conseguido construir uma sociedade onde os seres humanos tinham deixado de falar pelo singelo facto de não existirem diferenças de opinião. Como todos pensavam da mesma maneira, falar era pura e simplesmente inútil.


O José lia-lhe os seus contos e o sósia do John Cleese limitava-se a escutar e a sorrir. Nesses dias, o seu amigo mudo dormia sem gemer, como se estivesse em paz.


Nos dias em que eram obrigados a assistir às sessões de esclarecimento feitas pelos ideólogos do Partido, o sósia do John Cleese sofria tanto durante o sono como se estivesse a sofrer choques elétricos contínuos.


O seu estado de apatia era tal que já nem se queria vestir, ou lavar, ou sequer comer. Mas o José, sabendo que se o apanhassem despido o castigavam severamente, nunca o deixava sair da camarata sem roupa. Por vezes, alguns dos capatazes, vendo-o tão absorto e apático, sovavam-no para o espevitar. Mas ele nem se mexia. Ali ficava a apanhar porrada como se fosse de borracha. Quando se cansavam, deixavam-no estendido no chão como se fosse um cão acabado de atropelar.


Uma noite, depois de ser severamente espancado, foi levado para a camarata inanimado. Passou toda a noite de olhos abertos como se fosse uma estátua. De madrugada levantou-se, vestiu-se, passou cerca de dez minutos a olhar para o José, como se ele fosse seu filho, acariciou-lhe as mãos, fez-lhe uma festa na cara, beijou-o na testa e saiu. Quando se realizou a chamada da manhã, já o sósia do John Cleese ia longe, perdido no meio dos chaparros e do barro das planícies. Alertado, o camarada capataz decidiu realizar uma caça ao homem. Da UCP ninguém saía sem a sua autorização. Arrearam-se devidamente os cavalos, foram-se buscar os cães e empunharam-se as armas.


O camarada capataz liderou a busca ao homem. Do alto da sua cavalgadura olhava a campina em brasa através dos seus binóculos. Não se apressou nem um bocadinho. Sabia que a planície era inclemente e as fontes de água eram escassas. Além disso, o homem em fuga estava muito debilitado. Lia-se-lhe nos olhos que esta perseguição foi pensada para servir de exemplo aos outros prisioneiros.


Não foi preciso muito tempo para lhe darem com o rasto. Mas não se precipitaram na perseguição. Deixaram-no andar, andar, andar. E sofrer. O camarada capataz limitava-se a observá-lo de longe com os binóculos. Se via que se estavam a aproximar demasiado, ordenava que se parasse. Tinham que cansar a presa e deixá-la sofrer. Muitas vezes apontou a carabina com mira telescópica na direção do fugitivo e fez pontaria ao centro da sua cabeça. Mas no momento de premir o gatilho hesitava sempre. Considerava que era ainda cedo para abater a peça de caça. Ainda não tinha dito nada a nenhum dos vigilantes, mas a sua decisão já há muito que estava tomada. O fugitivo iria regressar à UCP morto para ser exibido como um troféu de caça, ou nem isso. Os reacionários, porque ideologicamente mancos, à semelhança dos cavalos, também se abatem. Especialmente os que gostam de contar anedotas para ridicularizarem a revolução, as suas conquistas e os seus dirigentes. Uma coisa, identicamente, o fugitivo tinha decidido, não se deixar apanhar vivo. A morte era melhor do que o cativeiro. E também sabia que o camarada capataz lhe tinha um ódio de morte. Sabia que se lhe desse um pretexto qualquer o líder da UCP o aniquilava com todo o prazer. Também fora por isso que tinha fugido. Decidira morrer. Por isso deixara de falar, especialmente com o seu querido amigo José. Tinha de cortar os laços que os ligavam. O José ainda era muito novo para morrer. Ainda podia ser reabilitado e ter uma longa vida à sua frente. Ele não. Ele já não acreditava em nada. Nem no socialismo, nem no comunismo, nem na liberdade, nem na igualdade, nem na fraternidade, nem na bondade humana, nem em Deus, nem no Demónio. E muito menos nos homens. Sobretudo não acreditava nos homens.


Adivinhando que estava ser observado pela mira telescópica da arma do camarada capataz, resolveu terminar com a farsa. Parou de repente, mesmo em cima de um penhasco, virou-se na direção dos seus perseguidores, sorriu e contou a sua última anedota a plenos pulmões: “A professora pergunta aos alunos: “Quem é a vossa mãe e quem é o vosso pai?” Responde um aluno: “A minha mãe é a República Popular do Sul e o meu pai é Alberto Punhal.” “Muito bem”, diz a professora. “E o que queres ser quando fores grande?” “Órfão.”


Mal acabou de pronunciar a última palavra, o camarada capataz pegou na sua carabina e depois de fazer pontaria pronunciou as seguintes palavras: “Esse foi o teu último desejo. A ti, reacionário, eu te condeno à morte por fuzilamento.” E disparou um tiro certeiro no meio da testa do fugitivo. Logo de seguida os vigilantes libertaram os cães que foram no encalço da presa abatida e começaram-na a devorar.


Alguns dos camaradas vigilantes benzeram-se como por instinto. O camarada capataz virou-lhes as costas e comentou: “Nunca mais vos libertais dessas crendices. De uma coisa podeis ficar cientes a partir de hoje: “Quem brinca com o Partido pode acabar na barriga dos cães, ou nem isso. Que vos sirva de exemplo.”


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Quinta-feira, 14 de Novembro de 2013

Mãos no ar


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Quarta-feira, 13 de Novembro de 2013

Poema Infinito (172): etc.


Alimento-me da tua beleza rápida. Escrevo no teu corpo a alucinação da memória. Trago-te paisagens preenchidas com alvéolos selvagens, onde a tua voz se agarra às constelações, onde as imagens são ferozes. Eu sou o teu nome quando me chamas e quando a lua penetra nos meus olhos. Delimito as tuas ancas com os meus dedos longos que se acendem como fósforos de metal. As minhas mãos assustam-se com a transparência dos gestos. A boca enreda os planetas de um só fôlego. Os dedos, agora abertos, tocam as estrelas. As pedras fecham-se ao toque da água. A luz surge em remoinhos. As casas transladam-se para outras paisagens rodando sobre si mesmas. Estamos no sítio onde se fabrica o mundo, onde tudo é potência, onde a escrita é uma simetria de verbos, onde a luz se empina com um cavalo alado. O dia respira dentro da noite como se fosse a sua máxima virtualidade. Os animais respiram o sono da lua enquanto lhes lançamos as mãos transpiradas. Tudo aquilo que se escreve acaba por nos queimar, os versos despenham-se como lençóis de água brilhante, o nosso próprio corpo fica crucificado nas estrelas. As mãos ficam magnetizadas de azul. A sua imagem permanece afogada dentro das fotografias. Os sexos adensam-se. Os corações ampliam-se. As nossas cabeças queimam. Os nossos corpos ficam expostos ao desejo. As vozes ascendem. Não conseguimos dormir. Respiramos apenas a raiz lúcida da rapidez. Os teus olhos alumiam a noite. As chamas retalham as paredes. Há momentos em que as mãos dançam com uma elegância violenta. O mundo lá fora é uma fábrica de alienação. A terra queima-nos os dedos e os dedos propagam-se como rumores e os rostos tornam-se rápidos e movimentam-se por dentro das paisagens. Atravessamos a noite ocultos no tempo. Os instantes explodem. O peso da beleza inclina as imagens. Os rostos abrem-se. A terra transforma-se num espelho sumptuoso. Os animais ficam fixos como se fossem ilhas rutilantes. Nenhum corpo é igual a outro corpo. E os nossos queimam no escuro. Sinto o teu nome como um grito. Acredito num Deus rápido que grita como um sismo e impregna tudo de brilho e que quando me olha de perto eu ardo. Tu és a eletricidade do meu universo, a minha desarrumação premente. Eu canto as palavras que são matéria, as paixões que são coroas de estrelas, as vozes que são orações, as imagens que são candelabros nítidos. No meio da sala abre-se uma cratera de desejo. A eternidade é um sonho em carne viva. Por isso é que a música é mortal. Por isso é que as curvas são melancólicas. O prazer é uma metáfora direta. Somos como anjos que se tocam para sobreviverem. Brilha-nos a língua. Brilha-nos o sexo. Toda a magnificência nasce do desejo da carne. Daí o pecado de Deus. Regressa de novo a desordem. No céu, as estrelas tornam-se vulgares. O pintor pinta na tela aves de fogo sobre os campos celestes. As montanhas transformam-se em caminhos de espíritos. Foi juntos que entrámos na água e é juntos que dela vamos sair. Vejo-te diante de mim como um fruto estupendo. E perco-me como os abismos se perdem. Esse é o amor. A perdição. A súplica do sangue. O sol onde se morre. O desejo que circula dentro da carne. Por isso nunca me esqueço da energia bruta da ambição. E da tua indomável leveza. E da tua inexplicável energia. E do teu poder de entrega. Os sexos confidenciam, etc.


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Terça-feira, 12 de Novembro de 2013

Possibilidades


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Segunda-feira, 11 de Novembro de 2013

Pérolas e diamantes (63): os profetas do subdesenvolvimento


Leio os jornais e fico ainda um pouco mais deprimido. Por exemplo, o Expresso conta-nos que os casos de droga aumentaram 70% em dez anos. E que se acentua o regresso da heroína. Grandes recessões, grandes depressões, grandes ganzas.

 

Como se isso não fosse já suficiente, para nos deprimir ainda mais um pouco, o mesmo semanário refere que as regiões de Trás-os-Montes e Beiras correm o risco de ficarem desertas, caso não se altere a natalidade. Em 2100, podemos perder mais de 75% da população, quase meio milhão de pessoas.

 

Com tudo em baixo, incluindo o moral, tento descontrair. Por isso dou asas à minha costela de “voyeur” e atrevo-me a planear uma espreitadela ao casamento de Miguel Relvas. Tenho de confessar que não resisti à tentação de conseguir saber quem foram os ilustres convidados.

 

A noiva, Marta de Sousa, explicou o DN, chegou alindada dentro de um vestido rendado de gola subida. Sobre a vestimenta do noivo, o jornal nada adiantou. Mas é bem possível que se tenha apresentado na boda de fraque. A cerimónia civil foi rápida, ainda mais rápida do que a licenciatura do nubente, a que se seguiu um copo-de-água, cuja ementa não foi revelada à imprensa. O segredo é a alma do negócio.

 

A noiva, “madrinha” de uma instituição que acolhe crianças em risco, resolveu dar um ar da sua graça e pediu aos convidados que em vez de presentes de casamento, fizessem donativos à associação.

 

Os ilustres convivas presentes foram: Pedro Passos Coelho, Zeinal Bava, Santana Lopes, Luís Filipe Menezes, Dias Loureiro, Judite de Sousa e Jorge Coelho. Lá diz o povo: Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.

 

Emocionado, voltei de novo à leitura do Expresso, onde Miguel Sousa Tavares escreveu que este país não é para jovens. Mas eu vou mais longe: Este país nem sequer é para velhos.

 

Mota Soares, o ministro da lambreta, mais conhecido pelo Nanni Moretti de direita, a mando de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas, resolveu vir para as televisões e para os jornais dizer que o Governo, na sua bondosa gestão de expectativas, resolveu aumentar em 1% as pensões mínimas e sociais.

 

Ou seja, quem atualmente recebe 256,79 euros de pensão mínima vai passar a dispor, por mês, da exorbitante quantia de 259, 36 euros. O que resulta no brutal aumento de 2,57 euros. Já a pensão social subirá de 237,06 para 239,43 euros. Sofrerá o impressionante acréscimo de 2,37 euros. No que diz respeito à pensão rural, ela será acrescida em 1,98 euros, passando para a estratosférica quantia de 199,53 euros.

 

Estes aumentos foram justificados pelo Executivo por favorecerem a “equidade social” e também pelo facto de serem uma aposta na “salvaguarda e proteção dos mais desfavorecidos.”

 

Este Governo, que já tem lugar assegurado na história por representar o grau zero da política, não contente com o seu vergonhoso desempenho, resolveu ir ainda mais longe e transformar a miséria da política em política de miséria.

 

Ao que isto chegou, meu Deus. E eles que se afirmam tão católicos.

 

E então o que dizer das taxas de desemprego. Convém recordar aos mais distraídos que os salários, entre outros motivos, foram cortados para, diziam eles, garantir que o emprego fosse sustentável. Ora tão acertada política económica e financeira fez com que de uma taxa de desemprego de 11%, em 2010, passássemos para uma que já está nos 17,5% em 2013.

 

E também existia a narrativa do apoio ao emprego jovem.

 

Bem, o que este Governo fez aos nossos jovens é indigno, indecoroso, cobarde e ultrajante.

 

Mais de 40% dos jovens estão desempregados. Os que têm mais coragem, fogem para o estrangeiro. Esses mesmos jovens que pertencem à geração academicamente mais bem preparada de sempre.

 

O país que gastou uma fortuna a formá-los, assiste, impotente, ao seu êxodo. Jovens com um valor reconhecido internacionalmente, abandonam a sua terra para irem produzir riqueza para o estrangeiro, onde são recebidos de braços abertos. Pudera! Esses rapazes e raparigas acabam por ser uma bênção para os países de acolhimento, pois não tendo gasto sequer um tostão na sua formação, usufruem plenamente da sua mais-valia.

 

O mais provável é que os jovens escorraçados do seu país por um governo cego, surdo e mudo, nunca mais regressem a Portugal, pois o mais certo é que criem raízes lá fora e lá constituam família.

 

É mais do que certo que eles não vão enviar as suas poupanças para cá. O seu sonho nunca foi, e nunca será, fazer uma casinha na aldeia, ou na vila. Esta geração de emigrantes é radicalmente diferente das anteriores. E, com toda a certeza, estes jovens tenderão a rejeitar um país que não lhes deu nenhuma oportunidade de emprego e sucesso.

 

Entretanto por aqui atravessamos as nossas aldeias e só enxergamos velhos à porta das suas casas. Crianças nem vê-las. E os jovens fugiram. Não é necessário mais nada para nos apercebermos que esta região e este país caminham para a tragédia económica, social e humana.

 

Os culpados não são nem os funcionários públicos, nem os pensionistas, nem os velhos, nem os novos. Os culpados estão nos órgãos de poder, especialmente nas autarquias, no Governo e na Presidência da República, onde homens e mulheres, que se dizem autarcas ou estadistas, assistem à tragédia assobiando para o lado e dizendo que a culpa não é deles.

 

Depois de um esforço financeiro de décadas, e nunca antes realizado em Portugal, os governantes da chantagem e do desalento, estão inexoravelmente a condenar-nos ao subdesenvolvimento.

 

Estes tecnocratas desesperados, não têm perdão de Deus, se por acaso existir. E muito menos o terão dos homens a quem roubaram tudo, até a dignidade de poderem pensar o futuro. 


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Domingo, 10 de Novembro de 2013

Militares na procissão


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Sábado, 9 de Novembro de 2013

Olhares


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Sexta-feira, 8 de Novembro de 2013

O Homem Sem Memória - 182


182 – “Sabes qual a maior anedota da minha vida? Foi ter acreditado no comunismo”, disse com voz embargada o sósia do John Cleese. “Caí que nem um patinho.” “Que nem um patinho feio”, adiantou o José. Mas o sósia do John Cleese nada comentou, pois a bateria do humor já se lhe tinha descarregado há algumas horas.


“Acreditei que o comunismo era uma espécie de cristianismo sem o peso de Deus e sem a desilusão dos milagres. Acreditei que a fraternidade era possível, que a liberdade era praticável e que a igualdade era exequível. Acreditei nas manhãs que cantavam, no sol do socialismo e numa sociedade sem exploradores nem explorados, sem mandantes nem mandados, sem dirigentes nem dirigidos, sem ricos nem pobres, sem maus nem bons, sem pecadores nem santos. Enfim, sem Deus e sem o Diabo. Acreditei que os homens eram naturalmente bons. Mas enganei-me. Acreditei que era possível acreditar. Mas tudo me saiu ao contrário. O comunismo, que me venderam como doutrina científica, afinal não passa de mais uma religião. Também ela cheia de dogmas e repleta de certezas absolutas. Diziam que o comunismo era a possibilidade da liberdade absoluta, da igualdade eterna e da fraternidade universal. Mas afinal para que raio precisa o comunismo de construir um muro a dividir uma cidade ou um país? Onde já se viu isto?”


Aqui o José interrompeu com uma piada carregada de cinismo: “O muro de Berlim existe para impedir que os alemães da república Federal invadam pacificamente a Alemanha de Leste à procura da verdadeira liberdade, da genuína fraternidade e da autêntica igualdade.” Mas o sósia do John Cleese nem sequer o escutou.


“O comunismo prometeu criar uma sociedade onde a abundância é uma realidade, onde cada um tem o que necessita, onde cada qual pode exprimir a sua opinião sem temer nada nem ninguém. Afinal o que abunda por cá, e por lá, é a fome, a repressão, a violência, o martírio, as prisões e a morte. Milhões e milhões de mortos, sociedades de silêncio, países de sombras, de autómatos movidos a ideologia e de déspotas iluminados. Nenhuma religião produziu tamanha chacina e tão grande embuste. Nenhuma ideologia conseguiu matar de forma tão cega, sistemática e indiscriminada…”


“Lembra-te do nazismo”, recordou-lhe o José. O sósia do John Cleese parou então de delirar e respondeu-lhe que o nazismo é a face da mesma moeda totalitária e sangrenta. Só que Hitler poupou o seu povo, descarregando o ódio nos judeus. E os comunistas, inspirados por Estaline, perseguiram, torturaram e dizimaram o seu próprio povo. As outras ideologias e religiões procuraram sempre o inimigo fora de fronteiras, nos estrangeiros. Os comunistas vampirizaram os seus próprios povos. E de forma indiscriminada e apriorística. Mataram, e matam, ricos, remediados e pobres. Sobretudo os pobres e explorados que diziam, e dizem, defender. Transformaram o que restava de esperança num mundo melhor numa certeza num mundo pior. Transformaram a prática capitalista numa ideologia aceitável. Destruíram o bem. Relativizaram o mal. Transformaram países viáveis e minimamente democráticos em sociedades concentracionárias e subdesenvolvidas. Transformaram nações em prisões e cidadãos livres em escravos de uma ideologia. Transformaram pessoas independentes e solidárias em lobos partidários. Destruíram os laços familiares, indiferenciaram a amizade, injuriaram o amor, desprezaram os sentimentos e mecanizaram as relações sexuais. Destruíram o mito da imortalidade de Deus para criarem o mito da imortalidade de uma ideologia. Transformaram as pessoas em números, as mortes em estatísticas, a ciência em ideologia e a ideologia em dogma.”


“Descansa camarada, que amanhã o sol brilhará para todos nós”. E o sósia do John Cleese descansou enquanto o José lhe enfiava algumas colheres de sopa na boca para ver se o conseguia alimentar, pois ele agora recusava-se a comer.


Depois de umas quantas colheradas de uma sopa bastante aguada, o sósia do John Cleese suplicou por uma pausa e disse: “José, tu és um bom homem. Ainda és comunista?” “Ainda.” “Não posso acreditar.” “Nem eu.”


“Olha José, o comunismo é como este calor abrasador. Nem nos deixa pensar.” “Calor? Qual calor? Está um frio de rachar.” “Então sou eu que estou com febre.”


“Olha, José, ainda não sei porque estou preso.” “Nem eu. Mas desconfio que é por causa da política. Pelo facto de sermos comunistas bons.” “Mas não há comunistas bons. Bondade e comunismo são conceitos que se excluem. Pois estamos presos por isso mesmo. Como a bondade e o comunismo se excluem mutuamente, nós ou não somos bons ou não somos comunistas.”


“Acho que se fossemos apenas bons comunistas a esta hora estávamos em liberdade.” “Percebo. Um bom comunista é o contrário de um comunista bom.” “Pois.”


“Olha, José, porque é que o comunismo arrasta tanta gente atrás de si?” “Porque todos gostamos de histórias com final feliz.” “Eu não.” “Pois, por isso é que estás preso.”


“José, e tu por que razão é que estás preso?” “Eu é porque não gosto de histórias.” “Percebo. O comunismo para ti não passa de uma história.” “Uma história mal contada.”


“José, achas que nos vão libertar em breve?” “E tu acreditas em histórias com final feliz?” “Não.” “Pois, aí tens a resposta. A nossa realidade tem um final infeliz. Por isso deves apreciá-la.”


“José, não sabes mentir?” “Não.” “Pois.”


“José, mal me levante daqui e ponha os pés lá fora, o meu primeiro intento vai ser fugir daqui. Não aguento mais. Serei livre ou morrerei.” “Pois, vê-se que tu queres mesmo que eu escreva uma história com o final a teu gosto.” “Seja o que Deus quiser.” “John Cleese, mas Deus não existe.” “Então seja o que o seu substituto quiser.” Silêncio seguido de mais silêncio. “Os cómicos são suicidas?” “Deus te responda?”


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Quinta-feira, 7 de Novembro de 2013

Na feira do gado


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Quarta-feira, 6 de Novembro de 2013

Poema Infinito (171): ordenação

 

Conquistei devagar a ciência certa da indecisão. A sua alma, os seus movimentos, a sua densa vulnerabilidade. Depois fui assaltado por visões de promessas solitárias. Essa é a minha divina imprecisão. As palavras balbuciadas dão corpo a uma linguagem própria dos peregrinos da rutura. Os deuses da poesia ensombram os poemas que celebram a vida. Todo o sofrimento é uma regra de composição. Por isso, os meus olhos pressentem a luminosidade do teu rosto. Escrevo contra a exigência da loucura, contra o apogeu do inverno, contra a eloquente remissão do sofrimento, contra a lonjura do silêncio, contra o peso intemporal da indiferença, contra a relação recíproca dos pecados, contra o demónio que há em Deus e contra o deus que habita o Demónio. Escrevo a favor da coerência prodigiosa do tempo e dos poemas autênticos. Em mim sinto misturar-se a insólita natureza dos instintos, as frases bíblicas dos litígios, as palavras que curvam a desordem e o erro, a indolente alma dos aflitos, a substância nominativa do atrevimento, as memórias milenares, a álgebra dos espelhos, a semântica da intimidade, o imprevisível cântico da distância, o cansaço da exigência, os olhares lógicos, a reverência dos rituais, o estranho sofisma dos navegadores, os gestos que fecundam o verão, o contágio universal da poesia, a incómoda herança da vulgaridade, a prática aristocrática das métricas, o espaçoso desespero das genealogias, o culto da celebração, a dor enfática da solidão, o reflexo dos ventos atlânticos, a reinvenção das paranoias e da normalidade, o peso intemporal da morte, a nostalgia infinita das imagens a preto e branco, a expectante celebração dos dogmas, a energia metafísica da matéria, a verdade humana da divindade, o fundamento da natureza sagrada, a serena impunidade das certezas, a evolução desesperante dos modelos retóricos, as margens sombrias das pulsações, o tempo infinito, o perfil sinuoso do desejo, a vocação glaciar da inveja, o desassossego dos imprevistos, a acidez do amor eterno, a alucinação trágica das mães, a memória estagnada da infância, a agonia genuína das revoluções, a grande consciência dos sentimentos contraditórios, as perguntas desnecessárias, as respostas inúteis, a solidão do céu, a dor triunfal dos templos, as paisagens perversas, a imagem soluçante dos horizontes, a lógica interior do sofrimento, a ordem milenar da ausência, o embranquecimento dos murmúrios, o território incerto dos olhares, a luz triste da aurora, o silêncio súbito das montanhas, a hipérbole triste do cântico das aves de inverno, a beleza intransitiva do teu olhar, o solene instante do desejo, o ruído imperceptível da luz, os corpos que se dobram para evitarem a realidade, a realidade que se dobra para evitar os corpos, o mar que agita as marés, as leis dolorosas do despovoamento, a fingida memória dos poetas, a ténue linha da imaginação, o trabalho doloroso do destino, os nomes vivos dos mortos, os lamentos ciciados pela chuva, a excessiva solidão da criação, as palavras que desordenam os lugares, a inútil razão das ideologias, os lamentos nascidos da dor e os nossos corpos que estremecem na hesitação dos dedos. Tu és o meu modo desconhecido de ser, a minha segunda revelação, o meu texto explicativo. Tudo se ordena para um fim alto e secreto. 


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Terça-feira, 5 de Novembro de 2013

Ponte Romana


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Segunda-feira, 4 de Novembro de 2013

Pérolas e diamantes (62): danças e contradanças

 

Temos de reconhecer que as eleições de 29 de setembro último foram das mais interessantes desde o 25 de abril.

 

Está visto, e confirmado: os principais partidos do nosso regime foram penalizados.

 

A penalização foi feita ao sistema político-partidário, representado principalmente pelo PS e pelo PSD. 

 

Analisados os resultados, verificaram-se três fenómenos conjugados: uma abstenção de protesto, a manifestação explícita de contestação realizada através do voto nulo e do voto em branco e, por fim, o voto nos movimentos independentes.

 

E as coisas não tiveram uma expressão bem maior pelo simples facto de que vivemos numa partidocracia estabelecida dentro e fora dos partidos do arco do poder, e até nas instituições públicas, que tornam muito difícil mudar essas estruturas demasiado fechadas e corporativas.  

 

Todos sabemos que os partidos do arco do poder são atualmente controlados pelas maiores secções, em muitas circunstância artificiais e dirigidas por caciques locais, cuja vida, carreira e progressão social depende exclusivamente da sua habilidade para controlar o poder interno.

 

As carreiras e os empregos são atualmente os mecanismos fundamentais da autoridade interior nos partidos maioritários. Todos conhecemos esses autarcas que dominam com mão de ferro as estruturas partidárias porque a sua carreira profissional depende apenas da política. Eles podem afirmar a pés juntos que se dedicam à causa pública, por razões altruístas, mas todos sabemos que isso não é verdade. A sua única preocupação é gerir as suas próprias carreiras.

 

Assim como temos autarcas prepotentes na província, temos também no país um governo que usa de má-fé para com os portugueses. E o maior exemplo disso é a luta surda que trava com o Tribunal Constitucional.

 

Quase todas as medidas punitivas tomadas contra os reformados, pensionistas e funcionários públicos são medidas que pretendem diminuir e castigar o TC.  

 

Pacheco Pereira afirmou ao Público que “não se pode ter um país democrático em que as eleições não podem mudar a política, que foi o que aconteceu a 29 de setembro. E se as pessoas não encontram no voto algo que introduza diferença, depois vão para a rua”.

 

O governo bem pode vir agora dizer que a austeridade é um mal necessário que já ninguém o leva a sério. Todos os portugueses se deram conta de que a austeridade é necessária. Mas o grande problema não reside especialmente na austeridade, reside antes no mau governo feito com a desculpa da austeridade. E isso não tem perdão. Todos sabemos que esta política não tem futuro. E o governo de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas muito menos.

 

Não é que isso me ponha aos pulos de contentamento, mas partilho da opinião de muitos comentadores políticos, e de cidadãos em geral, de que o futuro do PS e do PSD passa pelo envolvimento de António Costa e Rui Rio.

 

Mas vou mais longe e solidarizo-me com o porta-voz do PS, João Ribeiro, que defende uma revolução no sistema político e chega a propor a “radicalização da transparência” através, nomeadamente da concessão do direito de voto a maiores de 16 anos e a criação de círculos uninominais para a Assembleia da República abertos a movimentos de cidadãos.   

 

É necessária uma revolta moral.

 

Urge trazer de novo para a política as questões morais ou, se preferirem, da moral. Hoje existe muita gente a ser maltratada, muita gente arrastada para a miséria, para a exclusão, para a ignorância e para o experimentalismo social.

 

As pessoas podem até não perceber muito de finanças, mas sabem distinguir perfeitamente o que é digno do que é indigno.

 

Pode parecer um lugar-comum, e até muito de esquerda, mas é necessário lutar. É necessário lutar contra este estado de coisas. Lutar-se de todas as formas: individualmente, socialmente, culturalmente, politicamente. É necessário não aceitar de cabeça baixa os sacrifícios que nos estão a impor. É necessário dizer não.

 

Alguns dirão que esse é a atitude mais comum na esquerda. Mas nem só a esquerda tem o monopólio da contestação, nem da verdade, nem da razão.

 

E quase termino por hoje com uma reflexão de Pacheco Pereira: “Uma das razões por que a linguagem política à esquerda é muito pouco eficaz para exprimir o que se passa nos dias de hoje é que ela substituiu um elemento de indignação que é moral por um discurso político que é restritivo.”

 

É necessário parar com a dança dos números. Pois eles dão sempre errado. Afinal para que serve a economia e os economistas se as suas previsões falham sempre? Parece que a ciência económica é apenas, como muito bem lembrou um deputado da nação, uma página do borda-d’água. Afinal se não chover é muto provável que brilhe o sol.

 

Penso que Pedro Passos Coelho até faz o que pode e sabe, mas pode pouco e sabe ainda menos. Por isso concordo com Henrique Monteiro: “Ao líder do governo falta vida e estrutura de pensamento.“

 

E vou até mais longe, ou mais perto, se quiserem, mas parece-me que ao nosso presidente da Câmara, minoritário, as palavras do Henrique Monteiro lhe assentam igualmente como uma luva. E também, por que não dizê-lo, a alguns presidentes de junta das freguesias urbanas de Chaves, que, para manterem o poder absoluto a que estavam habituados, mesmo sendo minoritários nas suas assembleias de freguesia, inventam argumentos que nem ao diabo lembram.

 

 E eles são tão católicos, meu Deus!


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Sábado, 2 de Novembro de 2013

Olhares


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Sexta-feira, 1 de Novembro de 2013

O Homem Sem Memória - 181

 

181 – Deitado na solitária, pálido e magro como um cão, o sósia do John Cleese vira-se para o José, que também permanece prostrado, sorrindo com nítido esforço físico, e diz: “Pareces um esqueleto.” Ao que o José responde: “Olhe que não. O camarada está é a ver-se ao espelho.” E depois desata a rir até desfalecer. Segue-se um comentário do sósia do John Cleese: “A tua anedota é de morrer a rir… José, José, não te vás antes de mim. Não me abandones.” O José volta a si e diz: “Isso nunca. Quando for para o outro mundo levo-te pela mão, camarada.”


Passados alguns minutos, o sósia do John Cleese volta ao ataque. O José ainda comenta: “Conta uma que não nos mate de riso.” E riem-se os dois a modinho para não desfalecerem, tal é o seu estado de fraqueza. Parecem dois judeus num campo de concentração nazi. Ou será num campo de concentração comunista? Agora ficámos confusos.


Depois de mais uma pausa de sobrevivência: “Esta é mesmo russa. Dois esqueletos encontram-se nas ruas de Kiev durante a Grande Fome da Ucrânia. “Ouve lá”, diz um deles, “quando é que morreste?” “Em 1932, na Grande Fome”, responde o outro. “E tu?”, pergunta o primeiro. “Bem, eu ainda estou vivo, graças a Deus.” “Chiu! Não sabes que agora não podes agradecer a Deus, mas sim a Estaline?” “E que hei de fazer quando ele morrer?” “Depois podes agradecer a Deus.”


“Esta foi boa. Dá-nos mantimento intelectual para umas horas”, comentou o José. Entretanto, o sósia do John Cleese engole mais um pouco de saliva, passa a língua pelos lábios gretados e dispara: “Esta é em nossa homenagem. Num campo de concentração alentejano…” “Então também há campos de concentração no Alentejo? Sempre me saíste cá um reacionário…” “três detidos conversam sobre o motivo que os levou até lá. Diz um com cara de José: “Estou cá por afirmar que o camarada Vital era contrarrevolucionário.” Outro diz: “Mas que curioso. Eu estou cá por jurar que o camarada Vital não era contrarrevolucionário.” Vendo que o terceiro nada dizia, os dois camaradas viram-se para ele e perguntam-lhe: “E tu, estás cá porquê?” Ao que ele responde: “Eu sou o camarada Vital.”


“Ui, ui, ui, vou desfalecer outra vez”, disse o José antes de desfalecer. “Ui. Ui, ui, eu vou mijar-me a rir”, diz o sósia do John Cleese. Mas além de se urinar, também desfaleceu.


Quando os dois voltam a si, o sósia do John Cleese lembra-se de outra anedota. O camarada Alberto Punhal ouve dizer no comité central que existe um falso camarada que é responsável por 99% de anedotas contadas a respeito do camarada secretário-geral e do socialismo implantado na República Popular do Sul. Então chama o comissário da PDES e diz-lhe para convidar esse agitador reacionário para uma reunião no opulento salão da sua casa. Serve-lhe então um enorme banquete e diz-lhe: “Um dia todos os cidadãos comunistas estarão a comer assim.” “Espere aí, achava que era a mim a quem tocava o papel de contar anedotas”, retruque aflito o convidado.


“Ui, ui, ui, acho que vou desfalecer de novo”, diz o José. “Ui, ui, ui, eu acho que já nem forças tenho para isso”, diz o sósia do John Cleese. Mas desta vez nenhum desfalece. Limitam-se a rir a modinho para se manterem conscientes.


“Tenho fome”, diz o José. “Achas que nos vão dar de comer?” “Olha, José, pensava que aqui quem contava as anedotas era eu”, replica já em esforço extremo o sósia do John Cleese. “Ui, ui, ui, acho que vou tornar a desfalecer”, diz o José. “Ui, ui, ui, eu acho que já nem forças tenho para isso”, diz o sósia do John Cleese. “Se não nos derem de comer, morremos”, diz o José. Ao que o sósia do John Cleese responde: “Eu não acho piada nenhuma ao camarada La Palisse.” “Então o La Palisse também era camarada?”, pergunta o José. “Todos os camaradas são seguidores de La Palisse”, diz o sósia do John Cleese com cara de Alberto Punhal. “Eu pensei que eram discípulos de Marx”, diz o José. “Eu também sou discípulo de Marx”, diz o sósia do John Cleese. “Ainda?”, pergunta o José. “Sim, de Grouxo Marx…” “Oiço passos”, diz o José. “Acho que vem aí o nosso jantarinho.” “O Capuchinho Vermelho?” “Ui, ui, ui, acho que vou desfalecer de novo”, diz o José. “Ui, ui, ui, eu acho que já não possuo forças para tal”, diz o sósia do John Cleese. “Hoje sempre vamos comer. Não nos vão deixar morrer à fome. Podem ser comunistas, mas ainda são seres humanos”, diz o José sem se rir. Mas o sósia do John Cleese não se consegue conter: “Ah, ah, ah… Ui, ui, ui, acho que vou tornar a desfalecer.” “Ui, ui, ui, eu acho que nem forças tenho para tal”, diz o José.


Quando voltam a dar acordo, o sósia do John Cleese diz: “Vou contar a última anedota. Passa um século sobre a implantação do comunismo na República Popular do Sul. Um lindo e esguio menino, militante dos pioneiros, pergunta ao seu avô, um militante do Partido: “Querido camarada avô, hoje o filho da professora disse que no tempo dos seus avós era muito frequente passarem muito tempo em filas. Avô, querido camarada avô, o que é uma «fila»? E o avô: “No meu tempo, que era ainda o tempo do socialismo, havia filas, muitas filas. As pessoas faziam filas umas atrás das outras e depois davam-lhes manteiga e chouriços.” “Avô, querido camarada avô, o que é manteiga e chouriços?”


“Ui, ui, ui, acho que vou desfalecer de novo”, diz o José. “Ui, ui, ui, eu acho que já nem forças possuo para isso”, diz o sósia do John Cleese. “Vamos mas é dormir, pois já apagaram as luzes há muito tempo.”


E o José: “Olha, olha, um fantasma a brilhar no escuro. Será Nossa Senhora? Será Jesus Cristo? Será Deus Todo Poderoso?” Ao que o sósia do John Cleese contrapõe: “É mesmo Marx.” O José comenta: “Mas não tem barba.” O sósia do John Cleese esclarece: “Lá no céu anda tudo barbeado.” “Ui, ui, ui, acho que vou desfale…” “Ui, ui, ui, eu acho que já nem…” Silêncio.


publicado por João Madureira às 07:45
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