Terça-feira, 31 de Dezembro de 2013

Vigado Palace - Ponte


publicado por João Madureira às 10:14
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Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013

Pérolas e diamantes (70): o trigo e o joio, as pérolas e os porcos

 

Como transmontano sempre me senti um pouco como os índios inuítes americanos. E atualmente ainda mais do que nunca. Se os bons americanos, como os úteis portugueses da capital, dependem do sistema, pois são o próprio sistema, os índios americanos, tal como os transmontanos, dependem da ajuda do governo e do álcool.

 

Os inuítes, tal como os transmontanos, são livres mas estão circunscritos a jardins zoológicos para seres humanos aos quais chamam reservas (na nossa dimensão, província), onde estão condenados a repetir a lastimável dança da chuva em frente de um aglomerado de turistas.

 

Afinal ninguém é livre. Somos sempre prisioneiros dos outros e de nós próprios.

 

António Vitorino de Almeida conta na sua autobiografia o que lhe aconteceu quando, ainda jovem, andava a mostrar a sua arte aos portugueses poderosos. Apesar da excelente impressão causada por alguns dos seus recitais, a obtenção de um trabalho fixo, à altura das suas capacidades concretas e que lhe garantisse um ordenado ao fim do mês e uma reforma para mais tarde, ficou na estaca zero.

 

Mas, para seu desalento e desespero, via constantemente determinados lugares serem ocupados por pessoas que não possuíam efetivamente nada que se equiparasse, em termos de habilitações académicas – já para não falar do seu trabalho concretizado como pianista e compositor – com o currículo q ue enviava para os devidos lugares, normalmente sem receber qualquer tipo de resposta.

 

Conta que começou a habituar-se a uma explicação recorrentemente dada em relação à sistemática nomeação dessas figuras cinzentas, apenas mais coloridas, na maior parte dos casos, nos salários que auferiam.

 

Diziam-lhe tentando explicar: “Coitado, tem uma personalidade muito fraquinha e complexada, praticamente nunca passou da cepa torta, falhou em tudo o que tentou, mas é um apaixonado pela arte! E, por isso, achámos bem dar-lhe este apoio… Foi uma questão de humanidade!”

 

De facto, como relata o mestre compositor, o problema não reside no simples ato caritativo – “a alegada questão da humanidade…” –, mas sim no facto muito mais relevante, de que tudo isto faz parte de um sistema infindável, o famoso “círculo vicioso de mediocridade organizada”, dado que o presente protetor já foi ele mesmo protegido e, por isso mesmo, gera novos incapazes com idênticas caraterísticas.

 

E, passado pouco tempo, o tal coitadinho frustrado que dizia amar as artes sem ser correspondido por nenhuma delas, estava transformado numa genuína autoridade, pois todas as deliberações artísticas dependiam agora das suas doutas opiniões, quando não dos seus caprichos, tais como o direito ao trabalho, à carreira e à própria vida de verdadeiros artistas.

 

Para rematar o relato, António Vitorino de Almeida, parafraseando um poema de David Mourão-Ferreira, que acabara de conhecer naquela altura e com quem tinha gravado um “ótimo” disco, cuja matriz parece que desapareceu no incendio do Chiado, escreve que dessa forma “se perpetuava a dramática luta entre os capazes e os capados…”

 

Em Portugal a crise está mesmo a sugerir-nos que façamos como Salazar, que evitava cerimónias públicas em que tivesse de se expor em varandins mas que não descurava a economia doméstica, bastando-lhe o recato do seu gabinete de trabalho, onde a par das decisões relativas aos destinos do país, reservava um tempinho para dar enquadramento a algumas preocupações de tipo caseiro, nomeadamente o elevado preço a que tinham chegado os ovos na capital, razão pela qual escrevia cartas para Santa Comba a solicitar que lhe enviassem uma galinha pedresa com o objetivo de estabelecer regras específicas de contenção de despesas na economia do lar.

 

Nestas alturas lembro-me sempre da parábola bíblica da separação do trigo e do joio. O problema que se me coloca sempre é que não se pode arrancar o joio sem destruir o trigo.

 

O joio é uma erva daninha cujas raízes se entrelaçam nas raízes do trigo, do centeio ou da cevada e não há forma de as arrancar sem arruinar a colheita.

 

E lembro-me ainda, e sempre, sei lá bem por que ordem de razões, do seguinte texto bíblico: "Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, para que não suceda de que eles as pisem com os pés e que, voltando-se contra vós, vos dilacerem." — Bíblia, Novo Testamento, Livro de Mateus, Capítulo 7, versículo 6.


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Domingo, 29 de Dezembro de 2013

Descansando


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Sábado, 28 de Dezembro de 2013

Interiores


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Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013

Sorrisos


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Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2013

Poema Infinito (178): uma canção deserta

 

Foi a década de todas as convulsões. Uma época diferente, onde todos aprendemos que o mundo era maior do que a guerra eterna entre o bem e o mal. Aprendemos a ler coisas estranhas e fascinantes, a questionar o infinito, a ouvir as madrugadas e a tornar inofensivo o maio de 68, os beatles, os stones e o bob dylan e a buscar as mil e uma razões para salvar o mundo e a contemplar os logros e a comover-nos com os mitos europeus e a procurar o mar e o tempo que move as ondas. Encontrei-te debruçada sobre o frio de fevereiro a recolher pétalas de amores-perfeitos prensadas dentro dos livros. E os teus olhos procuravam a luz. O céu estava ainda fora do nosso tempo. Os pássaros voavam em círculos. A vida enrolava os sonhos nos labirintos das ruas. As mulheres mais secas morriam nas janelas observando o absurdo das rajadas de vento. Cá fora, as multidões abriam madrugadas e cantavam canções desertas. As palavras aprendiam a viver de novo nos teus lábios incertos. A noite era inútil. As saudades eram perpétuas. Os sonhos eram abismais. E o tempo era um rio que se repetia nas suas margens. A vontade mudava. O prazer era um novo desencanto. E nós queríamos mudar tudo o que ninguém ainda tinha conseguido mudar. Os desejos eram iguais à vontade. E a vontade enganava a esperança. E a esperança ficava fria. Nós queríamos as fantasias perpétuas. Perseguíamos a ilusão das imagens. Tudo se transformava noutra coisa. As horas eram como flores de papel. Os pirilampos voavam e acendiam a infância. E nós aprendíamos a respirar como os peixes. E a procurar a razão da vida. E o seu sentido. E deixávamos que as paixões despontassem dentro de nós e nos atravessassem com os seus golpes de destino. E o destino éramos nós e por isso começávamos a arder e a chamar as paisagens e a aproximarmo-nos rapidamente de tudo e a escrever palavras compactas que não queriam dizer nada e diziam tudo. Tínhamos orgulho no desejo e ardíamos dentro das metáforas e sofríamos com a escuridão do mundo e com as estrelas que caíam no mar e se afogavam. Então o mundo ficava escuro e os nossos sonhos naufragavam como se fossem sinais do destino. E crescemos com os anos e deciframos as máscaras da destruição. Custava-nos respirar por entre as angústias. Imaginávamos os sonhos a correr por entre as sombras e a atravessar o medo e a sintonizar a estupidez do mundo. Pensávamos que as pessoas eram feitas de vento e saudade, por isso repetiam sempre os mesmos gestos. O crepúsculo prometia salvar-nos. No fundo, as coisas eram inofensivas. Prosseguíamos o nosso caminho, regressando sempre ao labirinto onde se ocultavam as certezas. As galáxias dos nossos olhos tinham mil sóis. Por isso brilhavam muito e incendiavam as alvoradas. Toda a gente atravessava a rua à procura de sonhos e de símbolos. E os poetas não amavam. Apenas eram lúcidos. Parecia que tudo era igual. As pessoas eram automáticas e queixavam-se da inutilidade dos dias. Agora as imagens sobrepõem-se e assombram o vazio e esperam em silêncio. São como aquelas pessoas que regressam à sua solidão e choram dentro dos seus sonhos de pedra. Antes das luzes se apagarem, espero que me segredes o assombro da próxima madrugada. Se ainda for possível. 


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Terça-feira, 24 de Dezembro de 2013

Olhares


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Segunda-feira, 23 de Dezembro de 2013

Pérolas e diamantes (69): entre a alegria e a mudança de pelo

 

A minha melhor banda sonora mistura um sussurrar no fundo da casa com um rumor calmo de palavras ensinadas aos meus filhos e o frigorífico a ronronar, a panela da sopa a borbulhar, a colher do Axel a bater no prato, a água a correr para encher a banheira, a publicidade idiota na televisão, a tagarelice dos meus dois filhos, o sorriso da mãe. E eu ali a escutá-los, a rir embaraçado com um misto de felicidade atrapalhada e a pedir que aquilo perdure para sempre. Que nunca acabe.

 

Sinto que possuo um tipo de alegria kafkiana. Por vezes corto as memórias e as palavras de maneira abrupta. Um amigo disse-me que, por vezes, quando falo, perturbado por algum acontecimento recente, corto o ar de tal maneira com as mãos que se sente de imediato a outra metade a cair do outro lado da espada.

 

E isso acontece-me mais a cada dia que passa, neste país que reserva alguns mistérios por desvendar, tais como pagar mais às pessoas quando estão desempregadas do que quando trabalham, de retribuir melhor os pedreiros que os professores, de andarem por aí almas caridosas a angariar fundos para acudir às vítimas das cheias em Moçambique quando a maioria dos nossos pensionistas vivem da esmola do Estado. 

 

Ou ainda por viver num país onde a segunda figura da Nação, militante distinta do PSD, está reformada desde os 42 anos e recebe 7000 euros mensais, por 10 anos de trabalho no Tribunal Constitucional, enquanto a quase totalidade dos portugueses no ativo ou não terá reforma ou só a conseguirá usufruir quando estiver mesmo com os pés para a cova.

 

Ou ainda por habitar numa cidade onde António Cabeleira, por manobras mirabolantes, indo contra a lógica política, e contra toda a palavra dada, conseguiu um acordo de governação, que, a meu ver, não passa de uma manobra de diversão e de uma carta de intenções tão vaga quanto demagógica.  

 

Não sei porquê, mas lembrei-me de Tom Sharpe, mais concretamente do seu livro “Uma Mancha na Paisagem”, onde sobre uma sua personagem escreve: “Privado de dignidade, pretensões, autoridade e razão, Dundridge estava quase humano.”

 

Tenho a certeza que quando determinadas pessoas disseram aquilo que disseram em defesa do acordo de governação entre o PSD e o cidadão eleito pelo MAI sentiram que a língua lhes pesou dentro da boca.

 

Todos sabemos que a felicidade é sempre prematura. E quando o fim da vigência do acordo estiver para acontecer aí é que os eleitores se vão rir. É que tristezas não pagam dívidas e muito menos as da Câmara de Chaves.

 

Já sinto as dúvidas de muitos leitores questionando-me sobre o porquê da minha zanga. Mas olhem que não estou nada zangado. Sobre o assunto já emiti a minha risada antibiótica. Afinal qual a razão por que havia de estar zangado? Pelo contrário, eu devia estar feliz, não é?

 

Mas caros amigos, Robert Evans, um produtor de filmes da Paramount, escreveu um dia: “Há sempre três lados em cada história: o teu… o meu… e a verdade.”

 

Mas qual verdade? Pergunto eu. E será que é a verdade o que nos interessa saber?

 

De facto houve gente que tentou tratar os eleitores flavienses como companheiros. Outros trataram-nos como clientes. Mas talvez levados pela vaga liberal, a maioria dos flavienses preferiu os segundos.

 

Ficou mais uma vez provado que os políticos são cada vez mais atores que representam interesses alheios.

 

Por vezes encolhem os ombros e, quando questionados sobre alguns assuntos mais melindrosos, gostam de dizer: Perdido por cem… e depois calam-se para que sejamos nós a concluir o raciocínio. E nós, como bons aprendizes de maus mestres, lá fazemos avançar o pensamento.

 

Mas, caros leitores, o que esses senhores não dizem, mas pensam, é “perdido por cem… ganho por mil.”

 

Ou seja, todas as verdades são reversíveis.

 

Charlie Chaplin, por exemplo, acreditava que a força da arte é efetivamente mais poderosa do que as doutrinas políticas. Mas isso, estou em crer, apenas acontece nos filmes e nos livros.

 

Pensando ainda mais uma vez no acordo autárquico realizado por António Cabeleira e João Neves, lembrei-me do adágio popular que diz que as raposas podem mudar de pelo mas nunca mudam de hábitos. 


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Domingo, 22 de Dezembro de 2013

Subindo


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Sábado, 21 de Dezembro de 2013

Contraluz portuense


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Sexta-feira, 20 de Dezembro de 2013

O Homem Sem Memória - 188

 

188 – Os tempos que decorreram foram de alívio e medo. Alívio porque o torcionário tinha desaparecido sem deixar rasto e medo porque ninguém sabia o que se passaria a seguir. Tanto o poder como a populaça se estudavam mutuamente. A incerteza cria a desconfiança e o caos.

 

As chefias provisórias foram procuradas na prata da casa. Mas tudo o que é provisório é fraco. E os prisioneiros começaram a pugnar por mais direitos, argumentando que estavam inscritos na Constituição. Responderam-lhes que a Constituição Socialista, que tanto custou a escrever, é para gente de bem, para o povo, não para os traidores. Os traidores são tratados como isso mesmo, como gente que não conhece a razão. A razão do Estado, a razão das ideias, a razão do Partido.

 

Gerou-se muita polémica, a que o José não passou incólume. Mas ele, pelo menos publicamente, não manifestou qualquer opinião. A princípio, os seus camaradas contrarrevolucionários estranharam o procedimento. Até porque sabiam que o José era muito bom na liderança dos processos políticos de massas e sabia falar e argumentar como poucos. Mas todos igualmente sabiam, e o filho da Dona Rosa mais do que ninguém, que pela boca morre o peixe. E ele, pelo menos desta vez, não ia morder o anzol.

 

Sabia que esta direção do campo era provisória e que tinha recebido ordens expressas para amaciar os procedimentos para ver se descobriam os responsáveis pelo desaparecimento do camarada capataz. Se o exemplo vingasse, o poder estava em perigo. Nenhum camarada pode desaparecer assim do pé para a mão e nunca mais ser encontrado. Isso era o caminho para a anarquia. E se os comunistas detestam visceralmente alguma coisa é a anarquia, que é o contrário da organização, da ordem e, por conseguinte, do socialismo e do seu estádio superior, o comunismo.

 

Claro está que aquela gestão de águas mansas num campo de concentração tinha de ser como a chuva de verão. E passadas apenas algumas semanas o sistema de administração endureceu bastante. O novo capataz, tendo um aspeto físico muito diferente do anterior, era nos procedimentos em tudo idêntico ao seu volatilizado camarada. Quando o puseram à prova com a sugestão da trasladação das ossadas do John Cleese para uma campa do cemitério para descansar em paz, limitou-se a afirmar que tudo devia permanecer igual ao que estava, pois essa era a forma de perpetuar a memória do seu antecessor que tão boas provas tinha dado de dedicação à causa revolucionária educando os reacionários nos sãos princípios do marxismo-leninismo. “Os bons exemplos são para ser seguidos”, disse alto e bom som logo na primeira reunião com os prisioneiros.

 

Escusado será dizer que o José prometeu vingança, pois a ideia de alguém ser capaz de deixar as ossadas do seu estimado amigo expostas aos olhares dos prisioneiros como uma forma de aviso macabro, era-lhe intolerável. Por isso decidiu reunir com o seu núcleo mais próximo para tomarem uma decisão.

 

A primeira proposta foi a de que se devia proceder com este capataz da mesma forma que com o anterior, pois eram duas almas gémeas na insensibilidade e na repressão. Todas as seguintes intervenções foram do mesmo teor, que se devia eliminar o mal pela raiz e fazê-lo desaparecer da mesma forma. Mas o José tinha outra opinião. Não se deviam adotar dois procedimentos idênticos pois seriam logo objeto de suspeita e investigação. Além disso os pobres dos javalis não mereciam serem envenenados com carne de tão fraca procedência. As doses de veneno podiam ser-lhes fatais.

 

Quando questionado, à boa maneira leninista, sobre o que fazer, respondeu que deviam dar-lhe um tiro entre os olhos, precisamente no mesmo sítio onde o torcionário anterior tinha alvejado o companheiro John Cleese. Eles olharam para o José como se de repente tivesse enlouquecido. Pois esse era um tipo de procedimento que de certeza os levaria ao fuzilamento. O José concordou que tudo indicava que sim, mas apenas se depois do disparo e da morte do capataz ficassem ali à espera de que os viessem prender, torturar e fuzilar.

 

O plano do José baseava-se na morte do torcionário, seguida de fuga e evasão, mas uma evasão em grupo, devidamente organizada, com o objetivo de constituírem uma brigada revolucionária, de sentido oposto, que se dedicasse a combater o poder ilegítimo instituído na República Popular do Sul. “A morrer devemos morrer de pé como os sobreiros”, disse com a voz embargada. “E não aguardar fenecer sem fazer nada para inverter este estado de coisas.” No que foi apoiado pelos seus camaradas contrarrevolucionários.

 

O primeiro procedimento foi o de recolherem as armas e as munições que o José tinha vindo a acomodar e a esconder em lugar seguro. Afinal, a sua dedicação ao campo e aos roteiros de caça tinham dado os seus frutos.

 

O dia escolhido para a ação foi o do aniversário da UCP. Decidiram que matariam o capataz na cerimónia oficial. E foi isso que fizeram. Deram-lhe um tiro mesmo no meio da testa quando ele e os seus camaradas convidados mais destacados da região degustavam a carne de alguns dos javalis responsáveis pelo desaparecimento do anterior diretor do campo.

 

Depois do pânico instalado, os prisioneiros sublevados puseram-se em fuga. Na troca de tiros que se sucedeu, alguns dos companheiros do José foram abatidos. Mas foram precisamente esses homens que possibilitaram que a fuga tivesse êxito.

 

Mais uma vez, o José, que era avesso às armas e aos atos violentos, se viu metido numa guerra de guerrilhas. 


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Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2013

Relojoeiro


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Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013

Poema Infinito (177): a purificação do declínio

 

Os homens do futuro hão de saber onde se esconde o tempo que sobra. Com enormes asas o falcão voa na direção exata do teu olhar. E os cavalos cavalgam enquanto as mães apertam os seus filhos contra o coração. Ventos solitários lamentam-se e empurram as chamas para longe. O orvalho cintila no crepúsculo cinzento. Cumpre-se a vontade do senhor. O tempo foge-nos. O bosque é agora um abismo onde as borboletas dançam antes de morrer. Colocas flores de macieira no cabelo. As maçãs ficarão prateadas da lua e ficarão douradas do sol. O teu rosto ilumina-se. Os olhos cintilam. O fogo espalha as suas sementes. Quero descobrir para onde vais. Nos seus leitos as crianças dormem. Convidas-me à melancolia. A terra fica longínqua. Os homens vivem longe da inquietação. Elegem a beleza como um disfarce. E destroem os sonhos e deixam crescer as barbas e crucificam as sombras e despertam antes de morrer. As mulheres perdem os beijos e expulsam os deuses dos seus altares. Os homens celebram o sonho dos reis e vendem os campos e desfazem-se das casas e vão à procura da beleza, da alegria e das lágrimas. Tudo está sempre a terminar. Por isso anseio pelas palavras alegres e pelos caminhos infinitos e pela piedosa ternura dos espíritos. Os duendes dançam debaixo da luz fria da lua. As aves adormecem sombrias e lentas. Os lagos são abismos de espanto. Os caminhos tornam-se violentos. A coragem iguala o desejo. O tempo aperta a beleza. O tempo corre. Os versos comovem o dia. Os velhos avisam que tudo se altera até cada um de nós desaparecer. E dizem que tudo o que é sublime se distancia como a água de um rio. Um a um todos desaparecemos. Agora sabe-se toda a verdade. Ficamos desorientados pelo sentido da razão. Todas as memórias são inoportunas. As velhas mitologias tornam-se audazes e caminham nuas. E movem-se de encontro ao seu destino. Os anos perdem alento e modificam o meu fascínio pelos cisnes selvagens. Já vai longe o tempo em que se pagava o tributo com lágrimas tímidas. A beleza está velha e cansada. Com o olhar meço a cidade. Não posso esquecer a sabedoria que me trouxeste, nem as fantásticas cavalgadas. Os anjos nulos adejam as suas longas asas e sopram o vento que faz vacilar as mulheres e acariciam as suas coxas com as mãos de gelo. Os anjos destroem os muros e emplumam-se de glória e ficam brancos e sustêm no peito a sua infinita tristeza assexuada. Os deuses protegem a decadência. E exortam-nos a aderir à ambição e ao orgulho. E riem alto como se fossem patriotas decadentes. As estátuas sagradas exsudam de imobilidade e derramam leite nas pedras. Apenas as mulheres solitárias possuem o caráter forte das espadas. O vento leva a imaginação para longe. O que restará quando tudo acabar? Essa é a velha perplexidade do futuro. Retiro das imagens todas as inúteis complexidades da amargura e da fúria e da agonia do êxtase. Qualquer mulher conhece o medo do amor. Por isso é que o pagam com dor e juntam as vozes quando passeiam nos jardins. Por isso enganam o medo com a glória amarga do lamento. Por isso convidam a melancolia para companheira e abrigam as tempestades no sombrio esplendor dos seus cabelos. Por isso apreciam os poemas dos amantes purificados pela tragédia. Tudo morre menos a tristeza. 


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Terça-feira, 17 de Dezembro de 2013

No Porto


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Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2013

Pérolas e diamantes (68): do fado à incompreensão – um gemido


Começo a ficar farto de tanta conversa. De tanta austeridade. De tantos acordos. De tantos discursos. De tanto fado. É que no fado geme quem canta. Enquanto nestes discursos geme quem os escuta.

 

A nossa vida é como um alcatruz. Num determinado momento subimos cheios de esperança e de alegria, mas depois descemos tristes, vazios e desiludidos até ao fundo do poço. Depois voltamos a subir. E novamente a descer. Mas tudo ganha sentido quando a água se espalha na terra e possibilita que nasçam plantas, flores e árvores. Sim, penso que a nossa vida é como os alcatruzes.

 

As apostas políticas, sobretudo nas eleições autárquicas, são como no jogo do totobola, é mais fácil acertar em todos os resultados do que não acertar nenhum. Por cá, pelos vistos, não existe ninguém que não diga, de quando em vez, alguma coisa certa. Ou será o contrário?

 

Estou confuso. No meio de tudo isto, admito, sem disfarce, que a minha capacidade de tolerância é uma regra com bastantes exceções.

 

Depois do desenlace da minha mais recente aventura política sinto-me como aquelas galinhas que quando lhe metemos a cabeça debaixo de uma asa e as embalamos durante alguns instantes, adormecem e assim podem ficar durante horas.

 

Mas, atenção, embora estejam a dormir, as galinhas mantêm-se sempre atentas e prontas a defender-se, no caso de surgirem situações que ameacem a sua integridade.

 

E sei isso por experiência própria. Ainda criança, uma vez, eu e uns meus colegas de escola, pegámos numa galinha lá de casa, adormecemo-la com a cabeça debaixo da asa e de seguida lançamo-la abaixo da varanda. Ela lá foi pelo ar como se estivesse a dormir. Mas antes de chegar ao chão, tirou a cabeça de onde estava metida, bateu as asas e pousou tranquila.

 

A verdade na política tem muito a ver com uma frase de São Tomás de Aquino, na Suma Teológica: “Se a Verdade não existisse, seria, pelo menos, verdade que a Verdade não existia.”

 

O desenlace autárquico, pelo menos ao nível do visível, faz-me lembrar o conselho da minha avó: “Quanto mais intranquilo te sentires, mais espaventoso deves ser nas tuas afirmações. Dessa forma ninguém se atreve a fazer-te perguntas.”

 

Um amigo meu, a quem muito respeito e admiro, disse-me há uns anos uma coisa que me veio à memória, depois de cogitar sobre estes dias do lixo. “Nada existe de mais perigoso que os medíocres. É que ao contrário dos autênticos estúpidos, ou dos verdadeiros maus, que estão carregados de inibições e até, bem lá no fundo, sabem que não prestam para nada, os medíocres constituem uma categoria que tem suficiente capacidade para fazer tudo, desde a arte à política. Sobretudo esta última.”

 

Li algures que quando somos autênticos, espalhamos sempre uma certa perplexidade em nosso redor, já que tudo aquilo que é autêntico torna-se difícil de decifrar. Pelo contrário, se optarmos por nos mascararmos, escassas vezes seremos capazes de iludir qualquer pessoa inteligente.

 

E olhem que eu não me estou a referir a possuir muitas qualidades. Eu defendo que o que tem realmente valor não são propriamente as qualidades de cada um, mas antes aquilo que se faz com elas.

 

Daí o nosso sistema político ser sobretudo eleitoralista e não propriamente democrático.

 

Bem vistas as coisas, tudo é relativo. E as coisas que hoje nos parecem ser assim, amanhã podem mostrar-se de forma totalmente diferente. Embora, pensando melhor, talvez tudo seja como sempre foi e a realidade seja apenas um valor subjetivo e de frágil significado. Mas eu ainda sou dos que pensam que o importante é mesmo encontrar a verdade das coisas.

 

Há pessoas que têm o direito inalienável de errar. Mas há outras às quais apenas se lhes deve reconhecer o direito de acertar. E eu sou uma delas, no que diz respeito à política, claro está. Já que todos os meus atos anteriores se consubstanciaram em erros.

 

De facto, caros leitores, como dizia uma alma lúcida de quem agora não me ocorre o nome, mais vale ser incompreendido do que mal compreendido. 


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Domingo, 15 de Dezembro de 2013

A Ana e o Vasco na Feira dos Santos


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Sábado, 14 de Dezembro de 2013

Preparando o gado para o desfile

Preparando o gado para o desfile


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Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2013

O Homem Sem Memória - 187


187 – Quando o José entregou a peça de caça ao camarada Punhal pensou seriamente em matá-lo pois se o fizesse o poder comunista podia soçobrar. Mas também considerou que o poder podia fortalecer-se e tornar-se ainda mais repressivo. Imitações de Alberto Punhal, para pior, havia-as no Comité Central aos pontapés. Então sorriu para o camarada Punhal e o camarada Punhal também sorriu para ele. Tinha muito tempo para pensar. Tempo e sol.


Podemos explicar que o José, apesar de saber que Alberto Punhal é que era o verdadeiro instigador de todo o processo revolucionário, que o mesmo é dizer, de todo o aparelho repressivo comunista, não lhe tinha um ódio mortal. À sua maneira, Alberto Punhal era até uma pessoa sedutora. Sabia manter a distância como ninguém, mesmo parecendo que estava próximo, estava longe. E o contrário também era verdadeiro.


Mas o seu autêntico inimigo mortal era mesmo o camarada capataz. Foi ele que matou o seu amigo com um tiro na cabeça e depois o ofereceu aos cães para o devorarem. Quem assim procede é um autêntico assassino, um torcionário sanguinolento, uma hiena execrável.


Se existisse Deus, talvez a urgência de o matar não fosse tão premente. Nessa hipótese, o carrasco comunista iria bater com os costados no inferno eterno. Mas a ausência de um Deus juiz e punidor deixava tudo nas mãos dos homens.


Uma besta sanguinária daquelas apenas possuía o direito inalienável a morrer. Na ausência de uma justiça divina só subsiste a justiça dos seres humanos. Que não sendo muitas vezes justiça nenhuma é a única forma de punir quem prevarica. 


Pode-se dizer que a justiça que implica a morte da pessoa que transgride é radical. Mas para radical, radical e meio. E quem com ferros mata com ferros deve morrer. Além disso, a sentença foi decidida em reunião democrática com todos os elementos da resistência que tinham sido torturados e humilhados pelo camarada capataz. E foi unânime. Todos votaram na pena de morte.


Depois de decidida a sentença, os esforços foram todos canalizados para a elaboração de uma estratégia operacional que implicasse a morte do energúmeno e o seu total desaparecimento. Sem cadáver não havia prova física do delito.


O José dedicou-se de corpo e alma ao treino com a arma soviética que o camarada Punhal lhe tinha oferecido. O camarada capataz, a princípio ainda levantou algumas dúvidas sobre o assunto. Não lhe agradava mesmo nada ver um dissidente daqueles a fazer pontaria sobre quem lhe apetecesse. E foi isso que transmitiu aos seus camaradas da UCP. Todos concordaram com ele. Com a reação não se brinca. Mas quando a proibição de uso de arma por parte do José chegou aos ouvidos do camarada Punhal ele levou-se dos diabos e deu ordens expressas para que a arma lhe fosse de novo entregue e com plena autorização de a utilizar como muito bem lhe apetecesse. Argumentou que quem tem medo da reação deve comprar um cão. Ao camarada capataz apenas lhe sobrou a solução de enfiar a indignação no bolso. A partir desse dia, o José não mais se deslocou pela herdade sem ser na companhia da espingarda soviética. Acompanhou muitas vezes o camarada Punhal nas suas caçadas e teve-o muitas vezes na mira telescópica da sua arma. Mas nunca disparou.


Durante alguns meses, ele e os camaradas reacionários, que lhe eram próximos e fiéis, dedicaram-se ao estudo minucioso das deslocações do camarada capataz pela herdade. Estudaram-lhe os percursos e as rotinas. Elaboraram de seguida um plano que incluía o seu encontro com a morte. Ou melhor, fizeram com que a morte marcasse encontro com ele. Definiram o local e a hora. Puseram-se no lugar do destino. Ou melhor, colocaram lá o José, com a espingarda bem apontada.


Tudo aconteceu num dia de abate de árvores, junto de um monte onde o camarada capataz possuía um lamaçal vedado destinado à criação de mais de vinte taludos javalis. Era aí que ele se entretinha nos momentos em que não torturava, nem trabalhava.


Os porcos-bravos eram um mimo de carne. Redondos e ágeis, mexiam-se com uma ligeireza felina. E comiam de tudo. Muitas vezes o seu dono lançava-lhes uma galinha viva para por à prova a agilidade dos animais e punha-se a contar os segundos que o pobre galináceo aguentava vivo. Escusado será dizer que durava poucos. Muito poucos mesmo. Depois do sacrifício, punha-se a rir como um desalmado. Que era aquilo que verdadeiramente era. Também experimentou com coelhos e o resultado foi o mesmo. Os javalis pareciam lobos. Experimentou ainda com cordeiros, cães e até burros pequenos. Tudo o que entrava na cerca era devorado. Um dia resolveu por à prova a agilidade dos seus javalis introduzindo na cerca um gato. Naquele dia os javalis perderam por uma unha negra. Mas perderam. Desenlace que teve origem na desatenção do javali que se encontrava no sítio onde ficava a única saída para o felino. Safou-se o gato, mas o javali não. Nessa mesma noite foi morto e dado a comer aos outros seus companheiros de curral. 


O José e muitos dos seus companheiros assistiram a alguns destes inúteis rituais de cretinice. E não foi em vão, como mais adiante veremos.


Mas recuemos um pouco até ao momento da espera do José. Então lá está o nosso amigo estendido no chão com a arma apontada a uma curva do caminho. As motosserras cortam as árvores fazendo um barulho ensurdecedor. O camarada capataz desloca-se na direção dos trabalhadores. Mal o veem aproximar, aumentam a intensidade do trabalho, do qual resulta o aumento do barulho. Depois observam-no a cair ao chão como se fosse uma árvore derrubada. Quatro trabalhadores deslocam-se na sua direção, pegam nele e levam-no para um lugar escondido. Nunca mais ninguém o viu.


O seu desaparecimento foi muito comentado e alvo de muitas especulações. Houve sessões de tortura por parte dos seus apaniguados para tentarem averiguar se alguns dos suspeitos do costume sabia alguma coisa. Mas ninguém deu com a língua nos dentes. Como o cadáver não apareceu, deram por encerrado o caso. As chefias foram mudadas. Nesse dia houve festa na UCP. Os convivas foram brindados com a carne dos javalis do camarada capataz. Apenas meia dúzia de prisioneiros, incluído o José, evitou comer carne assada no espeto.


Entre eles tiveram a seguinte conversa: “Os javalis estavam tão bem treinados que nem os ossos restaram”, disse um. Outro comentou: “Apenas sobrou o coração. Os recos não conseguiram meter-lhe o dente. Era duro como cornos. E o José rematou: “Admiro-me como tinha coração.”


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Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2013

Mulher com carreta


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Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2013

Poema Infinito (176): onde o tempo se dobra


As dobras do tempo formam estrelas aos sobressaltos, como se fossem geradas por duas retas aparentemente invisíveis. Esse é o seu ponto angular de não retorno. As paredes das casas abrem-se alterando a transparência da tarde que chega cedo. Alguém enclaustra a esfera que faz respirar o mundo. Os espaços vazios enchem-se de excessos. Alguém escreve textos malditos que caem sempre abaixo da sua realidade. Edificamos imagens que são diafragmas de silêncio. Um plano aproxima-se de outro plano. As vozes crescem. As imagens saem da máquina fotográfica e aproximam-se das nuvens. O mundo perde a sua geometria e a sua velocidade longínqua. Escrevo frases que atravessam as coisas e as deixam intactas mas esculpidas por dentro. Os seus limites são as vozes das catástrofes. Nascemos da irregularidade da exatidão. Nessa região de perigo, no sítio exato onde a voz perde a sua energia vertical. O teu corpo vibra por debaixo do meu. Os teus gemidos são pontos de rutura. Os teus olhos são nuvens que convocam a densidade da luz. As palavras aspiram a uma nova forma de iluminação. Apareces dentro de uma janela branca. O conhecimento desarruma a casa. Transformo-me numa metáfora de desejo. O corpo dorme. As horas repousam. Os lugares são inconciliáveis. É tão difícil descrever-te. O vento dobra a largura da verdade, dessa verdade que, entendida, cega e mata. Por vezes chegam poemas com conclusões raras. Nessas alturas a luz abre-se em circunferências que projetam e iluminam os grandes objetos do desaparecimento. As palavras queimam, as separações possibilitam a criação da distância entre sentidos. O teu amor é um sólido perfeito. Por isso o guardo dentro de uma caixa de luz. Contigo aprendi a eliminar as sombras, a preservar as paisagens que conservam a água, a dizer o indizível, a ver o invisível, a acelerar as palavras, a dissolver-me na tua boca, a ceifar as trevas, a erguer o desejo, a sonhar com espanto, a plantar palavras nas lezírias, a recolher o fulgor do desejo satisfeito, a amar todos os fragmentos da vida, a segmentar a beleza lenta da paixão, a unir a matéria líquida, a reconstruir o tempo, a renascer do fogo, a sintonizar toda a infância ressuscitada, a jogar com as árvores e com a terra, a falar dos astros em silêncio, a navegar serenamente na noite. Contigo aprendi ainda a agitar a desordem, a perceber a densidade do tempo, a ver crescer os minutos, a respirar o acaso, a atrair os deuses das vozes serenas, a procurar os caminhos que se alongam, a lançar o tempo ao vento, a aproximar-me das estrelas, a cintilar no interior do teu olhar, a aprender a verdade das distâncias, a saber não tocar em nada, a incandescer as trevas, a pousar devagar no teu corpo, a fazer silêncio quando nos amamos, a perceber a lentidão perpétua do espaço, a voar a direito, a seguir o vento quando passa pelas praças iluminadas, a voltar a casa depois de apanhar frio, a responder aos anjos, a escrever palavras que possuem o dom de renascer perpetuamente, a inventar o futuro. Sento-me no trono do mais frágil dos impérios e espero por ti, como se o mundo fosse uma variação delicada. Cavalos breves atravessam os campos verdejantes. O ar envolve as estações com as sementes do júbilo. A memória dissipa-se. Distendemos as asas e os nossos corpos iluminam-se. Voamos na direção dos lugares frágeis. 


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Terça-feira, 10 de Dezembro de 2013

Pensando


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Segunda-feira, 9 de Dezembro de 2013

Pérolas e diamantes (67): sinceridade e estupefação seguidas de um acordo


1 - Vamos ser sinceros: o arrependimento é um conceito que não aprecio, pois significa que não assumimos aquilo que fomos. Uma coisa sei: nunca desisti de aspirar à liberdade. O que mais me entristece é que, apesar de todo o esforço individual e coletivo, vivemos numa espécie de sociedade de empregados de escritório resignados.

 

Apesar dos desaires e dos desapontamentos, quando não das traições, continuo a tentar ser livre e verdadeiramente independente. Aprendi a apreciar as derrotas, pois são elas que conferem todo o sabor às vitórias. E aprendi outra coisa, que haverá sempre pessoas mais rápidas e outras mais lentas. Mas, no fim, o que verdadeiramente conta é o vigor com que percorremos o caminho.

 

2 – Entre a estupefação, o assombro e o júbilo, deparei-me com a notícia de que havia na nossa terra uma confraria chamada precisamente “Confraria de Chaves”, que no dia da Feira dos Santos entronizou os primeiros 34 confrades e confreiras, numa cerimónia apadrinhada, imaginem só, pela célebre “Confraria dos Vinhos Transmontanos”.

 

O seu lema é, além de elucidativo, de uma imaginação muito acima da média. Reza assim: “Aquae Flaviae, fomos, somos e seremos”. Assombroso. E até tem um Grão-Mestre, à moda da maçonaria.

 

O traje dos 34 confrades, e confreiras, é composto por capa-batina, gravata e chapéu, em tons de preto e dourado. E os seus membros exibem um símbolo onde se distinguem as duas chaves do brasão da cidade, representando a saúde e o amor. O seu hino é a Marcha de Chaves.

 

Quase todos os seus membros são militantes proeminentes dos denominados partidos do arco do poder. Na espreitadela que dei na foto de grupo, vislumbrei alguns, poucos, elementos do PS, um do CDS e dezenas do PSD. Na fila da frente deparei-me com o senhor presidente da autarquia e mais quatro destacados militantes laranjas. Dizem querer defender a marca de Chaves e dos produtos flavienses. Pelo menos traje já têm. E hino. E insígnia. O resto, estamos em crer, virá por acréscimo. Daqui lhes enviamos os nossos sinceros votos de felicidades. Que a força nunca vos falte. Porque fomos, somos e seremos, Aquae Flaviae.

 

E lá vai o hino: Ó Chaves, nobre cidade, pelo Tâmega beijada…

 

3 – Depois de muito porfiarem, as estruturas políticas dirigentes flavienses lá conseguiram um acordo para a gestão autárquica da Câmara Municipal de Chaves.

 

Depois do senhor presidente ter convidado o PS, afinal foi com o vereador eleito pelo MAI que António Cabeleira fez um acordo. Isto porque, pegando nas suas palavras, após ter convidado o Partido Socialista para uma “governação de cooperação mútua”, a candidata eleita pelo PS nas últimas eleições autárquicas, “não se mostrou disponível”. E, como muito bem disse José Sócrates, há uns anos, para se dançar o tango são necessários dois bailarinos. 

 

Como a vereadora do PS se recusou a dançar, vai daí o senhor presidente convidou João Neves para vereador a tempo inteiro. Este não se fez rogado e aceitou, argumentando que “tinha necessariamente de haver um entendimento”. E até foi mais longe: “Estou convicto que vai ser um mandato que vai ficar na história dos flavienses.” Diz quem assistiu ao ato que proferiu tais palavras sem se rir.

 

Alguém me lembrou que António Cabeleira disse que nunca faria um acordo com o João Neves e que João Neves afirmou em várias intervenções públicas que era preferível que o próprio diabo ganhasse a Câmara de Chaves antes que o PSD de António Cabeleira.

 

Contas feitas, este acordo, no mínimo, vai custar ao erário público cerca de 200 mil euros até ao fim do mandato, mais de 3000 euros por mês, que é o dinheiro necessário para pagar os salários a João Neves.

 

A líder do PS diz que tal decisão não se justifica. O senhor presidente contrapõe que com mais um vereador, a gestão autárquica se torna mais eficiente. Paula Barros argumenta que, embora seja uma decisão legítima, não lhe parece que seja coerente, pois a candidatura do MAI baseou-se principalmente numa postura de protesto contra a anterior gestão do PSD.

 

E todos os documentos do MAI, e cada uma das intervenções públicas dos seus candidatos, mormente de João Neves, são disso testemunha irrefutável. Mas palavras leva-as o vento. E parece que não só as palavras, como tudo o resto. Mas como diz o senhor vereador João Neves: o que passou, passou.

 

A líder do PS, e com alguma razão, considerou que o acordo estabelecido foi celebrado entre o PSD, sem maioria absoluta, e “um independente”, para impor a máxima de “quero, posso e mando”, ou seja, “o poder total e absoluto”.

 

Paula Barros garantiu ainda, e isso é que é sintomático, que o acordo proposto pelo atual executivo ao PS se cingia a lugares nos conselhos de administração das empresas municipais. Ou seja, os tais tachos de que tanto se fala e os quais muita gente persegue e de que se alimenta.

 

E a terminar relembrou que a autarquia tem uma dívida enorme, tendo recorrido ao Plano de Apoio à Economia Local (PAEL) e que, devido a tal facto, o PS apresentou, em conjunto com o vereador do MAI, uma proposta de auditoria às contas, que foi aprovada com os votos do PS e do MAI e com os votos contra do PSD, para saber da real e absoluta situação financeira da Câmara.

 

Esta, estamos em crer, será a prova definitiva para ver quem está de boa-fé no processo. Os flavienses necessitam de saber o verdadeiro estado das finanças concelhias. Esse também é o sentido de voto expresso pelo menos por cerca de 45% de flavienses nas últimas eleições autárquicas. 


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Domingo, 8 de Dezembro de 2013

À mesa


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Sábado, 7 de Dezembro de 2013

Folhas


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Sexta-feira, 6 de Dezembro de 2013

O Homem Sem Memória - 186


186- Com a difusão do panfleto, a raiva e a revoltam cresceram. O José transformou-se num dos mais revolucionários anticomunistas de que há memória no país. E fazia-o com calma e descontração, muito ao modo dos alentejanos.


Entretanto, a UCP passou a ser a principal tapada de caça dos camaradas dirigentes. Os políticos, vá-se lá saber porquê, gostam muito de caçar. Sentem-se bem de arma na mão a disparar sobre bichos assustados. Isso dá-lhes prazer. E também gostam de exibir os seus troféus de caça.


Curioso é que cada um dos camaradas dirigentes caçava de acordo com a sua posição na estrutura partidária. Parecia milagre, mas cada um abatia caça conforme a sua posição na hierarquia. Os membros indistintos do Comité Central nunca conseguiam caçar mais ou sequer o mesmo número de peças de caça do que, por exemplo, um membro do secretariado ou da comissão política. Tudo ali estava devidamente controlado. Muitos animais vinham expressamente de outros lados do país para satisfazer os caprichos predadores dos chefes comunistas.


O quartel-general, se assim podemos dizer, situava-se numa casa isolada que serviu também de pouso e ponto de apoio ao antigo presidente da República Américo Tomás e até ao rei D. Carlos, quando iam para o Alentejo caçar perdizes, coelhos e javalis. Os símbolos e os vícios do poder são eternos.


O José, por muito porfiar e também por muito ver, ouvir e calar, conseguiu que o nomeassem coordenador do campo de caça. E ele levou a nomeação a peito. Conseguiu em pouco tempo organizar uma coutada que era o orgulho do Partido e, sobretudo, do camarada capataz. A opinião sobre a UCP passou a ser tão favorável que o dirigente da UCP já se via como membro do Comité Central ou mesmo ministro da Agricultura. O José passou de inimigo encoberto a amigo declarado.


A produção agrícola de cereais podia ser medíocre mas a caça proliferava a olhos vistos. Os fins-de-semana na herdade do camarada capataz passaram a ser cobiçados e até motivo de disputas e invejas. Um convite do camarada Alberto Punhal para o acompanharem na caça era sinónimo de apreço e de futura promoção partidária e social. Era também na UCP onde o Partido recebia os camaradas dirigentes estrangeiros de visita ao país. Aquilo tornou-se viciante. Os camaradas dirigentes, cansados das tarefas partidárias e políticas, tudo faziam para receberem um convite do camarada secretário-geral. Os candidatos eram muitos, mas os eleitos eram poucos.


Está claro que o José se tornou íntimo de muitos dos comunistas mais importantes da República Popular do Sul. Ele era afável, modesto e extremamente eficiente. Conseguia até programar o número de peças de caça que cada um imaginava caçar e mesmo os seus animais preferidos. Dava-lhes indicações sobre onde ir, que montes escolher, as armas que deviam escolher, os cartuchos mais apropriados, as rotas mais agradáveis e os sítios onde podiam encontrar-se com Alberto Punhal sem serem anunciados. De uma coisa sabiam todos os que paravam na herdade, era expressamente proibido falar de política durante as caçadas. Ali ou se estava calado, ou se falava do tempo ou da caça.


O camarada Alberto Punhal gostava de caçar um pouco de tudo. E até possuía boa pontaria e uma eficaz rapidez no manuseio da arma. O que tinha aprendido na Guerra Civil de Espanha ainda lhe era útil. Mas a sua caça predileta era ao javali. Dizia, com um sorriso nos lábios, que os javalis se assemelhavam muito aos reacionários, na sua força bruta, no seu primarismo e na sua mais absoluta insensibilidade. Comiam de tudo, chafurdavam na terra e tinham especial apetência por se banharem na lama. O seu focinho trazia-lhe sempre à memória os rostos adiposos dos burgueses com os seus dentes afiados como facas sempre prontos a alimentaram-se da carne e do sangue dos proletários.


Comentava com os seus convidados que matar aves e roedores era uma forma de arte rápida e instintiva. Já matar javalis era telúrico. Fazia-o sentir-se como os homens primitivos em busca do sustento para a família. Matar caça pequena era um ato individual, quase burguês. Já matar javalis era um ato comunista, pois exigia organização, trabalho coletivo, coragem e decisão no momento do disparo. Um javali ferido é um animal perigosíssimo. Até nesse aspeto é parecido com os burgueses e os capitalistas, pois quando estão feridos e desesperados tornam-se extremamente perigosos.


“Quando abato um javali é como se tivesse aniquilado um fascista. Aprecio matar javalis, mas não os consigo comer. Agonio-me só de sentir o cheiro da sua carne a cozinhar. No entanto, apesar de matar perdizes e coelhos com uma certa indiferença, aprecio comer a sua carne”, verbalizou o camarada Punhal.


O José acompanhava sempre o camarada secretário-geral nas suas jornadas de caça. Era o seu melhor confidente. Ouvia e calava. Um dia Alberto Punhal perguntou-lhe se era mudo. Ele respondeu que era apenas educado. Punhal riu-se e entregou-lhe uma arma novinha em folha de fabrico soviético. O José agradeceu mas disse que não apreciava disparar sobre animais indefesos. Punhal disse-lhe que então atirasse às árvores. E, já que era educado, que ficasse com a arma. Ninguém, e muito menos um comunista da envergadura de Alberto Punhal, gosta de ser criticado por ter o vício burguês da caça. José, vendo-se mais uma vez traído pela sinceridade, deu de repente volta ao texto e argumentou com a realidade. “Bem, camarada Punhal, a verdade é que estou determinantemente proibido de tocar em armas, especialmente de caça.” “E quem te proibiu?” “O camarada capataz.” “E porquê?” “Pois porque sou um preso político.” “De direita ou de esquerda.” “Sou um antigo militante do Norte condenado a uma pena de reeducação.” “Ainda és comunista?” “Gostaria de ser mas está visto que não consigo.” “Tu és esperto. Mas neste mundo ou se caça ou se é caçado.”


O camarada Alberto Punhal acabou com a conversa no preciso momento em que uma perdiz apareceu no radar dos seus olhos. Foi tiro e queda. O José, para desviar as atenções, correu no encalço da ave, conseguindo mesmo chegar primeiro do que o cão perdigueiro. 


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Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2013

Bailando


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Quarta-feira, 4 de Dezembro de 2013

Poema Infinito (175): o mapa dos mistérios


As asas dos pássaros pesam dentro da sua tristeza de inverno. Os dias ficam pálidos dentro dos seus silêncios inexplicáveis e entre as margens da sua geografia misteriosa. Lembro-me de repente que alguém gritou dentro do meu sonho. Esqueço o desejo. Pouco a pouco habituo-me à solidão e ao meu destino que é como o do fogo. O fogo devora a esperança. As aves mudam de quadrante. Regressam as profecias, os medos míticos, a talentosa visão da ânsia. Está a chegar o tempo de consultar as constelações e os rostos brancos dos anjos e as palavras segredadas como lendas assinaladas no mapa dos mistérios. A tempestade sacode os céus e torna transparentes os destinos. A noite ressoa no medo dos homens aflitos. As planícies transformam-se em rios caudalosos. A esperança ainda ilumina os sentidos. Adormeço na parte misteriosa do mundo onde as embarcações são pesadas, onde os invernos atravessam os sonhos, onde os ventos fazem vibrar as águas, onde as mulheres se debruçam sobre a luz e remendam o amor e a longitude das águas, onde os dias são lentíssimos, onde se escrevem cartas nos olhares dos notívagos, onde as crianças envelhecem de espanto, onde os pássaros assombram a solidão, onde as recordações crescem sobre as dúvidas, onde as utopias esperam as catástrofes, onde os deuses abandonam a criação para se tornarem fornicadores. Por isso o mundo se desordena e os corpos se fundem na árdua tarefa das paixões e as mãos dos cegos costuram olhares perpétuos de escuridão. As palavras inquietas são as mais madrugadoras. O vento transporta de novo a fantástica gestação do desejo. Descubro-te no silêncio cúmplice do vinho, na noite cheia de luares mansos. Desenho nas vidraças a chegada de mais uma manhã. Vai um novembro muito magoado pelo declínio da luz. A memória continua a resistir aos olhares dos retratos. A escrita murmura desastres e espalha nevoeiro. Agora é a época das coisas simples, dos sorrisos inesperados, da agitação descalça das crianças, do amadurecimento do tempo, da sedução dos sexos e dos lábios, da fecundação das terras, das lindas sombras oblíquas, das paisagens que expulsam o medo, da rapidez do adeus, dos cometas que rodopiam nos olhares dos poetas e dos amantes, dos poemas urgentes, da floração surpreendente das urzes, da magnífica metamorfose das cores, da volatilidade surpreendente dos segredos, da respiração imensa da noite quando espera o dia. Regresso a mim como quem foge da solidão dos espelhos. O mundo continua a recolher desastres e a perseguir o vácuo. Estou só olhando o tempo infinito dos montes, pressentindo a textura inaudível da música, escrevendo para me manter vivo. Escrever é um enigma. É como demarcar indecifráveis sinais de orientação. Sou para sempre uma criança desajeitada, uma estátua teimosa, um menino que faz estalar os dedos para não adormecer. A memória arrasta-se sobre a reminiscência dos corpos que amamos. Volto a escorregar no dia e a respirar a saúde delicada dos textos. O sono é uma ligeiríssima desordenação da vida. A solidão é cruel. Volto a ser um segredo branco fascinado pela chuva do desassossego. As paredes flutuam. Sopro o dia que nasce para dentro dos teus olhos. Tu és a minha claridade. Quando te beijo o peso do meu corpo desaparece. A perturbação da noite afastou-se com a chegada do teu sorriso.


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Terça-feira, 3 de Dezembro de 2013

Olhares


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Segunda-feira, 2 de Dezembro de 2013

Pérolas e diamantes (66): o sorriso, a desilusão e a amizade


O desenlace autárquico provocou em mim um sentimento estranho. Deu-me a sensação de ter sido originado através de um baralho de cartas manipulado pelas mãos de uma cigana.

 

Muitas pessoas falam-me do novo elenco camarário entre o sorriso e a desilusão. Eu limito-me a encolher os ombros. Afinal o senhor presidente tem muita sorte. Ou melhor: cada chefe tem o pessoal que merece. E ele fez tudo para que este totoloto lhe saísse.

 

Parece-me que as críticas experimentadas durante a campanha eleitoral pelos dois grandes líderes vão no futuro garantir relações de amizade sincera e de união duradoura.

 

A situação fez-me lembrar uma personagem de Mark Twain que se gabou dos seus lucros ao fiscal das finanças.

 

Uma personagem de “Vida e Destino” de Vassili Grossman refere que as pessoas que têm razão muitas vezes não sabem comportar-se, explodem, dizem grosserias, são inconvenientes, indelicadas e intolerantes, e são ainda normalmente acusadas de todas as contrariedades no trabalho e na família. Mas, avisa, aqueles que não têm razão, os mentirosos, os ofensores, sabem comportar-se, têm lógica, são calmos, delicados e dão sempre a ideia de que têm razão. Mentem sempre com um sorriso nos lábios.

 

E depois lá vem a piada fácil e alarve da crítica aos pensadores. Eu ainda não percebi esse hábito de ridicularizar os intelectuais por terem tendência para a dicotomia, para a dúvida e para a indecisão. Também eu enquanto jovem desprezei esses traços em mim próprio e nos demais.

 

Mas agora tenho outra opinião. Foram as pessoas indecisas e hesitantes que possibilitaram à humanidade as grandes descobertas, os grandes livros. A história diz-nos ainda que essas pessoas também não fizeram menos que as lineares bestas-quadradas.

 

Foram os intelectuais, hesitantes e perguntadores, que se mostraram prontos a ir para a fogueira quando tiveram de optar entre a tradição e a razão, entre a crendice e a ciência.

 

Mesmo em cenários de guerra não se comportam de forma diferente dos indivíduos que se dizem fortes e lineares.

 

E por fim lá me vêm falar da amizade. Afinal em que consiste a amizade? Será que ela se revela apenas no trabalho e no destino comum? Eu penso que não. E explico porquê.

 

Por vezes a aversão entre membros do mesmo partido, cujas crenças apenas diferem em alguns detalhes, é muito maior do que a aversão que essas pessoas têm aos inimigos do partido.

 

Vem nos livros de guerra que muitas vezes homens que vão combater juntos odeiam-se mais entre si do que odeiam o próprio inimigo.

 

O que constrói a maior parte das amizades é possuir coisas em comum. Todos sabemos que até duas pessoas com personalidades díspares podem ser bons amigos.

 

Ou seja, a amizade baseia-se na semelhança, mas manifesta-se sobretudo na diferença e nas contradições.

 

Quase sempre a amizade é uma relação desinteressada. E surge quando menos se espera e de quem menos se espera.

 

A amizade é como um espelho em que uma pessoa se vê a si própria. É normal reconhecermo-nos conversando com um amigo.

 

A amizade é ao mesmo tempo igualdade e semelhança e desigualdade e dissemelhança. É nosso amigo aquele que justifica as nossas fraquezas, os nossos defeitos e mesmo os nossos vícios, mas que não se fica por aí. É nosso amigo quem afirma a nossa justiça, o nosso talento, o nosso mérito.

 

Numa relação de amizade, cada um de nós aspira de modo egoísta a receber do amigo o que não tem. E a desejar entregar-lhe generosamente o que possui. E não falamos aqui de bens materiais.

 

É na própria aspiração à amizade que a natureza humana se revela. Muitos de nós, quando não a encontram nas pessoas, procuram-na entre os animais.

 

Só não necessita de amizade uma criatura que possua uma força absoluta. E se a encontrássemos de certeza que seria Deus.

 

Uma verdadeira amizade não depende do facto de o amigo ser poderoso ou não ter poder nenhum. Uma verdadeira amizade está virada para a procura e a manifestação de qualidades intrínsecas. A verdadeira amizade é indiferente à fama e à força.

 

A lei fundadora de uma amizade verdadeira baseia-se na fé da fidelidade do amigo e da fidelidade ao amigo. 


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Domingo, 1 de Dezembro de 2013

Ao fumo


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